Resumo: Este artigo busca apresentar de maneira sintética a compreensão Existencial-Humanista da ansiedade, buscando embasar no pensamento de três importantes representantes desta escola: Rollo May, Viktor Frankl e Irvin Yalom. Assim, mostra que a ansiedade é um componente existencial do ser humano na luta por sua existência subjetiva e que a posição existencial do sujeito vai definir o caráter construtivo ou destrutivo desta.

1. Introdução

O DSM IV apresenta diversos transtornos que mantém relação com a ansiedade, por exemplo: Síndrome do Pânico, Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), Fobia Social, Transtorno Obsessivo-Compulsivo e o Transtorno do Stress Pós-Traumático (Souza, 2015). Mas o que é Ansiedade? Ansiedade é a sensação de que algo ruim pode acontecer e precisa ser evitado, existindo processos orgânicos intrínsecos a esta sensação, se caracteriza por ser um estado de sensações ruins; tensão, inquietação e apreensão. A ansiedade é normal em todo ser humano. Evolutivamente, ela permitiu que homens que se protegessem contra animais e outras ameaças, hoje, ela tem outras funções adaptativas, como nos preocupar com as ameaças que nos cercam no mundo contemporânea, ligadas ao trabalho, relacionamentos, família, etc.

2. Ansiedade para Psicologia Existencial-Humanista

O psicólogo americano Rollo May [01] (1909-1994) se debruçou sobre o estudo da ansiedade. Rollo May concluiu que ansiedade constitui uma ameaça ao âmago do nosso ser, ou seja, ao sistema de valores que embasa cada existência individual. A reação a ansiedade, patológica ou não, é sempre uma tentativa para nos defender desta ameaça.

Mostrando a ansiedade como uma reação do nosso ser a algo que ameaça nosso ser, cabe a pergunta: qual a diferença entre ansiedade e medo? May (1984) explica que o medo é a reação a algo que ameaça apenas a parte do nosso Self e ansiedade, uma ameaça totalidade do nosso Self e, ainda sobre o medo, nós sabemos qual o objeto e como enfrentar ou fugir dele. Em relação à ansiedade, um destes componentes está ausente, por exemplo: um homem ameaçado por perder um emprego pode sentir medo, porém, se tal ameaça for fatal para sua existência psicológica ou real, por ser a carreira na qual atribui valor absoluto a sua existência ou pela necessidade financeira concreta e ele não souber como enfrentá-la, tal ameaça chegará ao nível de ansiedade, estando presente durante todo o tempo. Assim, para o sujeito que se encontra em um estado de  ansiedade permanente é como se ele permanecesse em um sempre lutando pela sua sobrevivência, melhor dizendo, pela sua sobrevivência existencial, por aquilo que mantêm ou dar valor a sua vida.

May (1980) coloca que a ansiedade “pode ser um clamor íntimo para a resolução de um conflito”, aquela sensação de que algo está errado. Muitas vezes, conseguimos resolver o conflito, através de uma conquista ou um esclarecimento sobre a questão, e a ansiedade é diluída, porém, em outras, o conflito permanece e temos que aprender a conviver com ele.

Vista do panorama explicitado acima, antes de ser definida nos termos de normais e patológicas, a ansiedade se delineia como uma situação existencial do sujeito no mundo em determinado momento. Portanto, não confere algo inerente à pessoa e, sim, como uma relação entre o existente e o mundo. O que explica porque pessoas, que comumente são consideradas calmas, podem, em determinados momentos de sua existência, encontrar níveis de ansiedade tão elevados que é considerada patológica. Enquanto outras sempre são ansiosas patológicas, pois estão sempre lutando por sua existência psicológica.

May aponta algumas saídas para a resolução da ansiedade, algumas delas são consideradas patológicas e outras, saudáveis.  A saída patológica ou destrutiva ao indivíduo é aquela que leva a evitação da ansiedade, que foge do cerne da questão. Victor Frankl [02] cita um caso que exemplifica bem a situação.

“Imaginemos, por exemplo, que se oferecem comprimidos [03] tranquilizantes a homem que chora o luto sobre a morte de alguém amado... A menos que se trate de um indivíduo neurótico, ele se preocupará mais com a razão da sua tristeza, do que com modos de remover sua dor. Ele será realista o suficiente que fechar os olhos para o fato não trará a pessoa amada de volta.”

Esse é a maneira de fuga da ansiedade que se torna destrutiva à pessoa. Ao invés de se deparar de frente com a ansiedade, o sujeito busca algum escape para fuga da questão, que não necessariamente é um remédio, pode ser qualquer coisa, um jogo, televisão, internet ou até simplesmente, o desvio de pensamento.

É importante reconhecer a dureza da existência, em certo momento, e é possível que todos façamos, em algum tempo, uso de métodos evitativos da ansiedade, com intuito de sobreviver existencialmente e seguir em frente, porém é a intensidade do uso dos métodos evitativos que vai determinar seu caráter destrutivo, pois é como uma tentativa eterna de fugir de seus problemas. Configura-se como o mesmo que fugir de si mesmo, do que emerge no centro de si, o que será, certamente, frustrado, pois sempre retornará.

A solução saudável é exatamente o oposto, é encarar a situação, a ansiedade de frente, quando esta causada por um conflito concreto, a busca da solução deste conflito. A ansiedade é inerente ao ser em seu confronto com a existência; a solução passa por um movimento criativo, a criação de um sentido, como apontam Frankl e Yalom. Dentro da criação deste sentido, o trabalho existencial para a realização deste. May aponta pesquisas empíricas que mostram o trabalho, a fé e arte como grandes soluções para a ansiedade.

Neste ponto, um adendo é importante. Como vimos, a ansiedade é inerente ao ser humano. A condição humana é limitada pela morte, corpo, tempo, o Outro (Yalom), logo, estamos permanentemente em luta contra nossas ameaças, uma vez que somos limitados e incapazes de vencê-la  definitivamente. Portanto, mesmo as saídas saudáveis não significam a extinção da ansiedade.

3. Considerações Finais

O artigo buscou abranger o olhar Existencial-Humanista sobre a ansiedade.  Diversos outros olhares são possíveis e válidos sobre a questão. Notadamente, o olhar pela ótica do funcionamento fisiológico, negligenciada no texto, é de extrema importância. O corpo tem um funcionamento, e o sentimento de ansiedade gera diversas alterações corporais. [04]

Sobre o Autor:

Roberto da S. Melo - Psicólogo especialista em psicologia clínica - Humanista, Fenomenológica e Existencial; Blog: http://rmelopsicologo.wordpress.com

Referências:

FRANKL, Viktor E. A Vontade de Sentido: fundamentos e aplicações da Logoterapia. Editroa Paulus, São-Paulo, SP, 2011.

MAY, Rollo. O Homem a Procura de Si Mesmo. Editora: Vozes, Petrópolis, RJ, 1984.

MAY, Rollo. O Significado de Ansiedade: as causas de integração e desintegração da ansiedade. Zahar Editores, Rio de Janeiro, RJ, 1980.

SOUZA, Felipe (2015). Os 5 tipos de Ansiedade. disponível em https://www.psicologiamsn.com/2014/06/5-tipos-de-ansiedade.html acessado em 23/05/2015.