Resumo: O presente artigo tem como objetivo, dentro do contexto da psicologia social, trazer à baila a discussão acerca da relação entre misoginia, patriarcalismo e violência de gênero. Nesse contexto, esclarecendo qual é o objeto da Psicologia Social, quais as consequências da conduta social. Tecendo uma compreensão do significado de gênero, relação de gênero e violência de gênero, assim como acerca do histórico de como foi construída a inferioridade feminina e a relação da misoginia com a violência de gênero.

Palavras-chaves: Misoginia, patriarcado, violência, gênero

Abstract: This article aims, within the context of social psychology, brought up the discussion about the relationship between misogyny, patriarchy, and gender violence. In this text, explaining what the object of Social Psychology, the consequences of social conduct. Weaving an understanding of the meaning of gender, gender relations and gender violence, as well as about the history of how it was built female inferiority and the relationship of misogyny and its relation to gender violence.

Keywords: Misogyny, patriarchy, violence, gender

1. Objeto de Estudo da Psicologia Social

A psicologia social tem como objeto de estudo a interação entre as pessoas, as consequências cognitivas e comportamentais, ou seja, como a atitude de um pode influenciar o outro, positiva ou negativamente, modificando o comportamento, pois se relaciona com os processos mentais superiores, no que diz respeito a expectativa, pensamento, julgamento, bem como processamento da informação (RODRIGUES, et all, 2009).

Acerca do objeto de estudo da psicologia social, Hollander (2000, p.17) esclarece: Los seres humanos están necessariamente orientados hacia otros seres humanos dentro de su médio, y la influencia social se manifesta cada vez que um individuo responde a la presencia real o implícita de outro u otros.

2. Conduta Social

No que se refere à conduta social, a qual está intrinsecamente ligada ao estímulo de outra ação, Hollander (idem, p.28), afirma:

...la conducta social depende de la influencia de otros indivíduos y la interacción social es uma de las claves de este processo. Si la conducta social es uma respuesta al estímulo social producido por otros, incluídos los símbolos que ellos transmitem, la interacción social puede ser concebida como una secuencia de esas relaciones de estímulo-resposta. La conducta de uma persona es el estímulo para la respuesta de otra.

A violência, como conduta social, pode ser reproduzida no contexto intergeracional, como afirma Gomes, et al, p. 3:

...pais que utilizam a punição como medida disciplinar mostram para os filhos que a violência consiste numa forma apropriada para resolver seus conflitos... como não foram aprendidos outros modelos de relações familiares, homens e mulheres tendem a reproduzir historias de violências vivenciadas na infância e adolescência (...)Enquanto instituição social básica  que determina o desenvolvimento do indivíduo, a família... pode ao mesmo tempo ser  fator de proteção ou de risco.

Nesse contexto, a violência é um dos aspectos da conduta social, que produzirá um estímulo-resposta. Ela produz um dano ao outro e este, por sua vez pode reagir da mesma forma utilizando a violência ou permanecer passivo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), violência é definida como:

O uso intencional da força física ou do poder, real ou em ameaça contra si próprio, contra outra pessoa ou contra grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação. (KRUG et al ,2002,p.5, apud OKABE, 2010,17-18).

3. Entendendo gênero, relação de gênero e violência de gênero:

No que se refere a violência de gênero, Molina (2013, p.10),) assim esclarece: “...es el deseo de dominar, humillar y someter no por controlar um posible peligro sino sólo por dominar, humillar y someter porque así debe ser o me es placentero.”

Necessário se faz compreender a origem da palavra gênero. Martínez (2013), afirma que a palavra gênero origina-se do latim, verbo generare, engendar e prefixo também latino gener, que significa raça, classe. O psiquiatra e psicólogo John Money, em 1952, foi quem criou a palavra gênero e a lançou em sua tese de doutorado, na Universidade de Harvard.

Para Molina (2013), referir-se a gênero é remeter-se a uma categoria relacional, porque está inserido a diferenciação social entre homens e mulheres no contexto cultural de qualquer sociedade. Sexo e gênero são termos diferentes. O primeiro diz respeito à genitalidade e o segundo abarca o contexto cultural, ou seja o conjunto de normas e comportamentos no que se refere a homens e mulheres.

Scott (1989) esclarece que desde o século XVIII se começou a teorizar sobre categorias sociais, mas a conceito de gênero somente foi abordado no final do século XX.

No entendimento de Scott (1989),  gênero está dividido em duas partes. A primeira é elemento que constitui as relações sociais, quando se tem a percepção da diferença entre os sexos e aqui ela afirma que possui ainda quatro partes, sendo a primeira como símbolo culturalmente disponível, com varias representações e contraditórias, sendo uma destas contradições, como a autora exemplifica,  Maria e Eva, como símbolos da pureza e do pecado. A segunda são os conceitos normativos, o sentido de masculino e feminino que são disseminados nas doutrinas religiosas, educativas, políticas, científicas etc., como modelos incontestes. A autora exemplifica o modelo vitoriano de mulher do lar como algo imutável. A terceira é romper com a fixidez dos papéis ditos masculinos e femininos. A autora critica a visão de alguns antropólogos que fixou no parentesco, na família, como fundamentos da relação social, pois em seu ponto e vista deve incluir o mercado de trabalho, o sistema político e a educação, também como formadores da relação social. A quarta está relacionada com a legitimação das relações sociais, baseada no gênero.

A segunda parte a que Scott se refere está relacionado a gênero e poder. A autora toma como exemplo as ações do Estado paternalista que cria leis de proteção às mulheres e crianças. No século XIX os burgueses referiam-se às mulheres como subordinadas e fracas. Os operários socialistas, referiam-se aos homens da classe operaria como fortes e protetores das mulheres e crianças, cultura essa que se difundiu nas demais culturas, ou seja, que as mulheres assim como as crianças necessitavam de proteção, porque eram frágeis e isso difundiu-se culturalmente.

Scott, apud Martínez (2013, p.84)) assim ainda esclarece acerca da relação a  gênero: “..las relaciones de género forman parte del poder, es decir, el significado del género se construye desde el poder y, a su vez, el significado del poder se constuye desde las relaciones de gênero.

No âmbito da violência de gênero envolve vários tipos de violência, dentre elas, a violência física que representa qualquer forma de agressão à integridade física. E violência psicológica que causa o dano emocional, ocasionando a diminuição da autoestima (MOLINA, 2013).

…a violência física é entendida como toda ação que implica o uso da força contra a mulher em qualquer circunstância, podendo manifestar-se por pancadas chutes, beliscões, mordidas, lançamento de objetos, empurrões bofetadas, surras, lesões com arma branca, arranhões, socos na cabeça, feridas, queimaduras, fraturas lesões abdominais e qualquer outro que atente contra a interidade física produzindo marcas ou não no corpo. (CASIQUE e FUREGATO, 2006, apud BORIN, 2007, p.38)

No que se refere aos danos à saúde da mulher que violência psicológica pode acarretar, Casique e Furegato 2006 apud Borin 2007, p. 41, assim esclarece:

A violência psicológica, pode acarretar problemas mais graves no que se refere à saúde mental da mulher,  porque destrói a auto-estima da mulher expondo-a a um risco mais elevado de problemas mentais, como depressão, fobia, estresse pós-traumático, tendência ao consumo de alcohol e drogas. (CASIQUE e FUREGATO, 2006, apud BORIN, 2007, 41).

Minayo e Souza (1999), apud Oliveira & Araújo (2010), afirmam que o problema da violência é cultural e histórico, uma vez que é um fenômeno que se produz e reproduz o meio das estruturas sociais de dominação, inserido num contexto patriarcal.

A questão da violência de gênero começou a ser ventilada e debatida no Brasil, na década de 80, por meio dos movimentos feministas, especialmente a violência de gênero, uma vez que a grande maioria das vítimas são mulheres e também porque os agressores, não recebiam punição. Chauí, apud Oliveira & Araújo (2010, p.106), no que diz respeito à violência, informa que esta implica uma relação de forças e a compreende por dois aspectos:

No primeiro define-a como uma conversão de uma diferença ou uma assimetria numa relação hierárquica de desigualdade, com fins de dominação, exploração e opressão e no segundo aspecto, a violência é concebida como uma ação que trata o ser humano não como um sujeito, mas como uma coisa. Chauí, ainda acrescenta que a violência se instala quando ocorre inercia e passividade por parte da vitima, pelo fato dela está se sentido coagida a não falar e não reagir.

Vários termos são utilizados para compreender a violência contra a mulher, entre eles a violência de gênero, violência doméstica e violência conjugal. Este último foi conceituado assim, porque está inserido num contexto de uma relação afetiva e sexual (NARVAZ, KOLLER, 2004, apud PUTHIN; AZEVEDO, 2009).

A violência conjugal, mesmo em pleno século XXI, ainda é considerada um tabu (inabordável), uma vez que há muitos casos em que a mulher sofre e não denuncia, por vários motivos. É um fato que ocorre em todas as classes sociais, em todas as épocas e em todo o mundo e fatores sociais, tais como, sócio-econômico, politico-ideológicos, culturais e educacionais, são preponderantes no surgimento e na manutenção desse tipo de violência (BRAGHINI, 2000, apud PUTHIN; AZEVEDO, 2009).

Azevedo, 1985, apud Puthin; Azevedo, 2009 afirmam que existem outros fatores que fazem perpetuar a violência contra a mulher. O fator ideológico, como o machismo que legitima e considera normal a supremacia e força do homem sobre a mulher, no qual está inserida a família patriarcal e nesta a educação diferenciada de meninos e menina.

Saffioti & Almeida, 1995, apud Araújo (2008), esclarecem que foi a partir da década de 90 que o termo violência de gênero passou a ser utilizado, como termo mais abrangente, também conhecido como violência conjugal.

4. Poder x patriarcalismo

De acordo com Martínez (2013), a dinâmica do poder, está inserido na violência de gênero e esta inclui o desejo de dominar e submeter o outro.

Foucault, apud Martínez (idem), esclarece que o poder trata-se de uma relação social, onde alguém, utilizando-se de artifícios impõe ao outro a submissão e obediência, relação esta que ocorre num contexto histórico, onde está embutido valores, crenças e saberes, que sustentam as práticas sociais. Quem tem o poder possui domínio sobre o outro e este, por sua vez, confirma o poder quando aceita ser dominado. Dessa maneira está alicerçado a relação de poder. E este é legitimado pela autoridade e dentro desta encontra-se o patriarcado.

El patriarcado es un sistema de opresión y dominación construído desde, por y para los hombres. Com uma visión androcéntrica del mundo, a lo largo de muchos siglos se fue construyendo um orden social basado en la condición de inferioridade atribuída a las mujeres em relación a los varones. (MARTÍNEZ, 2013, p.56)

Para Molina (2013), um dos pressupostos básicos do patriarcado é a legitimação do uso da violência, que tem como finalidade manter o poder e o controle. É a supremacia do masculino sobre o feminino e que esta lhe deve obediência.

Essa questão da supremacia masculina sobre o feminino, vem de muito longe, os filósofos, teólogos e até cientistas de variadas épocas tinham uma percepção da mulher como um ser inferior.

5. Compreendendo as origens da construção da inferioridade e discriminação feminina

As religiões, filósofos e até cientistas contribuíram para a construção da inferioridade e submissão da mulher em relação ao homem e que se arrasta até os dias atuais, como uma marca, nódoa difícil de tirar, porque enraizou culturalmente e socialmente.

Aristóteles, na obra Ética a Nicómano, aponta que a amizade entre um homem e uma mulher, fundamenta-se  pela superioridade. A mulher é inferior aos homens em tudo. O sêmen do homem é o responsável pela formação da identidade e a essência de um ser e mulher é um mero receptáculo do corpo desse ser. E ainda afirma que as mulheres não possuem alma, são apenas um corpo. Somente os homens possuem alma, e as mulheres por não a possuírem eram tratadas como coisa, sua tarefa era apenas de procriar (MARTÍNEZ, 2013).

Platão, na obra Timeu escrita em 360 a.C, também era preconceituoso em relação a mulher. Nessa obra ele aborda a questão da alma e esta se divide em três partes. A racional, alojada na cabeça, onde brota o conhecimento, a segunda concuspicível, instalada no ventre, de onde se originam os desejos e a terceira irascível, localizada no peito, onde se desenvolve a coragem e a valentia. Então, por meio desse discurso, o homem é o ser possuidor de alma racional e irascível, ou seja,  é o único que possui o conhecimento e valentia. Homens que foram covardes, em uma outra vida serão castigados e virão como mulher. Nesse sentido, a mulher é um castigo de demiurgo (deus) e será possuidora de alma concuspicível, dos desejos, sua única função é procriar (MARTÍNEZ, idem).

As religiões, judaísmo, cristianismo e islamismo, afirmam que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança e a mulher é apenas sua companheira, entendendo-se que o homem tem mais importância que a mulher e que Deus é masculino e por isso deve-se chamar-se pai (MOLINA, 2013).

Freud, assim como Platão, também acreditava na inferioridade congênita das mulheres, quando afirmava que o clitóris seria um pênis atrofiado. E ainda que as mulheres tinham inveja dos homens por não possuírem pênis. Isso só seria superado com o casamento e o nascimento de um filho (MARTÍNEZ, 2013).

Molina (2013), afirma que na Idade Média, a mulher além de ser moralmente débil, no aspecto físico causava enfermidades, entre elas a menstruação, porque esta representava os demônios que eram expulsos pela vagina. Por conta disso, seu comportamento era conduzido pela igreja e vigiado por seu marido que ditava as normas.

Nos textos hindus, na Ásia, quando o marido morre a mulher deve imolar-se, como se após a morte de seu esposo, ela não tivesse condições de continuar vivendo. Em outros textos afirmam que a mulher, quando o marido morre, se tem filhos varões, ela deve submeter-se ao poder destes (MOLINA, 2013).

Para Santo Tomás de Aquino, a mulher está sujeita ao homem, por esse motivo os filhos devem amar mais o pai que a mãe. Acrescenta ainda que a mulher ao engravidar e gerar um menino, a alma penetra o feto no vigésimo dia. Se engravida de uma menina, a alma é penetrada com cinquenta dias de gerada (MARTINEZ, 2013).

Praticantes do Islamismo, na África e Ásia, por um costume sócio-cultural, submetem a mulher à mutilação genital (amputação do clitóris), com a finalidade de garantir a virgindade até o casamento (MOLINA, 2013). E além do que, os homens preferem as mutiladas, porque acreditam que elas não sejam prostitutas e que também são mais férteis.

Spinoza em sua obra A Ética, também reforça a inferioridade da mulher  e que isto se dá de maneira natural e recomenda que as mulheres não recebam educação. Concepção esta confirmada por Kant e Hegel (MARTINEZ, 2013).

No Islamismo, a mulher e o homem tem obrigações e deveres religiosos iguais  perante Deus, tais como: pagar caridade, rezar, peregrinar à Meca. Entretanto, as mulheres são consideradas inferiores quando é citado dentro do alcorão que o homem é protetor e responsável de manter financeiramente a mulher, porque  o homem perante Alá é superior a mulher (MOLINA, 2013).

Rousseau chega a ser cruel sobre a sua concepção sobre as mulheres, dizendo que estas são as pragas de seus maridos, filhos, família. Em sua obra Emilio, aponta que a educação das mulheres deve está sempre em função da dos homens. E que a tarefa da mulher é tão somente de agradar e ser útil ao homem e isso deve ser ensinado a ela na infância. Além do que para esse pensador, a mulher não tinha amor pela arte e também não era inteligente, nesse sentido sua única e real função era servir ao homem. Isso é uma verdadeira contradição, uma vez seu pensamento é a base da Revolução Francesa, no que diz respeito a liberdade, igualdade e fraternidade, e, neste caso, a mulher era excluída.(MARTÍNEZ, 2013).

Shopenahuer, no final do século XIX e início do século XX é considerado por Martínez (2013, p.63), como o maior de todos os misóginos. Em sua obra As dores do mundo ele afirma:

“menester há sido que el talento del hombre se viera oscurecido por el amor para llamar ‘bello’ a esse sexo de pequeña estatura, de hombros estrechos, de anchas caderas y de piernas cortas...La conformación toda de la mujer indica que no há sido hecha para los grandes trabajos de la inteligência o del cuerpo, sino para la propagación de la espécie...La mujer es un animal de cabellos largos y ideas cortas”.

6. Compreendendo o Termo Misoginia

Molina (2013) define o termo como sendo de origem grega. O sufixo miseo, quer dizer odiar, depreciar e gyné, significa mulher ou feminino. Então o misógino tem desprezo e crítica pela mulher. Ele idealiza a mulher, mas não admite que a mulher real seja diferente desse modelo por ele fabricado, como se fosse uma divindade. Por isso o misógino tem a  concepção da mulher real como débil, inferior sem moral.

Esse processo de que a mulher é inferior e por defeito moral, fora expulsa do paraíso juntamente com Adão. A perda da condição divina e, essencialmente para a mulher, a nódoa do pecado, porque foi ela quem se entregou ao demônio. Pecadora ela terá de se redimir na submissão e na resignação (BICALHO, 2001, p.26).

Ainda de acordo com essa autora, em Timoteo, 2 11-15, a mulher poderia ser salva de sua condição de pecadora, por meio da maternidade e também deverá permanecer no amor, na fé e na santidade.

É nesse contexto de que as mulheres são naturalmente frágeis que os homens misóginos se convencem de que devem exercer o poder e a dominação sobre elas. E, em consequência disso surge o menosprezo e a violência, seja psicológica ou física. Devemos entender que no hablamos de psicópatas, o asesinos psicóticos, sino de personas que maltratam golpean y matan a mujeres por ser mujeres. Y en ese ser mujer está la causa de la violencia (MOLINA, 2013, p.33).

7. Misoginia X Violência de Gênero

Perez e Fiol (2000.p.3), esclarecem que em dezembro de 1993, a Assembleia Geral das Nações Unidade aprovou a Declaração sobre a eliminação da violência contra a mulher e onde foi declarado a definição de violência contra a mulher: "todo acto de violencia basado en el género que tiene como resultado posible o real un daño físico, sexual o psicológico, incluidas las amenazas, la coerción o la privación arbitraria de la libertad, ya sea que ocurra en la vida pública o en la vida privada”.

  De acordo com essas mesmas autoras, vários organismos internacionais reconhecem a importância da violência de gênero como um problema social e de saúde pública, e que é necessário estudar esse fenômeno e buscar soluções, por meio de uma análise de suas causas, sendo uma delas as desigualdades entre homens e mulheres.

Acerca de a violência contra a mulher ser um caso de saúde pública Becker (2007) esclarece:

Para a saúde pública precisamos compreender o aspecto numérico (grande número de vítimas que atinge); as repercussões deletérias  na sanidade física e mental, assim como suas decorrências econômicas para o país: diminuição do PIB (Produto Interno Bruto) às custas do absenteísmo ao trabalho; da diminuição da produtividade; e do período que ficam às expensas da seguridade social.

Nesse sentido, a misoginia, pode ser considerada uma enfermidade psicológica, na qual o misógino tem um comportamento doentio em relação à mulher, pois a deprecia, sente ódio pelo que a mulher representa, ou seja o femenino, porque o considera como imperfeito e incompleto e nao suporta a ideia de depender de uma mulher (mujeryequidade.wordpress.com).

Assim, Perez e Fiol (2000) explicam que homens misóginos tem o perfil  tradicionalistas, com suas crenças em papéis sexuais estereotipados e na supremacia masculina e  inferioridade da mulher.

Nesse contexto, o misógino tem uma relação ambivalente com a mulher:

Hombre maltratador específicamente de la mujer; presenta sentimientos opuestos en relación a la mujer: amor y odio, atracción y rechazo. Siente atracción por la mujer y se enamora, pero necesita despreciarla y rechazarla por ser mujer, y desea tener un dominio total sobre ella; necesita de su compañía, pero al mismo tiempo se aleja; teme ser maltratado y dominado por ella, y convierte este temor en enojo, pues así se siente más fuerte, y es él quien la maltrata “antes de que ella lo haga”. Se debate entre dos sentimientos extremos: amor y odio hacia la mujer, y le transmite a ésta un mensaje ambivalente y confuso. El misógino maltrata a todas las mujeres, incluso a sus hijas, pero quien más sufre este maltrato es la pareja. El maltrato hacia las otras mujeres es sutil, pues tiene menor cercanía con ellas (mujeryequidade.wordpress.com, p.2).

Pérez e Fiol (2000) reforçam que os homens misóginos possuem o poder no sistema familiar e o conservam usando a violência física e até agressão sexual, pois acreditam que a mulher é um ser inferior e por isso precisam ter o controle dela e, por conta disso, surgem as crises de ciúmes e o isolamento social da mulher, mantendo-a sob sua dependência.

No que se refere à dependência econômica, esta reforça todos os outros tipos de violência contra a mulher, porque a violencia económica puede llevar a que se ejerzan los otros tipos de violencia: física, psicológica, sexual etc. (GLUCSMANN, 2011, p. 28).

Assim, a misoginia é considerada uma ideologia similar ao racismo, na compreensão da teoria feminista, e como toda atitude racista é um comportamento violento:

La misigonia está reconocida como uma ideologia politica asimilar al racismo o el antissemitismo existente para justificar y reproducir la subordinación de las mujeres por los hombres (...)El comportamiento de los misóginos tiene su origen em prácticas culturales en las que discriminacion y agression física o verbal son empleadas por los varones para conservar sus privilégios posición de liderazgo (GLUCSMANN, 2011, p.31)

O misógino utiliza várias armas para subordinar e controlar uma mulher.

• Através da negativa: ele nega o corrido, levando a parceira a questionar sua acuidade, e a validade de sua memória.

• Através da alteração dos fatos, o misógino reformula o fato para se ajustar a sua versão, faz alterações drásticas e amplas nos fatos, a fim de chancelar sua versão da historia.

• Alega que está se comportando mal, como reação a algum desvio de sua parceira, é como se seu comportamento afrontoso passa a ser uma reação compreensível a alguma terrível deficiência ou provocação da parceira. Transferindo a culpa ele se protege: absolve-se do desconforto de reconhecer sua participação no problema e convence a parceira que suas deficiências de caráter soam o verdadeiro motivo das dificuldades na vida em comum.

• A parceira não pode protestar, e se a parceira o faz, ele fica mais furioso. Ele encara a reação como um ataque pessoal e como prova das inadequações da parceira.. Ele transforma a parceira em culpada e ele a própria vitima. Isto acontece, pois ele está mais preocupado em desviar a culpa de si mesmo do que em reconhecer a angústia que causa à parceira.

• Se o misógino se sente ameaçado de perder alguma coisa que lhe é importante, e sentindo-se humilhado, é bastante provável que a balança se incline para a brutalidade. Para ele através do medo poderá controlar melhor sua parceira.

• Se a parceira tiver alguma atividade significativa que o misógino encare como ameaça, ele fará testes de sua devoção, fazendo com que a parceira reduza drasticamente seu mundo. Esse tipo de ciúmes e de possessividade se estende a todos os aspectos de vida. Qualquer coisa que a parceira faça que esteja fora do controle do misógino, ou seja, encarada como uma ameaça a ele deverá ser abolida. (GRANATO, online)

Sobre o Autor:

Francy Pereira Martins - psicóloga, especialização em Saúde Mental, pela FIOCRUZ, doutoranda em Psicologia Social pela Universidade J. Kennedy de Buenos Aires, Argentina

Referências:

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BICALHO, Elizabete. A nódoa da misoginia na naturalização da violencia de gênero: Mulheres Pentecostais e Carismáticas. Dissertação de Mestrado, Universidade Católica de Goiás, 2001. Disponível em www.tede.biblioteca.ucg.br

CASIQUE, Leticia Casique; FUREGATO, Antonia Regina Ferreira. In Revista Latina-am Enfermagem, nov\dez,2006, 14(6). Disponível em www.eerp.usp.br

OKABE, Irene. Violência contra a mulher: uma proposta de indicadores de gênero na família. Tese de Doutorado,USP, 2010. Disponível em www.teses.usp.br

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GRANATO, Rita. Armas Que Um Misógino Tem Para Oprimir Suas Parceiras. nov\2011. Disponível em http://www.stum.com.br/clube/c.asp?id=18892.

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