1. Introdução

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, ou TDAH, pode ser entendido, segundo a CID-10 (1993), como um transtorno ligado ao desenvolvimento da atenção e atividade do indivíduo. Já Barkley (2002) afirma que esse é um transtorno que acomete o indivíduo por vias do autocontrole, onde os períodos de atenção e impulsividade são prejudicados.

Ainda segundo a mesma autora, vê-se que o TDAH tem raízes neurobiológicas, onde suas causas podem ser genéticas e sua manifestação se dá na falta de controle de impulsos e inibição de alguns comportamentos, prejudicando, assim, a atenção do indivíduo.

De acordo com a CID-10 (1993), o TDAH se encontra no grupo de doenças denominado Transtornos Hipercinéticos, ou F.90:

Grupo de transtornos caracterizados por início precoce (habitualmente durante os cinco primeiros anos de vida), falta de perseverança nas atividades que exigem um envolvimento cognitivo, e uma tendência a passar de uma atividade a outra sem acabar nenhuma, associadas a uma atividade global desorganizada, incoordenada e excessiva. Os transtornos podem se acompanhar de outras anomalias. As crianças hipercinéticas são frequentemente imprudentes e impulsivas, sujeitas a acidentes e incorrem em problemas disciplinares mais por infrações não premeditadas de regras que por desafio deliberado. Suas relações com os adultos são frequentemente marcadas por uma ausência de inibição social, com falta de cautela e reserva normais.

Dessa forma, percebe-se que essa classificação enfatiza mais a agitação no campo motor do indivíduo.

Em contrapartida, o DSM-IV (2000) classifica esse transtorno de modo que

A característica essencial do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade é um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade, mais frequente e severo do que aquele tipicamente observado em indivíduos em nível equivalente de desenvolvimento (Critério A). Alguns sintomas hiperativo-impulsivos que causam prejuízo devem ter estado presentes antes dos 7 anos, mas muitos indivíduos são diagnosticados depois, após a presença dos sintomas por alguns anos (Critério B).

Assim, nessa classificação, a ênfase, ao contrário da CID-10, está na falta de atenção e lança mão da idade em que esse transtorno pode surgir. Contudo, pode-se perceber que não há consenso na literatura acerca do tema.

As duas definições acima são retiradas de manuais de classificação de doenças (CID-10 e DSM-IV), nos quais o modelo biomédico lança seu olhar.

Entretanto, o pensamento relacionado às noções que doença e saúde vem sendo alterado nas últimas décadas, onde a doença passa a assumir fatores etiológicos múltiplos e a subjetividade daquele que está adoecido passa, agora, a ser considerada nas formas de manifestação do patológico (RIBEIRO, 2005).

A Gestalt-Terapia é uma teoria e técnica psicoterápica que considera o indivíduo de forma organísmica, ou seja, todos os aspectos do sujeito o constituem enquanto ser, de modo que não pode haver a divisão dessas partes, pois a configuração perderia a sua funcionalidade (TELLEGEN, 1984).

Desse modo, sob o enfoque da Gestalt-Terapia, será trazida a ideia do TDAH como uma forma de ser-no-mundo (HEIDEGGER, 2012), com características funcionais.

Ao longo do estudo, serão apresentadas quais as contribuições que a Gestalt-Terapia pode trazer sobre o tema, baseando-se no ciclo de contato de Ribeiro (1997).

2. Desenvolvimento

O TDAH possui seus aspectos neurobiológicos (BERKLEY, 2002), mas é necessário considerar o sujeito em sua forma constitutiva ampla, organísmica. Para tanto, o TDAH não é algo que a criança possui, mas sim algo que ela é, logo não tem cura, pois é constitutivo do sujeito. De acordo com Silva (2003), a criança não tem TDAH, mas ela é TDAH. Isso nos mostra que o sujeito é mais do que a soma de suas partes. Ele é integral.

Segundo Paim (1979), a atenção é um processo no qual o indivíduo tende a se concentrar em determinados objetos, com o objetivo de discriminar percepções e elaborar pensamentos. É necessário o esforço mental de se manter ligado ao estímulo que se mostra, dentro do campo consciente. Assim, podemos ver que a atenção é um processo seletivo.

Antony & Ribeiro (2008) nos trazem a ideia de que a criança tem sua atenção muito voltada para o exterior, onde sua percepção se torna afixada. Todavia, a sua percepção interior fica prejudicada, tornando a atenção difusa porque a sua consciência de si é confusa. Desse modo, não há como diferenciar, ou até mesmo discriminar, qual a necessidade dominante de seu organismo. Isso faz com que a atenção da criança fique dividida e não focalize durante muito tempo em qualquer atividade.

No tocante à sua aprendizagem, com a “hiper” percepção da criança, ela acaba por não entender os processos que estão ao seu redor, sempre mudando rapidamente de um para outro. Se ela não consegue significar o que está no campo da sua percepção, não consegue organizar pensamentos, que são essenciais para a aprendizagem. Assim, a criança hiperativa tem baixo rendimento escolar.

Como a psicomotricidade traz a noção de que o movimento humano é o instrumento de construção do psiquismo primevo, as dimensões da emoção e ação do indivíduo para o ambiente estão atreladas. Assim, a motricidade e o corpo foram um conjunto indissociável (LEVIN, 2001).

Segundo Antony & Ribeiro (2005), em uma escala evolutiva, o movimento precede o pensamento, de modo que o próprio movimento leva à percepção, até que se alcance a simbolização. Logo, como a criança com TDAH possui sempre uma movimentação iminente, a sua hipercinesia pode substituir a falta de pensamento organizado.

Com isso, podemos ver que a questão corporal toma grandes proporções dentro da dinâmica do TDAH, uma vez que o corpo precede o psíquico. O eu corporal surge do movimento de sensações e percepções do corpo com o mundo. Enquanto que o eu psíquico nasce da elaboração dessas percepções acerca do mundo e de si. Com a impulsividade presente no TDAH, essa construção toma outra conformação.

A impulsividade está atrelada a uma falta de domínio do próprio corpo, onde a mínima estimulação provoca uma ação. Isso nos remete à falta de consciência de seus pensamentos, onde o externo recebe atenção exagerada sobre os processos internos da criança (ANTONY & RIBEIRO, 2008).

Essa impulsividade também corrobora para a falta de capacidade de espera. Fator que torna a dimensão temporal deficitária. Por isso, em brincadeiras e jogos, a criança não consegue esperar a sua vez e arruma confusão com outras crianças, que não conseguem entendê-la.

A criança geralmente está em movimentação, se tornando irrequieta, podendo parecer que suas ações são involuntárias. Esse pensamento é corroborado por Ajuriaguerra & Marcelli (1986 apud RIBEIRO & ANTONY, p. 189), em que “(...) a instabilidade motora é a figura psicomotora que se destaca de um fundo desorganizado”.

O campo afetivo-emocional da criança também sofre prejuízos por conta de sua condição com TDAH. Segundo Antony & Ribeiro (2008),

A afetividade da criança hiperativa se expressa de forma intensa, levando a criança a responder ao mundo com uma forte sensibilidade sensorial e emocional. O seu funcionamento global “hiper” cria a hiperemotividade que provoca um alto nível de reatividade diante de toda experiência afetivo-emocional. (p. 221)

Com isso, temos que a autoestima da criança segue a reboque dessa condição de hiperemotividade, uma vez que é muito criticada por ser “chata”, “irrequieta” e “desastrada”.

Para a Gestalt-Terapia, os conceitos de Contato e Awareness são necessários para o entendimento dos processos psicológicos de um sujeito. Para tanto, Perls, Hefferline & Goodman (1997) trazem que contato é quando o processo no qual o sujeito entra em relação consigo mesmo, com o outro e com o mundo com o intuito de se diferenciar. Já a awareness diz respeito ao processo de “(...) estar em contato vigilante com os eventos mais importantes do campo indivíduo/ambiente, com total apoio sensoriomotor, emocional, cognitivo e energético.” (YONTEF, 1998, p. 31)

Com isso, podemos dizer que o contato só se dá, de fato, através da regulação organísmica. Se essa regulação não ocorre de forma plena, se as necessidades do organismo não forem satisfatoriamente saciadas, se não ocorre a awareness, as gestalten ficam abertas, e isso gera desequilíbrio funcional.

Como foi comentando anteriormente, a criança deixa atividades pendentes por ter uma percepção externa exacerbada. Se ela não consegue “fechar” essas gestalten, um desequilíbrio em seu ajustamento criativo é gerado, prejudicando suas relações interpessoais.

Agora, para elucidar melhor como se dá esse processo de adoecimento na perspectiva gestáltica, temos que a condição de doença ocorre quando não há contato, ou seja, existem mecanismos de defesa do eu impedindo que o indivíduo faça contato com aquilo que pode causar algum sofrimento.

Ribeiro (1997) traz o ciclo de contato para demonstrar como o indivíduo experiencia a si e ao mundo. Neste trabalho, só serão tratados quatro processos (são nove ao total). Contudo, três são de evitação de contato, enquanto um é responsável pela condição de saúde.

O primeiro deles é a Deflexão, que pode ser entendida como um processo no qual o indivíduo passa a fazer contato superficial ou não entrando em contato com o objeto causar de sofrimento. A inquietação e hiperatividade estão contida nesse processo, uma vez que o rápido contato com o ambiente se dá de forma a não deixar que o indivíduo tome consciência daquilo que está fazendo, impossibilitando a Conscientização, que é o polo oposto da Deflexão.

O segundo é a Projeção. Um mecanismo que faz com que o indivíduo se recuse a aceitar aspectos da sua personalidade, projetando para o ambiente aquilo que é seu. A Introjeção é a base para a Projeção, já que o sujeito põe para fora o que foi “forçado” a fazer parte dele. Na criança, a introjeção se dá através das nomeações e xingamentos que ela recebe por ser TDAH, logo ela projeta isso para as outras pessoas, criando perturbações no curso de suas relações, impedindo que ela aja da forma apropriada.

O terceiro mecanismo é o Egotismo, onde se originam as noções de autorreferência da criança. No TDAH, esse processo se dá no querer imperativo da criança, por meio do qual tudo deve ser da forma como ela quer, como se ela fosse o centro de tudo, das ações aos seus sentimentos. Com isso, sua demanda afetiva é alta, fazendo com que possua uma alta vulnerabilidade emocional.

Por último, há a Proflexão, que pode ser descrita por Ribeiro (1997) como um mecanismo de compensação, já que a ideia é fazer ao outro o que gostaria que fizessem com ela.

Com isso, a criança deflete através de sua desatenção e inquietação de forma excessiva, fazendo com que seu comportamento se dê inapropriadamente, não dando atenção à sua necessidade dominante. A atenção confusa ocorre por meio da projeção, mandando para fora introjetos, ou partes inaceitáveis de si, que acabam por criar perturbações em suas relações com o ambiente.

Para tentar sanar essas perturbações criadas por ela, a proflexão entra em ação, de modo a fazer com que a criança tente ser prestativa, buscando receber apoio e aceitação, mas não consegue isso de fato. Então, o egotismo surge como que tentando fazer com que a criança se sinta valorizada por si mesma, não necessitando do outro e tentando impor sua forma de ser diante do mundo.

3. Considerações Finais

Tendo em mente que o processo descrito nesse trabalho toma como base a dimensão holística da Gestalt-Terapia, o indivíduo adoecido deve ser visto de forma integral. O seu modo de funcionamento foge ao que se pode chamar de “padrão”, mas isso não deve ser necessariamente ser considerado como patológico, no sentido médico do termo.

Crianças com TDAH possuem atenção difusa para algumas tarefas e outras não. O seu aspecto criativo deve ser levado mais em consideração do que o seu déficit de atenção e/ou hiperatividade.

Foi interessante demonstrar nesse trabalho o quanto uma teoria psicológica pode lançar um olhar diferente sobre um aspecto que tem sim os seu valor neurobiológico, mas que por detrás dessa “doença” existe o sujeito que está “adoecido”. Dessa forma, acredito que ele deva ser considerado como tal, e não um número nas classificações internacionais de doenças.

O meu intuito não foi abarcar todos os aspectos do TDAH, nem conseguiria, já que o tema é bastante complexo para ser tratado em algumas folhas. Entretanto, acredito que os diversos campos do saber, inclusive a Psicologia, tem muito a contribuir na discussão entre o que é saúde e doença, incluindo o TDAH.

Assim, posso concluir dizendo que crianças com TDAH devem ser tratadas de forma a fazer com que se conscientizem de si, de suas necessidades, e do outro, enquanto relação organismo-meio, sempre buscando abrir e fechar gestalten de forma que o ajustamento criativo lhes propicie auto-crescimento.

Sobre o Autor:

Tony Jeimison S. P. Matos - Estudante de Psicologia da Universidade Federal do Ceará.

Referências:

ANTONY, S. M. da R. & RIBEIRO, J. Compreendendo a Hiperatividade: uma visão da Gestalt-Terapia. Com. Ciências Saúde, Brasília, v. 19, n. 3, p. 215-224, 2008.

__________. Hiperatividade: Doença ou Essência? Um Enfoque da Gestalt-Terapia. Psicologia Ciência e Profissão, Brasília, v. 25, n. 2, p. 186-197, 2005.

HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Trad. Fausto Castilho (org.). Campinas: Editora da Unicamp, 2012.

LEVIN, E. A clínica psicomotora: O Corpo na Linguagem. 4ª Ed. Petrópolis: Vozes, 2001.

PAIM, I. Curso de Psicopatologia. 4ª Ed. São Paulo: Ciências Humanas, 1979.

TELLEGEN, T. A. Gestalt e Grupos: Uma Perspectiva Sistêmica. In:______. Gestalt-Terapia – Origem e Desenvolvimento. São Paulo: Summus, 1984. p. 25-42.

YONTEF, G. Processo, diálogo e Awareness: ensaios em Gestalt-terapia. In:______. Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus, 1998. p. 15-67.