Resumo: Quanto mais profundo, ou seja, existente e real for o espírito, tanto mais ele é expresso e exprimível (BENJAMIN, 1992). A linguagem é a fonte de comunicação mais importante entre os sujeitos e é por meio dela que as pessoas tentam entender o mundo e nele encontrar seu lugar. Este texto trata de uma análise do papel da linguagem no processo de transformação sofrido pela personagem Yang Mija do filme Poetry do coreano Lee Chang-dong. O processo de transformação de Mija passa pelo itinerário de estranhamento, negação, alteridade e enfim na tomada de consciência da personagem. O estudo é uma reflexão teórica à luz dos autores Walter Benjamin, Lev Semenovitch Vygotsky, Sigmund Freud, Mickail Bakhtin.

Palavras-chave: Linguagem. Transformação. Estranhamento. Negação. Alteridade. Tomada de consciência

Abstract:  The deeper, ie existing and real for the spirit, the more it is expressed and expressible (Benjamin, 1992). Language is the most important source of communication between the subjects and it is through it that people try to understand the world and find their place in it. This text is an analysis of the role of language in the transformation process suffered by Mija character in the film "Poetry" Korean Lee Chang-dong. The Mija transformation process through the estrangement, denial, otherness and finally in making character of consciousness. The study is theoretical basis authors Walter Benjamin, Lev Vygotsky Semenovitch, Sigmund Freud , Jean Piaget and Mickail Bakhtin .

Keywords:  Language.  Transformation. Negative. Otherness. Awareness

1. Primeiras Considerações

Podemos considerar a linguagem somente como instrumento de comunicação entre os sujeitos? Ela funda para o homem sua relação com as coisas e é a fonte de comunicação mais importante, mas também tem um papel preponderante na constituição da subjetividade e da intersubjetividade do indivíduo (Vygotsky, 1993). Este trabalho visa compreender o lugar da linguagem, mais especificamente da poesia, na tomada de consciência da personagem Mija do filme Poetry do produtor coreano Lee Chang-dong. Mija é uma senhora de sessenta anos que mora com seu neto adolescente em Seul, capital da Coreia do Sul, oficialmente República da Coreia. Os dois moram em um conjunto habitacional popular da cidade.  Ela trabalha como cuidadora de um idoso com seqüelas de um provável derrame para complementar sua aposentadoria. Já no início da narrativa, Mija, que está esquecendo palavras, descobre-se com Alzheimer ao mesmo tempo em que começa a interessar-se pela escrita poética. A necessidade de comunicar o que passa em seu interior a faz inscrever-se em um curso de poesia.  Walter Benjamin diz o seguinte:

Não há acontecimento ou coisa, seja na natureza animada, seja na inanimada que, de certa forma, não participe na linguagem, porque a todos é essencial a comunicação do seu conteúdo espiritual (1992, p. 177)

Para Benjamin, tudo é comunicável e tudo possui essência espiritual, porém ao homem foi dado o poder de nomear. Observa-se a presença metafórica da natureza durante toda a narrativa.  A linguagem divina se expressa por meio dela. A água do rio flui, assim como a vida, que segue seu curso. Conforme o Dicionário de Símbolos, o rio simboliza o fluir das águas e a fluidez das formas, a fertilidade, a morte, a renovação, a mudança constante. A correnteza do rio simboliza a corrente da vida e da morte. Na simbologia do rio, pode-se identificar o itinerário da protagonista. O rio simboliza a existência humana e o seu curso com a sucessão dos desejos, dos sentimentos, das intenções e as possibilidades dos seus desvios.

No início da trama, a natureza apresenta-se forte impondo sua essência ao contrário de Mija que se encontra incapaz de exprimir sua essência . A princípio, a linguagem é utilizada por ela somente como ferramenta de comunicação básica.  Walter Benjamin (1992, p. 186) cita a passagem bíblica da criação: “Deus disse-e fez-se-, mas sim, a este homem, que não foi criado através da palavra, é aposta a dádiva da língua, e ele é elevado acima da natureza.” O silêncio permeia a trama.  A falta de diálogos contínuos vai construindo uma crescente tensão no telespectador que aguarda pelo momento em que os ditos de Mija irão sobrepor-se aos não ditos e elevar-se à linguagem da natureza, que impõe sua presença na história. A capacidade de percepção da personagem modifica-se ao longo da trama influenciando em sua transformação. Mas em que se transforma Mija? Em uma poetiza? Em uma mulher que é capaz de sentir a dor do outro? A capacidade de percepção do outro como sujeito implica na mudança do olhar de si próprio.

A morte trágica de uma colega de seu neto é o fator desencadeante de seu processo de mudança.  A menina suicidou-se após meses de abuso por um grupo de colegas da escola. A avó é informada de que seu neto encontra-se neste grupo. A primeira reação de Mija é negar o ocorrido, não tomar consciência do que lhe causa estranhamento. As aulas de poesia iluminam seu trajeto permitindo, desta forma, ver com um novo olhar tudo ao seu redor. Sua percepção torna-se mais sensível, inclusive à dor alheia.

2. Sobre a Linguagem e a Simbologia

Para Walter Benjamin, a todos é essencial a comunicação do seu conteúdo espiritual. A linguagem é o médium da comunicação, é nela e por meio dela que o que é comunicável  expressa-se.  Para ele, quanto mais profundo for o espírito, tanto mais ele é expresso e exprimível. Ele diz o seguinte:

A essência lingüística das coisas é a sua linguagem. Esta frase, aplicada ao homem, significa: a essência lingüística do homem é a sua linguagem. Isto é, o homem comunica a sua própria essência espiritual na sua linguagem. (1992, p. 180)

Se a essência linguística do homem é a sua linguagem, o não expresso e o não exprimível prevaleciam em Mija impedindo-a de libertar sua essência espiritual. Seu espírito ainda não havia ganhado a profundidade precisa para mostrar-se. Em uma cena do filme, o professor de poesia diz aos alunos para aprenderem a olhar para o que está ao seu redor. Ele diz que o poeta precisa interessar-se e entender as coisas à sua volta. Ele utiliza-se de uma maçã, como exemplo, dizendo que nunca a viram de verdade, pois nunca imaginaram a luz do sol sendo absorvida por ela, suas curvas, suas cores. A Maçã, também, remete-nos à passagem bíblica Gênesis 2:9, 16, 17; 3:1-24 em que Eva desobedece á Deus e come o fruto da árvore proibida. Árvore esta que carrega em si o conhecimento do bem e do mal. Ao comerem o fruto, Adão e Eva têm os olhos abertos para o conhecimento que toma lugar da ingenuidade que lhes era típica. Mija olhava para o neto da mesma forma como olhava para a maçã: ingenuamente. Tomar conhecimento do bem e do mal lhe abriria os olhos para o novo, mas lhe traria sofrimento, assim como foi a Adão e Eva. Quando se olha ao redor de maneira ingênua não se olha com os olhos da alma. A percepção estética traz plenitude ao sujeito permitindo-lhe exprimir sua subjetividade principalmente por meio da arte. O olhar atento subsidia a alma com possibilidades de expressão e a poesia permite que por meio dela o poeta torne esse olhar exprimível.

Walter Benjamin conceitua a linguagem poeticamente vinculada a ideia de poder divino, já para  Bakhtin,  a linguagem é dialógica. Na sua concepção, a prática viva da língua não permite que os indivíduos interajam com a linguagem como se esta fosse um sistema abstrato de normas. A linguagem é como uma ponte que une dois sujeitos sociais e precisa ser uma via de mão dupla. Há uma troca no dialogismo um embate de ideias. Para o autor, a palavra é ideológica por excelência.

Na realidade, não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis etc. A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial (Bakhtin, 1999, p. 95).

Deste modo, entende-se que os sujeitos agem por meio de discursos e definir a linguagem como prática social significa compreender que além de um modo de representação ela é, também, um modo de ação das pessoas sobre o mundo e sobre outras pessoas. O foco principal desta análise é o papel da linguagem subjetiva no processo de transformação da personagem, entretanto não se pode deixar à margem a presença do discurso nas relações de poder estabelecidas no filme. Por meio dele e de um vultoso suborno, os pais dos adolescentes envolvidos tentam dissuadir a mãe da vítima a não denunciar os criminosos. Falta de ética e de respeito ao próximo preenchem o discurso tendencioso dos pais. As falas são doces e gentis, mas seu conteúdo é carregado de intenção em estabelecer seu poder sobre a parte mais fragilizada. Mija permanece alheia, ou tenta permanecer, ao discurso que ocorre ao seu redor, como se as palavras proferidas por eles fossem apenas sons vazios de significados. A linguagem ainda não é utilizada por ela como médium de sua subjetividade. Negar o que está em seu íntimo é, portanto, menos doloroso até o momento.

 3. A Negação do Estranho

Estranho relaciona-se indubitavelmente com o que é assustador com o que provoca medo e horror (Freud, 1925). De acordo com o autor, designamos estranho o que está no campo do amedrontador. Ao deparar-se com a notícia de que seu neto estava envolvido nos sucessivos abusos da menina, a personagem toma como estranho o fato. Ver seu neto como alguém capaz de realizar tal violência lhe provoca tanto medo e horror que a faz, a princípio, negar o acontecido. Mija nega calando-se ao invés de trazer à tona o que está em seu inconsciente. Afirmar ou negar o conteúdo de pensamentos é tarefa da função do julgamento intelectual para Freud:

[...] o julgamento é: ‘ Gostaria de comer isso’, ou ‘gostaria de cuspi-lo fora’, ou, colocado de modo mais geral, ‘gostaria de botar isso para dentro de mim e manter aquilo fora.’ Isso equivale a dizer: ‘Estará dentro de mim’ ou ‘ estará fora de mim.’ [...] o ego-prazer original deseja introjetar para dentro de si tudo quanto é bom, e ejetar de si tudo quanto é mau. Aquilo que é mau, que é estranho ao ego, e aquilo que é externo são, para começar, idênticos (FREUD, 1925)

 

Ao ouvir o acontecido dos pais dos outros alunos envolvidos, em uma reunião, Mija, sem dizer uma palavra, retira-se do ambiente. Um dos pais encontra-a contemplando rosas vermelhas no lado de fora do restaurante. Rosas essas que simbolizam a dor e a morte da menina.  O aparelho psíquico funciona pelo princípio do prazer.

Na teoria da psicanálise não hesitamos em supor que o curso tomado pelos eventos mentais automaticamente regulado pelo princípio de prazer, ou seja, acreditamos que o curso desses eventos é invariavelmente colocado em movimento por uma tensão desagradável e que toma uma direção tal,que seu resultado final coincide com uma redução dessa tensão, isto é, com uma evitação de desprazer ou uma produção de prazer (FREUD, 1925).

Ver seu neto como alguém capaz de cometer tal ato vai contra o princípio do prazer, porque lhe causa dor e sofrimento. Julgar é a ação intelectual que decide a escolha da ação, neste caso, a negativa. Para Freud, nem tudo que é estranho é desconhecido.

Pode ser verdade que o estranho [unheimlich] seja algo que é secretamente familiar [heimlich-heimisch], que foi submetido a repressão e depois voltou, e que tudo aquilo que é estranho satisfaz essa condição. [...] Nem tudo o que preenche essa condição – nem tudo o que evoca desejos reprimidos e modos superados de pensamento, que pertencem à pré-história do indivíduo e da raça – é por causa disso estranho( 1976,p. 306).

Em alguns momentos, Mija parece colocar-se tanto no lugar da menina que demonstra conhecer aquela dor sentida por ela. Como se já tivesse passado por semelhante situação. O sentimento causado pelo o ocorrido parece remeter-lhe a algum lugar.  O estranho talvez fosse, também, a memória reprimida  de algo familiar voltando à tona. Aquela situação a remete a algo já experimentado. O estranhamento e a negação  emudecem Mija.                                

4. O Olhar do Outro e a Tomada de Consciência

Para a psicologia, alteridade é o conceito que o indivíduo tem segundo o qual os outros seres são distintos dele. Contrário a ego (Dicionário de psicologia, 1973, p. 75).  Para a filosofia, o termo origina-se do latim alteritas que significa ser outro, colocar-se ou constituir-se como outro (ABBAGNANO, 2012 p. 35). Analisaremos a alteridade presente na narrativa à luz do conceito filosófico.  A alteridade implica ser capaz de ver-se como outro ao mesmo tempo em que também é capaz de colocar-se no lugar do outro. Pelo crime cometido, o neto e os colegas parecem não ser capazes de colocar-se no lugar do outro. A premissa básica do conceito de alteridade é respeitar o próximo assim como queremos ser respeitados. Quando a avó coloca uma foto da colega em cima da mesa para observar a reação do neto, esse demonstra total indiferença.  Ele e os amigos seguem suas vidas como se não houvessem ferido princípios básicos de moralidade e ética. Os pais dos adolescentes, assim como os filhos, em nenhum momento parecem solidarizar-se com a dor da mãe, muito pelo contrário, suas falas denotam apenas descaso com a dor do outro.

Apenas Mija demonstra compaixão pelo sofrimento da colega do neto. Embora não diga uma palavra a respeito, ela demonstra seu pesar por meio do silêncio e das visitas ao lugar onde a menina morreu e onde foi violentada. Mija sente verdadeiramente a dor  da menina. Benjamin (1992) diz que as ações da experiência estão em baixa causando uma diminuição das narrativas. Segundo o autor, o horror presenciado pelos combatentes que voltavam da guerra emudecia-os, pois a experiência vivida  tornava-os mais pobres em experiências comunicáveis. A crueldade cometida pelo neto e seus colegas horrorizou-a tanto que a calou. Mija precisou resgatar sua essência espiritual no fundo de sua alma. O silêncio  começa  dar lugar para a linguagem. Mija inicia sua jornada rumo à sua  transformação á descoberta de si mesma a partir do outro. Sobre isso, Vygotski diz:                                                                             

O mecanismo da consciência de si próprio (auto-conhecimento) e de reconhecimento dos demais é idêntico: temos consciência de nós mesmos porque a temos dos demais e pelo mesmo mecanismo, porque somos com respeito a nós o mesmo que os demais com respeito a nós. Reconhecemo-nos a nós só na medida em que somos outros para nós, isto é, pelo quanto somos capazes de perceber de novo os reflexos próprios como excitantes. (VYGOTSKI, 1997: 105 apud PINO, 2005)

4.1 Poesia: linguagem que liberta a alma

As aulas de poesia guiam a protagonista em seu itinerário.  A tomada de consciência de Mija foi dolorosa.  A personagem tinha uma idéia ingênua do saber olhar. Ela  pega-se atenta tentando captar a essência da maçã como se o fruto fosse desvelar-se ao seu fixo olhar. Assim, também era o olhar dirigido ao neto e a si própria. Um olhar incapaz de perceber a incapacidade do neto em aplicar  o princípio básico da alteridade: saber que os direitos do indivíduo termina onde começa o do outro . O professor de poesia diz aos alunos:

Escrever poesia é encontrar beleza em toda a
parte. Trata-se de descobrir a verdadeira
beleza, em tudo o que vemos na nossa frente,
em nossa vida cotidiana. A verdadeira beleza.
Não coisas que parecem bonitas. Cada um de
vocês carregam a poesia no coração. Mas a tem
aprisionada. É hora de libertar sua poesia. A
poesia dentro de vocês deve criar asas e voar
para longe.(Poetry, 2010)

Mija começa buscar a essência das coisas ao seu redor. A percepção da personagem torna-se mais sensível. A poesia a liberta para expressar o que está em seu íntimo. A protagonista começa captar não só a beleza das coisas, mas a verdadeira essência de tudo. Ela até se sujeita a devolver a dignidade masculina ao senhor de quem cuida após ele lhe fazer esse pedido. Seu novo olhar para a vida lhe permite tomar atitudes como essa a partir do princípio da alteridade. A personagem desde o início da trama já demonstrava a capacidade de ver o outro, porém esse olhar não era exprimível. Sobre poesia, Alvarez Ferreira afirma o seguinte:

A beleza e o encantamento da poesia vêm de uma força profunda que faz as imagens brilharem, iluminando o ser e a existência de seu criador e de seu leitor. A poesia nasce no silêncio e na solidão como vontade de dizer e, eis que num instante inesperado, ela explode. (Alvarez Ferreira, 2013, p. 152)

 A natureza se comunica a ela que capta toda sua essência em um momento de revelação. A avó foi designada por um dos pais a tentar convencer a mãe da menina morta a aceitar o acordo. A casa fica em uma área rural da cidade. Mija está em um campo a procura da mulher quando se depara com uma paisagem maravilhosa. Ela pega uma tâmara caída no chão e observa suas cores, seu aroma, imagina o sol sendo absorvido por ela. Sente sua essência espiritual. Nesse momento seu espírito é tomado de tamanha profundidade tornando-o exprimível. Ao mesmo tempo em comunga com a natureza é elevada acima dela. A poesia explode, nasce do silêncio que aprisionava sua linguagem e da vontade de dizer.  A seguir, a transcrição do poema escrito pela protagonista:

Canção de Agnes

“ Como é Lá?

Quão solitário é?

Ainda é vermelho ao pôr-do-sol?

Os pássaros continuam cantando no caminho para a floresta?

Pode receber a carta que não ousei enviar?

Posso transmitir a confissão que não ousei fazer?

O tempo passará e as rosas desaparecerão?

Agora é hora de dizer adeus.

Como o vento, que permanece, e depois vai,

Exatamente como as sombras,

Para as promessas nunca cumpridas,

Para o amor mantido até o fim,

Para a grama beijando meus tornozelos cansados.

E para os pequenos passos que me seguem.

É hora de dizer adeus.

Agora, como a escuridão cai.

Uma vela será acesa novamente?

Aqui eu rezo, para que ninguém deva chorar,

E para que saiba o quanto te amei.

A longa espera no meio de um dia quente de verão.

Um velho pensamento me lembra do rosto de meu pai.

Mesmo a solitária flor selvagem timidamente afasta-se.

Quão profundamente amei.

Como meu coração acelerou ao ouvir sua débil canção.

Eu te abençôo,

Antes de cruzar o rio negro,

Com o último suspiro da minha alma.

Começo a sonhar com uma manhã de sol brilhante.

Outra vez desperto, ofuscada pela luz,

E o encontro esperando por mim”.

 Observando o esquema abaixo, é possível visualizar o trajeto percorrido por Mija.

trajeto percorrido por Mija

A descoberta de sua doença e a tragédia ocorrida, à princípio, a calam. As aulas de poesia ajudam-na em sua tomada de consciência. O sofrimento subsidia seu espírito e o conflito entre o exprimível e o não exprimível se inicia. Fica implícito que a avó denuncia seu neto à polícia. Um ato de muita coragem, apesar de toda dor que isso lhe causa. Fato esse que demonstra sua tomada de consciência. A poesia escrita pela protagonista é lida pelo professor na última cena do filme. A alteridade implica em o sujeito ver a si próprio a partir do outro. A voz do professor vai sendo substituída pela voz da protagonista e essa pela voz da menina. Mija e a menina tornam-se uma só.  O filme termina com a perspectiva de Mija sobre a menina. O rio correndo sob cuja ponte a menina se jogou é o pano de fundo para o fechamento da história. Mija, enfim, consegue elevar-se acima da natureza e expressar seu conteúdo espiritual mesmo que tenha sido pela última vez, pois entende-se que ela dá fim a sua vida da mesma maneira que a menina o fez.  Assim como Eva, ela saboreia o fruto proibido e o conhecimento do bem e do mal desvela-se ao seus olhos libertando as palavras do fundo de seu espírito.

5. Considerações Finais

Tendo em vista os aspectos observados entende-se que a linguagem funda para o homem sua relação com as coisas e constitui sua subjetividade. A linguagem é dialógica. Ela é a ponte que liga ideias, intenções, emoções entre os sujeitos propiciando a troca por meio da interação. Para Benjamin (1992), pelo fato do homem ser o denominador das coisas é dele que emana a linguagem pura, aquela que mais se aproxima de Deus, pois foi dele que o homem herdou o dom de nomear. Nesta análise, pode-se observar o papel que a linguagem teve no itinerário da personagem Mija. Ela foi o médium entre o não exprimível e o exprimível da essência espiritual da protagonista. Mija passou por algumas fases até ser capaz de libertar o que trazia no fundo da alma. Ingenuidade, estranhamento, negação, tomada de consciência e por fim a capacidade de expressar por meio da linguagem o seu novo olhar.

Sobre o Autor:

Viviane Roduit de Souza - Graduada em Letras pela UniRitter e atualmente mestranda do curso de Letras pela mesma universidade com bolsa CAPES/ Taxa.

Referências:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes,1998

A formação Social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores/ L. S Vigotsky; organizadores Michael Cole...[ ET AL.] ; tradução José Cipolla Neto, Luís Silveira Menna Barreto, Solange astro Afeche – 7ª Ed. – São Paulo : Martins Fontes- selo Martins, 2007.

Alvarez Ferreira, Agripina Encarnacion. Dicionário de imagens, símbolos, mitos, termos e conceitos Bachelardianos [livro eletrônico] /Agripina Encarnación Alvarez Ferreira. – Londrina : Eduel, 2013.

BAKHTIN, Mikhail (Volochinov). Marxismo e filosofia da linguagem. Trad. Michel Lahud; Yara F. Vieira. 9ª Ed. São Paulo: Hucitec,1999.

BENJAMIN, Walter.Sobre a Linguagem em Geral e sobre a Linguagem Humana. In: WALTER, Benjamin.Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política. Lisboa: Relógio D’água Editores, 1992

Dicionário de filosofia / Nicola Abbagnano; tradução da 1ª edição brasileira coordenada e revista por Alfredo Bosi; revisão da tradução e tradução dos novos textos Ivone Castilho Benedetti – 6ª Ed. – São Paulo : Editora WMF Martins Fontes, 2012.

Dicionário de Psicologia. São Paulo: Itamaraty, v.5, 1973. http://www.dicionariodesimbolos.com.br/rio/

FREUD, Sigmund (1919). O ‘estranho’. In:_____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976, V. XVII.

FREUD, Sigmund ( 1920). Além do Princípio de Prazer. In:______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969, V . XVIII.

FREUD, Sigmund( 1925). A Negativa. In:_______. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969, V. XIX.

PINO, Angel. As marcas do humano: às origens da constituição cultural da criança na perspectiva de Lev S. Vigotsky. São Paulo: Cortez, 2005.

POETRY, 2010. Filme  Sul Coreano. 135 min. Dirigido por Lee-Chang-dong