Resumo: O presente artigo de revisão bibliográfica busca elucidar sobre a problemática do preconceito com homossexuais nos dias de hoje, fazendo uma retrospectiva com aspectos históricos e buscando compreender quanto esse preconceito influencia no psíquico da pessoa, inclusive na construção de sua identidade e manutenção de sua saúde.

Palavras-chave: homofobia, homoafetividade, preconceito, sexualidade.

1. Introdução

O termo ‘homossexual’ refere-se a relações sexuais entre duas pessoas do mesmo sexo. Deriva-se do prefixo grego que significa ‘mesmo’. Foi empregado pela primeira vez em 1869, por um médico húngaro chamado Benkert” (CAPRIO; BRENNER, 1967, p.77).

Segundo Nunes e Ramos (2008) a referência ao comportamento homossexual  é algo que está presente em nossa sociedade há muito tempo. Porém, ele vem sendo mais notório desde a Grécia Antiga. Existem muitos pontos levantados que fazem com que haja uma dúvida se de fato o comportamento tido por gregos poderia ser considerado  homossexual, visto que a ênfase não era dada ao sexual.

O nome dado na época era pederastia, que significa “amor por rapazes”. A relação acontecia entre o mestre e o discípulo, sendo que por ser mais velho e ter mais poder sobre a situação, o mestre era ativo. Era um passo necessário a ser dado para que o cidadão grego pudesse alcançar status social. Porém, ao crescer, o homem deveria abandonar totalmente toda e qualquer relação sexual com outros homens, visto que esse ato era mal visto na sociedade.

O mesmo ocorria na ilha de Lesbos, só que ao invés da situação acontecer com homens, acontecia com garotas, com o mesmo intuito de demonstrar poder e hierarquia. E desta mesma ilha é que vem a origem do termo “lésbicas”. Mais tarde, em uma era mais voltada para a religião que seguia os mandamentos sagrados presentes na Bíblia, o nome dado ao ato sexual masculino era “sodomia”, fazendo referência às cidades de Sodoma e Gomorra (cidades devastadas pela ira divina). E com isso, o preconceito principalmente contra homossexuais masculinos [01] vinha se intensificando cada vez mais.

Homossexuais eram vistos como doentes. Foi apenas em 1971 que a Associação Americana de Psiquiatria, e posteriormente outros órgãos de saúde, retirou a homossexualidade  da  lista  de  doenças.  No  Brasil,  apenas  em  1999,  foi  promulgada a resolução que obrigava psicólogos e profissionais da área a não tratar homossexualidade  como doença.

A primeira pesquisa mais abrangente sobre a homossexualidade foi feita por Alfred Kinsey, que desenvolveu uma escala de zero a seis, que demonstra a variação do grau de padrões homossexuais presentes em cada pessoa:

Exclusivamente heterossexuais; Predominantemente heterossexuais e só acidentalmente homossexuais; Predominantemente heterossexuais, porém mais que apenas acidentalmente homossexuais; Igualmente heterossexuais e homossexuais; Predominantemente homossexuais, porém mais que apenas acidentalmente heterossexuais; Predominantemente homossexuais e só acidentalmente heterossexuais; Exclusivamente homossexuais (CAPRIO; BENNER, 1967, p. 78)

Klein também faz pesquisas na área de homossexualidade, desenvolveu uma escala, a escala KSOG, semelhante a aquela de Kinsey, porém incluía sete novos aspectos: “Atração, comportamento e fantasias sexuais, preferência emocional e social, auto identificação e estilo de vida, estas características medidas em relação ao passado, presente e o ideal do individuo.” (NUNES; RAMOS, 2008, p.3). O avanço científico em relação ao tema “homossexualidade”  é o que está acabando com mitos criados ao longo do tempo por uma sociedade homofóbica.

2. Barbárie e Preconceito

A sociedade passou, assim, de época em que o comportamento homossexual era tido como normal a uma época aonde se é necessário brigar por direitos humanos básicos. Cada dia que passa é mais comum presenciarmos casos de violência física ou psíquica contra homossexuais nos meios de comunicação. Mas ao que devemos isso? É dado a tal forma de preconceito o nome de homofobia.

Homofobia “é uma forma de inferiorização, consequência direta da hierarquização das sexualidades, que confere à heterossexualidade um status superior e natural.” (BORRILLO, 2001, p.3).

A homofobia não se resume apenas à violência corporal praticada em alguém que seja considerado homossexual, mas também em terror psicológico. É um ato intolerante que faz com que homossexuais, assumidos ou não, sejam vistos como pessoas desprezíveis e repugnantes, pelo simples fato de não sentirem atração física por pessoas do sexo oposto. É uma forma banal de afirmar que as pessoas heterossexuais são superiores àqueles homossexuais, e que tal verdade é incontestável, sendo gays, lésbicas, bissexuais e etc., merecedores de punição e/ou exclusão social.

Homofobia faz com que a pessoa transforme-se. Muitas vítimas têm traumas que fazem com que seus comportamentos se modifiquem, passando então a viver em um pânico constante de uma represália social.

A homofobia cognitiva funda, assim, um saber a respeito do homossexual e da homossexualidade baseado em preconceitos que os reduzem a estereótipos (BORRILLO, 2001, p.7) É principalmente na infância que se internaliza toda critica social negativa relacionada à homossexualidade, levando muitos homossexuais a conflitos que fazem com que eles se sintam inferiores aos demais indivíduos, tendo valor próprio questionável, como  se possuíssem uma espécie de imperfeição e até mesmo doença.

Em outras palavras, pode-se dizer que quando o estereótipo é muito forte ou pernicioso, membros do grupo alvo tendem a aceitá-lo e incorporá-lo à sua auto-imagem, fazendo com que sentimentos negativos com relação à própria orientação sexual sejam generalizados para o self como um todo (SILVA, 2007, p.1, grifo do autor).

Silva (2007) também faz referencia a Allport, que criou a teoria de “traços devido a estigmatização”, esta diz que o individuo tem reações defensivas perante o preconceito social, podendo ser elas extrovertidas (gerando obsessão) ou introvertidas (gerando uma espécie de ódio por si mesmo).

Homossexuais que incorporam críticas sociais negativas sobre a sua sexualidade ao self acabam passando pelo mesmo que acontecia com mais intensidade antigamente às mulheres: por se considerar inferiores, tornam-se passivos perante agressão e assumem que a culpa é deles e não do agressor.

Uma das principais características do que o preconceito causa é o sentimento  de vergonha. Esse é um dos motivos que levam homossexuais a viveram como heterossexuais ou a não assumir a sua orientação sexual à família e amigos.

Criam-se defesas psíquicas para isso: negação (processo inconsciente que faz com que o indivíduo “drible” sua sexualidade; é diferente de não assumir, pois negando o indivíduo sequer assume para si mesmo que sente atração pelo mesmo sexo, visto que a simples ideia de isso ser verdade faz com que o individuo sinta repulsa), formação reativa  (tem um comportamento que é o oposto; nessa categoria se enquadram os “homossexuais latentes”, que são aqueles que não assumem sua orientação e se tornam fervorosos críticos ao comportamento GLBT, podendo até mesmo estar na condição de agressores físicos), racionalização (uma determinada atitude é distorcida e explicada desviando o foco da homossexualidade), raiva e hostilidade (age de maneira hostil e sarcástica, mesmo quando não sofre preconceito, apenas com a intenção de provocar), encobrimento (para muitos é uma defesa extremamente necessária e saudável para conseguir lidar com a situação, o encobrimento nada mais é do que não revelar publicamente o seu gosto, fazendo com que os outros vejam comportamentos heterossexuais nele), alguns autores acreditam que a supercompensação (orgulho excessivo e alta busca por ascensão social, financeira e etc.) também é uma defesa.

Estudos feitos apontam que apesar da homossexualidade não ser mais considerada uma doença, gays e lésbicas são mais propensos a determinados transtornos mentais, sendo eles relacionados ao preconceito e a estigmatização, como estresse, transtorno de humor, transtorno de ansiedade, transtorno alimentar e etc.

A maior tendência à ansiedade pode ser explicada com base no fato de que homossexuais têm que conviver mais frequentemente com a pressão psíquica sofrida pelo preconceito. Também se deve a uma maior incidência do medo de rejeição.

Em adolescentes assumidos, Silva (2007) cita que índices de violência física e verbal sofrida são maiores, assim como o número de suicídios quando comparado a suicídios dos que permanecem sem revelar sua orientação sexual. Depressão, assim como todos os demais transtornos que afetam, está diretamente relacionada ao preconceito internalizado, quanto maior a rejeição social maior será o sentimento de solidão e a consequente exclusão.

Também está  presente  na  categoria  uma  maior  incidência  de  usuários   de drogas [02] ou alcoólatras. Esse problema tem um agravante, visto que muitas pessoas negam-se a admitir a correlação desses fatores com a homossexualidade e por isso deixam de prestar o devido auxílio. Essa incidência é vista como uma forma de lidar com o preconceito e a falta  de apoio social, familiar e religioso, alivio de ansiedade ou sentimento de solidão. Silva (2007) comenta que, segundo outros estudiosos, o uso de drogas e álcool também é visto por gays e lésbicas como uma justificativa que ameniza o ato homossexual.

Quando nos referimos a comportamento sexual de risco, como Barebacking e Bug Chasing, é pertinente comentar que devido a isto o número de casos de transmissão do vírus HIV é mais freqüente em homossexuais do que em heterossexuais. Especialistas atribuem a menor preocupação na utilização de métodos preventivos ao preconceito internalizado e, também, a uma maior propaganda que faz com que a AIDS se torne algo que parece ser menos letal. Outra causa é o grande número de usuários de drogas. Graças à luz de pesquisas atuais, podemos acrescer aqui uma hipótese à maior frequência de doenças em pessoas da população LGBT, especialmente travestis e transexuais: o atendimento público na área da saúde muitas vezes deixa a desejar quanto ao recebimento desses pacientes, mostrando-se despreparados em muitos aspectos ao lidar com a saúde de gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis (um exemplo comum é a não utilização dos recepcionistas e médicos do nome social).

E de onde surgiu, afinal, esse preconceito? A maioria das raízes do preconceito contra homossexuais encontram-se na religião. Esta assume que indivíduos GLBT’s não podem “pertencer ao Reino dos Céus”, então, faz-se necessária a nossa compreensão para com eles, que por sua parte devem viver em celibato, para manter-se longe do pecado.

Por isso, a principal estratégia utilizada pelo catolicismo para impor seus valores morais para a sociedade pressupõe um forte investimento na família de origem e na manutenção do modelo nuclear de família (BUSIN, 2008, p. 76).

Santo Agostinho é um exemplo de religioso que condenava relacionamento sexual homossexual. Porém, não apenas o homossexual, ele, assim como muitos outros, defendia que sexo deveria ser feito somente para procriação e após o casamento.

Historicamente falando, a condenação presente em diversas passagens bíblicas está relacionada ao fato de que homens tornam-se afeminados, aproximando-se assim do sexo feminino. Visto que a mulher era considerada um ser inferior, era banal o fato de que um homem pudesse ambicionar se tornar uma.

O preconceito gerado por instituições religiosas afetam diretamente muitos homossexuais, que da mesma forma que a homofobia faz com que se sintam inferiores e em desacordo com os valores morais de nossa sociedade, tendo que escolher entre a sua sexualidade ou dignidade moral.

Esses fatores levam muitos gays e lésbicas a afiliar-se a religiões que abarcam as minorias sociais e que não possuem tantos dogmas quanto às demais, gerando na pessoa uma maior espiritualidade e diminuindo o preconceito internalizado, constituindo, assim, uma identidade própria do sujeito.

O conceito de identidade tem sido muito estudado e, nos tempos de hoje, pode ser substituído pelo conceito de self. Este “é construído socialmente através de um acúmulo de experiências [vividas pelo indivíduo] e crenças” (SILVA, 2007). Essas experiências podem ser divididas nas seguintes categorias principais: a consciência reflexiva, a interpessoalidade e a função executiva. Dentro desta última está a autorregulação, que é a forma como o self atua sobre si mesmo, alterando ou suprimindo determinados comportamentos e pensamentos, o que significa dizer que a identidade de uma pessoa está em constante mutação.

A identidade ainda pode ser formada por dois aspectos. São eles: a identidade pessoal, abrangendo qualidades pessoais específicas e a identidade social, abrangendo as qualidades pessoais que introduzem o indivíduo em um grupo.

O autoconceito é a forma como o sujeito se define e equivale à soma de várias identidades – ativadas ou dormentes. A identidade homossexual seria uma dessas do autoconceito, sendo um fator marcante, pois foge de um “padrão” social (heterossexualidade). E, como em qualquer outro caso, a aquisição dessa identidade tem um lado bom (inclusão social) e um ruim (exclusão social).

Essa identidade homossexual pode ocorrer de três formas diferentes. Pode ser uma identidade de self, que é quando o sujeito considera-se gay, uma identidade percebida, quando o sujeito crê que as pessoas em sua volta o veem como gay, uma identidade de apresentação, quando o sujeito expõe sua homossexualidade perante a sociedade ou as três formas juntas, considerada como uma identidade plenamente integrada.

A formação da identidade homossexual ocorre por estágios e à medida que evolui de um para outro, há maior autoaceitação do indivíduo, melhorando o seu bem-estar pessoal e sua vida amorosa. Sendo, por ordem cronológica, primeiro a sensibilização, se dando antes da puberdade, quando o sujeito sente-se diferente dos outros; após, a confusão de identidade, se dando durante a adolescência, quando surgem pensamentos homossexuais, criando um conflito interno; a identidade assumida, durante e após a adolescência, quando o sujeito aceita a homossexualidade como identidade de self e identidade de apresentação; e o compromisso, que é quando o sujeito assume para a sociedade sua orientação sexual e adota um estilo de vida a partir dela. Há, também, a síntese de identidade, sucedendo quando o indivíduo se vê como homossexual e revela essa identidade a outras pessoas.

3. Considerações Finais

Esse trabalho é apenas uma gota de um imenso oceano, muito ainda temos a pensar e fazer os outros pensarem. Independente de cor, raça, sexo, identidade de gênero ou orientação sexual, é importante a conscientização de que todos são dignos de respeito e devem ter todos os seus direitos básicos atendidos.

Sobre os Autores:

Bianca Figueiredo Martins - Acadêmica de Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria.

Vanessa Ruffatto Gregoviski - Acadêmica de Psicologia da Universidade de Passo Fundo.

Referências:

BORRILLO, Daniel. Homofobia. Espanha: Bellaterra, 2001. Disponível em:< https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=sites&srcid=ZGVmYXVsdGRvbWFpbnxjb25jdXJzb25pZ3N8Z3g6M2ZiOTUxYWM3OGU0YzYyOA >. Acesso em: 10 jun. 2012.

BUSIN, Valéria Melki. Homossexualidade, religião e gênero: a influência do catolicismo na construção da auto-imagem de gays e lésbicas. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2008. Disponível em: <http://www.sapientia.pucsp.br/tde_arquivos/7/TDE-2008-11-13T13:49:59Z-6767/Publico/Valeria%20Melki%20Busin.pdf>. Acesso em: 29 abr. 2012.

CAPRIO, Frank S.; BRENNER, Donald R. O problema da homossexualidade. In:        . Conduta Sexual. Tradução de Leonidas Gontija de Carvalho. São Paulo: IBRASA, 1967. P. 77-128.

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GRAÑA, Roberto B. Homossexualidade: formulações psicanalíticas atuais. Porto Alegre: ARTMED, 1998

NUNES, Eliana; RAMOS, Kária Perez. Homossexualidade Humana: Estudos na Área da Biologia e da Psicologia. Intellectus – Revista Acadêmica Digital do Grupo POLIS Educacional, ano 4, n. 5, p. 1-19, jul./dez. 2008. Disponível em: <http://www.seufuturonapratica.com.br/intellectus/PDF/06_ART_Psicologia.pdf>. Acesso em: 10 jun. 2012.

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SILVA, Adriana Nunan do Nascimento; JABLONSKI, Bernardo (Org.). Homossexualidade e Discriminação: O Preconceito Sexual Internalizado. 2007. Tese de Doutorado (Pós- Graduação em Psicologia) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007. Disponível em: <http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/Busca_etds.php?strSecao=resultado&nrSeq=9652%401>. Acesso em: 10 jun. 2012.