Este estudo diz respeito ao atendimento realizado em analisanda de um Serviço de Atendimento Ambulatorial (Clínica Social), de um curso de Psicologia. A mesma será referenciada com o nome fictício de Rosa, 25 anos, casada, três filhos, atualmente, em perícia médica. Teve como via de encaminhamento o Clínico Geral da Unidade Básica de Saúde do Município. Medicamentos de uso contínuo: Cloridrato de Fluoxetina 20 mg, 2 comprimidos pela manhã e Clopan 2mg, 1 comprimido à noite.

A mesma trás a queixa de perda de memória retrograda à data de 30/10/2009, momento este que foi antecedido por uma conversa com a mãe. Nesse sentido, Zimerman (1999) menciona que uma família bem estruturada requer algumas condições básicas, havendo  necessidade de uma hierarquia na distribuição de papéis, lugares, posições e atribuições, com a manutenção de um clima de liberdade e respeito mútuo entre os membros; para assim, não correr o risco na troca de papéis, onde os limites, deveres e direitos de cada um não sejam desrespeitados. E na convivência familiar que a mesma relata dificuldades no relacionamento com a mãe. A partir da data supracitada, iniciaram-se os sintomas de perda de memória retrógrada.

Segundo o Dicionário de Psicanálise Laplanche e Pontalis (2001), a formação do sintoma é o termo utilizado para designar o fato de que o sintoma psiconeurótico é o resultado de um processo especial, de uma elaboração psíquica. Este termo, que se encontram várias vezes ao longo de toda a obra de Freud, sublinha o fato de que a formação dos sintomas psiconeuróticos deve se considerar como um tempo específico na gênese da neurose. No começo, Freud parece haver duvidado em considerá-lo como fase essencialmente diferente à defesa, mas, finalmente assimila a formação do sintoma ao retorno do reprimido e o considera como um processo diferente; sendo os fatores que dão ao sintoma sua forma específica relativamente independente dos fatores que se encontra em jogo no conflito defensivo, coincide o mecanismo da formação do sintoma com o da repressão? São mais prováveis que sejam muito diferentes e que não seja a repressão em si a que produz formações substitutivas e sintomas, senão que estes sejam os signos de um retorno do reprimido e devam sua existência a outros processos completamente diferentes.

Em sentido amplo, a formação de sintoma compreende não só o retorno do reprimido em forma de formações substitutivas ou de formações de compromisso, senão também as formações substitutivas ou de formações de compromisso, senão também as formações reativas. Vale destacar a observação que a palavra alemã bildung (formação denomina o uso freudiano, tanto o processo como o resultado do mesmo). Segundo Laplanche (2001), a forma que adota o reprimido para ser admitido no consciente, reaparecendo no sintoma, no sonho e, de um modo mais geral, em toda produção do inconsciente: as representações reprimidas se encontram deformadas pela defesa até resultar irreconhecíveis. Dessa forma, na mesma formação, podem se satisfazer (em uma mesma transação) ao mesmo tempo o desejo inconsciente e as exigências defensivas.

Em novas considerações sobre as psiconeuroses de defesa, Freud (1896 vol. III), se apóia no estudo do mecanismo da neurose obsessiva, no qual deduz que a idéia de que os sintomas levam em si mesmos o registro do conflito defensivo do qual surgem. No caso desse quadro especifico, indica que o retorno da lembrança reprimida tem lugar de uma forma deformada nas representações obsessivas; estas constituem “formações transacionais entre as representações reprimidas e repressoras”. Nos caminhos da formação do sintoma (1917, vol XVI), a ideia de transação ou compromisso se ampliou rapidamente a todo sintoma, ao sonho, ao conjunto das produções do inconsciente. Freud sublinha que os sintomas neuróticos são os resultados de um conflito.  As duas forças separadas encontram-se de novo no sintoma e se reconciliam, por assim dizer, mediante o compromisso que representa a formação de sintomas.  Isto explica a resistência do sintoma: este é mantido desde ambos os lados.

Freud (1917) se pergunta, se toda manifestação sintomática, é um compromisso? Esta idéia segundo ele próprio resulta indiscutível. Mas clinicamente encontram-se casos nos que se manifestam de forma predominante, ora às vezes a defesa, outras o desejo, até o ponto que, pelo menos numa primeira análise, parece se tratar de defesas não contaminadas absolutamente por aquilo contra o qual atuam e, inversamente outras vezes, parece se tratar de um retorno do reprimido no que qual o desejo se expressaria sem compromisso.  Tais casos constituiriam os extremos de uma escala no compromisso que deve se entender como uma série complementar: os sintomas têm como objetivo, já seja uma satisfação sexual, ora seja uma defesa contra esta e, de uma forma geral, o caráter positivo da realização de desejo, predomina na histeria, e o caráter negativo, ascético na neurose obsessiva. Desta forma, uma vez que esta pulsão não se realiza (a pulsão busca satisfação, uma vez que não se realiza) se paga um preço muito alto, por mais que haja um substituto deste desejo pulsional este não se realiza em sua magnitude. Desta forma (como conseqüência da repressão) reprimida ela é geradora de um ônus e este ônus pode ser o sintoma. O sintoma neurótico é resultado de um conflito e surge como forma de satisfação da libido. As duas forças desejo e defesa se reconciliam através da formação deste sintoma. 

A formação deste sintoma, segundo Freud (1917), dar-se-á uma vez que não há possibilidade de satisfação libidinal possível. Porém, existe a necessidade desse tipo de satisfação real mesmo que não seja a “normal”. A libido é redirecionada e retirada do ego. Um tipo de “escape” pode ser entendido como o ponto de fixação na trajetória de desenvolvimento do sujeito. Mas onde seria este ponto de fixação? Freud diz ser este ponto em “épocas mais felizes” do desenvolvimento. Pode-se dizer que este processo assemelha-se muito coma formação onírica no que diz respeito ao processo de condensação e deslocamento. Todavia à diferença no que diz respeito à custa destas duas formações do inconsciente. No sonho o ônus é menor, pois não há perigo real (afinal o sujeito está dormindo). No sintoma á um ônus real que pode ser traduzido como desprazer e sofrimento.

No processo da formação do sintoma é de extrema importância ficar atento ao que Freud chamou de equação etiológica, ou seja, o fator constitucional do sujeito. Mais precisamente a dois fatores primordiais: os fatores herdados e os adquiridos na primeira infância (experiência infantil). O precursor e criador desta teoria, a psicanálise, teoriza ter dois tipos de formas a que se apresenta o sintoma neurótico: O sentido de um sintoma, conforme verificamos possui determinada conexão com a experiência do paciente estão intrinsecamente relacionados à história de vida do paciente. “Entretanto a os ditos “sintomas típicos” de uma doença, pois são quase os mesmos em todos os casos e as distinções individuais neles existentes quase desaparecem sendo difícil perceber a conexão destes com a história de vida do paciente”. (Freud, 1917, p.277). O sintoma, na visão Psicanalítica, segundo Quinet (1993)...

“[... O Sintoma deve ser questionado pelo analista a fim de descobrir, de acordo com a que este sintoma está respondendo em termos Freudianos podem ser entendido como o que fez fracassar o recalque e surgir o retorno deste para que fosse constituído o sintoma...]”.

Mas Afinal, Qual o Sentido do Sintoma?

 Em psicanálise, diz Freud em sua conferência XVII, valoriza a forma externa do conteúdo do sintoma, ou seja, que os sintomas têm um sentido e se relacionam com as experiências do paciente. Há certa divergência no mérito da descoberta do sentido do sintoma neurótico, mas Freud remete a honra a Breuer (cura bem sucedida de um caso de histeria).  Desta forma, o fundador da teoria psicanalítica ressalva que até na idéia que se julgar mais delirante do insano ha. sentido, basta que se compreenda a maneira de traduzi-la. O Sintoma neurótico, é correto afirmar, possui um sentido, como as parapraxias e os sonhos e estão intimamente ligados com a vida do sujeito. Por estar intrinsecamente articulado a história de vida do sujeito, é que se mostra tão árduo o trabalho para se penetrar nessa miscelânia de traços de caráter e de sintomas. E de início apenas objetiva-se a compreensão e interpretação dos sintomas.

Freud (1917) aponta a conexão do sentido do sintoma com a vida do sujeito, como sendo o ponto de partida para o descobrimento deste sentido, mas também como um ponto de dificuldade.  “Quanto mais individual for a forma do sintoma, mais motivos teremos para esperar que seremos capazes  de estabelecer esta conexão”. A tarefa então, consiste, em simplesmente descobrir, com relação a uma idéia sem sentido e uma ação despropositada (aqui também podemos acrescentar os xistes e atos falhos), a situação passada em que a idéia se justificou e a ação serviu a um propósito. O sintoma é uma "pista" da história do sujeito. Como o indica Freud (1917), é "o signo e o substituto de uma satisfação pulsional que não teve lugar... o resultado da moção pulsional tocada pelo recalcamento". O pensamento freudiano afirmava que o sintoma portava uma satisfação sexual substituta e inadequada, uma fixação libidinal em fases precoces do desenvolvimento que se exprimia na reprodução de cenas e repetição de clichês de comportamento.

Para Paoli (2010),

[“o recalque, pedra angular da teoria freudiana, é conseqüência do conflito entre uma moção pulsional que força seu acesso à consciência e uma contra carga mobilizada pela censura para interditar este movimento. O sintoma seria decorrente do recalcamento de uma idéia inconciliável à consciência, e do deslocamento do afeto correspondente a esta para uma outra idéia que lhe fosse próxima, empreendendo assim uma falsa associação. Logo, a presença do sintoma apontaria o fracasso na operação de recalcamento, pois a sensação de estranheza que provoca - umheinlich - seria a marca de sua exterioridade”].

O sintoma surgiria frente a um conflito de forças e seria resultado de uma solução particular adotada pelo ego que atenderia aos dois interesses simultaneamente: se por um lado, agia no sentido da manutenção do recalque, fazendo oposição ao acesso do conteúdo indesejável à consciência, e com isso abrandava a ira do superego; por outro, permitia com a formação do sintoma uma satisfação pulsional substituta. Em seguimento a esse raciocínio, Freud (1917), concebeu que o desvelamento da idéia oculta pelo sintoma implicaria na remissão deste, assim sendo, a descoberta do sentido do sintoma passou a orientar sua pesquisa. Afiançava ele que o método da associação livre e a interpretação sob transferência seriam a formas possíveis de acessar o material recalcado.

A partir destas reflexões freudianas parte-se conjuntamente com as informações trazidas pela paciente, realizando desta forma uma melhor compreensão dos sentidos dos sintomas apresentados pela mesma. Antes da narrativa da história clínica de Rosa,  acreditou-se ser  pertinente realizar uma revisão bibliográfica da teoria psicanalítica sobre os sentidos do sintoma. Este estudo sobre o sentido do sintoma desenvolver-se-á em torno da primeira tópica Freudiana. Para tanto, há a necessidade de estar, primeiramente, trabalhando alguns conceitos básicos da obra psicanalítica como a mudança do método, da hipnose à prática da associação livre, primeira tópica (sistemas inconsciente, consciente e pré-consciente), sentido, sintoma.
Quanto às mudanças no método: hipnose, sugestivo, associação livre, cabe como início deste tema percorrer as alterações significativas que a técnica psicanalítica sofreu desde seu início, para possibilitar uma visão panorâmica do sintoma desde a fase catártica, sugestiva e da associação livre. Para percorrer este caminho, o da criação da teoria resulta interessante citar alguns fatos da “pré-história” da psicanálise que representam as “primeiras pedras” de sedimentação dos pilares da teoria, por conseguinte a construção da técnica psicanalítica, tal qual há conhecemos nos dias atuais.

Como pode ser visto através de diferentes biografias de Sigmund Freud, sua história de vida está extremamente interligada a história de sua teoria, ou de sua construção (estruturação). Em virtude disto é importante relatar um pouco da história de vida de Freud e de como sua história entrelaça-se com a criação de sua teoria. Freud nasceu no dia seis de Maio de 1856, segundo Fadiman e Frager (1999, p.3) na pequena cidade de Freiberg, com quatro anos, em virtude de dificuldades financeiras muda-se com a família para Viena. Destacou-se como aluno e por conta disso tinha privilégios em casa, como, quarto e “luz” com exclusividade. Em 1873 inicia a faculdade de medicina a qual é concluída com sucesso.

Já em 1885, Freud entra em contato com Charcot para estudar as enfermidades nervosas, este último foi o primeiro a considerar com seriedade os fenômenos histéricos. Nesse momento, Freud observa que as paralisações histéricas podem ser produzidas por sugestão, em estado hipnótico, do que se deduz que estas paralisações são o fruto de representações mentais. Passou-se algum tempo e mais tarde, Freud tem notícia de que dois médicos franceses, Liébault e Bernheim, conseguem bons resultados terapêuticos com histéricos, através do método sugestivo, fundamentalmente a hipnose. Embora este método tenha êxito em certo número de casos, não resulta aplicável às pessoas que não são hipnotizáveis. Além do mais Freud fica insatisfeito com este método, pelo fato de que não evidencia a origem da doença.

A longa caminhada até a regra fundamental dos preceitos psicanalíticos continua-se com a fase de Catarse de Breuer. Em uma ocasião casual, Breuer fez a observação de que a paciente ficava livre da sua perturbação mental quando pode expressar em palavras as fantasias e os afetos que nesse momento a dominavam. Os sintomas derivavam principalmente de sentimentos e pensamentos que haviam surgido numa determinada situação, os quais foram suprimidos.  Em outras palavras, quando a paciente, em estado hipnótico recordava alucinatoriamente aquelas vivências e descarregava os sentimentos suprimidos, o sintoma desaparecia. Este método de ab-reação de afetos recebeu o nome de método catártico; onde se empregava a hipnose e consistia na tentativa de focalizar o exato momento de formação do sintoma. Objetivava-se recordar a cena traumática, desencadeadora do sintoma e ab-reagi-la, com o auxílio do psicanalista. (Freud, 1914, p.193). Freud em sua obra “Ä história do movimento psicanalítico”, (1914, p.18) considera o método catártico de Breuer como um estágio preliminar da psicanálise. Freud adota o método catártico e posteriormente pública junto com Breuer, o livro, Estudos sobre a Histeria (1893-1895), no qual os autores expõem suas observações e conclusões. Na descrição de tais experiências, Freud relata também das dificuldades e desvantagens do método hipnótico, por exemplo, o fato de que o sonho profundo unicamente podia ser alcançado em um número limitado de doentes. Estas limitações foram o incentivo principal para buscar uma técnica que prescindisse da hipnose.

Incansável nessa busca ressalta um experimento realizado por Bernheim com um dos seus pacientes e que Freud tinha presenciado na clínica desse médico.  Na experiência relata-se que aquele doente não lembrava no começo nada de que tinha acontecido durante seu estado hipnótico; mas Bernheim insistiu em que fizesse memória e pouco a pouco, o doente recordou parte por parte aqueles acontecimentos. Isto significou que, ainda vivências que apareciam como totalmente inconscientes, podem ser recuperadas para a consciência e este lembrar sem a utilização da hipnose, já que o doente as lembrava acordado. Com base nessa experiência, Freud começa a renunciar à hipnose e em lugar dela insiste a seus pacientes a que lembrem as vivências esquecidas ou reprimidas. Isto foi decisivo para a mudança da técnica e fundamentalmente para a compreensão dos processos dinâmicos, o inter jogo de forças e tendências psicológicas, que haviam originado os esquecimentos ou repressões e as quais se explicavam pelas dificuldades de lembrar ou de fazer consciente o inconsciente.

Após o abandono da hipnose o objeto de estudo estava focado em descobrir, a partir das associações livres do paciente, o que ele deixava de recordar. O manejo da resistência acontecia através da interpretação e conseqüentemente falar sobre esta, a resistência, ao paciente. Manteve-se o foco na formação do sintoma, mas a ab-reação, ou seja, descargas emocionais, pela qual o afeto ligado a uma recordação traumática é liberado são posto em segundo plano. O que ganha destaque é a importância da superação da sua censura das associações livres. (Freud,1914,p.193).

Na técnica hoje utilizada, o psicanalista abandona a tentativa de colocar em foco um momento ou problema específico. O terapeuta utiliza a interpretação para identificar as resistências e torná-las consciente ao paciente.  Permitindo ao paciente que ele possa recordar repetir e elaborar. (Freud,1914,p.193). Nestas três diferentes técnicas (hipnose, sugestão e associação livre) observa-se um objetivo comum, “descritivamente falando, trata-se de preencher lacunas na memória; dinamicamente, superar resistências devidas à repressão.” (Freud,1914,p.193). Em relação ao Aparelho Psíquico, revemos na primeira tópica que se trata dos modelos concebidos por Freud para explicar como se organiza e funciona a mente. Para isso ele propôs algumas hipóteses entre as quais as mais conhecidas são: a hipótese econômica, que diz respeito essencialmente, á quantidade e movimento de energia na atividade psíquica; a hipótese topográfica, que tenta localizar a atividade mental em alguma parte do aparelho, que ele divide em: consciente pré-consciente e inconsciente; e a hipótese estrutural na qual ele divide a mente em três instâncias funcionais: Id, ego e superego, atribuindo a cada uma delas uma função específica.

Como “aparelho”, na obra de Freud (1914), ele é entendido como uma forma de caracterizar uma organização psíquica dividida em instâncias psíquicas, com funções específicas para cada uma delas, que estão interligadas entre si, ocupando certo lugar na mente. Neste modelo, tópico, o aparelho psíquico é composto de três sistemas (estâncias psíquicas) o Inconsciente (Ics), o pré-consciente (Pcs) e o consciente (Cs). O sistema consciente, de acordo com Freud (1914) tem a função de receber informações originárias de perturbações provenientes do exterior e do interior, que ficam registradas qualitativamente de acordo com o prazer e ou, desprazer que elas causam. Assim, a maior parte das funções perceptivo-cognitivas-motoras do ego – como as de percepção, pensamento, juízo, etc., processam-se no sistema consciente, embora esse funcione intimamente combinado com o sistema Inconsciente, com o qual apresenta-se de forma opositora.

 O sistema pré-consciente, também chamado de “barreira de contato” funciona como um seletor (peneira) que tem como função fazer a seleção do que deve ou não passar para o consciente.  O sistema inconsciente institui-se como a parte mais arcaica do aparelho psíquico. Aqui, no Ics fica contida a pulsão reprimida sob a forma de repressão primária ou secundária, ou seja, a representação desta pulsão fica aqui armazenada. Observa-se estas três instâncias (Ics,Pcs,Cs) como sendo separadas entre si por o que pode-se ser chamado de barreiras. Mas qual seriam estas barreiras? Conforme Rappaport (1984, p.11) esta barreira que separa o ICS do PCS é um ato preciso conhecido por recalcamento. O recalcamento excluiu da consciência toda representação psíquica que pode ser julgada como inaceitável ou prejudicial a nós. Após o exposto é importante comentar cada instância deste aparelho psíquico de forma individual.

O Inconsciente (ICS) é governado por suas próprias regras e leis. Ele não deve ser encarado como uma negação do consciente e sim um território diferenciado. Este sistema é considerado por Freud como o “núcleo ativo da personalidade”.  Freud preconizava que há conexões em todos os eventos mentais, estas sendo conscientes ou inconscientes. Mas como este evento pode ser chamado de inconsciente, como se dá isso? Fadiman e Fragner em seu livro Teorias da personalidade elucidam que um processo psíquico inconsciente se dá quando a existência torna-se obrigada a ser suposta devido a um motivo que inferimos a partir de seus efeitos, aqui entendidos como emoções (ansiedade e angustia).

Estes processos mentais mostram-se sendo atemporais, e uma vez que este venha à tona (por formações do inconsciente que burlem a barreira do recalque) é dotada de toda a sua carga emocional, outra hora evitada e ou reprimida. O Pré-Consciente é uma parte do inconsciente que, quando necessário, pode tornar-se consciente com facilidade isto devido às porções mnêmicas fazerem parte desta instância. Essas porções da memória estão ligadas a fatos do cotidiano diário do sujeito de experiências passadas. De acordo com Fadiman e Fragner (1986, p.8) o pré-consciente é como uma vasta área de posse das lembranças de que a consciência precisa para desempenhar suas funções.

A partir disso, o processo psicoterápico com a paciente em estudo, foram realizadas entrevistas individuais, uma vez que não foi possível a inclusão de outros membros da família, por negarem-se ao comparecimento. Foi utilizado como recurso auxiliar a representação gráfica da casa, da árvore e da figura humana,  Buck, (2003), onde se observa as seguintes características de personalidade. Tendência à inibição e ao retraimento, bem como, insegurança e timidez diante dos segmentos da vida. Observa-se também baixa autoestima e mente emocional tipicamente feminina. O senso de realidade mantém-se preservado, porém observa-se uma significativa resistência ao contato externo, bem como pouca fantasia e baixa tolerância às frustrações. A negação surge nesta resistência ao contato com o mundo externo, não querendo ver a realidade que a cerca, pois isso trará sofrimentos, uma vez que também requer crescimento e autonomia. Parte das frustrações surge da demanda de apoio não atendida pela mãe. A falta de apoio e segurança de que necessita é buscada na figura materna que não reconhece essa necessidade. O conflito em virtude da não escuta do outro, da demanda de afeto materno não correspondido, segundo a paciente, fazendo com que a mesma demonstre uma tendência em agradar a esse outro em detrimento de si mesma.

Foram observadas a preservação das seguintes funções egóicas:, linguagem, afetividade, orientação e atenção. Função egóica comprometida: Memória, observando-se que após evento (conversa com a mãe em 30-10-09), está função ficou comprometida e consciência, uma vez que a mesma em vários momentos, como refere-se, não ter consciência de sai mesma e de sua representação. Desta forma, faz-se necessário uma análise das funções egóicas no processo terapêutico. O estudo das funções egóicas, possui significativa importância, tanto para a compreensão da dinâmica do comportamento, quanto para entender os mecanismos de ação das influências sobre esse comportamento. Para Fiorini (1994, p. 121), a análise das funções egóicas também o é por razões de eficácia terapêutica, já que se destacou, com plena legitimidade, que o êxito ou o fracasso de uma psicoterapia dependem da evolução adequadas ou do descaso pelos recursos egóicos do paciente.

Numa análise dentro do desenvolvimento da teoria psicodinâmica do comportamento, a ênfase da às funções egóicas valeu como uma reação, uma vez que elas constituíram a zona menos atendidas por uma elaboração teórica rigorosa.  Ainda em Fiorini (1999, p. 122), o enfoque egóico recorta então, aspectos dotados de uma particular plasticidade e permeabilidade a influências múltiplas de modificação, fornecendo assim, uma base para a compreensão da ação terapêutica, a prazos curtos e médios.

Mecanismos de Defesa Utilizados pela Analisanda

Deslocamento: Desloca no outros (mãe, patroa, terapeuta, marido), a responsabilidade pela falta de afeto e de autonomia de que procura. Regressão: Observado na dificuldade da aquisição de autonomia e independência (preferindo não trabalhar, ficar em casa, na cama, desmaiar). Repressão: Reprimindo conteúdos de sua infância com dificuldade em ressignificá-los.

Quando nos referimos aos Mecanismos de Defesa descritos por Freud, estes mecanismos são: Repressão, negação, racionalização, formação reativa, isolamento, projeção, regressão e sublimação (Anna Freud, 1936; Fenichel, 1945). Todos estes mecanismos podem ser encontrados em indivíduos saudáveis, e sua presença excessiva é, via de regra, indicação de possíveis sintomas neuróticos. Freud não pretendeu que suas observações sobre Mecanismo de Defesa fossem inteiramente originais. Ele citava outras observações sobre o tema. Segundo ele, os Mecanismos de Defesa são mecanismos inconscientes pelos quais o Ego se dissocia de impulsos ou afetos sentidos como perigosos para a integridade do organismo.

A seguir descrevemos cada um destes mecanismos e sua utilização nos indivíduos. A essência da repressão consiste em afastar uma determinada coisa do consciente, mantendo-a a distância (no inconsciente) (1915, livro 11, p. 60 na ed. bras.). A repressão afasta da consciência um evento, idéia ou percepção potencialmente provocadoras de ansiedade e impede, dessa forma, qualquer "manipulação" possível desse material, entretanto, o material reprimido continua fazendo parte da psique, apesar de inconsciente. Segundo Freud, a repressão nunca é realizada de uma vez por todas e definitivamente, mas exige um continuado consumo de energia para se manter o material reprimido. Para ele os sintomas histéricos com freqüência têm sua origem em alguma antiga repressão. Algumas doenças psicossomáticas, tais como asma, artrite e úlcera, também poderiam estar relacionadas com a repressão. Também é possível que o cansaço excessivo, as fobias e a impotência ou a frigidez derivem de sentimentos reprimidos. Por fim, a repressão/recalque é a rejeição de uma motivação, emoção ou idéia, penosa ou perigosa, tendendo a dissociar-se delas. 

Um outro mecanismo de defesa é a negação é a tentativa de não aceitar na consciência algum fato que perturba o Ego. Os adultos têm a tendência de fantasiar que certos acontecimentos não são, de fato, do jeito que são, ou que na verdade nunca aconteceram. Este vôo de fantasia pode tomar várias formas, algumas das quais parecem absurdas ao observador objetivo. A seguinte estória é uma ilustração da negação:

Uma mulher foi levada à Corte a pedido de seu vizinho. Esse vizinho acusava a mulher de ter pegado e danificado um vaso valioso. Quando chegou a hora da mulher se defender, sua defesa foi tripla: “Em primeiro lugar, nunca tomei o vaso emprestado”. Em segundo lugar, estava lascado quando eu o peguei. Finalmente, “Sua Excelência, eu o devolvi em perfeito estado”.  Desta forma, a notável capacidade de lembrar-se incorretamente de fatos é a forma de negação encontrada com maior freqüência na prática psicoterápica. O paciente recorda-se de um acontecimento de forma vívida, depois, mais tarde, pode lembrar-se do incidente de maneira diferente e, de súbito, dar-se conta de que a primeira versão era uma construção defensiva.

Para exemplificar a negação, Freud citou Darwin, que em sua autobiografia dizia obedecer a uma regra de ouro: sempre que eu deparava com um fato publicado, uma nova observação ou pensamento, que se opunha aos meus resultados gerais, eu imediatamente anotava isso sem errar, porque a experiência me ensinou que tais fatos e pensamentos fogem da memória com muito maior facilidade que os fatos que nos são totalmente favoráveis.

A racionalização é o processo de achar motivos lógicos e racionais aceitáveis para pensamentos e ações inaceitáveis. É o processo através do qual uma pessoa apresenta uma explicação que é logicamente consistente ou eticamente aceitável para uma atitude, ação, idéia ou sentimento que causa angústia. Usa-se a Racionalização para justificar comportamentos quando, na realidade, as razões para esses atos não são recomendáveis.

A afirmação cotidiana de que "eu só estou fazendo isto para seu próprio bem" pode ser a Racionalização do sentimento ou pensamento de que "eu quero fazer isto para você, eu não quero que me façam isto ou até mesmo, eu quero que você sofra um pouco". Também pode ser Racionalização a afirmação de que "eu acho que estou apaixonado por você". Na realidade poderia estar sentido que "estou ligado no teu corpo, quero que você se ligue no meu". Racionalização é um modo de aceitar a pressão do Superego, de disfarçar verdadeiros motivos, de tornar o inaceitável mais aceitável.

Já na formação reativa, esse mecanismo substitui comportamentos e sentimentos que são diametralmente opostos ao desejo real. Trata-se de uma inversão clara e, em geral, inconsciente do verdadeiro desejo. Como outros mecanismos de defesa, as formações reativas são desenvolvidas, em primeiro lugar, na infância. As crianças, assim como incontáveis adultos, tornam-se conscientes da excitação sexual que não pode ser satisfeita, evocam conseqüentemente forças psíquicas opostas a fim de suprimirem efetivamente este desprazer. Para essa supressão elas costumam construir barreiras mentais contrárias ao verdadeiro sentimento sexual, como por exemplo, a repugnância, a vergonha e a moralidade. Não só a idéia original é reprimida, mas qualquer vergonha ou auto reprovação que poderiam surgir ao admitir tais pensamentos em si próprios também são excluídas da consciência.

Infelizmente, os efeitos colaterais da formação reativa podem prejudicar os relacionamentos sociais. As principais características reveladoras de Formação Reativa são seu excesso, sua rigidez e sua extravagância. Através da Formação Reativa, alguns pais são incapazes de admitir certo ressentimento em relação aos filhos, acabam interferindo exageradamente em suas vidas, sob o pretexto de estarem preocupados com seu bem-estar e segurança. Nesses casos a superproteção é, na verdade, uma forma de punição. A formação reativa é o fenômeno pelo qual um pai muito rude com a filha utiliza-se desse mecanismo para se livrar de uma relação incestuosa com a filha.

Quando nos referimos à projeção relatamos que a mesmaé oato de atribuir à outra pessoa, animal ou objeto as qualidades, sentimentos ou intenções que se originam em si próprio, é denominado projeção. É um mecanismo de defesa através do qual os aspectos da personalidade de um indivíduo são deslocados de dentro deste para o meio externo. A ameaça é tratada como se fosse uma força externa.

A pessoa com projeção pode, então, lidar com sentimentos reais, mas sem admitir ou estar consciente do fato de que a idéia ou comportamento temido é dela mesma. Alguém que afirma textualmente que "todos nós somos algo desonestos" estão, na realidade, tentando projetar nos demais suas próprias características. Ou então, dizer que "todos os homens e mulheres querem apenas uma coisa, sexo", pode refletir uma Projeção nos demais de estar pessoalmente pensando muito a respeito de sexo. Outras vezes dizemos que "inexplicavelmente Fulano não gosta de mim", quando na realidade sou eu quem não gosta do Fulano gratuitamente.

Sempre que caracterizamos algo de fora de nós como sendo mau, perigoso, pervertido, imoral e assim por diante, sem reconhecermos que essas características podem também ser verdadeiras para nós, é provável que estejamos projetando.

Pesquisas relativas à dinâmica do preconceito mostraram que as pessoas que tendem a estereotipar outras também revelam pouca percepção de seus próprios sentimentos. As pessoas que negam ter um determinado traço específico de personalidade são sempre mais críticas em relação a este traço quando o vêem nos outros.      Na projeção são deslocadas qualidades que o indivíduo queria para si, para outrem. Como um pai louvando a maravilha de filho que tem. O indivíduo percebe no mundo exterior e, em particular, em outra pessoa, as características que lhe são próprias.

Desta forma, quando nos referimos ao Mecanismo de Defesa regressão, estamos afirmando que o mesmoé um retorno a um nível de desenvolvimento anterior ou a um modo de expressão mais simples ou mais infantil. É um modo de aliviar a ansiedade escapando do pensamento realístico para comportamentos que, em anos anteriores, reduziram a ansiedade. A regressão é um modo de defesa bastante primitivo e, embora reduza a tensão, freqüentemente deixa sem solução a fonte de ansiedade original.

Finalmente, na regressão as pessoas, geralmente em estados patológicos, assumem comportamentos infantis na busca de afeto. Defesa contra uma frustração pelo retorno a uma modalidade de comportamento e de satisfação anterior.

No Mecanismo de Defesa sublimação, a energia associada a impulsos e instintos socialmente e pessoalmente constrangedores é, na impossibilidade de realização destes, canalizada para atividades socialmente meritosas e reconhecidas. A frustração de um relacionamento afetivo e sexual mal resolvido, por exemplo, é sublimado na paixão pela leitura ou pela arte. Finalmente, a sublimação permite que alguém que possui muita agressividade, mesmo sádico, se engrandeça pela prática de atos socialmente elogiados, tipo o médico cirurgião. Derivação de instintos e tendências egoístas e materiais para objetivos altruístas e espirituais. Para o Mecanismo de Defesadeslocamento, Freud descreveu-o como sendo o mecanismo psicológico de defesa onde a pessoa substitui a finalidade inicial de uma pulsão por outra diferente e socialmente mais aceita. Durante uma discussão, por exemplo, a pessoa tem um forte impulso em socar o outro, entretanto, acaba deslocando tal impulso para um copo, o qual atira ao chão.

A principal caracterização de um indivíduo utilizando o Mecanismo de Defesa introjeção são: Incorporação das características de alguém que se admira,  como o jovem que veste roupas de um ator para se parecer com ele. Incorporação imaginária de um objeto ou de uma pessoa, amada ou odiada, ao ego ou ao superego do indivíduo. A partir desta reflexão, seguimos abaixo com os diagnósticos encontrados em relação ao Estudo de Caso em questão de acordo com as observações e, fundamentados teoricamente.

Diagnóstico Estrutural:

Como diagnóstico estrutural, observou-se no processo psicoterapêutico a manifestação de Histeria de Angústia, que se caracteriza pela predominância de sintomas de conversão. No quadro desta analisanda as manifestações são observadas em crises conversivas onde a consciência se mantém preservada. A histeria é uma classe de neuroses que apresenta quadros clínicos muito variados. Os sintomas da neurose podem ser comuns a outras patologias, como é o caso da depressão, irritabilidade, insônia, taquicardia.

O quadro de neurose é caracterizado especificamente por angústia, fobias, obsessões, conversões, e inibições. O neurótico sofre de uma expectativa desagradável, causada pela angústia ou ansiedade, de que alguma coisa ruim vai acontecer. É um medo sem causa, indefinível, mas que toma o indivíduo completamente, podendo se caracterizar por uma simples intranqüilidade ou por estados gradualmente mais graves até uma angústia catastrófica e terrível. A analisanda apresentou estes sintomas principalmente com vínculo materno e nos momentos em que e exigida sua autonomia. Segundo relato da mesma surgia um medo inexplicável, parecendo que algo de ruim pudesse acometer e não teria ninguém para socorrê-la.

Diagnóstico Nosológico:

Na Classificação Internacional das Doenças – CID 10, a Histeria de Angústia está amparada com a nomenclatura F-43.1, sendo nomeado dentro dos Transtornos Dissociativos.  Os transtornos dissociativos ou de conversão se caracterizam por uma perda parcial ou completa das funções normais de integração das lembranças, da consciência, da identidade e das sensações imediatas, e do controle dos movimentos corporais. No passado, estes transtornos eram classificados entre diversos tipos de "histeria de conversão". São de origem psicogênicos, dado que ocorrem em relação temporal estreita com eventos traumáticos, problemas insolúveis, insuportáveis, ou relações interpessoais difíceis. Nos critérios de diagnóstico para transtornos conversivos DSM-IV, um ou mais sintomas podem ser encontrados para clarificação do diagnóstico ou (A); Déficits afetando a função motora ou sensorial voluntária, que sugerem uma condição neurológica ou outra condição médica geral. (B); Fatores psicológicos são julgados como associados com o sintoma ou déficit, uma vez que o início ou a exacerbação do sintoma ou déficit é precedido por conflitos ou outros estressores. (C); O sintoma ou déficit não é intencionalmente produzido ou simulado (como no Transtorno Factício ou na Simulação). (D); O sintoma ou déficit não pode, após investigação apropriada, ser completamente explicado por uma condição médica geral, pelos efeitos diretos de uma substância ou por um comportamento ou experiência culturalmente sancionados. (E); O sintoma ou déficit causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

O processo terapêutico da paciente baseou-se na Psicoterapia Breve de Orientação Analítica, voltado para a Psicoterapia de Insight, que de acordo com Fiorini (1999), são  utilizadas técnicas de terapia de apoio (alivio da sintomatologia), que consiste em estabelecer uma relação de indagação, bem como de empatia. Isso proporcionou uma visão global centrada na promoção da autonomia, clarificando a situação das crises e amnésia, ficando na promoção da autonomia, a auto-observação e uma compreensão de suas dificuldades, estimulando assim, aprendizagem e a auto compreensão.

Considerações

O processo terapêutico desenvolveu-se em 16 (dezesseis) sessões individuais, por se tratar de uma psicoterapia breve que, neste caso variou para mais em virtude da significativa evolução do quadro que culminou em alta. A idéia era realizar maiores atendimentos com a presença dos demais membros da família, especialmente a mãe, onde a mesma negou-se em participar do processo terapêutico da analisanda. Nas três primeiras entrevistas foram expostas informações sobre a história de vida e a história clínica do paciente. A mesma trouxe aspectos referentes à queixa inicial e de seu relacionamento com a mãe e de sua perda de memória após conversa com a mesma. Foram explorados dados sobre a perda da memória retrógrada, os tratamentos utilizados até o momento e os sintomas se fazem mais presentes. A idéia da exploração desses dados, diz respeito à obtenção de uma maior compreensão do caso, e ao passo que isso é possível, ir delineando o plano terapêutico.

No que diz respeito à importância da colaboração e participação dos pais no processo terapêutico, Arzeno (1995, p.167, apud Sei; Souza; Arruda, 2008) propõe a inclusão da entrevista familiar ao compreender que “o sintoma é o emergente de um sistema intrapsíquico que está, por sua vez, inserido no esquema familiar também doente”. Nos casos em que a “doença” da família emerge via sintoma do paciente Zornig (2001, apud Sei, et all, 2008), complementa que não é possível excluir os pais da análise de seus filhos, já que “o sintoma do filho desenrola-se nos interstícios do discurso parental”. Nesse sentido, Arzeno (1995, apud Sei; Souza; Arruda, 2008) considera que a construção sintomática traz a marca da função simbólica dos pais, sem, no entanto, ser redutível a ela. Isto significa reconhecer a ligação fundamental entre a criança e seus cuidadores fundamentais, procurando delimitar um espaço no qual os pais e a criança possam diferenciar suas questões, imprimindo um cunho singular e único às suas narrativas. Neste estudo de caso estudado, resultava de grande importância compreender qual a relação dinâmica estabelecida entre esta analisanda e os outros membros da família, em especial a mãe. No decorrer das entrevistas, foi  percebeu-se a importância que a mesma dava aos sintomas, pois os mesmos lhe possibilitavam uma condição de conforto, o que a impediam de adquirir uma autonomia.

Sobre a ligação entre sintomas do analisando e aspectos familiares, a preservação de espaços individuais de cada um na dinâmica familiar é defendida pelos autores, bem como, a orientação de pais pode mostrar-se como uma possibilidade de intervenção em conjunto com a psicoterapia individual. Seu sentido está atrelado à influência que a família tem para a saúde dos membros. A partir dessa perspectiva, o trabalho com a mãe é importante, para que ambas, possibilitando reflexões sobre os momentos de conflitos e as consequências destes  para a vida adulta de Rosa. Cabe esclarecer que embora se perceba o tipo de relação estabelecida, o tratamento exige cuidados, uma vez que o tipo de vínculo formado (mãe e filha) é resultado também de ganhos e nem sempre existe por parte dos atores disponibilidade para perdê-los, a não ser que surjam outros benefícios decorrentes desta.

Referindo-se ainda as primeiras três entrevistas, Rosa relatou sobre o desejo em melhorar e que não quer o uso das medicações, mas que principalmente, que tenha alguém que a escute e que a compreenda (terapeuta). Relata que quando percebe que vai dar a “crise”, a mesma liga para o marido que vem rapidamente para uma cunhada que mora próximo. A figura materna, mesmo morando ao lado pouco aparece e quando o faz é para criticar, dizendo que a mesma “não tem motivos para fazer aquilo (crises), pois tem uma vida boa”. Tais atitudes, segundo Rosa, é porque ela mesma não consegue controlar seu pensamento, tendo muitas vezes sentido medo dela própria, no que diz respeito ao que poderá fazer nestas crises. Por este motivo que nunca a deixam sozinha, o que reforça a dependência emociona, dificultando o desenvolvimento e promoção de sua autonomia. A figura masculina (marido) acaba por ocupar o papel de pai (cuidador), que segundo a analisanda, seu pai biológico não o fez, ficando somente em função da realização dos desejos da mãe, o que impossibilitou um contato mais satisfatório deste com as filhas.

Nesse sentido, Zimerman (1999) menciona que uma família bem estruturada requer algumas condições básicas, havendo a necessidade de uma hierarquia na distribuição de papéis, lugares, posições e atribuições, com a manutenção de um clima de liberdade e respeito mútuo entre os membros; para assim, não correr o risco na troca de papéis, onde os limites, deveres e direitos de cada um não sejam desrespeitados. No caso desta analisante pode-se perceber que existe uma confusão importante em relação aos papéis dentro da família. Mesmo sendo a filha mais velha, a mesma ainda não possui uma autonomia no que diz respeito à arrumação da casa e no comportamento da irmã mais nova. Percebe-se que esta a domina, tanto nas atitudes quando no afeto de seus pais, o que faz com que a mesma fique zangada com a irmã na infância, porém atualmente, existe uma harmonização entre ambas. Rosa, ao final das 16 sessões foi restituída sua memória retrógrada, bem como sua autoestima e autonomia, bem como seus papéis sociais.

Sobre o Autor:

Janete Leony Vitorino - Graduada em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC- Psicóloga pela Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, Psicopedagoga pela Universidade do Sul de Santa Catarina UNISUL e Neuropsicopedagoga (Em Formação) pela Faculdade Porto das Águas – FAPAG. Capacitação em Saúde Baseada em Evidências (Em formação), pelo Hospital Sírio Libanês. Desenvolvendo atividades junto a Secretaria de Estado da Saúde – SEA de Florianópolis desde 1990 e no Instituto de Aperfeiçoamento Executivo Nacional – IAPEN - Nas áreas de Desenvolvimento de Pessoas, Preparação para Aposentadoria, Relacionamento Interpessoal, Ética profissional, Trabalho de/em Equipe, Biossegurança, Emoções no Trabalho, Distúrbios e Transtornos de Aprendizagem e Gênero, Habilidades Sociais e Sexualidade. Atendendo em Clínica Particular. Contatos: Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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