Resumo: O filme Alice no país das maravilhas, dirigido por Tim Burton (2010), nos proporciona uma reflexão a respeito da nossa sanidade enquanto indivíduos inseridos em uma sociedade com normas e padrões já estabelecidos de como o sujeito deve ser. Nesta perspectiva, fizemos uma revisão bibliográfica e a relacionamos ao contexto do filme. Essa pesquisa se deu no sentido de compreender a loucura ao longo da história, assim como seus significados e o tratamento que lhes eram prestados em cada um dos seus três principais momentos, como liberdade e verdade, no grande internamento e após a revolução francesa. Verificamos que mesmo, nos dias atuais, tanto loucura como sanidade possuem vários sentidos, utilizamos alguns personagens do filme para ilustrar alguns destes significados. E levando em consideração que a psicologia trabalha para a promoção de saúde, autoconhecimento e crescimento psicológico do indivíduo, e que no filme Alice faz uma viagem ao seu mundo interno através de um sonho, destacamos três das principais teorias da personalidade, a psicanálise, a psicologia analítica e a Gestalt-terapia, e os seus conceitos de crescimento psicológico, e fizemos uma relação com a jornada de Alice no "mundo subterrâneo". Por fim, identificamos aspectos saudáveis e patológicos da sanidade e da loucura, a fim de identificar os limites entre a loucura sã e a sanidade patológica.

Palavras-chave: Crescimento psicológico, Autoconhecimento, Alienação, Normas sociais, Autenticidade.

1. Introdução

A loucura só existe em uma sociedade, já afirmava Foucault (1961). Esta pesquisa visa discutir a questão dos limites saudáveis entre loucura e sanidade, e partindo desta ideia, mas entendendo que entre essas duas polaridades existe m uma diversidade de graus, sendo essa uma compreensão relativa, que leva em conta a cultura e a época. Considerando cada ser humano único, entendemos que não é possível identificar um único padrão, sendo muito tênue a separação entre normal e anormal, entre saudável e patológico.

De acordo com o dicionário brasileiro Globo (1993), louco é aquele que perdeu o uso da razão; demente; insensato, brincalhão; apaixonado; furioso; e são é a pessoa sadia; que tem saúde; cujas faculdades morais e intelectuais estão em bom estado; salubre; salutar; reto; verdadeiro; ortodoxo; porém encontramos muitos outros sentidos para esses dois polos.

A história da loucura traz esses diferentes sentidos em diferentes épocas. Foucault (1978) comenta sobre loucura podendo significar algo místico, vindo de fora do indivíduo como uma punição, algo interno da ordem do visível e do mensurável; como doença orgânica a partir da teoria dos humores, relacionada com as substâncias da biles; a loucura no Renascimento passa a ser vista como saber, o louco é que sabe a verdade; no Século XIV passa a ser vista como desviante; até que no Século XVIII surge a psiquiatria e a loucura  passa a ser diagnosticada e tratada.

Segundo Phillips (2008), um dos significados de sanidade pode ser que somos entendidos pelos outros e por nós mesmos nas nossas ações, intenções e motivos, ou seja, podemos ser responsáveis por nossas ações e suas consequências. Em contrapartida afirma que os antipsiquiatras, como R.D.Laing, Foucault e Sartre, defendiam o fato do louco ter algo a dizer, e que valia a pena ouvi-lo e levá-lo a sério.

Para ilustrar essa pesquisa utilizaremos a trajetória da personagem Alice no filme Alice no país das maravilhas, de 2010, dirigido por Tim Burton. O filme mostra a Alice depois de 13 anos, como uma jovem tendo que tomar a decisão de viver conforme a sociedade afirma ser adequado para uma garota, aceitando um casamento arranjado, ou ouvir seu “eu interior” e seguir os passos do pai, saindo totalmente dos padrões pré-estabelecidos da época. Antes da resposta ao pedido de casamento, Alice retorna ao “país das maravilhas” e trilha uma jornada pelo seu mundo interior descobrindo-se, e assim fortalecendo o seu self tendo, portanto, condições de tomar a decisão mais adequada para si, mesmo correndo o risco de ser taxada de “louca”, por se desviar do padrão.

O psicólogo trabalha na promoção de saúde enfocando a subjetividade e com o objetivo de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal, sendo assim podemos pensar que também trabalha para uma valorização de aspectos pessoais que podem ir de encontro aos padrões pré-estabelecidos por uma sociedade (BOCK, FURTADO, TEIXEIRA, 1999).

Ao consultarmos algumas teorias da personalidade encontramos um ponto que apesar de apresentado de maneira diferente em cada uma, nos leva a pensar na descoberta de si mesmo, de sua essência para uma vida psíquica saudável; e, nesta perspectiva, falaremos  neste trabalho da psicanálise de Freud, da psicologia analítica de Jung e da gestalt-terapia de Perls.

A psicanálise busca compreender os aspectos da vida mental, obscuros e reprimidos, Freud (1906, p. 56) afirma que:

O propósito da psicanálise é absolutamente uniforme em todos os casos: é preciso trazer à tona os complexos reprimidos por causa de sentimentos de desprazer e que produzem sinais de resistência ante as tentativas de levá-los à consciência.

Segundo Fadiman e Frager (2004, p.42) os objetivos presumem que “ao nos libertarmos das inibições do inconsciente, o ego estabelece novos níveis de satisfação em todas as áreas do funcionamento.” Na psicologia analítica Fadiman e Frager (2004, p.106) apontam que “todo indivíduo naturalmente busca a individuação, ou autodesenvolvimento”. Em psicologia analítica, individuação é o processo pelo qual o indivíduo alcança a completude, um funcionamento dinâmico entre ego e self e uma integração das diversas partes da psique, de modo que a individuação é o desdobramento da nossa natureza básica.

A gestalt-terapia define saúde e maturidade psicológicas como sendo “a capacidade de trocar apoio e regulação externos por apoio e regulação próprios.” (FADIMAN E FRAGER, 2004, p.78).

Phillips (2008, p.106) afirma que: "Discussões sobre sanidade e loucura são sempre sobre o que pessoas querem que as pessoas sejam e apreciem". Segundo o autor não nascemos sãos, mas crescemos aprendendo a controlar nossa loucura, para nos tornarmos aceitos na sociedade. Neste sentido a sanidade se torna algo autocegante, evitativa dos nossos anseios e sentimentos mais intensos. Portanto o autor considera, que "conhecer-nos e ser sãos podem ser coisas mutuamente exclusivas. Nesse caso, a única sanidade disponível para nós pode ser  a loucura" (p.105).

Diante do exposto este trabalho pretende refletir sobre a existência de um aspecto saudável na loucura, na medida em que essa for apreendida no sentido de sair de uma norma considerada padrão para atender ao seu eu, assim como a existência de um aspecto patológico na sanidade, ao considerarmos sãos aqueles que mesmo em detrimento do seu self seguem cegamente as normas, tornando-se alienados de si, assim como compreender que entre  loucura e sanidade pode existir um equilíbrio saudável.

1.1 Objetivo geral

Discutir sobre a tênue linha que separa o normal do patológico e entender a necessidade de manter um equilíbrio entre esses dois pólos, para um funcionamento saudável da  nossa psique, trazendo como ilustração a trajetória de Alice no filme Alice no País das Maravilhas (2010).

1.2 Objetivos específicos

  • Analisar a historia da loucura e seus vários significados.
  • Refletir sobre os vários conceitos de loucura e sanidade.
  • Compreender como se dá o crescimento psicológico nas diferentes teorias da personalidade.
  • Identificar aspectos da loucura sã e da sanidade patológica.
  • Refletir até que ponto a loucura é patológica e a sanidade é sã.

2. Revisão Bibliográfica

2.1 Alice certa e Alice errada – Loucura e sanidade a história e seus vários significados.

- Ah! Se ela fosse ela poderia ser.
- Mas se não é ela não será.
- Mas se ela fosse mesmo ela seria.
- Mas ela não é de jeito nenhum...
(Alice no pais das maravilhas, 2010)

2.1.1 A loucura e a sanidade ao longo da história

A maneira de ver a doença mental está intimamente ligada à imagem do louco e como esse é visto e tratado, a loucura como doença mental é bastante recente, hoje não é mais um fenômeno oposto entre razão e desrazão. Segundo Frayze-Pereira (1984 p.08) “a loucura é interior à razão.”

A loucura passou por três momentos históricos: 1- Como liberdade e verdade nos séculos XV e XVI; 2- O grande internamento nos hospitais gerais entre os séculos XVII e XVIII; 3- A época contemporânea após a revolução francesa, quando cabe à psiquiatria cuidar dos loucos dos asilos (COROCINE, 2005).

Foucault (1978) compara a exclusão dos loucos à exclusão dos leprosos, é quando a lepra deixa esse lugar de abandono no fim da Idade Média, após o fim das cruzadas, que outros o assumirão, e entre eles “as cabeças alienadas”, a loucura que circulava, que fazia parte da vida cotidiana, passa a ser vista como uma forma de punição e se esperava que a salvação viesse da exclusão.

Na Renascença surge a Nau dos Loucos, barcos que levavam de uma cidade a outra os loucos que as cidades escorraçavam, e os loucos tinham então uma existência errante, vagando de porto em porto. E segundo Foucault (1978 p.10) essa era uma “postura altamente simbólica e que permanecerá sem dúvida a sua até nossos dias, se admitirmos que aquilo que outrora foi fortaleza visível da ordem tornou-se agora castelo de nossa consciência.”, ou seja, o louco ainda hoje é escorraçado e vive sem rumo.

No fim do século XV a loucura emerge na literatura, na filosofia, nas artes plásticas, surge um fascínio pelas imagens da loucura. Nessa época a loucura surge como um saber, difícil e estranho, mas que é inacessível ao homem são, sabedoria e loucura estão muito próximas pela via das artes (FOUCAULT, 1978).

Na literatura da Idade Média, a loucura simboliza uma inquietude, os loucos tornam-se personagens maiores, cada vez mais assumem maior importância. O louco lembra a cada um a sua verdade, suas fraquezas, sonhos, e ilusões, assumindo ai uma consciência crítica e um sentido moral.

Na Renascença a loucura começa a ascender com a ruina do simbolismo gótico. Abre- se à um mundo de significações, que faz surgir figuras com sentidos que só se deixa apreender sob o insano. É uma sabedoria simbólica que provem de uma sobrecarga de sentidos e de significações que só o sonho e o insensato podem alcançar.

No final da Renascença a loucura entra em uma relação reversa a razão. Elas se recusam, porém uma se fundamenta na outra, a razão tem sua loucura onde encontra sua verdade, a loucura tem sua razão que a julga e a controla. “A loucura só tem sentido e valor no próprio campo da razão” (FOUCAULT 1978 p. 39).

Na era clássica a loucura aparece como um erro, pois ela é a impossibilidade de  pensar, e era dever da crítica moral denunciar a aparência falsa da vida imaginária entretida pelos homens. O pensamento moderno apresentado por Descartes segrega a loucura. Ela é confiscada por uma razão dominadora, que a aprisiona desta vez filosoficamente, partindo do pressuposto de que a verdade tem que ser pensada e a loucura é a impossibilidade de pensar, pois é a razão que nos distancia da loucura, a não-razão constitui uma ameaça (COROCINE, 2005).

No século XVII a loucura não mais domina a verdade, é o pensamento que a detém. “O eu que conhece não pode estar louco, assim como o eu que não pensa não existe.” (FRAYZE-PEREIRA 1984 p. 61).

Nesse mesmo século foram criadas várias casas de internamento. Foucault (1978, p. 48) afirma que “o internamento dos alienados é a estrutura mais visível na  experiência clássica da loucura”. A loucura entra em seu segundo momento.

Os Hospitais Gerais não possuíam um caráter médico, eram instituições semi-jurídicas que desempenhavam um papel de assistência, mas ao mesmo tempo de repressão. O internamento do classicismo tem a mesma função de segregação dos leprosários da Idade Média (FOUCAULT, 1978), o que explica um pouco como a loucura é percebida e vivida na era clássica.

A igreja aprova a internação, os pobres não são vistos mais como enviados por Deus para suscitar a caridade, agora tanto rico como pobre testemunham a vontade de Deus. Nesta perspectiva, o homem é castigado voluntariamente pelo Senhor, assim ele não pode mais ser socorrido pela caridade. Na Idade Média o louco era personagem sagrado, porque participava dos poderes da miséria para a caridade. Nesta nova apreensão, muitos aceitam o internamento como medida de salvação.

Não há diferença entre os internos dos hospitais, debochados, imbecis, enfermos, insanos, entre outros que sofrem a mesma desonra abstrata. O louco se transforma, detido junto de todos os acusados de imoralidade. A loucura é percebida no campo da miséria, da incapacidade e da impossibilidade de se integrar no grupo. Só mais tarde na história surge o espanto por se confundir criminosos e loucos.

No internamento encontrava-se um lugar para redenção para o pecado da carne e para as faltas contra a razão. A loucura se aproxima do pecado e por séculos carrega a ligação entre o desatino e a culpabilidade; assim, o internamento tem o papel de “conduzir de volta à verdade através da coação moral” (FOCAULT, 1978 p. 112).

Ligada às diferentes formas do Mal, a loucura a partir do século XVII é percebida como uma má vontade, um erro ético. Segundo Frayze-Pereira (1984 p.69) “a loucura nasce de uma escolha que torna possível ao homem exercer livremente a sua natureza racional, isto é, humana, para o homem clássico a loucura é uma manifestação do não-ser, ou melhor, é  uma forma inumana de ser”.

Nesse sentido, enquanto “forma inumana de ser”, o autor afirma que os loucos são vistos como animais, portanto não precisam de proteção, correção ou tratamento, uma vez que a loucura não é doença, não é desvio, precisa ser dominada, para isso precisa ser domesticada. O uso que se faz do internamento no século XVII traz a ideia de que certas formas de liberdade de pensar, certos aspectos da razão irão aparentar-se com a insanidade. Foucault (1978) aponta que no início do século XVII não é mais possível estabelecer uma diferença entre sentido e loucura, que apresentam-se numa unidade que podem passar de um para outro indefinidamente. Esse deslizamento não assombra mais o mundo, passa a ser fato humano, começa ser avaliado por um distanciamento das normas sociais.

A insanidade até então vinculada à desrazão (ausência de razão animal) vincula-se à liberdade de pensar (razão sobre outros aspectos).

A insanidade liga-se a libertinagem no século XVIII, como um estado em que a razão torna-se escrava do desejo e serve ao coração. “A libertinagem no século XVIII, é o uso da razão alienada no desatino do coração” (FOUCAULT, 1978 p.115). A loucura é vista como erro moral, pois assim como o erro religioso a libertinagem vem da recusa da verdade derivada do abandono moral.

Na segunda metade do século XVIII, a concepção da loucura vai estar ligada a certa crítica dos tempos modernos, uma inquietação social com a loucura cresce, pois a loucura é situada em relação ao contexto histórico e social. O artificialismo da cultura moderna torna-se responsável pela possibilidade da loucura, e a loucura é considerada a natureza perdida, temos uma posição inversa à do século XVII, “a animalidade que representava a irrupção da loucura no homem agora representa a felicidade natural reprimida nele pela civilização.” (FRAYZE- PEREIRA, 1984 p. 74).

No final do século XVIII o que antes era escondido no internamento clássico é descaradamente mostrado, os internos são expostos para a população, a vergonha vai sancionar a violação dos costumes, consequência: considera-se que o louco consente em perder a liberdade, pois sabe que não é livre, o confinamento vai apenas tirar a liberdade já desaparecida no plano psicológico.

No fim do século XVIII entende-se que a loucura se enraíza na imaginação, e que quanto mais coagido mais a imaginação se degrada e, portanto quanto menos livre mais louco se fica. Acredita-se que só a liberdade é capaz de aprisionar a imaginação, dessa maneira o internamento torna-se lugar de cura, é o meio pelo qual se organiza a liberdade. A loucura torna-se objeto médico, ganha o valor de doença.

No início do século XIX a loucura não é uma ruptura com a humanidade, ela tem um valor psicológico, é uma desordem que no agir e sentir, pela vontade e liberdade do homem, é algo cuja verdade se esconde no interior da subjetividade humana. Nessa época o louco encerra em si mais do que apenas suas verdades próprias, encerra verdades profundas dos homens (FRAYZE-PEREIRA, 1984).

No século XIX Pinel e a psiquiatria encontram os loucos nos muros do  internamento.

De acordo com Foucault (1978):

A partir de Pinel, Tuke, Wagnitz, sabe-se que os loucos, durante um século e meio, foram postos sob o regime desse internamento, e que um dia serão descobertos nas salas do Hospital Geral, nas celas das “casas de força” (p. 48).

E é nessa época que Freud inaugura a psicanálise Frayze-Pereira (1984) afirma:

Há que se levar em conta as consequências radicais das descobertas freudianas: a inseparabilidade do racional e do emocional, da inteligência e das paixões, dos pensamentos e dos desejos, do permitido e do proibido, do visível e do invisível, do real e do imaginário, em suma, do sujeito e do mundo. A significação psicanalítica da loucura não passa pela dicotomia normal/anormal, pois a angústia, a dor, os desejos e as fantasias são constitutivos da vida psíquica de todos os indivíduos (p. 90).

Porém, no século XIX a denominada “especulação séria” não acolhera bem a psicanálise e a loucura, considerando-a que não passa de coisa médica, a então, denominada “consciência crítica” não dá voz à loucura (PEREIRA, 1984).

Com a racionalização crescendo cada vez mais no mundo, a loucura não encontra mais lugar, a não ser a exclusão. A loucura passa a ser narrada segundo um código que é o do médico. A dimensão humana da experiência da loucura desapareceu.

Em matéria de loucura, o homem contemporâneo passou a ser aquilo que o discurso competente do conhecimento diz que ele é: doente de índole histérica, depressiva, esquizofrênica etc; cuja linguagem é delírio; cuja visão é alucinada; cujo comportamento é obsceno; cujo mundo é irreal (FRAYZE-PEREIRA, 1984 p. 97).

Na sociedade, onde não se aceita o diferente, a diversidade, a loucura é sempre uma ameaça. “E, com efeito, se a loucura é nesse mundo patologia ou anormalidade é porque a coexistência de seres diferenciados se tornou uma impossibilidade.” (FRAYZE-PEREIRA 1984 p.102)

2.1.2 Sentidos e significados da loucura e da sanidade.

Frayze-Pereira (1984) afirma que “são emprestadas à loucura tantas vestes que ela se mostra a nós disfarçadas de certa maneira.” (p.08). Encontramos em Alice no país das maravilhas loucos e sãos em diferentes contextos: a sua tia Hermógenes patologicamente louca, com sintomas claros como o delírio de estar à espera de seu noivo que é um príncipe, esclarece o tipo de loucura que deve ser tratada; pois, segundo Dalgalarrondo (2000) dentro do conceito de normalidade funcional em psicopatologia, podemos considerar normais aqueles que funcionam bem, tanto no plano psíquico quanto nos planos social e/ou orgânico, ou seja, quando a pessoa tem prazer e satisfação com a vida, ou em outro conceito levantado pelo  autor de normalidade como liberdade, quando a pessoa tem autonomia e liberdade, o que não é o caso da tia de Alice que acaba restringindo a sua vida.

Esse conceito de loucura como doença mental assume a feição de  uma  entidade natural manifestada por sintomas; nesse caso Frayze-Pereira (1984) considera que “de modo geral, o doente encontra-se perturbado ao nível da realização de ações que visam satisfazer as necessidades da personalidade, bem como realizar suas possibilidades.” (p. 19)

Para os antipsiquiatras não havia loucos e sãos, todo mundo era louco de certa maneira, já os psiquiatras eram aqueles capazes de distinguir os loucos dos sãos. (PHILLIPS, 2008).

Vale notar o que afirma Frayze-Pereira (1984) acerca da doença mental:

Ao explicar a “doença mental” (suas causas e evolução), alguns darão ênfase às condições orgânicas (hereditárias ou não), outros, aos conflitos afetivos ligados à história de vida do paciente e, ainda, mais recentemente, à patologia das relações interpessoais. E, a partir daí, torna-se praticamente impossível dizer o que é  a loucura sem tropeçar em conceitos oriundos de teorias frequentemente rivais e que por si mesmas justificarão essa ou aquela medida no trato com os loucos a própria Psiquiatria se encontra dividida. Há desde os que encaram a loucura como uma doença correlacionada a distúrbios bioquímicos até os que a negam totalmente como doença; (p. 97).

O mesmo autor afirma que o indivíduo é considerado louco sempre em relação a algo ou alguém, pois é muito difícil definir a loucura por si só.

O anormal é uma virtualidade inscrita no próprio processo de constituição do normal e não um fato ou uma entidade autônoma que definiríamos pela identificação de um conjunto de propriedades delimitadas e imutáveis. O anormal é uma relação: ele só existe na e pela relação com o normal. Normal e anormal são, portanto, termos inseparáveis. E é por isso que é tão difícil definir a loucura em si mesma (FRAYZE-PEREIRA, 1984, p. 22).

O pretendente de Alice, Hamsh, é um partido perfeito aceito por todos, um lorde, faz parte da alta sociedade, segue as normas, porém está totalmente alienado, não se permite pensar, segue cegamente o que lhe é imposto, mas é considerado são em relação aos costumes e a sociedade da época. Essa ideia está em sintonia com a afirmação de Frayze-Pereira (1984 p.56) “há diferentes formas humanas de loucura. E cabe à crítica moral denunciá-las, ou seja, denunciar as ilusões nascidas do apego que o homem mantém por si mesmo”.

Nesse sentido, sanidade está ligada a uma norma, uma regra, que se estabelece para eliminar as diferenças. Em uma cena, no início do filme, Alice é repreendida por não estar vestida apropriadamente, e rebate a mãe questionando quem decide o que é apropriado, a resposta para esse questionamento está nas normas. Porém, o autor esclarece, a própria norma cria a possibilidade da sua negação lógica.

A palavra latina norma, que está na origem do termo normal, significa “esquadro”.  A palavra normalis quer dizer “aquilo que não se inclina nem para a direita nem para a esquerda”, ou seja, que é “perpendicular”, que “se mantém num justo meio termo”. Portanto, “uma Norma uma regra, é aquilo que serve para retificar, pôr de pé, endireitar”. Nesse sentido, normalizar é impor uma exigência a uma existência que possui um caráter diversificado, irregular” (FRAYZE-PEREIRA, 1984, p. 20/21).

Sendo assim, a sanidade é um termo difícil de se descrever e definir, pois é construído em termos sociais, em uso por consenso. A definição de sanidade é rara de ser encontrada, segundo Phillips (2008) às vezes a sanidade é mencionada, mas sem que jamais seu significado seja explicado. O termo sanidade foi utilizado pela primeira vez por médicos do Século XVII para se referir a “saúde do corpo e da mente” (PHILLIPS, 2008, p. 10).

Nesta perspectiva, seria a sanidade para a mente o que a saúde é para o corpo, a mente funcionando assim como o corpo, de maneira apropriada, o que pressupõem que algumas pessoas saibam o que é adequado ou não.

A sanidade é geralmente usada como uma alternativa para a loucura. Entretanto de acordo com Phillips (2008) há uma falta de interesse em defini-la de modo que possa ser discutida.

Uma das maneiras que a sanidade é descrita é como uma condição sem extravagância ou intensidade, está ligada a uma serenidade, um domínio de si. Para ilustrar essa sanidade, encontramos a mãe de Alice, sempre muito controlada, mantendo sempre a postura, seguindo os padrões.

Assim também é a mãe de Hamsh, mas, além de seguir os padrões e manter a postura, aparenta-se amarga, sem vida. A despeito disso, Phillips (2008) destaca que "a sanidade a que aspiramos ao socializarmos, ao tornarmos aceitável o sentimento e desejo loucos dos primórdios de nossas vidas, pode ser ela mesma o problema". (p.73)

Phillips (2008) considera também a sanidade como uma integridade da mente, "um estado idealizado de hierarquias felizes e tradições infalíveis" (p.44) é usada para indicar pessoas disciplinadas, em uma sociedade de valores partilhados. Quando Alice insinua não saber se quer se casar, sua irmã afirma que ela será feliz e terá uma vida perfeita, pois logo terá vinte anos e se não se casar, será um fardo para sua mãe, o que a irmã quer de Alice é que tenha sanidade e aceite se casar.

A loucura por outro lado é descrita como desordem, excesso, desequilíbrio, é o que Alice era para a Aristocracia Vitoriana. Ou seja, para Phillips (2008) sanidade é tudo aquilo que é comedido, dentro da lei, enquanto loucura é tudo o que foge do controle, que é proibido. Phillips (2008) aponta que a sanidade pode ser uma estratégia para nos proteger do  mundo louco, é como se reconhecer certas coisas a nossa volta pudesse destruir nosso equilíbrio. A sanidade se torna aquele lugar onde tudo é ótimo, ela é a fantasia que nos mantem sãos.

Como a rainha vermelha tinha uma cabeça muito grande, não admitia perto de si nenhuma pessoa que não tivesse um nariz grande, uma orelha grande, uma barriga grande   ou qualquer membro do corpo de tamanho desproporcional, só estando neste padrão poderia ficar em Salazen Grum no castelo da rainha vermelha, pois assim rodeada de pessoas estranhas,  não reconheceria em si um defeito, o que lhe tiraria o equilíbrio. A sanidade em Salazen  Grum é a fantasia, que os protege da insanidade da rainha vermelha.

Alice esteve no país da maravilhas quando criança, e ao retornar há uma discussão se ela é a Alice certa ou a Alice errada. De acordo com Phillips (2008, p. 64) “nascemos literalmente insanos”. Ele apresenta o período da infância como um período de loucura original, que por meio do desenvolvimento nos ensinara a governar essa loucura, ou seja, a sermos sãos. Neste sentido, falamos da loucura como a falta de controle sobre o corpo, uma incontinência, uma incapacidade de trabalhar, habilidades verbais inadequadas e necessidades corporais imediatistas que buscam uma expressão gratificante de suas vontades, o que é comum em bebês e crianças, mas que são características consideradas de loucos quando presentes em adultos. A sanidade aqui passa a ser entendida como a capacidade de usar a mente para elaborar e adiar a própria gratificação.

Alice cresceu, não é reconhecida no país das maravilhas porque, de acordo com Phillips (2008), deixou seu estado de loucura sã (não que ela fosse louca quando criança), mas o que para ela, agora adulta, é loucura, quando criança era normal. Alice aprendeu a se proteger e se defender de seus sentimentos intensos e sensações agudas, agora poderia se dizer que ela é sã.

Porém, para os habitantes do mundo subterrâneo, a Alice “certa” é a que no mundo real seria considerada “louca”. Foucault (1975) afirma que “A doença só tem realidade e valor de doença no interior de uma cultura que a reconhece como tal” (p.49). Aqui verificamos um outro aspecto da loucura, em uma visão mais antropológica que procura relativizar a loucura, mas que ao mesmo tempo traz o desvio como sua essência. “O louco seria, segundo essa abordagem, essencialmente um caso de desvio ou de inadaptação. Nesse sentido, independentemente da diversidade cultural, a loucura é concebida como um problema eterno.” (FRAYZE-PEREIRA, 1984, p. 27).

A loucura é um fenômeno (psicológico e cultural) que pode assumir mil facetas, mas cuja forma é constante, à medida que a loucura significa um defeito da capacidade humana universal de simbolização e que esta define a humanidade bem como a cultura, ser louco significa ser des-humanizado (des-culturado), isto é, aquele que rompeu com a natureza humana (FRAYZE-PEREIRA, 1984, p. 34).

A mente sã vai controlar e adequar o que está descontrolado. O chapeleiro maluco diz a Alice que ela não é mais a mesma, que ela era muito mais “muitais”, que perdeu sua “muiteza”. Não existe um significado para a palavra “muiteza”, porém o chapeleiro aponta a falta de alguma coisa dentro de Alice, poderíamos considerar, portanto “muiteza” como um recurso interno; sendo assim, o Chapeleiro refere que Alice perdeu sua autenticidade, sua autoconfiança, o que vai de encontro ao que afirma Ribeiro (1998) sobre nossas resistências. Segundo o autor sofremos um bombardeio desde o início da vida para nos "concertar" por meio da "boa educação", o que por um lado nos faz cada vez acreditarmos menos em nós, e por outro ficarmos tanto mais reprimidos e defendidos quanto mais pressões externas sofremos.

Phillips (2008) esclarece que para os antipsiquiatras a sanidade ao extremo significava o que existe de mais embotador na cultura, a loucura neste sentido era uma resposta autêntica ao que existia de mais desumanizador no mundo.

O autor considera que a sanidade é um dos ideais mais difíceis que buscamos, e que ela deve ser buscada sem um alvo preciso, se é que é algo que devamos buscar, pois "sanidade é ao mesmo tempo algo a que resistimos e algo de cuja existência tendemos a duvidar". (PHILLIPS, 2008, p. 15).

O Chapeleiro maluco, é a expressão da loucura que existe em Alice, loucura que,  assim como afirma Phillips (2008), "pode ser associada tanto com a expressão não- convencional da verdade como com a intenção de enganar." (p. 22). O Chapeleiro é o louco que, de acordo com o autor,

Fala de maneira que não compreendemos, mas isso nos faz pensar que ele sabe alguma coisa que não sabemos. Ele pode soar ingênuo e extraordinariamente inteligente ao mesmo tempo (p. 22).

Nietzsche apud Phillips (2008) afirma ser muito provável que onde haja loucura, haja sabedoria e genialidade. Assim é a loucura do Chapeleiro, que também é a loucura de Alice, e do pai de Alice, que busca a inovação, sem o medo das incertezas futuras. Por seu lado, o autor aponta que, ao crescermos, nosso entusiasmo, nossa animação é esvaziada para não nos pormos em perigo, ou seja, na forma mais extrema a sanidade torna-se um refúgio contra um novo perturbador.

Considerando que o mundo subterrâneo é o inconsciente de Alice e que cada personagem é um aspecto de sua própria personalidade, damos razão ao Chapeleiro Maluco quando afirma que Alice também teria que ser meio louca para sonhar com ele.

Phillips (2008) considera que a sanidade boa seria aquela que torna a loucura algo diferente, é um talento para transformar o que nos apavora em nós mesmos e não deixar destruir nosso prazer em viver. O autor propõe que a sanidade impõe limites a algo de excessivo nas pessoas, que é chamado de loucura. Esta é a sanidade que Alice encontra ao retornar do mundo subterrâneo.

2.2 O mundo subterrâneo - Teorias da personalidade e o crescimento psicológico.

- Sabe que dia é amanhã, não sabe?
- Sei, o gloriam day, como eu esqueceria? Eu queria acordar.
- Ainda acredita que está sonhando Alice?
- É claro, tudo isso vem da minha mente.
- Significa, que eu não existo.
- Infelizmente sim. Você é fruto da minha imaginação, eu sonhava com alguém que é meio louco.
- Sim, sim, mas você também teria que ser meio louca pra sonhar comigo.
- Então eu devo ser. Vou sentir sua falta quando eu acordar.
(Alice no pais das maravilhas, 2010)

A prática do psicólogo como afirma Bock, Furtado e Teixeira (1999):

Irá caracterizar-se pela aplicação dos conhecimentos psicológicos no sentido de uma intervenção específica junto a indivíduos, grupos e instituições, com o objetivo de autoconhecimento, desenvolvimento pessoal, grupal e institucional, numa postura de promoção da saúde (p.157).

Seguindo esse raciocínio e partindo do pressuposto de que, no filme Alice no país das maravilhas (2010), a personagem Alice ao cair no buraco estaria desacordada, podemos  pensar no “país das maravilhas” ou “mundo subterrâneo” como o seu mundo interno, portanto parte de sua estrutura psíquica. O caminho trilhado por Alice, pode ser comparado a um processo de crescimento psicológico.

Nesta perspectiva iremos destacar resumidamente o pensamento de três das principais teorias da personalidade, e relacioná-los ao contexto do filme e ao processo de crescimento psicológico da personagem Alice.

2.2.1 Sigmund Freud e a psicanálise

Sigmund Freud (1856-1939) a partir de seus conhecimentos de biologia, neurologia, ou seja a medicina criou o modelo do psiquismo baseado na clínica psicológica e ofereceu um modo complexo e conveniente de compreender o funcionamento mental e patológico, a psicanálise (FADIMAN E FRAGER, 2004, p. 29).

Freud descreveu a mente dividida em consciente, pré-consciente e inconsciente. O consciente é a parte evidente da mente, porém é apenas uma pequena proporção da mente. O pré-consciente é uma parte do inconsciente, onde encontra-se conteúdos que podem se tornar conscientes com facilidade, memórias facilmente acessadas. O inconsciente é onde estão os elementos pulsionais, que não são acessíveis à consciência, que foram excluídos da consciência ou que nunca foram conscientes, e esses conteúdos afetam a consciência indiretamente. O inconsciente tem certa vivacidade de seus conteúdos que são atemporais, pois o tempo não os altera, e "memórias muito antigas, ao serem liberadas na consciência, não perderam em nada sua força emocional" (FADIMAN E FRAGER, 2004, p. 34).

Seguindo os pensamentos de Freud, em psicanálise a estrutura psíquica é descrita em três componentes básico: id, ego, e superego (FADIMAN E FRAGER, 2004).

O id é o núcleo de onde emerge o resto da personalidade, é primitivo e desorganizado, não se modifica com nosso desenvolvimento. Os objetivos do id são reduzir a tensão, aumentar o prazer e minimizar o desconforto, seus conteúdos são quase totalmente inconscientes, incluem pensamentos primitivos que nunca foram conscientes e pensamentos negados ou considerados inaceitáveis à consciência (FADIMAN E FRAGER, 2004).

A parte da estrutura em contato com a realidade externa é o ego. Ele se desenvolve para aplacar as demandas do id e protegê-lo. É do id que o ego obtém energia. O ego tem funções tanto em relação ao mundo interno, mantendo as pulsões em controle, decidindo se podem ser satisfeitas, se devem ser adiadas, ou suprimidas, e em relação ao mundo externo, adaptando-se a ele, modificando-o ou evitando situações, para torná-lo mais seguro ou confortável, para assim cumprir o objetivo de garantir a segurança, a saúde e a sanidade da personalidade (FADIMAN E FRAGER, 2004).

Os autores enfatizam que o superego se desenvolve a partir do ego, que serve como  um censor sobre as atividades do pensamento do ego. É no superego que estão inseridos os códigos morais, de padrões e conduta, além dos construtos que formam as inibições para a personalidade. Fadiman e Frager (2004) descrevem três funções do superego: consciência, auto-observação e formação de ideias. O superego se forma sobre o modelo do superego   dos pais, e atua para restringir, proibir e/ou julgar as atividades da consciência, mas também atua indiretamente no inconsciente.

Bock, Furtado e Teixeira (1999) destacam que:

É importante considerar que estes sistemas não existem enquanto uma estrutura vazia, mas são sempre habitados pelo conjunto de experiências pessoais e particulares de cada um, que se constitui como sujeito em sua relação com o outro e em determinadas circunstâncias sociais. Isto significa que, para compreender  alguém, é necessário resgatar sua história pessoal, que está ligada à história de seus grupos e da sociedade em que vive (p. 78).

De acordo com Fadiman e Frager (2004) para a psicanálise a psique tem o objetivo de manter ou recuperar um nível de equilíbrio que maximize o prazer e reduza a tensão.

Ainda segundo os autores, Freud acreditava que o material que  permanece inconsciente tem um dispêndio contínuo de energia, e quando esse material é liberado a energia liberada pode ser utilizada em propósitos mais saudáveis, portanto, satisfatórios. A pessoa mais livre "é capaz de responder diretamente a cada situação, equilibrando as preferências individuais conforme restrições impostas pela cultura." (p. 46).

Em psicanálise, afirmam Fadiman e Frager (2004), sonhos são um equilíbrio parcial entre anseios pulsionais e limitações da vida real. "Sonhar é um modo de canalizar desejos insatisfeitos, através da consciência, sem despertar o corpo físico" (p. 43), e complementam "um sonho não aparece simplesmente. Ele se desenvolve para atender necessidades específicas, é uma rota alternativa para satisfazer os desejos do id" (p.43).

O sonho faz um trabalho de seleção, transformação, distorção, invenção, e outras modificações de um desejo original, não são aleatórios e nem acidentais.

O psicanalista então tem a tarefa de ajudar o paciente a recuperar e reintegrar materiais inconscientes para que a sua vida presente se torne mais satisfatória. A energia recalcada é liberada para que o ego pudesse utilizá-la de uma melhor maneira.

Bock, Furtado e Teixeira (1999) consideram que a característica principal do trabalho psicanalítico é decifrar e integrar conteúdo inconsciente, pois são esses conteúdos que em grande parte determinam o comportamento da pessoa, seus sofrimentos, angústias e dificuldades. E apontam como finalidade deste trabalho investigativo.

O autoconhecimento, que possibilita lidar com o sofrimento, criar mecanismos de superação das dificuldades, dos conflitos e dos submetimentos em direção a uma produção humana mais autônoma, criativa e gratificante de cada indivíduo, dos grupos, das instituições (p.80).

2.2.2 Carl Gustav Jung e a psicologia analítica.

A psicologia analítica de Carl Jung (1875-1961) concentra-se no estabelecimento de relacionamento de aspectos conscientes e inconscientes, que para Jung não são separados, são dois aspectos do mesmo sistema (FADIMAN e FRAGER 2004).

Um dos principais conceitos da psicologia junguiana é a individuação, processo de desenvolvimento pessoal. A individuação é o processo que busca a completude do indivíduo através da integração dos vários aspectos da psique. Jung (1980) identifica o sentido e a meta do processo de individuação como a realização da personalidade originária. Neste sentido o autor afirma:

A compensação inconsciente de um estado neurótico da consciência contém todos  os elementos que, quando conscientes, isto é, quando compreendidos e integrados como realidades na consciência, são capazes de corrigir eficaz e salutarmente a unilateralidade da consciência (JUNG, 1980, p. 98).

Conforme aponta Sharp (1991, p. 90), "individuação é o processo de diferenciação psicológica que tem como finalidade o desenvolvimento da personalidade individual". Esse processo se dá pela relação entre o ego e o inconsciente.

Jung (2004) aponta dois tópicos principais ao discorrer sobre os fundamentos principais da psicologia analítica: o primeiro refere-se à estrutura e  conteúdos  do inconsciente; e o segundo aos métodos de investigação dos elementos originários de  processos psicológicos inconscientes.

O inconsciente na psicologia analítica é dividido em inconsciente coletivo e inconsciente individual, segundo Fadiman e Frager (2004, p. 96) "por sua própria natureza, o inconsciente não pode ser conhecido e deve ser descrito em sua relação com a consciência.". Jung (2004, p. 03) afirma "O único meio de que dispomos, nesse caso, é tratar os produtos conscientes de uma realidade, que supomos terem-se originado no campo inconsciente".

O inconsciente pessoal contém aquisições do indivíduo, produtos instintivos que completam a personalidade, além do material passado da pessoa, conteúdos reprimidos, esquecidos e dados criativos (JUNG, 2004).

O inconsciente coletivo é uma herança psicológica, seus conteúdos são de origem desconhecida, tem um caráter mítico, e é pertencente a humanidade em geral. Os elementos  do inconsciente coletivo, não está sujeito a nenhuma vontade (JUNG, 2004).

Jung (2002) aponta "Os conteúdos do inconsciente pessoal são principalmente os complexos de tonalidade emocional, que constituem a intimidade pessoal da vida anímica. Os conteúdos do inconsciente coletivo, por outro lado, são chamados arquétipos" (p.16).

Fadiman e Frager (2004) apontam o arquétipo como o conceito mais complicados de Jung, pois os arquétipos são "predisposições herdadas para responder ao mundo de certas maneiras. Eles são imagens primordiais, representações das energias instintuais do inconsciente coletivo." (p.97).

Jung (2004) se refere aos arquétipos como um "grupamento definido de caracteres arcaicos, que, em forma de significado, encerra motivos mitológicos, os quais surgem em forma pura nos contos de fadas, nos mitos, nas lendas e no folclore." (p. 34).

Os arquétipos possuem uma carga de energia que é liberada quando os mesmos são ativados. Fadiman e Frager (2004, p. 97) afirmam que "toda criatividade tem um elemento arquetípico".

A estrutura da psique é formada pelos arquétipos, os conteúdos da psique de cada um são únicos, embora a estrutura seja a mesma. Os arquétipos só chegam à consciência através de seus conteúdos, como eles são padrões, eles canalizam as energias psíquicas e organizam o material psicológico, mas não podemos estar totalmente cônscios deles.

Sharp (1991, p.28) identifica os arquétipos como "elementos primordiais e estruturais da psique humana." Segundo o autor os arquétipos são irrepresentáveis em si mesmo, mas se apresentam como ideias ou imagens arquetípicas.

As principais estruturas da psique incluem o ego, a persona, o self, a anima ou animus e a sombra. O ego "é o complexo central no campo da consciência" (SHARP, 1991, p.57). Jung (2004), considera o ego o centro de nossas atenções e desejos, é o cerne indispensável da nossa consciência.

O ego nos proporciona uma consistência e direção, e é a tendência a se opor a tudo que possa ameaçar essa consistência. Ele se desenvolve a partir do inconsciente, e reúne nossas experiências e memórias, mas não há conteúdos inconscientes no ego. Ele desenvolve a divisão do consciente e inconsciente (FADIMAN e FRAGER 2004).

A tarefa inicial no processo de individuação é diferenciar o ego da persona, da sombra, da anima ou animus. Só um ego forte pode se relacionar com esses outros conteúdos sem se identificar com eles (SHARP, 1991).

Outra estrutura da nossa psique é a persona, que Jung (2002) identifica como o sistema de adaptação ou estilo de nossa relação com o mundo. Persona é a aparência que mostramos, inclui nossos papeis sociais, é através da persona que nos relacionamos com os outros, é o nosso estilo de ser, se vestir, se expressar. Sharp (1991) identifica a persona como o "eu" que apresentamos ao mundo.

Para Jung o problema é se identificar com a persona, pois assim, não o indivíduo não é capaz de executar uma atividade simples de modo natural, vive o papel. O autor considera, "exagerando um pouco, poderíamos até dizer que a persona é o que não se é realmente, mas sim aquilo que os outros e a própria pessoa acham que se é" (p. 128).

Fadiman e Frager (2004) mencionam que a persona protege o ego e a psique das  forças sociais que os influenciam. A persona pode ser crucial, pois é através dos nossos papeis que o ego vai se identificando e desenvolvendo nossa personalidade.

A nossa sombra inclui os materiais reprimidos, tendências, desejos, memórias rejeitadas, que não eram compatíveis com a persona. Quanto mais forte nossa persona, mais negamos nossa sombra. Ela representa o que consideramos inferior em nós, ou o que ainda não desenvolvemos. O material da sombra é inconsciente, porém quando trazemos esse material à consciência ele perde muito da sua natureza inferior. Quando a sombra não é percebida o sujeito tende a projetá-la nos outros e acaba dominado por ela sem perceber.

Fadiman e Frager (2004, p. 102) apontam:

Cada porção reprimida da sombra representa uma parte de nós mesmos (...) À medida que nos tornamos mais cônscios da sombra, recuperamos partes anteriormente reprimidas de nós mesmos. (...) Ela é um depósito de energia instintual, espontaneidade e vitalidade, e um manancial importante de nossas energias criativas. Como todo arquétipo a sombra se enraíza no inconsciente coletivo, e pode oferecer ao indivíduo acesso a grande parte do material inconsciente valioso que é rejeitado pelo ego e pela persona.

A sombra, porém, é uma parte viva da personalidade e por isso quer comparecer de alguma forma. Não é possível anulá-la argumentando, ou torná-la inofensiva através da racionalização (JUNG, 2002, p.31).

Anima (no homem) ou animus (na mulher) são os arquétipos que complementam a persona, é inconsciente e inclui tudo o que não se encaixa na nossa autoimagem consciente enquanto homem ou mulher.

Para uma mulher, o processo de desenvolvimento psicológico envolve entabular um diálogo entre seu ego e seu animus. O animus pode ser patologicamente dominado pela identificação com imagens arquetípicas (por exemplo, o príncipe encantado, o poeta romântico, o amante fantasmagórico ou o pirata saqueador) e/ou por uma extrema fixação ao pai (p. 102).

A qualidade da união entre anima/animus e a consciência é o principal passo para a individuação. À medida que a influência do anima/animus sobre o indivíduo é reconhecida, eles se tornam o contato entre o consciente e o inconsciente até que se torne integrado ao ego. Se a anima/animus não é integrada tendemos projeta-los para o exterior no sexo oposto, todos as nossas relações com o sexo oposto são afetadas pelas projeções da anima ou animus.

O self de acordo com Fadiman e Frager (2004, p. 103) "é o arquétipo da centralidade. Ele é a união do consciente e do inconsciente, que incorpora a harmonia e equilíbrio dos vários elementos opostos da psique". O self de acordo com Sharp (1991, p. 142) "é o centro regulador da psique", o centro da totalidade assim como o ego é o centro da consciência, ele é muito desconhecido e pouco desenvolvido na maioria das pessoas, com o desenvolvimento do self o ego continua a existir passando a estar ligado ao self.

Para Jung o inconsciente se expressa através de símbolos. Segundo Fadiman e Frager (2004), esses símbolos são algo por si mesmos, são vivos e dinâmicos, e podem representar a situação psíquica do indivíduo.

Os símbolos "são a melhor expressão possível para algo desconhecido" (SHARP, 1991, p. 146). Segundo o autor, Jung se interessou pela capacidade dos símbolos de transformar e redirecionar as energias instintivas.

Os sonhos também têm um importante papel na psicologia junguiana. Jung (1928- 1930, p. 12) afirma "A análise de sonhos é o problema central do tratamento analítico, porque é o meio técnico mais importante para abrir um caminho para o inconsciente. O objeto principal deste tratamento, como vocês sabem, é o de perceber a mensagem do inconsciente." Para o autor os sonhos são uma tentativa de cura, uma maneira de nos fazer assimilar coisas ainda não digeridas.

Fadiman e Frager (2004) destacam que "Jung encarava os sonhos como realidades vivas que devem ser experienciadas e observadas cuidadosamente para serem compreendidas" (p.104).

Sharp (1991, p. 152) afirma que os sonhos "são manifestações independentes e espontâneas do inconsciente; fragmentos da atividade psíquica involuntária, conscientes apenas a ponto de serem reproduzíveis no estado de vigília". Os sonhos nos mostra de forma simbólica a nossa psique do ponto de vista do inconsciente. Jung (1928-1930, p.12) enfatiza "Nossos sonhos são muito peculiarmente independentes de nossa consciência e excepcionalmente valiosos, porque não trapaceiam."

Muitas vezes moldamos nossos pensamentos de acordo com as influências conscientes a que somos expostos, porém nem sempre eles estão de acordo com a nossa personalidade. Os sonhos tem função de restaurar nosso equilíbrio psicológico (FADIMAN e FRAGER, 2004).

Sharp (1991, p. 91) considera que: "A individuação e a vida vivida segundo os padrões coletivos são, contudo, dois destinos divergentes." Quem trilha o caminho pessoal de alguma forma se afasta dos valores coletivos, embora não perca os aspectos da psique que são inerentemente coletivos.

2.2.3 Frederick Salomon Perls e a gestalt-terapia.

A Gestalt-terapia de Perls (1893-1970) é uma terapia existencial-fenomenológica, que ensina o método fenomenológico de warenness, no qual sentir, perceber e atuar é mais importante que interpretar ou modificar atitudes (YONTEF, 1998). A Gestalt-terapia procurava tornar os clientes conscientes, e em contato direto consigo mesmo e com o mundo. "A terapia é um processo de mudança da awareness e do comportamento humano" (Zinker, 2007, p.17)

Na Gestalt-terapia é enfatizado o como ao invés do porquê, e o organismo como um todo, presente aqui e agora (FADIMAN e FRAGER, 2004).

De acordo com Fadiman e Frager (2004) o organismo como um todo sugere que qualquer aspecto do indivíduo, pode ser visto como um todo, assim, o falar, a respiração, a movimentação, a postura da pessoa diz tanto sobre ele quanto o seu pensar.

A visão holística de Perls dá ênfase no aqui e agora, buscando a autopercepção imediata do indivíduo em relação ao seu ambiente. A Gestalt-terapia, afirmam Fadiman e Frager (2004), não busca as lembranças do passado, pede ao paciente que se torne consciente do momento presente, as experiências não resolvidas vão aparecer na experiência presente, o paciente as vivência novamente a fim de completa-la e integra-la ao presente.

Essa orientação para o aqui-e-agora dá ênfase à compreensão descritiva da experiência do indivíduo. Como uma situação pode ter várias causas, saber o porquê pode afastar o indivíduo de uma observação da ação; por sua vez, se a pessoa compreender como a ação acontece, compreenderá a ação propriamente dita.

A partir desses conceitos da Gestalt-terapia chegamos ao processo de crescimento psicológico nesta abordagem, que é o processo de expansão da autoconsciência e ao objetivo da Gestalt-terapia que é a awareness. De acordo com Yontef (1998) "awareness é uma  forma

de experiência que pode ser definida aproximadamente como estar em contato com a própria existência, com aquilo que é" (p. 30).

O autor destaca que uma awareness eficaz é baseada na necessidade atual do organismo, o que requer autoconhecimento e também conhecimento da situação e de como o self está na situação. E destaca "qualquer negação da situação e suas exigências das vontades da pessoa ou da resposta escolhida é uma perturbação da awareness." (p.30).

A awareness é acompanhada por um processo de conhecimento, controle, escolha e responsabilidade dos próprios sentimentos e comportamentos, ou seja, aceitação. A pessoa aware, sabe o que faz, como faz, e escolhe ser como é (YONTEF, 1998).

A awareness é sempre acompanhada pela formação de uma gestalt. Yontef (1998) afirma que quando a awareness não se desenvolve as gestalten incompletas são formadas, desenvolvendo a psicopatologia.

A Gestalt-terapia, afirma Perls (1977), "é 'existencial' num sentido amplo" (p. 19), reconhece tanto a atividade conceitual, quanto a biológica da Gestalten. Segundo o autor, o objetivo do Gestalt-terapeuta é o processo de integração, através do qual se amplia o potencial humano.

Zinker (2007) afirma que a Gestalt-terapia permite a pessoa se revelar, e não se dedica a encaixar pessoas a um molde, embora tenha algumas metas como: que o paciente  desenvolva mais awareness de si mesmo; aprender a assumir as própria experiências;  aprender tomar consciência das suas necessidades e desenvolver habilidades para satisfazê-las; tenha contato mais pleno com suas sensações; perceba mais seu poder pessoal; sinta-se à vontade com a awareness de suas fantasias e sua expressão.

De acordo com Hycner e Jacobs (1997) na Gestalt-terapia a inteireza provem da awareness, e o processo de awareness é um "voltar-se para" a existência de corpo inteiro, ela é integrativa, e de posse de sua consciência o sujeito não aliena aspectos de sua existência.

Ribeiro (1998) afirma que segundo o próprio Perls, "a Gestalt-terapia visa nos ajudar a reentrar em contato com o sábio que todos temos dentro de nós" (p. 52).

O autor também aponta que somos resistentes, e essa resistência que nos protege também nos aliena, assim "o trabalho realmente clínico só pode ser o de criar condições para facilitar o desenvolvimento (a recuperação?) da capacidade individual para a integração (e reintegração) criativas dessa parte alienada" (p. 45). Essa integração será alcançada a partir de um trabalho de autoestima e autoconfiança que nos permita perceber os estímulos do meio e desenvolver uma capacidade criativa de responder a eles.

Perls (1977) define "maturidade como a transição do apoio ambiental para o auto- apoio" (p.23). Na Gestalt-terapia busca-se a maturidade através do desenvolvimento do potencial do indivíduo, da tolerância à frustração, e desmascarando os falsos papeis.

De acordo com Fadiman e Frager (2004) os sonhos em Gestalt-terapia são vistos como "mensagens sobre situações inacabadas, incluindo o que estamos perdendo em nossas vidas, o que estamos evitando fazer, e como estamos evitando e repudiando partes de nós mesmos" (p.79).

Perls (1977, p.25) considera que, "cada parte do sonho é como uma projeção do self alienado do paciente, partes do self devem se encontrar com outras para ocorrer a integração". Assim, no trabalho com os sonhos busca-se reviver o sonho, como se estivesse acontecendo neste momento, de modo que ele se torne uma parte do sonhador. A pessoa deve se identificar com cada parte do sonho.

A filosofia básica da Gestalt-terapia é, segundo Perls (1977), "a da diferenciação e integração", diferenciar leva às polaridades, integrar esses opostos tornam a pessoa completa, e assim terá possibilidade de ver a situação no total sem perder detalhes, tendo condições de lidar com a realidade com os próprios recursos, sem agir com respostas fixas e pré-estabelecidas (p.26). Yontef (1998) destaca: "Não há 'deveria(s)' em Gestalt-terapia, a autonomia e a autodeterminação do paciente são consideradas os valores mais importantes." (p.38).

2.2.4 Alice no inconsciente

A princípio gostaríamos de apontar algumas considerações levantadas por Tim Burton diretor do filme e alguns dos atores, apresentadas no bônus do DVD intitulado Encontrando Alice. Tim Burton fala da ideia de explorar a natureza dos sonhos no filme, é levantada a questão de que no país das maravilhas nada é totalmente bom ou mal, e todos são de alguma forma loucos. Alice no filme diferente do livro está tentando saber quem ela é, o diretor também aponta para a questão de que o que Alice está vivendo no país das maravilhas tem representação com o que ela vive.

O início do filme mostra Alice como era antes, falam de como ela era próxima de seu pai que morre, e a deixa em um luto que revela sua falta de jeito e seu desconforto com a sociedade. Eles entendem a jornada emocional de Alice como a história de Alice reencontrando sua "muiteza", e destacam que a maior questão de Alice é recuperar sua força e descobrir que pode ser confiante, e quando ela aceita sua força, a rainha branca pode recuperar o seu trono e as duas mudam, recuperam o seu poder.

Partindo dessas considerações, podemos fazer uma leitura da história de Alice baseada nas três teorias que acabamos de ver, e entender seu crescimento psicológico. Ao cair no buraco Alice entrar no mundo subterrâneo, ou no seu inconsciente. Vale ressaltar que apesar da Gestalt-terapia não trabalhar com o inconsciente ela não o nega, e em seu trabalho Perls (1977) considera o sonho como projeção de um self alienado do indivíduo, portanto também uma parte desconhecida do sujeito; nesse sentido, estando Alice sonhando, iremos considerar alguns aspectos do inconsciente. Pois de acordo com a afirmação de C. G. Jung (2004, p. 04) "É no inconsciente que mergulhamos todas as noites".

Alice não reconhece nada no mundo subterrâneo, apesar de não lhe causar tanta estranheza. É como se fosse um lugar esquecido, mas não nunca visto; o que faz sentido: é seu mundo interno, porém com conteúdos recalcados ou que nunca tiveram acesso a sua consciência, reprimidos pelos padrões da vida na Aristocracia Vitoriana, e, portanto, irreconhecíveis. Para chegar ao mundo subterrâneo Alice tem uma longa queda em um buraco muito profundo: na teoria psicanalítica o inconsciente é considerado a instância psíquica inscrita mais profundamente, e a queda profunda sugere o quanto esses conteúdos são difíceis de serem alcançados.

Alice, ao iniciar sua viagem ao mundo subterrâneo, o encontra sombrio, destruído, por estar no comando da rainha vermelha. Quando Alice é desafiada a lutar pelo reino, ela está sendo chamada para salvar seu mundo interno, que aparecia simbolicamente devastado, por tudo o que Alice reprimiu de si mesma, para viver nos padrões sociais.

Dentro da perspectiva de uma manifestação onírica encontramos algumas características do inconsciente no mundo subterrâneo. Alice em uma cena comenta com o Chapeleiro como o tempo é estranho nos sonhos, o inconsciente é atemporal, os personagens não acreditam que aquela Alice é a mesma de antes, pois não consideram os anos que passou desde a última vez que Alice esteve lá. O mundo subterrâneo também é confuso, e repleto de imagens simbólicas.

Vimos que o trabalho com o sonho tem um papel importante tanto na psicanálise, quanto na psicologia analítica e na Gestalt-terapia; embora seja trabalhado de maneira diferente em cada abordagem. Verificamos que há um consenso em relação ao conteúdo dos sonhos, como sendo manifestações de aspectos do sujeito: para a psicanálise os sonhos são vistos como desejos insatisfeitos, para a psicologia analítica como forma simbólica do estado de nossa psique, e para a Gestalt-terapia como mensagens de situações inacabadas (FADIMAN  e FRAGER, 2004).

Alice está em um momento tenso de sua vida quando corre atrás do coelho e cai no buraco. Fadiman e Frager (2004) apontam que os sonhos em psicanálise são uma maneira de equilibrar parcialmente os anseios e limitações da vida real, Jung (2004, p. 103), afirma que "os sonhos são a reação natural do sistema de auto-regulação psíquica." Já na Gestalt-terapia os sonhos são um alerta de necessidades que temos em aberto.

Os personagens do "país das maravilhas" representam partes da Alice que foram reprimidas, ou que ela desconhece. O que nos remete ao trabalho com sonhos nas três abordagens.

Nessa perspectiva, simbolicamente cada personagem representa características da Alice. A rainha vermelha representa a necessidade de controle, de manipulação de ideias, a insegurança e instabilidade emocional. A rainha branca representa o feminino, a sutileza, a magia e o equilíbrio. É a poção da rainha branca que traz Alice de volta ao seu tamanho normal. Absolém, a lagarta azul, aparece como a busca de conhecimento, a sabedoria, e representa a transformação de Alice: à medida que Alice vivencia seus desafios, Absolém passa pelo processo de metamorfose de lagarta para borboleta. A lebre representa a ansiedade e agressividade de Alice, ao tremer e jogar as coisas para todos os lados. O coelho branco mostra a preocupação com os compromissos, o que se "deve" fazer. Os gêmeos são a representação do seu lado infantil que foi deixado de lado, por ser mal compreendido pelos adultos. O gato risonho traz o medo e a covardia que Alice precisa vencer, ele é quem desaparece nas horas difíceis.

Para Jung esses personagens representam a sombra de Alice. Além destes temos ainda o Chapeleiro, que seria a representação do animus de Alice, que tem muitos aspectos do pai dela: a loucura do chapeleiro, sua criatividade e espontaneidade, remetem ao que Alice teve  de modelo masculino, o seu pai era visto como um visionário.

Na perspectiva freudiana, a Rainha Vermelha pode representar o superego de Alice. Ela é a lei no mundo subterrâneo, é quem impõe os dogmas e crenças. Ela representa a sociedade rígida, assim como a figura da mãe que lhe impõe regras, postura e até um casamento arranjado.

Ao entrar em contato com esses seus aspectos internos, Alice passa por um processo de crescimento psicológico; para a teoria junguiana, o processo de individuação, para a freudiana a liberação de conteúdos reprimidos e para Gestalt a expansão da consciência através da awareness. Em sua viagem Alice ora está grande demais, ora pequena demais, como se realmente não fosse a Alice certa, e é apenas quando chega ao castelo da rainha branca que Alice volta ao seu tamanho adequado, como se estivesse se reencontrando, e é

neste momento que Absolém diz que ela está bem perto de ser a Alice. Neste momento ela é quase a Alice. Ao enfrentar o Jaguadarte Alice está enfrentando a sociedade que molda, julga, oprime e destrói a sua criatividade.

A questão do contato da busca de awarennes da Gestalt-terapia também fica bem forte no filme. Alice passa a tomar consciência de aspectos dela que não reconhecia, entra em contato com seus medos, e à medida que os encara cresce e se torna mais consciente.

Notamos uma mudança não só em Alice, mas nos personagens do seu sonho, que acompanham a sua mudança psíquica: o Gato risonho, se arrisca para salvar o Chapeleiro, Absolém se transforma em borboleta, o Chapeleiro volta a dançar o "passo maluco", a rainha branca assume novamente o comando do mundo subterrâneo. Ao cortar a cabeça do Jaguadarte, Alice devolve o equilíbrio ao seu mundo interno.

Alice se torna a Alice certa quando aceita o seu desafio. Enfrenta seus medos, se permite pensar e decidir por si só o que fazer, toma as rédeas do seu destino, luta e vence o Jaguadarte. Alice usa o seu sonho para amadurecer. E é assim que Alice volta do mundo subterrâneo, com os conteúdos do seu inconsciente integrados como aponta a individuação de Jung, as energias antes recalcadas, livres para serem usadas em processos mais criativos, como sustenta a psicanálise de Freud e volta mais aware de si como argumenta a Gestalt- terapia de Perls, integrada, com autonomia para fazer escolhas, e responder ao ambiente com criatividade e espontaneidade, sem estar presa aos "deverias" impostos pela sociedade, livre para dizer não aos papeis sociais impostos, livre para seguir de forma individualizada.

2.3 A aristocracia vitoriana e Salazem Grun - Sanidade patológica x loucura sã.

- O que ouve com suas roupas?
- Cresci mais do que elas, eu tenho crescido muito ultimamente, eu sou a mais alta de todos em Anvença, lá eles riem de mim, por isso eu vim aqui, com a esperança que a senhora compreendesse.
- Minha querida! Qualquer um com uma cabeça tão grande é bem-vindo em minha corte.
(Alice no pais das maravilhas, 2010)

Phillips (2008) identifica a verdadeira sanidade como "qualquer coisa em nós que se recuse a sacrificar nossos mundos interiores, nossas visões singulares, para ter sucesso no mundo externo, o mundo como ele é" (p. 27).

O autor ressalta que, para os antipsiquiatras, coisas que reconhecíamos como indícios de normalidade, eram também as que nos alienava de nós mesmos e dos outros, portanto não seria normal ser normal. As famílias normais levavam as pessoas à loucura. A falsa sanidade busca a uniformidade e qualquer grupo que exija as fusões da individualidade enlouquece o indivíduo.

Na sociedade aristocrática onde vivia Alice, assim como na nossa, existe muitas regras que procuram uniformizar os grupos, Alice estava fora dos padrões, não se vestia da maneira que consideravam adequadas, não pensava adequadamente, por isso não estava dentro dos padrões dessa sanidade.

Phillips (2008, p.25) afirma que na visão de Laing somos "fundamentalmente criaturas sãs, alienadas numa falsa sanidade por sociedades a que somos compelidos a contragosto, a nos adaptar".

De acordo com Ribeiro (1998) um dos aspectos que nos leva a nos abandonarmos é a nossa descrença em nós mesmos. Essa descrença é responsável pelo desenvolvimento de resistência, que evita que fiquemos demasiadamente expostos; entretanto isso nos torna seres divididos pelo processo de alienação e de negação de aspectos nossos, que são confrontados com o que o contexto exige de nós. O autor destaca:

Abandonamos para não correr o risco de sermos abandonados pelas pessoas importantes à nossa sobrevivência, e desenvolvemos um modo de existir em que nossas necessidades e anseios cedem lugar aos apelos de fora; um sistema de comportamentos, de papéis essencialmente voltados para corresponder às expectativas alheias. (RIBEIRO, 1998, p.44)

Alice assim como o pai gostava de imaginar coisas impossíveis, era ousada, mas  negou boa parte de si para corresponder as expectativas da mãe e da sociedade.

O processo de resistência começa cedo demais para podermos perceber e nos defender dele ou resistir de uma forma menos alienada. Assim, parte de nós acaba se adaptando e desenvolve a ideia de que estamos errados, e essa parte alienada se alia a sociedade para reprimir nossa outra parte. Quanto mais forte nossa parte adaptada, mais julgamos nossos próprios anseios inadequados, o que nos faz nega-los (RIBEIRO, 1998).

"O paradoxo do nosso desenvolvimento é que aspiramos a uma sanidade que se torna ela própria o problema" (PHILLIPS, 2008, p. 67). A criança tem uma natureza apaixonada, mas para se tornar membro aceito na sociedade sacrifica essa natureza por algo que pensa ser melhor. São oprimidas com os medos que os adultos têm em relação a própria sanidade.

Ribeiro (1998) afirma que a renúncia faz sentido por estarmos à mercê de poderosos que aproveitam para se vingar dos seus próprios sofrimentos e alienação, e diminuir a possibilidade de se sentirem inferiores.

Sem que tenhamos controle ou consciência estamos impregnados de "verdades" norteadoras e impositivas da nossa forma de pensar, das nossas atitude e nossas ações. Ribeiro (1998) aponta que:

Nos movimentamos em um mundo "já feito", "já pensado", e não somos estimulados desde o início de nossas vidas a duvidarmos dessas "verdades" preestabelecidas, e daí surgem os conflitos entre o que queremos ser, e o que acham (ou nós achamos) que deveríamos ser (p. 95).

Somos desencorajados em nossa curiosidade, principalmente quando ela ameaça questionar os tabus e dogmas existentes. Por isso o autor afirma: "existe um conflito genuíno entre indivíduo e sociedade" (p. 96), regido pela lei de preservação à sobrevivência.

Ainda, nesta mesma linha de considerações, Phillips (2008) aponta que o autoconhecimento pode ser perigoso, e assim: foi o não saber quem se é que passou a ser visto como um mérito, a sanidade seria a arte de não conhecer tudo aquilo que se soubéssemos poderia nos levar a loucura. Porém, segundo o autor, a pessoa verdadeiramente sã nunca se conforma com o mundo, pois a conformidade trai aquilo que realmente ela é.

Alice não se deixou alienar, era diferente das moças da sociedade, sua mãe e sua irmã tentavam convencê-la a se adaptar, a seguir os padrões, mas algo em Alice não se encaixava naqueles padrões. Alice ao que parece teve uma criação diferenciada, por conta da personalidade diferenciada do pai, considerado um visionário, que possibilitava o suporte à imaginação de Alice, que não aprendeu a ceder aos apelos da sociedade a ponto de se abandonar totalmente.

Perls (1977) afirma que o primeiro e último problema do homem é se integrar e, ainda ser aceito pela sociedade, pois ao compactuar com os desejos da sociedade, aprendemos a ignorar nossos sentimentos, desejos e emoções.

Essa perspectiva é vivenciada na sociedade aristocrática da era Vitoriana, e também no mundo interno de Alice, que, no reinado da Rainha vermelha, os habitantes do Mundo subterrâneo eram pressionados a se adaptarem aos seus caprichos; em Salazem Grun, onde ficava o castelo da rainha, só eram aceitas as pessoas que tinham ou uma orelha grande demais, ou uma barriga grande demais, ou qualquer parte do corpo de tamanho desproporcional. A rainha por ter a cabeça grande, impunha aos súditos o padrão conforme o seu, pois assim não entrava em contato com o seu próprio problema; como resultado as pessoas, para serem aceitas, passaram a usar narizes, orelhas e barrigas falsas, para enganar a rainha.

Phillips (2008) a esse respeito menciona que temos grande gasto de energia nesse conflito entre a exigências externas e a nossa natureza interna.

Assim, enfatiza Perls (1977), quanto mais o indivíduo tenta viver de acordo com o que a sociedade exige, mais se afasta de seus próprios sentimentos, uma vez que "o resultado  desta alienação dos sentidos é o bloqueio de seu potencial e a distorção de sua perspectiva" (p. 21). Seguindo o que "deveria" ser, a pessoa se torna falsa, pois não está baseada nas suas necessidades genuínas, desempenha papeis sem base no seu potencial, constrói um ideal de como deveria ser e não como é. Todos os esquemas de como a pessoa deveria ser, são  negação da realidade e tentativas de recria-la.

A esse respeito Phillips (2008) argumenta:

A loucura em sua melhor forma, é uma jornada rumo à verdadeira sanidade, rumo a autenticidade de nossa verdadeira natureza, através da loucura estamos em contato com o que há de melhor em nós. A cultura corrompe nossa verdadeira sanidade (p.25).

O indivíduo se torna cada vez mais criativo, autoconfiante e autêntico, desenvolvendo suas potencialidades. O indivíduo criativo pensa cada vez mais por conta própria, tornando-se capaz de atitudes cada vez mais imprevisíveis, portanto menos controláveis pela sociedade, que para sobreviver, necessita de indivíduos mais previsíveis, estáveis, que não questione seus dogmas e preconceitos, indivíduos que renunciam a sua individualidade. Quanto mais inseguro, em virtude de sua falta de fé em si mesmo, mais defensivos se tornam, acentuando  as repressões e conflitos, buscando formar/deformar o outro a sua própria imagem e semelhança, e isso desencadeia defesas que nos ensurdecem, uma vez que nossos conflitos que isolam e nossas guerras nos consomem. (RIBEIRO, 1998).

A sanidade nos mantém no domínio do já conhecido, ela pode ser tranquilizadora, mas também é vazia. Em uma cultura comprometida com a criatividade, individualidade e talento, a sanidade parece inglória, as pessoas não buscam se confessarem sãs. (PHILLIPS, 2008).

O autor aponta que a sanidade modera onde a loucura excede, assim a loucura pode alcançar uma felicidade que a razão e a sanidade podem reduzir.

2.4 O sangue do Jaguadarte - Os limites entre normal e patológico.

- Você podia ficar.
- Que ideia! Uma ideia maluca e maravilhosa, mas eu não posso, existem perguntas que eu tenho que responder, coisas que devo fazer. Eu voltarei antes do que você pensa.
- Não se lembrará de mim.
- É claro que lembrarei, como poderia esquecer?
(Alice no pais das maravilhas, 2010)

Sãos e loucos têm muito em comum, as diferenças entre um e outro ficam pouco claras, e por isso a distinção do que é loucura e do que é sanidade vem sempre acompanhada de uma interrogação. Sãos e Loucos são cúmplices, o indivíduo são vê um pouco de si na loucura, um está ligado ao outro muito mais do que queiram reconhecer. Loucura e sanidade são extensões uma da outra. Phillips (2008), ressalta:

A disputa tradicional entre sanidade e loucura diz respeito, portanto, à transparência de nossas intenções, à extensão em que nossas vidas são nossas - não sujeitas a  forças mais sombrias, a inclinações mais obscuras - e assim podem ser planejadas por nós mesmos para nós mesmos (p.55).

Se o saudável é ser são e louco, como saber a medida? Como não ultrapassar o limiar saudável entre loucura e sanidade? Esse é sem dúvida um ponto bastante controverso, cada  um tem seu limite próprio, o de Alice estava no momento em que o Chapeleiro pede para que ela fique no país das maravilhas: se Alice deixasse de beber o sangue do Jaguadarte que a levou de volta a realidade externa, estaria fazendo um corte com essa realidade e entrando no campo da psicopatologia como sua tia Hermógene. Aqui se faz necessário um esclarecimento a respeito do que vem a ser saudável e o que vem a ser patológico.

Dalgalarrondo (2008) descreve alguns critérios para distinguirmos o normal do patológico. Embora o conceito de normal e patológico seja bastante controverso, o autor considera que esses critérios poderão ser usados de acordo com as opções ideológicas e filosóficas do profissional, entre os critérios estão: "normalidade como ausência de doença", que seria aquela pessoa sem um transtorno definido; "normalidade ideal" é a normalidade a partir de uma norma socialmente construída; "normalidade estatística", o normal é o que se observa com mais frequência; "normalidade como bem estar" é a normalidade baseado no bem estar físico, mental e social; "normalidade funcional", o fenômeno é considerado patológico   à  medida  que  causa  sofrimento   ao  indivíduo  ou  para  seu  grupo  social;

"normalidade como processo" onde considera-se os aspectos dinâmicos do desenvolvimento em cada período etário; "normalidade subjetiva", dá ênfase a percepção subjetiva de cada indivíduo; "normalidade como liberdade", saúde como a possibilidade de transitar sobre o mundo e o próprio destino; e "normalidade operacional", que define o que é normal ou patológico e trabalha-se operacionalmente com esses conceitos. O autor sustenta que os critérios variam de acordo com o fenômeno. Além disso, pode-se utilizar vários critérios associados, e enfatiza que "essa é uma área da psicopatologia que exige postura permanentemente crítica e reflexiva dos profissionais" (p.34)

A despeito disso, Winnicott (2011) afirma que um homem ou uma mulher é saudável quando são "capazes de alcançar uma certa identificação com a sociedade ser perder muito de seus impulsos individuais ou pessoais" (p. 09). Algumas perdas devem existir, para controle dos impulsos, mas em uma identificação extrema perdemos o self, o que não está no campo  do normal.

Para o autor o saudável não é fácil, já que não se limita à simples ausência de doenças psiconeuróticas. E mesmo o indivíduo saudável tem medos, sentimentos conflitivos, dúvidas e frustrações. O importante para a pessoa estar saudável é que sinta que está vivendo sua própria vida, assumindo suas escolhas, sendo independente e autônoma.

Outro aspecto levantado por Winnicott (2011) em relação à saúde é o vínculo entre saúde emocional e sentir-se real, isso ocorre somente se garantirmos o que somos e, assim, podemos partir para coisas mais objetivas.

Ou seja, a verdadeira sanidade é qualquer coisa em nós que se recuse a sacrificar nossos mundos interiores, nossas visões singulares, para ter sucesso no mundo como ele é (PHILLIPS, 2008).

Nesta perspectiva, o autor faz alguns questionamentos: Deveríamos nos curar ou tentar nos aceitar como somos? Deveríamos pensar nossas loucuras como ferramentas que desenvolvemos para lidar com a realidade ou como uma espécie de escapada de nossas vidas, como uma fraqueza? Nossas loucuras são partes integrantes e necessárias de nossas vidas ou são supérfluas? Somos definidos por tudo que há em nós que devemos rejeitar ou  pela inclusão de tudo que descobrimos sobre nós mesmos?

Laing apud Phillips (2008) se refere aos artistas como Rimbaud, Van Gogh e Nietzsche, como pessoas que não conseguiram suportar a si mesmos, por viverem em um mundo que não podia suportar suas visões interiores. Segundo o autor estes são artistas verdadeiramente sãos, por que não se venderam, nunca tentaram se tornar aceitáveis ou vencedores. Neste sentido, o saudável está em aceitar a nossa loucura.

Para Zinker (2007) o conhecimento, a existência e a felicidade só são encontrados com a reconciliação das diferenças, em um aspecto de totalidade, inteireza, completude, unidade, ordem, estrutura.

Um comportamento integrado possibilita uma gama de respostas entre os extremos polarizados, e a pessoa é capaz de responder com flexibilidade, criatividade e espontaneidade a uma variedade de situações. Respostas polarizadas são restritas de imaginação e frágeis diante do estresse da vida diária, a este respeito o autor acrescenta que:

Criatividade é um ato de coragem que diz: estou disposto a me arriscar ao ridículo e ao fracasso para experienciar este dia como uma novidade, como algo inédito. Cada ato criativo é uma unidade de inspiração e expiração; é a expressividade da plenitude da vida, bem como o suporte para a vitalidade (ZINKER, 2007, p. 16).

Vale considerar que não há explicações sobre o que seria uma vida sã, pela própria escala de infelicidade contemporânea. Mas colocar os loucos sobre um pedestal, deixando-se fascinar por seus poderes e acreditar no lucro de um saber inatingível aos não loucos, pode desviar nossa escuta da vivência trágica dos loucos. Como afirma Foucault (1978):

A loucura só existe em cada homem, porque é o homem que a constitui no apego  que ele demonstra por si mesmo e através das ilusões com que se alimenta. O apego a si próprio é o primeiro sinal da loucura, mas é porque o homem se apega a si próprio que ele aceita o erro como verdade, a mentira como sendo a realidade, a violência e a feiura como sendo a beleza e a justiça.

Phillips (2008) considera a sanidade como o realismo necessário para a sobrevivência psíquica, é a sanidade que dá moderação a loucura e a fantasia, é a educação de nossa loucura inata. Porém, sanidade pode referir-se tanto para designar o que mais valorizamos em nós mesmos, quanto o que ameaça o que mais valorizamos em nós mesmos. Assim, como loucura pode se referir ao que mais prezamos em nós mesmos e ao que mais nos horroriza em nós mesmos.

Além de que crer numa loucura localizada no indivíduo e transfigurar o louco em monstro nos leva a recusar sua humanidade, e também nos faz esquecer que algo se diz  através da loucura (ZINKER, 2007). Assim, entendemos que como afirma Winnicott apud Phillips (2008), "podemos ser realmente pobres se formos apenas sãos”, tanto quanto “somos ainda mais pobres se formos apenas loucos”, como complementa Phillips. (p.29)

3. Método

A realização deste trabalho foi a partir de uma pesquisa bibliográfica, acerca do levantamento de informações para o conhecimento sobre a sanidade e a loucura, considerando também o equilíbrio saudável entre essas duas polaridades. Utilizou-se como ilustração deste estudo o percurso da personagem Alice, em busca de si mesma, no filme Alice no país da Maravilhas, do diretor Tim Burton.

4. Discussão

Iniciou-se esse trabalho discorrendo a respeito da história da loucura, pois acreditamos que a maneira como a loucura é vista e tratada, até os dias atuais, traz vestígios dessa história e de seus momentos. Os loucos eram abandonados nos antigos leprosários, depois nos navios que os levavam de porto em porto sem destino, e por fim trancados nos hospitais gerais. Todos esses séculos de segregação deixaram para a loucura o status de exclusão. Entre os séculos XV e XVIII a história mostra que a loucura foi vinculada à desrazão, a libertinagem, ao pecado, e ao inumano, o que contribuiu para uma imagem negativa da loucura.

Na segunda parte deste tópico falou-se sobre os sentidos e significados que loucura e sanidade podem ter, a fim de compreender o olhar dirigido ao fato de ser louco ou ser são. O que vem de encontro com o que apreendemos na primeira parte, e pudemos notar que a loucura carrega conceito negativo ligado à doença, ao desajuste, ao excesso, a extravagância, falta de controle, enquanto a sanidade aparece como integridade da mente, saúde, serenidade, mas também como o sentido de norma, regra, padrão, que retifica e endireita, disciplina, enquanto a loucura pode aparecer como autenticidade.

Observou-se que a loucura e a sanidade só tem valor diante de uma sociedade, o que é loucura em uma sociedade pode ser normal em outra. A sanidade também tem o sentido de "cura" para a loucura, enquanto loucura tem um sentido de sabedoria e genialidade. Todos esses sentidos nos levou  a pensar que tanto a loucura como a sanidade tem aspectos positivos e negativos dependendo da intensidade.

Partindo desta ideia de que a loucura e a sanidade podem ser saudáveis, e de que a loucura seria uma busca de autenticidade, pensamos no crescimento psicológico como um meio de alcançar essa autenticidade. Buscou-se, então, compreender como a psicologia em diferentes abordagens entende o crescimento psicológico.

Na psicanálise esclarece que ao entrarmos em contato com conteúdos inconscientes, liberamos energia para ser utilizada com mais criatividade, ao desvendar os conteúdos inconscientes teremos mais autoconhecimento e podemos lidar com o sofrimento as dificuldades e conflitos com mais autonomia.

Na abordagem junguiana percebe-se o processo de individuação como o caminho para essa autenticidade, entrando em contato com as principais estruturas de nossa psique, integrando-as para nos tornarmos nós mesmos de maneira integra, distinta, única e singular.

A Gestalt-terapia busca aumentar a awareness, estar em contato com a nossa existência e saber quem se é, trocar o apoio ambiental para o auto apoio. Nestas teorias, entende-se que o crescimento psicológico, embora para cada teoria de sua maneira, busca o autoconhecimento, o que dá o suporte para o indivíduo ser mais autêntico e criativo.

No item 2.3 verificamos que muitas vezes ser autêntico, autônomo, pode ser contrário as normas sociais, que muitas vezes nos poda e aliena, uma vez que as normas sociais em um movimento de uniformidade e negligenciamos o nosso verdadeiro eu. Neste sentido ser são nos afasta da nossa natureza, dos nossos anseios, ignoramos nossos sentimentos desejos e emoções, nos tornamos falsos, pois negamos a realidade.

E, por fim, discutimos os limites saudáveis entre loucura e sanidade, baseados no conceito de saudável de descrito por Winnicott, assim como em alguns critérios citados por Dalgalarrondo para distinguir o normal do patológico. Partindo do pressuposto de que a loucura e a sanidade são muito próximas, verificou-se que um requisito para ser considerado saudável seria não abrir mão de nossos mundos internos, nossos impulsos individuais e pessoais, de ser autênticos e autônomos. Por outro lado, não deve-se colocar a loucura em  um pedestal, pois perderíamos de vista suas vivências trágicas, um sinal do não saudável é o apego do indivíduo a si mesmo que o leva a ilusão e ao erro, é necessário um realismo para a sobrevivência psíquica. A partir dessa discussão entendemos que o ideal é não nos perdermos nem de nós mesmos, nem da realidade.

5. Conclusão

Sanidade e loucura é um tema fascinante e ao mesmo tempo difícil, assim como o saudável e  o patológico, pois ao mesmo tempo que esses termos têm sentidos antitéticos, também têm os limites entre um e outro muito próximos. Neste sentido, o trabalho foi de extrema importância para a compreensão dos valores imputados a loucura e a sanidade, e ao normal e patológico.

Buscou-se ao longo do levantamento bibliográfico identificar os limites saudáveis da loucura e da sanidade a partir dos seus significados, levando em consideração a questão cultural, mas principalmente o sentido atribuído ao indivíduo louco ou são, logo, percebemos que não se pode dar um valor apenas negativo ou apenas positivo para a loucura e nem para a sanidade, sendo que ambas possuem aspectos bons e ruins.

A psicologia ao trabalhar na promoção de saúde, na busca de autoconhecimento do sujeito, proporciona o crescimento psicológico, se compararmos o que os autores consultados nas abordagens psicanalítica, analítica e na gestalt-terapia entendem que o crescimento psicológico resulta ao indivíduo, ao que identificamos como aspectos positivos da loucura, pode-se pensar que a psicologia nos oferece um caminho para a loucura sã ou, como definem alguns autores à verdadeira sanidade.

Ao analisarmos aspectos do normal e do patológico identificamos a loucura como saudável em alguns aspectos, e chegamos à conclusão de que uma sanidade baseada apenas nas normas impostas pode ser considerada patológica à medida que aliena o sujeito de si mesmo.

Verificadas essas questões percebe-se que o filme de Tim Burton foi de grande importância na ilustração dos aspectos pesquisados, pois, a partir da jornada da personagem Alice, nos deparamos tanto com exemplos de sanidade e loucura patológica, como de sanidade e loucura sã, além de identificar na personagem o processo de crescimento psicológico. Acredita-se ter contribuído para a desmistificação da loucura, e talvez para incitar a busca interior da loucura sã de cada um.

Sobre o Autor:

Juliana Monteiro do Nascimento Araújo - Psicóloga formada em 2013 e pós graduanda em Psicologia Analítica.

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