Resumo: A partir de uma pesquisa feita com jovens de 12 anos de classe média-alta da cidade de São Paulo para uma dissertação de mestrado, concluí que, na atualidade, parece haver uma falta de sincronicidade entre aspectos biológicos, psicológicos e sociais no início da adolescência feminina. A puberdade chega cada vez mais cedo, modificando o corpo rapidamente, mas as mudanças emocionais não avançam na mesma rapidez que as físicas. Frente às pressões internas, biológicas, que ocorrem cada vez mais cedo, e as pressões externas, sociais, que traduzem-se, entre outros fatores, por uma valorização exacerbada da sexualidade e da aparência na sociedade contemporânea, as adolescentes parecem estar vivendo um momento de muita fragilidade, baixa auto-estima e solidão.

Palavras-chave: Desenvolvimento Humano, Adolescência, Feminilidade.

1. Introdução

As transformações físicas da adolescência recebem o nome de puberdade, e a maior parte delas ocorre no final da infância e início da adolescência. Nas mulheres, esse processo tem início, atualmente, por volta dos nove anos, com a preparação do corpo para a reprodução. Uma glândula situada na base do cérebro, chamada hipófise, produz dois hormônios que se relacionam com o desenvolvimento pubertário: o hormônio do crescimento, que influencia a determinação do tamanho da jovem, e o hormônio gonadotrófico, que estimula a atividade das gônadas, isto é, as glândulas sexuais, no caso da mulher os ovários. 

 Os ovários então amadurecem e passam a produzir óvulos, bem como os hormônios que ocasionam as mudanças sexuais no crescimento e desenvolvimento dos órgãos sexuais (útero, trompas de Falópio e vagina) e as características sexuais secundárias: aumento e arredondamento dos quadris, desenvolvimento dos seios, aparecimento dos pelos pubianos e axilares, mudança na voz, arredondamento dos ombros e a definição das formas de braços e pernas.

O surto de crescimento da puberdade começa um ano ou dois antes que os órgãos sexuais amadureçam, e depois disso dura de seis meses a um ano. Nas meninas começa entre 8,5 e 11,5 anos, com um pico de rapidez que ocorre em média aos 12,5 anos declinando depois disso  até parar por volta de 15 a 16 anos.

O crescimento em altura segue um padrão regular e geralmente precede o aumento de peso. Em cerca de três anos, até um ano depois da puberdade, a menina ganha em média 17 quilos. Nessa fase, a cabeça cresce lentamente em relação ao resto do corpo, a testa se torna mais alta e larga, o nariz cresce rapidamente, a boca se alarga, os lábios tornam-se mais cheios e o queixo mais pronunciado; desenvolve-se a linha da cintura, ombros e quadris se alargam, os braços e as pernas se alongam e tornam-se mais moldados, em consequência dos depósitos de gordura; além disso, há o desenvolvimento dos seios, o aparecimento dos pelos púbicos, axilares, faciais e nos membros; também ocorrem mudanças na voz, e na cor e textura da pele.

Ocorrem mudanças também nos órgãos internos, nos sistemas digestivo, circulatório, endócrino e respiratório; os ovários e o útero crescem e amadurecem rapidamente. Acompanhando essas mudanças, vem o sangramento menstrual cíclico ou menstruação. Em nosso meio, a menarca, primeira menstruação, ocorre por volta dos 12 anos.

Toda essa descrição visa salientar o fato de que em nenhum outro momento do desenvolvimento, a não ser no primeiro ano de vida, acontecem tantas mudanças físicas em tão pouco tempo quanto nesse estágio inicial da adolescência, (dos 10 aos 14 anos), e, por isso, este é um período extremamente importante e conturbado do desenvolvimento, vivido com um pouco mais de tranquilidade se as mudanças corporais e psicológicas caminharem juntas.

 Do ponto de vista do desenvolvimento feminino, não é assim que tem acontecido. Pesquisas recentes mostram que a puberdade está começando cada vez mais cedo nas meninas. Alguns estudos mostram que há uma tendência geral nos países ocidentais à antecipação da menarca com o correr dos anos; em média, a cada 10 anos, a menarca se antecipa de quatro meses.

Acredita-se que os cuidados com a nutrição e a saúde tem modificado a estrutura biológica das pessoas, aproximando-as de seus potenciais genéticos ótimos, causando um início mais precoce da puberdade. Alguns autores levantam a hipótese também de que alguns fatores culturais podem intervir de maneira importante na precocidade da maturidade sexual, como, por exemplo, o erotismo na publicidade, na literatura e nos filmes.

O fato é que, até o século XIX, as mulheres menstruavam pela primeira vez aos 17 anos. Neste século elas menstruam, em média, aos 12 anos. A menarca, mais do que resultado de um conjunto de mudanças físicas, é um acontecimento que, em muitas culturas, demarcava uma passagem, fazendo com que a jovem, a partir de então, tivesse outro status social dentro de sua comunidade. Nessas culturas, eram comuns os ritos de passagem, onde a jovem, se por um lado adquiria novas responsabilidades, muitas vezes já sendo considerada apta a casar e formar uma família, tinha, por outro lado, um modelo claro de comportamento pelo qual se pautar. Essa designação de um papel e status novo oferecia à adolescente uma autoimagem definida e vinculada ao grupo.

Em contraste com essas culturas, a moderna sociedade ocidental eliminou progressivamente esses rituais. Até poucos anos atrás, por exemplo, ainda era comum usar-se o termo “ficar mocinha” quando a menarca acontecia, significando que a jovem era reconhecida em sua identidade sexual e capacidade procriativa.

Nos dias de hoje, será que a menina vira “mocinha” quando tem a menarca? Essa foi uma das questões que foram investigadas ao entrevistar 20 meninas de 12 anos para uma pesquisa de mestrado sobre a entrada das garotas na adolescência.

A primeira surpresa foi observar que essas garotas, que são de classe média-alta da cidade de São Paulo, tinham menstruado pela primeira vez, em sua maioria, aos 11 anos, e não aos 12, como seria esperado pelos dados de literatura, levando-nos a pensar que em condições ótimas de alimentação e acesso à informação, a menarca esteja começando ainda mais cedo.

A segunda constatação, não tão surpreendente, é que a menstruação não era esperada pelas garotas quando aconteceu, e nem desejada, por vários motivos: algumas queriam crescer mais fisicamente (ser alta faz parte do padrão de beleza ideal moderno, e elas sabiam que, ao menstruar, não cresceriam muito mais), outras tinham ouvido falar do incômodo de trocar absorventes e das cólicas, e outras ainda se achavam  muito crianças, e ficar menstruadas significava entrar em outra fase da vida que não sentiam-se preparadas para entrar. Como disse Paula, uma delas:

Eu rezava “tomara que eu não menstrue”. Porque todo mundo fala que você começa a menstruar e para de crescer, e eu queria crescer bastante. Quero ficar mais alta ainda. Aí eu pensava “espero que venha lá pelos 13, pra eu crescer bastante”.

Apenas uma disse ter ficado feliz com a chegada da menarca, "apesar de ser um saco", por ser um "sinal de amadurecimento".

Apesar de terem informações sobre a menstruação, não sabiam muito bem o que fazer quando esta veio, não tinham certeza do que se tratava, pois as informações se superpunham à angústia e ao estranhamento que o assunto provocava nelas.

 Vejam o depoimento de Silvia: “Eu tinha 11 anos quando veio. Não sabia de nada. Das minhas amigas, ninguém tinha ficado. E eu não contei pra ninguém, eu tava no acampamento. Eu fiquei, não sabia o que era. Só depois eu contei pra duas amigas. Não consegui falar com a minha mãe, aí liguei pra minha avó. Chamei a monitora. Depois fui descobrir que outras ficaram na mesma época que eu e não tinham falado nada, que nem eu.”

Essas descrições da solidão vivida no momento da menarca nos revelam que esta parece ter realmente perdido o significado de ritual de passagem, vivido como um acontecimento social, pois significa para as meninas uma saída da infância, mas não uma entrada na adolescência. Como disse Dani.: Eu era muito criança, brincava, queria ficar mais velha antes de vir…..Foi mais um peso pra mim pra carregar, pra tomar providências.

Essa sensação de não estar pronta é confirmada pelo fato de que, das que não haviam menstruado, nenhuma delas desejar que acontecesse logo. Sabiam que iria acontecer, mas quanto mais tarde, para elas, melhor. Uma delas sentia-se preocupada e assustada com a primeira vez. Temia que a mãe não estivesse por perto, embora já houvesse explicado o que fazer.

Essas informações nos revelam que, na atualidade, parece haver uma falta de sincronicidade entre aspectos biológicos, psicológicos e sociais no início da adolescência feminina. A menarca, quando chega, toma as garotas de surpresa, mesmo quando elas estão informadas a respeito de seu significado. É um acontecimento  não compartilhado nem com a família nem com amigos. Vemos então como as jovens vivem hoje, solitariamente, o que antes era vivido socialmente, com os ritos pubertários, e, sem esse tipo de reforço do grupo social, a autoimagem da adolescente perde clareza e coesão.

Além da solidão, a menarca chega antes de ser aguardada como sinal de feminilidade, e, talvez principalmente por isso, desperta constrangimento e incômodo. Consequentemente, nem perante o grupo nem perante a si mesmas ela tem, para a maioria, o significado de ritual de passagem.

As garotas sentem, no entanto, que estão deixando para trás um corpo e identidade infantis, e oscilam entre querer crescer e querer permanecer criança. Esse desejo de permanecer criança aparece muito claramente no depoimento de Ligia:  “As vezes eu queria até ter 8 anos. Sei lá, acho que me sentia mais livre pra brincar. O pessoal da minha idade não gosta dessas coisas. Eu gosto. Se tiver alguém pra brincar, jogar queimada, por exemplo, eu vou. Às vezes eu sinto falta disso. Os meninos da minha classe se acham muito grandes, uns adultos, as meninas também. Acho que cresceram rápido demais! Às vezes eu falo pra minha mãe que eu queria ter nascido naquela época, anos 60. As crianças se preocupavam menos. Hoje a gente sabe muito, demais, depressa demais. A gente sabe as coisas, a infância passa rápido! As crianças de antigamente não eram assim, elas brincavam muito mais.”

Temos visto com frequência reportagens na mídia que tratam desse tema, as possíveis mudanças que estariam ocorrendo no comportamento das garotas. Elas estariam adotando, cada vez mais cedo, modelos adultos de comportamento e preocupações que antes apareciam mais tarde, como, por exemplo, a relativa ao aspecto físico, ao mesmo tempo que estão deixando de brincar mais precocemente. É interessante que, ao mesmo tempo que sentem-se despreparadas para assumir um status de adolescente com a chegada da menstruação, também não se permitem mais brincar livremente e buscam , no modelo de aparência e no comportamento dos adultos, um lugar de pertinência social. Temos então uma contradição entre uma garota que já menstrua, tem uma aparência e um comportamento mais próximos do adulto do que da criança, mas internamente sente-se uma criança, muitas vezes frágil e desamparada.

Vemos aí o descompasso. A aparência corporal, devido à antecipação da puberdade, mostra um corpo com contornos femininos cada vez mais cedo, confundindo os outros quanto à existência de uma correspondente maturidade psicológica, que não existe ainda. Além disso, vivemos num contexto social onde há extrema valorização do corpo feminino adulto, símbolo de status e poder, desde que dentro dos padrões de beleza atuais, isto é, o corpo perfeito, magro e alto, irreal para a maioria das pessoas, principalmente as adolescentes, em fase de intensas mudanças corporais.

O corpo, em nossa sociedade, é também muito erotizado. Cenas de estímulo à excitação sexual são cada vez mais comuns nos meios de comunicação, trazendo como modelo a sexualidade adulta. Vivendo uma crise de identidade, a adolescente possui um terreno fértil para sofrer induções e sugestões de toda ordem.

Tudo isso é fonte de muita angústia para as jovens, que sofrem com sua aparência física. Elas estão muito atentas ao que consideram desarmonias e assimetrias do próprio corpo, e isso as preocupa bastante. São frequentes os relatos de jovens que não se acham bonitas por se considerarem um pouco acima do peso, ou que acham que, para estar bela, é preciso consumir os produtos oferecidos pelos meios de comunicação. São reveladores de uma fragmentação do corpo, e da dificuldade de enxergar-se de uma maneira mais inteira e real.

Ao se defrontarem com modelos geralmente fora dos padrões de normalidade e sem um apoio social consistente, as jovens, que já lidam com as dificuldades intrínsecas de possuir um corpo em transformação, tendem a ter um auto-conceito rebaixado.

Pode-se afirmar que esse grupo pesquisado é pequeno, mas os resultados vão de encontro à  pesquisa realizada com 580 adolescentes do sexo feminino, coordenada pela Divisão de Psicologia do Instituto Central do Hospital das Clínicas (2001),  que revelou  que 80% das adolescentes  não gostam da própria aparência e 50% procuram dietas porque acham que são gordas. Uma das conclusões desse trabalho é que a motivação para a dieta não estava relacionada com a atual forma física delas, mas pela busca de um corpo ideal.

Vários autores apontam que, do ponto de vista psicológico, as adolescentes têm que realizar dois movimentos essenciais, nesse momento do desenvolvimento, para a organização de suas identidades: elaborar as mudanças que ocorrem em seu corpo e responder às exigências sociais que se colocam a elas nesse percurso.

Frente às pressões internas, biológicas, que ocorrem cada vez mais cedo, e às pressões externas, sociais, que traduzem-se, entre outros fatores, por uma valorização exacerbada da sexualidade e da aparência, as adolescentes parecem estar vivendo um momento de muita fragilidade e solidão. A puberdade começa cada vez mais cedo, as meninas querem ter um corpo adulto rapidamente, muitas começam a ter experiências amorosas, mas o que observamos é que, psicologicamente, mostram-se ainda bastante imaturas no início da adolescência, sem conseguir dar conta de todas essas pressões.

Isso nos remete ao nosso papel como pais, professores, profissionais ou simplesmente membros dessa sociedade ocidental contemporânea. É certo que a adolescência  é sempre uma fase de conflitos e incertezas e que cada época tem seus padrões de beleza, mas o que temos visto, na contemporaneidade, é uma intensa valorização do corpo físico, da aparência, do consumismo, do “ter” sobre o “ser”. Isso empobrece os sujeitos psiquicamente e dificulta a organização da identidade, tarefa primordial da adolescência.

Não é possível alterar os padrões de antecipação da menarca, mas é possível cuidar melhor de nossas adolescentes, em primeiro lugar compreendendo os conflitos que vivem na atualidade. Quanto mais  compreendemos os problemas que as jovens enfrentam a cada etapa, melhor equipados estaremos para oferecer ajuda.

É importante que as jovens sintam-se valorizadas e reconhecidas como são, em transformação, com alguns comportamentos mais infantis e outros mais amadurecidos. É preciso que reconheçamos seus medos e sua solidão, para mostrar-nos próximos. Ao mesmo tempo  que é necessário apoiá-las no seu crescimento, aumentando suas responsabilidades e sua inserção na comunidade, é preciso perceber que não são adultas, e, portanto, não se deve incentivá-las a vestir-se e portar-se como tais.

Em segundo lugar, é preciso lutar por uma sociedade menos centrada na aparência e no consumismo, e mais inclusiva,  onde haja um lugar e importância social para todos, inclusive para a menina que deixa a infância e caminha para a adolescência.

Sobre o Autor:

Viviane Namur Campagna -  psicóloga clínica desde 1982, atendendo crianças, adolescente e adultos. Mestre em Psicologia do Desenvolvimento Humano pelo Instituto de Psicologia da USP , é autora de “A identidade feminina no início da adolescência, (2005, Casa do Psicólogo/Fapesp)”. Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

BLOS, Peter. Adolescência, uma interpretação psicanalítica. Ed Martins Fontes, 1995.

CAMPAGNA, Viviane Namur. A Identidade Feminina no Início da Adolescência. Ed. Casa do Psicólogo /Fapesp, 2005.

KUCZINSKI, E; ASSUMPÇÃO, Francisco Júnior. Adolescência Normal e Patológica. Ed Lemos, 1998.

LEVISKY, David Leo. Adolescência, Reflexões Psicanalíticas. Ed Artes Médicas, 1995.

SHALE, Erin; CARR-GREGG, Michael. Criando Adolescentes. Ed Fundamento, 2003.