William James nasceu em Nova York em 1842, e faleceu em 1910, em sua casa de campo na cidade americana de Chocoronua.

Entre 1865 e 1866, aos 23 anos, acompanhou o naturalista Louis Agassiz  na Expedição Thayer ao Brasil. Nos oito meses de estadia no país, passados principalmente no Rio de Janeiro e na Amazônia, James rascunhou um diário, e produziu desenhos de cenas da expedição, que expressam uma consciência crítica e um distanciamento moral da idéia colonialista que norteava a norteava.

Depois seguiu para a Alemanha e estudou filosofia na Universidade de Berlim, entre 1867 e 1868. No ano seguinte, conseguiu a graduação em medicina em Harvard, tornando-se professor de fisiologia e anatomia a partir de 1873, e depois, de psicologia e filosofia, na mesma universidade. Como filósofo, foi responsável por aquela que é considerada a maior contribuição americana à filosofia: o pragmatismo.

É possível dividir a obra de William James em dois momentos: um psicológico (que vai da década de 1870 à de 1890) e outro filosófico (a partir de 1890)

O primeiro período tem como marco inicial a criação de um pequeno laboratório de psicologia em 1875 na Universidade de Harvard; e o seu primeiro curso de psicologia, sobre “As relações entre a fisiologia e a psicologia”.

Nesse período o ponto culminante de sua produção teórica é a publicação, em 1890, após 12 anos de elaboração minuciosa, de O Principio de Psicologia. Nesse tratado (com mais de mil páginas) encontram-se as principais idéias de James sobre tópicos tais como o “hábito”, “atenção”, “fluxo de pensamento” e “self”.

James interroga os limites daquilo que é chamado de “self”, “eu”, “ego” (não faz distinção conceitual entre os termos), em oposição ao mundo circundante. Para James, o “eu” é apenas “o nome de uma posição”; uma espécie de perspectiva individual privilegiada a partir da qual o mundo é medido em suas distâncias. E ele concebe tais distancias em função das ações individuais sobre o ambiente. A consciência implica um tipo de relação externa; não é um tipo especial de substância ou de modo de ser.

James constrói uma noção de “eu” caracterizada por certa fluidez: sem limites estabelecidos previamente e com as referências básicas de tempo e espaço definidas em função de suas ações sobre o ambiente. (Ferreira e Gutman, 2005).

Em The Principles of Psychologie, James (1890) diz que a consciência não se apresenta para ela mesma, cortada em pequenos pedaços. Palavras tais como “cadeia” ou “sucessão” não a descrevem adequadamente, tal qual ela se apresenta em primeira instância. Ela não é algo agregado; ela flui. Um “rio” ou um “fluxo” são as metáforas pelas quais ela é mais naturalmente descrita.

A consciência teria como propriedades básicas: a pessoalidade; o seu aspecto mutante; a continuidade; a referência aos objetos; o seu aspecto seletivo.

Sobre “hábito” há três tópicos principais: primeiro o destaque dado a sua base física ou neurofisiológica e sua participação tanto nos limites do aprendizado de novos hábitos como a modificação de hábitos antigos; segundo, a apresentação do hábito como uma versão possível das ações adaptativas de um organismo em referência a um meio; terceiro, a possibilidade de alteração dos hábitos pela ação voluntária e os efeitos éticos-morais a ela correspondentes.. (Ferreira e Gutman, 2005).

James diz que o hábito adquirido, do ponto de vista fisiológico, é nada mais do que uma nova via de descarga formada no cérebro pela qual, desde então, certas correntes aferentes tendem a seguir. Ele revela a posição darwiniana ao destacar a utilidade adaptativa do hábito; e a importância para um organismo da aquisição e manutenção da habilidade, ou capacidade de fazer a atenção consciente repousar. Deixando a cargo do habito toda uma série de atividades mais ou menos cotidianas ou banais, embora fundamentais à manutenção da vida diária, o organismo reserva à vida mental, plenamente consciente, outras tarefas e esforços.

Ferreira e Gutman (2005) destacam que os conceitos de self, fluxo de pensamento e hábito fornecem indicações teóricas suficientes para a sustentação da importância de James para o funcionalismo. Na obra de James o foco está sempre colocado sobre a função e não sobre as supostas “propriedades” de um organismo dotado de psiquismo. Em sua perspectiva, o que o organismo é ou deixa de ser, decorre das funções que exerce e das interações com um dado ambiente.

O pragmatismo de William James 

Para James o pragmatismo seria primeiramente um método, e em segundo lugar, uma teoria genética do que se entende por verdade. Em seu primeiro sentido significa a atitude de olhar além das primeiras coisas, dos princípios, das “categorias”, das supostas necessidades; e de se procurar pelas últimas coisas, frutos, consequências, fatos. O pragmatismo atuaria de forma a extrair de cada palavra o seu valor de compra prático, pô-la a trabalhar dentro da corrente da experiência. Desdobra-se como um programa para mais trabalho, e mais particularmente como uma indicação dos caminhos pelos quais as realidades existentes podem ser modificadas. As teorias tornam-se instrumentos e não respostas aos enigmas, sobre os quais se pode descansar.

William James creditou a origem do termo pragmatismo a Charles Peirce (1839-1914). Mas para Peirce o pragmatismo visava apenas extrair as “regras de conduta”, ou ações presentes nos diversos conceitos. Sendo assim, a primeira forma do pragmatismo estava ligada à noção de verdade como consenso último de todos os preocupados na busca da verdade. A realidade, portanto, seria o objeto resultante dessa opinião partilhada. Para James, representava o estudo das modificações na experiência trazidas pelas teorias, em especial as metafísicas e religiosas. 

Da perspectiva de James, as teorias filosóficas serviriam como meio de orientar a pesquisa para os seus resultados finais e não para os seus princípios. Desse modo, também as teologias seriam passíveis de ser consideradas verdadeiras. O critério de verdade pragmático seria aquele que permite adaptar o que se tem por verdadeiro com cada aspecto da existência, em relação com todas as outras experiências vividas, formando um todo orgânico. Assim, as diversas crenças que compõem a mente de uma pessoa teriam reduzidas suas divergências, a ponto de se aproximarem ciência e religião, nos casos mais extremos. “O pragmatismo de James, em sua característica funcionalista, tornava a função de verdade subjetiva e sua justificação da religião voltada à satisfação pessoal de cada um.” (Silva, 2008).

(...) Se as idéias teológicas provam que têm valor para a vida concreta, são verdadeiras, pois o pragmatismo as aceita, no sentido de serem boas para tanto. O quanto serão verdadeiras, dependerá inteiramente de suas relações com as demais verdades, que têm também, de ser reconhecidas (JAMES, W. Pragmatismo, II conferência, p. 44-45).

Ainda que o objeto da psicologia se assemelhe bastante ao da psicologia alemã, a experiência passa a ser vista a partir de uma nova questão (a adaptação), através de métodos diversificados que fogem da introspecção controlada.