Resumo: Este artigo trata-se de uma revisão bibliográfica que tem como objetivo discorrer sobre as mães que entregam os filhos em adoção, os sentimentos envolvidos neste processo e como a concepção de mulher e maternidade estão entrelaçadas com a temática aqui abordada. foi possível perceber que o ser mulher está atrelado fortemente à estrutura familiar e isto é comprovado ao ser feita uma revisão dentro da literatura sobre esta, onde foi encontrado praticamente como um padrão nos artigos, dissertações e teses, a mulher e a família como partes quase que indissociáveis. Coube a mulher cuidar de sua cria para garantir a sobrevivência da espécie e consequentemente, com o passar do tempo, criou-se uma imagem do amor materno incondicional e próprio da natureza feminina considerado como algo nato. Ao longo deste artigo, faz-se uma desconstrução do mito do amor materno.

Palavras-chave: Psicologia. Mães doadoras. Mulher. Adoção

Abstract: These article talk about of the literature review that aims to discuss the mothers who eliver the child in adoption, the feelings involved in this process and how the perception of women and maternity are intertwined with the theme discussed here. During the survey it was revealed that the woman is being strongly linked to family structure and this is proven when is makea literature review about her, where was finded like a standar articles,thesis and dissertations, the women and family like part almost inseparable. Fit the women take care for her offspring to ensure survival of the specie, and consequently, over time, created a picture of unconditional maternal love and own feminine nature that was regarded as something innate. Throughout this article, it is a descontruction refers to the of maternal love.

 Keywords: Psychology. Donor mothers. Women. Adoption.

1. Introdução

O signo mulher encontra-se ainda hoje, mesmo que em tempo mais moderno, ligado aos papéis que ela desempenha e à família. O ser mulher está atrelado fortemente à estrutura familiar e isto é comprovado ao ser feita uma revisão literária sobre esta, onde é possível encontrar quase como um padrão nos artigos, dissertações e teses, a mulher e família como partes quase que indissociáveis.

Com o objetivo de explanar sobre os sentimentos e motivações que levam as mães a entregarem seus filhos em adoção, este artigo tem como finalidade apresentar outra vertente sobre estas mulheres.

2. Breve Apanhado Histórico Sobre a Mulher e Maternidade

Borsa e Feil (2008) descrevem o processo de estruturação do significado da mulher, o papel assumido por ela e como se interligam no decorrer do caminho através de uma construção social. Nos tempos mais antigos, a idealização, realização e plenitude de feminilidade era ser mãe, era sacrificar-se e renunciar prazerosamente ao mundo e a sua própria vida em prol de sua família. Já no século XIX, ela passa aceitar o papel que lhe foi imposto: ser uma boa mãe, dedicar-se integralmente às suas crias. Segundo Prehn (1999, apud Borsa e Feil), a mulher é pré-destinada a gestar, pois sua criação, desde os tempos mais remotos, é voltada para prestar os cuidados necessários e proteção à sua prole. Diferente do homem, que era e em algumas culturas ainda é, destinado a tarefas que exigem força, velocidade e responsabilidade pelo sustento do grupo ao qual pertencia.

Todo esse apanhado só vem a confirmar a idéia de que a maternidade permitiu a mulher ser valorizada e reconhecida como tal pelo fato de gerar e cuidar fielmente de outro ser oriundo de seu ventre. Se ela é apenas reconhecida pela situação que fora descrita anteriormente, o que seria da mulher que dá a luz e entrega seu próprio filho à adoção? Qual a imagem tida deste ser que supostamente abandona a quem deveria proteger e zelar incondicionalmente? Badinter (1980) em vários pontos de sua obra, disserta que esta mulher é julgada. Por muitas vezes é considerada anormal, doente e execrada pela sociedade por não assumir a função que lhe foi deliberada culturalmente, como é confirmado com o trecho:

Desse ponto de vista, uma mulher é feita para ser mãe, e mais, uma boa mãe. Toda exceção à norma será necessariamente analisada em termos de exceções patológicas. A mãe indiferente é um desafio lançado à natureza, a a-normal por excelência. ( Banditer, 1980,página 09)

Segundo Banditer (1980), o amor materno foi atrelado por tanto tempo em termos de instinto que construiu-se um crença que tal conduta seja parte inerente da natureza da mulher, portanto o instinto maternal nada mais é considerado algo que é próprio, que nasce dela e pertence somente à ela. E como a autora mesmo declara, concebemos que toda mulher ao se tornar mãe encontra todas aas respostas para a sua nova condição, que é algo automático. A gravidez, portanto, está associada às atitudes maternais.

Substituiu-se o vocábulo “instinto materno”, mas a sua essência em si permanece. Maternidade e instinto materno estão interligados por suas significações. Estudos arcaicos eram influenciados amplamente pelo feminismo, onde preferiam crucificar a genitora e santificar o pai do que admitir, observar, compreender e dissertar sobre as reais motivações da entrega do filho em adoção (BANDITER, 1980)

Ainda se tem uma imagem de certa brutalidade quanto a contestação sobre o amor incondicional materno. Talvez, como Banditer (1980) discorreu, seja difícil nos questionarmos sobre a real natureza desse amor materno, pois envolveria questionar o amor que nossa própria mãe nos devota.

A justificativa para um “abandono” de um filho não deve ser pensado como um ato frio e desumano. Assim como a entrega do fruto do ventre da mãe, o infanticídio puro e simples, também deve ser encarado como vertente do desespero humano considerável e imensurável. Não é feito de coração leve, sem sofrimento, sem sentimento algum, pelo contrário. O estudo proposto com esta pesquisa busca compreender as motivações e o que estas mães sentiram ao decidirem-se pela entrega (BANDITER, 1980).

Como tampouco o abandono do recém-nascido nunca é feito de coração leve. Não é sem emoção, e provavelmente com culpa, que essas mães pregam pequenos bilhetes na roupa do bebê que abandonam. J.-P. Bardei18 lembra alguns deles que mostram que as mães esperavam vir um dia buscar os filhos. Algumas anotam o nome e as particularidades do recém-nascido, outras justificam seu ato. A miséria e a doença em alguns casos, situações insustentáveis em outros, muitas vezes mães solteiras. ( BANDITER, 1980, p. 42 - 43)

No livro O Mito do Amor Materno, 1980, Banditer discorre sobre o contexto da mulher francesa dos séculos XVII e XVIII. O infanticídio era mais comum em classes mais pobres da França no século XVII, pois era mais barato manter sua prole distante de si do que consigo. Filhos exigem mais cuidados, atrapalhavam o ganho do salário. Por esse motivo, Banditer coloca o subtítulo Criança como Estorvo. Era mais fácil mata-las do que cria-las, mas isto não implica dizer que as genitoras cometiam tais atos por falta de amor, mas sim para garantir sua sobrevivência e de sua família. E não era prudente julgar os tipos de abandonos (infanticídio, abandono em ruas, entrega às amas de leite, etc.) como falta de amor, pelo contrário. O instinto de sobrevivência, portanto, é maior do que a concepção que se é tida do amor materno. Não trata-se de amar ou não, e sim de sobreviver. Para melhor explicitação deste parágrafo, eis uma citação para deixar as claras o que foi discorrido:

Elas (mães) estavam reduzidas a uma tal penúria física e moral que é justo indagar se teria havido lugar para um outro sacrifício vital; como o amor e a ternura teriam podido expressar-se nessa situação catastrófica? Basta pensarmos nessas mulheres do campo que, mal acabavam de parir, abandonavam o seu bebê para amamentar uma criança da cidade, recebendo sete libras por mês. Ou encontravam mulheres ainda mais miseráveis que aceitavam amamentar a criança por apenas cinco libras; tudo isso para obter um lucro de duas libras. Num ou noutro caso, a criança tinha grande probabilidade de morrer. (BANDITER, 1980, p. 51)

3. Histórico da Maternidade: O Mito do Amor Materno

A frieza do proletores significava não a indiferença em si, mas pode ser interpretada como um mecanismo defesa que os protegiam, caso ocorre, da morte prematura de seu filho, ao se levar em consideração os altos índices de mortalidade infantil do século XVII na França. Banditer (1980) coloca que ausência aparente de sofrimento pela perda do filho não é um privilégio apenas dos pais, mas as mães também podem e apresentam reações parecidas. Assim como consta Shorter (apud Banditer, 1980) "tendo perdido dois de seus filhos, observava que ainda lhe restava uma dúzia de treze".

Era comum também abandonos acompanhados de um enxoval luxuoso. Por isso, entende-se que o abandono não é uma característica pertinente à classe baixa da época e nem de hoje. É possível afirmar que a entrega da criança não se dá somente por razões socioeconômicas. É preciso admitir que existem outros contextos que justificam tal ação (Banditer, 1980).

A amamentação é entendida como um passo fundamental na construção e criação do vínculo materno, mas tal ato era desencorajado no século XVII. A amamentação passou a ser motivo de escárnio, vista muitas vezes como um pecado, pois a mulher amamentava o filho não para sua sobrevivência, mas pelo próprio prazer. Diferente da visão da sociedade hoje, amamentar não era considerada uma atitude nobre e, portanto, as mães eram desencorajadas desde o parto a amamentar. Não era de bom-tom tirar o seio para alimentar o filho além de ser feita uma alusão da mulher à uma vaca leiteira. Outros pensamentos ilustram que a mulher ao amamentar, estaria fragilizada e tal estado de espírito seria passado ao bebê. Outros, seriam motivos estéticos e assim por diante. O certo era: procura por uma ama-de-leite. Amamentar era uma questão de pertencimento a um determinado status social, melhor dizendo, a amamentação implicava na questão da falta de status social (Banditer, 1980).

Segundo Moreau, século XVIII (apud Banditer, 1980), criar filhos e amar em demasia era algo constrangedor, pois impedia que as mães tivessem a vida mundana, ou seja, não se teria mais tempo para fazer ou receber visitas, dormir tranquilamente, comprar vestidos, etc. Mas esse tipo de pensamento não basta para concluir as reais motivações do abandono dos filhos da pequena-burguesia.

Lyon, 1978, percebe que existia mais cuidado com animais do que com as crianças. Estas eram entregues às amas sem qualquer identificação sobre seu nome e qual família pertenciam. Nas famílias que tinham poucas condições de sustento, as amas eram escolhidas sem critério algum, não lhe era verificada a saúde, condição de vida, entre outros aspectos. Eram as chamadas amas intermediárias, ou seja, de urgência, pois os pais esperavam o bebê nascer para encontrar uma mulher disponível que o amamentasse (Banditer, 1980).

Assim como a taxa de mortalidade durante o século XVII, na França, o índice de abandonos de infantes eram grandes. Banditer (1980) salienta também sobre a diferença entre filhos legítimos e ilegítimos, sendo estes os que morrem primeiro e mais rápido, pois são crianças mais maltratadas. Tais abandonos são justificados por fatores econômicos e sociais. Alguns pequenos-burgueses pensavam em deixar sua cria em asilos, pois imaginavam que alí ela teria melhores oportunidades do que poderiam proporcionar. Estes burgueses visavam futuramente busca-los se assim fosse possível, levando em consideração da verdadeira realidade do asilo sendo bem diferente do imaginado por eles. Levando em consideração que a taxa de mortalidade infantil era mais alta para aquelas crianças entregues às amas de leite, pode-se dizer que, segundo Banditer, essa entrega era um infanticídio disfarçado.

Depois do primeiro ano de vida, a probabilidade de mortalidade das crianças entregues às amas cai, o que leva Banditer a seguinte reflexão: se as crianças ficassem com suas mães quando recém-nascidas e fossem entregues à ama só depois, muitas crianças teriam sobrevivido. Entretanto, preferiu-se justificar tal ato com a decadente vida destas mães, através de sua miséria e ignorância. Esses fatores funcionavam como um véu encobridor do verdadeiro significado dos atos das mães dos século XVII da França (BANDITER, 1980).

A miséria e ignorância podiam justificar a maior parte da população, mas Banditer coloca a seguinte questão: o que pensar dos burgueses que entregavam seus filhos, apesar de todo o massacre de seus outros, para as amas? Tal questionamento só poderia ser respondido com o desinteresse e indiferença, pois aqui não se aplicava dificuldades relativas ao capital ou coisa do gênero, “a mãe age segundo a própria natureza, que é egoísta” (Banditer, p. 103). Pode ser que venha ocorrer que tal atitude pode ser explicada pela imagem da mulher oprimida, mas como já foi visto, o processo de libertação da submissão da mulher perante o homem se transformou no fim do século XVII. Banditer (1980) coloca ser mais justo concluir que essa ação conjunta entre marido e esposa. A mulher do século XVIII já não é mais vítima do homem. É menos chocante constatar que o amor paterno não segue uma lei universal, diferente do materno. Mas esses pensamentos não podem existir, pois a mulher não é obrigada a amar incondicionalmente o fruto de seu ventre.

Já no fim do século XVIII, o amor materno passa a ganhar um novo conceito e portanto, novas características. Diferente do começo do século, recomenda-se que a mãe amamente seu filho, eis uma das primeiras mudanças notadas. Ocorre também a exaltação do amor materno, fazendo-o parecer como alo natural, social e favorável à espécie e sociedade. Ou seja, o amor materno também é comercializado. Ao mesmo tempo em que isso ocorre, é possível observar que o amor paterno passa a ser deixado de lado, como Banditer coloca, passa a habitar a obscuridade. Enquanto o amor paterno cai no esquecimento, exalta-se a autoridade paterna (BANDITER, 1980).

 4. O Nascer de uma Nova Concepção de Maternidade

 O ser humano representa a garantia de riquezas do Estado, então cabe a este cuidar e zelar pelas pessoas e garantir condições mínimas de desenvolvimento a elas. Agora, a infância passa ser motivo de preocupação e portanto, não poderia ser negligenciada como fora tratada anteriormente. O estado convenceu/seduziu a mulher através do discurso de igualdade entre sexos, pois ao amamentar seu filho, seus direitos eram garantidos: "Sede boas mães, e sereis felizes e respeitadas. Tornai-vos indispensáveis na família, e obtereis o direito de cidadania." (Banditer, 1980, p. 103). Este foi o argumento sedutor que levou as mulheres a aleitarem seus filhos. A promessa de igualdade, diante de todo o histórico da mulher dentro da sociedade, poderia oferecer finalmente novos horizontes.

Depois da revolução francesa, um novo arquétipo de família passou a ser construído, tendo como figura de destaque Rosseau que defendia que nada mais natural um casal amar e dedicar-se ao filho. Passa-se a exaltar, portanto, as sutilezas e as doçuras de ser mãe. Incluso a este pensamento, vinha também imposto que a maternidade seria a maior realização e feitio de ser mulher. Implicitamente, o dever da amamentação estava encarregado da genitora, assim como a dedicação e ternura infinita, assim como a responsabilização pelos caminhos seguidos, a felicidade e infelicidade do fruto de seu ventre. Tal pensamento ganha força no século XX graças à psicanálise (BANDITER, 1980).

O que determinou a adoção da nova postura da mulher para desempenhar o papel de boa mãe foi o interesse no discurso dirigido a elas. Entretanto, outros fatores também influenciaram como novas possibilidades econômicas e a esperança de desempenhar um papel mais significante dentro da família e sociedade. A mulher do final do século XVII e a do século XIX aceitou o papel de boa mãe com maior ou menor rapidez (BANDITER, 1980).

Com o novo papel de mãe a ser desempenhado, inicia-se a era das provas de amor onde o bebê e criança eram o centro privilegiado da atenção materna. Surge então o pensamento de que para o filho sobreviver junto a ela e para ter uma vida melhor, caso a maternante precisasse sacrificar-se, ela o faria de bom gosto (BANDITER, 1980).

Na consciência moderna destaca-se a aceitação de aleitamento do filho ou caso tivesse mais condições, teria que desembolsar para ter uma ama-de-leite que prestasse serviços em domicílio. Ou seja, de uma forma ou de outra, a mulher acatou a decisão de manter a criança junto consigo ( BANDITER, 1980).

Sua nova postura passa a ser notada desde a gestação da criança quando a gestante passava a cuidar da alimentação, mudando hábitos, etc. para garantir a sobrevivência do bebê que estava por vir. Tais cuidados permaneciam mesmo depois do parto, pois também preocupava-se com a lactação (BANDITER 1980).

Diferente do século XVII, a perda da criança agora era encarada com dor tanto pela mãe quanto pelo pai. É sentida com mais intensidade, pois agora ela é considerada um ser insubstituível (Banditer, 1980). Uma realidade totalmente oposta se constrói em torno da nova mãe. Distinto do comportamento do século XVII e XVII, ela passa mais tempo com o filho do que a sua própria mãe passara com ela. Antigamente, as mães tinham pouco conhecimento sobre sua prole, agora, as novas amamentam, dão banho, ensinam, vigiam, levam para passear e cuidam. Todos esses atos acabam por fortalecer os laços devido a convivência e presença constantes o que dificulta as separações ( BANDITER, 1980).

Não amar os filhos tornou-se um crime sem perdão. A boa mãe é terna, ou não é uma boa mãe. Ela não suporta mais o rigor e a inflexibilidade demonstrados antigamente para com a criança. Ela teme a severidade dos colégios e dos conventos, mas também as más condições de higiene e de promiscuidade dos dormitórios. (BANDITER, 1980, p. 151)

Não significa dizer, porém, que todas as mulheres encaixaram-se no papel da nova mãe, algumas ainda relutavam. O perfil da nova mãe pertencia mais as classes burguesas, pois ainda podia ser observado que as mães de classes mais abastardas tinham dificuldades em assumir o novo papel dado a elas. Elas optavam ainda por enviar seus filhos às amas-de-leite do campo, sem demonstrar critérios de escolhas destas. Banditer relata que estas mulheres passaram a receber duras críticas pelos médicos e intelectuais da época. Muitas vezes receberam o título de trapaceiras, pois a realidade era que o filho passava mais tempo com a ama-de-leite do que com a genitora propriamente, ou seja, não ocupavam-se com a prole, apenas em escolher alguém adequada para amamentar seu rebento (BANDITER, 1980).

As mulheres de boa vontade assumiram sua nova responsabilidade, a sociedade tomou consciência de que a mãe não tem apenas a função animal, que é apenas a de parir seus filhos, mas também esta deve garantir melhores condições de vida e é de sua responsabilidade a felicidade da criança. Passou a acredita que todos os deveres maternos foram atribuídos pela natureza. A psicanálise teve um grande peso na promoção do pensamento de que a mãe é a grande responsável pela felicidade de seu filho, o que acaba por definir o papel da mulher (BANDITER, 1980)

5. Entrega do Filho em Adoção na Contemporaneidade

Com fortes influências do século XIX, a maternidade passa a agregar estereótipos da boa e da má mãe. Hoje, por conta do papel assumido pela mulher no século passado, contextualizado anteriormente, a sociedade mantém o perfil de mãe e mulher interligados. Segundo Motta (2001), ainda somos fortemente influenciados pela ideologia do século XIX e XX onde era pregado que “a mulher normal nasceu para ser mãe para se sacrificar por seus filhos” (autor desconhecido, apud Motta, p. 87). Para complementar, a autora coloca que ainda existe o pensamento que cabe a mulher cuidar e amar seus filhos de forma incondicional, pois é uma capacidade natural desta.

Motta ( 2001) compartilha que a decisão da maternante de entregar o filho deve ser interpretada de inúmeras maneiras, mas jamais devemos fazer uso da descrição equivalente a de mãe/pessoa má. Ela alerta, que justamente por conta da falta de estudos, a concepção de mãe doadora está ligada ao preconceito e a preconcepção.

Assim como Rosseau, Deutsch (apud Motta, 2001, p. 68), defende de que a natureza materna animal se difere da maternidade humano e seria um erro equipara-las já que se tratam de processos tão distintos. Enquanto o animal é de natureza instintiva fisiologicamente determinada, o ser humano é um misto de fisiologia e processos psicológicos. A única coisa em comum dentro dessas duas classes é apenas a função reprodutiva.

Deutsch (apud Motta, 2011, p. 69) diz que mesmo se provassem que a mulher está determinada a ser mãe, que é de sua natureza, que é sua condição fisiológica, biológica e hormonal, os aspectos psicológicos se manteriam inalterados, o que não ocorre. Tanto que a vivência da maternidade se manifesta através de diversos modos.

Motta (2001), defende que é preciso existir uma distinção entre desejar um filho e decidir cria-lo. A decisão de ter uma criança e depois amamenta-lo faz parte do processo de aceite prévio desta mulher em ser mãe. A maternante que opta por não dar o seio ao seu próprio filho é sujeita a duras críticas sociais.

Motta (2011) declara que tal pensamento não seja na verdade parte de uma teoria bioevolucionista, mas trata-se de um “constructo” social, pois cientistas (psicólogos, biólogos, médicos, sociólogos, etc.), admitem que o bebê não precisa ser maternado pela mãe biológica ou que de alguma forma a falta do contato com sua genitora traga algum prejuízo a ele. O instinto em si não gera maternidade, pois o comportamento humano não trata-se do determinismo biológico instintivo e sim, influenciado/mediado culturalmente.

A existência de um útero, bem como o aparelho reprodutor, não é garantia para o desenvolvimento e cumprimento de funções ditas maternas, como proteção, tutela, educação, etc. Estas funções correspondem a aprendizagem cultural e não filogenética (MOTTA, 2001).

Motta (2001) retrata como a vergonha e o medo de desafiar o ideal de amor materno imerso na sociedade interferem na entrega do filho em adoção. Muitas mulheres preferem abandonar crianças em portas de desconhecidos, lixeiras, rios e entre tantos outros lugares para não ter que abrir mãe do pátrio poder, expondo assim a “incompetência” de assumir a maternagem. O que coloca dificuldades para saber da história da criança, o que é de fundamental importância no processo a ser aberto no Juizado de Infância e juventude. Existem também àquelas que se obrigam a institucionalizar os filhos por anos para não perder o pátrio poder. Essa conduta acaba por prejudicar tanto a mãe quanto ao filho e suas futuras relações entre eles e entre o mundo.

O não questionamento deste mito do amor materno, como Motta ( 2001) alerta, acaba por acarretar sérias consequências nas questões relativas a disseminação dos ideais maternos. A idéia fixa da mãe ideal habita na simbologia, em uma definição calcada em crenças imaginárias oriundas no que foi descrito por Banditer ( 1980) dentro da nova geração de mães a partir do século XIX, circundado pelo jogo de interesses correspondente tanto ao Estado quanto a fascinação da mulher em alçar novos caminhos e oportunidades.

Becker (apud Soejima e Weber, 2008) reconheceu que existem mulheres que não dispõem do sentimento maternal. Se a rejeição do filho é algo real então consequentemente essa negação da maternidade é manifestada de forma que venha a prejudicar e até mesmo colocar em risco de desenvolvimento da criança. Soejima e Weber (2008) fazem alusão a decisão de abandonar o filho e que isto pode afetar a mulher de alguma maneira, já que entrega-lo a adoção significar aceitar a impossibilidade de não cria-lo ocasionando assim frustração ou rejeição do amor e desejo maternante.

5.1 A Vivência do Luto Materno Após a Entrega do Filho em Adoção

Segundo Motta (1984), o luto é um misto de processos psicológicos, físicos e sociais. É um processo normal que contempla um todo e se faz necessário na vida do indivíduo. Freud em sua obra Luto e Melancolia ( apud Motta, 2001, p. 83) descreve que o luto é um doloroso estado da mente e funciona como uma espécie de permuta psicológica entre tarefas e atividades que são desempenhadas “em troca de uma espécie de liberdade psíquica em relação a pessoa morta” ( Motta, 2001, p. 84). Sendo assim, pode-se dizer que é um processo em que a pessoa realiza um desinvestimento psíquico inicial em um objeto e reinveste no outro.

Esta ação psíquica consiste em dois mecanismos psíquicos: introjeção e desinvestimento. A introjeção é um processo por intermédio do qual o enlutado cria em sua mente uma representação ou imagem mental do objeto perdido. Por meio do desinvestimento, todos os sentimentos, pensamentos, memórias e expectativas ligam o enlutado ao objeto perdido são gradualmente revividos, revistos, sentidos e abrandados. a conclusão do desinvestimento, completa, encerra o trabalho de luto ( MOTTA, 1984, p. 85).

Motta (2001) chama atenção não só para a falta de investigação no meio científico quanto a questão das mães doadoras, mas também como a vida dessas mães prosseguiu pós-separação do filho, o que significou e como esse fato inferiu em sua vida. Não conhecemos o luto e nem sabemos a forma de lidar com ele.

O que se tem conhecimento quanto ao luto materno, é por intermédio de pesquisas estrangeiras aplicadas por Jones (1993), Sorosky, Baran e Pannor (1989), Roles (1989) e Rynearson (1982) (apud Motta, 2001, p. 85), onde é verificado que a tristeza e o remorso são frequentemente verificados mesmo quando a adoção ainda só é uma idéia. O luto, algumas vezes, parece ser infindável. Rynearson ( apud Motta, 2001), apresenta relatos de mudanças comportamentais na relação da mãe com os demais filhos. Elas apresentam-se mais apegadas e superprotetoras.

De acordo com os estudos feitos por Motta, na obra Mães Abandonadas: A Entrega do Filho em Adoção (2001), e conforme outras pesquisas semelhantes, as mulheres revelam que sentem-se consternadas na data de aniversário de seu filho e em comemorações importantes. Algumas não conseguem estabelecer novos relacionamentos:

Sentem-se não merecedoras de amor e, com frequência, negam a si mesmas qualquer espécie de prazer ou felicidade. Mesmo que se casem e tenham outros filhos, a sombra do filho que entregaram sempre estará presente. (MOTTA, 2001, p. 87)

Motta (2001) aponta que um dos principais motivos para o profissional ignorar o processo de luto materno seja o receio dos sentimentos pertimentes ao processo de enlutamento interfira na decisão da mãe, que a coloque em dúvida sendo possível que, consequentemente, o processo de adoção sofra alterações.

O luto não franqueado é aquele vivido pelas mães que entregam seus filhos em adoção. Doka (apud Motta, 2001, p. 103) disserta que é aquele em que “a pessoa sofre a perda, mas tem pouca ou nenhuma oportunidade de lamentar-se publicamente”, ou seja, é quando a pessoa não tem o reconhecimento social de ter direito ao luto. Mota (2001, p. 103) expõe que este é o tipo mais complicado, pois não pode ser revelado devido incitar respostas sociais negativas e repressoras.

6. Conclusão

A definição da mulher ainda está vinculada ao seu papel dentro da sociedade, sendo este funções referentes aos cuidados da família e principalmente relacionados à maternidade, o que de certa forma contribui para construções de pontes deterministas alusivas ao seu comportamento e modo de encarar a vida. Tais pressupostos são inseridos desde sua infância em sua criação.

No entanto, o viés da maternidade correlacionada a afetividade e a relação com criança apresentou durante a história diversas modificações. A história da maternagem tornou-se quase que obsoleta quando novos padrões relacionados a dinâmica mãe e filho foram acatados pela sociedade. O amor materno e o instinto maternal tornou-se quase que uma verdade absoluta. Entretanto, ao ser feito um resgate histórico, observa-se sobre a criança considerada como estorvo por atrapalhar as atividades dos pais como ir a festas (família aristocrata e burguesa) e de trabalhar (famílias rurais), como fruto do pecado, a infância como algo que deveria ser renegado pelo prazer que a criança manifestava ao sugar o leite do seio materno. Muitas eram entregues à ama-de-leite e pelas condições em que essas mulheres se encontravam, um número expressivo de infantes morriam, quando sobreviviam e voltavam à casa da família, sua educação era responsabilidade de governantas e quando cresciam eram deixadas em internatos. Tais fatores enfraqueciam o vínculo entre pais e filhos (BANDITER,1980).

A nova concepção tangente à maternidade ocorreu no término do século XIX e início do XX como uma estratégia política e econômica do estado, onde seduziu o público feminino, cansado de ser oprimido e ter a imagem ligada a inferioridade e dependência, a assumir a responsabilidade pela educação e sobrevivência de sua prole (BANDITER, 1980).

A maternidade tornou-se o modelo de feminilidade, como o ápice da realização de uma mulher, algo muito desejado. O ser boa mãe passou a ser parte do perfil feminino e também do estereótipo. Ser uma boa mãe significa ser uma boa pessoa. A partir deste momento o instinto maternal passou a definir o caráter (BANDITER, 1980).

Com tudo o que foi citado, e com o decorrer do tempo, a maternidade, por outro ponto de vista, começa a ser encarado também como um estigmas. A mulher que decide entregar seu filho por quaisquer motivos que seja, passa a ser vilanizada, julgada e considerada como objeto de escárnio pela sociedade (BANDITER, 1980).

O abandono, tendo como o viés apenas a terminologia da palavra, em caixas de lixos, em calçadas, em beiras de estrada, é explicado pelo fato de esses lugares serem movimentados, o que favorece uma maior possibilidade de alguma pessoa ver e toma-la para si, salvando-a assim de um destino pior do que teria ao encarar as condições cruéis de vida ao lado da mãe biológicas (BANDITER, 1980).

Não existe o abandono e nem decisão quando se trata da entrega em adoção. Trata-se apenas como a única alternativa lógica para garantir a sobrevivência de seu filho. Quando o faz, não o faz por maldade. Ela sofre. Sofre ao encarar a impotência de podar a convivência e não poder dispor de condições mínimas que possa assegurar uma qualidade de vida favorável ao desenvolvimento de seu filho. Esta mãe vivencia não apenas o luto, vivencia também negligência das políticas públicas e julgamentos arbitrários da sociedade. Esta mãe é condenada por amar seu filho e querer o melhor para ele (BANDITER, 1980)

Sobre o Autor:

Sara Silva Vale - Psicóloga formada com ênfase em Saúde Pública e Hospitalar pela Faculdade da Amazônia Ocidental-FAAO. Estagiou por dois anos no Juizado de Infância e Juventude do Acre, trabalhando com temas relativos à Psicologia Jurídica e Social, medidas protetivas, tutelas e adoção de crianças e adolescentes.

Referências:

BANDITER, Elisabeth. Um Amor Conquistado: O mito do amor materno. Disponível em: http://www.redeblh.fiocruz.br/media/livrodigital%20%28pdf%29%20%28rev%29.pdf. Acessado em: 28 de maio de 2014.

BORSA MENEZES, Karla F. F. Discurso das Mães Doadoras: Motivos e sentimentos subjacentes à Adoção. Disponível em: http://www.unicap.br/tede/tde_arquivos/1/TDE-2007-06-13T113024Z-92/Publico/Karla%20Fabiana_confrontado.pdf Acessado em: 27 de junho de 2014

MOTTA, Maria Antonieta P. Mães Abandonadas: A entrega de um filho em Adoção. 1.ed. São Paulo: Cortez,2001.286p.

SOEJIMA, Carolina; WEBER, Lidia. O que leva uma mãe a abandonar um filho? Disponível em: http://www.aconchegodf.org.br/biblioteca/manuais/O-QUE-LEVA-UMA-MAE-A-BANDONAR-UM-FILHO-Cap-livro-ABPMC.pdf . Acessado em: 07 de junho de 2014.