Resumo: A exclusão das pessoas com transtorno mental conota uma destruição de valores e autonomia, além de proporcionar impotência das mesmas na inserção do mercado no trabalho. Neste sentindo, torna-se menos complexo esse processo de inserção, na medida em que o indivíduo já tenha desenvolvido algum tipo de atividade laboral. Partindo desse pressuposto, o Centro de Atenção Psicossocial – CAPS é um dispositivo que acolhe pessoas em sofrimento psíquico e desenvolve tais atividades. Com isso, o objetivo geral desta pesquisa foi verificar a importância das atividades laborais do Centro de Atenção Psicossocial da cidade de Campo Maior/PI para inserção dos usuários no mercado de trabalho e como objetivos específicos, identificar as contribuições, os entraves e/ou facilitadores que as atividades laborais do CAPS proporcionam para a inserção de usuários no mercado de trabalho e, investigar as contribuições das atividades laborais desenvolvidas nos CAPS para evolução do tratamento.  Esta pesquisa foi um estudo de campo, com aspecto qualitativo, de caráter descritivo, utilizando a entrevista semi-estruturada, como instrumento de coleta de dados, com oito usuários. As entrevistas foram analisadas através da analise de conteúdo e categorizadas. Através deste estudo verificou-se que as atividades laborais, tiveram uma contribuição significativa, tendo em vista que, proporcionam benefícios como, resgate para ressocialização na sociedade e no contexto familiar, bem como no mercado de trabalho informal. Pôde-se notar também, o comprometimento que a família tem nesse processo, pois esta oferece diversas oportunidades de emprego pactuando o poder de contratualidade para essas pessoas com o mercado de trabalho.

Palavras-chave: Saúde Mental. Trabalho. Inserção.

Abastract: The exclusion of people with mental disorder connotes destruction of values and autonomy, as well as providing the same impotence in the insertion of the market at work. In this feeling becomes less complex this insertion process to the extent that the individual has already developed some kind of work activity. Based on this assumption, the Psychosocial Care Center - CAPS is a device that welcomes people in psychological distress and develops such activities. Thus, the objective of this research was to verify the importance of the work activities of the Center for Psychosocial Care of the city of Campo Maior / IP to users of insertion in the labor market and specific objectives, analyze contributions, barriers and / or facilitators both the work activities of CAPS provide for the inclusion of users in the labor market and identify the contributions of industrial activities in CAPS for treatment progress. This research was a field study with qualitative aspect of descriptive, using semi - structured interview as a tool for data collection, with eight users. The interviews were analyzed by content analysis and categorized. Through this study it was found that work activities had a significant contribution , given that , provided these benefits as ransom for rehabilitation in society and within the family, as well as in the informal labor market . It might be noted also the commitment that the family has in this process , because it offers various job opportunities contractuality providing power to these people.

Keywords: Mental Health. Work. Insertion.

1. Introdução

O movimento da Reforma Psiquiátrica no Brasil tem como foco a condição de exclusão em que as pessoas em sofrimento psíquico se encontravam. A Reforma tem discutido pontos relacionados a inclusão da pessoa com transtorno mental no mundo, bem como no âmbito social, partindo do pressuposto de promover a ressocialização dessas pessoas. Por isso, é importante promover a reabilitação psicossocial das mesmas, proporcionando autonomia para o ingresso no mundo trabalho.

O Centro de Atenção Psicossocial – CAPS é um dispositivo da Política de Saúde mental que acolhe pessoas em sofrimento psíquico grave e desenvolve atividade em distintas modalidades, dentre elas, atividades laborais que contribui no processo de autonomia, reinserção social, além de incentivar em atividades geradoras de renda e incentivar na inserção do mercado de trabalho seja ele formal ou informal. Dessa forma, o CAPS oferece um modelo interventivo na exclusão dessas pessoas, uma vez que o individuo que desfruta desses serviços tem um monitoramento das atividades com o objetivo de aumentar nas suas escolhas e possibilidades (BRASIL, 2013).

Diante de tal contexto, a pesquisa teve como objetivo geral verificar a importância das atividades laborais do Centro de Atenção Psicossocial da cidade de Campo Maior/PI para inserção dos usuários no mercado de trabalho, e como objetivos específicos, verificar as contribuições, os entraves e/ou facilitadores ambos que as atividades laborais do CAPS proporcionam para a inserção de usuários no mercado de trabalho e identificar as contribuições das atividades laborais desenvolvidas nos CAPS para evolução do tratamento.

A problemática que norteou a pesquisa foi: Qual a importância das atividades laborais desenvolvidas nos CAPS para a inserção dos usuários no mercado de trabalho?

O interesse pela temática surgiu a partir da oportunidade que a faculdade ofereceu, em cursar a disciplina de psicopatologia. Essa disciplina proporcionou reflexão sobre a contribuição da demanda apresentada, mantendo como principal foco a importância do trabalho para as pessoas com transtorno mental. Com isso, surgiu a ideia de pesquisar sobre as atividades laborais de um CAPS para inserção dos usuários no mercado de trabalho.

Sendo assim, conhecer a importância das atividades laborais do CAPS para inserção dos usuários no mercado de trabalho contribuiu para a construção de um novo olhar acerca deste contexto, um vez que, foi percebido que existem possibilidades de adesão desses usuários no mundo do trabalho. Por isso, espera-se que este estudo possa proporcionar posteriores estudo. Como relevância social, almeja-se a sensibilização e divulgação de trabalhos acerca do tema e uma melhor visualização das oportunidades de emprego para pessoa com transtorno mental.

2. Materiais e Método

Correspondendo aos princípios determinados pela Resolução 466 de 12/12/12 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) do Ministério da Saúde, foi solicitada a autorização da instituição onde foi realizada a coleta de dados para autorização de entrevista. Posteriormente o projeto foi submetido á autorização do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade Integral Diferencial Devry Brasil – FACID DEVRY BRASIL para iniciação da coleta de dados. Após autorização do Projeto pelo Comitê de Ética sob o protocolo nº 25728713.7.0000.5211, o procedimento de coleta de dados foi iniciado com a solicitação do consentimento voluntário dos participantes da pesquisa, através do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)

A pesquisa trata-se de um estudo de campo no modelo qualitativo, que segundo Minayo (2006) pode se verificar um leque de significados, onde esses significados são compreendidos nas ações e relações humanas por se constituir um ambiente de relações. A pesquisa foi do método exploratório. Esse tipo de estudo tem como finalidade principal caracterizar, descobertas ou ideias, que envolve entrevista com pessoas integradas com o problema pesquisado (GIL, 2007).

O estudo teve como cenário da pesquisa um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) na cidade de Campo Maior-PI. As entrevistas foram realizadas em uma sala arejada, com boa iluminação, confortável, sem ruídos, o qual garantiu o sigilo das informações emitidas pelos entrevistados. Para coleta dos dados, participaram 08 (oito) usuários do CAPS, que tiveram como critério de inclusão, pessoas em sofrimento psíquico, ser usuário do CAPS, ter participado das atividades laborais do CAPS, está exercendo alguma atividade profissional, de ambos os gêneros, com idade igual ou superior a 18 anos que concordaram em participar voluntariamente da pesquisa. Outro critério de inclusão da pesquisa, constituiu-se pela indicação dos participantes através da Coordenação da Instituição.

O primeiro passo para realização da coleta de dados foi o pedido da autorização da instituição ( CAPS). Logo após essa etapa, foi estabelecido contato com os usuários a fim de convidá-los e especificar os objetivos da pesquisa, bem como os devidos procedimentos realizados para o estudo. Posteriormente a aceitação de cada participante na pesquisa, foi lido pela pesquisadora o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Após essa etapa foi colhido a assinatura do respectivo participante e entregue uma cópia do referido termo.

Em seguida foi utilizada uma entrevista semi-estruturada como instrumento para coleta de dados. Onde foi feito, a identificação dos dados pessoais de cada participante e perguntas abertas referentes à inclusão do tema. As entrevistas foram realizadas individualmente, em um local reservado na própria instituição.

Mediante a assinatura do TCLE preconizado pela resolução nº 466/12, que envolve a ética as pesquisas com seres humanos, na entrevista realizada, foi mantido em sigilo o nome de cada um dos participantes na realização da análise de conteúdo

Após a coleta dos dados, a partir da aplicação de entrevistas semi-estruturadas, os dados foram transcritos e organizados em categorias, conforme a natureza das respostas dos sujeitos e o objetivo da pesquisa, utilizando a técnica de Análise de Conteúdo. Onde segundo Minayo (2006), a análise de conteúdo constitui um conjunto de técnicas de análise de comunicação, visando obter através de procedimentos e objetivos, descrição de conteúdos das mensagens, que permite a dedução de conhecimentos relacionados a característica de produção e recepção de tais mensagens.

3. Resultados e Discussão

O presente estudo teve por objetivo verificar a importância das atividades laborais do Centro de Atenção Psicossocial da cidade de Campo Maior/PI para inserção dos usuários no mercado de trabalho. Para obtermos o resultado deste estudo, foram entrevistados oito usuários, os quais aceitaram em participar da referida pesquisa.

No quadro abaixo mostra o perfil dos participantes, sendo importante frisar que para serem mantidos os preceitos éticos e resguardado a preservação da identidade de cada um, os mesmos foram identificado de forma numérica, para que a compreensão da análise seja de forma satisfatória.

QUADRO 01: Perfil dos Participantes da Pesquisa

Participante

Gênero

Idade

Escolaridade

Atividade

Participante 1

Masculino

32 anos

Ensino Fundamental Incompleto

Vendedor

Participante 2

Masculino

22 anos

Ensino Fundamental Incompleto

Capinador de mato

Participante 3

Feminino

50 anos

Ensino Fundamental Incompleto

Faxineira

Participante 4

Masculino

39 anos

Ensino médio completo

 Cortador de árvore

Participante 5

Feminino

40 anos

¨Ensino Fundamental Incompleto

Doméstica

Participante 6

Feminino

55 anos

Ensino Fundamental Incompleto

Doméstica

Participante 7

Feminino

38 anos

Ensino Fundamental Incompleto

Doméstica

Participante 8

Feminino

50 anos

Ensino médio completo

Doméstica

Fonte: Thuanny Mikaella Conceição Silva/2014

Objetivando-se compreender da melhor forma a fala dos participantes, as entrevistas semi-estruturadas foram lidas exaustivamente com o intuito de criar as categorias de acordo com o que foram evidenciados, mostrando, desta forma, os principais temas abordados na análise dos dados. As categorias que emergiram foram: Atividades laborais, satisfação e trabalho, trabalho e mudança de vida, inserção no mercado de trabalho e, o elo entre trabalho e dificuldades.

Em seguida, as categorias foram analisadas com o objetivo de substanciar o relato dos sujeitos da pesquisa, por meio dos relatos mais significativos, bem como relevantes, para esta pesquisa.

3.1 Atividades Laborais do CAPS

Nesta categoria buscou-se compreender os tipos de atividades laborais desenvolvidas pelo CAPS, que os sujeitos da pesquisa já tinham participado. Diante desta vertente, os sujeitos relataram que participaram de varias atividades laborais, tais como:  

Fazia outras atividades, como bordado, eu mesmo aprendi a bordar aqui no Caps. Já teve artesanato, tudo isso aqui no CAPS. Tinha o crochê, esse eu aprendi a fazer e até hoje eu faço. As coisas que eu imagino na minha mente, eu consigo fazer. (Participante 5)

Aqui no CAPS eu aprendi a bordar, já fiz até uns panos pra eu, e aprendi a fazer aqui. (Participante 7)

Já participei de artesanato, ai nós fizemos uns paninhos e vendemos nos festejos de santo Antonio. Já aprendi muitas coisas aqui no Caps. (Participante 8) 

De acordo com as falas acima, percebe-se que já foram oferecidos diferentes tipos de atividades laborais no CAPS. As quais tiveram uma contribuição significativa para a vida dessas pessoas com relação a  ressocialização. Porém não foram utilizadas como subsídios para a inserção no mercado de trabalho. Quando na verdade, poderiam ter servido, como um inicio de uma carreira profissional, bem como a inclusão no mercado de trabalho, de maneira formal, ou seja, de acordo com a lei. Neste sentido, pode citar-se como exemplo a criação de assembleias ou mesmo de cooperativas para o ingresso desta realidade e possibilidade de atuação de uma atividade profissional.

De acordo com Brasil ( 2004) os usuários devem ser incentivados a criar suas associações ou cooperativas, onde possam, através da organização, discutir e buscar soluções coletivas para questões sociais e de direitos essenciais, para que alcancem o instrumento de promoção da saúde e da cidadania de todos os envolvidos.

As atividades laborais são fundamentais no tratamento oferecido aos usuários do CAPS. Essas atividades são realizadas em grupo com a presença e orientação de um ou mais profissionais, monitores e/ou estagiários. Eles realizam vários tipos de atividades que podem ser definidas através do interesse dos usuários, das possibilidades dos técnicos do serviço, das necessidades, tendo em vista a maior integração social e familiar, a manifestação de sentimentos e problemas, o desenvolvimento de habilidades corporais, a realização de atividades produtivas, o exercício coletivo da cidadania.

Como vimos, diferentes tipos de atividades laborais podem ser desenvolvidas no CAPS, desde que tenham sentido para promover as melhores oportunidades de trocas afetivas, simbólicas, materiais, capazes de favorecer vínculos e interação humana (BRASIL, 2004).

4.2 Trabalho e Satisfação

Os participantes da pesquisa manifestaram que com ajuda das atividades, essas lhes proporcionaram interação com outras pessoas, reconhecimento das suas habilidades, prazer, e até mesmo alguma forma de remuneração financeira. Com isso diversos fatores proporcionaram bem estar na vida dessas pessoas.

O que pode ser elucidado a seguir:

Melhorou porque eu não fazia nada em casa e agora eu fico na minha banquinha esperando o povo vim comprar e ficar conversando mais eu, até dia de sábado e domingo eu fico vendendo. Antes não tinha nada para fazer, eu ficava só capinando e pensando besteira. ( Participante 1)

Melhorou porque eu não fazia nada em casa e agora eu fico na minha banquinha esperando o povo vim comprar e ficar conversando mais eu, até dia de sábado e domingo eu fico vendendo. Antes não tinha nada para fazer, eu ficava só capinando e pensando besteira. ( Participante 1)

Melhorou porque eu passo pela polícia, a polícia não diz nada comigo, eu passo pelo meio da rua ninguém me chama de doido. Vou para igreja do rosário leio os cânticos. Vou para igreja de Santo Antonio. Fui a igreja universal domingo.Eu não pratico o mal e como eu trabalho as pessoas, me vê outra pessoa. (participante 5)

Pôde-se perceber que os benefícios que o trabalho proporciona estão relacionados a outros fatores, tais como: busca da autonomia, reconstrução de uma nova identidade, ressocialização e integração na sociedade. É a partir do momento em que essas atividades proporcionam diferentes tipos de benefícios, que os usuários, percebem-se como pessoas e reconhece a sua cidadania.

Silva (2007, p. 218) afirma que “o trabalho é uma atividade tão específica do homem que funciona como fonte de construção, realização, satisfação, riqueza, bens materiais e serviços úteis á sociedade humana.” Já para Andery, et al  (1999), o trabalho desencadeia um vínculo trabalho-satisfação de necessidades que ganha um novo elo: transforma-se em trabalho-troca de equivalentes satisfação de necessidades

Em relação a satisfação que o trabalho oferece, evidencia que:

Trabalhando eu me sinto bem, porque num tem é... área privativa para a pessoa ficar presa, a pessoa tem a liberdade de trabalhar, de ganhar um dinheirinho. Eu consigo comprar a cartela do poupa ganha e assim vai... As pessoas ver que eu tô trabalhando num incrimina muito, ver eu como um cidadão do bem.  (Participante 4)

Muita coisa mudou, porque se num fosse o dinheiro que eu recebo da minha mãe por eu ajudar ela, como era que eu ia comprar minhas as coisas. Eu compro colônia, sabonete, as coisas para eu comer, tudo com esse dinheiro. (Participante 5)

Através das falas destacadas, o trabalho é visto como uma prática que valoriza o homem lhe possibilitando desenvolver suas responsabilidades financeiras tão relevantes no papel social. Assim, eles mostram que o trabalho proporciona ganhos secundários na medida em que interage com seu meio circundante.

Silva (2007) atesta que a importância do trabalho para vida do trabalhador manifesta-se como algo central e absorvente, algo que superpõe ás demais experiências do cotidiano individual e familiar, passando inclusive a reger as condições de convívio e participação social.

O sistema do trabalho modifica o próprio homem e insere numa determinada relação social distinta. Neste sentido, essa relação apontada aproxima o individuo da sociedade e da sua família. Através do instrumento de trabalho o homem transforma a história dos homens e é transformado por ela. Como vemos no relato a seguir:

Ah, é muito bom trabalhar, porque é com ele que eu ganho meu trocadinho e eu arrumo muitas amizades, todo mundo fala comigo, chama “ marquim”, chama de “ pitu”, todo mundo gosta de mim.  E eu acho bom ter amizade. O amor da minha mãe, que eu não tinha amor de mãe ai agora eu tenho demais e do meu irmão também porque como eu trabalho eles gostam de mim. (Participante 1)

O trecho acima frisa a necessidade que o homem tem de integração social, bem como, no âmbito familiar. Essas integrações demonstram um alicerce fundamental para realização de suas ações no mercado de trabalho, tendo em vista que é por meio da relação satisfatória que o mesmo se sente motivado com o referido trabalho.

3.3 Trabalho e Mudança de Vida

Mais do que uma simples prática, o trabalho passa a ser visualizado como um fator que possibilita o crescimento do ser humano, algo que lhe acrescenta e lhe dar oportunidades de mudanças ao longo da vida. Sendo assim, esta categoria pontua as mudanças em que o trabalho estabeleceu na vida dos participantes da pesquisa:

Mudou muitas coisas, porque as pessoas conversa comigo, eu compro minhas coisas. Meus filhos me obedecem. Agora o que eu mais queria era uma pessoa pra viver mais eu, que me entendesse, porque viver sem ninguém é ruim. (Participante 5)

Mudou porque agora, eu fico em minha casa, faço minhas coisas. Converso com minhas vizinhas, todo mundo la perto de minha casa, gosta de mim. (Participante 6)

Mudou muita coisa Dra porque eu só vivia no mundo, quando era de noite eu keria sair no mundo, ai minha mãe morava no interior e vinha ficar comigo, só que ela trancava a porta e escondia a chave e eu ficava brigando querendo sair no mundo. Quando eu adoeço a vontade é só de andar no mundo, qualquer hora da noite. Agora nunca mais aconteceu isso não porque eu vou todo dia ajudar minha vizinha e chego em casa vou dormir ( Participante 8)

De acordo com os trechos acima, percebe-se a importância do trabalho em vários aspectos da vida do ser humano. Assim o labor adquire um caráter crucial, se constituindo como alicerce na história de vida do indivíduo, possibilitando ao mesmo, meios de subsistência e estimulo na sua construção perante a sociedade no qual está inserido.

Segundo Codo e Hitomi,(1993)  Tanto do ponto de vista individual ou coletivo, a experiência do trabalho estabelecerá relevâncias, destacará fatos e significados, diferenciará alguns objetos de outros na percepção dos indivíduos.

3.4  Inserção no Mercado de Trabalho

De acordo com Brasil (2004), estar em tratamento no CAPS não significa que o usuário tem que ficar a maior parte do seu tempo dentro do CAPS. As atividades podem ser desenvolvidas fora do serviço, como parte de uma estratégia terapêutica de reabilitação psicossocial, que poderá iniciar-se ou ser articulada pelo CAPS, mas que se realizará na comunidade, no trabalho e na vida social.

De acordo com Sousa (2001) o trabalho pode ser utilizado, como recurso terapêutico para as pessoas com transtornos mentais. O autor cita que trabalhar deve ser um direito de todas as pessoas, até mesmo para aquelas com transtornos mentais, sendo que a falta de trabalho pode consolidar o sofrimento das pessoas com transtorno, pois o trabalho favorece nos aspectos econômicos, psicológico e cultural na vida do ser humano.

 Desta forma, as atividades terapêuticas devem incluir a construção de trabalhos de inserção social, respeitando as possibilidades individuais e os princípios de cidadania que possa minimizar o estigma e promover o protagonismo de cada usuário frente à sua vida. O que pode ser elucidado a seguir:

... Eu comecei comprando bombom só pra eu, ai eu sempre comprava de muito e depois a professora do CAPS deu a ideia que eu poderia vender. Ai eu coloco um monte de bombom em uma mesinha na calçada e vendo. Graças a ela, eu ganho meu dinheirinho.( Participante 1)

Diante da fala citada anteriormente, nota-se que o CAPS teve a preocupação de incentivar este indivíduo a se inserir no mercado de trabalho. Esta forma pode ser vista, como meio de ressocialização, bem como de um resgate a própria autonomia do sujeito.

Os familiares são, muitas vezes, o elo mais próximo que os usuários têm com o mundo, estes favorecendo de forma participativa para inclusão dessas pessoas no mundo do trabalho. Podemos comprovar essa contextualização nas seguintes falas:

A dona Joaquina esposa do meu primo, falou com ele, para eu trabalhar com ele e ele aceitou. (Participante 4)

Eu agradeço a minha mãe que me reconheceu como gente, porque quando eu tive depressão eu nem conhecia as pessoas. (Participante 5)

Agradeço a minha avó que me ensinou. Quando eu tinha 10 anos de idade, ela me ensinou a cozinhar feijão, lavar as panelas. Ela foi me explicando tudo direitinho até que fui aprendendo e consigo fazer as coisa. (Participante 7)

Eu agradeço a Deus e a minha vizinha que me ajudou.(Participante 8)

Pode ser observado a partir das falas acima que a inserção dos usuários do CAPS se deu através da ajuda de parentes e amigos. Por isso, nota-se que a família oferece oportunidades para essas pessoas entrarem no mercado de trabalho, tanto que há uma preocupação e um cuidado de ofertar algum tipo de atividade, que pode ser caracterizada como trabalho informal.

Embora de acordo com a lei 10.216, é garantido o direito da pessoa com transtorno mental, que deve ser tratada com humanidade e respeito para alcançar sua recuperação pela inclusão na sociedade (BRASIL, 2005). Podemos observar que essas pessoas na maioria das vezes não têm oportunidade no mercado de trabalho formalmente, mas trabalham porque recebem ajuda de seus familiares.

A inserção de pessoas com transtorno mental no mercado de trabalho tem um papel fundamental na inclusão econômica, e, principalmente, no meio social. Pois é no contexto de trabalho que essas pessoas podem mostrar sua competência produtiva, fazendo com que sejam vistas com um novo olhar, e não mais como pessoas que não produzem. Logo se entende que a “pessoa com transtorno mental deve ser entendida como alguém capacitada para o trabalho através de um processo de habilitação ou reabilitação”. (MARTINI, 2009, p. 3).

3.5 O Elo Entre Trabalho e Dificuldades

A quinta e última categoria temática pontua as dificuldades enfrentadas pelos participantes da pesquisa, no desenvolvimento das atividades geradora de renda, ou mesmo sua inserção no mercado de trabalho. Seja por motivos sociais, econômicos ou de forma subjetiva, no modo de encarar a situação, o indivíduo encontra um elo entre essas duas vertentes.  Isso pode ser comprovado no relato a seguir:

Já teve oficina de artesanato, eu aprendi a pintar jarro, a enrolar com jornal, mas eu não faço. Eu não faço porque não tem material, mas eu sei fazer. (Participante 3)

Diante deste contexto, denota-se que existem dificuldades, as quais deixam as pessoas com transtorno mental impossibilitada de exercer atividades profissionais no mercado de trabalho, desencadeando um sofrimento inevitável no confronto entre seus desejos e anseios, impossibilitando o crescimento pessoal, social e profissional.

Segundo Brasil (2013) as oficinas geradoras de renda, servem como instrumento de geração de renda através do aprendizado de uma atividade específica, que pode ser igual ou diferente da profissão do usuário. Porém muitas vezes, surgem entraves que dificulta a inserção dos usuários no mercado de trabalho, a partir dessas oficinas.

 De acordo com Nascimento (2011) ainda existe vários desafios colocados para a intervenção em saúde mental, esses, encontra-se na dificuldade de acesso dos usuários à vida produtiva. Aponta-se, a despeito de todos os progressos, mudanças de paradigmas e práticas implementadas voltadas à reabilitação psicossocial, que a inclusão no mundo do trabalho ainda é uma importante barreira a ser transposta, objetivando alcançar melhores níveis de qualidade de vida e condições mais concretas de inclusão social.

4. Conclusão

No decorrer do presente estudo constatou-se, formas de inserção pelo trabalho dos usuários com transtornos mentais pertencentes ao CAPS do município de Campo Maior contribuem consideravelmente para a evolução terapêutica dos mesmos e consequentemente auxilia em sua autonomia e interação social desses indivíduos.

Pode- se identificar também que o sentido do trabalho para os usuários está relacionado a contribuição para renda familiar, bem como a Autonomia financeira e independência. Isso demonstra a importância da valorização do trabalho para cada usuário, onde a conquista da independência financeira pode amenizar muitos conflitos intra-familiares entre pessoas geradoras de renda e aqueles que dependem de cuidado. A partir do momento que pessoas com transtornos mentais percebem que podem contribuir financeiramente com as despesas doméstica expressam o sentimento de ser útil.

Foi percebido ao longo dos relatos, que os benefícios apontados, inicialmente surgiram devido a participação nas atividades oferecidas pelo CAPS, as quais possibilitaram a inclusão  na sociedade, bem como  no contexto familiar, o que conciliou o resgate pela cidadania dessa pessoas frente a sociedade e o mercado de trabalho. Dessa forma, pode-se notar que a inserção no mercado de trabalho, mesmo que, informal está relacionada ao comprometimento da família, de parentes ou visinhos, devido estes, oferecerem incentivo para obtenção de oportunidades de emprego.

A partir do momento em que a família mostra novas possibilidades para essas pessoas se inserirem no mercado trabalho, elas estão contribuindo com a construção de uma nova identidade. Além de possibilitar o resgate da autonomia e o poder de contratualidade dessas pessoas.

Com base nessas considerações constata-se a falta da criação de cooperativas para o incentivo da inserção no mercado de trabalho das pessoas com transtorno mentais a partir das atividades laborais do CAPS, pois as cooperativas podem ser vista como uma organização de pessoas que tenham um objetivo em comum, onde pode ser estimuladas a desenvolverem as responsabilidades financeiras e diminuir o sofrimento psíquico de ambas, tendo em vista que o trabalho pode ser visto como recurso terapêutico, o que torna tão relevantes no papel social de um indivíduo.

Verifica-se que o trabalho passa a ser considerado como um fator que possibilita o crescimento do ser humano, algo que lhe acrescenta e lhe dar oportunidades de mudanças ao longo da vida. Umas das mudanças citadas pelos entrevistados é a aproximação deles com sociedade e com a família. As famílias juntamente com o CAPS formam o elo mais próximo que os usuários têm com o mundo, estes favorecendo de forma participativa para inclusão dessas pessoas no mundo do trabalho.

Vale ressaltar ainda, com relação às dificuldades enfrentadas pelos participantes da pesquisa, que os mesmo gostam de participar das atividades, participando de forma ativa e comprometida. Porém, muitas vezes fica impossibilitados de exercer o que aprendeu devido, não esta no seu alcance, os matérias para que possa ser praticado o aprendizado da referida atividade. Pois, por motivos sociais ou econômicos, os indivíduos encontram essas dificuldades. O que tira do usuário a possibilidade de se inserir no mercado de trabalho através dessas atividades. Com isso, pode desencadear-se um sofrimento inevitável no confronto entre seus desejos e anseios, impossibilitando o crescimento pessoal, social e profissional dessas pessoas.

Com base nessas considerações  foi possível verificar o quando a influencia das atividades laborais desenvolvidas no CAPS de Campo Maior teve para a inserção de usuários no mercado de trabalho, verificando a sua contribuição, os entraves e facilidades, além de mostrar a contribuição de tais atividades para melhorar o estado de saúde metal dessas pessoas. Sendo assim, as atividades laborais contribuem com a ressocialização, o resgate da autonomia, a construção de uma nova identidade, consequentemente com a ajuda de outras pessoas, os usuários conseguem desenvolver algum tipo de atividade remunerada, vista por eles como atividade profissional.

Através deste estudo percebeu-se que esses usuários estão inseridos no mercado de trabalho devido a uma ação em conjunto entre o CAPS e a família. Tendo em vista, que o CAPS contribuiu com a inserção social e a família contribuiu com as possibilidades de inserção no mercado de trabalho informal. A família oferta oportunidades de emprego, o qual pode ser caracterizado como trabalho informal, pois com esse serviço, tais usuários não possuem os mínimos benefícios que a lei garante para o empregador.

Diante de tal contexto, sem pretensão de esgotar as questões relacionadas ao tema, observa-se a importância de estudos futuros acerca da inserção das pessoas com transtornos mentais no mercado de trabalho. Este trabalho pode gerar outras pesquisas, algumas que seriam complementares a essa, como por exemplo, a construção de políticas públicas relacionadas ao direito dessas pessoas estarem exercendo atividades profissionais formalmente.

Sobre os Autores:

Thuanny Mikaella Conceição Silva - Psicóloga graduada pela Faculdade Integral Diferencial – FACID Devry Brasil. Teresina/PI.

Milena Valdinéia da Silva Leal - Mestre em Saúde da Família pela UNINOVAFAPI.- Teresina/ PI.

Referências:

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______. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção á Saúde. DAPE. Coordenação Geral de Saúde Mental. Reforma psiquiátrica e política de saúde mental no Brasil. Documento apresentado a Conferência regional de Reforma e Serviços de Saúde mental: 15 anos depois de Caracas, novembro de 2005. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/relatorio15_anos_caracas.pdf>. Acesso em 20 de set. de 2013.

______. Conselho Federal de Psicologia. Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas(os) no CAPS - Centro de Atenção Psicossocial / Conselho Federal de Psicologia. - Brasília: CFP, 2013.132 p. Disponível em: <http://crepop.pol.org.br/novo/wp-content/uploads/2013/07/MIOLO_TECNICAS_DE_ATUACAO2.pdf#page=1&zoom=auto,0,637> . Acesso em 28 de set. de 2013.

CODO, W. HITOMI, J. Indivíduo trabalho e sofrimento. 3ª Ed.Petrópolis, RJ: Vozes,1993.

GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisas. São Paulo: Atlas, 4ª ed, 2007.

MINAYO, M. C. de S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 9ª Ed. Revista aprimorada. São Paulo: Hucitec, 2006.

SILVA, E.S. Cidadania e loucura. Política de Saúde Mental no Brasil. 8ª Ed. Petropolis, RJ: vozes, 2007.