Resumo: O presente artigo apresenta uma revisão bibliográfica sobre conceitos gerais de Autismo e Síndrome de Asperger. Tem como objetivo apresentar de forma clara e sucinta definições sobre a temática, elencar as principais características de indivíduos com o transtorno, assim como verificar suas interações sociais, principalmente nos âmbitos familiar e escolar. A educação inclusiva para estes indivíduos também é verificada neste material.

Palavras-chave: Autismo. Síndrome de Asperger, Interações sociais, Educação inclusiva.

1. Introdução

O desenvolvimento humano sempre inspirou e foi tema de amplos estudos. Atualmente, mesmo com todo o progresso da tecnologia, os estudiosos nem sempre conseguem responder às mais variadas perguntas para a compreensão do ser humano, que é muito complexo (Papalia, 2000).

A compreensão dos transtornos do desenvolvimento infantil dar-se-á mediante o conhecimento do desenvolvimento infantil considerado normal. Segue-se, assim, uma visão do desenvolvimento do ciclo de vida, na maioria das sociedades ocidentais modernas, analisadas por Papalia (2000) mediante estágios.

O estágio pré–natal abrange o período da concepção até o nascimento. Nesse estágio, ocorre a formação da estrutura e dos órgãos corporais básicos. O crescimento físico é o mais rápido de todos os períodos, e a criança encontra-se vulnerável às influências ambientais.

A primeira infância compreende o nascimento até os três anos. O recém nascido é dependente, porém competente. Todos os sentidos estão ativados desde o nascimento. O crescimento físico e o desenvolvimento das habilidades motoras são rápidos. A capacidade de aprender e lembrar estão presentes até mesmo nas primeiras semanas de vida. Quanto à compreensão e à fala, também se desenvolvem rapidamente. A autoconsciência desenvolve-se no segundo ano de vida. Aproximadamente no final do primeiro ano, é que se define o apego aos pais e a outros; no entanto, o vínculo, principalmente materno, já se dá desde o nascimento.

A segunda infância é o período de três a seis anos. A força e as habilidades motoras simples e complexas aumentam. O comportamento é predominantemente egocêntrico, e a maturidade cognitiva leva a muitas ideias ilógicas acerca do mundo. A criatividade e a imaginação expressas nas brincadeiras tornam-se mais elaboradas. A independência e o autocontrole aumentam, e a família continua sendo o núcleo da vida.

A terceira infância é considerada o período de seis a doze anos. Nessa fase, o crescimento físico e o egocentrismo diminuem, enquanto a memória e as habilidades de linguagem aumentam. A autoimagem desenvolve-se, afetando a autoestima, e os amigos assumem importância fundamental.

Conhecido esse desenvolvimento da criança, é possível, então, observar quando ocorre um desvio.

É nos primeiros anos de vida que os transtornos invasivos do desenvolvimento se manifestam, transtornos esses frequentemente associados a algum grau de retardo mental (Ellis, 1996).

Os quadros que compõem os transtornos globais do desenvolvimento caracterizam-se pela tríade de impedimentos graves e crônicos nas áreas de interação social, comunicação verbal e não verbal e interesses. Dentre os transtornos pertencentes a esta condição, estão o Autismo Infantil e a síndrome de Asperger. Embora existam inúmeras manifestações clínicas, qualitativamente semelhantes, é importante salientar as características e peculiaridades presentes em cada um dos transtornos.

O objetivo deste material foi revisar bibliograficamente as definições e características acerca dos quadros de Autismo Infantil e da síndrome de Asperger e as interações sociais dos indivíduos que possuem estes transtornos.

2. Desenvolvimento

Segundo Klin, (2006), o autismo e a síndrome de Asperger são os mais conhecidos entre os transtornos invasivos do desenvolvimento (TID), uma família de condições marcada pelo início precoce de atrasos e desvios no desenvolvimento das habilidades sociais, comunicativas e demais habilidades. Na quarta edição revisada do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR), a categoria TID inclui condições que estão invariavelmente associadas ao retardo mental (síndrome de Rett e transtorno desintegrativo da infância), condições que podem ou não estar associados ao retardo mental (autismo e TID sem outra especificação) e uma condição que é tipicamente associada à inteligência normal (síndrome de Asperger). Os TIDs estão entre os transtornos de desenvolvimento mais comuns. Referem-se a uma família de condições caracterizadas por uma grande variabilidade de apresentações clínicas. Podem variar tanto em relação ao perfil da sintomatologia quanto ao grau de acometimento, mas são agrupados por apresentarem em comum uma interrupção precoce dos processos de sociabilização.

São, por natureza, transtornos do neurodesenvolvimento que acometem mecanismos cerebrais de sociabilidade básicos e precoces. Consequentemente, ocorre uma interrupção dos processos normais de desenvolvimento social, cognitivo e da comunicação.

Segundo Tamanaha (2008), o autismo Infantil foi definido por Kanner, em 1943, sendo inicialmente denominado Distúrbio Autístico do Contato Afetivo, como uma condição com características comportamentais bastante específicas, tais como: perturbações das relações afetivas com o meio, solidão autística extrema, inabilidade no uso da linguagem para comunicação, presença de boas potencialidades cognitivas, aspecto físico aparentemente, normal, comportamentos ritualísticos, início precoce e incidência predominante no sexo masculino. Em 1944, Asperger, propôs em seu estudo a definição de um distúrbio que ele denominou Psicopatia Autística, manifestada por transtorno severo na interação social, uso pedante da fala, desajeitamento motor e incidência apenas no sexo masculino. O autor utilizou a descrição de alguns casos clínicos, caracterizando a história familiar, aspectos físicos e comportamentais, desempenho nos testes de inteligência, além de enfatizar a preocupação com a abordagem educacional destes indivíduos.

Segundo Mello (2006), as causas do autismo são desconhecidas. Acredita-se que a origem do autismo esteja em anormalidades em alguma parte do cérebro ainda não definida de forma conclusiva e, provavelmente, de origem genética. Além

disso, admite-se que possa ser causado por problemas relacionados a fatos ocorridos durante a gestação ou no momento do parto. A hipótese de uma origem relacionada à frieza ou rejeição materna já foi descartada, relegada à categoria de mito há décadas. Porém, a despeito de todos os indícios e da retratação pública dos primeiros defensores desta teoria, persistem adeptos desta corrente que ainda a defendem ou defendem teorias aparentemente diferentes, mas derivadas desta. Já que as causas não são totalmente conhecidas, o que pode ser recomendado em termos de prevenção do autismo são os cuidados gerais a todas as gestantes, especialmente cuidados com ingestão de produtos químicos, tais como remédios, álcool ou fumo.

De acordo com estudos recentes o autismo seria 4 vezes mais frequente em pessoas do sexo masculino. O autismo incide igualmente em famílias de diferentes raças, credos ou classes sociais. A incidência do autismo varia de acordo com o critério utilizado por cada autor. ( Mello, 2006)

Segundo Tamanaha (2008), a  hipótese de que haja uma falha cognitiva que justifique os prejuízos sociais e de comunicação dos portadores de Autismo Infantil também é abordada por diversos autores, que propuseram o estudo da Teoria da Mente como alternativa para se entender as falhas sociais dos indivíduos autistas. Segundo os autores, nos sujeitos portadores desta condição, existe uma incapacidade na identificação, compreensão e na atribuição de sentimentos, intenções, o que ocasiona prejuízos nas relações interpessoais. A inabilidade dos autistas para estabelecer relações interpessoais eficazes justifica-se pelas ausências na detecção da intencionalidade e no compartilhamento de atenção aos objetos e eventos, com os interlocutores. Essas falhas ocasionam prejuízos na atribuição e na compreensão de estados mentais, que nem sempre estão explícitos nas situações dialógicas.

Segundo Brito ( 2011 ), a definição atual da síndrome de Asperger descreve um curso de desenvolvimento precoce, que não é marcado por atraso clinicamente significativo na linguagem falada ou na percepção da linguagem, no desenvolvimento cognitivo, nas habilidades de autocuidado e na curiosidade sobre o ambiente. Interesses limitados intensos ocupam totalmente o foco da atenção e tendência a falar em monólogo, assim como incoordenação motora, também são típicos do quadro mas não se constituem em condição necessária para o diagnóstico.

Segundo Souza (2004), a síndrome de Asperger caracteriza-se pelo mesmo tipo de anormalidades qualitativas de interação social recíproca que tipifica o autismo, junto com repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado e repetitivo.. É considerada como o transtorno mais evoluído sobre o continuum autístico.  

Segundo Kaplan (1997), a descrição original inclui pessoas com inteligência normal e sem atraso no desenvolvimento da linguagem, porém com comprometimento da interação social e estranheza de comportamento. A causa desta síndrome é desconhecida, mas estudos familiares sugerem uma possível relação com o transtorno autista, o qual considera hipóteses genéticas, metabólicas e perinatais.

Nas anormalidades qualitativas de interação social, percebem-se peculiaridades no comportamento não-verbal, falha no desenvolvimento de relações com seus pares em idade, falta de interesse espontâneo com outros, falta de reciprocidade emocional ou social (Kaplan, 1997).

Apesar de as crianças com a síndrome de Asperger apresentarem as habilidades intelectuais preservadas, demonstraram uma notável pobreza na comunicação não-verbal, que envolve tanto gestos, como tom afetivo de voz, empatia pobre e uma tendência a intelectualizar as emoções, a ter fala prolixa e às vezes incoerente e, linguagem tendendo ao formalismo (Brito, 2011).

Segundo Klin, (2006), os indivíduos com SA normalmente acumulam uma grande quantidade de informações   sobre um tópico, de uma forma muito intensa. O tópico em questão pode alterar-se de tempos em tempos, mas em geral domina o conteúdo do intercâmbio social. Frequentemente, toda a família pode estar imersa no assunto por longos períodos de tempo. Esse comportamento é extravagante no sentido de que, na maior parte das vezes, grandes quantidades de informações factuais são aprendidas sobre tópicos muito específicos (e.g., cobras, nomes de estrelas, guias de programação da TV, panelas de fritura comerciais, informações sobre o tempo, informações pessoais sobre membros do Congresso), sem uma genuína compreensão dos fenômenos mais amplos envolvidos. Esse sintoma pode nem sempre ser facilmente reconhecido na infância, já que fortes interesses, como dinossauros ou personagens ficcionais da moda, são onipresentes. No entanto, tanto em crianças mais jovens como em mais velhas, os interesses especiais normalmente se tornam mais bizarros e com foco mais restrito.

São verificadas dificuldades na comunicação social, tais como: a incapacidade de reconhecer as regras convencionais da conversação que regem as interações sociais e o uso restrito de múltiplos sinais não verbais, como contato visual, expressões facial e corporal. Comumente, indivíduos com a síndrome abordam outras pessoas, mas de uma forma inapropriada e excêntrica (KLIN, 2006).

Podem expressar interesse em fazer amizades e encontrar pessoas, mas seus desejos podem ser frustrados por suas abordagens desajeitadas, pela insensibilidade em relação aos sentimentos e intenções das demais pessoas e pelas formas de comunicação não-literais e implícitas que elas emitem, mas que não são  claramente compreendidas por pessoas com a síndrome de Asperger, como sinais de tédio, pressa para deixar o ambiente e necessidade de privacidade (KLIN, 2006).

Também pode ser observado o histórico de atraso na aquisição das habilidades motoras, tais como dificuldades para andar de bicicleta, agarrar uma bola, abrir garrafas e subir em brinquedos de parquinho ao ar livre. Frequentemente demonstram ser desajeitados, com coordenação pobre, podendo exibir padrões de andar arqueado ou aos saltos e uma postura bizarra (KLIN, 2006).

Alguns déficits motores podem ainda afetar habilidades acadêmicas como a escrita e atividades de artes. Além disso, a participação em jogos envolvendo habilidades motoras é comprometida, o que pode ter impacto nas interações sociais com outras crianças. (KLIN, 2006).

Para Kanner (1976), apud Souza (2004), alguns pacientes com a síndrome de Aspenger apresentam um surpreendente vocabulário. Sua excelente memória lhes  permite recordar sucessos de vários anos antes, sua fantástica memória mecânica para as poesias e nomes e sua facilidade para recordar minuciosamente formas completas e seus derivados indicam que há uma clara inteligência, no sentido corrente do vocábulo.

Segundo Klin (2006), um dos estilos identificados da comunicação dos indivíduos com Síndrome de Aspenger, caracteriza-se, geralmente, por notável verbosidade. A criança ou adulto pode falar incessantemente sobre um assunto favorito, geralmente sem qualquer relação com o fato de a pessoa que escuta estar interessada, envolvida, ou tentar interpor um comentário ou alterar o tema da conversação. Apesar de tais monólogos prolixos, o indivíduo pode não chegar nunca a um ponto ou a uma conclusão. As tentativas do interlocutor de elaborar sobre questões de conteúdo ou de lógica ou de mudar a conversação para tópicos relacionados são frequentemente frustradas.

Para Souza (2004) os quadros que compõem o espectro autístico são caracterizados por prejuízos em diversas áreas do desenvolvimento, entre elas, a interação social recíproca, comunicação e interesses. Dentre as diversas manifestações clínicas, os indivíduos acometidos por esses transtornos podem demonstrar capacidades cognitivas e linguísticas atípicas e peculiares, tais como excelente memória para detalhes.  

Segundo Brito (2011), outro aspecto que pode interferir no modo de interagir e aprender de indivíduos com síndrome de Asperger está relacionado às respostas atípicas frente aos estímulos do ambiente e dificuldades na integração das sensações captadas pelos órgãos dos sentidos. Entre os comportamentos relatados estão: muita ou pouca sensibilidade a estímulos sonoros, visuais, tácteis e olfativos, exemplificados por muita tolerância a estímulos dolorosos, incômodo a certos tipos de sons e exploração do ambiente de forma inadequada, lambendo objetos ou cheirando pessoas. Frequentemente, problemas de comportamento estão associados com tais déficits de integração sensorial.

A literatura descreveu também alta chance da presença de comorbidades, que por vezes trazem maior prejuízo e sofrimento do que a própria síndrome de Asperger. Vários podem ser os transtornos tais como depressão, ansiedade, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, transtorno obsessivo compulsivo, entre outros. Considerando que os sintomas principais de alguns desses transtornos também podem fazer parte da síndrome de Asperger, por vezes o diagnóstico é dificultado pela interposição de sintomas. (Brito, 2011)

As tentativas de um consenso em relação à compreensão de sua etiologia, tratamento e prevenção têm se mostrado impossíveis. As divergências não são encontradas apenas por virem de diferentes saberes, como neurologia, psiquiatria, psicologia e psicanálise. Constata-se que além do fato de haver várias abordagens dentro de um mesmo saber, existem quadros muito variados, com múltiplos fatores convergindo para a determinação de cada um deles, como indica a própria característica sindrômica. Assim, um único ponto de vista não consegue abarcar o tema, e tomar em consideração um lado da questão não elimina os outros. Considerar, por exemplo, fatores relativos à interação humana não exclui uma falha na condição física. (Araújo, 2004).

Segundo Klin, (2006), os indivíduos com Síndrome de asperger, encontram-se socialmente isolados, mas não são usualmente inibidos na presença dos demais. Normalmente, eles abordam os demais, mas de uma forma inapropriada e excêntrica. Por exemplo, podem estabelecer com o interlocutor, geralmente um adulto, uma conversação em monólogo caracterizada por uma linguagem prolixa, pedante, sobre um tópico favorito e geralmente não-usual e bem delimitado.

Cronicamente frustrados pelos seus repetidos fracassos de envolver outras pessoas e de estabelecer relações de amizade, alguns indivíduos com S.A. desenvolvem sintomas de transtorno de ansiedade ou de humor que podem requerer tratamento, incluindo medicação. Eles também podem reagir de forma inapropriada ou não compreender o valor do contexto da interação afetiva, geralmente transmitindo um sentido de insensibilidade, formalidade ou desconsideração pelas expressões emocionais das demais pessoas. (Klin, 2006).

Para Zimerman (1999), apesar de enfrentar grandes dificuldades relacionais,  é indispensável para o seu crescimento mental que o sujeito portador da S.A. desenvolva com as demais pessoas um tipo de vínculo no qual reconheça que o outro não é um mero espelho seu, que é autônomo e tem ideias, valores e condutas diferentes das dele, que há diferença de sexo, geração e capacidade entre eles.

Segundo Melo (2007) , na maioria dos casos, crianças e adolescentes com Síndrome de Asperger podem frequentar a escola regular, mesmo que em alguns casos em classes especiais. Muito provavelmente, existem casos não diagnosticados de crianças com Síndrome de Asperger frequentando escolas regulares que, devido a suas dificuldades e peculiaridades, são rotuladas como pedantes, sem limites, ou desorganizadas.

Em relação às atitudes sociais infantis frente aos transtornos invasivos do desenvolvimento, estudos apontam que especialmente a discrepância entre distúrbios de comportamento manifestos e a aparência física normal pode implicar atitudes sociais negativas, já que não há explicação visível e clara para a ocorrência desses comportamentos incomuns, que são característicos em tais casos. Assim, crianças autistas podem ser avaliadas negativamente como incontroláveis e indisciplinadas, pois as pessoas acreditam que elas sejam normais. Por outro lado, os mesmos observadores podem ser mais tolerantes ao mesmo tipo de problema de comportamento se souberem que a criança apresenta um transtorno invasivo do desenvolvimento (Brito, 2011)).

Conforme Silva e Mullick (2009), a Identificação de sintomas de risco é o primeiro passo para o diagnóstico precoce, uma vez que os sintomas de autismo começam a se manifestar bastante cedo na vida da criança (antes dos três anos), quanto mais cedo esses sintomas forem identificados, maiores as chances de a criança receber intervenções adequadas e exibir progressos desenvolvimentais mais significativos e duradouros. Por essa razão, torna-se essencial que mesmo os profissionais não especializados em diagnóstico de autismo, mas que trabalhem com a população infantil, sejam capazes de reconhecer os sintomas centrais. Uma vez que os sintomas de risco sejam identificados, a criança deve ser encaminhada para uma avaliação mais rigorosa, conduzida por uma equipe interdisciplinar especializada, para que um diagnóstico seja determinado.

Nesse contexto, é importante considerar os benefícios que podem ser obtidos com a identificação correta destes casos para as pessoas com o transtorno, seus familiares e sua comunidade. Na educação inclusiva é necessário que todos os alunos sejam respeitados em sua diversidade, para isso as pessoas que compõem o ambiente educacional precisam compreender que crianças com transtornos invasivos do desenvolvimento têm uma desordem de desenvolvimento, que as leva a se comportar e responder de forma diferente aos estímulos do ambiente (BRITO, 2011). Assim pode-se evitar que sejam mal interpretados e tratados de maneira excludente.

Todos estes aspectos devem estar envolvidos em um programa de intervenção, que, se adequado às necessidades desses indivíduos, pode favorecer o desenvolvimento da linguagem e da interação social e a diminuição dos problemas de comportamento. Sugere-se um prognóstico positivo nos casos de alunos com síndrome de Asperger que são adequadamente assistidos, podendo alcançar bons resultados na escola regular e que, com frequência, podem obter emprego, independência e a constituição de uma família (KLIN, 2006).

A partir da compreensão de sua condição, os indivíduos com a síndrome de Asperger podem conhecer, escolher e lutar social, acadêmica e profissionalmente pelas melhores alternativas disponíveis para lidar com discernimento com suas dificuldades e habilidades, e encontrar seu espaço na comunidade. A condição de ser uma pessoa deve bastar para que se mobilizem todos os esforços para assegurar o exercício da cidadania plena a todas as pessoas indistintamente (OMOTE, 2004).

Para Kupfer (1996), a ausência de tratamento pode gerar pelo menos duas consequências negativas: o sofrimento das crianças e de seus pais, de um lado, e, de outro, o aumento do ônus público, com os custos de tratamento das doenças mentais incidentes na população adulta, uma vez que as crianças não tratadas inevitavelmente ampliarão duas fileiras: a dos “doentes mentais” e a dos deficientes  mentais.

Omote (2004) esclareceu que, no mínimo, parece necessário que os indivíduos considerados desviantes tenham consciência do processo social em curso, no qual estão envolvidos, mas também possam dele participar como sujeitos  ativos. Só assim podem dispor de condições para decidirem os seus próprios destinos, no sentido de fazerem opção por serviços segregados ou integrados. Nessa perspectiva, a meta a ser colocada deve ser a de alcançar a realização e o desenvolvimento máximo de todas as pessoas, dentro das suas particularidades e possíveis limitações e potencialidades.

No Brasil, os dados disponíveis sobre a rede de serviços oferecidos para pessoas com transtornos invasivos do desenvolvimento são poucos e imprecisos (VASQUES; BAPTISTA, 2002). Para ilustrar a importância do desenvolvimento de públicos aptos a atender a esta população, Vasques e Baptista (2002) cruzaram as informações do IBGE (1997) acerca dos sujeitos brasileiros de zero a 17 anos que vivem em situação de pobreza, com a faixa de incidência dos transtornos invasivos do desenvolvimento. Assim, os autores estimaram que há entre 14.500 e 21.700 crianças e adolescentes com transtornos invasivos do desenvolvimento que estão em condição de pobreza, o que restringe ainda mais suas possibilidades de atendimento e potencializa suas dificuldades. Esses indivíduos e seus familiares percorrem diversos serviços em busca de atendimento às suas necessidades e a minoria encontra serviços estruturados; outra pequena parcela consegue atendimento em algumas áreas, mas a grande maioria está desassistida e, portanto, sem acesso aos direitos básicos de cidadania (BRASIL-CORDE, 1996).

Segundo Brito (2011), o ambiente educacional assume um papel fundamental como contexto de intervenção para esses casos, sendo as interações nele estabelecidas um fator crítico para o seu desenvolvimento social. A segregação ou a inclusão dependerão, em grande parte, do tipo de relação estabelecida entre o aluno portador do transtorno, seus colegas e o professor, o que sem dúvida é uma tarefa muito mais complexa do que garantir a matrícula na escola.

Pesquisadores da área de interação social têm identificado que estudantes rejeitados socialmente interagem diferentemente, com agressividade, rejeição e ignoram outros alunos, com mais frequência do que com os estudantes aceitos socialmente, o que pode reduzir suas oportunidades de praticar, refinar e expandir repertórios de competência social e de desenvolver amizades (BATISTA; ENUMO, 2004).

Omote (2004) ressaltou que muitos professores veem a inclusão como um aumento em sua carga de trabalho de diversas maneiras. Para o autor um fator crucial associado a atitudes positivas de professores em relação à inclusão, é que não há um sistema de apoio em vigor. O autor citou que alguns exemplos sugerem que o apoio em toda a escola é o fator mais importante para o aumento das atitudes positivas dos professores e aceitação da inclusão.

Quando se trata de alunos do espectro autístico não basta adequar o comportamento interativo de alunos e professores para estabelecer contatos sociais mais eficazes. Toda a equipe escolar e também os colegas precisam estar orientados acerca das tantas particularidades destes alunos, como por exemplo, a hipo ou hipersensibilidade sensorial, a resistência à mudanças de rotina e detalhes do ambiente, interesses obsessivos por determinados objetos ou assuntos, entre outros (BRITO, 2011). Portanto, há a necessidade de ser usada uma variedade de estratégias e adequações para promover a aprendizagem dessas crianças. Estas variáveis são importantes para a estruturação de contextos mais adequados para favorecer o desenvolvimento dessas crianças.

Omote et al. (2005) sugerem ainda que podem ser integradas à matriz curricular dos cursos de formação de professores, uma breve disciplina planejada prioritariamente para a construção de atitudes sociais genuinamente favoráveis à inclusão. Além disso, a inserção, em diferentes disciplinas, de tópicos que devem ser tratados em diversas áreas de conhecimento, quando a concepção de educação em que se baseia a formação desses professores é a do ensino inclusivo. Tais tópicos, quaisquer que sejam as disciplinas em que se insiram, devem ser tratados com a devida seriedade por professores com atitudes sociais que favoreçam a inclusão e, se possível, experientes em educação de crianças e jovens com necessidades especiais.

Conforme Souza (2004), os transtornos do desenvolvimento infantil são extremamente debilitantes, como se pode perceber, exigindo uma dedicação especial e quase total da família e de todos os envolvidos. É parte fundamental do processo de reabilitação a avaliação diagnóstica; é o ponto de partida para o estabelecimento dos programas e metas a serem atingidos. Um trabalho de socialização é essencial, no sentido de evitar o preconceito e a discriminação ainda existentes, proporcionando uma prevenção primária, através de elucidações junto às escolas e pessoas afins. Deixar esses indivíduos viverem no seu mundo particular é muito cômodo e parece ser uma maneira de negar responsabilidade para com esses seres humanos e suas famílias angustiadas, necessitadas de esperança.

3. Considerações Finais

As síndromes autísticas e a de Asperger são síndromes que tem sua origem de alterações precoces e fundamentais no processo de socialização, levando a uma sequência de impactos no desenvolvimento da atividade, adaptação e socialização, da comunicação e imaginação sociais, entre outros comprometimentos. Muitas áreas do funcionamento cognitivo estão frequentemente preservadas e, às vezes, os indivíduos com essas condições exibem habilidades surpreendentes e até prodigiosas. O início precoce, o perfil de sintomas e a cronicidade dessas condições são características destas síndromes.

Através das informações discutidas neste material espera-se ter contribuído para o esclarecimento de, pelo menos, alguns aspectos centrais acerca do transtorno autista e seus desdobramentos. Apesar de as pesquisas ainda não terem avançado o suficiente para se determinar fatores e processos específicos que estejam definitivamente envolvidos na etiologia destes transtornos, percebe-se grandes avanços no que diz respeito às informações que dão suporte à implementação de práticas diagnósticas adequadas e de boa qualidade assim como de modelos de intervenções mais eficientes para indivíduos portadores de Transtorno Global do Desenvolvimento,

A identificação de sintomas de risco como parte da rotina de profissionais que trabalham com a população infantil, bem como a formação de equipes interdisciplinares especializadas em diagnóstico de autismo, por exemplo, têm permitido que o diagnóstico seja determinado, mesmo em crianças de tenra idade. Isso constitui um avanço de grande importância, visto que a idade na qual a criança começa a receber intervenções apropriadas representa um dos elementos essenciais para um melhor prognóstico em termos de seu  desenvolvimentos e de sua atuação. 

O envolvimento efetivo por parte dos familiares e de todos os que se relacionam com o portador dos transtornos tratados neste trabalho também são de primordial importância para que o diagnóstico precoce assim como as intervenções adequadas sejam feitas em todos os âmbitos que envolvem a criança, já que para que haja resultados significativos nas intervenções, todas as instâncias deste indivíduo devem ser trabalhadas e tratadas de forma séria, efetiva e eficaz.

Trabalhos de socialização com este público, torna-se essencial, no sentido de evitar o preconceito e a discriminação ainda existentes, proporcionando uma prevenção primária, através de esclarecimentos junto às famílias, escolas e pessoas envolvidas no processo.

Os pontos discutidos neste artigo dão ênfase a questões práticas, apesar disso, espera-se que essas questões gerem reflexões e questionamentos no assunto aqui apresentado e que estas reflexões possam de alguma forma, ajudar no progresso social das questões que envolvem o tema apresentado.

É de suma importância que discussões sobre tais problemáticas se tornem parte integrante da formação de profissionais da saúde e educação, especialmente daqueles que tem como alvo a população infantil. Aspectos como a relevância de se desenvolver trabalhos de natureza interdisciplinar, bem como as vantagens de se estabelecer um diagnóstico precoce, por exemplo, parecem ser tópicos ainda hoje polêmicos entre estudiosos da área. Por isso, discussões sobre essas temáticas se fazem essenciais para a formação de profissionais críticos e qualificados visando o bem-estar e integração social da criança autista.

Sobre o Autor:

Valquiria Godinho Pichiteli - professora e psicóloga, pós graduada em Educação Especial com Ênfase em Transtorno Global do Desenvolvimento e também em Gestão Escolar. Atualmente atua como Professora Coordenadora em uma escola de ensino fundamental no município de Limeira e também no consultório particular como psicóloga clínica.

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