Resumo: Vivemos num momento de inquietudes, como tantos outros na história. Dúvidas, angústias e perguntas sem respostas assolam nossa vida cotidiana. As raízes dessas inquietudes são múltiplas, porém os caminhos para saná-las nem tantos. A violência passou a ser caracterizada como um fenômeno social e despertou a preocupação do poder público e também de estudiosos de várias áreas, tais como: Ciências Sociais, História, Geografia, Economia, Medicina, Psicologia, Direito, entre outros. A violência no Brasil é um dos fenômenos que mais tem preocupado a população nas últimas décadas. A violência não é natural, mas resultado exatamente do desequilíbrio das nossas relações sociais, econômicas e políticas, o mais cruel dos produtos que acabamos gerando em nome do crescimento econômico, da transformação de tudo em mercadoria, da civilização ocidental que se mundializa sob a égide do capitalismo global. A história ensina que a humanidade já passou por períodos pacíficos, revolucionários e violentos, fases em que a guerra e as expressões da violência se fizeram presentes, em diversas civilizações. Cada ação concreta de agressão ou violência permite ritualizar uma ameaça, justificando a reprodução do medo e a adoção de medidas de segurança. Esse estudo tem por objetivo, relatar e identificar o que está desnorteando esse aumento deliberado da violência relacionada a criminalidade, como também as incidências traumáticas de cunho físico, moral e psicológico, vivenciados nesse contexto.

Palavras-chave: Violência, Fenômenos, Humanidade.

1. Introdução

Vivemos em um país muito extenso, privilegiado pela abundância de recursos naturais e pela origem humilde de seus habitantes, porém, ao nosso entender, dois fatores contribuem crucialmente para o alto nível de violência e criminalidade: A elevada concentração da riqueza nas mãos de poucos privilegiados paradoxalmente combinado com a nefasta e degradante Cultura da Ostentação onde só “é” alguém aquele que “tem” riqueza, bens materiais ou ocupa posição de destaque (FARIAS, 2011, p. 04).

 Fachinetto (2010, p. 61), ressalta que vivemos num momento de inquietudes, como tantos outros na história. Dúvidas, angústias e perguntas sem respostas assolam nossa vida cotidiana. As raízes dessas inquietudes são múltiplas, porém os caminhos para saná-las nem tantos. A sociedade sempre teve seus momentos de inquietudes e faz parte também desse processo a busca de suas soluções.

Segundo, Hayeck (2009, p.01), a temática da violência não é um tema sociológico recente, pois são conhecidas diversas práticas violentas usuais na Antiguidade. Essas práticas começaram a serem discutidas a partir do século XIX. Assim, a violência passou a ser caracterizada como um fenômeno social e despertou a preocupação do poder público e também de estudiosos de várias áreas, tais como: Ciências Sociais, História, Geografia, Economia, Medicina, Psicologia, Direito, entre outros.

A violência no Brasil é um dos fenômenos que mais tem preocupado a população nas últimas décadas. Evidências empíricas apontam para um crescimento de quase todos os tipos de crimes, principalmente nos grandes centros urbanos, suscitando estudos em diversas áreas das ciências sociais. Em termos de políticas públicas este crescimento tem significado uma maior proporção de recursos alocados na área de segurança pública em detrimento às demais áreas (Criminalidade, p. 128).

Santos (2011, p. 132), enfatiza que, a partir do exposto sobre agressividade, violência e criminalidade, parece-nos importante avançarmos sobre a problematização e o enfrentamento da realidade brasileira descrita por vários teóricos a partir de termos como, por exemplo, massacre, extermínio, genocídio, guerra civil, guerra urbana.

CONASS (2007, p. 15) relata que a violência não é natural, mas resultado exatamente do desequilíbrio das nossas relações sociais, econômicas e políticas, o mais cruel dos produtos que acabamos gerando em nome do crescimento econômico, da transformação de tudo em mercadoria, da civilização ocidental que se mundializa sob a égide do capitalismo global.

Pickering (2010, p. 101), ressalva que, cabe lembrar, no entanto, que esse fenômeno complexo, chamado violência, sempre existiu e sempre fez parte da humanidade, assim como a agressividade é inerente ao ser humano. A história ensina que a humanidade já passou por períodos pacíficos, revolucionários e violentos, fases em que a guerra e as expressões da violência se fizeram presentes, em diversas civilizações.

Rifiotis (2006, p. 01), cita que, o campo de estudos da violência é um território estratégico para os discursos da contemporaneidade. Ele ocupa um lugar central na luta pela posse do presente, pela compreensão da experiência contemporânea, com seus mundos marginais, a sua dimensão episódica e fragmentária, um tempo marcado pela diferença, pela falta de finalidade das formações sociais. A violência, nas suas múltiplas formas, é representada como um domínio da experiência social que permeia as brechas da crise da modernidade e a busca de alternativas interpretativas para a sociedade contemporânea.

Cada ação concreta de agressão ou violência permite ritualizar uma ameaça, justificando a reprodução do medo e a adoção de medidas de segurança. Mas, paradoxalmente, essas medidas acentuam a insegurança e o medo e provocam novas formas de geri-los, seja na sociedade, seja na escola (TEIXEIRA e PORTO, 1998, p. 51).

A insegurança no mundo moderno está cada vez mais ligada à ascensão da violência, que, por sua vez, promove a base e o fortalecimento de um imaginário do medo. Essas questões – insegurança, violência, medo – vêm ganhando realce nas discussões e produções atuais, na mídia, nas universidades, nas escolas, no cotidiano das pessoas, em virtude das consequências que originam e da aparente falta de controle de que se revestem (TEIXEIRA e PORTO, 1998, p. 51).

Analisando os fatores sociais da ação delituosa, quer seja exógenas (sociais) ou endógenas (internas), é demonstrado que o indivíduo é condicionado a atuar às determinações socioculturais do comportamento. A sociedade os prepara para atuar e também está preparada para recebê-los, mesmo que sejam criminosos (viverão sempre à marginalidade) (GARRIDO, 2002, p. 16).

Apesar de afetar a vida cotidiana de grande contingente de pessoas, o debate em torno das possíveis soluções para o problema da violência urbana tem sido ainda incipiente e pouco tem mobilizado os organismos sociais legitimados, sejam eles pertencentes à esfera governamental ou não (ROSA et. al, 2012, p. 828).

Buscamos analisar a violência como causa e efeito do mal-estar de uma época perpassada por uma crise cuja complexidade, na sua amplitude e profundidade, é possível, apenas, vislumbrar por suas incidências no sujeito, entre outras: o declínio das referências de limite, o individualismo, o consumo excessivo, a crescente explosão de atos violentos. São efeitos que, dialeticamente, incidem no sujeito, modificando as manifestações do seu sofrimento e da sua implicação na constituição e na fragilização dos laços sociais (RODRIGUES, 2011, p. 13).

Em vista do que foi relatado, esse estudo tem por objetivo, relatar e identificar o que está desnorteando esse aumento deliberado da violência relacionada a criminalidade, como também as incidências traumáticas de cunho físico, moral e psicológico, vivenciados nesse contexto.

2. Nos Campos da Violência: da Antiguidade a Contemporaneidade

Segundo Miranda (2014, p. 01), a violência é um problema social global, que atravessa a história humana, sendo encontrada em todas as sociedades e tradições culturais. Os fatos históricos e os modelos políticos apontam para a existência marcante de violência desde o momento em que Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil até a instauração do governo geral, em 1549. De fato, foram muitas as formas de violência vivenciadas no período colonial, onde nossa sociedade dividia-se em homens livres e escravos, grandes proprietários de terra e subalternos, populações indígenas e povos sendo fortemente catequizados, colonizadores e colonizados (CADERMARTORI e ROSO, 2012, p. 398).

Costa (2011, p. 15), ressalva que, considerando-se ainda a amplitude dos fatores que envolvem a violência, ela pode ser pensada e repensada, fazendo-se relações com a história, a educação, a política, a religião e até mesmo com a história do poder que acompanha a evolução da civilização humana.

Se a utilização da violência se faz presente na sociedade brasileira, as desigualdades sociais também se mantêm e se perpetuam ao longo de nossa história, culminando em vastos processos de exclusão e segregação social. Podemos dizer que as violências são uma herança, deixada por nossa antiga forma de organização social (CADEMAROTI e ROSO, 2006, p. 414).

A violência é, de fato, algo indelével da experiência humana; o que não significa banaliza-la e favorecer uma “naturalização” deste ato, mas sim questionar todo exagero e intolerância destinados a ela, sustentados pelo quadro de medo da violência no qual a sociedade atualmente se encontra (MIRANDA, 2014, p. 05).

Se por um lado a violência é parte intrínseca e estruturante do homem, por outro é necessário contê-la, em nome da civilização. O homem precisou conter sua violência inata, uma vez que, se não houvesse tal repressão, não haveria cultura. O modo encontrado pelo homem de fazer tal contenção sustenta-se nas diversas formas de organização humana, quais sejam: as instituições sociais, familiares, de ordem religiosa, educacional, entre outras (ROSÁRIO, 2011, p. 45).

Para o cientista, a violência é parte intrínseca da vida social e resultante das relações, da comunicação e dos conflitos de poder. O fato que reforça este argumento é o de nunca ter existido uma sociedade sem violência. A violência, conceitualmente, é um processo social diferente do crime (embora, em muitos momentos, estes fenômenos se apresentem juntos). Ela é anterior ao crime e não é codificada no Código Penal (MIRANDA, 2014, p. 04).

Na sociedade brasileira, o crescimento da violência urbana, em suas múltiplas modalidades – crime comum, crime organizado, violência doméstica, violação dos direitos humanos, vem se constituindo uma das maiores preocupações sociais nas duas últimas décadas (SUDBRACK, 2005, p.112).

A violência, contudo, assim como existe em toda sociedade e em todas as relações humanas, consequentemente, também se apresenta em todas as classes sociais. Já a segurança, envolvendo atualmente muros altos... carros blindados... câmeras de vigilância... segurança privada... privilegia (e pode-se dizer que se destina), basicamente, à classe média (MIRANDA, 2014, p. 08).

Considera-se como sendo verdadeira a afirmação de que a violência e a criminalidade são dois fenômenos mais debatidos na sociedade brasileira e que vem gerando grande preocupação, tanto no poder público quanto nos cidadãos em geral. No entanto, cabe perguntarmos de que violência e de quais crimes estamos falando, pois, muitas vezes, poderemos acreditar erroneamente que se trata dos atos cometidos pelas camadas empobrecidas. Tal fato pode gerar políticas que apenas mascaram o problema (CADEMARTORI e ROSO, 2012, p. 398).

Este aumento da criminalidade, acompanhado de uma generalizada emergência do sentimento de insegurança, corresponde no tempo ao crescimento econômico e à explosão do consumo, ao crescimento das cidades e à desagregação do tecido social urbano, à alteração dos modos de vida e, mais profundamente ainda, dos valores. Mudanças a que se associa um conjunto de indicadores de uma eventual e muito mencionada crise das sociedades ocidentais, como o enfraquecimento e a desorganização das estruturas familiares, a pobreza e a exclusão social e a toxicodependência (LOURENÇO, 2010, p. 02).

Há hoje uma consideração partilhada de que as profundas transformações nas formas e intensidade das ameaças à segurança das sociedades contemporâneas exigem uma nova e reforçada capacidade de resposta institucional e a promoção de uma diferente cultura de segurança – não certamente de uma ideologia securitária – por parte da comunidade nacional e internacional (Lourenço, 2010).

A criminalidade tem se agravado dia apos dia no Brasil, afetando drasticamente a vida de seus cidadãos pela imposição de fortes restrições econômicas e sociais, além de causar uma generalizada sensação de medo e insegurança (SANTOS e KASSOUF, 2008, p. 02).

Buoro (1999) citado por Hayenck (2009, p. 02), explicita que a violência se tornou algo ligada ao nosso cotidiano e assim, passamos a acreditar que o mundo nunca foi tão violento como atualmente. Como estamos tão envolvidos com a violência, nós deixamos de ampliar o tempo histórico, obtendo-se assim, esta visão incorreta.

A complexidade do tema torna difícil seu dimensionamento. Quando mencionamos a violência, pensamos logo em algo físico, na agressão física, mas não é somente ela o motivo do medo. O que dizer da violência de deixa marcas na alma? Aquela violência que não é visível no corpo, mas somente quem a vivenciou tem autoridade para defini-la? (COSTA, 2011, p. 11).

Portanto, Maffesoli (1978, 1981, 1987) citado por Teixeira e Porto (1998, p. 07) trata a violência do ponto de vista do seu dinamismo interno, como herança comum a todo e qualquer conjunto civilizacional, estruturando constantemente a vida em sociedade. Constitui-se em força e potência, motor principal do dinamismo social, que remete ao confronto e ao conflito. A luta é o fundamento de toda relação social e se manifesta em instabilidade, espontaneidade, multiplicidade, desacordos, recusas.

3. Atores e Atos da Violência

A violência é recorrente ao longo da história humana cujas marcas inequívocas, em suas manifestações, acompanham o processo civilizatório. Não se trata muito menos de um fenômeno contemporâneo, no entanto, tornou-se uma das causas fundamentais de inquietação da vida cotidiana (RODRIGUES, 2011, p. 11).

As explicações para a violência e o crime não são fáceis. Sobretudo, é necessário evitar a armadilha da generalização. Não existe o crime, no singular. Há uma diversidade imensa de práticas criminosas, associadas a dinâmicas sociais muito diferentes. Por isso, não faz sentido imaginar que seria possível identificar apenas uma causa para o universo heterogêneo da criminalidade (SOARES, 2006, p. 93).

Buscamos analisar a violência como causa e efeito do mal-estar de uma época perpassada por uma crise cuja complexidade, na sua amplitude e profundidade, é possível, apenas, vislumbrar por suas incidências no sujeito, entre outras: o declínio das referências de limite, o individualismo, o consumo excessivo, a crescente explosão de atos violentos. São efeitos que, dialeticamente, incidem no sujeito, modificando as manifestações do seu sofrimento e da sua implicação na constituição e na fragilização dos laços sociais (RODRIGUES, 2011).

Segundo CONASS (2007, p. 11) a violência pode ser classificada, também segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), em três categorias: violência dirigida contra si mesmo (auto infligida); violência interpessoal (classificadas em dois âmbitos: violência intrafamiliar ou doméstica – entre parceiros íntimos ou membros da família, e violência comunitária – que ocorre no ambiente social em geral, entre conhecidos e desconhecidos) e violência coletiva (atos violentos que acontecem nos âmbitos macrossociais, políticos e econômicos, caracterizados pela dominação de grupos e do estado). Quanto à natureza, os atos violentos podem ser classificados como abuso físico, psicológico, sexual e envolvendo abandono, negligência e privação de cuidados.

A natureza dos atos violentos, que pode ser: 1) física; 2) sexual; 3) psicológica; 4) relacionada à privação ou ao abandono.   Por exemplo, a violência contra crianças praticada nos lares pode incluir abuso físico, sexual e psicológico, como também abandono. A violência na comunidade pode incluir ataques físicos entre jovens, violência sexual em locais de trabalho e abandono de idosos por longo tempo em instituições. A violência política inclui estupros em conflitos e guerra física e psicológica (DAHLBERG e KRUG, 2007, p. 1.166).

Porém, Sudbrack (2011, p. 121) relata que o modelo brasileiro de sociedade compõe-se de distanciamento social, diferenciação de possibilidades econômicas e de acesso à Justiça. É um sistema complexo e relacional de hierarquias que transformam em naturais as brutais desigualdades de classe, cor, gênero, sexualidade, dentre outras.

Na sociedade brasileira, o crescimento da violência urbana, em suas múltiplas modalidades – crime comum, crime organizado, violência doméstica, violação dos direitos humanos, vem se constituindo uma das maiores preocupações sociais nas duas últimas décadas (SUDBRACK, 2011, p.112).

A partir do exposto sobre agressividade, violência e criminalidade, parece – nos importante avançarmos sobre a problematização e o enfrentamento da realidade brasileira descrita por vários teóricos a partir de termos como, por exemplo, massacre, extermínio, genocídio, guerra civil, guerra urbana (SANTOS, 2011, p. 132).

Qualquer que seja o diagnóstico local sobre a dinâmica da criminalidade, será sempre indispensável reconhecer a multiplicidade de dimensões envolvidas: desde a economia à saúde, da estrutura familiar às escolas, do cenário urbano à disponibilidade de transporte, das condições habitacionais ao acesso ao lazer, das oportunidades de emprego às relações comunitárias, do perfil psicológico predominante, em cada situação típica, ao potencial cultural presente nos movimentos musicais ou estéticos da juventude. Nada disso deve ser examinado de uma perspectiva genérica e abstrata, mas de modo bem concreto, segundo as manifestações específicas do território em questão – e de seus habitantes (SOARES, 2006, p. 96).

Atualmente, a violência não possui um locus específico. Ela está presente tanto nos bairros mais sofisticados quanto nas favelas, ela abrange o centro e a periferia, perpassando pelas diversas classes sociais. Vários tipos e formas de violência são noticiados e espetacularizados, dentre elas podemos citar algumas, tais como: roubos, furtos, assassinatos, sequestros, guerras, atentados, terrorismo, violência física, violência sexual, violência psicológica, tortura (muito utilizada por regimes autoritários e o durante períodos ditatoriais), violência policial, dentre outras, sendo estas, demonstrações de produções modernas da violência (ODALIA 1985 citado por HAYENCK, 2009, p. 05).

Todavia, não podemos nos ater a um discurso social de uma violência única e singular, e sim como um fenômeno inscrito na realidade do mundo social que se expressa de diversas maneiras. Contudo, é preciso pensar o fenômeno da violência e suas causas como um elemento plural. Por acreditarmos que este fenômeno é um fator proveniente de múltiplas causas, podemos destacar: o mau funcionamento da Justiça, impunidade, colapso da educação e da saúde, corrupção, influência da mídia, crescimento das cidades, egoísmo, ineficácia de políticas públicas das práticas de intervenção e prevenção da violência, conivência silenciosa dos envolvidos (das vítimas, dos demais, dos profissionais), entre outros (HAYENCK, 2009, p. 07).

Contudo Cadematori e Roso (2012, p. 414), relata que a incidência do crime e da violência não se restringe aos estratos mais empobrecidos de nossa sociedade, isto quer dizer que não se trata meramente de uma questão de classe social, pois sabemos que violências e crimes podem ser praticados tanto por pobres como por ricos. O que parece estar em jogo, quando nos deparamos com a explicação dada às causas da violência e da criminalidade por meio da pobreza, é uma espécie de mix de reducionismos, sempre associado a arraigados preconceitos.

Não há um fator único que explique por que alguns indivíduos se comportam violentamente com outros ou por que a violência é mais comum em algumas comunidades do que em outras. A violência é o resultado da complexa interação dos fatores individuais, relacionais, sociais, culturais e ambientais (DAHLBERG e KRUG, 2007, p. 1.172).

4. Fatores Condicionantes da Violência: Biológicos, Psicológicos e Sociais

A formação de sociedade brasileira foi, historicamente, violenta. A exclusão social e política, a dominação e as desigualdades econômicas, sociais e culturais, que têm origem já no início da colonização, são formas de violência. Toda prática e toda ideia que reduza um sujeito à condição de objeto, que viole alguém interna ou externamente é violência e, neste sentido, somos todos vítimas e agentes da violência, em grandes e pequenas coisas do cotidiano (ECHENIQUE, 1998, p. 01).

O fato é que torna-se inviável dividir em grupos ou teses os fatores que levam à violência uma vez que não são somente os fatores individuais que determinam a existência da violência, como se o mundo fosse um todo harmonioso que é frequentemente ameaçado pela conduta má do Homem mal e perverso (CAVALLI, 2010, p. 04).

Se há causas sociais que geram violência, também é verdade que o comportamento violento não pode ser atribuído a uma única causa – genética, biológica, social ou psicológica (ECHENIQUE, 1998, p 01).

Como o ambiente pode extinguir ou recompensar determinados comportamentos, por meio da aprendizagem em um ambiente estimulante, indivíduos com vulnerabilidade biológica ao desenvolvimento do comportamento agressivo e antissocial podem adquirir comportamentos mais adaptativos (MENDES et. al., 2009, p. 82).

Interpretando os fatores biológicos como representantes da personalidade da pessoa, será possível articular este aspecto constitucional com outros níveis da personalidade, bem como com os níveis do ato transgressivo e com o significado deste (MENEZES, p. 17).

Mendes et. al (2009, p. 78) relata que com a elucidação de mecanismos biológicos (genéticos e neurofisiológicos) implicados no comportamento agressivo, por meio dos estudos atuais de neurociências, conclui-se que os fatores sociais e ambientais não são exclusivos para explicar o desenvolvimento do comportamento violento e antissocial. O que de fato ocorre é a interação entre fatores biológicos e socioambientais na modulação do comportamento violento.

Estatisticamente, observa-se, no mundo inteiro, que os homens são os que recorrem mais frequentemente à violência física. Adolescentes e adultos jovens do sexo masculino são os responsáveis pela maioria dos assassinatos, lesões corporais graves ou violência sexual. São também os maiores usuários de drogas de todo o tipo (ECHENIQUE, 1998, p. 04).

A interação entre fatores biológicos e ambientais pode ser catalisada por um ambiente hostil, aumentando os riscos para o desenvolvimento de comportamentos agressivos. Por outro lado, um ambiente favorável ao desenvolvimento pode moderar características genéticas desfavoráveis, reduzindo o desenvolvimento da agressividade (MENDES et. al., 2009, p. 83).

Contudo, Menezes (pág. 17) ressalta que no que diz respeito ao nível neuroendócrino, a hormônio mais relacionado á agressividade é a testosterona. A pesquisa verifica os níveis desse hormônio tomando por base três comparações; entre criminosos, entre criminosos e não criminosos (grupo controle) e entre não criminosos relacionando-se com a agressividade e não agressividade.

Da mesma forma que seus impactos, algumas causas da violência são facilmente constatadas. Outras estão profundamente enraizadas no tecido social, cultural e econômico da vida humana. Pesquisas recentes sugerem que, enquanto fatores biológicos e vários fatores individuais explicam a predisposição para a agressão, com frequência tais fatores interagem com fatores familiares, comunitários, culturais ou outros fatores externos, criando situações em que a violência pode ocorrer (DAHLBERG e KRUG, 2007, p. 1164).

Não podemos assim responder se o homem violento é produto do meio em que vive ou se ele forja tal meio ao seu talante, ou seja, se o meio é produto do homem; no entanto, com certeza, podemos dizer que a grande massa de miseráveis, principalmente aqueles que coabitam em favelas, convivem no seu dia a dia com um alto grau de violência, comparável somente a Estados que se encontram em constante guerra (MENEZES, 2000, p.25).

As estruturas e os valores sociais modelam as opções individuais. As crenças e atitudes de um grupo social ou de uma cultura, bem como os sistemas não-verbais de significado, os mitos, ritos e metáforas – que dão ordem à experiência e sentido à vida – são constituintes da subjetividade de seus membros. Na oferta de papéis e contra papéis da Matriz de Identidade, a criança é conduzida a funcionar de determinada maneira, em consonância com as expectativas, os valores, os ideais e os laços sociais de uma comunidade, de um grupo, de uma nação (ECHENIQUE, 1998, pág. 03).

As manifestações ou expressões da questão social, na forma da discriminação contra índios e negros, na questão de gênero, na fome, na miséria, na falta de emprego, são consequências de uma violência estrutural. Por isso, o sujeito, antes de cometer uma violência, já é anteriormente violentado, quando não tem acesso a educação, saúde, trabalho e outros direitos fundamentais à sobrevivência (CAVALLI, 2010, p. 08).

Diferentemente da violência física, a violência moral e psicológica tem menor visibilidade, pois as decorrências não são percebidas de imediato, vindo a sê-lo em estado avançado, quando ocorrem evidências de depressão, dependência química e suicídios. Crianças, idosos e deficientes são as potenciais vítimas no círculo escolar ou familiar. Existe violência explícita quando há ruptura de normas sociais estabelecidas a esse respeito: contudo não é um conceito absoluto, variando entre os diferentes grupos. A violência está contida em todos os círculos, diferentes níveis sociais e organizações humanas: na política, no trabalho, na família, dentro ou fora dos muros (ALVES, 2009, p. 01).

Quando falamos de violência psicológica referimo-nos a um comportamento (não-físico) específico por parte do agressor, seja este agressor um indivíduo ou um grupo específico num dado momento ou situação. Muitas vezes, o tratamento desumano tal como rejeição, depreciação, indiferença, discriminação, desrespeito, punições (exageradas), pode ser considerado como um grave tipo de violência. Esta modalidade, muitas vezes não deixa (inicialmente) marcas visíveis no indivíduo, mas pode levar à graves estados psicológicos e emocionais. Muitos destes estados podem se tornar irrecuperáveis em um indivíduo, de qualquer idade (ALVES, 2009, p. 01).

Porém, Alves (2009, p. 01) enfatiza que as crianças são mais expostas à violência psicológica, tendo em vista que dispõem de menos recursos que lhe garantam a proteção, assim como os adolescentes também são vítimas da mesma situação por motivos semelhantes às crianças. Mesmo indivíduos adultos podem sofrer as mesmas consequências danosas. Um exemplo claro disto são as situações de assédio moral. As mulheres são comumente vítimas da violência moral e/ou psicológica dentro do ambiente de trabalho, muitas vezes em decorrência do assédio sexual a que são submetidas. Sua atuação e capacidade profissional são colocadas em xeque, desmerecidas publicamente, gerando maus resultados na avaliação do desempenho do trabalho.

Portanto, as séries complementares do desenvolvimento dos indivíduos - instintos, família, costumes comunitários, sistema socioeconômico - todos amalgamados determinam vicissitudes de caráter e de conduta dificilmente reversíveis. Temos aí, referidas de relance, as ciências básicas do homem: a Biologia, a Psicologia, a Ecologia, a Antropologia, e a Sociologia. Quando ocorre uma falha na interação dessas séries complementares, o que pode sobrevir é o transtorno no engajamento pessoal, dificultando a colaboração coletiva a favor das transformações do ambiente, que se faz através das influências renovadoras. E então o indivíduo - ante a angústia de sentir-se ameaçado de marginalização, se a comunidade o abandona impiedosamente à sua imaturidade psicológica, deixando-o entregue à indigência de seus recursos naturais de aprendizagem para a vida - ou reagirá destrutivamente contra a sua organização comunitária ou se retrairá como unidade social e se apagará no autismo. Noutras palavras: ou se extravia no crime, ou se desagrega na psicose (MENEZES, p. 22).

3. O Papel do Psicólogo Frente à Violência

Embora a violência tenha estado sempre presente, a humanidade não deve aceitá-la como um aspecto inevitável da condição humana. Juntamente com a violência, sempre houve sistemas religiosos, filosóficos, legais e comunitários que foram desenvolvidos a fim de preveni-la ou limitá-la. Nenhum deles foi completamente eficaz, mas todos deram contribuições a esse traço definidor da civilização (DAHLBERG e KRUG, 2007, p. 1.164).

Com base em análise de artigos relacionados ao tema abordado, podemos ressalvar que são muitas as intervenções voltadas para a prevenção, promoção, e atendimento as vitimas de violência, porem os atendimentos específicos voltados e direcionados para a questão emocional dessa vitima, ainda caminha a passos lentos. Sabe-se ainda que existe  diversos programas do governo federal  em pleno funcionamento que tem como  objetivo principal o combate à violência por meio de propostas preventivas e interventivas. Ainda que o governo através de ações voltadas para esse problema social em nosso país, por meio de programas de atendimento a vitimas de violência, realizado pela crescente inserção do psicólogo atuando diretamente nesse contexto, sabe-se que a viabilidade para se ter esse profissional atuante, muitas vezes é impossibilitada devido a falta de recursos que são disponibilizadas para que tais programas tenham total e pleno funcionamento.

A violência causa muitos danos àqueles que são submetidos a ela, tais como: danos físicos, danos emocionais e, em última instância, a morte. Sobremaneira, faz-se necessário medidas mais determinadas e expressivas neste contexto, onde o psicólogo atuando diretamente nesse enfrentamento dessa violência é de e irrelevante necessidade as para vitimas.

A dificuldade em desenvolver técnicas para o atendimento psicológico não se restringe ao enfrentamento da violência como também a falta de preparo e treinamento desse  profissional para atua diretamente neste contexto.

Desse modo a atuação desse profissional em relação a essa vitima é feito de forma que tenham como objetivo acolher e prestar assistência a essa vítima, buscando fortalecer sua auto-estima, resgatando seu diretos de cidadão dentro da sociedade ao qual ele pertence. Pois o medo e a insegurança, gerados pela experiência com a violência, só efetivamente serão enfrentados por meio de ações integradas dos órgãos de segurança pública, como sugere Baierl (2008, p. 13).

Segundo, o Código de Ética da Psicologia, nos seus “Princípios Fundamentais”, prevê a responsabilidade do profissional dessa área ao mencionar que “o psicólogo trabalhara visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e da coletividade e contribuirá para a eliminação de quaisquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”. Da mesma maneira o art. 2º veda a participação ou a conivência com “quaisquer atos que caracterizem negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade ou opressão”.

4. Considerações Finais

A cultura da violência é difundida desde os primórdios da humanidade. Sendo vista como meio de educação, dominação e recuperação dos infratores. Diante dessa realidade, os anos de aprendizado acadêmico se colocam frente a frente, em choque, visto que para a psicologia a violência traumatiza, deprime, desfigura e dilacera o indivíduo, tirando da sua normalidade, levando ao desespero, desamparo, tristeza e por vezes a perca de sua sanidade, e também em casos mais graves, como óbitos.

O que fazer? Como levar paz para os lares? Para o ser humano a afetividade é primordial para um desenvolvimento saudável. Assim, vale ressaltar a transmissão desse conhecimento, tornando o nosso trabalho um meio de transformação social, em nome do nosso objetivo profissional, que em qualquer área de atuação é promover o equilíbrio das relações entre o indivíduo consigo mesmo e com seus semelhantes.

Referências:

ALMEIDA, M. G. B (organizadora), A violência na sociedade contemporânea, 2010.  Porto Alegre : EDIPUCRS – Editora Universitária da PUCRS. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Disponível em: < http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/violencia.pdf>. Acesso em: 25/08/2014.

ANTUNES, G., Breves considerações sobre o que é violência, 2013. Disponível em: <http://www.urbalpernambuco.org/adm/public/files/biblioteca/Artigo-sobre-Violencia--20110513113335.pdf>. Acesso em: 20/08/2014.

BAIERL, L. F., Medo social: da violência visível ao invisível da violência, 2008. São Paulo: Cortez. Disponível em: < revistas.pucsp.br/index.php/pontoevirgula/article/download/.../10438>. Acesso em: 08/09/2014.

CADEMARTORI, A. C.; ROSO, A., Violência, criminalidade e relações de dominação: do Brasil colônia ao Brasil contemporâneo.  Disponível em: <periodicos.unb.br/index.php/SER_Social/article/download/6514/6483>. Acesso em: 21/08/2014.

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