Resumo: Este artigo realizou um breve estudo sobre como a Psicologia e a Religião interagem entre si, o que poderá ser útil no processo educacional. O objetivo é refletir sobre como os estudantes de psicologia podem atuar de forma profissional e manter sua religiosidade, sendo que ao lidar com os aspectos psíquicos dos seres humanos é quase automático o encontro com o tema espiritualidade. Verifica-se que a religiosidade ajuda o homem a encontrar sentido para a vida, porém, o psicólogo, enquanto profissional, não deve levar em conta sua religiosidade.

Palavras-chave: Religião, Psicologia, Ciência.

1. Introdução

Como diz Jorge Ponciano Ribeiro (2004, p 11) “Nenhuma ciência está tão próxima da religião quanto à psicologia”. O psicólogo deve ter uma base sobre como manter sua religiosidade enquanto atuante de uma ciência que o obriga a não misturá-la com a vida religiosa vivida pelo mesmo, de modo a não comprometer seus estudos e torná-lo imparcial diante dos atendimentos prestados às pessoas de diferentes costumes e credos, inclusive, pessoas sem religião.

Para montar este artigo, utilizou-se de pesquisa bibliográfica sobre o assunto, associada à pesquisa de campo, com base na técnica de entrevista com profissional da área, o Sr. Marcelo dos Santos de Almeida, Dr. em Psicologia, Teólogo, Filósofo e Psicopedagogo, o que traz uma visão de alguém que já convive com os aspectos religioso e científico.

2. A Origem da Religião

No estudo antropológico verifica-se que os homens mais primitivos já tinham sua religiosidade adorando animais mais fortes que eles e fenômenos da natureza que não conseguiam explicar. Isso se deve ao fato de que o homem procurava dar sentido às coisas inexplicáveis das quais ele dependia para sua sobrevivência. Como consequência, passou a praticar ritos em adoração a esses fenômenos, por exemplo, rituais e oferendas para colheita e chuva.

J. P. Ribeiro (2004) conduz seu pensamento dizendo que o homem tem um instinto de procura da divindade, pois como não consegue explicar todos os fenômenos que o cercam, e mesmo quando consegue, pela falta de sentido que se faz presente em sua visão, atribui e junta os mistérios em divindade(s), pois assim torna-se possível a convivência com eles, no caso das culturas monoteístas unem-se vários fenômenos inexplicáveis em apenas um.

A religião pode ser definida sob três significados segundo Ribeiro (2004 p 25): “apesar de que etimologicamente religião pareça derivar de ‘Obrigação’, tradicionalmente afirma-se que deriva ou do verbo latino relegere (reler)ou do verbo religare (religar)”. O que nos chama atenção, pois, por mais que nem todas as religiões estejam fundamentadas em deus/deuses, todas tem o sentido de divino.

3. A Origem da Psicologia

A psicologia teve seu surgimento na Grécia Antiga, com os filósofos pré-socráticos que procuravam definir a relação do homem com o mundo por meio da percepção que o mesmo tem. Um passo mais concreto foi dado por Sócrates, sendo um verdadeiro marco para a psicologia. Ele procurava definir os limites que diferenciam o homem dos outros animais, no qual a razão seria o que tornaria o homem um ser superior, pois possibilitaria a ele sobrepujar-se aos seus instintos. Já Platão dizia que a razão estava ligada ao corpo. Postulava também que a alma seria imortal, e quando o corpo morria, esta se tornaria livre para ocupar outro corpo. Um dos principais discípulos de Platão foi Aristóteles, porém, este falava que a alma seria mortal e ligada ao corpo, sendo que todos os seres possuíam-na.

Como o foco grego estava em estudar a alma, a palavra “psicologia vem do grego psyché, que significa alma, e de logos, que significa razão.” (BOCK, Ana M. Bahia; FURTADO, Odair e TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi, 2008 p 33). Justamente porque entendiam que a razão estaria contida na alma humana.

4. Ligação Entre Religião e Psicologia Grega

Como era entendido que a alma era a sede do pensamento, e a igreja monopolizava o pensamento, na idade média, dois pensadores postularam teorias relacionadas à psicologia. Santo Agostinho, assim como Platão dizia que a alma era imortal, e defendia que também seria a manifestação de Deus no homem. Já São Tomás de Aquino defendia que apenas Deus teria uma essência e existência iguais, e isso justificaria a busca por Deus, pois o homem seria um ser incompleto. Então enquanto a Igreja Católica mantinha seu interesse sobre a psicologia houve uma relação entre as duas.

Os estudos da igreja católica estavam centrados em manter essa ligação para usá-la em prol da fiel religiosidade dos seguidores. Apoiava apenas os estudos que considerava “sagrados” e repudiava tudo o que poderia trazer interferências a seu domínio.

5. Rompimento com as Bases Religiosas

Com o renascimento, todas as áreas do conhecimento humano sofreram mudanças, o que estabeleceu regras básicas para a formulação do conhecimento científico. Vem dessa época a psicologia como ciência, onde os conhecimentos religiosos passaram a ser desprezados para fins científicos, pois seriam conhecimentos dogmáticos, e por isso, sem relação com a verdade.

Nesse contexto, a psicologia desliga-se da filosofia e busca apoio na física e na neurologia, evidenciando que os pensamentos e comportamentos são pertencentes ao sistema nervoso de cada ser humano, e que a fonte da razão é o cérebro. A partir daí a psicologia separa-se da religião, e seu conceito passa a ser o estudo do comportamento humano ou da mente.

Wilhelm Wundt é considerado o pai da psicologia moderna, pois desenvolveu o primeiro laboratório de psicofisiologia na Alemanha e passou a estudar sob a metodologia do método introspectivo, onde o pesquisador  faz perguntas ao sujeito estudado e relaciona os fenômenos mentais com os orgânicos.

6. A Função da Psicologia em Relação à Vivência Religiosa

A visão da psicologia deve, portanto, buscar compreender que a religião tem um sentido forte na vida das pessoas, portanto não deve ser ignorada. O contexto religioso do indivíduo que está sendo acompanhado por um psicólogo deve ser analisado como parte do psique do mesmo, pois caso contrário, esse indivíduo não estaria sendo estudado em sua totalidade. Mais uma vez usando as palavras de Ribeiro “O psicólogo não tem que acreditar em Deus ou ser religioso, mas precisa aprender a conviver com um Deus que mora na humanidade […]” (RIBEIRO, 2004, p. 33).

Porém, um psicólogo que tem uma convivência religiosa, seja ela qual for, pode através disso ter maior resistência a abalos que seu trabalho possa trazer. Nesse aspecto, a religião se comporta como uma estrutura que dá suporte e apoio contra os abalos que possam acontecer nos atendimentos e fora deles. Mas se faz necessário o respeito acima de tudo, às opiniões e modos de vida diferentes dos seus, pois os seres humanos não são iguais e se o profissional permite que as regras religiosas interfiram em seu trabalho, suas técnicas poderão se tornar inadequadas.

7. Tentativas Atuaisde União

Atualmente, apenas religiosos não cientistas tentam unir a religião com a ciência, sob a justificativa de que a religião pode completar a ciência. O mesmo acontece com a psicologia. O entrevistado Marcelo dos Santos de Almeida disse em entrevista que suas atividades como psicólogo e pastor não interferem uma na outra, pelo contrário, dão uma base para a busca de soluções de conflitos.

Já o código de ética dos psicólogos tem claras regras sobre a religiosidade: “Art. 02 – Ao psicólogo é vedado [entre outros]: […] e) Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais ou religiosas, quando do exercício de suas funções profissionais.” Em outras palavras, enquanto profissional, o psicólogo não pode induzir ninguém a fazer parte de suas crenças religiosas, caso contrário sofrerá penalidades.

8. Psicologias da Religião

Dr. Em Psicologia, Geraldo José de Paiva (1990, 2003), fez um trabalho direcionado a estudar as psicologias da religião existentes na Europa e nos EUA, onde universidades se dedicam ao estudo dos fenômenos religiosos. Nessas universidades são estudados temas como conversão, desconversão, espiritualidade, entre outros. O que mostra que os psicólogos pertencentes a estas universidades se preocupam em estudar mais desse assunto, pois é um tema pouco conhecido entre o mundo acadêmico, justamente pela preocupação que a mistura com a religiosidade traz.

Porém, mesmo não tendo como empregar a metodologia científica clássica, pois o sobrenatural não pode ser comprovado cientificamente, pode ser possível seu estudo através das vivências humanas, ou seja, o modo como às pessoas vivem sua fé, tal estudo é feito pela chamada fenomenologia.

8.1 A Visão Fenomenológica

A psicologia vê alguns fenômenos religiosos, principalmente a chamada paranormalidade, como patologias, sendo as pessoas que relatam ter essas experiências diagnosticadas como portadoras de neurose obsessiva e transtorno da personalidade esquizotípica (segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais apud HOLANDA, 2004), porém, alguns autores descrevem que os sintomas apresentados por pessoas que se dizem paranormais podem ser devido a não aceitação, isolamento social e solidão, pois esses indivíduos não conseguem encaixar-se na sociedade em que vivem. Já a fenomenologia apenas observa esses comportamentos da maneira como acontecem, assim pode-se em um segundo momento tirar as conclusões de outros pontos de vista.

9. Disciplinas Voltadas À Religião Em Universidades

Algumas universidades, como a PUC-SP e a Universidade Católica de Brasília, que tem disciplinas voltadas ao estudo das religiões, para que os universitários possam saber lidar com diferentes adeptos durante seus trabalhos, o que se intensifica com quem escolhe ser psicólogo, pelo fato de que no pensamento de cada um existem questões religiosas (ou ausência delas) que interferem no modo das pessoas pensarem e se comportarem, além disso, aprendendo sobre os lados positivos de cada religião, os estudantes podem transformar-se em pessoas mais humanas e solidárias.

Percebe-se a necessidade das disciplinas religiosas serem empregadas nas demais universidades do país, para que os estudantes possam ter uma direção enquanto acadêmicos, e assim evitar muitos conflitos decorrentes do impacto de seus dogmas com suas regras profissionais.

10. Religiosidade Dos Estudantes De Psicologia

A Dra. Marta Helena de Freitas (2004, p. 97) enfatiza que os estudantes de psicologia tendem a querer ligar suas crenças religiosas com aquilo que estuda ao longo da universidade, porém, mais a frente se depara que “quando adquire status científico, o trabalho do psicólogo clínico não apenas se mostra independente da religião, como também se faz […] seu declarado rival.”

Existem diferentes maneiras de o estudante lidar com isso conforme avança pelo curso:

Há aqueles que procuram situar ambas em dimensões diferentes; outros que mantém a crença […] mas se tornam mais críticos em relação aos valores e dogmas […] outros que experimentam intensa ambivalência, […] alguns praticamente ‘substituem’ a crença em Deus ou na dimensão transcendente pela psicologia […] um bom número alega não experimentar conflitos […] e também um bom número […] sentem muita falta do cultivo a própria religiosidade […] (FREITAS, 2004, p. 98)

Porém, a pesquisa feita por Freitas com quatro estudantes de psicologia da UCB – Universidade Católica de Brasília demonstrou que, com uma religião bem vivida, bases sólidas e ligação harmoniosa a pessoa tem “maior força, propulsão e energia motriz […]”. A pesquisa confirmou que não é a ciência em si que afeta a religiosidade do indivíduo, mas a forma que ele assimilou sua religiosidade que enraíza mais ou menos o aspecto religioso em seu ser. Se a religiosidade for bem vivida o estudante se mostra mais resistente a depressão e maior controle interno.

Neste quesito, nota-se a importância da forma que os pais devem fazer a educação religiosa de seus filhos, que aprendam a evitar o medo que costumam empregar, evitando que desenvolvam até mesmo rebeldia em contraste com dogmas forçados. A religiosidade deve florescer e fazer parte do indivíduo, por isso não convém o mesmo vê-la como obrigação e julgamento.

11. Conclusão

Observa-se que a religião e a ciência podem ter certa ligação onde à religião dá sentido a vida, e isso pode ajudar o psicólogo a manter-se equilibrado diante dos casos atendidos. Porém, este deve saber manter suas opiniões e vivências pessoais fora do seu âmbito profissional, estando aberto para entender as diversas formas de pensamento dos seus pacientes.

Os estudantes do curso devem compreender que para serem bons profissionais devem ter o discernimento de usar apenas o lado bom da religião, humanitário e prestativo que procura ajudar o próximo da melhor forma, favorecendo a compreensão aos demais, e entendendo que, como ciência, a psicologia procura não misturar-se com a religião.

As discussões em torno do assunto existem há muito tempo, e continuarão sendo um atrito entre as duas, pelo fato de que enquanto alguns psicólogos defendem o afastamento, também muitos religiosos são contra essa união, sob a justificativa de que seria uma profanação de seus dogmas religiosos.

Sobre os Autores:

Andréia da Silva Soares - Estudante do curso de Psicologia – Faculdade Barão do Rio Branco

Antonio Anderson Gomes de Souza - Estudante do curso de Psicologia – Faculdade Barão do Rio Branco

Débora Braga da Silva - Estudante do curso de Psicologia – Faculdade Barão do Rio Branco

Jaqueline dos Santos Pardo - Estudante do curso de Psicologia – Faculdade Barão do Rio Branco

Orientadora: Selma Maria Souza Maranha - Mestre em psicanálise, Mestre em Ciência da Religião, bacharel em Teologia, Estudante do curso de Psicologia – Faculdade Barão do Rio Branco

Referências:

RIBEIRO, Jorge Ponciano. Religião e Psicologia. In: HOLANDA, Adriano (org). Psicologia, religiosidade e fenomenologia. [s.ed.] São Paulo: alínea, 2004. Cap. 1, p. 11-36.

ALMEIDA, Marcelo dos Santos, em entrevista realizada no dia 28/05/2012.

BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. A evolução da Psicologia. In: BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. 14ª ed. São Paulo: Saraiva, 2008. Cap. 2, p. 32 – 42.

CÓDIGO de Ética Profissional do Psicólogo. Disponível em: <http://www.psicomundo.com/brasil/cdigodeetica.html>. Acesso em 08/06/2012.

PAIVA, Geraldo José. Psicologias da Religião na Europa, Revisitadas. In: HOLANDA, Adriano (org). Psicologia, religiosidade e fenomenologia. [s.ed.] São Paulo: alínea, 2004. Cap. 2, p. 37 – 47.

MANUAL Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais apud HOLANDA, 2004. p. 67.

FREITAS, Marta Helena de. Modalidades de crença religiosa e desempenho na prova de Rorschach em estudantes de psicologia. In:  HOLANDA, Adriano (org). Psicologia, religiosidade e fenomenologia. [s.ed.] São Paulo: alínea, 2004. Cap. 6, p. 97 – 119.