Resumo: Esta pesquisa, de caráter bibliográfico, apresenta uma reflexão sobre os mecanismos de produção de verdade, trazendo a história da loucura de Michel Foucault, o projeto de modernidade, para pensarmos as relações, sob o ponto de vista de uma prática e de produção de subjetividades, que se estabelecem no cuidado do autismo na contemporaneidade. Esta reflexão nos revela a construção sócio-histórica do diagnóstico, e dos mecanismos de  exclusão do diferente e seu efeito desingularizante. Nesse sentido, pensamos na ampliação do olhar para a condição autista através dos pressupostos teóricos e filosóficos da Gestalt-terapia, mais notadamente, a teoria organísmica, a fenomenologia e a relação dialógica, com o intuito de aproximar a relação Eu-Tu ao campo do autismo.

Palavras-chave: autismo, psicodiagnóstico, gestalt-terapia.

Abstract: This research, bibliographic character, reflects on the  real production mechanisms  bringing the story of Michel Foucault's Madness, the project of modernity to reflect upon the relations from the point of view of a practical and production of subjectivities which are established in autism care nowadays. This reflection reveals the social and historical construction of diagnosis and exclusion mechanisms of different and it’s no singularizing effect. In this sense, we think of enlargement look at the autistic condition through theoretical and philosophical assumptions of Gestalt therapy, most notably, the organismic theory, phenomenology and dialogical relationship, in order to approximate the I-Thou relation to the field autism.

Keywords: autism, psicodiagnosis, gestalt therapy.

1. Introdução

Esta é uma pesquisa de caráter bibliográfico em que abordaremos o diagnóstico de autismo. Como a forma predominante de conceber o autismo acaba por limitar a existência da pessoa autista e daqueles com os quais ela convive? De que maneira colabora com atitudes preconceituosas e estigmatizantes? Como podemos compreendê-lo de forma mais ampliada? Essas são algumas das perguntas que levantaremos ao longo desse estudo.

Partimos da ideia de que o diagnóstico não deveria prescindir da existência da pessoa, por razões éticas, mas também pelo fato dos modos de existir não se  darem  descolados de um contexto, de uma história, de uma determinada teia de relações que se configuram a partir dos discursos produzidos em cada sociedade. Porém inserido no discurso biomédico, o autismo superou a pessoa, se tornou uma essência. O rótulo surge pela crença única no paradigma científico positivista, reducionista e biologizante, em que os manuais classificatórios se baseiam. Esta concepção, de certa forma, afasta as relações, produz um abismo e desconfiança do potencial do outro devido ao caráter deficitário com o que a maioria dos profissionais lidarão com o autismo, considerando a doença, deixando de considerar a pessoa.

Consideramos importante pensar essa condição não em termos de diagnóstico,  mas como um modo de existir que não se encerra em si, que estando no mundo e em relação com o mundo a pessoa pode, também, crescer, e nesse sentido pensamos na Gestalt-terapia com seus pressupostos epistemológicos e filosóficos, como um meio de ampliação do olhar para o autismo.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que há 70 milhões de autistas no mundo. No Brasil faltam dados precisos, mas são estimados 2 milhões [01]. Esses dados nos fazem pensar sobre milhões de vidas rotuladas e desacreditadas pelos efeitos de uma categorização diagnóstica.

A exclusão social a que a criança e sua família estão submetidos,  a  incidência cada vez maior de casos diagnosticados, o momento extremamente doloroso para os pais e familiares, em que pese estarem diante da perda do filho perfeito, idealizado, e de um prognóstico classicamente insatisfatório, bem como a descrença nas potencialidades da pessoa autista, surgem como algumas das preocupações e motivações para buscarmos um olhar de respeito e de possibilidades à sua existência.

Para tanto, recorremos ao pensamento de Michel Foucault e aos seus métodos de análise, a genealogia e a arqueologia, com o intuito de desnaturalizar o que nos é dado como verdade. A constituição histórica dos sujeitos tem um papel central em suas relações, pois está permeada pelos discursos que os saberes de cada época proferem, estabelecendo relações de poder. Vemos na época moderna um grande passo e contraste, que transforma um homem até então obediente, em um indivíduo de direitos com o advento da Razão. Um outro olhar sobre  a loucura é produzido nesse momento, suscitando práticas que influenciarão na forma como nossa sociedade lida com a doença mental hoje, sob a insígnia da ciência, a última palavra em verdade. O que está por trás é um projeto de progresso, porém pela ciência, suas técnicas e práticas, necessitando portanto de um indivíduo que sustente seu discurso. Ao fazermos esse traçado histórico observamos que razão e loucura, normalidade e anormalidade, normal e patológico, eficiência e deficiência, o saber médico e o saber psicológico, são "faces de uma mesma moeda" que o zeitgeist moderno suscitou, são portanto, constructos sociais cumprindo uma funcionalidade específica e com efeitos específicos, quais sejam, classificar, normalizar, adestrar, adaptar. Entendemos que o autismo encontra-se inserido no jogo de poder que o pensamento de Foucault nos revela.

Sendo assim, buscamos resgatar a atitude fenomenológica de ir no homem para conhecê-lo, e a partir desse discurso singular poder estabelecer uma relação que só  pode ser de qualidade Eu-Tu. Consideramos que neste esforço de nos aproximarmos desse real não dado, estaremos nos aproximando da pessoa autista. Conforme Rogers (p.73 apud DECRISTO, 2009) "quando alguém compreende como sinto e como sou, sem querer me analisar ou julgar, então, nesse clima, posso desabrochar e crescer".

2. Objetivos

2.1. Objetivo Geral

Compreender de que forma os discursos sobre o autismo suscitam práticas estigmatizantes, de correção e orientação para a normalização, influenciando nas subjetividades dos indivíduos e sociedade.

2.2 Objetivos Específicos

  1. Refletir sobre o campo epistemológico na sociedade moderna como campo de produção de saberes, verdade e poder;
  2. Compreender o diagnóstico de autismo a partir da visão biomédica;
  3. Refletir sobre um outro olhar para a condição de autismo que propicie práticas de respeito à diversidade;
  4. Apresentar algumas considerações da Gestalt-terapia sobre as noções de saúde e doença e o psicodiagnóstico, embasando o estabelecimento de uma relação de respeito ao singular e, portanto, mais ética no campo do autismo.

3. Justificativa

"Há algo na natureza da interrogação que se transfere para a resposta" (Merleau- Ponty). Esta frase de Merleau-Ponty se dirige ao cerne da questão que buscamos trazer nesta pesquisa. É por entender que há algo no modo de conhecer o autismo que produz o estigma, exacerba a diferença e desrespeita a singularidade, que consideramos esta pesquisa relevante. A ciência, ao se propor conhecer, encerra a experiência da pessoa, enclausura o humano, entendido aqui como um constante vir a ser.

Acreditamos que o pensar sobre o autismo  merece um esforço de natureza reflexiva,  e não meramente explicativa, para que a resposta, o agir, encontre múltiplas possibilidades, indo ao encontro do homem e não da perpetuação do status de um saber. Portanto, para tornarmos possível essa multiplicidade de respostas, que entendemos como fazendo parte de uma atuação mais ética, precisamos problematizar o modo de conhecer. Existe um direcionamento da parte daquele que questiona, um congelamento e/ou desconsideração da historicidade do objeto a ser conhecido, e uma prática, um agir que reflete a resposta encontrada.

Dessa forma, se estamos falando sobre o autismo a partir da ciência, do que ela se propõe a investigar, podemos presumir que estamos falando a partir de um ponto  de vista e não a partir da coisa, do problema em si. Nossa proposta é a de um olhar Gestáltico para o autismo, um olhar para o todo que se apresenta no aqui e agora, com a crença na capacidade do homem de criar e recriar seu sintoma, dando-lhe um novo sentido, e portanto para conhecê-lo temos que ir nele, pois é nele que se encontram as suas verdades. E por isso o  olhar é o tema desta pesquisa, como um convite para ampliá-lo.

Ainda que a perda dessa função do contato seja o primeiro dado para referência diagnóstica, ao mesmo tempo é o olhar do profissional que fará a diferença no porvir no cuidado com o autismo e nas relações com a família e com o meio social. Há também no profissional uma escolha, qual seja a de utilizar os critérios diagnósticos e rotular e anular a

pessoa, ou seja estabelecer uma relação Eu-Isso, ou de reconhecer a diversidade como mais uma possibilidade de ser. Finalmente, que os frutos dessa escolha se reflita nas relações na forma de "não saber", possibilitando assim o encontro. Esta pesquisa se justifica em uma última análise, pela possibilidade de uma prática fundamentada na relação Eu-Tu no campo  do autismo.

Capítulo 1

Construção Histórico-Social da Loucura e o Ideal Racional na Modernidade

Para Nietzsche (apud FOUCAULT, 2005a), o conhecimento não tem uma origem, ele é inventado numa trama de condições de possibilidade para seu surgimento. Ele é  resultado do confronto entre instintos. O conhecimento não constitui o mais antigo instinto do homem; não há no comportamento humano, no apetite humano, no instinto humano algo  como um germe do conhecimento. É porque os instintos se encontram, se batem e chegam, finalmente, ao término de suas batalhas que algo se produz. E este algo é o conhecimento. Foucault (2005a) ao se aprofundar e refletir sobre este pensamento de Nietzsche, quer mostrar que existe em Nietzsche um certo número de elementos que põem à nossa disposição um modelo para uma análise histórica do que ele chamaria a política da verdade. E conclui: "só pode haver certos tipos de sujeito de conhecimento, certas ordens de verdade,  certos  domínios de saber a partir de condições políticas que são o solo em que se formam o sujeito, os domínios de saber e as relações com a verdade" (FOUCAULT, op.cit., p.27).

Nas palavras de Karl Jaspers (1911), podemos observar igualmente o que chamaríamos de uma crítica ao conhecimento, ao que existe como verdade, pois

Nos métodos de investigação do existir humano, não emerge qualquer imagem unitária do homem, e sim, muitas imagens, cada uma com força que lhe é peculiar, impositiva. (...) É erro proceder, quando se conhece o homem, como se todos os conhecimentos a seu respeito estivessem num só plano, como se tivéssemos ante nós o homem como objeto, que seria singular e  cujo existir conheceríamos como um todo, em suas causas e efeitos (JASPERS, 1911/2005; vol. II; p. 907 apud FILHO, 2012).

Tais pensamentos nos obrigam a querer ir mais além na questão do conhecimento, buscar um sentido para o estabelecido. Este é o nosso ponto de partida nesta pesquisa e nosso pano de fundo para chegar ao que é o autismo e ao como ele pode (também) ser.

1.1 Diálogo de saberes e produção de verdade sobre a loucura

Concordamos com Foucault (2000) quando diz que os discursos nos dizem como as coisas são. E foi assim, através do discurso psiquiátrico no século XIX, que o indivíduo vivendo sob a égide de sua singularidade, se tornou "louco". A criança masturbadora, o louco, a ninfomaníaca, o homossexual, o mestiço e o artista neurastênico formam alguns dos ramos da árvore genealógica das anormalidades criada pela psiquiatria no século XIX, ramos esses que não existiam como problema social antes da hegemonia social burguesa (MISKOLCI, 2003). Miskolci evidencia neste trabalho o caráter histórico de criação de categorias sociais, e ressalta ainda que devemos estudar esses discursos "criadores", os interesses que os regiam e buscar determinar seus objetivos (grifo do autor).

Esse nos parece ser um ponto fundamental nessa discussão sobre o olhar que se tem hoje para o autismo, pois trata-se do apontamento para um processo de construção histórico-social de exclusão do diferente, estigmatização, categorização e classificação dos modos de ser e estar no mundo, da apropriação de um discurso de normalidade (e anormalidade) pelo saber psiquiátrico, e mais subjetivamente, da desconfiança do diferente como um ser potente. Momento no qual o diferente ganha o status de anormal, inferior, em nome de uma ordem e uma moral. Ao mesmo tempo, porém, percebemos a possibilidade de um caminho mais ético nesta reflexão, qual seja a de uma busca histórica_ contextualizada_ sobre o binômio saber/verdade, desnaturalizando-o. Desta forma, pensamos a partir de Foucault, que através da arqueologia e da genealogia, analisa os discursos que constituem os sujeitos dentro de seus processos históricos.

A arqueologia responde como os saberes se constituem e se transformam. Torna- se o próprio método de análise em que se busca saber o que o discurso produz, ou seja, as práticas produzidas por ele. Através da análise dos discursos procuram-se relações entre eles e sua ligação com as instituições. A genealogia analisa por que os saberes se constituem e se transformam. Pretende explicar o aparecimento dos saberes a partir de condições que são externas aos próprios saberes, mas que são inerentes a eles. A genealogia pretende explicar a existência dos saberes e suas transformações, situando-os como peça de relações de poder ou incluindo-os em um dispositivo político (MACHADO, 2000apud OJEDA, 2004).

A genealogia é proposta como uma estratégia que permite romper com a centralização do discurso científico, que se institucionaliza e se corporifica em todas as instâncias da sociedade. Objetiva, assim, dessujeitar os saberes históricos, tornando-os livres, capazes de oposição e de luta contra a coerção de um discurso unitário, formal e científico,  [...] contra a hierarquização científica do conhecimento e seus efeitos de poder intrínsecos (FOUCAULT, 2000, p.15-16).

Desde a arqueologia do saber, Michel Foucault tem procurado distanciar-se da análise do enunciado proposicional do conhecimento científico, normalmente definido pela relação neutra e objetiva entre sujeito e objeto. O distanciamento do sujeito constituinte e do objeto  empírico  dado  torna  a problemática  da  verdade proposta  pelo  filósofo  o  modo  de aplicação de uma “história crítica do pensamento”. Supondo que a problemática da verdade esteja inserida na história crítica do pensamento, infere-se que aquilo normalmente reconhecido como verdadeiro não está no objeto (ele não preexiste, não é dado, torna-se tal numa articulação específica) nem no sujeito (ele  não é uma essência, não é originário, torna- se assim nas práticas em que é tomado); tampouco na adequação entre um e outro (já que não são unidades fixas e determinadas), mas nas articulações históricas de sua mútua modificação e constituição (CANDIOTTO, 2006, grifo do autor).

Assim, para Foucault, não existem objetos naturais tais como a verdade, a doença mental, o poder ou a sexualidade; eles assim se tornam mediante práticas históricas  específicas e raras. As análises da doença mental e da sexualidade moderna podem ser verdadeiras; o que não pode ser uma verdade é saber o que é a loucura e a sexualidade. Não porque seria impossível alcançar a verdade sobre tais objetos, mas porque, já que não existem, neles não há lugar para a verdade ou para o erro (VEYNE, 1995, p.176, apud CANDIOTTO, 2006, grifos do autor).

Diante do exposto e concordando com tais ideias, percorrendo a história da loucura para chegarmos na contemporaneidade e pensarmos a assistência e a pessoa com sofrimento mental de forma menos naturalizada e mais singularizada, a loucura  nem sempre foi algo negativo ou entendida como uma doença. Na realidade, é o discurso que a captura na modernidade, que a constitui como uma doença.

Na Grécia antiga, o louco era visto como um privilegiado, pois seus  delírios davam a ideia de proximidade com a divindade, de poder ter acesso a verdades divinas. Na antiguidade clássica, há um rompimento com a visão mística e proximidade com as artes. Já na Idade Média, a loucura substitui a lepra e herda a estrutura de segregação criada para lidar com esse problema, retirando o louco do convívio social, assim como todas as pessoas que  não se adaptavam a ele (SILVEIRA & BRAGA, 2005).

É no século XVIII, época das Luzes, início da era moderna, que a loucura é tomada como objeto do saber médico. A psiquiatria se desenvolveu como disciplina com maior autonomia no final deste século e a loucura passou a obter um tratamento moral dentro dos asilos. Tanto o tratamento quanto a instituição criada para este modelo terapêutico foram importantes para a autonomização da psiquiatria como especialidade médica, porém, como ressalta Coutinho (2009), é importante reter a noção da sua natureza não-médica e extra- clínica, uma forma do internado internalizar as normas disciplinares associadas ao capitalismo industrial. De acordo com Goldenstein (1993 apud COUTINHO, 2009) isto evidenciava a fusão entre o discurso da moral com o discurso médico, ou ainda, dava ao discurso moral uma tonalidade médica.

Torre e Amarante (2001) argumentam que analisar a história da loucura remete à análise de como a modernidade se constitui como forma de pensamento e organização social e como ela forja uma forma de lidar com a loucura como fenômeno humano e social. Em outras palavras, uma análise da forma da produção de saberes e de exercício do poder sobre os sujeitos que constitui a modernidade. Corroborando esta noção, temos em Birman (1978) que  a experiência individual e coletiva que se tem de um fenômeno é uma produção social e histórica, como os discursos sobre um objeto ou fato o são. No caso da doença mental, isto é ainda mais claro, pois a partir da criação do hospício, a loucura torna-se verdade médica.

Com esta apropriação da loucura pelo saber médico, percebe-se um afastamento cada vez maior desse indivíduo de suas relações exteriores, e o esquadrinhamento de um espaço de institucionalização das relações lá exercidas. O discurso que alimenta esse sistema percebe os loucos como seres perigosos e inconvenientes que, em função de sua “doença”,  não conseguem conviver de acordo com as normas sociais. Retira-se, então, desse sujeito todo o saber acerca de si próprio e daquilo que seria sua doença, ao mesmo tempo em que se  delega esse saber ao especialista (SILVEIRA & BRAGA, 2005, grifo das autoras).

Assim, o que se vê, é que as instituições surgem de necessidades sociais e não de descobertas científicas ou do aprimoramento do conhecimento; o asilo seria o a priori da psiquiatria, e não o contrário. Através do princípio do confinamento e do ideal da normatização do sujeito louco no asilo é produzida uma nova experiência do fenômeno da loucura (TORRE & AMARANTE, 2001). O isolamento é ao mesmo tempo um  ato terapêutico (tratamento moral e cura), epistemológico (ato de conhecimento) e social (louco perigoso, sujeito irracional).

A repercussão que teve a Revolução Francesa para a nova ordem mundial fez com que os princípios alienistas fossem adotados na maior parte do mundo ocidental. O asilo psiquiátrico tornou-se assim o imperativo para todos aqueles considerados loucos, despossuídos da Razão, delirantes, alucinados. O asilo, lugar da liberação dos alienados, transformou-se no maior e mais violento espaço da exclusão, de sonegação e mortificação das subjetividades (AMARANTE, 1995).

Importante ressaltar o contexto histórico em que esse olhar para a loucura vai se transformando: é a modernidade se constituindo a partir da pretensão de rejeitar a tradição, submetendo tudo ao exame crítico da razão e à experimentação, e a classe social burguesa tratando  de  padronizar,  normatizar  os  modos  de vida.  Porém,  como  nos  lembra Foucault

(2004), o interesse da burguesia estava na técnica e no procedimento de exclusão (grifos nosso). Foucault (2004) dirá: "são os mecanismos de exclusão, os aparelhos de vigilância, a medicalização da sexualidade, da loucura, da delinquência, é toda esta micro-mecânica do poder que representou um interesse para a burguesia a partir de determinado momento" (p.185).

1.2 Razão moderna e a exclusão da loucura

Bauman distingue a modernidade em dois períodos: modernidade sólida e modernidade líquida. A modernidade sólida, para Bauman, é caracterizada, principalmente, através da idéia de projeto moderno. O projeto moderno seria o projeto de controle do mundo pela razão. Esse projeto consistia em tornar o mundo o “melhor possível dos mundos” através do ordenamento racional e técnico (MOCELLIM, 2007).

Para Bauman, o projeto moderno, motor da modernidade sólida, realizava através dos Estados-Nações, uma eliminação da ambivalência. Tudo deveria ser conhecido e categorizado – para então ser controlado. Toda ambivalência – tudo que permanecesse duplo, confuso, “em cima do muro” – deveria ser eliminado. A ciência operou essa eliminação da ambivalência através da classificação do mundo, visando seu posterior uso técnico. Os Estados-Nações eliminavam a ambivalência através da separação entre os “de dentro” e os “de fora”, entre os estabelecidos e os outsiders – como diria Elias (2000). O objetivo da ciência era eliminar toda a incerteza, imprevisibilidade e indeterminação. Da mesma forma, o objetivo do Estado era a eliminação de suas contradições internas, e isso significava a exclusão dos que não se adaptassem (MOCELLIM, 2007).

É neste contexto histórico que o capitalismo se instala como uma nova ordem econômica e social, exaltando o novo homem da Razão, pois precisava de um homem produtivo, ao mesmo tempo que necessitava dele como ser consumidor. O liberalismo  se  torna a ideologia fundamental do capitalismo e tem como um de seus elementos centrais a valorização do indivíduo: o individualismo. Cada indivíduo é um ser moral que  possui direitos derivados de sua natureza humana (BOCK, 2015).

A autora acima citada salienta que a ênfase na razão humana e no próprio homem foram características do período de ascensão da burguesia que permitiram uma ciência racional no século XIX. Ainda segundo a autora, a ciência moderna surgia como um método científico rigoroso que buscava desvendar as leis da natureza e construir um conhecimento pela experiência e pela razão. Essa ciência se caracterizava por ser experimental, empírica, quantitativa; positivista (por se constituir como sistema baseado no observável), racionalista (pela ênfase na razão como possibilidade de desvendar as leis naturais), mecanicista (porque  se pautou na ideia do funcionamento regular do mundo, guiado por leis que poderiam ser conhecidas), associacionista (baseado na concepção de que as ideias se organizam na mente  de forma a permitir associações que resultam em conhecimento), atomista (pela  certeza de que o todo é sempre o resultado da organização de partes), e determinista (porque pensou o mundo como um conjunto de fenômenos que são sempre causadoras que essa relação de causa-efeito pode ser descoberta pela razão humana), pois como vimos em Bauman (1999), seu objetivo era eliminar toda a incerteza, imprevisibilidade e indeterminação.

É ainda neste momento histórico que a Psicologia se constitui como ciência (GONÇALVES, 2015), e ela surge como a possibilidade de uma ciência que estude esse sentimento de eu que nasce e se desenvolve com a história do capitalismo (BOCK, 2015,  grifo nosso). O que queremos apontar aqui é como o nascimento da noção indivíduo (que até então não existia) provocou o surgimento de um saber que procurou dar conta dos fenômenos psicológicos, do mundo interno desse homem. Sua apreensão inicial se deu por meio do paradigma científico, positivista, racionalista, mecanicista. Além disso, apontamos também para o surgimento de práticas classificatórias e estigmatizantes que abarcam esta visão de homem e de mundo, visto que eram privilegiados os indivíduos com recursos, sadios, capacitados para o trabalho, e postos à margem e submetidos a tratamentos morais aqueles  que não se encaixavam no modelo vigente ou apresentavam qualquer sinal de "obscuridade".

Junto ao desenvolvimento do capitalismo e da sociedade burguesa vemos um processo de normalização que tinha o intuito de disciplinar. Esse poder disciplinar ou normativo se caracterizou por uma técnica positiva de intervenção e transformação social. O projeto normativo burguês se assentou na norma como um princípio de qualificação e de correção ao mesmo tempo. Assim, a norma não visa excluir ou rejeitar, antes é a pedra de toque de um exame perpétuo de um campo de regularidade dentro do qual se analisa incessantemente cada indivíduo para julgar se ele é conforme a regra ou a norma hegemônica (MISKOLCI, 2003). É desta forma que os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, propostos pelo Iluminismo, acabam por não se concretizar,  criando-se outros problemas,  como o de laço social. O outro não é reconhecido em suas diferenças, a não ser para fortalecer a norma e a regra_ o que não deixa de levar a exclusão.

Mocellim (2007) nos aponta esse problema de que falamos acima quando discute que o escândalo do projeto moderno se deu com a descoberta de que seus nobres meios racionais levaram à fins catastróficos. Assim como Adorno e Horkheimer  (1985), Bauman vê a modernidade (sólida) como um período em que a razão se volta contra si mesma, ou seja, contra os que se utilizam da razão. Os campos de concentração e a tragédia nuclear abalaram profundamente a idéia de que o controle racional do mundo, pela eliminação da ambivalência, traria “o melhor dos mundos possíveis”.

É nesse sentido que, também pela loucura, podemos observar um movimento de inclusão. A preocupação ética com os pacientes psiquiátricos nos asilos, os estudos de Foucault, o advento da medicação como tratamento alternativo ao modelo asilar, são apontados por Filho (2012) como fatores que podem ter contribuído para a mobilização social e política em torno da questão do tratamento psiquiátrico ocorrida após a década de 1950. O autor relata que principalmente a partir dos movimentos associados a Franco Basaglia (que utiliza-se do pensamento fenomenológico-existencial), a questão do tratamento psiquiátrico ultrapassou os limites da esfera clínica, passando a ser vista como um problema social, ideológico e político, e que a crítica ao tratamento dedicado à loucura parece ter tornado o  solo fértil para o que se convencionou chamar de Reforma Psiquiátrica. Ou seja, um processo de desinstitucionalização, que não significa apenas desospitalização, mas  desconstrução. Isto é, superação de um modelo arcaico centrado no conceito de doença como falta e  erro, centrado no tratamento da doença como entidade abstrata. Desinstitucionalização significa tratar o sujeito em sua existência e em relação com suas condições concretas de vida. O tratamento deixa de ser a exclusão em espaços de violência e mortificação para tornar-se criação de possibilidades concretas de sociabilidade e subjetividade (AMARANTE, 1995). Segundo o autor,

A desinstitucionalização (...) é, acima de tudo, um processo ético, de reconhecimento de uma prática que introduz novos sujeitos de  direito  e novos direitos para os sujeitos. De uma prática que reconhece, inclusive, o direito das pessoas mentalmente enfermas em terem um tratamento efetivo, em receberem um cuidado verdadeiro, uma terapêutica cidadã, não um cativeiro. Sendo uma questão de base ética, o futuro da reforma psiquiátrica não está apenas no sucesso terapêutico-assistencial das novas tecnologias de cuidado ou dos novos serviços, mas na escolha da sociedade brasileira, da forma como vai lidar com os seus diferentes, com suas minorias, com os sujeitos em desvantagem social (AMARANTE, 1995).

A importância destas reflexões para estapesquisa é nos levar à desnaturalização da noção de verdade e a uma compreensão mais humana sobre a doença mental, particularmente sobre o autismo, através de uma articulação histórica. O autismo, considerado dentro deste paradigma uma indeterminação, uma ambivalência, também foi capturado por um discurso, o biomédico, e portanto, também encontra-se nesse jogo de poder. Pela observação da história podemos agora abordar o diagnóstico como uma construção social, e não simplesmente como

algo dado, um "erro" puro e simples do sujeito_ coisa que a ciência vai fazer ao se propor explicar. Nosso intuito com isto não é criticar a ciência, mas propor uma ciência crítica, que considera as limitações, e que portanto pode ampliar os sentidos daquilo que toma por objeto, no caso das ciências humanas e sociais, o homem, podendo ser admitido em toda sua complexidade e imprevisibilidade.

Capítulo 2

Discursos Sobre o(s) Autismo(s)

Tratamos no capítulo anterior da produção de verdades. Vimos como o advento da ciência e as transformações políticas, econômicas e sociais fazem surgir o Homo Economicus (FOUCAULT, 2005b), ou seja, um sujeito capaz de tomar decisões racionais para atingir as metas desejadas. A concepção que se tem hoje sobre o autismo é a de uma deficiência, o que nos faz supor que o autista não está inscrito nesse homem da sociedade neoliberalista. Temos, portanto, no autismo, um exemplo da biopolítica das populações que Foucault trata ao abordar a estrutura segurança-prevenção-risco que caracteriza as sociedades modernas e contemporâneas. Para Foucault (2005b), não se trata de agir sobre o corpo; há algo além nesse processo de cura que visa tornar o corpo dócil, normalizado.

Assim, buscaremos neste momento contextualizar a relação autismo/deficiência através do percurso histórico dos discursos sobre o autismo, o que nos leva a pensar sobre "autismos" na medida em que não houve apenas uma forma de concebê-lo e que estas formas se relacionam a um determinado momento histórico, e já apontando para a singularidade da experiência autista. Pretendemos, com isto, nos aproximar das formas de intervenção, tendo compreendido que os discursos produzem práticas e que estas refletem nos modos de nos relacionarmos com a pessoa autista.

Autismo é uma palavra de origem grega (autós), que significa por si mesmo. É um termo usado, dentro da psiquiatria, para denominar comportamentos humanos que se centralizam em si mesmos (ORRÚ, 2012). Esse termo foi tomado emprestado de Bleuler [02] que o utilizava para descrever os sintomas fundamentais da esquizofrenia (BOSA, 2002).

Os primeiros estudos sobre o autismo datam da década de 1940 e foram  publicados por Léo Kanner, um psiquiatra austríaco, residente nos Estados Unidos. Porém, já na década de 1930 o autor denunciava o monopólio de grupos que advogavam para si a propriedade sobre qualquer conhecimento relacionado ao autismo e ao alarde precipitado de curas milagrosas (KANNER, 1968 apud BOSA, 2002). Kanner ressaltava três aspectos sobre os quais deveriam fundamentar-se as especulações em torno do autismo: modéstia, humildade e cautela, pois só assim nos resguardaríamos de uma atitude pseudocientífica e de "gritos prematuros de Eureka" (BOSA, 2002). Isto nos parece fundamental de ser ressaltado, pois como veremos neste capítulo nem sempre houve consenso na forma de conceber o autismo, isto porque, como nos aponta a autora: "a concepção do autismo passa pela própria concepção de cada profissional sobre a relação entre desenvolvimento e psicopatologia; em um nível ainda mais básico, passa pela eterna discussão sobre a relação mente-corpo" (BOSA, 2002, p.22).

Em 1943, Kanner publica um artigo entitulado "Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo" no qual relata o caso de onze crianças cuja desordem fundamental estava na sua incapacidade de se relacionar de maneira comum com pessoas e situações desde o princípio  de suas vidas, em que o autor assume que essas crianças vieram ao mundo com inata inabilidade para travar contato afetivo normal, biologicamente fornecido, com pessoas, da mesma forma que outras crianças vêm ao mundo com inatas deficiências físicas ou intelectuais (KANNER, 1943). Apesar do cuidado de Kanner em não se precipitar, chamando a atenção para a necessidade de outros estudos, inicialmente o autismo foi considerado um distúrbio do afeto.

A respeito deste estudo, gostaríamos de ressaltar ainda, que as observações de Kanner não se restringiram apenas aos aspectos incapacitantes do nomeado "distúrbio autístico" (o que vemos hoje nos manuais de classificação), sendo observado e relatado pelo autor a excelente memória, boa inteligência (embora não demonstrassem), ausência de comprometimento  no  plano  físico  (na  maioria  das crianças)  e surpreendente  habilidade namotricidade fina (evidenciada, por exemplo, na habilidade para girar objetos circulares [03]). Para esse autor, uma das características-chave no autismo era a insistência obsessiva na  manutenção da rotina somada a inabilidade no relacionamento interpessoal. Tudo que não era alterado quanto à aparência e posição, ou seja, conservava sua identidade e não ameaçava seu isolamento, além de ser bem tolerado pela criança se tornava objeto de seu interesse. Segundo Bosa (2002), essas observações representam o embrião das noções contemporâneas de que o senso de previsibilidade e controle sobre as situações facilita a adaptação e a aprendizagem de indivíduos com autismo e têm implicações para intervenções.

Concomitante aos estudos de Kanner, Hans Asperger (1944), salientou em suas descrições sobre o que denominou de "psicopatia autística", não tanto o extremo retraimento social, mas a forma ingênua e inapropriada de aproximar-se das pessoas. Depois ambos passaram a empregar o termo autismo na forma de substantivo para chamar a atenção sobre a qualidade do comportamento social que perpassa a simples questão de isolamento físico, timidez ou rejeição do contato humano, mas se caracteriza, sobretudo, pela dificuldade em manter contato afetivo com os outros de modo espontâneo e recíproco (BOSA, 2002).

De acordo com Silva (2014), no primeiro momento de sua história,  entre os anos de 1943 e 1963, o autismo era definido como um transtorno emocional produzido por fatores emocionais ou afetivos inadequados na relação da criança com a família. O termo “mãe- geladeira”, de base psicanalítica, foi utilizado por Bruno Bettelheim, que o divulgou em seus artigos nos anos 1950/60, associando-o à causa do autismo. Segundo esse psicanalista, o autismo seria causado pela indiferença das mães aos filhos, o que produziria uma alteração grave no desenvolvimento da criança, a qual seria potencialmente normal e possuiria uma inteligência melhor do que a apresentada. Contudo, sua inteligência não era expressada por causa da perturbação emocional ocasionada pela ausência de afeto dos pais. Nesse momento indicava-se, à pessoa que recebia o diagnóstico, uma terapia dinâmica para estabelecer laços emocionais saudáveis. Embora a hipótese de que o autismo seja provocado pela ausência de afeto dos pais ainda faça parte do imaginário social, ela não foi comprovada. As terapias indicadas não se efetivaram.

Edward Dolnick (1998 apud ORTEGA, 2009) explica que o que chamou de “orgia de ataques aos pais” (orgy of parent bashing) dificultou a aparição de algum tipo de organização de autistas e/ou de seus familiares e que os pais absorveram as acusações e suportaram pacientemente a culpa não apenas pela hegemonia médica e sociocultural do paradigma psicanalítico, mas devido ao fato de que, frente às explicações orgânicas que remetiam para uma certa inevitabilidade, uma sentença definitiva, a abordagem psicológica parecia oferecer algum tipo de esperança. “Havia uma parte de mim que queria acreditar em Bettelheim” declara Annabel Stehli, mãe de filha autista, após a leitura de A fortaleza vazia de Bruno Bettelheim, “porque isso significaria que se eu melhorasse, Georgie iria melhorar. [...] Se eu mudasse, Georgie iria melhorar e eu queria que minha filha melhorasse”.

No âmbito da psicanálise, há ainda os estudos de Frances Tustin, que baseava-se na hipótese de que o bebê sofreria um trauma ao perceber seu corpo separado do corpo de sua mãe, provocando uma experiência psíquica fantasmática, paralisando o desenvolvimento psicológico da criança em um estágio prematuro da vida do bebê. Tustin enfatizava a importância de uma abordagem educativa para os autistas (ORRÚ, 2012). E os estudos de Margareth Mahler e Melanie Klein, que consideravam o autismo um tipo de psicose infantil (uma ruptura no estabelecimento de relações objetais), concepção que Kanner também adotou em trabalhos posteriores (1968, 1973), separando definitivamente a síndrome da esquizofrenia infantil [04] (BOSA, 2002).

Desde o final dos anos 1960, os pais pressionaram a favor do diagnóstico de autismo, pois era a única forma de distúrbio de aprendizagem que não se classificava como "ineducável" na Grã-Bretanha (LAURENT, 2014, grifo do autor). A primeira associação formada por familiares e profissionais na área de autismo [05] surgiu na Inglaterra, em 1962, para difundir as informações sobre o autismo. Segundo Bosa (2002), isto aumentou os debates criando-se demandas pela investigação sobre a questão da relação entre autismo e transtornos do desenvolvimento, em especial o da deficiência mental e os de problemas de linguagem e comunicação. Podemos perceber assim, uma pressão por parte dos pais e profissionais, em  que Laurent (2014) acrescentará que o estatuto de deficiência, distinto do de doença,  permitiu aos pais reivindicar alguns direitos, entre os quais o de ter acesso a instituições de educação especializada.

No segundo momento, entre 1963 e 1983, surgiram os indícios de associação do autismo com transtornos biológicos. Esse aspecto coincidiu com a elaboração de modelos explicativos, construídos a partir de experiências exigentes e rigorosas, baseados na hipótese de que algumas alterações cognitivas explicariam as dificuldades nas relações, na linguagem, na comunicação e na flexibilidade mental. Nesse período, a educação estabeleceu-se como o principal tratamento para as pessoas com autismo porque se direcionava, essencialmente, à modificação dos comportamentos (SILVA, 2014).

Segundo Klin (2006), no início dos anos 1960, um crescente corpo de evidências começou a acumular-se, sugerindo que o autismo era um transtorno cerebral presente desde a infância e encontrado em todos os países e grupos socioeconômicos e étnico-raciais investigados. Ainda segundo o autor, um marco ocorreu em 1978 na classificação do autismo, quando Michael Rutter propôs uma definição do autismo com base em quatro critérios: 1- atraso e desvio sociais não só como função de retardo mental; 2- problemas de comunicação, também não só em função de retardo mental; 3- comportamentos incomuns, tais como movimentos estereotipados e maneirismos; e 4- início antes dos trinta meses de idade.

A definição de Rutter e o crescente corpo de trabalhos sobre o autismo influenciaram  a  definição  desta  condição  no  DSM-III,  em  1980,  quando  o  autismo pela primeira vez foi reconhecido e colocado em uma nova classe de transtornos, a saber: os transtornos invasivos do desenvolvimento (TIDs) (KLIN, 2006).

Silva (2014) localiza este momento como o terceiro momento histórico  do autismo, que segue até a atualidade. Nesse período, ocorreu uma mudança nos manuais utilizados para classificar as doenças e os transtornos mentais, a Classificação  Internacional de Doenças (CID), organizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), elaborado e sistematizado pela Associação Psiquiátrica Americana (APA).

A denominação de autismo como psicose infantil modifica-se para Transtorno Global do Desenvolvimento na CID 10 (1993); inserido na categoria geral dos Transtornos Invasivos do Desenvolvimento (Pervasive Developmental Disorders) no DSM III, Distúrbios Globais do Desenvolvimento na edição do DSM III – R, versão revisada, para Transtorno Invasivo do Desenvolvimento no DSM-IV (1996). Atualmente, na edição do DSM-V (2013), a denominação modificou- se para Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Ao se preferir  o diagnóstico em detrimento das psicoses infantis, o autismo se espalhou feito uma epidemia (LAURENT, 2014).Desta forma, podemos perceber dois discursos em torno do autismo ao longo da história: um sobre a psicogenicidade, e outro sobre a organicidade, sendo este último o que prevalece na atualidade, oferecendo e recebendo o suporte das neurociências e da indústria farmacêutica.

Vemos em Bosa (2002) que existem vários princípios diagnósticos para classificação do autismo, por exemplo, a classificação francesa (que define autismo como psicose), o Grupo para o Avanço da Psiquiatria (GAP; enquadra o autismo em transtornos psicóticos), a CID (enquadra nos transtornos globais do desenvolvimento), e o DSM (transtorno do espectro autista), contudo, os mais utilizados são o DSM e a CID.

A CID-10 (1993), define o autismo pela presença de desenvolvimento anormal e/ou comprometimento que se manifesta antes dos três anos de idade e pelo tipo característico de funcionamento anormal em todas as 3 áreas de interação social, comunicação e comportamento restrito e repetitivo. Este manual utiliza as seguintes diretrizes diagnósticas:

  1. Há   sempre    comprometimentos    qualitativos    na   interação    social    recíproca (apreciação inadequada de indicadores socioemocionais);
  2. Comprometimentos qualitativos na comunicação são universais (falta de uso  social de quaisquer habilidades de linguagem que estejam presentes);
  3. Padrões   de   comportamento,   interesses   e   atividades   restritos,   repetitivos  e estereotipados (tendência a impor rigidez e rotina a uma ampla série de aspectos do funcionamento diário). Acrescentará ainda que é frequente a criança mostrar outros problemas tais como medo/fobias, perturbações do sono e alimentação, ataques de birra e agressão. Autolesão é comum, e a maioria dos indivíduos carece de espontaneidade, iniciativa e criatividade na organização de seu tempo de lazer.

Em relação a edição passada, a nova edição do DSM (DSM-V) trouxe uma nova estrutura de sintomas, e a tríade de sintomas que modela déficits de comunicação separadamente de prejuízos sociais do DSM-IV, foi substituída por um modelo de dois domínios composto por um domínio relativo a déficit de comunicação social e um segundo relativo a comportamentos/interesses restritos e repetitivos. Além disso, o critério de atraso ou ausência total de desenvolvimento de linguagem expressiva foi eliminado do DSM-V, uma  vez que pesquisas mostraram que esta característica não é universal, nem específica de indivíduos com TEA [06]. O DSM-V incluiu na categoria TEA o transtorno autístico (autismo), transtorno de Asperger, transtorno desintegrativo da infância, e transtorno global ou invasivo do desenvolvimento sem outra especificação. A fim de receber um diagnóstico de TEA, uma pessoa deve apresentar os três seguintes déficits em interação social e comunicação:

  1. Problemas de interação social ou emocional alternativo – Isso pode incluir a dificuldade de estabelecer ou manter o vai e vem de conversas e interações, a incapacidade de iniciar uma interação e problemas com a atenção compartilhada ou partilha de emoções e interesses com os outros.
  2. Graves problemas para manter relações – Isso pode envolver uma completa falta de interesse em outras pessoas, as dificuldades de jogar, fingir e se engajar em atividades sociais apropriadas à idade e problemas de adaptação a diferentes expectativas sociais.
  3. Problemas de comunicação não verbal – o que pode incluir o contato anormal dos olhos, postura, expressões faciais, tom de voz e gestos, bem como a incapacidade de entender esses sinais não verbais de outras pessoas.

Com relação ao segundo domínio, comportamentos/interesses restritos e repetitivos, o indivíduo deve apresentar pelo menos dois destes comportamentos:

  1. Apego extremo a rotinas e padrões e resistência a mudanças nas rotinas
  2. Fala ou movimentos repetitivos
  3. Interesses intensos e restritivo
  4. Dificuldade em integrar informação sensorial_ ou forte procura ou evitar comportamentos de estímulos sensoriais [07].

Nesta perspectiva, considera-se que os sintomas devem estar presentes no início da infância, mas podem não  se manifestar completamente até que as demandas sociais excedam o limite de suas capacidades. Segundo Sauvagnat e Nogueira Santos (2012), a escritura do DSM foi uma reação a um vivido de humilhação, sentido pelos psiquiatras americanos da época em relação aos médicos britânicos. O DSM se apresentou como uma classificação não teórica, objetiva, e o DSM III (edição de corte com a teoria psicanalítica) privilegiava a dimensão do sintoma, entendido no sentido epidemiológico do termo. Nesse sentido, os próprios idealizadores do DSM reconhecem que, nos Estados Unidos, “o impulso inicial para a criação do DSM foi a necessidade de coletar informações estatísticas” (APA, 2002, pag.22). Sauvagnat aponta ainda para a variabilidade dos critérios diagnósticos de uma edição para outra, acarretando, por exemplo, "epidemias" como a de autismo, conforme os critérios definidos no DSM IV, e um enxugamento do diagnóstico na edição seguinte, revelando ainda o aporte político do manual.

Os integrantes da força tarefa que organizaram os últimos DSM se intitulam neokraepelianos. Assim como o DSM, Pessoti (1999) nos lembra que a classificação de Kraepelin prioriza a descrição de sintomas, e não a etiologia das doenças (NETO ET AL., 2011). Os diagnósticos são então considerados como  instrumentos  convencionais, dispensando qualquer referência ontológica.

Segundo Caponi (2014), diversas vozes mostraram sua oposição a nova edição de um manual que, repetindo o modelo das versões anteriores, apresenta grandes fragilidades epistemológicas, limitando-se a elencar uma lista de sintomas pouco claros para um conjunto cada vez maior de patologias mentais. Laurent (2014) salienta que sem as discussões "teóricas" sobre o que é e o que não é uma doença mental, os únicos debates incidem sobre a quantidade de itens a ser controlada (grifo do autor).

Ortega (2009) observa que embora não exista consenso acerca de numerosas doenças psiquiátricas, o fato de serem nomeadas como doenças constitui uma forma de poder  e utilidade social. E em relação ao autismo, exemplos de poder e utilidade social não faltam  no DSM-V. Pela aplicação mecânica de definições cujos critérios inclusivos se estendem até que não  se veja por que eles poderiam ser  limitados sem discussões técnicas,  cada vez  mais sujeitos vão ser atingidos por decisões médico-legais (LAURENT, 2014). Este autor aponta a questão de o DSM-V poder levar a uma eventual redução do número de sujeitos enquadrados no espectro autista exatamente em um momento em que o movimento, principalmente das associações de pais, tem surtido efeitos e o diagnóstico passou a ter valor legal para dar acesso a programas e apoios especialmente reservados para sujeitos autistas.

Com isto, um número considerável de crianças será excluída do sistema de apoio por pura arbitrariedade classificatória. Nesse sentido Laurent dirá:

A zona DSM pensa gerir o campo da saúde mental segundo um sistema que propõe classificações sob a forma de hipóteses, incorporam o estado de conhecimentos reconhecidos por consenso no momento em que são formulados. Efetivamente, é um instrumento de gestão das populações que não pode ignorar as consequências de seu autoritarismo classificatório que avança mascarado de falsa ciência. Não são hipóteses “científicas” que o sistema acionado testa. Ele testa o efeito de massificação segregativa produzido em seu nome e a tolerância social contra esse efeito (LAURENT, 2012, p.15).

Ainda assim, Mayes e Horwitz (2005) salientam que o DSM é uma referência internacional, sendo utilizado pelos sistemas de saúde pública, convênios médicos e centros  de pesquisa psiquiátrica e farmacêutica_ mesmo com os Estados Unidos se posicionando  entre países de terceiro mundo em termos de saúde mental (SAUVAGNAT, F.; NOGUEIRA SANTOS, R. A., 2012).

O que gostaríamos de ressaltar aqui é o fato da experiência da criança estar limitada aos sintomas elencados por tais manuais, a causas apenas biológicas, genéticas ou ambientais, como se o autismo não fosse nada mais que apenas mais um termo da ciência, esquecendo-se a pessoa. Ao receber o diagnóstico de autismo, a criança (e seus familiares) passam a carregar os sintomas elencados pelos manuais como absolutos, reduzindo a experiência, e o que seria mais uma forma (dentre tantas) de ser e estar no mundo, se transforma em algo a ser modificado, uma deficiência. Sendo que, para nós, fica claro que  essa é a própria lógica da segregação a que os "autistas" e seus familiares são submetidos. Trataremos sobre isto mais adiante.

Os autores Calazans e Martins (2007), trazem uma reflexão interessante sobre os mecanismos implícitos em tais manuais. Ao considerarem algumas acepções de "transtorno", concluem que: 1. O transtorno é uma perturbação da ordem a ser seguida; 2. Se há uma ordem a ser seguida, há a necessidade de adaptar-se a essa ordem; 3. O transtornado é alguém que sofre de um déficit de competências em relação aos outros sujeitos que se adaptaram a essa ordem. O transtorno, portanto, necessita de uma terapêutica, uma vigilância sanitária psíquica, e de um manual que permita recensear os diversos transtornos. Desse modo, esse manual se torna um instrumento que permite estabelecer os critérios para a ordem que toma a forma de uma realidade inexorável – daí sua auto-proclamação de a-teórico – que os transtornos vêm perturbar. É daí que a definição do autismo como um transtorno vem junto à afirmação de que o fim terapêutico é a adaptação do sujeito a normas sociais.

Os autores levantam ainda uma questão que nos interessa e que traremos a seguir,  a da singularidade. Os números de categorização de transtornos nos DSMs só aumentam em suas versões desde 1978. Será que essa busca frenética de estabelecimento e manutenção da ordem não mostra no DSM uma necessidade de excluir o singular do sujeito? E, nessa exclusão do singular, ele não acaba produzindo cada vez mais transtornos? Trata-se, de uma rede de controle que visa enredar o singular, porém, concordando com os autores, o singular é o que por definição não pode ser apreendido.

2.1 Anulação e afirmação de subjetividades: dois efeitos de um discurso

Na sessão anterior vimos os diversos discursos produzidos acerca do autismo e a prevalência do discurso biológico. Como não há até hoje uma causa para o autismo, convencionou-se na comunidade científica o uso de manuais diagnósticos para a classificação da condição. Entende-se que a pura observação empírica das manifestações de  comportamento (sua presença, constância e intensidade) reduziriam os erros e ambiguidades de diagnósticos, estabelecendo-se critérios de forma a padronizar um transtorno.

Médicos, cientistas, psicoterapeutas, familiares, e sociedade, se atêm ao que é observável, ao comportamento, sendo a proposta de intervenção igualmente direcionada a tais comportamentos, objetivando sua correção, normalização. Sendo assim, a questão que gostaríamos de trazer agora é dos efeitos desses discursos sob a subjetividade.

Segundo o autor Wilson Senne (2005), diagnosticar, em sentido  genérico, equivale a "conhecer". Porém, concordando com Martins (2004), em geral, a medicina tende a esquecer que seu 'objeto' é um paciente real, concreto, que ultrapassa em complexidade os esquemas orgânicos, fisiopatológicos, físico-químicos, que sua ciência pode  abarcar.  A ciência pode ser tida como 'exata', mas o ser humano não o é, nem nunca o será. Então, perguntamos: como "conhecer" aquilo que está para muito além do que o que a ciência empírica pode alcançar?

O autor observa ainda que para ser científica, a medicina deve reduzir o objeto a sistemas formais e assim poder ser universalizado (uma característica da ciência), a desvantagem disso é a perda das características singulares dos objetos (MARTINS, 2004).

Nesse sentido, concordamos com Silva (2014) quando comenta que a partir da definição das características do autismo, ocorreu o que optou por denominar de “desaparecimento do individual e do singular”, em que até mesmo o nome das pessoas desaparece, deixando de ser “Pedro” e “Maria” para serem “os autistas”.

Martins (2004) observa que a crença na ciência faz com que o médico  acredite que pode, ou mesmo deve, se dar ao direito de invadir a autonomia do indivíduo para lhe impor a 'verdade', e que este é o seu álibi para o exercício de poder sobre o paciente. Porém, o autor dirá que esse poder não é nem de direito, nem necessário para o tratamento. Mas o fato é que ele existe e o médico, ao impor sua 'verdade científica' ao paciente, tira dele todos os seus direitos e corrige seu defeito, pois é ele quem sabe a 'verdade' sobre o corpo do paciente (grifos do autor).

Nesse sentido concordamos com Laurent (2014): "um sujeito não cessa de ser sujeito, mesmo que seu corpo seja 'deficiente' (p.33, grifo do autor). Nos perguntamos: será esse o máximo a que se propõe a ciência, submeter o corpo (infantil_ época em que se faz o diagnóstico de autismo) a tal invasão sem o seu consentimento? Vemos então dois problemas de ordem ética, qual seja, o da não consideração da criança como alguém com valor e direitos; e ao nomeá-la "deficiente", assume-se a intolerância e não aceitação do diverso. Isto não significa abandoná-lo em suas dificuldades, o que implicaria o mesmo problema ético, invertido. Chamamos atenção, no sentido contrário, para a possibilidade de aceitá-lo naquilo que ele pode naquele momento, expandindo suas capacidades, e não "consertando" seus “defeitos”, pois a pessoa está para além do que se nomeia  "deficiência".  Deficiente  em relação a que? Tal pensamento encontra eco nas palavras de Carly Fleischmann, uma jovem canadense  diagnosticada com autismo  severo  aos dois anos de  idade. Ela  diz: "Sou autista, mas isso não me define. Conheça-me antes de me julgar" [08].

Este processo nos faz pensar na medicalização da sociedade, em que a medicina detém o poder de curar os desvios de desenvolvimento em relação ao curso considerado normal, útil e produtivo da sociedade (SILVA, 2014).

Com relação aos manuais, e a classificação na vida das pessoas, Coll et al. (2004, p. 238 apud SILVA, 2014) afirmam em relação ao DSM-IV, que “é uma tentativa de dar objetividade a um campo particularmente subjetivo”. É importante atentar-se para o fato de aspectos classificatórios semelhantes, existentes de modo diferenciado na organização  singular dos diferentes indivíduos, serem utilizados pelos manuais para a classificação de todos. Os aspectos são semelhantes, porém nunca serão iguais devido ao caráter constitutivo histórico, social e cultural da vida de cada um. A uniformização dos sintomas nega o percurso singular do desenvolvimento dos indivíduos em seus contextos de vida (SILVA, 2014).

Assim, se de um lado a pessoa na condição autista "não existe", ela é anulada em sua singularidade pois existe um discurso, biomédico, falando por ela, uma normalidade que lhe é imposta e um saber científico que esforça-se para curá-la, normalizando-a, do outro lado ela quer existir. É nesse sentido que vemos os efeitos dos discursos de anulação das singularidades, a partir de movimentos como o da neurodiversidade, movimento anticura que surge na virada do século XXI. Pessoas diagnosticadas com a forma mais branda do transtorno são a força motriz por trás do movimento (ORTEGA, 2008).

O termo neurodiversidade é referido a uma conexão neurológica atípica. Não é uma doença, mas uma parte constitutiva do que eles são. Trata-se antes de uma diferença humana que deve ser respeitada como outras diferenças (sexuais, raciais, entre outras). Os indivíduos autodenominados "neurodiversos" consideram-se "neurologicamente diferentes", ou "neuroatípicos" (ORTEGA, 2008). A socióloga australiana Judy Singer criou o termo para propor uma nova - e polêmica - percepção das até então denominadas "doenças mentais" (PORTELA ET AL., 2012, grifos dos autores).

Segundo Ortega (2009), a história do movimento de neurodiversidade, e mais especificamente em relação à cultura autista, está ligada ao deslocamento das concepções psicanalíticas para uma concepção biológica e cerebral do transtorno autista.O deslocamento do modelo psicanalítico e a aproximação das neurociências possibilitou que os pais fossem desresponsabilizados e desimplicados dos destinos subjetivos dos filhos. Apesar  das críticas do modelo psicanalítico a essa aparente “desimplicação” e da aproximação das neurociências, é precisamente devido ao deslocamento do paradigma psicanalítico que surgiram tanto os movimentos de pais e profissionais que buscam uma cura para o autismo e apóiam terapias comportamentais e psicofarmacológicas, como os movimentos da neurodiversidade. Estes últimos rejeitam as explicações psicológicas negativistas e culpabilizantes, afirmando um autismo cerebral, na base de uma identidade autista vivenciada com orgulho  (ORTEGA, 2009). Os adeptos do movimento apresentam uma desconstrução da retórica pró-cura presente no autismo indicando que se a neuroatipicidade é uma doença, então a  neurotipicidade também o é, classificando a normalidade como uma síndrome e, portanto, propondo uma cura para ela, como forma de mostrar o absurdo que é buscar uma cura para o autismo.

Através dos estudos do autor Francisco Ortega (2008; 2009) podemos observar que  o  movimento  da  neurodiversidade  vem  apontando   duas  questões  importantes.  Uma referente à práticas eugênicas, pois assumir o autismo como diferença libera os indivíduos do desejo ou da necessidade da cura, o que resulta muito importante em uma época na qual existem grandes chances de dispormos, em breve, de testes genéticos que poderão impedir crianças autistas de nascer; a outra referente ao fato do movimento ser constituído por pessoas autistas de "alto funcionamento". Familiares que buscam a cura criticam a posição defendida pelo movimento da neurodiversidade, pois tais argumentos poderiam oferecer razões para que seja recusado o financiamento das terapias.

Este fato provoca a irritação de pais e profissionais que lutam pela implantação e pelo custeio público das terapias, principalmente a terapia cognitiva ABA (Análise Comportamental Aplicada [09]), que para muitos pais constitui a única terapia que permite às crianças autistas realizarem algum progresso no estabelecimento de contato visual e em certas tarefas cognitivas. Porém, para os ativistas autistas, a terapia reprime a forma de expressão natural  dos autistas (Dawson 2004 apud ORTEGA, 2008).

Como podemos observar, o movimento é polêmico, e Portela et al., (2012) comentam que alguns ativistas chegam a defender a ideia de que o autismo é uma cultura, na medida em que se constitui como uma experiência singular, um jeito de ser e de estar no mundo. Não se trata, portanto, de "ter" autismo, mas de "ser" autista (grifos dos autores).

Nessa perspectiva, vimos o quanto os discursos sobre o(s) autismo(s) podem influenciar nos modos de subjetivação das pessoas, tanto as diagnosticadas como  as envolvidas mais diretamente com elas. Autismo pode ser um "transtorno", mas também pode ser mais um nome para o que a ciência ainda não consegue explicar, principalmente quando nos propomos a pensar mais criticamente sobre as relações saber-poder-verdade implícitas em nossa sociedade.

Quando Carly Fleischmann pôde ser ouvida, vimos sua necessidade de ser mais  do que um rótulo, um conjunto de sintomas, porém estando sob a insígnia da ciência sua subjetividade é capturada. Filho (2012) nos aponta a armadilha da objetividade, que diz respeito à tentativa humana de estabelecer um padrão objetivo para a realidade, quando o padrão que parece ser mais adequado é um consenso perceptual. Mencionando os autores Mendez, Coddou & Maturana (1998), dirá que, para eles, o desacordo que surgir na busca de uma realidade objetiva “dura”, inflexível, será um desacordo intransponível, gerando até os rótulos e estigmas tais como errado, mau, louco etc. Este é o tema que gostaríamos de trazer no terceiro capítulo de nossa pesquisa: como estes discursos revelam práticas, modos de se relacionar e intervenções técnicas?

Capítulo 3

Saber Biomédico e Suas Práticas: Intervenções nos Casos de Autismo

Neste capítulo nos aproximaremos do que Foucault afirmou sobre a sua história  da loucura, que mais importante que saber se a doença mental existe ou não, interessa saber o que foi feito em nome dela e como é que as pessoas se relacionavam com este conceito (KELLER 2008 apud COUTINHO, 2009).

3.1 O psicodiagnóstico e a produção de estigmas

Observamos nas características do autismo presentes nos manuais diagnósticos as dificuldades, déficits, comportamentos tidos como bizarros ou estereotipados, o uso da linguagem sem função comunicativa, ou seja, uma descrição do que encontra-se aparente, sem aprofundamento sobre os seus sentidos, e ainda, sob o enfoque estritamente biológico e tendo um ideal de normalidade como pano de fundo. Essa ideia norteia o vídeo "In my language",   da ativista Amanda Baggs em que ela faz um registro do modo específico com que os autistas interagem com o mundo, e uma tradução (através de um programa de computador) para os "neurotípicos":

Só quando eu digito alguma coisa na sua linguagem é que você se refere a mim como tendo capacidade de comunicação", diz Baggs. "Sinceramente, eu gostaria de saber como muitas pessoas, se me encontrassem na rua, iriam acreditar que escrevi tudo isso. A propósito, eu acho interessante  que  a minha falha no uso da sua língua seja considerada como um déficit, mas a  sua falha em aprender a minha seja vista como uma coisa natural (in PORTELA ET AL., 2012).

Sobre isto, podemos pensar sobre a força de um diagnóstico, que impõe à pessoa um rótulo de incapaz, deficiente(segundo determinados parâmetros sociais e biológicos), com o qual a sociedade e os familiares irão se relacionar. Concordamos com Silva (2014) quando observa que voltar-se apenas às características diagnósticas dos manuais direciona o olhar da sociedade, predominantemente, ao déficit e à falta. Para Senne (2005), definir alguém pela privação e pela negação não seria defini-lo, mas julgá-lo menor ou inferiorizá-lo, pois a negação  não  nos dá realidade  alguma.  Ademais,  este  julgamento,  que destitui o  outro  de alguma qualidade tida como essencial, fomenta a estigmatização, a generalização da deficiência.

Ian Hacking, o filósofo da ciência, afirma, lembrando Nietzsche, que o nome que damos às coisas importa infinitamente mais do que elas são, que basta criar nomes e classes para criar tipos de pessoas, modos de ser sujeito. Nas palavras de Hacking:

os sistemas atuais de diagnóstico e de tratamento contribuem para produzir o tipo de comportamento anormal característico de uma determinada doença. Classificação e diagnóstico são categorias historicamente construídas e essa construção interage com as pessoas e contribui para produzir certos comportamentos que, por sua vez, podem confirmar o diagnóstico (HACKING, 2006, p. 7 apud CAPONI, 2014).

Toda classificação de pessoas gera uma resposta. Alguns grupos (por vezes determinados arbitrariamente) étnicos ou sociais acabam se tornando alvos de preconceitos, e mesmo as pessoas consideradas comuns ou normais recebem diferentes rótulos. Porém, existem classificações, institucionalizadas ou “oficiais”, que se difundem mais facilmente e possuem maior credibilidade perante a sociedade (BRZOZOWSKI, BRZOZOWSKI e CAPONI, 2010).

Hacking (1999, apud BRZOZOWSKI, BRZOZOWSKI e CAPONI, 2010)  sugere que alguns tipos de doenças, como a esquizofrenia e o autismo, são, ao mesmo tempo, indiferentes (não interagem com a classificação que recebem) e interativos (reagem às classificações que lhes são impostas). O componente indiferente da doença são suas causas biológicas, enquanto o componente interativo é o estereótipo do portador daquela doença,  que, na perspectiva biomédica, se refere ao conjunto de sintomas. Mas o estereótipo do portador da doença assume ainda um aspecto social, quando encarnado no comportamento do próprio paciente. Tem-se, assim, três elementos a partir dos quais se construirá a interação entre classificação e classificado: do lado biomédico, as causas biológicas e o conjunto de sintomas; do lado social ou extrabiomédico, o comportamento do paciente.

Hacking (2007) escreve que, por trás de cada classificação, existe uma estrutura que engloba cinco aspectos primários: a classificação, os indivíduos, as instituições, o conhecimento e os especialistas. A classificação em si gera os tipos de pessoas.

Segundo o autor supracitado, as instituições determinam quais as disposições importantes para a classificação resultando na adoção de procedimentos que restituam as disposições perdidas, que são nada menos que os sintomas das doenças.

A partir de um diagnóstico bem estabelecido, qualquer comportamento inesperado da criança passa a ser justificado pela doença que ela apresenta. As atitudes das pessoas ao seu redor se modificam em função do diagnóstico e das características consideradas como devidas à doença. A partir do momento em que alguém entra para o rol dos doentes deve haver um tratamento disponível para tratar essa condição (BRZOZOWSKI, BRZOZOWSKI e CAPONI, 2010, grifo nosso).

Peter Conrad (CONRAD e SCHNEIDER, 1992) chama esse controle do desvio e  a promoção da conformidade social de controle social. Aquele que foge das normas deve ser controlado, para que a sociedade, ou a família, ou a escola, voltem ao seu "estado normal". O sistema jurídico, policial, educacional, de assistência social e até o sistema de saúde, são as formas "oficiais" de controle, aquelas que ninguém está apto a questionar se não for especialista na área. Por serem tão aceitas e, no caso específico do sistema de saúde, por possuir um respaldo da ciência, suas consequências são geralmente muito mais profundas e duradouras, tanto para o indivíduo classificado quanto para a sociedade e o meio em que ele vive (CONRAD e SCHNEIDER, 1992).

Para Martins (2008), o modo de funcionamento do dispositivo psiquiátrico, com seus protocolos de cuidados, na sua maneira de abordar a doença, acaba de alguma maneira anulando ou diluindo a identidade de quem está doente, portanto a doença. Nesse sentido, o sintoma se solda à pessoa, e a doença toma o lugar de identidade do doente.

Coutinho (2009), ao fazer uma reflexão crítica acerca do diagnóstico psiquiátrico em sua tese de mestrado, apresenta os conceitos a ele ligado, como o normal e o patológico, como construções sociais dependentes do contexto sociopolítico e histórico em que se desenvolvem. E vai além, refletindo também sobre a promoção da diferença e perpetuação do estigma [10] pelo uso naturalizado de conceitos diagnósticos.

Goffman formula o conceito de estigma não como sendo um objeto reificado, mas como um processo social, um processo que se desenvolve na relação, na interação. Aqueles que são descriminados numa determinada situação ou por determinado atributo podem não o ser consoante o contexto sociopolítico e histórico em que se encontra. A pessoa é reduzida na sua individualidade, por um efeito de subtração de confiança e respeito (GOFFMAN, 1963).

Imersos no paradigma positivista, passamos a não confiar que a pessoa pode ser mais do que aquilo que se descreve nos manuais, passamos a desrespeitá-la em sua individualidade. Porém, nas palavras da autora Rosana Glat (1999) e de diversos autores, o baixo nível de funcionamento e adaptação social dos indivíduos portadores de deficiência mental não provem apenas de fatores internos, mas sobretudo da falta de comportamentos apropriados no  seu  repertório,  devido  ao tipo  de  socialização  e  educação que receberam, principalmente à maneira estereotipada como são tratados pelos demais (grifo nosso). Desta forma, seria o tipo de relação (de desconfiança do seu potencial) que se estabelece com a pessoa, que faz com que ela funcione em um nível muito mais baixo de autonomia e inserção social do que seria permitido por sua condição orgânica.

Cavalcanti e Rocha (2001) chamam a atenção para o “efeito iatrogênico” – ação danosa adversa – que o diagnóstico “autismo infantil precoce” contém, pelo impacto sobre aqueles que estão ao redor da criança: "Diante desse diagnóstico não é raro que pais e familiares retirem seus cuidados das crianças e passem a tratá-las como ‘doença’ ou – o que é pior – pelo que imaginam que é essa 'doença'" (p. 64, grifos dos autores). Os profissionais envolvidos no atendimento a essas crianças também muitas vezes participam desse mesmo efeito: "Se estamos fadados, pelo constrangimento de nossas narrativas, a ver e descrever  essas crianças através de suas deficiências, ficamos cegos e surdos para suas capacidades, assim como cegos e surdos ficam seus próprios pais" (CAVALCANTI e ROCHA, 2001, p. 64).

Nos parece que a tolerância social com os diferentes está muito baixa. Qualificar a pessoa autista de incapaz, inacessível, incomunicável quando é exatamente isso que se acredita dela, é o mesmo que colocá-la numa espiral de sofrimento. Pensamos ser necessário e urgente desconstruir o convencional, deixando de nos relacionar com a pessoa a partir do que esperamos dela para nos relacionarmos com ela. Pensamos ser esse um exercício muito importante para a prática clínica, pois relembrando Foucault, os discursos nos dizem como as coisas são, e como veremos a seguir, o viés que tem orientado a prática se coaduna ao  discurso positivista.

3.2 Práticas biomédicas

Assim como o diagnóstico de autismo é feito considerando-se apenas  o observável, e neste caso o observável segundo a descrição dos manuais, resume-se a um conjunto de déficits, as intervenções preferíveis, científicas, estarão da mesma forma, voltadas para o observável, o comportamento. Neste ponto de nossa pesquisa buscaremos refletir sobre algumas questões relacionadas a ética e autismo.

As intervenções no autismo visam a modificação do comportamento, pois este é tido como socialmente inapropriado e, sendo assim, impõe-se a norma a pessoa autista. Uma outra questão ética se refere ao momento que é feito o diagnóstico, na infância, sendo um especialista,   um   adulto,   a   decidir   de   que   modo   tratá-la,   impondo-lhe   novamente a normalização em detrimento do crescimento a partir da consideração de quem ela já é. Isto  nos revela que nem a criança, nem o nomeado "deficiente" estão autorizados a exercer sua alteridade em nossa sociedade. Nesse sentido, pensamos no papel que o psicoterapeuta pode ter no momento do diagnóstico, qual seja, anular a criança singular ou respeitá-la em sua alteridade, lembrando que seu discurso ecoará nas demais relações com a criança.

Vemos em Silva (2014), que os estudos sobre autismo estão sempre direcionados à informação de técnicas de modelagem de comportamento, de anúncio das características diagnósticas e de desenvolvimento de hábitos diários que facilitam a vida funcional dos que têm diagnóstico, assim como a de seus familiares.

Encontramos em Brentani et al. (2013), que programas de intervenção baseados  no ABA são vistos atualmente como tratamentos de primeira linha para o TEA na primeira infância. Os autores destacam ainda o treinamento de pais e familiares (que são ensinados a promover e reforçar comportamentos apropriados), o método TEACCH [11]  (ensino  estruturado que consiste em organizar o ambiente e as atividades de maneira que possam ser entendidas pelos indivíduos), a terapia cognitiva comportamental e o tratamento farmacológico para os sintomas alvos, tais como a hiperatividade, impulsividade e desatenção, problemas com o  sono e convulsões. Silva (2014) cita ainda o programa PECS [12], também de base behaviorista.

Segundo Ortega (2009), a primeira lista de profissionais e familiares (Autism and Developmental Disabilities List_ AUTISM List), criada em 1991 por Ray Kopp e o Dr. Zenhausern na Universidade de St. John no formato de lista de Internet, foi em grande medida responsável pela difusão da terapia comportamental ABA. Era uma campanha em prol de interesses do grupo. Para o autor, a obsessão pela cura e pelas formas de adaptar as crianças autistas tem dado o tom na lista.

Com relação ao ABA, segundo Camargo e Rispoli (2013), o método investiga as variáveis que afetam o comportamento humano, sendo capaz de mudá-los através da modificação de seus antecedentes (o que ocorreu antes e pode ter sido um possível gatilho  para a ocorrência do comportamento) e suas consequências - eventos que se sucederam após a ocorrência do comportamento, e que podem ter sido agradáveis ou desagradáveis determinando a probabilidade de que ocorram novamente. ABA é definida como uma tecnologia que é aplicada em situações de vida reais podendo melhorar, aumentar ou diminuir comportamentos apropriados e inapropriados.

As características científicas, tecnológicas e profissionais que definem a ABA estão intimamente relacionadas com quatro pressupostos filosóficos, nos quais esta área do conhecimento se baseia: determinismo, empiricismo, parcimônia e método científico. Estes pressupostos têm suas raízes nos movimentos filosóficos do século XIX (a saber, positivismo, funcionalismo, estruturalismo e associacionismo), que enfatizavam que o comportamento humano deveria ser objetivamente estudado ao invés de abstratamente especulado. Ainda segundo as autoras Camargo e Rispoli (2013), o objetivo do analista do comportamento é aumentar as opções para o indivíduo com autismo, por exemplo, exercitar sua liberdade para escolher respostas alternativas a comportamentos mal-adaptativos. Ressaltam ainda que as técnicas de reforçamento positivo devem ser utilizadas em detrimento dos métodos de punição.

O método ABA provoca polêmica. Como visto, pessoas com o diagnóstico opõem-se à esta forma de intervenção, porém familiares se mostram favoráveis ao ABA.

A respeito do que chamou de indústria ABA, Laurent (2014), cita a pesquisadora autista Michelle Dawson que formula objeções que são de ordem ética a respeito das publicações de Ivar Lovaas (fundador do método ABA, 1987). A pesquisadora nos lembra  que desde 1970 o doutor Lovaas vinha se dedicando à modificação de comportamento de crianças. Tratava-se do FBP-Feminine Boy Project (Projeto para meninos afeminados), cuja finalidade era substituir, em meninos, condutas femininas por condutas masculinas, a fim de prevenir ou impedir sua possível evolução para a homossexualidade. As punições aceitas na experiência eram tapas nas nádegas ou no rosto. O programa que viria a se tornar o Young Autist Project (Projeto Jovem Autista) foi implantado simultaneamente ao programa FBP, com isto, Dawson nos mostra que, para Lovaas, a supressão dos comportamentos autistas está no mesmo lugar que a eliminação dos comportamentos homossexuais.

Dawson analisa com precisão os "sucessos" reivindicados pelo método comportamental e ressalta que a taxa de êxito de 47% repousa sobretudo na aceitação de punições no protocolo. Os tratamentos sem punição têm muito menos êxito. Ela considera, portanto, esses pretensos sucessos uma conjunção de "ética lamentável com desonestidade científica" (DAWSON, 2004 apud LAURENT, 2014, grifos do autor).

A pesquisadora Michelle Dawson nos fornece outras considerações importantes a respeito do comportamentalismo:

  • A  vontade  de  transformar  crianças  autistas  em  crianças  "como   as  outras"
    "suprimindo  as condutas  bizarras que  talvez  lhes  sejam necessárias" (como  o balanço, o batimento das mãos e os jogos mais analíticos que sociais ou 'imaginativos')"_ grifos da autora;
  • A vontade de impor às crianças condutas que podem ser estressantes, dolorosas ou inúteis (como apontar com o dedo, a atenção partilhada ou a troca de olhares);
  • Suprimir determinados comportamentos sem saber o que é realmente o autismo e por este motivo não dispormos de nenhum meio científico para saber o que é central para um autista.

Para Dawson (2004 apud LAURENT, 2014), aprendemos coisas diferentes, de uma maneira diferente, por motivos diferentes e com resultados diferentes_ o que se revela  nas aprendizagens e resultados dos não autistas_, ao que concluirá que, em nome dos direitos humanos e da ética, os autistas têm algo a perder quando são submetidos ao programa ABA. Dawson sinaliza ainda que a defesa dos interesses dos autistas implica que eles possam participar, em todos os níveis, das decisões que lhes dizem respeito, e insiste no necessário consentimento do sujeito.

Laurent  (2014,  p.142)  nos  apresenta  ainda  os  argumentos  de  L.  Mottron [13] a respeito do ABA. Para Mottron há uma "desproporção considerável entre o nível de validade científica e a reputação de cientificidade desses métodos", "ausência completa de dados que mostrem uma melhor da qualidade de vida no curto prazo, e performances cognitivas... no longo prazo", "o reforço... não parece melhorar a aprendizagem", "a aprendizagem espontânea da linguagem pode ocorrer tardiamente sem aplicação de uma 'técnica' específica".

O método TEACCH, é um programa que envolve as esferas de atendimento educacional e clínico, em uma prática com abordagem psicoeducativa. Criado em 1966, por Eric Shopler e colaboradores, através de um projeto de pesquisa que procurou questionar a prática clínica daquela época, na sociedade americana, em que se acreditava que o Autismo tinha uma causa emocional e deveria ser tratado através dos princípios da psicanálise. A teoria comportamental e a psicolinguística são as bases epistemológicas do TEACCH (KWEE, SAMPAIO e ATHERINO, 2009).

Segundo Eric Schopler (1980 apud CALAZANS e MARTINS, 2007), a etiologia do autismo é uma disfunção biológica de causa desconhecida que provoca déficits cognitivos. O biológico serviria de prova para a afirmação do autismo como um transtorno e para a definição de seus sintomas como déficits. Os pais, de acordo com esse programa, deixam de ser  vilões e passam a ser aliados, a participarem ativamente do  tratamento, visando  atingir a meta do programa: a adaptação dos indivíduos, seja através do desenvolvimento de atividades estruturadas, seja através da modificação do ambiente para adequá-los às suas dificuldades, por meio de estabelecimento de uma rotina rígida (CALAZANS e MARTINS, 2007).

Bosa (2006) comenta que os pais, ao optarem por certo tipo de intervenção, precisam ter em mente que até hoje não há boas evidências de que um tratamento específico seja capaz de curar o autismo e também que tratamentos diferentes podem ter um impacto específico para cada criança. Esse impacto depende da idade, do grau de déficit cognitivo, da presença ou não de linguagem e da gravidade dos sintomas gerais da criança. Bosa (op.cit) observa ainda que o planejamento do tratamento deve ser estruturado de acordo com as etapas de vida do paciente, e a eficácia do tratamento depende da experiência e do conhecimento dos profissionais sobre o autismo e, principalmente, de sua habilidade de trabalhar em equipe e com a família.

Segundo Koegel e cols. (1992 apud FÁVERO e SANTOS, 2005), as famílias de autistas revelam um nível geral alto de preocupação quanto ao bem-estar de suas crianças depois que os pais não puderem providenciar mais cuidados para elas. O prejuízo cognitivo da criança é um dos focos de estresse dos pais nas suas preocupações com as inabilidades (atrasos) lingüísticas e cognitivas das crianças.

Desta forma, podemos perceber uma justaposição de interesses pela metodologia comportamental. A validade neste caso não é apenas científica. Para os pais e familiares a intervenção comportamental é válida não só por sua presença no discurso biomédico como também nos discursos político, econômico e social, estes últimos mais sutis, mas  igualmente de poder. Nesse sentido, um método que vise a adaptação e correção surge para os pais como a única saída possível para eles, porém não necessariamente para seus filhos, como vimos nas reflexões trazidas anteriormente. Lembrando Hycner, "Todos nós precisamos de técnicas. Ironicamente, entretanto, uma ênfase excessiva na orientação técnica fomenta os próprios problemas que ela se propõe a resolver. Quando as técnicas têm supremacia, o lado humano fica obscurecido" (HYCNER, 1995, p.22).

Assim, após as discussões apresentadas nesta pesquisa, pensamos ser necessário refletir sobre os discursos que produzimos enquanto profissionais da saúde, principalmente no campo da saúde mental, pois os sentidos produzidos a partir disso se refletirão nas relações com a pessoa. É desta forma que propomos, neste momento, um outro olhar para a condição autista, qual seja, o olhar gestáltico, um olhar suspenso, com o intuito de estabelecer relações pautadas na ética do cuidado.

Capítulo 4

O Olhar da Gestalt-Terapia: um Encontro com o Singular

Neste capítulo abordaremos de forma breve algumas noções da Gestalt-terapia com o intuito de dar sentido aos demais temas que aqui serão apresentados: noção de saúde e doença e o psicodiagnóstico, e a relação dialógica em Gestalt-terapia (GT). A GT, com seu arcabouço teórico, permite um olhar não cristalizado para a pessoa. É uma abordagem psicoterapêutica que não essencializa o diagnóstico, o que permite ao psicoterapeuta estar em contato com aquele modo de existência singular, respeitando-o, desdobrando suas possibilidades e acolhendo.

4.1 Breve considerações sobre a Gestalt-terapia

Do que se trata a GT? Para nós, esta é uma abordagem tão rica que seria impossível pensarmos em uma única resposta, porém, num esforço sistemático  próprio  de uma pesquisa, encontramos em Ginger e Ginger (1995) uma reflexão que sustenta  tal resposta. A palavra terapia é definida no dicionário como "conjunto de ações e práticas destinadas a curar ou tratar as doenças", destacando o sentido restrito do termo. Porém, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lembra que "A saúde não é ausência de doença ou de enfermidade, mas um estado de completo bem-estar físico, mental e social". Os autores apontam que nessa perspectiva global, "holística", a terapia visa a manutenção e o desenvolvimento desse bem-estar harmonioso, e não a cura, a "reparação" de qualquer distúrbio, subentendo uma referencia implícita a um estado de "normalidade", posição oposta ao espírito da Gestalt, que valoriza o direito à diferença, a originalidade  irredutível de cada ser. Assim, essa terapia reúne a noção de desenvolvimento pessoal, de formação (no sentido de "dar forma" nova) e a de plenitude do potencial humano (GINGER E GINGER, 1995, p.14 e 15, grifos dos autores). Eles citam ainda o gestaltista Goldstein (1934): "O normal não deve ser definido pela adaptação, mas, ao contrário, pela capacidade de inventar novas normas". Este é o tom da Gestalt-terapia.

O primeiro autor da GT foi o neuropsiquiatra, e então psicanalista Frederick Perls. Seu livro Ego, Hunger and Agression [14], lançado em 1942 na África do Sul, e em 1947, na Grã-Bretanha, demonstravam sua insatisfação com as limitações clínicas que encontrava em sua prática enquanto psicanalista, levando ao seu desligamento do meio psicanalítico (RODRIGUES, 2011).

O marco do surgimento da GT se deu no ano de 1951 nos Estados Unidos com a publicação de Gestalt-therapy: excitement and growth in the human personality [15], escrito por Frederick Perls, Paul Goodman e Ralph Hefferline. Ela surge em meio à  psicologia humanista, que traz uma nova visão de homem, diferenciada das abordagens deterministas da época_ psicanálise e behaviorismo (FRAZAO, 2013). Porém, segundo Ginger e Ginger (1995), foi apenas durante o movimento da "contracultura" de 1968 na Califórnia que a abordagem ficou célebre. Momento de revalorização do ser em relação ao ter, emancipação  do saber em relação ao poder.

Fukumitsu e Frazão (2013) organizaram o livro "Gestalt-terapia: fundamentos epistemológicos e influências filosóficas", onde abordam os alicerces sobre os quais a abordagem se desenvolveu. A fenomenologia, o existencialismo, a psicologia humanista, a psicologia da Gestalt, a teoria de campo de Kurt Lewin, a teoria organísmica (de Kurt Goldstein), a filosofia oriental fundamentam a abordagem gestáltica. Dentre os influenciadores, as autoras destacam: Husserl, Kierkegaard, Buber, Heidegger, Sartre, Köhler, Wertheimer e Koffka. Para Ginger e Ginger (1995), a Gestalt se situa na intersecção entre a psicanálise, as terapias psicocorporais de inspiração reichiana, o psicodrama, o sonho- desperto, os grupos de encontro, as abordagens fenomenológica e existencial, as filosofias orientais; a genialidade de Perls e seus colaboradores (Laura Perls e Paul Goodman, principalmente) foi elaborar uma síntese coerente de várias correntes filosóficas, metodológicas  e  terapêuticas  europeias,   americanas  e  orientais,   constituindo   uma  nova "Gestalt" [16], na qual o "todo é diferente da soma de suas partes" (grifos dos autores).

Na GT, o homem é considerado dentro de uma concepção holística, o que  significa ser compreendido para além de suas características isoladas, articulando-as não só a outras características de seu ser total, como também à totalidade do contexto mais amplo do qual faz parte. Isto implica considerar uma inevitável vinculação, reciprocidade e retroalimentação entre fatores emocionais, cognitivos, orgânicos, comportamentais, sociais, históricos, culturais, geográficos e espirituais (AGUIAR, 2014). Este arcabouço metodológico permite uma perspectiva de ser humano total, relacional, contextual, transformador, singular, o que significa compreendê-lo para além do que está dado, acreditando em seu potencial sem correr o risco de invadi-lo, apressá-lo ou desrespeitá-lo, nem de trabalhar aquém daquilo com que ele já poderia lidar, como bem observa Aguiar (2014).

4.2 A noção de saúde e doença e o psicodiagnóstico em GT

Vemos em Carvalho e Costa (2010) que a clínica gestáltica tem na noção de saúde seu primordial eixo norteador. Já em seu início, Fritz e seus colaboradores teciam críticas aos demais sistemas psicoterapêuticos pois estes referiam-se mais ao âmbito da anormalidade, se dedicando muito pouco ao que chamaram de "psicologia normal" (grifo dos autores).

A noção de saúde e doença para a GT passa pelo pensamento holístico de Jan Smuts, a teoria organísmica de Goldstein e ainda pela fenomenologia. Além de sua visão de homem, é preciso compreendermos tais fundamentos para então pensarmos  o psicodiagnóstico como um processo, enfoque sobre o qual a GT irá trabalhar.

Perls (2002, p.61) define o holismo como "uma atitude que compreende que o mundo consiste per se não apenas em átomos, mas em estruturas que têm um significado diferente da soma de suas partes". Segundo Lima (2013), aderir a este paradigma significava uma ruptura com o paradigma com o qual as ciências médicas e biológicas da época estavam comprometidas, o paradigma reducionista e isolacionista.

Goldstein (in LIMA, 2013) destaca que o holismo era a base estrutural para o pensamento organísmico. As proposições de Goldstein partiram especialmente  de trabalhos em neurologia sobre distúrbios de fala e com soldados vítimas de lesões cerebrais após a I Guerra Mundial (HALL & LINDZEY, 2000 apud CARVALHO, 2008). Suas observações o permitiram afirmar que qualquer evento psicológico ou fisiológico sempre acontece no contexto do organismo total e o afeta como um todo. Ou seja, o que acomete uma das partes, acaba sentido no todo. Lima (2013) nos lembra que este organismo é um todo estruturado composto por todos os fatores constitutivos dessa pessoa - corpo empírico, emoções, padrões de relações com o ambiente e as pessoas que o cercam (grifo nosso). Desta forma, fica caracterizado o caráter interacional do ser humano em relação ao seu contexto, um dos fundamentos da teoria organísmica.

Goldstein (in LIMA, 2013) afirmou que a lei que regeria o funcionamento dos organismos seria a lei da autorregulação organísmica, por meio de uma tendência do organismo de se autoatualizar (ou autorrealizar). Esse princípio autorregulador é inerente à natureza do organismo em totalidade, que procura satisfazer-se, numa busca pela homeostase.

Pela autorrealização, o organismo tende a organização visando, sempre, sua boa-forma (CARVALHO, 2008).

A autorrealização pode ser compreendida como uma tendência criativa da natureza humana (HALL & LINDZEY, 2000 apud CARVALHO, 2008). Ela só se completa pela satisfação das necessidades (RIBEIRO, 2012). As necessidades tornam-se figuras quando são pré-requisitos para a autorrealização, ou seja, se para chegar ao estado de reequilíbrio for preciso resolver uma necessidade, é ela que estará em evidência para ser sanada (CARVALHO, 2008).

Esta concepção modifica os conceitos de saúde e de doença, em que este último passa a ser pensado como uma tentativa de autorregulação por um organismo que busca por saúde mesmo em momentos mais críticos de sua existência.

Todo e qualquer sintoma é uma tentativa primeira de adaptação  do organismo diante das prioridades que este descrimina no seu momento atual e a busca de atender a elas, da melhor forma possível, na negociação necessária com as condições existentes no meio (LIMA, 2013, p.153).

Diante do exposto, concordamos com Ribeiro (2012) que trata-se de um problema não apenas técnico, mas também ético quando pensamos na pessoa autista e as referidas técnicas de correção para a adaptação.

Nos dizeres de Holanda (1998, p.41 apud CARVALHO E COSTA, 2010): “‘Adoecer’, em Gestalt-Terapia, é estar em desarmonia relacional, seja com o mundo em geral, seja consigo mesmo”. Há assim, uma compreensão de relação psicopatológica e não apenas de uma patologia enclausurada no indivíduo. Disso, podemos presumir, que a relação se dê igualmente como meio de suprimentos para a pessoa autorrealizar-se.

A saúde, segundo Augras (2013), seria uma etapa do processo de doença. Na medida em que encontra-se no jogo de interações entre organismo e mundo, e "ordem" e "desordem" são etapas constantes no desenvolver do homem e do mundo, saúde e doença não representam opostos. A saúde do indivíduo será avaliada em sua habilidade para manter o equilíbrio, superar a crise do ambiente, utilizando sua capacidade criadora para transformar o meio inadequado em mundo satisfatório. Patológico é o momento em que o indivíduo permanece preso à mesma estrutura, sem mudar nem criar.

Isto nos permite começar a pensar o diagnóstico, identificando em que ponto  desse processo a pessoa se encontra, as eventuais áreas de desordem e suas possibilidades de expansão e criação. Este diagnóstico, como afirma Augras (2013), estará longe de simples rotulagem, pois não há um modelo de "normal" para avaliar o indivíduo. O diagnóstico é uma busca pelo ponto de existência em que o indivíduo se encontra e dos significados que ele constrói em si e no mundo, pois, nas palavras de Goldstein, "cada homem será a medida de sua própria normalidade" (GOLDSTEIN, 1951, p.347 apud AUGRAS, 2013, p.13).

O que estamos delineando é a circunscrição dos sintomas com base no campo existencial do sujeito, o que veio a ser a principal diferença da psiquiatria tradicional com a psicopatologia fenomenológica (CARVALHO E COSTA, 2010). À abordagem importa nem tanto o sintoma, mas o fenômeno: a maneira suigeneris com que um indivíduo  manifesta o seu vivido de ser-no-mundo (TATOSSIAN, 2006 apud CARVALHO E COSTA, 2010).

Porém, para que cheguemos a esse fenômeno, ou ainda como diz Husserl, voltar  às coisas mesmas, assim como são, como se apresentam, é preciso colocar a realidade entre parênteses, suspendendo todo e qualquer juízo a priori (RIBEIRO, 2012). Essa suspensão dessas definições a priori é possibilitada pelo questionamento do pré-dado, por mais óbvio que pareça. Desta forma, são postos em suspensão o senso comum, as estruturas prévias de interpretação e a tradição sedimentada (REHFELD, 2013, grifos do autor). Assim, podemos enxergar a pessoa em sua particularidade, e não sob o prisma do diagnóstico e das previsões a que ele invariavelmente nos leva. Concluindo com Augras (2013), o objetivo  da fenomenologia é instaurar a racionalidade pela redução do óbvio da razão preconcebida.

Para a GT, como psicologia fenomenológica, o importante numa compreensão diagnóstica é uma atitude que permita o surgimento da originalidade do cliente (PINTO, 2015), compreendê-lo em seu vivido, o que é possível através de uma atitude fenomenológica. Além disso, a compreensão diagnóstica em GT visa sobretudo orientar o terapeuta a lidar com o cliente (não tem a finalidade de enquadrá-lo para lhe propor mudanças baseado num esquema delimitado de saúde e normalidade); perceber de que recursos o cliente se utiliza em seus ajustamentos criativos no seu mundo cotidiano. É, portanto, um processo, uma atividade sem ponto final, e o terapeuta permanece atento a cada nova configuração que o cliente fizer em sua vida (PINTO, 2015).

Mais do que o suposto por quê, interessa na GT o provável para quê, pois conforme Ribeiro (2012), o homem é o seu organismo e é nele que temos de procurar sua própria compreensão, é nele que se encontram as (suas) verdades. Assim, de acordo com esta perspectiva, cada vez que tentar explicá-lo, mais me afastarei dele e terei no diagnóstico algo como a "única verdade" sobre ele. Segundo a GT, trata-se portanto, da compreensão de um modo de ser, em detrimento da explicação.

Desta forma, a GT é uma possibilidade de um discurso sobre o homem, pelo próprio homem. Como nos lembra Rodrigues (2011), as categorizações são necessárias, o problema é quando se limita a visão do ser humano ao que é genérico e se perde o específico" (p.26, grifo do autor). A partir disso, podemos pensar na relação que estabelecemos com a pessoa, para além do rótulo.

4.3 A relação terapêutica com a criança autista

Vimos até este momento como um conhecimento que classifica encerra a pessoa autista em um espiral de déficits e sustenta práticas de correção e ajuste ao meio social em que vive. Porém, estando com a pessoa, da maneira como ela se apresenta, colocando nossos a prioris em suspenso, podemos pensar sobre o sentido de seu modo de ser, sobre sua necessidade de autorregulação (organísmica, própria de si, e não de seu meio, porém incluindo-o), e em outras formas de nos relacionarmos com ela, partindo da relação Eu-Tu (Eu-Outro), e não Eu-Isso (Eu-Diagnóstico). É neste momento que a perspectiva dialógica, cara à GT, nos respaldará naquilo que viemos apresentando e refletindo nesta pesquisa. Quando permitimos que a pessoa seja o que ela é, então ela pode desabrochar.

A psicoterapia dialógica é uma abordagem psicoterapêutica baseada na  filosofia do diálogo. O termo "dialógico" se refere ao fato de que a existência humana, em seu nível mais fundamental é inerentemente relacional, provocando uma mudança radical de paradigma direcionando-se para a esfera do "inter-humano", diferenciando-se dos modelos psicológicos do self isolado e da abordagem sistêmica (HYCNER, 1995). O autor esclarece ainda que a dimensão do inter-humano manifesta-se no diálogo entre pessoas; não encontra-se em qualquer um dos dois parceiros, nem nos dois juntos, mas no entre que é vivido por ambos (grifos do autor).

Martin Buber foi o principal expositor da filosofia do inter-humano no século XX. Para ele, a ênfase tecnocrática da sociedade moderna distancia as pessoas. O relacional fica subjugado por uma ênfase excessiva no individual, levando a uma separação entre as pessoas  e o seu relacionamento com a natureza, e também dentro de nossa própria psique. A perspectiva dialógica é um esforço para sanar essas rupturas (HYCNER, 1995, grifos do autor).

Vemos em Luczinski e Ancona-Lopez (2010), que as palavras-princípio eu-tu e eu-isso (BUBER, 1923) assinalam modos de ser do homem, formas de responder à realidade, que sempre solicita um posicionamento. O eu que se abre para um tu não é como o eu que se relaciona com um isso, ou seja, a forma de relacionamento estabelecida fundamenta o modo de  ser.  Por  isso,  a  relação  produz  diferentes  possibilidades  de  a  pessoa  estar  no mundo

(LUCZINSKI E ANCONA-LOPEZ, 2010). A isto que nos referimos quando apontamos para a importância de estabelecermos uma relação Eu-Tu com a pessoa autista.

De acordo com Hycner (1995), a relação Eu-Tu é uma atitude de interesse  genuíno na pessoa com quem interagimos. Isso significa que valorizamos sua alteridade. A pessoa é um fim em si mesma e não um meio para atingir um fim, e reconhecemos que somos uma parte dessa pessoa. Nesse modo de se relacionar, o encontro não é forçado, "o TU me encontra pela graça e não é encontrado pela procura" (BUBER, 1923-1958, p.11 apud HYCNER, 1995, p.24). É preciso que o outro esteja disponível para entrar em uma relação dessa natureza comigo para que o diálogo seja genuíno. Este momento não pode ser mantido para sempre.

A relação Eu-Isso ocorre quando a outra pessoa é, essencialmente, um "objeto" para nós. Ela é um meio para um fim. HYCNER nos lembra que esta relação é um aspecto necessário na vida humana, e que não é a existência da atitude Eu-Isso que está "errada", mas sim a predominância esmagadora com que se manifesta na sociedade tecnocrática (HYCNER, 1995, grifos do autor). O autor nos adverte sobre o perigo de não reconhecermos como é limitadora essa atitude e a aplicarmos de forma indiscriminada a situações que clamam por  um encontro genuíno entre pessoas,como é o caso do autismo. Para Hycner, "a ênfase excessiva no conhecimento técnico e no materialismo, no final do século XX, é o resultado direto da preponderância da atitude Eu-Isso" (HYCNER, 1995, p.25). Tais considerações  vão ao encontro da discussão trazida anteriormente sobre o discurso biomédico do autismo.

É através também de Hycner, que encontramos não só respaldo para o que  estamos discutindo como para produzir efeitos éticos e restauradores das relações e da experiência. O autor nos dirá que a abertura genuína para com os outros tende a evocar uma resposta recíproca. Se eles sentem que os tratamos como objetos, é provável que se aproximem de nós com intenções. "A atitude com que me aproximo do outro é, também, a atitude com que me aproximo de mim mesmo. Se valorizo o outro, isso reflete minha própria autovalorização. Se transformo o outro em objeto, também serei objeto" (HYCNER, 1995, p.25, grifo nosso).

Vemos, de modo geral no autismo, uma certa tendência a se relacionar de modo objetificante com as coisas e pessoas. Nesse sentido, as palavras de Hycner podem nos esclarecer esse posicionamento desinteressado da criança, e ao mesmo tempo oferecer subsídios que podem ajudá-la a buscar outros sentidos para sua existência, dentro daquilo que ela pode, através da relação Eu-Tu, prescindindo o diagnóstico.

Como vimos, muitos pais passam a se relacionar com os filhos através da doença após o diagnóstico. O pensamento dialógico implica considerarmos uma transformação de nossas atitudes perante esse diagnóstico e implica também em uma reflexão sobre até que ponto as técnicas de modelagem de comportamento ajudam a criança em seu crescimento e em seu processo de autorrealização.

Não há aqui uma oposição radical a tais técnicas; porém, pensamos como Hycner que dirá que as técnicas são utilizadas como figura (na psicoterapia dialógica), surgindo do contexto da relação, do "entre", e não serem impostas arbitrariamente na situação. Como afirma Buber, "o verdadeiro mestre responde à singularidade" (BUBER, 1967 apud HYCNER, 1995, p.63).

A autenticidade dos participantes, ou seja, a possibilidade de as pessoas se  guiarem pelo que são no momento, sem querer parecer algo ou produzir uma imagem de si, perceber o outro enquanto alteridade, na sua singularidade, totalidade e concretude (ter uma atitude de contemplação, e não de mera observação), a não imposição de um em relação ao outro (confirmação da pessoa, o que pode ser definido como sua legitimação enquanto interlocutor do mesmo nível), são apontados por Luczinski e Acona-Lopez (2010), como condições necessárias para um diálogo genuíno.

Assim se expressa Buber (1974/2001, p.43 apud CARVALHO E COSTA, 2010): “Na conversação genuína, os dialogantes se confirmam mutuamente como pessoas, o que não significa aprovação do que o outro faz, mas de perceber o outro como existente e confirmá-lo como tal”.

Gostaríamos de terminar nossas considerações com uma breve apresentação da história de Temple Grandin, como uma forma de nos aproximarmos da experiência Eu-Tu. Temple é uma americana diagnosticada com autismo grave em meados dos anos 1950, aos quatro anos de idade, e que junto ao apoio familiar e social lidou com diversas dificuldades relacionadas à sua condição conseguindo quebrar a barreira do rótulo ao ser encorajada também em seus talentos. Ressaltamos "o que foi feito com isso", lembrando a máxima do existencialismo Sartriano.

Após ter sido diagnosticada, com a explicação de que essa desordem teria sido ocasionada por restrições afetivas por parte de sua mãe, Temple é estimulada precoce e intensivamente por esta mãe e posteriormente conduzida à escola onde é auxiliada por um sensível professor até a conclusão do ensino médio, quando se mudou para a fazenda de sua tia. Sua percepção do modo como os bovinos se mostravam ao receberem vacinas, calmos ao serem imobilizados, a levou a idealizar e construir um dispositivo semelhante que a pressiona e imobiliza aplacando as crises de ansiedade decorrentes de sua inabilidade no relacionamento social. Temple denominou o dispositivo de "máquina do abraço".

Seus familiares percebem suas notáveis habilidades, ao que é pressionada para seguir os estudos na universidade, iniciando uma trajetória marcada por intensas dificuldades no ambiente acadêmico, porém, seu modo diferenciado de ver e entender o mundo a obriga a desenvolver estratégias para superar obstáculos até concluir seu PhD em engenharia agropecuária, quando revoluciona os métodos de manejo do gado e torna-se uma respeitada especialista no assunto. Atualmente a Dra. Temple Grandin é professora na Universidade do Estado do Colorado (EUA) e autora de diversos livros em que explica as especificidades do autismo a partir de suas vivências pessoais (SCHMIDT, 2012).

Considerações Finais

Consideramos a relação um ponto crítico no atendimento com pessoas na condição autista, e nesse sentido, o olhar que lançamos para a pessoa no momento do diagnóstico é fundamental, pois orientará os demais posicionamentos frente a questão.

O olhar biomédico pressupõe um conhecimento anterior sobre o autismo, porém como não há uma causa para a condição, a observação e a  classificação  de comprometimentos, déficits, estereotipias se tornam os pressupostos necessários para lidar com o autismo de modo científico. Assim, ao nosso ver, esse conhecimento parte de regras sociais para se dizer científico. Ele sistematiza o transtorno, porém seu embasamento é histórico-social, de negação da diferença e projeção de um ideal de normalidade.

O problema que vemos em relação a isso é que a pessoa passa a ser vista apenas por esse prisma, passa-se a esperar determinados comportamentos, porque afinal ela é autista. Um problema se estabelece na relação, que se dará a partir de estereótipos que não se sustentam na sociedade em que vivemos, tornando úteis os mecanismos de segregação e correção.

Assim, o olhar que procuramos trazer nesta pesquisa, nos utilizando de alguns pressupostos teóricos e filosóficos da abordagem psicoterapêutica Gestalt-terapia, nos ofereceu subsídios para restaurar isso que em nosso ponto de vista é crucial no atendimento com pessoas na condição autista, a relação.

Consideramos que ao buscarmos um olhar "em suspenso" para o autismo, estaremos não apenas reproduzindo o que Kanner já na década de 1960 nos chamava atenção, a atitude de  modéstia,  humildade  e cautela perante  a condição,  como  tornando  possível  o

estabelecimento de formas outras de relações, inclusive mais éticas. Assim, o momento do diagnóstico pode ser um momento de transformação, pois consideraremos aquilo que a pessoa já é, e não estabelecer metas e planos controlados para que ela possa ser.

Ir na pessoa autista nos permite, finalmente, o exercício de nossa capacidade empática, tão documentada e descrita como uma das incapacidades do "autista", mas que tem se mostrado igualmente imperceptível em nossas relações com eles.

Qual a verdade sobre o autismo? Para nós, na realidade, esta pergunta é uma retórica; pois a verdade é aquela que a pessoa nos permitir saber.

Sobre o Autor:

Renata Tubarão dos Santos - Formada em Psicologia pela faculdade IBMR.

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