Resumo: O presente artigo tem como objetivo fazer uma discussão acerca da compreensão da vivencia da opressão,  no âmbito  da violência de gênero sob a visão da Gestalt-fenomenológica-existencial. Buscando compreender a origem da opressão feminina. Assim como a opressão e o existencialismo; a  opressão e a Gestalt-terapia e a opressão e fenomenologia.

Palavras-chave: opressão, gestalt-terapia, existencialismo, fenomenologia

Abstract: This article aims to make a discussion about the understanding of the experiences of oppression, in the context of gender violence under the vision of Gestalt phenomenological-existential. Trying to understand the origin of women's oppression. As well as oppression and existentialism; oppression and Gestalt therapy and oppression and phenomenology

Keywords: oppression, gestalt therapy, existentialism, phenomenology

1. Definindo Opressão

Ação de oprimir, de sujeitar alguém a alguma coisa. Condição da pessoa ou daquilo que está sendo oprimido. Submissão; sujeição conseguida pelo uso de força ou violência (www.dicio.com.br)

2. Compreendendo como se deu o Inicio da Opressão da Mulher

Afirma Engels (1984) que na sociedade primitiva a descendência era vinculada à mulher. Como era uma sociedade familiar matriarcal, quando o marido morria, a sua herança ficava para seus irmãos e irmãs e filhos destes. Seus próprios filhos não tinham direito.

Entretanto, quando o homem elevava sua riqueza, aumentava sua importância na relação familiar. E, portanto, para que seus filhos tivessem direito à herança, a filiação mudou da materna para a paterna. Assim, a relação familiar que antes era matriarcal agora se tornaria patriarcal e nesse novo modelo o homem se tornou o chefe da casa e a mulher instrumento de reprodução.       “O direito paterno substituiu-se então ao direito paterno; a transmissão da propriedade faz-se de pai a filho e não mais da mulher a seu clã. É o aparecimento  da família patriarcal baseada na propriedade privada. Nessa família a mulher é oprimida” (BEAUVOIR, 1970, p.74).

O casamento monogâmico era a garantia do homem sobre a sua paternidade. “Baseia-se no predomínio do homem; sua finalidade expressa é a de procriar filhos cuja paternidade seja indiscutível” (ENGELS,1984, p.74)

Entretanto o casamento monogâmico oprimia a mulher porque o homem a sociedade não cobrava sua fidelidade, diferente do que ocorria com a mulher, uma vez que ela precisava ser fiel para garantir a prole legítima.

A monogamia nasceu da concentração de grandes riquezas nas mesmas mãos – as do homem – e do desejo de transmitir essa riqueza, por herança, aos filhos deste homem. Por isso era necessário a monogamia da mulher, mas não do homem (ENGELS, 1984, p.90).

Então,  a poligamia é substituída pela monogamia, não significando a reconciliação entre o homem e a mulher, representa uma forma de escravidão portanto, ela surge:

Sob a forma de escravização de um sexo pelo outro (...) o primeiro antagonismo de classes que apareceu na historia coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino (ENGELS, 1984, p.70-71)

O homem sempre teve mais vantagens que a mulher nesse mundo de opressão feminina, mesmo depois de muitos debates acerca da condição da mulher e, pela época em que a autora escreveu, o tema é muito atual.

os direitos lhe são abstratamente reconhecidos, um longo hábito impede que encontrem nos costumes sua expressão concreta. Economicamente, homens e mulheres constituem como que duas castas; em igualdade de condições, os primeiros têm situações mais  vantajosas, salários mais altos, maiores possibilidades de êxito que as suas concorrentes recém-chegadas. Ora, a mulher sempre foi senão a escrava do homem ao menos sua vassala; os dois sexos nunca partilharam o mundo em igualdade de condições; e ainda hoje, embora sua condição esteja evoluindo, a mulher arca com um pesado handicap. Em quase nenhum país seu estatuto legal é idêntico ao do homem e muitas vezes este último a prejudica consideravelmente (BEAUVOIR, 1970, p. 15).

Conforme atesta  Engels (1984), o homem se tornou o provedor, pois é ele que possui o trabalho. Nesse sentido, o homem é o representante burguês e a mulher o proletário.

Assim, a moral burguesa fez a todos crer que a garantia da propriedade privada estaria na solidez da família, ou seja, são feitas exigências à mulher, que a sua presença era fundamental no âmbito doméstico,  “mesmo dentro da classe operária os homens tentavam frear essa libertação porque as mulheres são encaradas como perigosas concorrentes (BEAUVOIR, 1970 p.10)

A dependência econômica faz a mulher sujeitar-se ao domínio do homem.

O homem suserano protegerá materialmente a mulher vassala e se encarregará de lhe justificar a existência: com o risco econômico, ela esquiva o risco metafísico de uma liberdade que deve inventar seus fins sem auxílios (BEAUVOIR, 1970, p.16)

3. A opressão e o Existencialismo

De acordo com o pensamento de Sartre (1970, p.4), a nossa existência depende de nossas escolhas, nesse sentido, o primeiro princípio do existencialismo “O homem  nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo”.

Nessa mesma linha de pensamento, aquilo que escolhemos ser, bem como as nossas ações podem gerar um paradigma existencial.

Ao afirmamos que o homem se escolhe a si mesmo, queremos dizer que cada um de nós se escolhe, mas queremos dizer também que escolhendo-se, ele escolhe todos os homens... não há um único de nossos atos que, criando o homem que queremos ser  não esteja criando, simultaneamente, uma imagem do homem tal como julgamos que ele deva ser.  (p.5)

Então ainda de acordo com a citação acima, se as nossas ações podem        

Gerar um paradigma existencial, pode-se  inferir  que a opressão feminina pode ser um paradigma  das ações masculinas. Seguindo a linha de pensamento sartreano,  um opressor gera outros opressores.

Nesse  contexto, como seria a existência e a essência feminina diante da opressão, no cotidiano da violência, se primeiro o homem existe e depois cria a sua essência definindo-a.

A existência precede a essência (...) em primeira instância o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define (...) será aquilo que ele fizer de si mesmo  (...) O primeiro passo do existencialismo é o de pôr todo homem na posse do que ele é de submetê-lo  à responsabilidade total de sua existência (SARTRE, 1970, p.4-5).

A opressão, nesse contexto somente será superada se o oprimido projetar-se para o mundo, buscando sua libertação fazendo sua escolha, ou seja, escolhendo-se, preenchendo sua essência, buscando sua existência num universo humano.

...o homem está constantemente fora de si mesmo; é projetando-se e perdendo-se fora de si que ele faz com que o homem exista; por outro lado, é perseguindo objetivos transcendentes que ele pode existir (...) o homem não está fechado em si mesmo, mas sempre presente num universo humano (...)  Humanismo, porque recordamos ao homem que não existe outro legislador a não ser ele próprio e que é no desamparo que ele decidirá sobre si mesmo; e porque mostramos que não é voltando-se para si mesmo mas procurando sempre uma meta fora de si – determinada libertação, determinada realização particular – que o homem se realizará como ser humano (SARTRE, 1970, p. 18)

4. Opressão x Gestalt-Terapia

Para Gestalt-terapia o indivíduo precisa enfrentar a fronteira de contato para seu próprio crescimento. 

O crescimento surge da metabolização do desconhecido, que é assimilado do ambiente (...) já que o contato e afastamento prosseguem incansavelmente enquanto a vida continuar – mudando de momento a momento à medida que uma necessidade surge (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997, p.25).

Assim o crescimento e a forma como vemos o mundo, somente ocorre por meio do contato com o meio.

Ninguém é auto-suficiente; o indivíduo só pode existir num campo circundante (...) Seu comportamento é uma função do campo total, que inclui ambos: ele e seu meio. O tipo de relação homem\meio determina o comportamento do ser humano. Se o relacionamento é mutuamente satisfatório o comportamento do indivíduo é o que chamamos de normal. Se é de conflito, trata-se do comportamento descrito como anormal. O meio não cria o indivíduo, nem este cria o meio. Cada um é o que é, com suas características individuais, devido a seu relacionamento com o outro e o todo. (...) É neste limite de contato que ocorrem eventos psicológicos. Nossos pensamentos, ações, comportamentos e nossas emoções são nossa maneira de vivenciar e encontrar esses fatos limítrofes (PERLS, 2010, p.31)

O crescimento é necessário e para um ser que enfrenta a opressão faz-se necessário tomar consciência (awareness)  de seu cotidiano para poder fechar as gestalts (atender a uma necessidade, resolver um conflito e retornar à homeostase, ao equilíbrio). Nossa  manipulação de nós mesmos é geralmente dignificada pela palavra consciência (PERLS 1977, p.34).

Dessa maneira, fechar Gestalt, significa encerrar um obstáculo ao crescimento não perpetuando situações inacabadas que são potenciais geradoras de organismo neuróticos.

...Quando essa formação e essa destruição de Gestalt estão bloqueadas ou fixas em qualquer etapa quando necessidades não são reconhecidas e expressas, a harmonia flexível e o fluxo do campo organismo\ambiente ficam perturbados (...) a awareness é sempre acompanhada por formação de Gestalt (...) O ponto em que essa awareness é formada é o “ponto de contado” (YONTEF, 1993 p.71).

Por organismo neurótico entende-se aquele que acumula situações inacabadas, vive no passado e esquece o presente e necessita  de apoiar-se constantemente nos outros.

O neurótico pode  ser definido como a pessoa incapaz de assumir total identidade e responsabilidade pelo comportamento maduro (...)não se concebe como uma pessoa que se mantém sozinha, capaz de mobilizar potencial para lidar com o mundo (PERLS et all, 1977, p.38)

No conflito em questão, ou seja a opressão, é necessário o seu enfrentamento, objetivando-se a conscientização (awareness), consequentemente o crescimento e a aprendizagem diante das escolhas.

...Aprender é descobrir que algo é possível. Estamos usando a maior parte de   nossa energia para jogos autodestrutivos, para jogos auto-impedidores (...) fazemos isto e nos impedimos de crescer. No exato momento em que algo desagradável, algo doloroso ocorre, nesse momento nos tornamos fóbicos. Fugimos. Nos dessensibilizamos. Usamos todos os tipos de meios e caminhos para impedir o processo de crescimento...então rapidamente deixa a base segura do agora e se torna fóbico. Você começa fugindo para o passado e começa a associar livremente, ou você corre para o futuro e começa a fantasiar as coisas terríveis que sucederão se você ficar com o que está acontecendo (PERLS, 2010, p. 137)

Acerca da palavra awareness, KIYAN (2006, p.152), esclarece que “é um processo de contato na relação estabelecida entre campo, organismo e meio com qualidade acentuada de atenção e sentido”.

Reforçando o entendimento de awareness, o objetivo é que o sujeito possa transformar-se e, ao mesmo tempo, aprender a aceitar-se e valorizar-se (YONTEF, 1993, p.16).

Assim, conduzindo esse entendimento ao contexto da opressão, quando o sujeito toma consciência disso, torna-se capaz de escolher e\ou organizar a própria existência de maneira significativa (YONTEF 1993, p.16).

O organismo está constantemente em contato com o meio e isso é necessário para a tomada de consciência e ajustamento criativo. O contato tem de ser uma transformação criativa (...) A criatividade sem um ajustamento expansivo torna-se superficial.

5. Opressão x fenomenologia

A fenomenologia, de acordo com Husserl (1990 p. 22) seria a  doutrina universal das essências em que se integra a ciência da essência do conhecimento.

A Fenomenologia representa a ciência do conhecimento e pode ser compreendida como fenômeno, manifestações, actos da consciência em que se exibem se tornam conscientes (...) designa um método e uma atitude intelectual (HURSSEL, pp.34\46).

É a percepção que situa o individuo no mundo e, por meio da percepção  buscará o sentido do fenômeno que se mostra.

Toda a vivencia intelectiva e toda a vivencia em geral ao ser levada a cabo pode fazer-se objeto de um puro ver e copitar (...) esta percepção é e permanece enquanto dura um absoluto um isto-aqui algo que é em si o que é. (HUSSERL, pp-55\56)

Por meio da redução fenomenológica o indivíduo pode tomar consciência do fenômeno que se desvela, ou seja, clarificar aquilo que não era possível ver.

... a chamada redução fenomenológica proporciona o acesso ao “modo de consideração transcendental”, ou seja, o “retorno à «consciência»”. Assim, através da “redução fenomenológica” os objetos se revelam na sua constituição. Retornando à «consciência», os objetos aparecem na sua constituição, ou seja, como correlatos da consciência. O retorno, portanto, permite «dissolver o ser na consciência», isto é, permite que o ser (ou ente, ou melhor, o “ser do ente”) se torne ( ...) Trata-se, portanto, de um pôr-se no caminho das próprias coisas, isto é, de “retornar” a elas. (GALIFFE, 2000 p.7).

Trazendo a redução fenomenológica para o contexto da violência de gênero, no que se refere a opressão, este método pode fazer o indivíduo visualizar o seu cotidiano.                                                                         

Trabalhar com a base fenomenológica (...) significa trabalhar na conscientização do processo que ocorre (...) Se você vive no presente, você usa tudo que estiver disponível (...( Se você vive em sua máquina de pensar ou nestas respostas obsoletas ou em uma maneira rígida de lidar com a vida, você fica paralisado. (FRITZ 2010, p.138                                                                                                                                           

Assim, cabe à fenomenologia compreender como se dá a percepção da consciência  e  modificação do comportamento.

Assim, a tarefa da Fenomenologia seria a de rastrear todas as formas do dar-se e todas as correlações, e isto dentro do âmbito da própria evidência pura do dar-se em si mesmo (...) Portanto, a tarefa da Fenomenologia Transcendental é a de elucidar e rastrear gradualmente todos os possíveis dados da consciência, segundo as suas modalidades e possíveis modificações de comportamento (GALLEFI, 2000, p. 24).

Nesse sentido,  uma atitude de base  fenomenológica, no contexto da violência de gênero, provoca reflexão e análise acerca da opressão vivenciada e a partir disso  consegue visualizar a situação tal como se mostra.

Sobre o Autor:

Francy Pereira Martins - Psicóloga, especialista em saúde mental pela FIOCRUZ e doutoranda em Psicologia Social pela Universidade J. Kennedy de Buenos Aires, Argentina.

Referencias:

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo: fatos e mitos. 4. Ed. Trad. Sergio Milliet. Ed. Difusão Europeia do Livro: São Paulo, 1970.

ENGELS, Friedrich. A origem da Família, da propriedade privada e do Estado.9 ed. Trad. Leandro Konder. Ed. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1984.

GALEFFI, Dante Augusto. O que é isto – a fenomenologia de Husserl. Feira de Santana: Ideação, n.5, p.13-16 jan\jun,2000.

GRANZOTTO, Rosane Lorena Müller; GRANZOTTO, Marcos José Müller. Fenomenologia e Gestalt-terapia. São Paulo:Summus Editorial,2007.

HUSSERL, Edmund. A idéia da fenomenologia. Trad. Artur Morão. Rio de Janeiro: Edições 70, 1982.

KIYAN, Ana Maria Mezzarana. E a Gestalt emerge:Vida e obra de Frederick Perls. Editora Altana, 2006

PERLS, Frederick;Goodman, Paul; Hefferline,R. Gestalt terapia. Summus Editorial, São Paulo, 1997.

PERLS, Fritz. A abordagem gestáltica e testemunha ocular da terapia. 2ª. Ed. LCT Editora: Rio de Janeiro, 2010.

PERLS, S. Frederick et all. Isto é gestalt. Trad. George Schlesinger e Maria Júlia Kovacs. São Paulo:Summus,, 1977

SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um humanismo. Trad. Rita Correia. Les Editions: Paris, 1970.

www.psicoethos.com.br

YONTEF, Gary. Processo, diálogo e awareness: ensaios em gestalt-terapia. Summus Editorial, S. Paulo, 1993.