Resumo: A autora, através dos recursos utilizados no filme Eu, Christiane F. -13 anos- Drogada e Prostituída, propõe uma análise do comportamento adolescente da década de 70 em analogia com a contemporaneidade. Fundamentada em Freud, Eric Erikson, Peter Bloss, Arminda Aberastury e Maurício Knobel, discute as manifestações das várias identidades criadas pelo adolescente, procurando o esclarecimento à suas sintomatologias bem como a maneira de se ver e tratar o adolescente diante de suas transformações.
Palavras-chave: Adolescência, conflitos, drogas, satisfação, moratória social, individuação e mal estar na civilização.

Introdução

Na década de 70, a Alemanha Ocidental era um país de primeiro mundo, superindustrializada e considerada o espelho do Capitalismo. Não existiam mendigos nem famintos, mas o número absurdo de crianças e adolescentes que dormiam na rua, se drogavam e se prostituíam tornou-se um fenômeno ao qual a sociedade estava cética e pouco interessada. Por que tantos menores eram por ela ignorados? O que os levou a se tornarem um “lixo social”? Seria a família de pais violentos, alcoólatras, “trapaceiros” e abandonadores? O lar sujo, sombrio, desumano, sem nenhuma higiene, conforto e lazer? Enfim, o preço do crescimento capitalista era deixar que o futuro dessa sociedade em “evolução” morresse antes mesmo dos 20 anos.

Que motivos tem a sociedade para não modificar as suas rígidas estruturas, para empenhar-se em mantê-las tal qual, mesmo quando o indivíduo muda? Que conflitos conscientes e inconscientes levam os pais a ignorar ou a não compreender a evolução do filho? O problema mostra assim o outro lado, escondido até hoje debaixo do disfarce da adolescência difícil: é o de uma sociedade, às vezes, frente à onda do crescimento, lúcida e ativa, que lhe impõe a evidência de alguém que quer atuar sobre o mundo e modifica-lo sob a ação de suas próprias transformações. (ABERASTURY, 1981, p.16).

A Adolescência

O adolescente é um ser social e individual, que possui suas dúvidas, angústias e desejos. Quer ter a liberdade de sentir amor e ódio, dependência e independência. Quer mostrar que sabe das coisas e busca aprender mais e mais. Quer construir sua própria família um dia, sem deixar de ter seus pais ou simplesmente quer aproveitar a vida da forma mais normal e naturalmente possível.

Para Erikson “a adolescência é um período fundamental no desenvolvimento do eu, já que as mudanças físicas, psíquicas e sociais levarão o adolescente a uma crise de identidade cuja resolução contribuirá para a consolidação da personalidade adulta” (ERIKSON apud CALL, 2004 p.313). Com relação a estas crises, Erikson dirá que elas se originam do contato social, primeiro com a família, que é a mais próxima e a que mais facilmente terá influências na conduta do adolescente e, em seguida, a sociedade em si, que intervém muito na sua conflitiva.

A sociedade, mesmo manejada de diferentes maneiras e com diferentes critérios sócio-econômicos, impõe restrições à vida do adolescente. O adolescente, com a sua força, com a sua atividade, com a força reestruturadora da sua personalidade, tenta modificar a sociedade que, por outra parte, está vivendo constantemente modificações intensas. Tendo consciência da alteração que significa o que afirmo, é possível dizer que se cria um mal-estar de caráter paranóide no mundo adulto, que se sente ameaçado pelos jovens que vão ocupar esse lugar e que, portanto, são reativamente deslocados. O adulto projeta no jovem a sua própria incapacidade em controlar o que está acontecendo sócio-politicamente ao seu redor e tenta, então, deslocalizar o adolescente. (ABERASTURY, 1981, p.53).

O mundo adulto hostiliza o adolescente em virtude de todas essas situações conflitivas que ele passa, transferindo para àquele uma atitude paranóide e moralista. Assim, se para nós, adultos “construídos” já é difícil manter a moratória imposta sobre nossos desejos, que dirá para um adolescente em formação, que quer liberar toda sua energia e seus desejos.

Peter Bloss nos mostra que a adolescência é uma fase na qual ocorrerá um segundo processo de individuação, ou seja, em vez de os pais se aproximarem emocionalmente dos seus filhos, eles irão se distanciar, dando espaço para que possam se aproximar aos iguais e criar seus vínculos afetivos. Se as figuras parentais estão internalizadas e incorporadas à personalidade do sujeito, então este pode começar seu processo de individuação.

Com base no desenvolvimento do eu e a crise de identidade de Erikson e a individuação e o processo de construção da identidade de Bloss, tentaremos trazer a luz o fenômeno punk da Alemanha dos anos 70, retratado no filme Eu, Cristiane F. -13 anos- Drogada e Prostituída.

O Filme

Christiane Vera Felscherinow, uma adolescente normal e comum, feriu o orgulho capitalista alemão quando trouxe à tona a sua história e a de muitos outros adolescentes e crianças que se prostituíam para sustentar seu vício de heroína.

Christiane cresceu em um bairro pobre, em meio a um ambiente violento. Seu pai era muito agressivo e também alcoólatra. Como forma de compensação dos terríveis momentos que passara na presença de seu pai, sua mãe lhe deu uma vida sem regras, sem responsabilidades.

A Sound era a boate mais badalada em Berlim e Christiane era fascinada em conhecê-la. Para poder entrar na boate, aos 13 anos, com ajuda de sua amiga, Kessi, falsificou a data de nascimento em sua carteira escolar. Lá, Kessi lhe apresentou seu namorado, Mich. Ele já era um dependente de drogas pesadas e morreu meses depois. Foi na Sound que Christiane conheceu seus amigos Axel, Babsi, Atze, Zambie, Stella e seu futuro namorado, Detlef. Atze só falava em drogas e nas melhores formas de “voar”. Concordavam entre si quando viam a Heroína como um suicídio. Ninguém a havia experimentado, mas sabiam que usando uma vez não a largariam mais.

Christiane vivia num mundo errado, com os amigos errados, mas não podia mudar em nada esta situação. Por falar em amigos, eles não possuíam fidelidade entre si, não possuíam vida. Estavam ligados pelas drogas, somente.

Babsi, 14 anos, tornou-se manchete de jornais por ter sido a mais jovem vítima da Heroína. Era filha adotiva de um famoso pianista alemão e aos 13 anos já era viciada, prostituída e já havia sido espancada e estuprada por bêbados. Quando Babsi morreu, Christiane nem se sensibilizou tanto, pois já esperava algo assim pra quem usa heroína. Pouco tempo antes, elas tinham combinado em deixar o vício.

Christiane inalou heroína pela primeira vez após assistir ao show de David Bowie, seu grande ídolo. A comparação, feita por Atze, da sensação de um orgasmo induziu-a a injetar heroína, tempos depois.

O zoológico era um lugar de pessoas deprimentes e acabadas. Cada jovem que ali se encontrava não tinha mais nada que o assemelhasse a um adolescente normal, nem física, nem mentalmente. Esqueciam-se de sua própria existência e a presença de iguais já não significava nada. Eram vistos como a fruta podre da sociedade, esquecidos e ignorados. Os pais sempre foram figuras ausentes. Todos esses jovens vinham de lares desfeitos por separações, violência doméstica, alcoolismo e drogas.

Análise

Diante desse relato é muito difícil situá-los na busca de um eu, de uma individuação. Seria muito reducionista considerar que o problema da adolescência está somente na sua relação consigo e com os pais, excluindo a sociedade. Em relação ao filme, enquanto as crianças e adolescentes se acabavam na prostituição, na marginalidade e nas drogas dos subúrbios alemães, nada era feito para que este quadro mudasse. Muito pelo contrário, essa situação revelava uma imagem deturpada destas vítimas como sendo os rebeldes, problemáticos, detestáveis e desprezados.

A sociedade surge ao determinar que os pais não podem ser um objeto sexualmente aceito (atos incestuosos). Dessa forma, o adolescente vai procurar no outro a oportunidade de liberar estes desejos de maneira que o assemelhe a seus pais. Freud nos dirá que este processo se dará através da transição dos desejos infantis aos desejos genitais. Mas, para que o adolescente encontre este objeto de amor, ele precisará elaborar o luto pelos pais. Caso isso não ocorra, seu processo evolutivo ficará em atraso. O ego, neste momento, encontra-se na posição de defesa, contra os impulsos inconscientes do id. Se eles não conseguem escapar à realidade, sua carga será voltada para outras atividades que irão liberar a sua energia. Neste caso, a compensação desses desejos estará na busca do prazer por outros meios. Poderíamos dizer, portanto, que a entrega às drogas seria uma compensação, de uma falta. Uma busca de um prazer proibido pelos pais, pela sociedade pela moratória social.

No caso de Christiane, a busca do prazer nas drogas a tornou dependente de uma satisfação orgânica. O uso de drogas deu a ela um prazer “inacabável”, enquanto o organismo estava em transe. Era uma sensação individual que ela não encontrava no mundo externo.

O adolescente, da década de 70, que procurou o prazer nas drogas e no álcool, brigou com seus pais, criticou a religião ou foi um extremista cristão, é o adolescente de hoje, que também é reprimido e também passa naturalmente por suas mudanças.

Poder aceitar a anormalidade habitual no adolescente, vista desde o ângulo da personalidade idealmente sadia ou da personalidade normalmente adulta, permitirá uma aproximação mais produtiva a este período da vida. Poderá determinar o entender o adolescente desde o ponto de vista adulto, facilitando-lhe seu processo evolutivo rumo à identidade que procura e precisa. Somente quando o mundo adulto o compreende adequadamente e facilita a sua tarefa evolutiva o adolescente poderá desempenhar-se correta e satisfatoriamente, gozar de sua identidade, de todas as suas situações, mesmo das que, aparentemente, têm raízes patológicas, para elaborar uma personalidade mais sadia e feliz. (ABERASTURY, 1981, p.59).

Concluo com a ideia de que, quebrar estas projeções do passado seria um ótimo começo para a facilitação da relação entre gerações diferentes e para a evolução dessa e de outras gerações que virão. Mesmo sabendo que um sofrimento longo e árduo de um indivíduo não desapareça instantaneamente acredito que, paulatinamente, os indivíduos vão se localizando, encontrando-se a si mesmos neste espaço e este encontro permitirá um primeiro e novo encontro do adolescente com sua personalidade.

Sobre o Autor:

Elisângela Maria dos Santos Silva - Aluna do 3° Período de Psicologia da Faculdade do Vale do Ipojuca- FAVIP- Caruaru P.E.

Referências:

Eu, Cristiane F.-13 anos- drogada e prostituída. Direção: EDEL, Ulrich,  Flashstar Home Vídeo,1981.

FREUD, Sigmund; (1929). Mal-estar na civilização. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. vol. XXI.

ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Maurício. Adolescência Normal: um enfoque psicanalítico.  Porto Alegre: Artmed, 1981.

COLL, César et al. Desenvolvimento psicológico e educação: psicologia evolutiva. 2 ed. Vol.1 Ed. Artmed, 2004.