Antes de iniciar com os conceitos sobre Gestão do Tempo, gostaria de ressaltar a dificuldade em encontrar autores que, de fato, problematizem esse assunto. Hoje, torna-se cada vez mais comum a apresentação de fórmulas e quadros a serem seguidos do que de pontos norteadores, cuja reflexão sobre o uso do tempo seja incitada.

A proposta de gestão do tempo, nesse estudo, visa possibilitar uma reflexão crítica sobre a utilização de seu tempo e a escolha das prioridades, deixando claro que a gerência do tempo é um processo pessoal, ou seja, que cada um necessita refletir se está utilizando bem o seu tempo, ou não.

Para Bernhoeft (1990), administrar o tempo consiste em registrar, controlar e melhorar sua utilização. No entanto, sabemos que esse processo não consiste apenas em organizar cronogramas, tarefas e horários. Gestão do tempo, segundo Fabossi (2009), incide na estruturação de um minucioso e detalhado plano, bem como no monitoramento da sua execução, além de envolver autoconhecimento e motivação. Sendo assim, vai além de técnicas a serem aplicadas, pois por mais que elas auxiliem, temos que ter consciência que elas não trabalham por si só. Para uma boa gestão do tempo temos que nos conhecer e nos perguntar o que impede a elaboração de certas atividades e até que ponto estamos satisfeitos e comprometidos com elas.

De fato, a gestão do tempo hoje é uma ferramenta gerencial, que pode ser empregada nas organizações e na vida pessoal e acadêmica, possibilitando o planejamento de metas pessoais e profissionais e possui enquanto ideia central o planejamento e o foco. Neste artigo será utilizado o conceito de “foco” de Reis (2006), que o afirma como sendo o ponto de convergência dos esforços e característica fundamental para por em prática o que se planejou, pois o planejamento não diz respeito a decisões futuras, mas às implicações futuras de decisões presentes.

Nesse mundo pós-revolução industrial marcado pela frase máxima da ansiedade moderna tempo é dinheiro, o ideal de acumulação e quantificação capitalista estendeu-se a todas as esferas da nossa vida, atingindo inevitavelmente aquela que a rege de modo subjetivo e inerente: o tempo. Sendo assim, para que possamos de fato atingir nossas metas, temos que primeiro planejá-las e isso envolve gestão.

Fazendo uma análise geral dos avanços nas últimas eras, podemos perceber que os meios eletrônicos aceleram os movimentos de transmissão de sinais até o limite da instantaneidade. Essa observação, ligeira, porém significativa, leva-nos a interrogar sobre o sentido dessa velocidade que impregnou o cotidiano, afetando não só objetos e coisas, mas, sobretudo a nós próprios, tão ciosos que somos de nosso próprio progresso e de nossa modernidade, deixando-nos carregar como um fardo cada vez mais pesado desse ininterrupto sentimento de urgência.

Levando-nos a pensar que, mesmo com os avanços tecnológicos que possibilitam a rapidez dos processos e a circulação de informação de modo quase instantâneo, ainda nos vemos reclamando da falta de tempo. Será que toda essa tecnologia atua, de fato, a nosso favor? Para Lacerda (2005), esta questão possui em si duas vertentes, de um lado, é possível dizer que a rapidez no acesso à informação, propiciado pela tecnologia, serve também àquele desejo profundo de reservar mais tempo "livre" às atividades criativas, ou ao descanso. Para ela, o trabalhador busca sair da esfera do trabalho socialmente compulsório e controlado, por isso trabalha mais depressa, auxiliado pela tecnologia.

Lacerda diz ainda que, por outro lado, é possível afirmar que os próprios meios eletrônicos de comunicação proporcionam momentos satisfatórios de nossas curiosidades; e, em um nível humano superior, propiciam momentos de interlocução com o semelhante, os sempre almejados momentos de comunicação, efeito nada desprezível, considerando quanto é grande a solidão do homem em uma sociedade de massas. E aqui se desfaria o paradoxo: o que parece feito para abreviar o tempo é usado para deixar passar o tempo.

Sendo assim, mesmo após tanto progresso, o “homem livre” dos tempos modernos continua escravo de seu tempo, aliás, para Bruni (1991), é justamente tal progresso que traz consigo uma sensação generalizada de falta de tempo, envolvendo trabalhadores braçais, profissionais liberais, empresários, comerciantes, crianças, jovens, homens, mulheres.

Então, qual seria a solução para este novo cenário formado? Peter Drucker (2002) diz que o profissional que não consegue gerenciar seu próprio tempo não consegue gerenciar nada mais, sendo de vital importância que domine o seu tempo, ao invés de ser por ele dominado.

Deste modo, propõe-se ao sujeito realizar a gestão estruturada do seu cotidiano, da sua rotina. Gestão esta que não apoia a reprodução do fordismo ou da “jaula de ferro” [1] de Weber (2007) - uma vez que autores contemporâneos descrevem-nos em um “capitalismo flexível” - mas antes um planejamento capaz de dar seguimento e organização às atividades necessárias, auxiliando o sujeito no alcance hábil de seus objetivos. A administração, aqui, far-se-ia enquanto ferramenta de auxilio ao indivíduo, ajudando-o na manutenção de suas escolhas, e não como normativa à sustentação de um sistema que o oprime.

Referências:

BRUNI, José Carlos. Tempo e trabalho intelectual. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 3(1-2): 155168, 1991.

FABOSSI, Marco. Coração de Líder: A essência do Líder-Coach. São Paulo: Abaa, 2009.

LACERDA, Adriana. Como Gerenciar o Tempo. CONSELHO REGIONAL DE CONTABILIDADE DO ESTADO DO CEARÁ, 2005.

REIS, Manoel A. S. Terceirização na Logística: operadores logísticos. In.: Curso GVpec. Logistica Empresarial. 2 sem. 2006, Fundação Getúlio Vargas – São Paulo, 2006.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. ed. revisada. São Paulo: Editora Afiliada, 2007