Resumo: O presente artigo propõe uma reflexão referente às intervenções psicopedagógicas junto a jovens e adultos usuários de “crack e/ou similares”, ou seja, usuários de derivados da cocaína. Considera-se como “crack e/ou similares” a pasta base, merla e oxi, além do crack em si, e os prejuízos cognitivos causados pelo uso e/ou abuso destas substâncias. O objetivo principal desse trabalho é apontar a necessidade de um profissional inteirado com conhecimentos e habilidades necessárias a um bom prognóstico deste público quando inseridos nos programas de elevação de escolaridade. Tem como objetivo específico destacar a necessidade de um especialista em psicopedagogia que atue na área de reabilitação cognitiva, com vistas a corrigir, organizar e estimular as funções prejudicadas pelo uso e/ou abuso de substâncias psicoativas. Diante desse contexto, questiona-se quem são estes sujeitos que procuram ou não estes “programas”, e quais são os motivos que não os permitem iniciar ou concluir seus estudos em idade regular? A psicopedagogia, por estabelecer conexões entre saúde e educação e por ser uma área de conhecimento multidisciplinar, compreende as dificuldades de interação na busca de desconstrução e reconstrução deste sujeito cognoscente, seu processo de conhecimento e sua subjetividade, favorecendo o pensar sobre propostas que apontam para as particularidades desses sujeitos. A intervenção psicopedagógica no âmbito clínico e educacional credibilita o psicopedagogo a capacidade de despertar o desejo de fazer o sujeito apreender e perceber a complexidade da natureza dos seus problemas, os quais possuem múltiplos fatores envolvidos.

Palavras-chave: Psicopedagogia, Reabilitação cognitiva, Crack.

1. Introdução

O tema deste estudo visa uma reflexão referente à necessidade de intervenções psicopedagógicas para além das questões individuais, inclusive em questões que dizem respeito à garantia de direitos socioeducacionais de jovens e adultos usuários de crack e drogas similares, considerando os prejuízos cognitivos causados pelo uso e abuso dessas substâncias, tendo como ênfase o aspecto epistemológico da psicopedagogia. Engloba também o pensar focado nas condições gerais de vida desses sujeitos e na complexidade das relações afetivas, cognitivas, individuais, coletivas e sociais.

Algumas reflexões são pertinentes no que se refere aos usuários de crack que apresentam dificuldades de aprendizagem, quer sob o ponto de vista das inter-relações pessoais; quer sob o ponto de vista afetivo individual, que comumente são avaliadas exclusivamente em função dos seus prejuízos cognitivos. Entretanto, é importante que concentremos nosso olhar em todos os aspectos envolvidos no processo de aprendizagem.

Neste trabalho, foi feito um levantamento histórico restrito à década de 30 até os dias atuais, a fim de observar a evolução da atuação da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em relação à abordagem proposta: alunos (as) em potencial, usuários de crack e de drogas ilícitas. Dentre as questões levantadas está a evolução do tema e das práticas aplicadas em sala de aula. Julga-se interessante apontar neste estudo a intervenção do psicopedagogo no campo da reabilitação cognitiva, o qual tem o desafio de reformular conceitos a respeito desses sujeitos, na consolidação de práticas bem-sucedidas neste contexto de exclusão e vulnerabilidade em decorrência do uso de drogas tóxicas que causam dependência. Pôde-se observar que a psicopedagogia deve estar em constante interdisciplinaridade, sobretudo com a neuropsicologia.

A segunda parte do trabalho apresenta as motivações, causas e consequências do uso de drogas no tocante ao desenvolvimento cognitivo. Aponta também que o uso dessas substâncias tem aumentado significativamente, em decorrência de diversos fatores abordados no decorrer desse estudo. Por fim, aborda-se a importância do psicopedagogo que, unido à área das Ciências da Saúde, visa promover a reintegração desses dependentes nas salas de aula, com o intuito de reinseri-los na sociedade e de restabelecê-lo. A metodologia de pesquisa utilizada foi dentro da área das Ciências Sociais, por meio de levantamento teórico sobre o presento proposto.

1.1 Contextualizando a Educação de Jovens e Adultos: dos Registros de Educação Básica Para Adultos Da Década De 30 Até Hoje

Foi na década de 30 que ocorreram os primeiros registros relacionados à educação básica de adultos no Brasil, com a criação dos Ministérios da Educação, da Saúde, do Ministério do Trabalho e do Conselho Federal de Educação, o qual procurou sistematizar o ensino brasileiro. Porém, foi somente nos anos da década de 40 que, através do movimento de educadores em prol da ampliação do número de escolas e da melhoria na qualidade do ensino que foram incluídos nas agendas esforços para garantir a extensão do ensino elementar aos adultos. A criação, em 1942, do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), em 1946, influenciou bastante a educação de jovens e adultos.  Não devemos deixar de esquecer que independente da importância destes fatos o que se percebeu é que eles vieram reforçar o sistema dual de ensino: escola para as elites e escolas para proletariados (ARANHA, 1996, p. 69).

Com o objetivo de aumentar as bases eleitorais após o fim da Segunda Guerra Mundial e da ditadura Vargas, em 1945, onde o país vivia a exaltação política da redemocratização, dando destaque para a educação de adultos, bem como a educação elementar comum, nesse contexto a educação de jovens e adultos tentou definir sua identidade, através da Campanha de Educação de Adultos, em 1947, originando discussões sobre analfabetismo e educação de adultos no Brasil. O adulto analfabeto era visto como incapaz. Estava, portanto, às margens da sociedade e era identificado, sob o ponto de vista social e psicológico, como uma criança.

Durante o governo de Juscelino Kubitscheck (1955 – 1960) que tinha como lema “50 anos em 5”, um programa de governo que prometia cinquenta anos de progresso em cinco anos de realizações, Paulo Freire expôs suas ideias pedagógicas influenciando os principais programas de alfabetização e educação popular no país na década de 1960. Diversos movimentos surgiram com o objetivo de pressionar o governo federal a apoiá-los. Em janeiro de 1964 foi aprovado o Plano Nacional de Alfabetização, que previa a disseminação de programas de alfabetização baseados na proposta de Paulo Freire, sendo interrompido com o golpe militar de 1964, visto que os movimentos de Educação de Jovens e Adultos (EJA) foram encarados como grave ameaça à ordem nacional. O governo de Juscelino limitou-se apenas a criação de cursos técnicos profissionalizantes, a fim de qualificar pessoas para atender a demanda pela mão-de-obra qualificada para as indústrias. Não houve, portanto, alterações significativas, bem como objetivos no âmbito da educação de adultos.

Em 1967, o governo assumiu o controle e lançou o Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL), uma organização autônoma em relação ao Ministério da Educação. Em 1970 a campanha federal se expandiu, implantando o Programa de Educação Integrada (PEI), que dava continuidade aos estudos para os recém-alfabetizados e para os analfabetos funcionais. Os aprendizes adultos continuaram apenas dominando a escrita de algumas palavras. Em 1980, os projetos de alfabetização se desdobraram em turmas de pós-alfabetização, aprofundando-se em questões relacionadas à língua escrita e às operações matemáticas. Em 1985, o MOBRAL foi extinto e foi substituído pela Fundação EDUCAR.

A história da educação de jovens e adultos chegou nos anos 90 com reivindicações para a consolidação de reformas pedagógicas. Com a criação da Lei nº 9.394 de 1996, de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, foi dado um novo destaque a essa modalidade de ensino, garantindo aos jovens e adultos iletrados acesso à cultura letrada, o que tornou possível maior participação dessa parcela da sociedade brasileira nos limites da cultura, do trabalho e da política.

A Lei de Diretrizes e Bases (LDB), promulgada em 1996, por sua vez, diluiu as funções do ensino supletivo nos objetivos e formas de atendimento do ensino regular para crianças, adolescentes e jovens. Enquanto isso manteve a ênfase nos exames e, ao rebaixar a idade mínima para o acesso a essa forma de certificação de 18 para 15 anos no ensino fundamental e de 21 para 18 no ensino médio, sinalizou para as instâncias normativas estaduais a identificação cada vez maior entre o ensino supletivo e os mecanismos de aceleração do ensino regular, medida cada vez mais aplicada nos estados e municípios, visando à correção do fluxo no sistema. Enquanto modalidade de ensino a LDB 9.394/96 em seu Art. 37, diz o seguinte:

A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria. § 1°. Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames (Lei n. 9.394/96, Art. 37).

Na transição do século XX para o XXI, o governo federal desenvolveu algumas ações importantes para a EJA, destacando a aprovação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos em 2000. Em 2004, o governo lança o Programa Brasil Alfabetizado, tendo como missão abolir o analfabetismo no Brasil, promover o acesso à educação como um direito de todo cidadão brasileiro, não levando em conta a idade, raça ou sexo. Entretanto, esses projetos estão longe de pôr um fim ao analfabetismo no Brasil. Mas são, por outro lado, uma forma do governo interagir com os jovens e adultos brasileiros iletrados. Por fim, fica clara a dificuldade de evidenciar uma identidade própria para o público-alvo da Educação de Jovens e Adultos (EJA), devido à falta de estudos específicos que visam identificar mais precisamente quem são, como são, de onde vêm essas pessoas.

É necessário que nos esforcemos para atribuir à educação de jovens e adultos um real potencial de emancipação do ser humano, pois foi observado com isso que ainda hoje não foi possível concretizar um programa que possibilite um diálogo emancipador na medida em que os educandos possam construir sua percepção de mundo, por gerar uma reflexão consciente diante da realidade da vida. Também é fundamental considerar que a prática pedagógica neste campo de atuação, enquanto atividade social, histórica e intencional, precisa estar constante movimentação, exigindo de nós uma reapropriação da responsabilidade com as intervenções a partir de uma prática que só poderá ocorrer mediante compreensão dos pressupostos teóricos com as condições encontradas através de dados históricos registrados.

1.2. O Consumo de Drogas e os Prejuízos Cognitivos Causados pelo Uuso ou Abuso de Crack e Drogas Similares

O consumo de drogas é um fenômeno bastante antigo na humanidade e constitui um sério problema de saúde pública (ABREU, 2011). Estudos científicos mostram que é comum a experimentação de drogas pelos jovens em alguns momentos de sua vida, no entanto, para muitos, esse consumo acaba por se tornar habitual e perigoso (BESSA, 2012). É na adolescência que os jovens passam por importantes transformações antes de adquirir competências pessoais e sociais maduras, é uma fase crítica no desenvolvimento pessoal. O uso de drogas é, então, um meio fácil, uma saída simples para lidar com as questões complexas que permeiam essa fase transitória da vida. Mas também nos remete, necessariamente, a influência do contexto social, cultural, familiar e escolar (SCHENKER, 2004).

Os dados epidemiológicos mais atuais (WHO, 2012) indicam que um número cada vez maior de indivíduos recorre às drogas, que existe um consumo iniciado antes mesmo da adolescência, ainda que de forma experimental. Tal fato pode vir a comprometer a construção da identidade dos jovens nesse período sensível e transitório, onde as perspectivas da vida se delineiam sob uma ótica própria (ROEHRS, 2008). No final do século XX, já foi relatado que há uma forte ligação entre o consumo de drogas e o contexto social. Neste caso, um contexto repleto de conflitos pode tornar os indivíduos, principalmente os adolescentes e jovens atraídos por amigos que prezam pelo consumo de drogas. (OETTING,1998). Deste modo, o encontro entre os jovens e o consumo de drogas pode ser entendido como um fenômeno muito frequente diante de sua complexidade difícil de ser abordada, principalmente pelos sujeitos que compõem a comunidade escolar.

Apesar do uso de drogas ser uma prática presente desde os primórdios da humanidade (ESCOHOTADO, 1996), nas últimas décadas, indicadores apontam que o uso ou abuso dessas substâncias vem tomando dimensões preocupantes, ocasionando sérios prejuízos à população, principalmente entre adolescentes e jovens, diante dos diversos danos causados pelo uso do crack. Pode-se destacar os prejuízos escolares, seja pelo preconceito por parte do corpo docente ou discente, seja pelo prejuízo das funções cognitivas, decorrentes do uso excessivo de drogas ilícitas, bem como a violência em que se expõem os adolescentes e jovens adultos em busca da aquisição dessas substâncias. Associando a esses fatores, vale salientar o medo, o estigma, a ocorrência de brigas, homicídios e a prática de atos infracionais.

Frequentemente, os motivos que levam os adolescentes e jovens a consumir drogas estão relacionados a fatores associados ao efeito destas substâncias, proporcionando confiança, bem-estar, despreocupação, perspicácia, favorecendo a aceitação no grupo, bem como, na maioria das vezes, são meios de mecanismo de defesa para enfrentar problemas emocionais, mascarando doenças mentais, tal qual a depressão. O uso de drogas dá a falsa ilusão de que, se consumidas, afastarão as tensões enfrentadas.

Diante da complexidade que envolve o consumo de drogas, principalmente na atualidade, os profissionais da educação precisam conhecer também a existência de situações específicas, resultantes das experiências vividas por cada ser cognoscente. Como ser cognoscente entende-se o sujeito em que se dá o processo de aprendizagem, o ser no qual ocorre o processo de conhecimento (SILVA, 2010), ou seja, o sujeito autor, aquele que constrói seu pensamento, que vive e está inserido em um contexto (BOSSA e ALVES, 2006).

Identificada a problemática que permeia o consumo de crack e similares no espaço educacional o desenvolvimento de um trabalho com estes usuários demanda uma visão socioeducacional inovadora, inaugurada com a possibilidade que o cérebro humano tem de se recompor e de se revitalizar (neuroplasticidade), abrindo novas possibilidades, pode-se chegar a resultados cada vez melhores a partir do uso de metodologias e didáticas diferentes, auxiliadas por intervenções psicopedagógicas e, em muitos casos, neuropsicopedagógicas.

O crack e outras substâncias tóxicas estimulam o sistema de recompensa fazendo com que o cérebro deixe de liberar dopamina, por fazer de maneira artificial com que o cérebro se torne mais preguiçoso para produzir e liberá-la. Este sistema está relacionado com as funções executivas: memória, atenção, planejamento e tomada de decisões. O uso crônico de drogas faz com que várias regiões do cérebro fiquem mal irrigadas, podendo afetar o processamento cognitivo. O crack, por ser absorvido rapidamente, causa os mesmos efeitos da cocaína e de forma ainda mais intensa, atingindo o sistema de recompensa cerebral, que envolve o córtex pré-frontal, onde há um conjunto de neurônios responsáveis pela liberação do neurotransmissor da dopamina, devendo ser recapturada pelo neurônio que a liberou inicialmente.

O crack, além de causar a morte dos neurônios, impede esse processo de recaptura, intensificando e prolongando a sensação de prazer. Não há possibilidade de volta dos neurônios que já morreram. A reabilitação cognitiva pode ajudar na estimulação das áreas que continuam preservadas, deixando-as mais fortes para recompensar o déficit cognitivo. Estudos mostram que quanto maior o prejuízo às funções executivas, que compreendem as habilidades necessárias para um indivíduo formular objetivos, planejar e organizar ações, criar estratégias eficientes, monitorar o comportamento, resolver novos problemas, inibir ou iniciar comportamentos apropriados a um contexto, tomar decisão, raciocinar e abstrair, dentre outras habilidades (NORMAM e SHALLICE, 1986; MIOTTOET, 2007), maior o risco do usuário, mesmo em tratamento, voltar a usar a droga.

Por isso que se justifica a reabilitação cognitiva, como uma espécie de musculação cerebral. As funções importantes para o processamento cognitivo, tais como a atenção, a linguagem, as funções executivas, as funções visuais e espaciais, as práxis e a percepção devem ser avaliadas sob a vertente neuropsicológica, a fim de identificar quais foram comprometidas pelo uso do crack e de, por fim, ser reabilitadas.

Os usuários de substâncias psicoativas, cognitivamente prejudicados, podem contar com a psicopedagogia e suas estratégias de estimulação, que através de recursos próprios e diversificados auxiliam na reabilitação cognitiva com sessões psicoeducativas para a abordagem de conceitos relacionados à clínica da dependência química, principalmente no que se refere à inserção e/ou reinserção educacional, garantindo a capacidade do retorno ao meio acadêmico, prejudicado pelo estreitamento do repertório e saliência, critérios indicativos da dependência. A estimulação das funções cognitivas é proposta por diversos programas de intervenção como alternativa para as dificuldades e transtornos de aprendizagem. A crença da modificabilidade cognitiva, vinda de alguns de algumas teorias, aliados aos conceitos da psicopedagogia proporcionam ao individuo instrumentos adequados para compreender e facilitar sua aprendizagem.

No estudo sobre o perfil dos usuários de crack no Brasil, idealizado pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) e realizado em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), ocorrido entre o final de 2011 e junho de 2013, que consiste em um inquérito epidemiológico em seus principais resultados nos mostrou que no Brasil os usuários de crack e similares formam, majoritariamente, jovens adultos – com idade média de 30 anos, predominantemente do sexo masculino e não brancos (autodeclarantes pretos e pardos). Público este encontrado na maioria das vezes nas salas de EJA. No que se refere à escolaridade observou-se a baixa frequência de usuários que cursaram ou concluíram o Ensino Médio. (BASTOS & BERTONI, 2014). Entretanto, cabe salientar que, de acordo com a Fiocruz, o perfil dos usuários de crack e/ou similares no Brasil é o seguinte:

[...] a ampla maioria dos usuários esteve em algum momento na escola, reforçando assim a importância de programas de prevenção em âmbito escolar desde a escolarização e a necessidade de atuar tanto em  relação a envidar esforços no sentido de manter estas populações nas escolas, de modo que obtenham uma formação adequada; quanto a aumentar a capacidade das escolas em lidar como uma população às voltas com problemas psicossociais relevantes (FIOCRUZ, 2013, p. 11).

1.3. A Importância do Psicopedagogo nos Espaços de Elevação de Escolaridade e a Reabilitação Cognitiva dos Usuários de Crack e/ou Similares

A constituição de 1988, mesmo ampliando os direitos sociais, se depara com uma grande dificuldade na área social e socioeducacional, evidenciadas desde o Brasil colônia. Mesmo com altos e baixos na melhoria na qualidade da educação, após a constituição, pôde-se notar um progresso importante na área da educação fundamental, sendo este fator decisivo para o que prima o parágrafo segundo do artigo 1º, da Lei 9.493/1996 - A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social. Isso porque “em 1996, 32% da população de 15 anos ou mais era ainda formada por analfabetos funcionais, isto é, tinham menos de quatro anos de escolaridade” (LENSKIJ, 2006 apud CARVALHO, 1999).

A prática psicopedagógica considera o sujeito como um ser global, composto pelos aspectos orgânico, cognitivo, afetivo, social e pedagógico. O aspecto orgânico diz respeito à construção biológica do sujeito, portanto, a dificuldade de aprender de causa orgânica estaria relacionada ao corpo. O aspecto cognitivo está relacionado ao funcionamento das estruturas cognitivas. Nesse caso, o problema de aprendizagem estaria nas estruturas do pensamento do sujeito. Para ilustrar, pode-se usar o exemplo de uma criança que está no estágio pré-operatório cujas atividades escolares exigem que ela esteja no estágio operatório-concreto. O aspecto afetivo diz respeito à afetividade do sujeito e de sua relação com o aprender, com o desejo de aprender, pois o indivíduo pode não conseguir estabelecer um vínculo positivo com a aprendizagem. O aspecto social refere-se à relação do sujeito com a família, com a sociedade, seu contexto social e cultural. E, portanto, um aluno pode não aprender porque apresenta privação cultural em relação ao contexto escolar. Por último, o aspecto pedagógico, que está relacionado à forma como a escola organiza o seu trabalho, ou seja, o método, a avaliação, os conteúdos, a forma de ministrar a aula, entre outros (WEISS, 2000).

A maioria destas escolas que oferecem este programa de elevação de escolaridade, situadas em áreas com poucos atrativos que contribuem para uma vivência saudável, preconizadas pelas leis referenciadas aqui, exige da comunidade escolar um preparo maior para lidar com estes jovens e adultos inseridos neste programa, sobretudo aqueles cuja relação com o uso e/ou abuso de crack e outras drogas já foi constatada. Isso nos leva a pensar que a psicopedagogia ainda hoje continua com desafios a serem equacionados, tendo em vista a dificuldade de aprendizagem e o fracasso escolar ter aumentado cada vez mais e assumido novas formas no mundo que se transforma, acarretando a busca por novos caminhos para o exercício da prática psicopedagógica, e por que não falar, de um novo sentido para esse trabalho. Patrício (2004, p. 8) afirma que “ser professor hoje é conviver com a incerteza, agindo na urgência e fazendo novas escolhas, porque as certezas nos abandonaram”.

O contexto em que tais problemas aparecem, sendo dialético e associado ao uso e abuso de crack e de outras drogas por parte do alunado, exige de nós outras formas de caminhar diante das pedras que surgem no nosso caminho e afligem a humanidade. A dificuldade de aprendizagem, assim como o fracasso escolar tem por consequência a exclusão social evidenciando as diferenças sociais entre os sujeitos. As mudanças da sociedade moderna e o advento da internet, com o avanço tecnológico, com as mudanças na escola, no mercado de trabalho, ocasionando também a mudança nos costumes e valores, convida-nos a refletir acerca das contradições e inquietações geradas com a necessidade de uma nova postura do psicopedagogo no século XXI, como sugere Oliveira (OLIVEIRA, 2006, p. 6-17).

Desinteressados pelo que a escola oferece muitos dos adolescentes e jovens matriculados na EJA não permanecem ou concluem a modalidade de ensino, tendo isso haver com a falta de metodologias atrativas de ensino, tendo como consequências: Desmotivação, reprovação e/ou evasão. Sobretudo, no que se refere aos usuários de drogas. Isso, no entanto passa a ser um empecilho para que sigam, permaneça ou retornem aos estudos. Não apenas o currículo, mas a forma como ele é trabalhado provocam o desinteresse, necessitando da figura de um mediador da aprendizagem: O psicopedagogo.

O conceito de mediação já foi discutido por Piaget e Vygotsky, sendo Feuerstein o responsável por incluir o elemento: mediador humano, nesse processo.

A mediação humana proporciona uma melhor qualidade de relação interpessoal entre o indivíduo e o ambiente em que ele vive. O individuo que vive em um ambiente rico em relações interpessoais desenvolve melhores capacidades de aprendizagem do que um indivíduo que vive em um ambiente sem essas características (SASSON, 1998).

Cabeiante dessa realidade, observando e analisando como se dão as aprendizagens, como e para onde caminha o processo de ensino-aprendizagem e que dificuldades surgem ao longo dele, considerando-se o contexto atual, no qual a aprendizagem é também virtual e rápida, exigindo flexibilidade e atenção; há dificuldades de aprendizagem; se fracassa na escola pública, na particular, na universidade, na vida; formação e qualificação não garantem empregos; se discutem as múltiplas inteligências, a violência, a fome, a miséria, o desemprego; se fala em inteligência emocional, plasticidade cerebral e determinantes sociais, mas no qual se tem, por vezes, a impressão de que, em termos humanos, não se avançou muito, quando por exemplo fomos educados por uma escola que acreditava que o conhecimento era algo pronto, acabado, perfeito, na qual o aluno era visto como uma tábua rasa, uma folha de papel em branco.

O mundo e a atual realidade exigem novas habilidades e competências, em relação ao ensino-aprendizagem e ao perfil profissional. Isto porque a escola existe para todos. Esta é uma afirmação que parece antiga, mas não é. Pensando nesta afirmação: “tem-se dito que a função da escola em nossa sociedade é promover o ensino de qualidade para todos os estudantes, indistintamente” (FREITAS, 2003, p. 14). Mas, durante muito tempo, a escola era reservada a uma pequena minoria, onde a grande maioria não tinha praticamente oportunidade de estudar e ficava condenada ao analfabetismo.

A escola, por outro lado, acaba formando obstáculos para os que desejam ingressar ou reingressar; em busca de mudança de vida. Esses acabam se deparando com uma instituição que na realidade produz um número impressionante de fracassados. Diante disso, a escola tem um papel fundamental na vida social do homem.

O homem de hoje, não é mais o homem de aldeia; a cultura de hoje não é a cultura de aldeia; estamos vivendo em uma sociedade em que as relações culturais, políticas, econômicas, científicas e técnicas são universais, rompendo as fronteiras dos limites individuais e locais. A nossa escola, portanto, tem de preparar o homem para viver na sociedade atual e não para viver na sociedade do passado, ou muito menos na do futuro (RODRIGUES, 2000, p. 56).

A escola é um espaço de aprendizagem onde os sujeitos devem aprender com prazer, aprender brincando, brincar aprendendo, aprender a crescer e, sobretudo, aprender a exercer sua cidadania com vistas à minimização das desigualdades socioeducacionais visualizadas até hoje. A escola tem o papel de proporcionar agradáveis situações para que o alunado, seja ele jovem ou adulto, aprenda tudo que é importante e construa conhecimentos para uma vida inteira, voltada não apenas para o âmbito social, mas também pessoal. Porém, não é uma tarefa fácil para o professor selecionar conteúdos que poderão ser mais relevantes para o convívio dentro e fora da sociedade.

Para concluir, é fundamental que o professor pense no seu tempo pedagógico ao planejar as situações didáticas e também reflita sobre os estudantes focando no seu desenvolvimento integral, visando às características coletivas e individuais de seus respectivos alunos, pois:

O desenvolvimento afeta todas as capacidades humanas, e todas devem ser levadas em conta durante a elaboração de um projeto educativo, principalmente se, nesse projeto educativo, o professor busca intervir na formação cidadã dos estudantes, ajudá-los a interagir na sociedade de modo confiante e crítico e até mesmo vê o estudante numa visão mais ampla (SOLÉ, 2004, p.53).

É preciso ter objetivos de diferentes dimensões que ajudem os alunos a participar de modo autônomo e crítico na sociedade. Para tal, priorizar objetos de estudo que ajudam os alunos a desenvolver capacidades nessa direção é fundamental.

2. Considerações Finais                          

A reabilitação cognitiva dos usuários de crack e similares ainda necessitam do desenvolvimento de instrumentos de avalição que apresentam parâmetros adequados de precisão e validade.

A estimulação cognitiva, quando utilizada no tratamento de problemas de aprendizagem, pode abranger maiores objetivos por contribuir para a formação da “nova identidade” do indivíduo, assim como para a busca de estratégias que facilitarão seu desempenho nas atividades escolares e/ou diárias. Portanto, como sugestão para estudos futuros, a ampliação de estudos nesta área de conhecimento é fundamental, visto que pode auxiliar os psicopedagogos na compreensão da necessidade do acompanhamento das descobertas neurocientíficas para fins de realizar um trabalho de prevenção e tratamento das alterações e prejuízos encontrados nos processos cognitivos decorrente do uso de drogas.

Por não se tratar de uma questão simples, exige-se dos profissionais interessados em abordar e aplicar essa temática maior disponibilidade para a aplicação de uma intervenção que dependerá de questões como: situações de risco, outras drogas associadas, grau de suporte familiar ou social e grau de prejuízos cognitivos decorrentes do uso abusivo de crack e outras drogas que causam dependência, pois é evidente a incompatibilidade entre o desejo de inserção e reinserção no ensino formal escolar e o uso de drogas, especialmente o crack e similares, pelo absenteísmo causado pelo consumo repetitivo da droga durante dias, o que contribui para a perda ou adiantamento do desejo de inclusão escolar.

A Lei 11.343/06, de 23 de agosto de 2006 [01], relaciona o uso pessoal de drogas com uma questão de saúde publica e afasta esse ato do âmbito da criminalidade e da polícia. Com isso o dependente de drogas deixou de ser criminoso e tornou-se alguém que necessita de ajudada de profissionais das mais diversas áreas, neste mesmo texto a lei encaminha-os para práticas e medidas de prevenção e tratamento de drogas. Fica claro que uma forma de prevenção é a informação. O percurso destas reflexões nos mostrou a possibilidade de se estabelecer outras redes de conversação, promovendo novos modelos de atuação por parte dos psicopedagogos.

Sobre os Autores:

Carlos André da Silva Tavares - Graduado em Pedagogia pela Fundação Universidade do Tocantins/UNITINS e Pós-graduando em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela FATEC/FACINTER(IBPEX).

Annemaria Kottel - Pedagoga (Universidade Tuiuti do Paraná), Especialista em Psicopedagogia (IBPEX), em Educação Especial e Inclusiva (FACINTER), em Avaliação Diagnóstica Psicoeducacional (PMC/SME/CANE), orientadora de TCC do Centro Universitário Internacional Uninter.

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