Jean Piaget foi um biólogo suíço que viveu entre os anos de 1896 e 1980. Durante seus 84 anos de idade, interessava-lhe desvendar como acontece e como se processa o conhecimento lógico-abstrato do homem, desde o início da sua vida até a idade adulta. Preocupou-se com o rigor científico de seus trabalhos, trazendo uma série de livros e artigos produzidos a fim de construir uma teoria do conhecimento baseada na biologia e em que as especulações filosóficas estivessem embasadas na pesquisa empírica, culminando, então, no que hoje se conhece como uma psicologia do desenvolvimento.

Ele sustenta que o conhecimento não procede nem da experiência única dos objetos nem de uma programação inata pré-formada no sujeito, mas de construções sucessivas com elaborações constantes de estruturas novas (PIAGET, 1976). Dessa forma, o processo evolutivo das características genéticas do homem tem uma origem biológica que é ativada pela ação e interação do organismo com o meio ambiente - físico e social - que o rodeia, existindo uma relação de interdependência entre o sujeito conhecedor e o objeto a conhecer. (TERRA)

As relações de troca do homem com o meio ocorrem mediante um processo de adaptação. Piaget utiliza esse termo para designar o processo de como o ser humano em desenvolvimento lida com novas informações que vão de encontro com o que ele já havia esquematizado. Possui duas etapas: acomodação e assimilação, que atuam juntas para que haja equilíbrio e crescimento cognitivo no desenvolvimento do homem.

A acomodação refere-se às mudanças em um sistema de esquemas de um indivíduo a fim de incluir novas informações. A estrutura se modifica em função do meio e de suas variações. A assimilação implica uma integração de informações novas a uma estrutura anterior, ou mesmo a constituição de uma nova estrutura sob a forma de um esquema, num processo de adaptação ao meio. Representa um processo contínuo, já que constantemente estamos interpretando nossa realidade, além de complementar mutuamente o processo de acomodação, buscando constantemente um equilíbrio.

A equilibração, tendência inata do ser humano de auto-regulação, determina a mudança da assimilação para a acomodação. É por meio dela que se mantém um estado de equilíbrio ou de adaptação em relação ao meio. Segundo Terra (200-), é um “mecanismo de organização de estruturas cognitivas em um sistema coerente que visa a levar o indivíduo a construção de uma forma de adaptação à realidade.”

Piaget buscou designar uma teoria do conhecimento com base no estudo da gênese psicológica do pensamento humano, que procura distinguir as raízes das diversas variedades de conhecimento a partir de suas formas mais elementares, e acompanhar seu desenvolvimento nos níveis subsequentes até, inclusive, o pensamento científico. Foi o que chamou de epistemologia genética.

Os níveis de desenvolvimento que Piaget formulou consistem em estágios do desenvolvimento cognitivo, subdivididos em quatro estágios evolutivos e sequenciais do crescimento humano, qualitativamente diferentes entre si, que vão desde o nascimento à idade adulta. Em cada estágio, a criança desenvolve um novo modo de operar, sendo variável de indivíduo para indivíduo, obedecendo a um desenvolvimento gradual. De modo geral, os estágios de desenvolvimento de Piaget estão assim divididos:

Estágio Sensório-Motor

Ocorre do nascimento do indivíduo aos 2 anos de idade. Nessa etapa do desenvolvimento, o bebê gradualmente se torna capaz de organizar atividades em relação ao ambiente por meio de atividades sensório motoras.

A criança passa do nível neonatal, marcado pelo funcionamento dos reflexos inatos, para outro em que ela já é capaz de uma organização perceptiva e motora dos fenômenos do meio. A consciência da criança sobre o meio externo se expande lentamente, conforme suas ações se deslocam de seu próprio corpo para objetos.

É dividido em 6 subestágios, e neles o bebê vai coordenando percepções sensoriais e comportamentos motores simples a fim de conhecer o mundo que o cerca. Em seu desenvolvimento, o bebê vai adquirindo, dentre outros, a capacidade de perceber a permanência do objeto, desenvolve reações circulares, e inicia suas representações simbólicas. Reconhecem o mundo externo e o exploram deliberadamente.

Estágio do Pensamento Pré-Operatório

Vai aproximadamente dos 2 aos 6 anos de idade. A criança interioriza o meio, sendo capaz agora de representá-lo mentalmente. O desenvolvimento da representação cria as condições para a aquisição da linguagem, pois a capacidade de construir símbolos possibilita a aquisição dos significados sociais existentes no contexto em que a criança vive.

Nesse estágio, há um desenvolvimento marcante da linguagem, há o desenvolvimento da função semiótica, onde as crianças utilizam símbolos para representar a realidade. O egocentrismo está bastante presente nas crianças, elas possuem uma incapacidade de pensar através das conseqüências de uma ação e de entender noções de lógica; desenvolvem o conceito de conservação, e ainda não desenvolveram a capacidade de manipular informações mentalmente.

Surgem também outras características, como o animismo, a linguagem em nível de monólogo coletivo, não há liderança em seus grupos e os pares e colegas são constantemente trocados.

Estágio Operatório Concreto

Ocorre geralmente dos 6 aos 12 anos de idade. Após equilibrações sucessivas, há um desenvolvimento cognitivo das operações mentais das crianças, que vai pensando logicamente sobre eventos concretos, mas ainda possui dificuldades de lidar com conceitos hipotéticos e abstratos. Isso implica, dentre outros, na capacidade de combinar, separar, ordenar e transformar objetos e ações, bem como da noção de reversibilidade e o raciocínio silogístico.

A criança apresenta um declínio do egocentrismo, começa a se socializar em grupos, reconhecendo uma liderança. Compreendem regras e estabelecem compromissos. Possuem uma linguagem socializada, mas ainda têm uma inabilidade em entender pontos de vista diferentes.

Assim, por meio das operações, os conhecimentos construídos anteriormente pela criança vão se transformando em conceitos.

Estágio Operatório Formal

Inicia aproximadamente aos 12 de idade e prossegue em diante. Nele, são desenvolvidas capacidades de se pensar em conceitos abstratos e no próprio processo de pensamento. Há a presença de pensamento hipotético dedutivo, raciocínio lógico, raciocínio dedutivo, capacidade de resolução de problemas e de pensamento sistemático; a linguagem está desenvolvida, permitindo discussões lógicas e que cheguem a conclusões. É o período em que há a maturação da inteligência do indivíduo, em que há a capacidade de pensar sobre o seu próprio pensamento, ficando cada vez mais consciente das operações mentais que realiza ou que pode realizar diante do meio que o cerca.

Pode-se dizer, então, que o desenvolvimento, na concepção piagetiana, é fundamentalmente um processo de equilibrações sucessivas que conduzem a maneiras de agir e de pensar cada vez mais complexas e elaboradas. (FONTANA & CRUZ, 1997)

As contribuições de Piaget para os ramos do conhecimento que se preocupam com o desenvolvimento do homem foram de grande importância, ao frisar o papel ativo do homem no processo de aquisição e elaboração do pensamento.

Sobre o Autor:

Hélem Soares de Meneses - aluna do curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Médicas – FACIME, UESPI.

Referências:

BELLO, José Luiz de Paiva. A teoria básica de Jean Piaget. Vitória, 1995. Disponível em < http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/per09.htm >

COLE, Michael e COLE Sheila R. O Desenvolvimento da Criança e do Adolescente. Trad. Magda França Lopes – 4. ed. – Porto Alegre: Artmed, 2003.

FONTANA, Roseli. CRUZ, Nazaré. Psicologia e trabalho pedagógico. São Paulo: Atual, 1997.

PIAGET, Jean. Epistemologia genética. – 1. Ed. - São Paulo: Martins Fontes, 2002.

SADOCK, Benjamin James; SADOCK, Virginia Alcott. Compêndio de Psiquiatria: ciência do comportamento e psiquiatria clínica. – 9. ed. - Porto Alegre: Artmed, 2007.

TERRA, Márcia Regina. O desenvolvimento humano na teoria de Piaget. Disponível em < http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/ >