O texto pretende abordar mudanças que emergiram socialmente resultando em uma inversão de papéis e valores no percurso do desenvolvimento histórico, até os tempos pós – modernos, relatando suas características e influências na constituição subjetiva de cada indivíduo.

Dumond (1985) descreve dois tipos de sociedade em sua tese, sendo uma holista e hierárquica, modelo exemplar a Índia, com seus costumes e tradições preservados, transmitindo de gerações a gerações suas práticas culturais e a sociedade moderna caracterizada como individualista e igualitária, regida pelo prazer e individualidade de cada um, sujeito este, autônomo e livre em suas escolhas (DUMOND, apud MOREIRA, 2015).

Essas transformações da sociedade são descritas por Luís Cláudio Figueiredo, em  “A invenção do psicológico” (2002), identificando a construção de uma subjetividade privada, dotada de singularidade, desejos próprios, sentimentos e experiências únicas para cada sujeito. O autor relata quais épocas foram se constituindo essa subjetividade, tendo como início na transição do renascimento para a idade moderna, influenciado por dois modelos de pensamento da época, sendo o romantismo, embasado pela arte e filosofia e o liberal iluminismo, tendo por  exemplo a revolução francesa, com princípios na igualdade, fraternidade e liberdade (CHAVES, 2009, p. 1).

Até determinado momento, (MOREIRA, 2009, p. 84) a ideia da concretização de uma subjetividade se destinava a promoção da felicidade coletiva por meio da racionalidade. O capitalismo do século XIX tinha por objetivo produzir apenas as necessidades básicas da sociedade, de forma padronizada e não diversificada, utilizando – se de dois mecanismos de controle, dando importância ao trabalho dentro de uma moral que o regia e a repressão para o excesso de consumo dos indivíduos (RAMOS, 2015).

As produções de subjetividades privadas surtiram efeitos e consequências ao indivíduo, de acordo com Chaves:

A consolidação do sujeito psicológico se dá no final do século XIX com o agravamento de dois sentimentos antagônicos que constituem seu ser: por um lado, a sensação de liberdade; por outro, o sentimento constante de insegurança e desamparo, reforçados pelos estudos céticos que consideravam impossível a obtenção de conhecimento seguro sobre o mundo (CHAVES, 2009).

Em uma entrevista concedida ao Fronteiras do pensamento em 2011, o sociólogo e polonês Zygmunt Bauman, compartilha a ideia acima citada, comparando o indivíduo dotado de uma subjetividade privada com o sujeito da sociedade antiga. O segundo não se apropriava de uma liberdade total de escolhas,  na qual era barrado por leis simbólicas, moralmente impedido de gozar inteiramente de seus desejos, portava – se de uma um nível alto de segurança social. Ao sujeito atual, implicado e interpelado pela liberdade, encontra – se inseguro frente à sociedade, segurança essa produzida pela tradição, valores, costumes, etc (BAUMAN, 2011).

Todos esses fatos produzidos durante a história, culminaram no que Lasch (1983) chamou de “Cultura do Narcisismo”, desinvestindo a produção para um bem coletivo, em detrimento do próprio sucesso, da produção de autoimagem, um reinvestimento total no próprio corpo. Em seu livro “ A cultura do narcisismo”, escrito em 1983, retrata o gozo intenso da vida, abolindo o passado e o futuro, um discurso que prega “ viva e goze” intensamente como se fosse o último dia. O que está em jogo é sua história pessoal, o sucesso, obter diversas experiências, ser aplaudido pela sociedade, onde a autoestima do narcisista é validada pelos aplausos e reconhecimento do público (LASCH, 1983).

O documentário “Criança, a alma do negócio”, produz uma crítica aos veículos midiáticos e a propaganda enquanto discurso influente na formação subjetiva, uma linguagem que atende a produção e manutenção de uma sociedade capitalista, atingindo um público alvo altamente vulnerável, iniciando – se nessa instância a constituição de sujeitos de consumo, visão esta analisada por Conrado Ramos em “Converte – te naquilo que és: subjetividade, propaganda e ideologia na sociedade de consumo”.

Ramos (2015) recorre a psicanálise de orientação Lacaniana para analisar a sociedade enquanto sociedade de produção e de consumo. O autor aponta uma inversão do papel do Supereu no sujeito contemporâneo, visto um Supereu constituído em uma cultura mais antiga de forma rígida, repressor aos desejos impulsionais, inscrito pela cultura tradicional, encontra – se hoje um Supereu que postula e cobra de cada um gozar, ou seja, impõe o prazer e não mais a repressão.

Fazendo um paralelo entre o vídeo “Criança, a alma do negócio” e o texto de Ramos, nota – se a articulação de um discurso que se inscreve na criança, produzindo subjetividades consumistas e produtos humanos para o futuro, inscrição simbólica instituída pelo discurso da mídia infantil enquanto Grande Outro na formação subjetiva. Ramos ainda em seu texto diz:

“Devemos lembrar que o discurso que constitui o sujeito vem do Outro que, em sua própria definição como anterioridade simbólica, está marcado por transformações, rupturas e cristalizações sociais e históricas. Assim, apesar de sua universalidade marcada pela estrutura da linguagem, o sujeito que assim se constitui não pode esquivar – se de um legado simbólico inevitavelmente marcado pela subjetividade de sua época” (RAMOS, 2015 p. 111).

A autoimagem, o próprio corpo como investimento central da atual sociedade, como Lasch (1983) aponta, as referências nos tempos da pós – modernidade é a identificação com as celebridades, os famosos. O psicólogo Ives de La Taille no documentário “Criança, a alma do negócio”, diz que os valores se inverteram, utilizando – se de um exemplo para demonstrar o papel da mídia frente a construção identitária, onde crianças não tem por finalidade o lúdico com bonecas como tradicionalmente lhes eram ensinados, ou seja, o que anteriormente crianças brincavam de ser mães, hoje se projetam em um ideal promovido pelas indústrias de beleza e comunicação de massa, exemplificado pelo brincar com Barbies.

Lemos (2011) em “A pedagogia do gozo” diz que a mãe quando cria uma criança dentro dos moldes de um ideal de beleza, de imagens do corpo, está nada mais se projetando no filho como um ideal de vida desejado do que propriamente nos desejos da criança. Novamente um outro discurso que reforça a construção de uma subjetividade vazia.

Além de Lipovetsky (1983), quando retrata uma sociedade do excesso, onde não produzem sentidos em suas relações sociais, Bauman (2011) faz um recorte na entrevista citada no texto acima sobre as relações intersubjetivas perante as redes sociais, referido também em seu livro “Vidas desperdiçadas”, a não implicação de sentimentos e compromisso com o outro ser, destinando – o a exclusão quando lhe convir, ao entender do autor que essa relação corpo a corpo produz sofrimento quando se implica profundamente, sendo mais cabível em uma sociedade do descarte quando não mais  se torna útil, além das mercadorias – objeto, descartar  relações quando se tornam indesejadas, relações estas sem produção de sentido, vazias de sentimento.

Enfim, Ramos (2015) traz a frase “Converte – te naquilo que tu és” para explicitar uma sociedade cínica em relação ao consumo, onde o poder ideológico anteriormente disfarçado, hoje não se exalta em mascarar seu objetivo que é produzir cada vez mais frente a uma sociedade marcada pelo consumo exacerbado, onde os próprios consumidores se nomeiam desta forma, além de aceitarem sua condição posta de forma acrítica, gerando o movimento capitalista sem haver uma interrupção. Assim, continua – se a formação de pessoas narcísicas, individualistas e vazias de experiências humanas, sendo apenas mais um produto do sistema.

Sobre o Autor:

Marcelo Rufino Ferreira - Estudante do 6º período de psicologia da Universidade Estadual de Minas Gerais unidade Divinópolis.

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Fronteiras do pensamento. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A. Acessado em 07 de setembro de 2015.

BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas.  Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2005.

CHAVES, Luciano. Delimitação do conceito de subjetividade In “Você é chique, hein!? Mora no centro!!”. 2009.

Vídeo “Criança, a alma do negócio”.  Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KQQrHH4RrNc. Acessado em 07 de setembro de 2015.

LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo. Imago editora LTDA, Rio de Janeiro, 1983.

LEMOS, Inez. A pedagogia do gozo. Portal E – gov, Santa Catarina, 2011. Disponível em: http://www.egov.ufsc.br/portal/conteudo/pedagogia-do-gozo

LEPOVETSKY, Gilles. A era do vazio. Editora Relogio D’água, 1983.

MOREIRA, Jacqueline de Oliveira.  Mídia, espetáculo e sociedade de consumo. A subjetividade pós – moderna e a prisão no corpo: entre o espetáculo e o consumo.  Livro Subjetividades e sociedade: Contribuições da psicologia. CRP - Belo Horizonte, 2015.

RAMOS, Conrado. Converte – te naquilo que és: subjetividade, propaganda e ideologia na sociedade de consumo. Livro Subjetividades e sociedade: Contribuições da psicologia. CRP - Belo Horizonte, 2015, p -104 e 111.