Segundo Ariés (1991) o surgimento da imprensa proporcionou uma das experiências mais decisivas da modernidade: a difusão da leitura silenciosa. O século XVI vê surgirem diversos personagens, reais ou fictícios, donos de um “mundo interno” rico e profundo. Leonardo da Vinci, Dom Quixote, Hamlet. A leitura silenciosa possibilita que se escape ao controle da comunidade e cria um diálogo interno que desenvolve a construção de um ponto de vista próprio.

No século XVI surgiram tentativas de conter e circunscrever as ações dos homens. A Igreja Católica e as novas igrejas Protestantes (Luteranos e Calvinistas) fizeram um esforço enorme em articular a crença em um Deus onipotente e o livre-arbítrio humano. Entre a Reforma e a Contra-Reforma vão nascendo tanto a individualidade quanto os modos de controle do indivíduo.

Figueiredo (2002) diz que os movimentos de Reforma e Contra-Reforma e a efervescência política e cultural dos fins do renascimento geraram um estado de instabilidade social caracterizada pela eclosão de uma série de guerras de consciência, a lenta, mas firme, elaboração de teorias e dos dispositivos do Estado Absolutista responde à demanda de ordem e coesão social emergente do caos das lutas políticas e religiosas. “Os monarcas conquistaram progressivamente o monopólio da força e terminara por obter – ou extorquir – de seus súditos, ou da maioria deles, uma obediência mais ou menos consentida” (Figueiredo, 2002, pág. 106).

Figueiredo (2002) diz que esse consentimento pressupunha a resolução das contradições entre os imperativos de uma consciência individual relativamente amadurecida e as exigências de uma cega obediência à autoridade. O súdito estava submetido a dois regimes inconciliáveis de culpabilização: ou podia se tornar culpado diante do rei, quando aderia às razões interiores; ou diante de si mesmo, quando se curvava às razões do Estado. A resolução desta contradição encontrou uma forma típica na crescente cisão entre as esferas da privacidade particular e as da publicidade comum. No campo da privacidade (negócios particulares, relações domésticas, convicções éticas e religiosas, etc.) há uma garantia de liberdade sob um regime de tolerância moderada e vigiada. No campo público, o das ações políticas, imperam a ordem absolutista e a obediência ao soberano.

Figueiredo (2002) diz que Thomas Hobbes é o grande teórico desta separação entre o interno e o externo, entre os domínios da consciência e os domínios da ação. O homem em Hobbes vem dividido numa metade privada e numa metade pública: as ações e as obras são incondicionalmente subordinadas às leis do Estado, as opiniões, ao contrário, são livres ‘em segredo’. Mas nessa condição, o próprio campo da consciência era atravessado por uma contradição interna: era o campo da liberdade, das possibilidades, mas era também o campo da privação. E há segundo Figueiredo (2002), nessa dupla e contraditória valoração da privacidade/privação um germe do desenvolvimento subseqüente da filosofia política e do movimento cultural que marcou o século XVIII na Europa.

No decorrer do século XVIII difundiu-se, principalmente na França e na Inglaterra, um conjunto de idéias opostas ao absolutismo dos reis e ao misticismo religioso. O Iluminismo foi um movimento que sacudiu a Europa e se caracterizou pela valorização da ciência e da racionalidade como forma de eliminar a ignorância humana acerca da vida em sociedade.

A trajetória da cultura ocidental setecentista, segundo Figueiredo (2002), passa pela consolidação da autonomia relativa das duas esferas, pelo fortalecimento da esfera da privacidade em todas as dimensões da vida social e pelas variadas formas de ‘exteriorização’ do privado. A conquista dos espaços e meios de publicidade por parte daquilo que estava privado dos meios legítimos de representação e expressão ganhará contornos mais ou menos disruptivos dependendo das conjunturas políticas e sociais em que se processava o desenvolvimento cultural.

Referencias:

Figueiredo, Luis Cláudio. A invenção do Psicológico – quatro séculos de subjetivação: 1500-1900. São Paulo: Escuta, 2002.

Ferreira, A. A. L. O Múltiplo Surgimento da Psicologia. In: Jacó - Vilela, A. M.; Ferreira, A. A. L.; Portugal, F. T. (orgs.). História da Psicologia: rumos e percursos. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2005.

Abrão, Bernadette Siqueira. História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural Editora, 2004.

Ariés, Philippe. História da Vida Privada. Companhia das Letras, 1991.

Figueira, D. G. História. São Paulo: Ática, 2005.

Figueiredo, L.C. e Santi, P.L. R. Psicologia: uma (nova) introdução. São Paulo: EDUC, 2004.