Resumo: Este trabalho pretende abordar, por intermédio de uma revisão bibliográfica, o suicídio na adolescência a partir de uma visão da psicanálise, valendo-se principalmente das elaborações de Sigmund Freud e Jacques Lacan. É pertinente, porém, enfatizar que não pretende esgotar a discussão e pesquisa referente ao suicídio na adolescência, mas sim trazer a luz da reflexão sobre a temática supracitada. Percebe-se que o referido tema é pouco discutido no universo bibliográfico, devido à complexidade de tal contexto de objetivo de pesquisa, bem como se tratar de um assunto polêmico de poucas explicações científicas. Diante desta vertente faz-se necessário utilizar-se de metodologias já existentes com base em autores que produzem uma leitura sobre o suicídio na adolescência e suas nuances.

Palavras-chave: Suicídio, Adolescente, Psicanálise.

1. Introdução

O presente artigo objetiva abordar uma temática pouco discutida no meio acadêmico que é o suicídio na adolescência, tendo como referência principal a psicanálise. Para tal objetivo será necessário detalhar o conceito de adolescência para posteriormente entrar na discussão sobre o ato suicida.

A palavra adolescente vem do latim “ad” (a, para) e “olescer” (crescer), significando o indivíduo apto para crescer, como também é uma palavra derivada de adolescer, que significa adoecer. A partir desta dupla origem etiológica, observamos que há uma conotação da adolescência que aponta tanto para uma aptidão “para crescer” como para “adoecer” (JATOBÁ, 2010, p.45).

É importante essa definição, uma vez que a adolescência é vista pela sociedade como uma fase de transição que implica uma passagem para a vida adulta. Segundo Áries (1981), o conceito de adolescência não aparece antes do final do século XVIII e não se difunde antes do século XX. Pois, foi no século XVIII, a partir da revolução francesa, que a adolescência passa a ser distinguida do sujeito adulto.

Jatobá (2010) também evidencia que no Dicionário Aurélio a definição da adolescência aparece como “o período da vida humana que começa com a puberdade e se caracteriza por mudanças corporais e psicológicas, estendendo-se, aproximadamente, dos 12 aos 20 anos” (FERREIRA, 2008, p. 96). Portanto, a puberdade é o momento de desenvolvimento, onde ocorrem as maiores mudanças físicas como: crescimento dos pelos, crescimento do corpo, espinhas, mudança de voz, e, principalmente, as características que indicam o amadurecimento sexual sendo a ovulação e a espermatogênese.

Com isso, vale ressaltar que a puberdade envolve um processo biológico, na qual é caracterizado por uma atividade hormonal que desencadeia os caracteres sexuais secundários, sendo que é neste período da vida humana que surge a possibilidade de reprodução humana.

Segundo Freud (1905), o desenvolvimento da sexualidade são as transformações que seguem uma temporalidade não contínua. Na adolescência, chamada de puberdade por Freud, a pulsão tem uma nova meta sexual, pois se antes era predominantemente auto-erótica, agora busca uma descarga através de um objeto sexual. Contudo, é no encontro com o sexo que o sujeito é chamado a tomar posição diante da partilha dos sexos.

Logo, a adolescência é considera como a fase de desenvolvimento humano que marca a passagem da infância para a vida adulta, sendo tratado pelo meio científico como um processo de desenvolvimento biopsicossocial. Logo, socialmente, encontramos uma ênfase na adolescência enquanto uma fase do desenvolvimento, na qual é observada uma série de transformações no corpo. Estas transformações marcadas pelo desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários que começam a surgir a partir da puberdade, sendo este o processo de maturação biológica que leva a maturidade sexual. Alberti (1999) evidencia que para a psicanálise, no entanto, não interessa apenas as mudanças físicas, mas como estas mudanças tornam relativo à questão do feminino e do masculino no nível psíquico.

Entretanto, a psicanálise não utiliza o termo adolescência, apesar de esta teoria apresentar algumas considerações a respeito. A teoria da psicanálise não aborda os aspectos do fenômeno e desenvolvimento da adolescência, mas as questões referentes ao sujeito, por fim, o que interessa a psicanálise, do ponto de vista da teoria de Lacan, é o sujeito do inconsciente, ou seja, sujeito do significante. Pois a psicanálise, como teoria e técnica, propõe um olhar livre de "pré-conceitos" para as dores da alma. A abordagem psicanalítica se distingue de outros tratamentos porque ela não retira do sintoma os traços de subjetividade, ou seja, ela não desresponsabiliza o sujeito de se orientar na vida a partir do que ele sente em seu corpo e pensamento. A partir destas considerações, justificamos a escolha pela expressão proposta por Alberti (1999) em relação ao sujeito adolescente.

Vale ressaltar que a adolescência, antes de ser um estado de desenvolvimento, assim como a infância e a latência, são conceitos essenciais para a demarcação do tempo na realidade sexual do inconsciente. Segundo Ribeiro (2003), no texto “O tempo de latência”, o autor recorre à elaboração lacaniana para afirmar que o tempo do inconsciente implica em: a infância como instante de ver, a latência como tempo de perceber e a adolescência como momento de concluir.

Valendo da afirmação de Ribeiro (2003), na infância, a criança vive uma sexualidade autoerótica, em seguida, a questão da sexualidade fica latente, ocorrendo um reencontro com o sexual no período da adolescência. Portanto, a adolescência que é entendida dessa forma para a psicanálise, marca o fim do período de latência, sendo uma consequência deste momento. Segundo Alberti (1999), se não houvesse interrupção na manifestação sexual durante o período de latência, não haveria adolescência.

Freud (1905/1996), nos seus escritos sobre os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, relata que a puberdade trata-se, além da questão sexual, a contradição existente entre as diferentes gerações, ressalta a necessidade do desligamento da autoridade parental nesta fase do desenvolvimento. Pois, é no período de latência que o sujeito deve elaborar a distinção entre o pai real, simbólico e imaginário. Segundo  Alberti (2003), esta elaboração é a única forma do sujeito ter condições de iniciar o trabalho de desligamento dos pais, que vai acontecer no momento de concluir na fase da adolescência. Portanto, vale ressaltar que de acordo com Freud (1905/1996, p. 214) “uma das realizações psíquicas mais significativas, porém também mais dolorosas, do período da puberdade é o desligamento da autoridade dos pais”.

Percorrendo a teoria lacaniana, é possível fazer uma associação entre esse momento descrito por Freud e a segunda operação da constituição do sujeito. No entanto, para Lacan (1964b/1995), o sujeito se constitui a partir de duas operações fundamentais que são chamadas de alienação e separação. Portanto, essas duas operações se definem como a constituição do sujeito, enquanto aquele que poderá vir a sustentar seu desejo.

A operação da alienação é um destino e tem origem do efeito produzido pela linguagem sobre o ser humano. Trata-se, portanto de um tempo em que o sujeito é “forçado” a fazer uma escolha na direção do simbólico, alienando-se aos significantes do Outro. Contudo, a alienação marca a entrada do ser falante na ordem do simbólico, sendo “a primeira operação essencial em que se funda o sujeito” (LACAN, 1964b/1995, p.199).

O processo de alienação descrito por Lacan é condição e resultado da inserção da criança no mundo. A criança, ao nascer, vivencia um completo desamparo, necessitando dos cuidados de outro semelhante para que possa sobreviver. Em “inibições, sintomas e ansiedade", Freud (1926/1996) demostra que este desamparo se deve ao fato de o bebê nascer com pouco preparo para as situações do mundo externo, já que sua existência no útero é curta quando comparado com a maior parte dos animais.

Segundo Freud, diante dessa condição, a mãe é chamada de Outro materno que é a protetora, cuidadora, seguradora, poderosa, passa a ser importante na constituição do sujeito, uma vez que ela passa a acolher e interpretar as demandas do bebê. De acordo com Freud (1926/1996), o fator biológico tem como função de estabelecer as primeiras situações de perigo e cria a necessidade de ser amado que seguirá a criança durante a sua vida.

No entanto, diferente da alienação, Lacan (1964/1995) relata sobre a segunda operação de constituição do sujeito, sendo um momento em que o sujeito instaura a falta no Outro, posicionando-se como um sujeito de escolhas. A operação de separação é iniciada diante da introdução de um terceiro elemento entre o sujeito e Outro, a saber, o significante Nome-do-Pai. Contudo, a separação vai tornar possível o encontro do ser falante com o seu desejo, pois, até então, o sujeito estava acedido ao desejo do Outro. Para que isto ocorra é indispensável à efetuação de outra operação chamada de  metáfora paterna.

Para Fink (1995), o significante Nome-do-Pai, na teoria lacaniana, tem uma função simbólica que se reflete numa percepção da criança de que o desejo da mãe se volta para outro lugar, que não coincide com o que ela ocupa. Portanto, a criança busca, a partir de então, uma forma de sair desse lugar de objeto para o Outro materno, passando a formular uma significação singular. Frente a essas formulações, há a construção subjetiva da fantasia, cuja estrutura é dada a partir do que a criança supõe poder satisfazer para o Outro.

Nessa lógica, tem-se o início do processo de separação. Segundo Fink (1995), a separação, ao retirar a criança desse lugar de objeto materno, irá convocar o reconhecimento de que ela é um ser faltante, que porta o furo organizador da estrutura, o qual surge frente à metáfora paterna.

Soler (1997, p.63), diferencia “o Outro implicado na separação” do “Outro implicado na alienação”, ou seja, enquanto na alienação há uma profusão de significantes provindos do Outro, na separação, o sujeito se depara com “um Outro a que falta alguma coisa”. No entanto, a separação começa quando há a inscrição do Nome do Pai, sendo que na adolescência essa operação é reeditada. Vale ressaltar que o sujeito é convocado a dirigir a própria cena, ou seja, a própria vida.

Segundo Alberti (2004), na adolescência o que está em jogo é a separação dos pais ilusórios e idealizados, processo doloroso e crucial segundo Freud. Mas, este não é um processo que se dê sem idas e voltas. Pois, haverá momentos em que o sujeito precisará retornar à relação que mantinha com os pais em suas tentativas de suportar a separação. É preciso que os pais suportem este movimento dos filhos, e não abram mão da responsabilidade de acompanhá-los em sua trajetória. O efeito da desistência dos pais é desesperador: o adolescente se vê deixado cair, buscando saídas trágicas, como a tentativa de suicídio. No entanto, Alberti (2004), afirma que esta operação só se efetua quando há resultado na incorporação dos pais, a qual é processada durante o período de latência.

Para Soler (1997, p. 62-63), “a separação supõe uma vontade de sair, uma vontade de saber o que se é para além daquilo que o Outro possa dizer, para além daquilo inscrito no Outro”. É neste momento, que o sujeito, acompanhado pela linguagem, passa a ser responsável pelo seu próprio gozo. Esta é uma diferença importante, como afirma Birmam (2007), uma vez que esta responsabilidade de gozo não está presenta durante a infância e a latência.

Nesta vertente Gerbase (2008) já enfatiza que na separação o sujeito não só deverá fazer suas escolhas, como, também, responsabilizar-se por elas. Portanto, pode-se concluir que o sujeito adolescente é aquele que terá que elaborar a falta no Outro e passar por um longo trabalho de escolhas, experimentando a posição de sujeito do desejo. É disto que se trata quando correlacionamos à adolescência enquanto um momento de concluir.

Quando falamos sobre a adolescência, torna indispensável abordar a busca pelo espaço social e sexual, mediado pelo instrumento da linguagem. Logo, o comum é que o adolescente não faça tanto uso deste instrumento. Em função disto, é presente nesta fase uma comunicação maior através de atos, do que através da linguagem verbal, ocasionando as chamadas patologias da ação e do corpo (BIRMAM, 2007).

Para a psicanálise, o uso abusivo de tais recursos não verbais, pode ser entendido como um acting out ou como uma passagem ao ato do sujeito, que tem como finalidade aliviar a angústia insuportável. Pode se afirmar então, que na passagem ao ato, a atuação não está relacionada à dimensão simbólica. Já o acting out, é possível verificar esta relação, visto que, através de um apelo em forma de ato, o sujeito faz uma demanda dirigida ao olhar do Outro, visando transmitir uma mensagem (LACAN, 1962 /2005).

Segundo Apolinário (2006), tanto na passagem ao ato quanto no acting out, está presente um caráter de gozo que diante da impossibilidade de um outro recurso para lidar com a invasão do gozo, surge o ato como uma resposta do sujeito frente à angústia. No entanto, no acting out está presente o endereçamento de uma mensagem, constituindo-se como uma cena plena de significados e interpretável, enquanto na passagem ao ato há o apagamento do sujeito em detrimento de seu ato.

Entretanto, vale ressaltar que no acting out o sujeito tem formas diferentes de responder a angústia, ou seja, diante de um ato o sujeito quer dizer alguma coisa ao outro, já na passagem ao ato é o momento de uma angústia intensa, sem direcionamento ao outro, sendo uma saída do sujeito. Portanto, a angústia não tem nome, ou seja, ela pede uma saída, logo, o ato é uma resposta da angústia. Contudo, é importante a intervenção do analista com a finalidade de fazer com que o sujeito observe que neste ato há um sentido e que ele tem a ver com isto de acordo com Jatobá (2010).

Para Lacan (1974/2003), a sexualidade faz um furo no real. No encontro com o sexual, com o outro sexo, o sujeito adolescente tem a expectativa de fazer a relação sexual existir. Contudo, a relação sexual é impossível, na medida em que não há uma proporção significante, pois no inconsciente só encontramos o significante fálico para representar ambos os sexos.

Vale ressaltar, que o objetivo desse trabalho, além de falar sobre a adolescência é também de enfatizar a questão do suicídio. A importância do tema suicídio é relevante por se enquadrar dentro de um contexto atual de sociedade que estamos vivendo, um momento em que a globalização com sua gama de acesso às informações, faz com que a necessidade do sujeito se torne imediata, e isso pode refletir como marcas no psiquismo, e externas, como marcas no corpo, à medida que esse novo sujeito entra em contato ativo com essa sociedade, que lhe impõe direitos e deveres. Para isso, utilizei autores que deram suporte para a realização deste trabalho como Sigmund Freud e Jacques Lacan.

O problema do suicídio sempre foi algo discutido, seja por sociólogos, psicólogos ou outros profissionais da área das ciências humanas. Porém, é ainda com certo receio que se trata do assunto, uma vez que se configura para cada indivíduo como algo ameaçador, que pode ocorrer com pessoas próximas, até mesmo integrantes da nossa família. Segundo Hillman (1964/1993), o suicídio não está destinado aos hospícios; pelo contrário, onde ele mais acontece é dentro dos lares, no caminho da vida de qualquer sujeito.

Para Freud (1917, 1974), a razão pela qual os homens não se matam mutuamente é justamente o medo do castigo, vindo sob forma divina ou das leis da civilização. Assim, vale destacar que se o homem acreditar poder escapar à força terrena, e se descobrir que não existe “Deus” e um “Julgamento Final”, ele provavelmente matará quando for ameaçado.

Porém, quando a morte se dá por interferência do próprio sujeito, e não por motivos “naturais”, o enigma torna-se ainda mais intrigante. Freud (1923/1976; 1930/1974), afirma que quanto mais um homem controla suas tendências agressivas em relação ao outro, mais se intensificam as tendências agressivas do seu ego ideal contra um caminho para o exterior tende a voltar-se contra ele mesmo. Pois, essa mesma agressividade reflexiva também é vista nos casos de melancolia, sofrimento que, segundo Freud, é acompanhado e caracterizado por um disfarçado, mas intenso sadismo.

A tentativa de suicídio de um sujeito neurótico, durante o período da adolescência, implica em um apelo. Com isso, o suicídio nada tem a dizer. Porquanto, o ato já diz por si só, e diante disso, ele precisa ser entendido como um significante conforme podemos observar na citação abaixo:

A tentativa de suicídio jamais é pura passagem ao ato, que dizer, a tentativa  de suicídio é pura despedida da cadeia significativa, ela sempre vem denotar uma dificuldade no relacionamento com aquela que o sujeito institui no lugar do Outro. Denotar algo que passou despercebido no Outro, mesmo se muitas vezes o sujeito de outras maneiras que não pela tentativa de suicídio tenha chamado atenção para isso (ALBERTI, 1999, p. 19).

Diferente de uma proposta de cura da medicina que visa restabelecer um estado anterior, ou seja, visa retornar um estado antes saudável, no tratamento psicanalítico, trabalha-se com a escuta do sujeito, dando oportunidade de que o ato seja subjetivado. A escuta do ato da tentativa de suicídio pode ajudar o sujeito a criar ou desenvolver sua potencialidade simbólica. Assim, a tentativa de suicídio, como saída, põe em evidência um ato que precisa ser escutado. Ao buscar a própria morte, o sujeito convoca o analista a uma escuta do que está além do desejo recalcado da neurose. Trata-se de uma escuta da urgência, pois se sabe da possibilidade de que, frente a um fracasso de uma tentativa, outra poderá vir a ocorrer como evidencia Gerez (2003).

Podemos dizer que a psicanálise se aproxima e toca no campo das psicoterapias se considerarmos que ambas fazem o uso da palavra como ferramenta de intervenção perante a realidade psíquica. Além disso, existe o investimento simbólico, ou seja, uma transferência ao saber, que o sujeito efetua sob a pessoa do terapeuta ou do analista, de modo a colocá-los no lugar de um sujeito detentor de um saber soberano sobre seu mal-estar como coloca Miller (1997). De maneira breve, podemos dizer que o psicanalista é posto pelo psiquismo de seu paciente no lugar de um mestre, um Outro capaz de produzir um saber totalizante sobre seu sofrimento, lugar este que Lacan chamou de Sujeito-Suposto-Saber.

A psicanálise nos demonstra que a alienação do sujeito à rede de significantes do Outro apesar de ser uma condição essencial para a constituição subjetiva não garante um preenchimento do furo, do silêncio, que podemos chamar de  pulsão, visto que, é a pulsão que comanda a ação do sujeito para Sauret (2003). O que interessa para a psicanálise de fato, é o que há de único em cada caso, ou seja, o sofrimento, quer dizer, como cada um dos sujeitos usa seu sintoma, ou como diz Lacan, como cada um usa do seu sintoma e constrói seu modo de gozo.

O que é terapêutico na operação analítica não é a pessoa do psicanalista, não é o seu saber, apesar de ser importante também o saber exposto do analista. Um psicanalista tem que estudar e muito. A questão é como manejar esse saber, o lugar de sustentar o saber suposto e o lugar do saber poder ser exposto nem qualquer discurso instituído no plano social. Contra a angústia o remédio mais eficaz é o desejo, desejo do próprio sujeito (MILLER, 1997). Entretanto, eis o que é terapêutico para o sujeito: o ato de se subjetivar no campo do desejo ao se desvencilhar das amarras imaginárias que o escravizam ao Outro e, consequentemente, à angústia.

Contudo, vale ressaltar que a psicanálise é uma opção não só para aqueles sujeitos que já tentaram o ato do suicídio, mas também, é uma abordagem que dá a oportunidade ao adolescente de tratar a sua angústia retomando a via simbólica de evitar saída tão drástica como o suicídio como evidencia Birmam (2007).

2. Metodologia

A metodologia utilizada foi à pesquisa bibliográfica, sendo abordada uma das suas formas que é a revisão bibliográfica, no qual, a mesma é a análise crítica, meticulosa e ampla das publicações correntes em uma determinada área do conhecimento. A pesquisa bibliográfica de acordo Martins (2001), procura explicar e discutir um tema com base em referências teóricas publicadas em livros, revistas, periódicos, sites e outros que abordam a temática supracitada.

Esse tipo de pesquisa tem como finalidade colocar o pesquisador em contato direto com tudo o que foi escrito, dito ou filmado sobre determinado assunto. A pesquisa bibliográfica não é apenas uma mera repetição do que já foi dito ou escrito sobre determinado assunto, mas sim, proporciona o exame de um tema sob novo enfoque ou abordagem, chegando a conclusões inovadoras como enfatiza Martins (2001).

A base de dados: Scielo (Scientific Eletronic Library Online) e Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP serviram como fontes de coleta de dados, a partir dos seguintes descritores: suicídio; adolescente; psicanálise. Foram selecionados 11 materiais referentes ao assunto, sendo que, do total, foram utilizados 05 para a produção do presente artigo, uma vez que na análise e leitura dos mesmos, apenas 05 destes tinham conteúdos que tratavam da temática pesquisada, no qual, utilizou-se como critério de exclusão os demais artigos que apenas acresceram na leitura sobre suicídio na adolescência. Cabe ainda ressaltar que encontrou-se dificuldades na busca de referencia teóricas que estudam, pesquisam e/ou pelo menos abordam a temática em questão, uma vez que trata-se de um assunto ainda pouco discutido no meio acadêmico, fato, ao qual, utilizou-se materiais que foram publicados entre o ano de 2006 até 2011.

Os resultados obtidos são visualizados no Quadro 1 que se segue, na qual são identificados autores, títulos e ano de publicação dos artigos.

Quadro 1.  Distribuição dos artigos incluídos na revisão da literatura

 

            AUTOR/A

                   TÍTULO

ANO

1.

LACAN, J. J.

Prefácio O despertar da primavera

2003

2.

SAURET, M. J. A.

Pesquisa clínica em psicanálise

2003

3.

DOUVILLE, O.

Uma melancolia do laço social?

2004

4.

APOLINÁRIO, C.

Acting out e passagem ao ato: entre o ato e a enunciação

2006

5.

BIRMAM, J.

O mal – estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação

2007

Fonte: Pesquisa bibliográfica 2012.

3. Resultados e Discussão

Como descrito, foram utilizadas referências bibliográficas que teve como finalidade decorrer sobre o suicídio na adolescência: uma visão da psicanálise. Diante de tal assunto, foram pesquisados vários autores que enfatizaram sobre os impasses do adolescente na visão da psicanálise e sobre o suicídio.

Nesta vertente pretende-se fazer uma discussão entre os autores, tendo em vista obter um ponto de vista entre os mesmos, com fins, de entender o que os autores estudados pensam e colocam sobre o suicídio na adolescência e suas nuances.

Assim, cabe ressaltar que o foco da pesquisa foi à visão da psicanálise, fato, este que os autores mais abordados foram Freud e Lacam devido serem os mentores de tal método, bem como discutem a temática de forma mais ampla e conclusiva.

Nesta ótica Alberti (1999), deu a sua contribuição ao relatar sobre a adolescência comungando dos escritos de Lacan e afirma que “cada sujeito terá sua adolescência determinada pela história de sua vida, pelos acidentes de seu percurso e pela virulência com que empreende o início de sua travessia” (ALBERTI, 1999, p. 206). A autora afirma ainda sobre as transformações corporais que acontecem com os adolescentes que é conhecida cientificamente como desenvolvimento biopsicossocial, na qual é observada uma série de transformações.

Outro termo que é enfatizado por Alberti (1999), é como a psicanálise aborda a questão da adolescência. Para a autora, a psicanálise não aborda os aspectos fenomenológicos e desenvolvimentistas da adolescência, mas as questões relativas ao sujeito, pois o que interessa para a psicanálise, do ponto de vista da teoria lacaniana, é o sujeito do inconsciente, isto é, o sujeito do significante.

Já para Soler (1997), enfatiza sobre a adolescência é afirma o que Lacan ressalta sobre o processo de separação, devido à operação de separação começa precocemente, quando há a inscrição do Nome-do-Pai. No entanto, consideramos que na adolescência esta operação é reeditada. Nesta reedição encontramos algumas particularidades, visto que o sujeito é convocado a sair dos bastidores, passando a ter que dirigir a própria cena.

Já Lacan (1962-1963/2004), vem afirmar sobre o conceito de acting out e passagem ao ato. Segundo o autor como barreiras à angústia, temos o acting out, tradução na língua inglesa do termo agieren, utilizado por Freud, e por fim há a passagem ao ato. Se até esse momento, estava em pauta, o seqüestro da ação, cabe perguntar: porque, na sua aproximação maior com a angústia, Lacan convoca o acting out e a passagem ao ato, que não são afetos e sim expressão de ação?   Lacan dirá que a ação sequestra certeza da angústia, apropriando – se dela. Ora se o significante engana, a angústia, ao contrário, é justamente aquilo que fornece a certeza.

Diante dos textos utilizados no artigo, o autor que contribuiu sobre o suicídio foi Justus (2003), afirmando que, nos dias de hoje novas demandas e novas modalidades de expressão de sofrimento. Com as inúmeras ofertas e avanços da psicofarmacologia, nega-se a causalidade psíquica diante do mal-estar, ou seja, o sujeito é excluído do enfrentamento de sua dor de existir ele mantém o gozo e não experimenta a falta. Com isso, a angústia é rapidamente eliminada pelo medicamento, pela droga ou pelo consumo. Trata-se da vigência do mercado dogozo como coloca Justus (2003).

Justus (2003) ressalta ainda que é preciso ter cuidado para afirmar que o suicídio seja da mesma ordem que as tentativas do próprio ato, pois as duas são formas de expressões. Entretanto, o suicídio se coloca na perspectiva como modo possível de existência.

Podemos ler no ato suicida uma investida radical e apaixonada de construção da subjetividade, questão fundamental que foge à compreensão do próprio sujeito no momento de sua execução. Ao tentarmos nos posicionar frente à questão do suicídio, postamo-nos diante da questão do sujeito frente à sua subjetividade: instauração ou renúncia (JUSTUS, 2003, p.3).

Outro autor que relata sobre o suicídio e compartilha da mesma ideia de  Justus (2003) e Alberti (1999), foi Douville (2004), afirmando sobre o alarmante e crescente número de suicídio entre os adolescentes, uma vez que nos coloca em alerta a este ato como saída para a angústia. A tentativa de suicídio se inscreve na série de dificuldades e problemas da adolescência quando o jovem não encontra a sustentação dos pais. Entretanto, é preciso que os pais suportem este movimento dos filhos, não abrindo mão da responsabilidade de acompanhá-los em sua trajetória. O efeito da desistência dos pais é desesperador: o adolescente se vê deixado cair, buscando muitas vezes saídas trágicas, como a tentativa de suicídio.

Douville (2004) chama a nossa atenção para pensarmos no que falta ao adolescente de hoje. Nos dias atuais, nunca se teve tão fácil acesso aos meios de comunicação, mas ao mesmo tempo nunca se teve tanta falta de consistência linguística. Diante da fala do autor, vale ressaltar que mesmo com essa gama de informações virtuais, não faz com que a angústia do seja anulada. Pois, na adolescência, o projeto de vida é mais difícil por vários motivos como: as transformações no corpo, as rupturas e crises entre parentes, morte, tradições, dentre outros. Portanto, cabe refletirmos que o suicídio nada tem a dizer, pois ele já é dito e precisa ser entendido como um significante.

Em relação à psicanálise foram utilizados os escritos de Lacan, no qual ele afirma que o simbólico marca a importância da linguagem e indica que o fundamento da psicanálise não pode ser encontrado em nenhum outro lugar que não o lugar ocupado pela palavra, pois de acordo com a clínica psicanalítica, a palavra age sobre o sintoma estrutura-o, ou melhor dizendo, ela tem efeitos sobre o sintoma. Portanto, só a análise vai revelar o sentido que um sintoma tem para o sujeito analisante. Com isso, Freud criou a associação livre, método pelo qual o sujeito é convidado a dizer ao analista tudo o que vier a cabeça. Neste ambiente o sujeito terá a licença para fazer com que surja a verdade da qual não diz, mas que está sofrendo. Portanto, o sintoma surgirá como sofrimento e enunciará uma verdade única. Contudo, na psicanálise, tudo passa pela palavra, o que quer dizer que não há nenhum lugar para o contato, sendo a linguagem de acordo com Lacan, um terceiro estrutural comum à fala e ao inconsciente Lacan (1999).

Já para Miller (1997), além de afirmar o mesmo que Lacan em relação ao uso da palavra na psicanálise, afirma ainda a importância da questão da investida do sujeito sobre o analista onde o coloca no lugar de um mestre que é capaz de produzir um saber sobre o seu sofrimento.

Diante deste contexto e perante o ponto de vista dos autores supracitados, pode-se perceber que mesmo tendo olhares e colocações diferenciadas, todos chegam ao consenso que o suicídio na adolescência é pertinente a respectiva fase, uma vez que por si só é conflituosa, ou seja, o seu desenvolvimento psicossocial, sexual e emocional, passa por transformações que em muitos casos o adolescente não suporta e/ou não sabem relacionar o lidar com tais mudanças inerentes a construção da sua identidade, uma vez que suas angústias, pressão, opressão e/ou situação mal resolvida nas suas relações sociais, familiares e/ou amorosas podem levá-lo a cometer o ato do suicídio como uma forma/saída do sofrimento interno e para o mesmo insuportável.

4. Considerações Finais

O presente artigo desde o seu início vem com a proposta de refletir sobre um assunto, ao qual, além de pouco discutido é algo abstrato (o psiquismo não é objetivável, entre a realidade dos órgãos e o corpo pulsional há sempre um hiato) no qual, para algumas pessoas não tem uma razão, fato, ao qual, o referido artigo vem evidenciar que o suicídio possui sim uma explicação neste caso na visão e lógica da psicanálise.

Não obstante no diálogo entre os autores que estudam e discutem a referida temática pode-se perceber que analisam o suicídio como consequência de decepções, frustrações e agonias advindas das vicissitudes sociais, familiares e amorosas decorrentes de conflitos externos e internos.

Nesta vertente pode-se afirma que o suicídio na adolescência é um ato, ao qual, tem como prevenir, uma vez que tanto os profissionais como os familiares devem estar atentos às mudanças de comportamento dos adolescentes, no que tange o isolamento, raiva e/ou agressividade.

Ou seja, o preocupante assunto do suicídio na adolescência é algo presente na nossa sociedade, portanto é preciso que esses adolescentes ao buscar amparo de um analista, encontrem um profissional que se comprometa a ajudá-lo, pois de acordo com Gerez (2003), a escuta do sujeito que tentou o suicídio deve ser de urgência, visto que, diante do fracasso da tentativa de suicídio, outra poderá acontecer.

Entretanto, a psicanálise tem seu papel de ajudar o sujeito e consequentemente encontrar respostas que faça o adolescente refletir sobre a importância da sua vida, tanto para o mesmo quanto para os familiares, bem como a necessidade de entender e interpretar seus conflitos de forma que possa lidar com os mesmos superando assim o momento difícil em que se encontra.

Devido à alta complexidade do tema, esse levantamento bibliográfico poderá despertar nos profissionais da Psicologia em particular e em outros profissionais de modo geral, a buscar um maior aprofundamento em seus estudos sobre o suicídio na adolescência e suas nuances,

Sobre os Autores:

Virgínia Carvalho Santos - Psicóloga pelas Faculdades Integradas Pitágoras de Montes Claros, pós graduanda em Saúde Mental e Atenção Psicossocial pela Universidade Estadual de Montes Claros UNIMONTES

Helenice Saldanha de Castro - Terapeuta - Ocupacional pela Universidade Federal de Minas Gerais UFMG 1983 – 1986, Mestre na área de estudos psicanalíticos – Departamento de psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG 2003 – 2005, Psicanalista – Membro da Escola Brasileira de Psicanálise, orientadora.

Referências:

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ALBERTI, S. Latência e desejo. Marraio(Latência), 5, 10-18, 2003.

ALBERTI, S. O adolescente e o Outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

APOLINÁRIO, C. Acting out e passagem ao ato: entre o ato e a enunciação.

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