Resumo: O presente artigo consiste numa revisão de literatura narrativa que procura analisar as implicações de uma violência sexual na infância e seus desdobramentos em relação ao processo de adolescer. Como objeto de estudo foi analisado o filme norte-americano “As vantagens de ser invisível” dirigido pelo cineasta Stephen Chbosky. O filme conta a história de Charlie, um garoto de 15 anos que está entrando no colegial, no Brasil equivalente ao ensino médio, e ao mesmo tempo se recuperando de um  quadro  depressivo  desencadeado  pelo  suicídio  recente  do melhor amigo  e pela incapacidade de findar o luto da morte da tia. Os comentários aqui suscitados visam discutir a violência sexual sofrida por Charlie durante sua infância, a relação afetiva com a abusadora e as implicações na rememoração obscura de traumas durante a adolescência, o que se configura de extrema relevância para entender a construção da identidade durante a adolescência. Essa análise construtiva- interpretativa demonstrou a importância do estabelecimento das relações afetivas durante a adolescência para a elaboração e ressignificação da cena traumática.

Palavras-chave: Violência sexual; Adolescência; Revisão de literatura narrativa; Sexualidade.

Sexual Violence and Adolescence: A reflective analysis of the film “The Perks of Being a Wallflower”

Abstract: This article consists in a revision of a narrative literature that  tries  to analyze the implications of a sexual violence in the childhood and its consequences related to becoming an adolescent. The north american movie "The perks of being a Wallflower" was analyzed as an object of study, that movie was directed by Stephen Chbosky and portrays the story of Charlie, a fifteen years old boy, that is freshmen in highschool and is recovering from a deep depression related to a suicide of a friend and to handle with the mourning of his aunt. The discussion here tries to debate the sexual violence suffered by Charlie during its childhood, the affective relation with the abuser and the implications of remembering that traumatic event during the teenager, what's configure with extreme relevance to comprehend the construction of the identity during the youth. This constructive-interpretative analysis showed the importance of the establishment of affective relationships during adolescence to the development and redefinition of the traumatic scene.

Keywords: Sexual violence; Adolescence; Narrative literature review; Sexuality.

1. Apresentação

O filme conta a história de Charlie, um garoto de quinze anos, ingressante  do colegial, que se encontra em meio a um processo de maturação pessoal e emocional. Charlie foi abusado sexualmente quando criança, por sua tia materna, Hellen. Na obra, não fica clara a idade do protagonista no momento da violência, infere-se que aos cinco ou seis anos. Durante todo o filme, o adolescente aparentava ter uma estreita relação afetiva com a tia. Sua infância é manifestada através de traços mnêmicos que vão sendo apresentados ao longo do enredo. Charlie é muito introspectivo e não dispõe de muita disposição para interação social. Além disso, seu melhor amigo suicidou-se a pouco tempo e é para ele que escreve cartas diariamente, onde conta todas as suas vivências. Charlie tem lapsos de memória acerca de sua infância sempre que é exposto à uma situação ansiogênica ou que lhe provoca demasiado estresse. Como resposta a esses estímulos, surtos de agressividade e pânico dominam o protagonista, o qual não se recorda dos atos desferidos. O adolescente ainda alimenta sentimentos de culpa pela morte da ofensora, que é ocasionada por um grave acidente de carro, na noite de Natal e também seu aniversário, quando supostamente buscaria um presente prometido a ele.

O foco desta análise é dissertar sobre a percepção de mundo que Charlie dispõe enquanto adolescente e o quanto o trauma interfere na sua proposição de ser no mundo e até que ponto as suas relações sociais afetivas atuais o ajudam na (re)elaboração e simbolização.  Estudos demonstram que entre as consequências mais frequentes do abuso sexual estão a depressão, a agressividade, a baixa autoestima, o medo, isolamento, dificuldade de se relacionar, características essas, presentes na composição da personalidade de Charlie. (AMAZARRAY E KOLLER, 1998)

2. A Rememoração Obscura da Cena Traumática

A violência, assim, tende a se inserir e se perpetuar em ciclos que propagam a irreflexão e impulsividade no ser humano, sobretudo quando impedido do trabalho   da memória, do pensamento e da reparação, em companhia dos outros (GOLDSTEIN, 2013).

Charlie encontra barreiras muito concretas quando seu psiquismo tenta realizar a reparação do trauma, onde este é submetido a um processo obscuro de rememoração, pois, por uma formação de compromisso do seu aparelho psíquico, sempre tem resgates mnêmicos pouco claros do que lhe aconteceu na infância. O adolescente não tem clareza do que lhe aconteceu e sempre que é exposto a uma situação estressante, sua resposta é de agressividade. Como exposto pela Psicanálise Freudiana, o traumatismo se refere primeiramente a uma concepção econômica, ou seja, o sujeito tem um aumento na excitação da vida psíquica o que culmina num fracasso da elaboração desse trauma pelos meios habituais, trazendo perturbações na quantidade de energia direcionada e na descarga dessa energia (Laplanche e Pontalis, 1998).

Há uma confusão da percepção de si mesmo e do mundo em Charlie, o qual se  retém à uma realidade imaginária ou fantasiosa, sempre introjetando seus pensamentos e percepções. Quando a vivência traumática ocorre durante uma fase de vulnerabilidade como é a infância, momento crucial de desenvolvimento do psiquismo, a percepção de si e do mundo é comprometida.

Um dos impedimentos da rememoração clara da cena traumática é a posição de poder ocupada por Hellen, com quem mantinha uma relação afetiva. Hellen propõe um acordo entre eles, o segredo da violência cometida. Quando Charlie cresce e ingressa ativamente na esfera social, há o conflito desse resgate mnêmico, pois com a construção do SuperEu (Freud, 1923) e o estabelecimento da moralização do ser humano, há um conflito no entendimento da violência que sofreu e a tentativa de    as lembranças emergirem para consciência, tendo em vista que o abuso sexual é considerado, socialmente, como violência.

Ao longo do filme percebe-se que Charlie tem consigo um sentimento de culpa muito forte, tanto pela confusão entre realidade e fantasia em suas rememorações da cena do abuso como pela morte da tia. Assim, acaba por atribuir a si mesmo a “culpa” pela perda de Hellen. As fantasias inconscientes de sedução em relação ao adulto tendem a se confundir com a realidade, provocando a emergência de um forte sentimento de culpa na criança vítima de violência: sua onipotência faz com que acredite que, se foi capaz de provocar o desejo do adulto, então deve merecer sofrer as consequências de seu próprio desejo. (FERENCZI, 1932, p. 116 apud MENDES e FRANÇA, 2013, p. 124).

Nos trabalhos de Ferenczi ficam claras as vicissitudes presentes no sujeito que sofre o abuso sexual (MENDES e FRANÇA, 2012) e a exemplificação que se consegue observar no personagem Charlie. No traumatismo sexual há uma clivagem na personalidade do sujeito, a qual desencadeia fortes crises ansiogênicas acompanhadas da perda da consciência. Observamos essa sintomatologia nas narrações de Charlie ao longo do filme como em, “Então, esta é a minha vida. E quero que você saiba que sou feliz e triste ao mesmo tempo, e ainda estou tentando entender como posso ser assim. ”

Nessa fala observa-se a incerteza existencial de Charlie ao lidar com suas emoções, o que é explicitamente presente no personagem ao longo da película. Em algumas cenas é possível observar claramente sua perda de consciência sempre acompanhada de acessos de raiva frente às situações que demandam uma elaboração maior das emoções. Ao final do filme, durante uma conversa entre Charlie e sua amiga Sam, ela repousa por um momento a mão sobre a perna dele e, de forma quase instantânea, Charlie tem um lapso momentâneo da cena de abuso, pois Hellen, sua tia, fazia exatamente o mesmo. Assim, ele se mostra confuso acerca do sofrimento psíquico causado por aquela breve ação. Após despedir-se de Sam, que vai agora para a faculdade, Charlie remonta claramente um diagrama a partir das lembranças acerca da violência sofrida, pela primeira vez de forma nítida e assim, entra em dissonância, perde a consciência e acorda em um hospital.

Quando há necessidade de uma elaboração psíquica mais refinada frente às situações, ocorre uma cisão entre o ego e a realidade no protagonista, fazendo emergir uma pulsão expressa pela agressividade, configurando-se como resposta à tal estímulo. Na perspectiva Kleiniana, considera-se a clivagem do ego a defesa mais primitiva contra angústia (LAPLANCHE e PONTALIS, 1998), justamente o que é elaborado por Charlie frente às situações ansiogênicas.

3. Possibilidade de Simbolização da Experiência

Quando Charlie inicia um ciclo de amizade e começa a interagir com Sam e Patrick, antagonistas do filme, ele passa a entrar no processo significativo de elaboração da situação traumática. Impossibilitado de entender o que acarreta seus surtos e seus quadros ansiogênicos, ele não assume uma postura “clara” no grupo em que passou a integrar. O seu amigo Patrick o apelida de “invisível” porque está sempre quieto e sem falar muito sobre as situações que acontecem com ele, pessoalmente e em relação ao grupo. A fotografia do filme ajuda a transparecer as sensações vivenciadas por Charlie ao longo de suas interações, como a cena em que está voltando para casa após se despedir de Sam e começa a resgatar da memória tudo que lhe aconteceu na vida, como inseguranças em relação às suas interações, em relação ao que sente por sua tia que ao mesmo tempo é posto numa dicotomia de angustia e afeto devido aos lapsos de memória obscuros acerca do abuso sexual. O filme apresenta muitas imagens que se interpreta como o retrato do mundo interno de Charlie, já que o personagem não exterioriza muito ao ambiente sua percepção de si e do mundo. Só se passa a conhece-lo através de sua narração na primeira pessoa ao redigir as cartas para seu amigo. O processo de simbolização e exteriorização de seu traumatismo começa a ocorrer quando Charlie aproxima-se afetivamente de Sam e Patrick.

A permissão para uma ressignificação de relações que Charlie tem ao se envolver com Sam e Patrick torna-se viável a ele a construção de aspectos transferências das suas primeiras relações conturbadas e a “reelaboração” dessas. Há uma cena do filme em que o adolescente presenteia Sam com uma gravação da música Something dos Beatles, dada a ele por sua tia Hellen, que o fazia ficar parado em frente a uma janela pensando em “coisas de gente grande”.

Autores como Ferenczi (1873 - 1933) e Kupermann, (MENDES e FRANÇA, 2012) trazem a importância do aspecto cultural e social do ambiente para o trabalho de ressignificação do trauma. O que é nitidamente verificado durante o filme, pois o processo de rememoração e elaboração do traumatismo só é possível devido ao crescimento da habilidade de Charlie ao se relacionar com o mundo externo.

Ao final do filme Charlie entra num processo de ab-reação, que caracteriza-se como uma descarga emocional na qual o sujeito se liberta da recordação de um acontecimento traumático, permitindo que ele não continue sendo patogênico. (LAPLANCHE e PONTALIS, 1998). Nesse processo de descarga o conteúdo de alguma forma “represado” é revelado à Psiquiatra que faz seu atendimento e essa o convida a conversar sobre o que ele disse no momento de surto. Não fica claro se Charlie consegue resgatar exatamente o que aconteceu, porém, seu comportamento revela que a descarga que ele produziu não foi totalmente esquecida, pois ao dar continuidade ao enredo no filme ele fala sobre o processo de tratamento que iniciou devido a essa descoberta.

4. Considerações Finais

A relevância deste artigo vulga suscitar a importância das interações sociais, não só para elaboração e ressignificação de uma situação traumática, mas para a possibilidade de construção de uma nova vida.

Kupermann (2008) ressalta a importância do papel do ambiente e do contexto sociocultural para problematização do trauma e que, trazer aspectos apenas considerando o psiquismo, minimizaria as contribuições da psicanálise.

A partir do momento em que a situação se torna clara e o meio intrafamiliar se ressalta no processo de superação, o andamento do tratamento a ser desenvolvido com a vítima tem possibilidades muito maiores de êxito. Pois as relações, principalmente as afetivas, tem papel fundamental. As consequências de um evento com carga traumática têm interferência direta no modo como o sujeito se relaciona com as pessoas e como se situa no mundo. Charlie consegue vencer seus aspectos traumáticos quando este, ao rememorar, pode, enfim, falar sobre o assunto e entrar em processo de tratamento tanto profissional, o qual se configura no contexto psicoterápico, como no ambiente familiar e pessoal. Na cena final o protagonista diz: “Esse momento que você sabe que não é uma história triste. Você está vivo. Você  se levanta e vê as luzes no prédio e tudo que faz você se perguntar. E está ouvindo aquela música naquele passeio, com as pessoas que mais ama no mundo. E nesse momento eu juro, nós somos infinitos. ”

Observa-se nesse trecho da sua fala, a capacidade em expandir sua visão  existencial sobre a vida e por meio da metáfora “você se levanta e vê as luzes no prédio” infere-se a sua vontade de viver e a visão de novas possibilidade de ser no mundo.

O objetivo aqui levantado não é de dissertar sobre uma possível psicopatologia no personagem Charlie, mas sim, demonstrar como o estabelecimento de relações de amizade o ajudam na ressignificação desse trauma, numa descoberta de si durante a sua adolescência e as implicações do abuso sexual em sua personalidade,

No mundo atual, em que as relações estão cada vez mais líquidas (Bauman, 2004) e as interações mais superficiais, é preciso problematizar o tipo de relação que se está construindo frente a essas novas maneiras de “interações” afetivas e saber significar a importância do estabelecimento de laços duradouros, como os de Charlie, Sam e Patrick. O trio de amigos enfrenta durante o filme vários momentos conflituosos e   por mais que o protagonista seja Charlie, se percebe a ajuda mútua entre eles na “superação” de seus problemas.

A necessidade da escuta qualificada pelo atendimento psicoterápico se faz necessária frente a um dos caminhos de enfrentamento da situação traumática e é preciso também deixar claro que a patologização não é um caminho efetivo no trabalho com adolescentes vítimas de abuso sexual e que os profissionais precisam perceber também a importância dos laços estabelecidos atualmente e principalmente a qualidade destes.

Sobre os Autores:

Allice Rejany Nogueira Carvalho - Graduanda de Psicologia pela Universidade Católica de Brasília, Brasília, Distrito Federal.

Luiz Felipe Müller da Nóbrega - Graduando de Psicologia pela Universidade Católica de Brasília, Brasília, Distrito Federal.

Referências:

AMAZARRAY, M. R., & Koller, S. H. (1998). Alguns aspectos observados no desenvolvimento de crianças vítimas de abuso sexual. Psicologia Reflexão e Crítica, 11(3), 559-578.

BAUMAN, Z. Amor líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

FREUD, S. (1923). O eu e o Id (“autobriografia” e outros textos). Trad. Sob a direção Paulo César de Souza. Rio de Janeiro, Companhia das Letras, 2011. (Edição Companhia das Letras das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v.16).]

GOLDSTEIN, Thaís Seltzer. Trauma, memória e justiça em "A Morte e a Donzela", de Roman Polanski. Psicol. USP, São Paulo , v. 24, n. 3, p. 509-526, Dec. 2013 . Laplanche, J. & Pontalis, J-B. (1975). Vocabulário da psicanálise. 2ª ed. Santos: Martins Fontes.

MALGARIM, Bibiana Godoi; BENETTI, Silvia Pereira da Cruz. O abuso sexual no contexto psicanalítico:  das  fantasias  edípicas  do  incesto. Aletheia,  Canoas  ,  n. 33, dez. 2010

MENDES, Anna Paula Njaime; FRANCA, Cassandra Pereira. Contribuições de Sándor Ferenczi  para  a  compreensão  dos  efeitos  psíquicos  da   violência sexual.   Psicol. estud.,  Maringá ,  v. 17, n. 1, p. 121-130, Mar.  2012 .