Resumo: A Resiliência é entendida como a capacidade do indivíduo de passar por experiências de adversidade e sair fortalecido delas. A partir desta compreensão, este estudo objetivou investigar os fatores que promovem a Resiliência em pacientes com câncer. De acordo com a vivência de uma paciente com doença ameaçadora da vida. A investigação era de cunho qualitativo, realizado com um paciente do Centro de Fundação de Controle de Oncologia do Estado das Amazonas. Participe do estudo de caso um paciente G. B. P, 29 anos atendida em visita domiciliar, religião cristã católica em fase de tratamento da patologia. Foi utilizada a técnica da História de vida para a coleta dos dados e posteriormente realizou-se uma análise de conteúdo. Como resultado, observou-se que as pacientes ao realizar valores vivenciais e atitudinais durante o processo de tratamento, conseguiram encontrar um sentido no adoecimento e na vida, favorecendo comportamentos resilientes.

Palavras-chave: resiliência, câncer de mama, sentido de vida.

Abstract: He Resilience is understood like the capacity of the individual to go through experiences of adversidade and go out strengthened of them. From this understanding, these study objectives investigate the factors that promote the Resilience in patients with cancer. In accordance with the vivencia of a patient with illness amenaçadora of the life. The investigation was of cunho qualitative, realized with a patient of the Centre of Foundation of Control of Oncology of the State of the Amazons. Participate of the study of case a patient G. B. P, 29 years attended in visit domiciliary, Christian religion Catholic in phase of treatment of the pathology. It was used the technician of the History of life for the recolección of the data and Later it realized an analysis of content. Like result, observed that the patients when realizing values vivenciais and atitudinais during the process of treatment, They achieved to find a sense in the adoecimento and in the life, favouring behaviors resilientes.

Keywords: resilience, breast cancer, meaning of life.

1. Introdução

O trabalho proposto é fruto das experiências vivenciadas na Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCECON) – com uma paciente com diagnóstico  de câncer. Foi possível perceber as diversas reações experienciadas pela mesma, e também, como estas reações afetaram à vida dessa paciente parcial ou permanentemente. Esses aspectos ajudaram a compreender melhor como a paciente reage ao diagnóstico, aos tratamentos medicamentosos, à rádio e à quimioterapia, além de poder relacioná-las com a resiliência que é a capacidade de readaptação do ser humano. Conforme Silva, Elsen e Lacharité (2003), a resiliência auxilia na capacidade psicológica de compreender como é possível, mesmo em situações de adversidade, realizar a promoção da saúde. Ao estudar esses fenômenos complexos, a resiliência e câncer, espera-se que seja possível à construção de alicerces com construtos de cuidados singulares dos pacientes com doença ameaçadora da vida, promovendo a qualidade de vida nesses pacientes no contexto do Serviço da Terapia da Dor e Cuidados Paliativos (STDCP).

2. Metodologia

O presente trabalho refere-se a um estudo de caso de uma paciente, sexo feminino, 29 anos, atendida no STDCP, pelos profissionais de psicologia da referida equipe multiprofissional. Foram realizadas dez visitas domiciliares na residência da paciente, no período de janeiro a junho de 2015, devido dificuldades físicas de locomoção. Utilizou-se a técnica da História de vida baseada em Haguette (1992) que tinha como pergunta norteadora: Como você se sentiu ao descobrir a existência do câncer? Ao ser questionado com a pergunta norteadora, a paciente G.B.P. narra a sua vivência quanto ao diagnóstico e tratamento frente a uma doença ameaçadora da vida. A análise foi baseada nos passos propostos por Martins e Bicudo (1989), mediante as seguintes etapas: Ordenação, categorização e análise final dos dados. A primeira etapa consistiu na ordenação dos dados - a transcrição na íntegra das respostas da paciente, possibilitou compreender os fatores que promovem a Resiliência no contexto do câncer A segunda etapa: Categorização, onde foram identificadas as unidades de significado, ou seja, as descrições da participante foram focalizadas. Assim, à medida que as perguntas eram feitas, as frases relevantes foram destacadas, surgindo às unidades de significado.

3. Resultados e Discussões

Durante a entrevista, G.B.P. relata sobre seus sentimentos quando da descoberta do diagnóstico oncológico, revivendo uma experiência dolorosa além do seu medo de morrer:

“Quando descobri que tinha câncer, eu me senti como se o mundo sumisse e era como se eu não tivesse chão. Fiquei atordoada, morava numa cidade do interior do estado e não aceitava o diagnóstico. (G.B.P., 29 anos, Ca de Útero).''

“Me senti muito mal, desejava sumir do mundo, pensei que ia morrer, deixei os meus três filhos, estou separada do marido[...] precisei fazer a quimioterapia pois já estava avançado [...]tive que raspar os cabeços. (G.B.P., 29 anos, Ca de Útero).''

“Me senti isolada do mundo, não saia mais de casa. '' (G.B.P., 29 anos, Ca de Útero).''

3.1 Auto-estima

“Por conta da quimioterapia, eu ficava péssima, arrasada, não tinha vontade de sair de casa.  (G.B.P., 29 anos, Ca de Útero).''

“Mudança de humor e atitude, precisamos de perseverança, precisa acreditar que vai dar tudo certo, precisa de força de vontade para viver, saber das limitações que irão acompanhar a vida toda, desejo de fazer alguma coisa, como cozinhar.” (G.B.P., 29 anos, Ca de Útero).''

“É rir dos problemas, quando eu fico muito triste, a companhia da mãe e do irmão tem ajudado muito.” (G.B.P., 29 anos, Ca de Útero).''

O humor é uma forma de Resiliência, ajudando as pessoas a distanciarem-se um pouco da dor, como coloca Frankl (1989c),

“Dedicar-se aos filhos de quem sente muita falta.” (G.B.P., 29 anos, Ca de Útero).''

“[...] Tinha medo de deixar meus filhos só sem mãe e saber que eles iriam sofrer sem mim.” (G.B.P., 29 anos, Ca de Útero).''

“[...] sentiu-se bem ao visitar os filhos, sua casa no interior.” (G.B.P., 29 anos, Ca de Útero).''

“[...] Amo meu filho e sei que eles necessitam de minha presença.” (G.B.P., 29 anos, Ca de Útero).''

Uma das formas de encontrar sentido é a realização de valores. A partir do momento em que as pacientes entregam-se a uma outra pessoa, elas distanciam de si mesmas e do momento que está vivendo, encontrando forças para prosseguir no tratamento (FRANKL, 2011).

3.2 Fé em Deus

“Sinto a real presença de Deus em minha vida, nesse processo”. (G.B.P., 29 anos, Ca de Útero).''

“Somente Deus, a fé... a fé é que faz com que a gente lute e consiga” (G.B.P., 29 anos, Ca de Útero).''

“A fé principalmente (eu tenho muita fé em Deus) e vou conseguir” (G.B.P., 29 anos, Ca de Útero).''

(....) tenho muita fé em Deus. Eu passei a buscar mais a Deus e querer estar perto dele (G.B.P., 29 anos, Ca de Útero).''

A relação com Deus mostra o alcance dos valores vivenciais assim como no tópico anterior. Frankl (1990) entende a religiosidade como fator de proteção contra doenças e adversidades, podendo levar a pessoa a identificar sentidos na vida e, consequentemente, proporcionar-lhe um melhor bem-estar psíquico. Panzini e Bandeira (2005) e Santos (2008) afirmam que a religiosidade está associada ao bem-estar biopsíquicossocial e esperitual, orientando a procura e a permanência da realização existencial dos seres humanos, evidenciando-se menor probabilidade de comportamentos de risco. Alves e Selli (2007) destacaram o reconhecimento da espiritualidade e a religiosidade no processo de recuperação da saúde e enfrentamento da doença. Nesta perspectiva, Lewis e Schiller (1987) nos estudos sobre as relações entre religiosidade, fé e saúde mostraram que a religiosidade é uma forma de encontrar sentido diante da dor.

4. Conclusão

Observou-se que ao receber o diagnóstico de câncer, a paciente vivenciou sentimentos que a remetiam a condição de finitude, abalando a autoestima, contudo, neste processo de elaboração e tratamento da patologia, estiveram presentes no discurso da mesma: O papel da família, a fé em Deus, a mudança de hábito e a presença do humor como forma de distanciamento da dor. Para Frankl uma das formas de encontrar sentido é realizando valores que podem ser criacionais, vivenciais e atitudinais. Na perspectiva da participante, pensar na família, nos filhos e estarem perto dela bem como exercer a fé em Deus, facilitava o enfrentamento da patologia.

A mudança de atitude frente a doença no processo de tratamento favoreceram o autodistanciamento da dor, deslocando o foco do problema. Para Frankl (1989a) além da realização de valores vivenciais, a existência permite a concretização de valores de atitudes. A possibilidade de realizar este tipo de valor sempre se verifica quando o homem aceita e suporta o destino. Trata-se de atitudes como: aceitação da doença, concordância com o tratamento, dignidade no momento de dor. A partir do momento que a participante escolheu não lamentar-se, mas enfrentar o problema, aceitando a sua condição de paciente oncológica, o que permitiu ajudá-la a encontrar um sentido na vida, apesar da vivência da doença.

Desta forma, evidencia-se que a existência humana nunca está desprovida de sentido. Como coloca Frankl (1989a), a vida humana conserva o seu sentido até o último suspiro. Sendo assim, ao encontrar sentido no adoecimento, a participante tornaram-se mais resilientes.

Por fim, o estudo também se fez importante para a participante da pesquisa, uma vez relembrar a importância do suporte psicológico ao paciente em tratamento possibilitando a Resiliência neste contexto favoreceu uma atuação psicológica mais focada na diminuição dos mecanismos de risco e na preservação dos mecanismos de proteção.

Sobre o Autor:

Costa André - psicólogo da fundação de oncologia do estado do Amazonas, atuando no ambulatório da dor e cuidados paliativos;

Cardoso Mirlane G. M - médica anestesiologista da fundação de oncologia do estado do Amazonas, coordenadora do ambulatório da dor e cuidados paliativos

Edlailson Ferreira Sousa - Psicólogo, residente de psicologia do programa de multiprofissional em atenção em terapia intensiva do Fundação de Medicina Tropical.

Referências:

Alves, J.S; Selli, L. (2007). O cuidado espiritual ao paciente terminal no exercício da enfermagem e a participação bioética. Bioethikos Centro Universitário São Camilo, 1, 1.

Barbier, R. (1985). A noção de ciências humanas clínicas e as análises institucionais. Rio de Janeiro, RJ: Zahar.

Frankl, V.E. (1989c). Em busca de sentido. Um Psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal.

Frankl, V.E. (1989a). Psicoterapia e sentido da vida. 3.ed. São Paulo: Quadrante.

Frankl, V.E . (1990). A questão do sentido em psicoterapia. Campinas: Papirus.

Frankl, V.E. (2011). A vontade de sentido: Fundamentos e aplicações práticas da Logoterapia. Ed. Ampliada. São Paulo: Paulus.

HAGUETTE, T. M. F. Metodologias qualitativas na sociologia. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1992.
Lewis, S.J, & Schiller, L.P. (1987). Is there a religious factor in health? Journal of religion and health, 26, 9-36.

Martins, J, & Bicudo, M. A. V. (1989) A pesquisa qualitativa em psicologia: Fundamentos e recursos básicos. São Paulo: Moraes.

Panzini, R.G; Bandeira, D. R. (2005). Escala de Coping Religioso Espiritual: elaboração e validação do constructo. Psicologia em Estudo, 10, 507-516.

Santos, E. C. (2008). Comportamento sexual e religiosidade: um estudo com jovens brasileiros. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Pós graduação em psicologia – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

Silva, Mara Regina Santos da; Elsen, Ingrid; Lacharité, Carl. Resiliência: concepções, fatores associados e problemas relativos â construção do conhecimento na área. Paidéia (Ribeirão Preto), Ribeirão Preto, v 13, n. 26 dez. 2003. Disponível em: www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-863X2003000300003&Ing=pt&nrm=iso. Acesso em 08 mai. 2009.