Resumo: Esta pesquisa investiga a definição de amor para os uxoricidas, e o papel do psicólogo diante desta problemática social. Utiliza como método de estudo uma abordagem qualitativa de cunho exploratório e como instrumento a entrevista semi-estruturada. Constata que o amor para estes sujeitos se define na fidelidade e os resultados indicam a presença de um amor patológico. Embora a complexidade que envolve esta temática, a ciência não pode prescindir em desenvolver mais pesquisas nesta área, com o intuito de uma maior compreensão dos sujeitos que cometem os ditos “crimes de amor”, para que venha a auxiliar o Poder Judiciário em suas decisões, assim como no olhar do Direito Penal para com estes sujeitos.

Palavras-chave: Amor, Violência Doméstica, Uxoricídio. 

1 Introdução

Inúmeros são os autores que se tornam famosos através de suas histórias de amor e ódio, crime e castigo, de homicídios movidos por fortes emoções. Embora existam divergências em relação a amar e matar, as estatísticas mostram que, atualmente, inúmeros são os casos de casamentos que acabaram com a morte de um dos cônjuges, sendo as mulheres, na maioria das vezes, a vítima deste tipo de delito, que avança de forma acelerada.

O presente estudo tem o intuito de investigar os ditos “crimes de amor”, buscando compreender o que os sujeitos que cometem o uxoricídio, ou seja, matam sua esposa, definem por amor. Observando a contrariedade entre amar e matar, este tema suscita interesse não somente de ordem social e epidemiológica; tal fenômeno põe em discussão aspectos emocionais, psicológicos, jurídicos e ideológicos, para os quais até o presente momento não se verifica considerável compreensão.
“Amor não mata, pelo contrário, dá vida” é o posicionamento de alguns dos autores que trabalham este tema. Assim sendo, este estudo buscará entender como os uxoricidas referem-se ao sentimento chamado amor, que paradoxalmente é a justificativa de seu ato de violência extrema.

2 Fundamentação Teórica

2.1 Casamento: entre o sonho e a realidade

O casamento é uma das instituições mais antigas do mundo civilizado, cuja celebração conserva suas características há mais de dois mil anos. Mesmo com as visíveis mudanças sociais, o casamento continua sendo idealizado por muitos, mesmo após o fracasso de uma ou mais experiências, como evidenciam as estatísticas das mais variadas partes do mundo.[1]

Inúmeros são os sentimentos que motivam o enlace matrimonial, podendo ser eles os sentimentos de amor, paixão, de necessidade de construir sua própria família, de abandonar a casa dos pais, de satisfação afetiva e/ou sexual, por interesses financeiros, de ascensão profissional, etc.[2] Segundo Suecker, imagina-se que um casal se una para a construção de uma vida agradável, buscando satisfações mútuas e crescimento pessoal.[3] Ao mesmo tempo, sabe-se que não existem relações perfeitas, por mais que possam aparentar. Com o casamento, portanto, não seria diferente. Por melhor ou pior que seja, este atravessa fases.

Gauer apresenta as fases a serem experienciadas durante o casamento. No início da relação a dois é coroado pela fase de apaixonamento, de idealização. Após, os cônjuges deparam-se com a desidealização, na qual aprendem (ou não) a aceitar suas diferenças para uma convivência harmoniosa. Percebe-se que o outro não é perfeito, e os defeitos tornam-se visíveis. A última fase é a de dependência madura e, obviamente, trata-se do casamento saudável, no qual os parceiros conseguem administrar as contrariedades que surgem no casamento. Já nas relações patológicas, essa terceira fase dá lugar a uma de reprovação, emergindo os conflitos infantis não elaborados ou não resolvidos através de uma união conjugal. Tem-se, então, uma relação ambivalente com a prevalência do ódio sobre o amor.[4]

A partir destas considerações, faz-se necessário conceituar ódio e amor, que, conforme Suecker, são energias de sucessivas acumulações afetivas.[5] O primeiro leva alguém a experimentar repulsa por uma terceira pessoa, fazendo surgir o desejo de lhe causar dano ou de destruir ou afastar para longe o objeto odiado. Já o amor leva alguém a experimentar não a repulsa, mas a atração, gerando o desejo de fazer o bem ao ser amado e de acarinhá-lo ou tê-lo presente. Frente a esta conceituação, Bodei traz a idéia da transformação do amor em ódio, sendo que a intensidade desses afetos parece corresponder-se; ou seja, quanto maior o amor inicial, tão ou mais violento poderá ser o ódio.[6]

O amor dirige-se à preservação do ser amado, ao contrário do destrutivo ódio, que é entendido como um corrosivo e cuja força é capaz de execrar a pessoa anteriormente amada. Como apreciado nas relações patológicas conjugais, a possibilidade de destruição da vida do cônjuge faz-se mais presente. Nesses casos, o autor do fato parece não vacilar perante nada, tamanha a intensidade de seu sentimento de vingança e aversão à mulher. A partir deste enfoque, o ódio é o grande motivador da violência doméstica podendo chegar ao mais alto grau de expressão da violência: o atentar contra a vida de outrem; ou ainda o homicídio.

2.2 O anel que tu me deste era vidro e se quebrou: violência doméstica

Embora a violência doméstica seja um fenômeno multifatorial, alguns aspectos podem ser designados como facilitadores desta conduta. Entre esses, encontram-se: o alcoolismo, a pobreza e o desemprego e o fácil acesso a armas de fogo.[7]

No Brasil, segundo Soares, em 77,6% dos casos de violência, o agressor é o próprio cônjuge (ou ex-cônjuge).[8] Observou-se também que 70% dos casos revelam a ocorrência de agressões anteriores, demonstrando um padrão de violência recorrente. Estes dados fazem pensar sobre as origens destes padrões e sua omissão, comum na nossa realidade.

Para Corsi, somente após vários anos de sofrimento é que as mulheres efetuam a denúncia, pois a dependência econômica e os vínculos de parentesco são fatores que contribuem para que esta denúncia seja adiada. O medo também é um fator que causa a omissão dos casos de violência desta natureza, além da dependência econômica e afetiva. As ameaças são os meios utilizados pelos agressores para manter a vítima sob seu jugo, impedindo que o crime venha a ser denunciado e escapando da punição. Agindo assim, mascarando a verdade, configura-se, por parte das mulheres, o consentimento que se deve manter a violência pela impossibilidade de encontrar uma alternativa que satisfaça suas necessidades de amparo afetivo e material. Esta dependência costuma durar por muito tempo, até que seja esgotada a esperança de uma melhoria da relação.[9]

Nessa relação conjugal, em que a violência prevalece, Nunes elucida que tanto o agressor quanto a vítima necessitam de auxílio e esclarecimento quanto aos direitos e obrigações que permeiam uma relação conjugal. Reestruturando seus papéis, readquirindo sua dignidade de ser humano, será possível desativar os mecanismos desta “bomba-relógio”, composta por omissão, impunidade, repetição e silêncio, promovendo a eliminação dos perigos iminentes que afligem os lares brasileiros.[10]

Soares aponta barreiras que favorecem a permanência da vítima nesse relacionamento violento, sendo elas a negação social, a crença na busca de um auxílio por parte do agressor, a falta de autonomia econômica, a morosidade que envolve o término de um relacionamento e a esperança de que o marido mude de comportamento.[11]

O mesmo autor afirma que, devido à dificuldade do trâmite, inúmeros são os fatores que acabam por contribuir para que muitas mulheres desistam de concretizar suas denúncias. Entre eles, encontra-se a situação de fragilidade da vítima, a falta de interesse na prestação de esclarecimentos por parte das autoridades, o temor das ameaças impostas pelo agressor, a falta de condições econômicas para manter seus filhos e a si.

Cardoso descreve que há uma gama de motivos que levam os sujeitos a permanecerem em relacionamentos violentos, desenvolvendo desta forma um ciclo contínuo de violência conjugal. Este pode vir a se agravar, gerando consequências extremas, como o risco de vida. Os prejuízos que as relações conjugais violentas resultam, atingem tanto os membros da dupla como seus familiares e a sociedade.[12]

Segundo Nunes, a idéia de posse da vítima é nítida no agressor, que a percebe como sendo parte sua e entendendo que seu distanciamento é um risco para sua própria sobrevivência. Os agressores que não conseguem lidar e conter suas ansiedades e frustrações são os que provavelmente acabam por delinquir. Dependendo da maneira como esta relação adulta se constituirá, criam-se, ou não, oportunidades para o desenlace de um delito grave. Este é, normalmente, o último elo de uma cadeia de acontecimentos de progressiva gravidade.[13]

2.3 Delinquente por amor: uxoricídio

Ferreira define uxoricídio como assassinato da mulher pelo próprio marido. O autor ainda complementa que a maior parte dos homicídios relacionados ao cônjuge se refere à violência doméstica no decorrer da história do casal.[14]

O assassino não é amoroso; é cruel, afirma Eluf.[15] O amor não traz destruições como muitos chegaram a alegar. O sentimento de paixão é comum a muitas pessoas e as medidas são várias; contudo, existem pessoas mais propensas a praticar um ato de violência.

Segundos dados de pesquisa relatados pela autora acima, geralmente ele é homem, tem mais de 30 anos, é extremamente vaidoso, ciumento, possessivo e inseguro. Após o crime, procura confundir a sociedade, que o julgará no tribunal do júri, apresentando a visão do amante sofredor, dominado por bons sentimentos, injustamente traído e, finalmente, arrependido. Ele quer, apenas, escapar da merecida punição. Eluf relata, a partir de sua experiência profissional como promotora de justiça, que o homicida passional raramente se arrepende.[16]

Já Ribeiro entende que o homicida passional é, acima de tudo, um narcisista. Ele passa a vida enamorado por si mesmo, elege a si próprio, ao(s) outro(s), como objeto de “amor”. Não possui autocrítica e exige ser admirado, exaltado pelas qualidades que não tem. Não acontecendo assim, sente-se desprezado, morto, destruído, liquidado. Contra isso, luta com todas as armas, podendo até matar para evitar o colapso do seu ego. Reage contra quem teve a audácia de julgá-lo uma pessoa comum, que pode ser traída, desprezada, não amada.[17]

Passada a agressão, é comum o criminoso se surpreender com as próprias atitudes e se sentir tocado pelo que fez, e alguns ficam no local do crime, chamam a polícia, pedem ajuda, entretanto dificilmente chegam ao arrependimento.[18]

3 Metodologia

Com o intuito de investigar qual a definição de amor para os uxoricidas, utilizou-se como método de estudo uma abordagem qualitativa de cunho exploratório. Esse método utiliza descrições narrativas, obtidas geralmente por meio de entrevistas que são analisadas, tornando possível a obtenção de respostas para o problema.[19] Para análise de dados foi utilizada a Técnica de Análise de Conteúdo proposta por Bardin.[20]

Problema de Pesquisa

Qual a definição de amor para os uxoricidas?

Questões Norteadoras

Qual a definição de amor para os sujeitos que mataram suas esposas, caracterizando o uxoricídio?

Esse amor é patológico?

Qual o papel do psicólogo diante dessa problemática social?

Foram convidados a participar da pesquisa quatro sujeitos do sexo masculino que mataram suas esposas ou companheiras, caracterizando desta forma o uxoricídio.

Os critérios utilizados para a escolha dos entrevistados foram sujeitos que praticaram o delito, mesmo não estando formalmente na situação de casados, mas vivendo em condições que, do ponto de vista jurídico, são equiparados a legalmente unidos, ou ainda os que mantiveram um relacionamento afetivo-sexual estável. Eles foram contatados através do responsável da instituição carcerária na região metropolitana de Porto Alegre, conforme a disponibilidade e conveniência dos participantes. As entrevistas foram gravadas em fita cassete para posterior transcrição.

Para a coleta de dados foi utilizada uma entrevista semi-estruturada contendo quatro perguntas, foi redigido um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para os participantes, que o receberam em duas vias, permanecendo uma com o participante e uma com a aluna pesquisadora. A assinatura do termo se deu anteriormente ao início da entrevista, após a explicação dos objetivos da pesquisa.

4 Apresentação e Discussão dos Resultados

Para a apresentação dos resultados, os participantes serão identificados através de letras e números – por exemplo U1, que significa Uxoricida 1, e os demais em sequência –, de forma a manter o sigilo necessário no processo de pesquisa, preservando as identidades dos sujeitos.

A análise de conteúdo permitiu dividir as entrevistas em cinco categorias resultantes do agrupamento das unidades de significado.

4.1 Categoria 1 – Negação da realidade

A negação da realidade está presente nas verbalizações dos sujeitos entrevistados, pois ao relatar sobre seu relacionamento, este é descrito como perfeito e permeado de muito amor. Observa-se que não houve a negativa da autoria do crime, mas sim quanto à presença de problemáticas no histórico de vida do casal, e utilizar-se de tal mecanismo é compreensível frente à ansiedade oriunda do ambiente e da situação que se encontram.

Os uxoricidas relataram somente pontos positivos do seu relacionamento:

Nosso relacionamento era maravilhoso, tanto que quase todas as noites ela me acordava durante a madrugada e dizia: ‘amor eu te amo, tu é o amor da minha vida, quero morrer velhinha do teu lado, te ajudando’, a gente se amava muito e até hoje eu não entendo o porque disso ter se desencadeado desta maneira. (U1)

“Nunca brigamos, nunca discutimos, nada, nada, tudo o que ela gostava, eu fazia e ela também era assim comigo, ela era tudo para mim, nossa vida sempre foi perfeita, ela era tudo o que eu tinha, nós nunca discutimos mesmo.” (U3)

Ao negar, estamos mentindo para nós mesmos, e criando falsas situações “mais importantes”, para não enfrentar o “mais real”. A criação de fantasias e devaneios, sem a correspondente ação, é um mecanismo de negação típico de quem não deseja enfrentar a realidade interior e exterior.[21]

Conforme Freud, utilizar-se do método de negação, que se baseia na fantasia de inverter a realidade vivida ao oposto, é agregado a eventos nos quais será impossível evitar uma impressão dolorosa externa.[22]

Eu fazia tudo por ela, ela dava shows eu estava lá sempre com ela, eu levava ela e as gurias, as amigas dela sempre falavam que a gente era um casal lindo, eu passava o som para elas, estava sempre presente em tudo, até para comprar um pão no mercado ela me convidava: ‘amor vamos ao mercado comigo?’. Eu ia sempre, um junto com o outro. (U1)

Com certeza, esta tentativa de acreditar em um relacionamento equilibrado serve para amenizar a culpa, atribuindo a fatores desconhecidos a motivação para o delito, pois se tratando do relacionamento deles tudo era consideravelmente amigável e pacífico.

“Eu acho que ela não tinha o que reclamar. A gente estava junto a um bom tempo, a gente era um casal perfeito, dia-a-dia normal, sempre almoçando e jantando juntos.” (U4)

Diante dos relatos, observa-se a forma de defesa utilizada pelos sujeitos entrevistados através da negação, descrevendo suas relações como sendo quase perfeitas, mas se percebe que não se trata disso, pois mascaram as problemáticas existentes, afirmando uma convivência sem desalinhos.

4.2 Categoria 2 – Projeção

Tal categoria aborda as verbalizações que apontam à projeção dos conteúdos inconscientes dos sujeitos entrevistados, atribuindo a fatores externos o motivo do delito.

Segundo Almeida, o sujeito projeta o que nega em si próprio, atribuindo ao outro qualidades, sentimentos ou desejos que seriam originariamente seus.[23]

“Hoje eu estou aqui por causa das filhas de uma senhora que eu vivi há 25 anos atrás.” (U3)

“Eu me encontro preso porque fui um usuário de drogas e não consegui me libertar, daí, por causa das drogas, eu fiz uma loucura e vim parar aqui.” (U1)

Na tentativa de aliviar sua culpa e diminuir sua ansiedade, os sujeitos buscam diversas formas de expressar seus conteúdos inconscientes. Neste caso, admitir inteiramente o desejo de matar esta mulher seria talvez insuportável para seu psiquismo, então se utilizam desse mecanismo de defesa, para que possam suportar a realidade.

“Ah, hoje estou aqui por causa de amigos falsos, hoje eu penso e sei que aquela ligação não era de uma pessoa amiga nada.” (U4)

Hall elucida que se a origem da ansiedade pode ser atribuída a fatores externos em vez de aos impulsos primitivos do indivíduo ou às ameaças da consciência, haverá maior probabilidade em ocorrer o alívio da condição ansiosa através da projeção, pois o medo de ser castigado por um agente externo faz com que o sujeito converta sua ansiedade neurótica ou moral em um medo objetivo. Para defender-se psicologicamente, ele substitui o perigo maior por um menor, tornando a situação suportável, e projetando, ele expressa seus impulsos sob o disfarce de defender-se dos inimigos.[24]

4.3 Categoria 3 – Narcisismo

A terceira categoria reúne as considerações que apontam a presença de um comportamento narcisista nos uxoricidas, havendo a presença de autoconfiança exagerada, desejos de prestígio e admiração.

Narciso, personagem da mitologia grega, deslumbrado com sua própria imagem caiu em um lago, sendo incapaz de amar alguém que não fosse ele mesmo. Auto-encantamento, vaidade e egoísmo são alguns dos impedimentos para ir ao encontro do outro de forma disponível e amorosa. Ele coloca-se no centro de todos, pretendendo que tudo gire ao seu redor, sendo seu egoísmo extremo.[25]

“[...] eu trabalhei de motorista de carreta por 32 anos na mesma firma, não é qualquer um para fazer este tipo de trabalho, sempre fiz muito bem.” (U3)

“[...] quando eu sair daqui quero arrumar um trabalho e sei que não vai ser difícil porque eu sempre fui muito bom em tudo o que eu fiz.” (U2)

Os sujeitos discorrem sobre sua vida, referindo sempre a eles como sendo pessoas exímias, tornando questionável esta perfeição, pois exaltam as mesmas como sendo sempre insubstituíveis e de verdadeiro refinamento. Ao se tratar de relacionamentos amorosos, estes são disputados pelas mulheres, podendo escolher quem irá desfrutar de sua companhia.

“[...] meus amigos sempre me falavam: ‘Cara, tem um monte de gurias querendo ficar contigo, dá umas para nós’.” (U1)

“[...] pedi licença para meu ex-patrão para sair e ir a tal festa que ela estava, ele deixou porque eu sempre fui ótimo no meu trabalho, meu patrão nunca reclamou de nada, eu era um exemplo para os meus colegas, era o que ele dizia”. (U4)

Ainda quanto aos relacionamentos, o narcisista encontra-se completamente misturado com sua parceira, considerando o objeto amoroso como extensão do próprio eu, uma vez que ela só existe em função dele, portanto não é possível qualquer tipo de desprezo ou falta de vontade em continuar a relação, ele não admite que sua parceira apresente qualquer dúvida em manter a relação ou refira pretensão em dar cabo à mesma. No entanto, quando isso acontece, a vida lhe parece insuportável, podendo chegar a matar a esposa, que ao mesmo tempo é amada e odiada, podendo também este homicídio ser seguido de suicídio, pois destruindo o objeto que é seu prolongamento, ele não poderá mais existir.

[...] quando eu olhei para o chão e vi minha mão estava toda suja de sangue, a faca estava suja de sangue, olhei para o chão e ela estava caída no chão com o rosto para cima, aí comecei a cravar a faca em mim, para eu morrer junto com ela, porque ela era uma pessoa muito boa e aí eu fiquei quatro dias em coma em um hospital. (U3)

De acordo com Anton, esta é uma conduta que encontramos mais nos homens do que nas mulheres, podemos inferir que a sociedade estimula maior egoísmo por parte dos machos, pois as fêmeas devem se dedicar às suas crias, enquanto eles competem entre si para tornar-se mais atraentes para as mulheres cobiçadas e/ou para garantir melhores condições gerais para suas famílias. Desta forma, driblar e desconsiderar regras e normas sociais, em favor de si mesmo, passa a ser considerado não apenas normal, como também desejável, motivo de admiração e orgulho.[26]

4.4 Categoria 4 – O ato em si

Na quarta categoria, vamos adentrar no ato em si, ou seja, trazendo as verbalizações dos sujeitos ao relatar o momento em que cometeram o uxoricídio, observando suas peculiaridades, assim como buscando uma compreensão desta contrariedade que é o amar e o matar.

Questionamentos quanto à possibilidade de amar alguém e ser capaz de matá-lo permeiam nossa sociedade e, conforme Winnicott, de todas as tendências humanas, a agressividade, em especial, é escondida, disfarçada e atribuída a fatores externos, e quando se manifesta é sempre uma tarefa difícil de identificar suas origens.[27]

Nas palavras de Jerusalinsky:

agressividade funciona como advertência, como demarcação de um lugar ou uma posição como tentativa de fabricar espaço. [...] Quando se nega isto, a condição de ser, ou de ter o essencial à agressividade vira violência. As palavras perdem a eficácia. O discurso cede lugar ao ato.[28]

[...] ela estava na cozinha cortando tomate, ela ia fazer uma janta para nós e começamos a debater [...] ela acabou apontando a faca para mim, fui tentar tirar a faca da mão dela e nesse tirar a faca da mão dela, ela me cortou e eu fiquei nervoso e enfiei a faca nela seis vezes. (U2)

[...] quando eu cheguei lá naquela festa, só estava ela, foi Deus quem acalmou um pouco a situação, mas não adiantou, começamos a conversar, a discutir, e eu tinha uma arma, me deu um branco total e eu atirei bem no rosto dela, até hoje não sei por que fiz isso. (U4)

No entendimento do Direito Penal brasileiro, existe uma diferenciação entre a paixão e o amor, sendo a primeira um estado obsessivo da alma humana ao contrário do amor que tem suas particularidades, afastando-se a possibilidade de que o amor motive a criminalidade.[29]

Aristóteles, citado por Lyra, afirma que “só se ama quando se anseia pela pessoa ausente e se deseja intensamente sua presença”, e Lyra aindaacrescenta que no uxoricida apenas preside o ódio, não o amor, pois apunhalar, esfaquear ou disparar uma arma não é gesto de amor, mas sim de ódio. Não há tiros, facadas ou punhaladas de amor.[30]

[...] ela veio para me desarmar e eu, naquele momento, interpretei que ela estava tentando me matar, eu acabei efetuando um disparo que atingiu na bunda dela e ela veio a morrer, eu só me lembro desse, mas me falaram depois que disparei cinco tiros nela; cara, eu amava esta mulher. (U1)

[...] eu estava com uma faca na cintura que tirei e joguei perto da pia, daí ela caiu no chão, aí quando ela me deu uma cadeirada, eu não vi mais nada, a única coisa que eu lembro é quando a filha dela começou a gritar para ela fugir [...], eu peguei a faca do chão, e para não pegar nela, eu acho que a mãe dela se enfiou na frente e pegou nela, na mãe, aí não ouvi mais grito, não ouvi mais nada, quando voltei a si, aí que fui olhar para o chão e ela estava caída com o rosto para cima. (U3)

Mesmo com atitudes mostrando-se contrárias aos seus discursos, todos os sujeitos entrevistados afirmam nutrir um sentimento de amor pelas mulheres que mataram, inclusive empenhando-se em definir este sentimento de amor, reforçando a presença de um amor, mas um amor patológico, que mata.

4.5 Categoria 5 – Amar é ser fiel

Esta categoria apresenta verbalizações que se referem à definição do amor para os uxoricidas, cuja concepção de amor está diretamente ligada à fidelidade. No latim amore define-se como a emoção que predispõe alguém a desejar o bem de outra pessoa ou coisa.[31]

Suecker argumenta que o amor não motiva a criminalidade, são incompatíveis.[32] Em contrapartida, Sophia traz a questão do amor patológico, podendo este ser gerador de inúmeras conflitivas até chegar ao grau máximo de violência: o atentar contra a vida de outrem.[33]

Costa recomenda especial atenção para os desajustes conjugais e os desencontros iniciais entre a mãe e o bebê, pois esta relação serve de base para as relações interpessoais que serão estabelecidas ao longo da vida.[34] Devido ao vínculo mais estreito entre a mãe e o bebê que se estabelecem com a amamentação, as sensações/sentimentos vividos nesta época serão a expectativa do indivíduo para as relações na vida adulta.

[...] para mim, o maior amor do mundo que existe entre um homem e uma mulher, eu acho que é o da mãe da gente, que a gente tem mais amor, carinho, ela era minha amiga, mulher, tudo para mim, sempre foi muito dedicada, ela era fiel a mim e eu também com ela. (U3)

“[...] palavras não é meu forte, mas amor é uma pessoa que tem carinho especial por outra, como eu tinha pela mãe do meu filho, eu nunca traí ela.” (U2)

Observa-se que somente parte da amamentação é para o alívio da fome, outra parte resulta no prazer de sugar o seio materno reduzindo-se à mais íntima relação de fidelidade, e quando adultos, ao nos relacionarmos, dá-se através da intimidade conjugal um retorno a este seio, mas agora em outro contexto.

“[...] para mim, o amor é companheirismo, é amizade é a fidelidade entre as duas pessoas, tanto que eu jamais traí ela.” (U1)

“[...] bastante sorriso e estar presente sempre, carinho, conversar bastante. Eu acho que resumiria o amor na família, porque para mim a família é tudo, eles estão sempre contigo e nunca vão te trair.” (U4)

A disponibilidade emocional dos pais, em especial da mãe ou cuidador(a) para suprir as necessidades emocionais da criança em situações estressantes é o alicerce pelo qual a criança aprende a perceber e a se relacionar com o mundo.[35]

Desta forma, elucida-se a importância dos cuidados com o momento inicial do desenvolvimento humano na prevenção em saúde mental, pois a amamentação promove um sistema de comunicação da criança com o mundo circulante, funcionando como um registro indelével que sofre pequenas modificações com o passar dos anos, mas o núcleo se mantém, refletindo nos relacionamentos futuros.[36]

Lyra coloca que, em respeito aos românticos, não se pode confundir com as setas do cupido a faca, o punhal, o revólver, a navalha. A rigor, crime de amor seria a compreensão de um abraço, a violência de um beijo que esgotasse os pulmões. O amor é, por natureza, fecundo e criador. Não figura nas cifras da mortalidade.[37]

4.6 Categoria 6 – Amor patológico

A quinta categoria reúne considerações acerca do amor dos uxoricidas, fazendo um paralelo com o amor patológico.

Após as entrevistas com os uxoricidas, observa-se a presença em seus discursos de conceitos encontrados para o Amor Patológico, nos remetendo a este assunto, pois a forma desses sujeitos relacionarem-se com suas companheiras e expressarem seus afetos demonstram um excesso de cuidado e zelo.

A atitude de cuidados e atenção ao companheiro(a) é esperada em qualquer relacionamento amoroso saudável. A expressiva diferença entre o normal e o patológico está na falta de controle e de liberdade de escolha sobre essa conduta, ou seja, quando ela passa a ser prioridade para o indivíduo.[38]

“[...] eu deixava de fazer as coisas para mim por ela, sempre era ela quem escolhia onde a gente ia dançar ou comer.” (U1)

O amor patológico caracteriza-se, portanto, pelo comportamento de prestar cuidados à atenção excessiva ao parceiro, com a intenção de receber afeto e evitar sentimentos pessoais de angústia e menos-valia.[39]

“[...] Eu passava todo dia na padaria e pegava pão fresquinho que ela gostava tudo novinho quentinho, frutas também, todos os dias quando ela acordava o café estava pronto, eu fazia para ela.” (U3)

Sophia contribui, relatando que o tipo de apego ansioso-ambivalente caracteriza o indivíduo com o amor patológico, que estes sujeitos apresentam alto grau de impulsividade e que o amor patológico não se correlaciona com a intensidade do sentimento amoroso, mas sim com a persistência em um relacionamento amoroso insatisfatório. [40]

“[...] eu fazia tudo por ela, não tinha dia nem hora, tudo o que ela queria eu fazia, cuidava dela, das coisas dela, escolhia tinta de cabelos para ela, sapatos, blusas, era quase sempre eu quem escolhia as coisas dela.” (U2)

Na realidade, apesar de todas as tentativas dos sujeitos em elaborar formas quase perfeitas ao falar sobre seu empenho em cuidar de suas companheiras, fica evidente que se trata de um relacionamento patológico, pois a intensidade da dedicação ao relacionamento e para com suas companheiras, por eles explanada, instiga questionamentos quanto à normalidade desta relação.

“[...] eu quem escolheu o curso dela de recepcionista, e ela gostou, era perto do meu trabalho e eu sempre fazia de tudo para pegar ela lá todos os dias, sempre dava força, por mim a gente não se desgrudava nunca.” (U4)

Alguns estudiosos acreditam que a problemática principal não é individual, mas o estilo de amor estabelecido pelo casal, o que poderá ser observado pelo profissional que se deparar com eles ainda na violência doméstica, podendo através de sua compreensão da problemática estabelecer estratégias focadas ao estilo de amor do casal.

5 Considerações Finais

A partir desta pesquisa, percebe-se a complexidade que envolve o uxoricídio. Durante as entrevistas, os sujeitos demonstraram dificuldades em relatar a real situação de seus relacionamentos, negando qualquer desajuste ou infelicidade nestes, assim como projetando a outrem o motivo de sua prisão.

O estudo permitiu constatar que, devido às condições em que estes sujeitos se encontram, é necessária a utilização de tais defesas, pois admitir a presença das problemáticas vivenciadas na vida conjugal seria a conexão com os possíveis desejos inconscientes de destruição dessa mulher. Desejos estes que seriam originados em sua relação materna, quando lhe faltaram bases seguras na construção de apego, estando os pais presentes em algumas situações, gerando insegurança quanto à sua disponibilidade.

Desde o início da humanidade, existiram os uxoricídios e não é exclusividade de nenhuma classe social, trata-se de uma questão subjetiva, não se podendo afirmar quem é capaz ou não de praticá-lo, pois o sentimento, seja ele qual for – o ódio, a vingança, o amor,  entre outros – é inerente ao ser humano e cabe a cada um a forma de administrar a perda, a dor de uma separação.

Desta forma, se faz necessário uma atenção especifica aos uxoricidas, pois os amores patológicos seguramente são causadores de agressão, violência e até nos apontando a morte nas relações. São necessárias mais pesquisas no que tange ao entendimento destas relações, assim como à forma de estabelecer vínculos destes sujeitos, implicando em uma mudança de paradigmas que envolvem esses crimes, ou até mesmo na legislação vigente para os crimes passionais, pois, após o cumprimento de suas penas, esses sujeitos voltam para a sociedade e estabelecem novas relações, ficando expostos a novas conflitivas que os remetam às problemáticas iniciais, culminando possivelmente em uma nova atitude de excessiva violência.

Como limitações do presente estudo, pode-se apontar um número pequeno de entrevistados, bem como a questão de gênero, pois os “crimes de amor” ocorrem também por parte das mulheres, sendo então denominados mariticídio. A Psicologia não pode prescindir em trabalhar com as questões da criminalidade e deve investir em mais pesquisas para capacitar seus profissionais, através de instrumentalização, para uma maior compreensão destes sujeitos, para podermos pensar questões de saúde e prevenção, auxiliando o Judiciário com o manejo destes, assim como apontando a possível necessidade de uma revisão legal frente à inclusão desta nova patologia.

Sobre os Autores:

Andrea Bernardes Lopes - Psicóloga Clinica.

Maria de Fátima Reszka - Psicóloga. Mestre em Educação pela Unisinos. Docente do curso de Psicologia da ULBRA-Gravataí.

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