Resumo: Este trabalho teve como objetivo a busca pelo despertar de sentimentos através da música e do lúdico e a compreensão dos sentidos dados por pessoas hospitalizadas diante desse encontro. Foi realizada uma pesquisa de campo de cunho qualitativo descritivo exploratório, em uma perspectiva fenomenológica existencial, direcionada pelo olhar analítico de Dulce Critelli para que pudéssemos questionar ao fenômeno através de uma pergunta disparadora aquilo que queríamos saber sobre ele. No primeiro capítulo discorremos sobre a historicidade do hospital, as políticas públicas nacionais de saúde, a entrada e o papel da psicologia no hospital e as implicações do adoecimento e hospitalização para o paciente. O segundo e terceiro capítulos trazem a utilização histórica da música e a importância dos recursos lúdicos no contexto hospitalar. No quarto capítulo objetivamos discorrer sobre o olhar fenomenológico constituído por Husserl e ontologizado por Heidegger retomando a questão do ser.  No quinto e último capítulo nos dedicamos à expor nas entrevistas as implicações individuais dos encontros, que nos levaram a refletir sobre a atitude humanizada do profissional de psicologia diante da possibilidade de lançar mão desses e outros recursos, criando um novo espaço para a abertura e fortalecimento da relação. Entrevistamos sete pessoas, em uma clínica nefrológica de Pernambuco, acometidas pelo adoecimento dos rins, que se encontravam no momento da pesquisa diante da máquina dialisadora. Esses encontros nos proporcionaram experienciar a condição de ser si mesmo com o outro em um processo dialógico e autêntico que fez surgir do silêncio à fala poética aquilo da sua história que, antes velado, pôde ser desvelado, revelado, testemunhado, veracizado e autenticado.

Palavras-chave: Música, Ludicidade, Adoecimento, Fenomenologia, Ser-com.

1. Os Porquês e os “Por Ondes”

A idealização desse trabalho surgiu primeiramente do amor que temos pela música, pelo bem estar que esta nos traz e por enxergarmos no lúdico um espaço que encontramos para expressarmos com autenticidade e pureza o nosso lado afetivo, carismático e, por hora, tímido.

Nossa história de vida é permeada por afetos, pela presença da nossa família diante do estímulo e apoio à vontade de seguirmos trilhando os nossos caminhos com o olhar direcionado à sensibilidade para com o outro, influenciando diretamente na escolha pela psicologia, área das ciências humanas enquanto formação acadêmica, e pela música enquanto característica “nata”, que nos toca e faz refletir sobre o modo como somos e estamos no mundo com os outros.

Enquanto alunos de psicologia, nos apercebemos diante da possibilidade de utilizarmos a música e o lúdico como uma maneira de criar condições para que o outro pudesse experienciar em uma situação cotidiana o acesso a sentimentos que porventura surgiriam naquele encontro e percebesse neles algum sentido diante da sua história de vida.

Além disto, em algum momento da nossa vida estivemos na condição de pacientes, internados e com um turbilhão de sentimentos que marcaram e que nos impulsionaram a buscar no contexto hospitalar e clínico o encontro com outros que, mesmo estando em momentos distintos e singulares, compartilham de algo em comum: a questão do estar enfermo e, de algum modo, limitado à algumas possibilidades diante daquela condição de adoecimento.

Compreendemos a música como sendo um meio de expressão artística no qual o homem põe a sua realidade fundida com os seus sentidos, como uma maneira de comover e transparecer sentimento não só reproduzindo, mas também transparecendo certa harmonia. Cremos que a música e a saúde estão interligadas em uníssono, e a sua reprodução, criação e/ou o seu cantar pode trazer o não existir ao existir, o silêncio à fala.

Nessa perspectiva, contextualizando as vivências, histórias e implicações de cada um com a música e com a psicologia, unimos as nossas vontades e sonhos para provocar sentidos na relação música e cuidado em pessoas que estão hospitalizadas, instigando a questionar: a música poderia colaborar nos processos psicológicos ou psicoterapêuticos?  Quais as implicações que a música poderia provocar em pessoas que estão em compadecimento no Hospital?

Levando em consideração a imprevisibilidade das coisas, nos lançamos nos encontros sem saber ao certo o que poderia surgir dali, e fomos, no entanto, em busca de mais um sonho, da realização de um trabalho humano e humanizado, que envolveu sentimentos em ambas as partes com sinceridade e comprometimento no fazer saber embalados pelo refrão da música “Imagine”:

“Você pode dizer que eu sou um sonhador,
mas eu não sou o único.
Espero que um dia você junte-se a nós,
e o mundo será como um só”.
(JOHN LENNON, 1971, faixa 01 [01]).

A psicologia, ao longo da história, tem apresentado diversas possibilidades de intervenção e atuação, em lugares cada vez mais distintos, estudando o comportamento, as relações sociais, o inconsciente, a subjetividade humana e a condição de ser-com. Diante dos diversos campos de atuação, vale ressaltar a sua inserção na área da saúde, especificamente no espaço do hospital.

Segundo Kaplan e Sadock, referenciando a Organização Mundial da Saúde, os hospitais são instituições prestadoras de serviços médicos e cirúrgicos e devem ter uma equipe que ofereça cuidados médicos e de enfermagem de forma contínua aos pacientes, além de manter os serviços de internação (OMS apud KAPLAN E SADOCK, 2007).

Nesse sentido, os atendimentos oferecidos por estes espaços, de forma geral, estão direcionados a cuidados especificamente orgânicos e de tratamentos em uma perspectiva preventiva e especialmente curativa, visto que aquela equipe está designada a “cumprir” funções que permeiam o campo da atenção biológica aos pacientes.

Comumente, algumas queixas são relacionadas ao atendimento médico em relação ao método direcionado, na maioria das vezes, para a doença e seu tratamento, desconsiderando a singularidade, o contexto histórico e as situações que estão paralelamente associadas à vida daquele sujeito.

Segundo Terezinha Campos (1995) os pacientes não querem ser apenas consultados e examinados, tendo em vista as suas necessidades de participar e compreender melhor o seu estado de saúde, além de, como sujeitos relacionais, haver necessidade de serem ouvidos e entendidos na sua linguagem “oculta”. Portanto, algo que ainda não revelado pode ser percebido, seja através do silêncio, expressões de tristeza, angústias, alegrias, entre outras coisas.

Nesse sentido, o psicólogo poderia ser o profissional que dispõe de alguns recursos, a partir da sua formação, que o possibilita realizar uma escuta mais atenta e direcionada aos detalhes desse encontro. Esses profissionais, portanto, possuem um olhar diferenciado, estando atentos as palavras e os silêncios que os pacientes manifestam e, a partir daí, procuram acolher e buscar um sentido junto a eles das suas atitudes, expressões e gestos. Assim, a busca por este sentido se dá por meio de uma postura investigativa, procurando perguntar ao fenômeno mesmo aquilo que se pretende conhecer sobre ele, pois a busca da compreensão de algo não se alcança “[...] tentando aplicar sobre ele uma resposta já sabida sobre ele mesmo” (CRITELLI, 2007, p. 27).

O hospital é um ambiente de difícil acesso às expressões dos sentimentos. Assim, oportunizar a expressão daquilo que emergiu na internação foi algo de grande importância. Mesmo parecendo óbvia, tal necessidade se apresenta de forma gritante na realidade dos hospitais brasileiros, onde o paciente sente angústia, ansiedade pela saída e muitas vezes solidão durante o período de internação.

Nesse sentido, alguns trabalhos que possibilitam a expressão desses sentimentos são realizados por todo o mundo e também no Brasil, como a arte terapia, a musicoterapia, o grupo de doutores da alegria, terapias com animais e algumas outras terapias alternativas, que vêm cada vez mais sendo inseridas na realidade hospitalar e sendo bastante aceitas nesses espaços, possibilitando minimizar o sofrimento que emerge daquela internação.

Espelhando-se nos trabalhos realizados pelas equipes de musicoterapia e pelos doutores da alegria, levamos à uma clínica Nefrológica em Pernambuco a psicologia juntamente com a arte da música e a ludicidade, utilizando-se de personagens palhaços representados por nós enquanto pesquisadores, objetivando favorecer a interação paciente/equipe e estimulando o ouvir e o cantar como modo de desvelamento dos sentimentos que emergiram naquela internação, seguindo-se de um diálogo sobre esses sentimentos, em um movimento de revelação e testemunho sobre o que aquele encontro fez despertar e como cada um deu o seu sentido pessoal naquele contexto.

Então nos deparamos com uma questão que mobilizou todo o caminho que trilhamos neste trabalho: Seria possível o emergir de sentimentos e sentidos nos pacientes através da música e da ludicidade enquanto possibilidades interventivas da psicologia clínica hospitalar?

Pensar nesse meio de intervenção no espaço do hospital nos remete à importância que tal perspectiva apresenta para a nossa formação profissional, levando em consideração as novas possibilidades de entendimento da dinâmica do contexto que envolve o hospital e, consequentemente, novas formas de promover expressões de sentimentos que emergem diante das circunstâncias da internação, facilitando o acesso às emoções, entrelaçado à descrição do que aquilo representa para o paciente: o Sentido.

Na produção deste trabalho caminhamos pelas leituras da fenomenologia existencial e procuramos produzir capítulos que pudessem nos dar embasamento teórico científico diante do contexto que estávamos nos inserindo. Assim, trouxemos nesse trabalho questões referentes ao hospital e sua historicidade, objetivando compreender o significado que, pelo modo com que se deu sua constituição, hoje representa. Pelo fato de nos inserirmos em uma clínica privada, mas vinculada ao Sistema Único de Saúde, trazemos um tópico dedicado às políticas públicas de saúde para melhor compreender esse contexto. Além disso, discorremos sobre o papel do psicólogo inserido no ambiente hospitalar para clarear um pouco sobre suas atribuições e trazemos, ainda, algumas implicações que o adoecimento pode imprimir na vida de quem adoece.

Para melhor contextualizar o trabalho, trazemos capítulos que discorrem sobre música e ludicidade e, ainda, dedicamos um espaço para explicitar sobre o que seria a fenomenologia e o porquê de escolhermos este modo de enxergar o trilhar da pesquisa e também o nosso olhar sobre o mundo. Por fim, o nosso último capítulo é destinado a expor o modo como se deram os encontros e, em especial, com aqueles que desejaram contribuir conosco.

Enquanto produção acadêmica, nosso trabalho, lançando mão dessa metodologia de pesquisa, possibilitou novos caminhos para se chegar a uma interlocução entre como a ciência psicológica enxerga e intervêm na comunidade que se investiga e como pretendemos trilhar esse caminho, lembrando que viver fenômenos é possibilitar o revelar de um sujeito como ele é, se apresentando como um todo, e por que não dizer de uma ressignificação na vida e no momento daqueles que estão protagonizando sua história.

Partindo do princípio que o lúdico pode promover a expressividade do sofrer pelo ato do brincar, nos perguntamos: e quem de nós não tem uma criança adormecida em si? Teorias revelam que a brincadeira e o brincar despertam o outro para o continuo de existir na descoberta do mundo. O lúdico, a música e a saúde nos fazem lembrar o dito: “quem canta seus males espanta!”. Então, cantem nesse momento, visto que o Ser está em constante construção de si, está sempre “sendo”.

Nem toda palavra é aquilo que o dicionário diz,
nem todo pedaço de pedra se parece com tijolo ou com pedra de giz. [...]
Borboleta parece flor, que o vento tirou pra dançar.
Flor parece a gente, pois somos semente do que ainda virá.

(Sonho de uma Flauta, O TEATRO MÁGICO, 2008, faixa 9).

2. Entre o Hóspito e o Inóspito: Hospital, SUS, Psicologia e Adoecimento em Diá-Logos

2.1 Hospes, Hospitalis e Hospitium

O presente texto se presta a caminhar pela etimologia da palavra hospital, enaltecendo o seu significado diante do acolhimento ao outro que se ‘hospeda’, ao passo que será referido acerca de alguns autores, tais como Terezinha Campos e Carlos Rodrigues, que embasam a historicidade que se institui a organização hospitalar.  

Revendo Terezinha Campos (1995), observamos que o termo que designa tal instituição, por exemplo, “[...] vem do latim ‘hospes’, que significa hóspede, deu origem a ‘hospitalis’ e ‘hospitium’[...]”, sendo estes lugares onde viajantes, peregrinos e enfermos se utilizavam, em tempos remotos, para abrigar-se. O termo “hospitium” era utilizado, especificamente, quando o espaço abrigava pobres, pessoas sem possibilidade terapêutica ou doentes mentais (insanos), sendo daí a alusão à terminologia hospício.

Pensamos no hospital como uma instituição instalada em cada município de acordo com o contingente populacional estabelecido pelos Parâmetros Nacionais do Sistema Único de Saúde (SUS), conforme portaria 1101/GM do Ministério da Saúde em 12 de junho de 2002, e a demanda que tal público apresenta, sendo o atendimento de média e alta complexidade de sua responsabilidade, ficando a cargo das Unidades de Saúde da Família (USF’s) os acompanhamentos de atenção básica, distribuídos por áreas geográficas e tendo como função primordial o atendimento das necessidades da população em se tratando de saúde, numa perspectiva curativa, preventiva e de pronto atendimento. Porém, sabemos que essa configuração nem sempre se apresentou dessa maneira.

Para Foucault (2010), citado por Carlos Rodrigues (2013), a história do hospital pode dividir-se em dois períodos que compõem diferentes configurações de sua estrutura e finalidade de funcionamento. O primeiro período pode ser identificado como anterior ao século XVIII, onde o hospital era uma instituição destinada a assistência aos pobres e excluídos da sociedade europeia, com finalidade de tirá-los das ruas, mantendo a ordem e deixando-os fora de qualquer possível ameaça às normas sociais, em um ambiente cheio de regras que regulassem a sua estadia ali.

Nesse período a instituição hospitalar não objetivava o atendimento direcionado à saúde, não havendo cuidados médicos, que eram consideradas regalias destinadas apenas à parcela mais rica da sociedade. Na verdade, até o século XVIII, o personagem ideal encontrado no hospital “[...] não é o doente que é preciso curar, mas o pobre que está morrendo” (FOUCAULT, 1979, p. 101).

A autora Terezinha Campos (1995) nos diz, ainda, que em um determinado período histórico o hospital configurava-se como um tipo de depósito de pessoas portadoras de doenças. As primeiras instituições eram direcionadas a pessoas mais desamparadas, como velhos, mulheres e doentes crônicos, sob o cuidado dos religiosos. O que se tinha de disponível na época eram apenas alternativas para minimizar o sofrimento. Entretanto, os pacientes que tinham mais condições financeiras eram tratados em suas casas.

Para ela, a era cristã fora de forte influência nesse momento histórico, pois a instituição hospitalar passou a ter uma característica mais assistencialista, acolhendo e restaurando a saúde dos indivíduos. Tal mudança ocorreu devido ao princípio religioso que diz que se deve “amar ao próximo como a si mesmo”. Com isso, a população fora se conscientizando e deixando de lado toda uma antiga tradição, passando a “preocupar-se” com o seu semelhante, em busca de assegurar seu lugar no reino dos céus.

O segundo período da história do hospital, citado por Carlos Rodrigues (2013) caracteriza-se pelo rompimento entre administração hospitalar e religião, que se deu por volta do início do século XIX até o século XX, quando os municípios assumiram a responsabilidade da administração desta instituição, e não mais as igrejas e instituições religiosas.

O autor nos diz, ainda, que a entrada da medicina no hospital fez com que a sua administração fosse direcionada a partir de então pela figura do médico e que este período é considerado por Brasil (1965) como “[...] a mudança mais importante e significativa”. (BRASIL, 1965 apud RODRIGUES, C., 2013). A medicalização do hospital, porém, só foi concretizada, segundo Foucault (1979), pelo fato de que viu-se a necessidade de anular os efeitos negativos que este poderia provocar na cidade em que estava situado, tanto no sentido de desordens de proliferação das doenças quanto de desordens econômicas, e não porque se buscavam efeitos positivos sobre o doente ou a doença.

Observar a disposição estrutural do hospital e a distribuição terapêutica dos leitos era papel do médico que antes apenas fazia visitas quando solicitado pelos religiosos e posteriormente passou a assumir a gestão hospitalar. Assim, a partir de quando

[...] o hospital é concebido como um instrumento de cura e a distribuição do espaço torna-se um instrumento terapêutico, o médico passa a ser o principal responsável pela organização hospitalar. A ele se pergunta como se deve construí-lo e organizá-lo [...]. Além disso, se o regime alimentar, a ventilação, o ritmo das bebidas, etc., são fatores de cura, o médico, controlando o regime dos doentes, assume, até certo ponto, o funcionamento econômico do hospital, até então privilégio das ordens religiosas. Ao mesmo tempo, a presença do médico se afirma, se multiplica no interior do hospital. [...] Aparece, assim, o personagem do médico de hospital, que antes não havia. (FOUCAULT, 1979, p. 109).

Deste modo, com a presença cada vez mais constante do médico e o surgimento da medicina hospitalar, foi instituída uma série de procedimentos técnicos de registros dos casos, seus acompanhamentos e o compartilhamento dos resultados obtidos por cada médico, tornando o hospital um espaço também de construção de saber. Todavia, com os avanços tecnológicos, tornaram-se necessárias as especializações, havendo domínio da bioquímica e da farmacêutica, ficando o hospital “[...] impregnado pelas tecnologias” (GRAÇA, 1996 apud RODRIGUES, C., [2013]).

Para Terezinha Campos (1995), os profissionais se atinham mais, em questão de conhecimento, a doença do que ao doente. Com o avanço da ciência, na identificação dos agentes microbianos e a “causa” principal de determinadas patologias, a instituição passou a ser um local no qual fossem encaminhados os pacientes que necessitavam de cuidados especializados. Então, uma das características históricas do hospital é que este se destinava ao “tratamento” dos enfermos, ou seja, passou a apresentar um caráter curativo, mas ainda não preventivo.

O advento dos conhecimentos que apresentavam características mais direcionadas à perspectiva preventiva foi surgindo ao longo do tempo e as suas práticas se relacionavam à atenção aos problemas de saúde que existiam e advinham da comunidade. Criaram-se, então, as unidades de saúde, com a finalidade do desenvolvimento e prática dessa natureza preventiva dentro das comunidades. Isso só foi possível a partir da participação popular, com o marco histórico que foi a VIII Conferência Nacional de Saúde.

Citando Borba, a autora define o hospital como

‘[...] a representação de direito inalienável que o homem tem de gozar saúde, e o reconhecimento formal, pela comunidade, da obrigação de prover meios para mantê-lo são ou restaurar - lhe a saúde perdida’. Focaliza aqui os direitos humanos e responsabiliza a comunidade quanto a preservação sanitária de seus componentes individuais e da saúde coletiva. (BORBA, 1985 apud CAMPOS, 1995, p.23. Grifo do autor).

Destacamos, então, que o hospital é a instituição responsável pelo atendimento da população no que diz respeito à saúde, sendo ele a representação dos direitos adquiridos por esta população, envolvendo a comunidade na responsabilização da preservação sanitária, caracterizando assim a promoção de equilíbrio das funções orgânicas e psíquicas, prevenção de doenças e conscientização do papel da população na manutenção da saúde comunitária.

Observamos que as primeiras instalações de hospitais no Brasil tiveram forte influência do modelo hospitalar europeu. Retomando Carlos Rodrigues (2013), vemos que o quantitativo de hospitais foi por um longo período insuficiente e somente a partir da década de 1930 é que se percebeu mudanças a partir da criação de novos hospitais, com o fortalecimento do sistema previdenciário, onde apenas os contribuintes poderiam ter acesso à saúde, obtendo plano previdenciário ou algum vínculo com a previdência social.

Este modelo de assistência previdenciária à saúde se estendeu até o ano de 1988, quando dada a reformulação da Constituição Brasileira a saúde passou a ser “[...] direito de todos os cidadãos e dever do estado no artigo 196 da nova constituição federal” (MELLO, 2008 apud RODRIGUES, C., 2013).

Por fim, vimos que após a reforma da constituição Brasileira de 1988, houveram algumas mudanças na assistência à saúde, que deixa de ser um modelo de assistência previdenciária e passa a ser regida pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Contudo, faz-se necessário explanar um pouco sobre como funciona o SUS, como são organizadas as suas ações e os serviços de saúde.

2.2 O SUS e suas Políticas Públicas

Neste tópico iremos transcorrer um pouco sobre como se dá o funcionamento do SUS e as suas políticas, baseados nos estudos de Jairnilson S. Paim, além de explicitar também sobre como foi a entrada do profissional de psicologia nesse sistema, segundo João Leite F. Neto e Mary Jane Spink.

Após as conquistas das políticas sociais por meio da reforma sanitária unida a Constituição Brasileira de 1988, a saúde torna-se um direito social, cabendo a responsabilidade e garantia desta ao poder público. Deste modo surgiu o SUS (Sistema Único de saúde) que, segundo Paim (2009) sua composição se dá

[...] por um conjunto de ações e serviços públicos de saúde, compondo uma rede regionalizada e hierarquizada organizada a partir das diretrizes da descentralização, integralidade e participação da comunidade. É, portanto, uma forma de organizar as ações e os serviços de saúde no Brasil, de acordo com princípios, diretrizes e dispositivos estabelecidos pela constituição da república e pelas leis subsequentes.  (p. 51).

Dessa forma, as diretrizes que regem o SUS, segundo este autor, estão divididas em três e possuem suas especificidades. A descentralização, que busca adequar o SUS de acordo com as realidades de cada estado ou município e, portanto, as decisões do sistema são tomadas em cada município e estado, por meio das secretarias de saúde responsáveis por cada região, cabendo ao Ministério da Saúde coordenar todas as atividades realizadas.

A segunda diretriz é o atendimento integral, que visa a promoção, proteção e a prevenção da saúde, destacando essa última como uma prioridade no atendimento para que as pessoas possam estar prevenidas dos riscos que correm, como acidentes, doenças e outros.

Por fim, a terceira diretriz é a participação da comunidade. Esta funciona como uma forma de orientação para a democratização dos serviços e as decisões tomadas relacionadas à saúde. Nesta, a comunidade deve estar envolvida e situada das ações dos governos sobre todos os tipos de serviço que são oferecidos e algumas decisões e alterações que sejam feitas pelo governo e secretarias responsáveis.

Contudo, para que se chegassem a estas diretrizes houve um processo gradativo de discussões sociais, que levaram à formulação de leis e da própria política nacional relacionada à saúde.  Sabe-se que com a reforma sanitária e a Constituição de 1988 a saúde passou a ser um direito de todos ou, como diz o artigo 196 desta, citado por Paim (2009, p.43): “A saúde é direito de todos e dever do estado”. Esse dever do estado só é garantido mediante as políticas econômicas e sociais que: “visem a redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário / às ações e serviços para a promoção, proteção e recuperação”. (PAIM, p.44).

A Carta Magna, para o autor, aponta as políticas sociais e econômicas como meios fundamentais para a garantia do serviço de saúde. As políticas econômicas trabalham com questões sobre a distribuição de renda, emprego, salário e outros, componentes que fazem parte do meio econômico. As políticas sociais envolvem a cultura, segurança, lazer, e outras. Assim, trazendo toda a relevância das políticas econômicas e sociais para o direito a saúde, a Constituição Brasileira remete a garantia do “acesso universal e igualitário às ações e serviços para a promoção, proteção e recuperação” (PAIM, 2009. p. 44)

Mas, o que seria esse acesso universal? Paim (2009) diz que seria a possibilidade de fácil acesso de todos os brasileiros aos serviços de saúde sem qualquer impedimento econômico, físico ou cultural. O acesso igualitário seria para todos sem qualquer problema relativo a preconceito e discriminação.

Para que se façam valer os cuidados com saúde, é necessário um conjunto de ações e serviços disponibilizados à população de acordo com as situações demandadas. Buscando compreender o sentido dos termos, entendemos que: promoção -significa promover a ação, tirar do papel e colocar em prática a cultivação à saúde estimulando de diversas formas o modo como se promove a qualidade de saúde na vida das pessoas e das comunidades; proteção -significa eliminar os riscos, ou reduzi-los, como combater os insetos com carros de fumaça pelas ruas, a distribuição de camisinhas, o uso do cinto de segurança, as vacinas e entre outros. Tais medidas são tomadas a partir de conhecimentos científicos que identificam os fatores de risco e de proteção; recuperação - demanda a necessidade de um diagnóstico precoce, do tratamento imediato, limitando o dano.

Por sua vez, vale salientar aqui também que a assistência de saúde nacional possui ramificações complementares dos serviços a partir do engajamento da iniciativa privada, cabendo

[...] ao poder público dispor nos termos da lei, sobre a sua regulamentação, fiscalização e controle, devendo sua execução ser feita diretamente ou através de terceiros e, também, por pessoa física ou jurídica do caráter privado. (PAIM, p. 47).

Segundo a Constituição, os serviços do SUS podem ser complementados pelos serviços privados e, sendo assim, o SUS seria organizado através de um tipo de rede regionalizada e hierarquizada de serviços de saúde, funcionando através de estabelecimentos públicos ou privados.

A rede seria um elo de ligação entre os serviços, para que funcione dentro do sistema e facilite a comunicação e acesso entre si. A rede regionalizada funciona como um meio de organizar as articulações e os serviços entre os gestores municipais, estaduais e federais, de acordo com a demanda de cada estado e cidade, trabalhando com um determinado número de serviços implantados, como hospitais, CRAS, CREAS, CAPS, NASF, ESF´S e outros, sempre de acordo com o contingente populacional, podendo ser denominada de “[...] rede de apoio, na medida em que existam profissionais disponíveis e solidários [...]” (VIEIRA FILHO; NÓBREGA, 2004, p. 378. Grifo nosso).

Mas como se inseriu o profissional de psicologia nesse campo da saúde, onde ele se localiza no SUS? Spink (2010) relata que esses profissionais atuam na área da saúde desde antes da sua regulamentação em 1962 com a Lei Federal nº. 4119, quando a psicologia atuava no contexto de atenção à saúde materno infantil, ou seja, na educação em saúde no período higienista, hoje conhecida como atenção primária e, sendo assim, desde o período de transição do século XIX para o século XX. Porém, a inserção efetiva deu-se “[...] concomitantemente com a construção do campo da Psicologia da Saúde, a partir de 1980” (p. 179).

Segundo Ferreira Neto (2011) a entrada desse profissional na saúde pública esteve diretamente ligada às lutas na reforma psiquiátrica, devido a outro programa de tratamento conhecido como Saúde Mental, que surgiu como uma crítica ao modelo asilar e trouxe outro olhar para se conduzir as intervenções nessa área. Contudo, quando se pensa na atuação do psicólogo na saúde, a referência que se tem, na maioria das vezes, é nesse campo da saúde mental.

O autor diz, ainda, que para entrada desse profissional no SUS, foi necessário que aprendessem a trabalhar ambulatoriamente, pois isso não vinha sendo ensinado ou comumente discutido no percurso da sua formação, que tinha como enfoque a clínica tradicional e o atendimento sistemático, a educação e a área organizacional. Os primeiros momentos dessa desconstrução aqui no Brasil, para ele, ocorreram na cidade de Belo Horizonte.

No primeiro momento, após a Reforma Psiquiátrica, existia o Programa Integrado de Saúde Mental (PISAM) – de 1977 a 1979 - proposto na VI Conferência Nacional de Saúde, que preconizava

[...] ações de prevenção primaria, integração da saúde mental nas atividades básicas de saúde, utilização de leitos em hospitais gerais e a integração de profissionais não médicos na assistência psiquiátrica. (FERREIRA NETO, 2011, p.109)

Nessa mesma época havia uma compreensão acerca do serviço de saúde mental como sendo pertencente ao campo da saúde geral, que incluía tanto os serviços de prevenção quanto os serviços gerais de saúde da época, além do envolvimento do paciente em estado grave no tratamento. Nesses casos, a assistência aos pacientes graves era do domínio exclusivo do psiquiatra e a atuação do psicólogo na época era apenas direcionada aos trabalhos com crianças, adolescentes e com grupos (ibid.).

Segundo Spink (2010) os psicólogos tinham um papel secundário nos hospitais e no atendimento ambulatorial na década de1970, quando o ambulatório “[...] caracterizava-se como um serviço público de especialidades ligado ao INAMPS (Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social) que existia em cada região do país, sendo seus usuários apenas os trabalhadores celetistas” (p. 82).

Com a publicação do documento “Programa de Ações da Saúde Mental da Região Metropolitana”, que estabeleceu a oficialização do programa de ações na saúde mental em Belo Horizonte, as equipes de saúde mental passaram a ser referência secundária ou atendimento especializado na saúde. Nesse documento o serviço psicológico passou a ser uma prática mais constante, por meio de supervisões de casos clínicos e por uma variável de práticas especificas de atuação como

[...] atendimento a demanda especifica (doença mental); apoio aos demais programas dos centros de saúde ‘integrando a saúde mental no contexto global da saúde’; apoio técnico ao nível primário; articulação com os recursos das comunidades [...]; atendimento a criança, e avaliação periódica do programa (FERREIRA NETO, 2011, p.111. Grifo do autor).

Já nos anos 2000 houve a transformação do Programa de Saúde da Família como o centro de um novo modelo de assistência de atenção à saúde. Este programa se organizou através do recebimento das demandas espontâneas das famílias, que eram atendidas nas Unidades de Saúde da Família (USFs). A equipe fica responsável pelo cuidado das famílias de sua região por meio de ações como a promoção, prevenção, recuperação e outros meios interventivos que irão condizer com as demandas que podem surgir naquele lugar. O período entre 1995 e 2006 é apontado por Spink (2010) como sendo de “[...] inserção plena da Psicologia no SUS [...]” (p. 190).

Os psicólogos que atuam na equipe de saúde mental e os da equipe de saúde da família passam a atuar de maneira diferente, cabendo aos primeiros priorizar os atendimentos aos casos mais graves, como pessoas em sofrimento mental leve ou moderado, e aos segundos os atendimentos das demandas menos complexas.

Portanto, vemos que o período do advento da saúde mental teve bastante influência na entrada do profissional de psicologia no modelo de assistência à saúde, havendo nesse período uma série de movimentos e discussões em congressos e seminários, aos quais não iremos dispor de maior aprofundamento neste trabalho.

Diante da inserção do profissional de Psicologia no contexto hospitalar, abordaremos adiante alguns aspectos importantes que se fazem necessários para que haja maior compreensão acerca da sua atuação.

2.3 A Psicologia no Hospital

Este subtópico tem o intuito de discorrer sobre as nossas compreensões quanto à entrada do psicólogo no hospital, quando se deu e qual o real papel deste profissional diante das circunstâncias apresentadas neste contexto. Vale ressaltar que a entrada da Psicologia no hospital deu margem à uma área específica denominada de Psicologia Hospitalar. Para estas discussões, embasamo-nos em autores como Elias Knobel, Camon e Amatuzzi.

Segundo Knobel (2008), a Associação Americana de Psicologia (APA) “[...] foi a primeira a reconhecer a área da saúde como campo oficial de atuação do psicólogo clínico.” (p. 3). Na década de 1950 a Dra. Matilde Neder iniciou os trabalhos de psicologia no Hospital das Clínicas, sendo creditado a ela o reconhecimento pelos primeiros trabalhos de psicologia em hospitais gerais.

Vemos que os psicólogos tiveram em sua formação de base um enfoque preparatório voltado principalmente aos trabalhos em consultórios particulares, havendo defasagem na formação complementar em outras áreas, incluindo a área da saúde. Nesse sentido, observamos que

Tanto a formação acadêmica quanto a ausência de uma clara política pública de saúde, que permitisse a entrada do psicólogo no hospital geral, mantiveram a grande parte dos profissionais enclausurada em consultórios e fechando-se às urgentes demandas de saúde (KNOBEL, 2008, p. 3).

Assim, houve um período onde a saúde carecia da atuação do profissional de Psicologia, pois o próprio modelo formativo e as políticas públicas não davam margem para a sua inserção. Logo, Camon (2006) nos diz que há falta de alguns subsídios teóricos para a prática do psicólogo nesse contexto. Knobel (2008) também traz que hoje em dia ainda existem entraves na entrada do psicólogo em hospitais, pois, provavelmente por sua formação clínica e dificuldades em transportar conhecimentos clínicos à realidade hospitalar, há algum desconforto nesta adaptação e esta entrada no hospital é comumente acompanhada de um “[...] recomeçar da própria especialidade” (KNOBEL, 2008, p. 4).

Então, como seria o trabalho do psicólogo no campo hospitalar e quais seriam seus direcionamentos e objetivos? Para Camon (2006), a psicologia hospitalar tem como foco principal a diminuição do sofrimento provocado pela hospitalização do paciente, mas não há somente esta atribuição. Se faz necessário, ainda, abranger as sequelas que poderão ocorrer após o internamento e, no caso de haver algum comprometimento emocional, o paciente poderá ser encaminhado para a psicoterapia.

Remetendo a psicoterapia, sabe-se que este processo possui caráter único e deve ser diferenciado do atendimento no hospital. O autor pontua que este profissional deverá estar atento a sua atuação, e que não deverá agir de forma igual a psicoterapia clínica. Na clínica particular o paciente é responsável em buscar e se dispor ao acompanhamento pelo terapeuta, possuindo um espaço particular onde haverá privacidade e consequente diminuição das possíveis interrupções. Já no caso de quem se encontra interno em uma instituição, o psicólogo é quem irá direcionar-se em busca do paciente que, por muitas vezes, não sabe qual o sentido daquele profissional estar ali junto a ele em seu leito e, nessa mesma ocasião, a intervenção poderá ser interrompida por outros técnicos e profissionais de saúde que irão realizar alguns procedimentos, como troca de soro ou fazer novos exames. A opinião do paciente (usuário, se levarmos em consideração o serviço) deverá ser levada em conta quanto ao seu desejo, cabendo ao profissional identificar se este sente ou não a necessidade ou disponibilidade de ser acolhido.

Ainda referente à atuação, Camon (2006) pontua outros fatores que são de importante relevância. Um deles é o “limite institucional” ou, na verdade, os princípios que norteiam aquela determinada instituição. Tais princípios podem contradizer a vontade do paciente e/ou apresentar como foco apenas a sua patologia, que será diagnosticada e tratada com medicações, sem livre escolha ou participação ativa no seu processo de recuperação. Outro fator que o autor pontua é que o psicólogo não pode atuar como uma força isolada dentro da instituição, e poderá basear sua prática a partir de alguns determinantes que foram compartilhados por profissionais de outras áreas, que compõem a equipe multiprofissional.

É importante destacarmos que o psicólogo “[...] reveste-se de um instrumental muito poderoso no processo de humanização do hospital na medida em que traz em seu bojo de atuação a condição de análise das relações interpessoais.” (CAMON, 2006, p. 27) Dessa maneira, tonar mais claro as informações a respeito das relações entre equipe e paciente, por exemplo, pode ser de grande influencia no processo de somatização, oportunizando à equipe reflexões sobre o estado de saúde e fragilização a qual o paciente está acometido, tendo em vista que o quadro emocional no qual este se encontra pode influenciar na sua condição patológica.

Para Knobel (2008), no que diz respeito ao papel do profissional de psicologia no ambiente hospitalar, vemos que sua atuação configura-se hoje para além da prática clínica, por sua

[...] possibilidade em promover um olhar diferenciado do fenômeno para além de sua obviedade, na busca do não dito, da escuta atenta, da possibilidade de dar voz ao paciente e seu sofrimento, colocando-se, assim, na posição de mediador e catalisador das relações interpessoais no contexto hospitalar (p. 5-6).

Assim, este profissional possui escuta direcionada a todos que compõem o ambiente hospitalar, com seus medos, ansiedades, necessidades, temores e angústias, ficando relativamente distante da visão da psicologia clínica tradicional, que se atêm muitas vezes a escuta prioritariamente do seu paciente/cliente de forma individual.

O psicólogo hospitalar deverá inserir-se nas equipes multidisciplinares estando certo de suas especificidades e com clareza das suas atribuições, visto que há grande expectativa por parte de outros profissionais quanto ao seu papel de “dissolvedor de conflitos”, ou seja, aquele que poderá ser solicitado quando houver qualquer expressão de desorganização emocional, criando possibilidades de, erroneamente, assumir a postura de quem possui todas as respostas e soluções.

Seria de grande importância para o psicólogo hospitalar que alguns elementos se fizessem presentes na sua prática. Sendo assim, entendemos que “[...] a empatia, compreensão, interesse, desejo de ajuda e bom humor são indispensáveis para se conseguir um ambiente de conforto emocional” (DOYLE e O’CONNEL, 1996; VANDEKIEF, 2001 apud KNOBEL, 2008, p. 10).

Dessa maneira, pontuamos aqui que as relações são pontos chave para se encontrar um ambiente de conforto emocional, e que para o psicólogo a atitude fenomenológica influencia nas compreensões acerca do universo das emoções que os pacientes podem ou não deixar transparecer. A busca por si só pela interpretação e significados do que os pacientes expressam torna a relação menos vivencial. Para Amatuzzi (2010), a atitude fenomenológica vai além da crítica, pois é apenas pela “[...] interação que teremos o verdadeiro conhecimento” (AMATUZZI, 2010, p.20).

O adoecimento e a consequente hospitalização trazem consigo impactos no sujeito que adoece, diante das diferentes configurações que seu cotidiano se apresenta nesse momento. Buscaremos adiante discorrer sobre esses aspectos e os possíveis impactos neste cotidiano do paciente que se encontra interno.

2.4 O Ser do-ente e a Hospitalização

O processo do adoecer no indivíduo e os sentimentos que emergem mediante esta hospitalização são os assuntos norteadores do texto a seguir. Nesse sentido, alguns autores como Carlos Rodrigues, Terezinha Campos, Gaspar e Pompéia nos auxiliaram a elucidar e destacar os impactos que esse processo pode ocasionar na vida e no ser de cada um.

No período que antecede a hospitalização, segundo Amin (2001) citado por Carlos Rodrigues (2013), o sujeito é percebido assim como é, com sua autonomia, produtividade, tomada de decisões e responsabilidades, sem depender de outrem para realizar suas atividades cotidianas.

A partir do seu adoecimento e consequente hospitalização, o sujeito passa a ser submetido a normatizações institucionais, ficando “[...] sob a responsabilidade de outras pessoas, muitas vezes estranhas ao seu convívio social” (GOLDENSTEIN, 2006 apud RODRIGUES, C., 2013).

Terezinha Campos (1995) diz que a doença, quando surge, vem com o caráter de um inimigo que precisará ser estudado, identificado e combatido, havendo para isso diversos profissionais “qualificados” a esta atribuição. Contudo, por muitas vezes esses profissionais acabam se direcionando apenas para a condição fisiológica da patologia, esquecendo-se do sentido que se apresenta no processo do adoecimento para aquele que adoece.

Ela divide os métodos de intervenção médica sobre a doença entre a cultura ocidental e a oriental. Explica, então, que a cultura ocidental comporta especialmente uma visão de dualização entre corpo e mente, apresentando focos de intervenção direcionados principalmente para a patologia em si, deixando de lado as relações sociais e o sentido relacional do sujeito com a doença. Na cultura oriental, porém, a maneira de enxergar e fazer uma leitura de corpo e mente está sempre buscando a integração desses fatores.

A doença seria, então, um impedimento no cotidiano do indivíduo e, assim, este se percebe impedido de trabalhar, se divertir e também se vê tirado do meio social no qual estava inserido (Ibid.). A doença física é manifestada na esfera psíquica, provocando desequilíbrio psicológico no paciente e na família.

É importante destacar que cada indivíduo vivencia a sua doença de uma forma particular, pois cada um sabe a dor que tem e sente. Pensar nesse modo de conceber a dor nos faz resgatar uma definição feita pelo escritor norte americano Charles Bukowski, que diz:

A dor é estranha. Um gato matando um passarinho, um acidente de carro, um incêndio... A dor chega, BANG, e aí está ela, instalada em você. É real. Aos olhos dos outros, parece que você está de bobeira. Um idiota, de repente. Não há cura pra dor, a menos que você conheça alguém capaz de entender seus sentimentos e saiba como ajudar. (2012, p. 56-57).

Portanto, há uma maneira diferente de sentir e lidar com a dor, pois mesmo que a patologia e os sintomas físicos coincidam, o sentido é diferente, os fenômenos são diferentes. Como diria Sartre (2013), o fenômeno seria a denúncia de si mesmo, aquilo cuja realidade é só aparência, e tal denúncia não é uma denúncia qualquer, ou seja, o ser não seria apenas a enfermidade, nesse caso, mas há ainda por traz disso um sentido que não aparece, não se mostra e não é facilmente identificado.

Parafraseando Kierkegaard, Terezinha Campos fala que só os homens têm a consciência da sua finitude e a partir daí se situa uma angústia básica do ser humano, a angústia da morte e do morrer. Ela ainda afirma que, segundo Boss, toda doença irá remeter a uma ameaça à vida e consequentemente uma proximidade com a morte. O sentido da angústia para o sujeito é percebido a partir da tomada de consciência da destruição do seu corpo e mente. Sendo assim, quando estamos conscientes da nossa mortalidade percebemos que cada minuto da nossa vida se torna importante e deverá ser bem aproveitado (Boss,1981 apud Campos,1995).

Dessa maneira, torna-se necessário uma reflexão a respeito desse adoecer enquanto processo da existência, de forma que haja uma busca pela ressignificação dos impedimentos causados por esta condição.  De acordo com Gaspar (2004), se o adoecer não vir a ser reconfigurado e aceito como um processo para o crescimento pessoal, o sujeito percebe-se desacreditado, fechando-se ao contato externo e interno.

Sendo assim, a doença pode ser vista como um fenômeno do dia-a-dia ou “[...] precisa ser vista como ‘a abertura para novas possibilidades existenciais a partir do confronto com tais impedimentos’”. (Refeld, 1991 apud Gaspar, 2004. Grifo do autor).

Para esta autora o confronto com tais impedimentos pode ser elaborado através de uma atitude criativa que possa trazer novas possibilidades a experiência do sujeito. Compreendendo esta atitude criativa, estabelecemos correlação com Pompéia (2010), que nos diz que esta atitude poderia acontecer e ser encontrada através de uma pró-cura, uma terapia do cuidado, pois no latim a palavra cura apresenta o significado de cuidar. Esta busca pelo cuidado poderia ser encontrada através da arte enquanto poética, relatada pelo autor embasado na poieses de Platão, que dizia:

Como sabes, “poesia" é um conceito múltiplo. Em geral se denomina criação ou poesia a tudo aquilo que passa da não-existência à existência. Poesia são as que se fazem em todas as artes. Dá-se o nome de poeta ao artífice que realiza essas criações. (PLATÃO, 1999 apud POMPÉIA, 2010, p.157).

Ele nos diz que essa poética faz parte da terapia e do encontro autêntico entre pessoas, se faz na linguagem e na liberdade de expressão do sujeito. Acrescenta que se, no processo terapêutico, por exemplo, o terapeuta resolve sugerir esta perspectiva, o paciente não será obrigado a concordar, mas se aceita essa proposta poderá haver a compreensão das suas demandas de forma deliberadamente espontânea no seu devido tempo.

Assim, nos envolvendo pela compreensão de que a busca pelo cuidado através da atitude criativa e poética é um caminho a ser trilhado, encontramos na música um espaço para contemplar o encontro com o outro e que pôde emergir sentimentos e sentidos relacionados à condição da hospitalização e do adoecer. Faremos no próximo capítulo algumas inferências acerca da história da utilização da música para fins terapêuticos e do modo como compreendemos a sua importância no contexto que nos propomos a utilizá-la, ou seja, no ambiente clínico/hospitalar.

3. Musicalizando o Tempo: a História da Utilização Terapêutica da Música

Neste ponto do trabalho discorremos sobre a utilização da música enquanto recurso terapêutico por diversos povos e em épocas distintas, trazendo posteriormente na contemporaneidade a importância da música no ambiente hospitalar e nas práticas de humanização e como se deu o início das práticas musicoterapêuticas no Brasil, visitando teóricos como McClellan, Knobel, Costa e Cardeman e Ana Maria de Carvalho Gomes.

Ao longo dos séculos a música foi contemplada com criações de mitos, estudada e utilizada com finalidades terapêuticas por diversos povos e crenças. Segundo Knobel (2008), as civilizações orientais cultivam o poder dos sons e vibrações desde aproximadamente 3000 a. C.

A música enquanto utilização terapêutica, segundo McClellan (1994), pode ter surgido há cerca de trinta mil anos atrás, quando a doença era vista como um mistério e obra de algum espírito do mal. As comunidades e grupos familiares tinham a incumbência de não deixar o doente naquela situação por muito tempo, interferindo assim na saúde daquele grupo. Tentativas de trazer a pessoa à saúde era um dever de todos e todos se empenhavam em mandar o espírito embora. Provavelmente, um canto lastimoso e sem palavras foram as primeiras formas de chegar a um resultado, sendo introduzidos com o tempo chocalhos de cabaças e tambores para manter a animação dos membros do grupo. Assim se desenvolveu a antiga tradição do xamanismo [02], que tinha a música como propósito de atuação “psicológica”, servindo para afirmar e acalmar a mente.

Com a ascensão no mundo antigo de civilizações como a Babilônia, a Suméria, Pérsia, Índia, China, Egito, Grécia, as tribos de Israel e a origem do mundo cristão, surge também a necessidade de cada uma incorporar a existência de deuses e deusas e em todas existirem pelo menos uma deidade para a música. McClellan cita que, segundo Platão, os egípcios atribuíam a origem de suas melodias como forma de governar as emoções humanas e vinham da Deusa Ísis. Apolo, por exemplo, era o deus grego do Sol, da medicina e da música, e assim, durante os anos, muitas lendas gregas do poder curativo da música foram cultivadas. Porém, os escritos de Homero, Platão, Plutarco, Aristóteles, Pitágoras e seus discípulos foram influências para que a música se transformasse em um agente psiquiátrico. Entre estes, Pitágoras de Samos teria sido o mais influente em se tratando do uso terapêutico da música, tendo grande respaldo no ocidente por cerca de mil anos, desde o século VI a.C. Ele era cientista, filósofo metafísico, matemático e músico e é considerado o fundador da teoria musical.

O autor diz, também, que o desenvolvimento da medicina alopática baseada nos estudos sobre a fisiologia do corpo e na administração de drogas trouxe consequências para o uso da música, ficando assim sobre o domínio da igreja e sendo utilizada também como forma de entretenimento.

Porém, no século XVIII na França, um médico e músico chamado Louis Roger publicou um livro intitulado de Tratado dos efeitos da música sobre o corpo humano. No mesmo período, o físico Ernst Chladni estava envolvido com pesquisas e experiências com partículas de areia, chapas de metal e violinos, com o objetivo de identificar o uso de sons e da música na matéria física, sendo um dos precursores da cimática. No ano de 1919, surge o primeiro curso de musicoterapia na universidade de Colúmbia. Enfim, em 1944 o Michigan State College oferece o primeiro curso de especialização nessa área, seguindo-se assim a criação da Associação Nacional e Americana de Musicoterapia que, segundo Knobel (2008) foi fundada em 1950.  No final dos anos 40, Dorothy Schullian e Max Schoen publicaram o livro Music and Medicine, que é ainda hoje, segundo McClellan (1994), considerado um clássico da área.

Knobel (2008) aponta que a música era utilizada para aliviar a dor, estresse e ansiedade dos veteranos da Segunda Guerra Mundial, podendo daí ter surgido a musicoterapia como profissão. Diz, ainda, que em 1968 houve a primeira Jornada Latino Americana de Musicoterapia na Argentina.

Segundo McClellan (1994) na década de 70 houve grandes avanços na área com estudos associando a música à radiônica [03], por exemplo, e nos anos 80 em Lexington, Massachusetts, surge a associação denominada de Cura pelo som da Nova Inglaterra, a New England Sound Healers.

Por esta perspectiva da história da utilização da música como recurso terapêutico por todo o mundo e em épocas distintas, levaremos em consideração a sua importância e traremos seu desenvolvimento e utilização no contexto nacional.

No Brasil, segundo Costa e Cardeman (2006), o desenvolvimento da musicoterapia teve maior influência feminina. As primeiras associações foram criadas no Rio Grande do sul (por Di Pâncaro), no Paraná (por Clotilde Leinig), em São Paulo (por Clementina Nastari), e no Rio de Janeiro – por três mulheres: Doris Hoyer de Carvalho, Cecilia Fernandes Conde e Gabriele de Souza e Silva que fundaram a primeira Associação Brasileira de Musicoterapia (ABMT), em 1968, e o Curso de Formação de Técnicos em Musicoterapia, em 1972.

O trabalho pioneiro da musicoterapia foi realizado no campo da psiquiatria por Ruth Loureiro de Parames, contratada pelo Centro Psiquiatrico Nacional em 1955, como técnico em musicoterapia. Atuou também na fundação da ABMT e lecionou no primeiro ano no Curso de Formação de técnicos em Musicoterapia, em 1972.

Para Knobel (2008), os cursos de formação em musicoterapia no Brasil foram fundados no Paraná e no Rio de Janeiro em 1971 e somente em 1980 se iniciou a sua Prática Clínica, na Faculdade Federal do Rio de Janeiro.

Este autor, citando Edith Lecourt a partir de Bruscia (2000) traz que “[...] musicoterapia ‘é a utilização do som e da música (receptiva ou criativa, gravada ou ao vivo) em uma relação terapêutica para fins reeducativos ou psicoterapêuticos’”. (BRUSCIA, 2000 apud KNOBEL, 2008, p. 292. Grifo do autor).

Ele referencia a Federação Mundial de Musicoterapia a partir de Barreto (2004) considerando que

[...] musicoterapia ‘é a utilização da música e/ou seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) por um musicoterapêuta qualificado, com um cliente ou grupo, visando facilitar e promover a comunicação, relação, aprendizagem, mobilização, expressão, organização e outros objetivos terapêuticos relevantes, no sentido de alcançar necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas’. (BARRETO, 2004 apud KNOBEL, 2008, p. 293. Grifo do autor).

Nos traz, ainda, uma frase de Jan Schreibman, musicoterapêuta de um hospital infantil em Indianápolis nos Estados Unidos, dizendo que “se uma melodia com ritmo lento e consistente é introduzida em um ambiente, estimula os que estão nele presentes a ficarem mais calmos e seguros” (KNOBEL, 2008, p. 293-294).

Desta forma, sabemos que a música pode, além de outros benefícios, estimular sensações de segurança e calmaria, podendo ser utilizada em diversos ambientes do espaço hospitalar e clínico, inclusive com bebês prematuros em UTIs neonatais.

Parafraseando cf. Sousa, Ana Maria de Carvalho Gomes diz que

[...] a música relaciona-se com o conceito de harmonia que se traduz por ordem e/ou equilíbrio que existe com a capacidade de proporcionar ao ser humano a própria revelação e conhecimento de si através de processos terapêuticos (cf. SOUSA, 2005, apud GOMES, C., 2011, p. 30).

Ainda revendo Knobel (2008), entendemos que cantar alguma canção apresenta possibilidade para comunicação, além de elaboração de sentimentos que emergem em cada paciente de forma singular. Este acalanto pode ser útil também para auxílio de repouso a pacientes que encontram-se agitados e com dificuldades em relaxar, a partir de ampliação de sua capacidade respiratória. Sendo assim

[...] o musicoterapêuta pode utilizar as mensagens verbais das canções para explorar sentimentos não ditos de outra forma. O paciente e seus familiares geralmente experimentam menos solidão e isolamento como resultado de uma comunicação mais íntima entre as pessoas e suas vozes. A resposta interna ocorre com a pessoa cantando ou ouvindo. Compartilhar canções aumenta o contato íntimo entre as pessoas envolvidas e, dessa forma, a combinação de contato humano e apoio profissional pode diminuir o sofrimento presente (KNOBEL, 2008, p. 297).

A música é utilizada como terapia por profissionais musicoterapêutas e tem como objetivo, nesse caso, “[...] não a música em si, mas o alívio do sofrimento psíquico através de produções no mundo dos sons” (SOUSA 2005, apud GOMES, C., 2011, p. 46).

A utilização da música no ambiente hospitalar pode ser de grande importância pois “[...] conforta, acolhe e fortalece o paciente, favorecendo sua elaboração da vivência de internação, humanizando relações e humanizando, sobretudo, o cuidar” (KNOBEL, 2008, p. 298).

A música seria, então, fator importante no processo de enfrentamento à internação e, sobretudo, recurso para uma prática humanizada, integrando pacientes, familiares e equipe, tornando-se uma possibilidade interventiva a ser utilizada pelo profissional de psicologia inserido no ambiente hospitalar, trazendo assim reflexões acerca do papel deste profissional e as maneiras de se fazer a sua prática de forma dinamizada, contemporânea e diferenciada, associada à diversos outros meios interventivos, como por exemplo o lúdico, pelo qual iremos tecer algumas compreensões no tópico que se segue adiante.

4. “Personalizando” O Estar Com: Sobre a Beleza do Lúdico

Nesse tópico abordaremos a conceituação do termo lúdico de forma que possa englobar diversos significados trazidos pela cultura e por autores variados, tendo foco maior na autora Christianne L. Gomes quanto a conceituação, dando posteriormente ênfase à sua importância no contexto hospitalar, atrelando a autores como Liebmann, Araújo e Guimarães, e Luís Otávio Burnier, sugerindo assim um destaque ao recurso lúdico que pretendemos utilizar.

A internação por si só passa a ser um evento marcante, que foge dos costumes de quem aparentemente leva uma vida saudável, e passa a ser rotina para quem depende de recursos hospitalares para alcançar meios de se chegar ao melhor equilíbrio disponível ao seu estado de saúde, de forma constante e contínua.

No entanto, se levarmos em consideração o ambiente hospitalar tal como se apresenta a quem está hospitalizado, estando “acostumado” ou não à esta condição, veremos que aqueles momentos em que o paciente estará ali poderão, com frequência, parecer demasiadamente longos e entediantes, levando-o ao contato frequente com sentimentos de ansiedade, estresse, insegurança, baixa-estima e a sensação de não participar ativamente daquele processo e, consequentemente, sentir que a situação não está sob seu controle ou dos seus familiares, como pontuamos anteriormente.

Trazer recursos lúdicos para este ambiente seria uma proposta interventiva diferenciada que pode acarretar em mudanças, mesmo que sutis, na rotina e contexto hospitalar, por se apresentar acompanhada de objetos, situações e movimentações normalmente não encontradas neste espaço.

A palavra lúdico não possui tradução internacional que represente claramente o conceito brasileiro a qual se refere esta expressão, e os dicionários nacionais não trazem para ela uma definição abrangente. Christianne L. Gomes nos diz que

Nos dicionários da língua portuguesa são apresentados os significados comumente atribuídos ao lúdico, qualificado como um adjetivo ‘que tem o caráter de jogos, brinquedos e divertimentos’, os quais constituem ‘a atividade lúdica das crianças’ (FERREIRA, 1986 apud GOMES, L., 2004, p. [1]. Grifo do autor).

Nesse sentido, identificamos na leitura de dicionários brasileiros a conceituação da palavra lúdico como sendo referente a “jogos e brinquedos” (MELHORAMENTOS, 1997), e para o dicionário mini Aurélio, refere-se a “[...] jogos brinquedos e divertimentos” (FERREIRA, 2001, p.433).

Ainda em seu artigo, Gomes faz uma crítica a essas formas de descrever o significado da palavra lúdico, primeiramente porque “[...] restringe o lúdico a uma única fase da vida – a infância [...]” (GOMES, L., 2004, p.[1]), e assim enfatiza a impossibilidade de adultos envolverem-se em atividades lúdicas ditas improdutivas, porque o adulto mantém sua “seriedade”, responsabilidades e produtividades no mundo capitalista. Em seguida, a crítica está no sentido de que

[...] o vocábulo lúdico refere-se apenas aos jogos, aos brinquedos e aos divertimentos das crianças, quando existe uma infinidade de manifestações culturais construídas socialmente pela humanidade (GOMES, L., 2004, p.[1]).

Esta autora concorda, porém, com Silvino Santin, quando diz que a ludicidade “[...] ‘é fantasia, imaginação e sonhos que se constroem como um labirinto de teias urdidas com materiais simbólicos’” (SANTIN, 1994 apud GOMES, L., 2004, p. 2. Grifo do autor).

Entendemos que, enquanto “[...] expressão de significados que tem o brincar como referência, o lúdico representa uma oportunidade de (re)organizar a vivência e (re)elaborar valores [...]” (ibid, p. 4), trazendo o brincar como uma maneira diferenciada de enxergar as construções culturais que perpassam as normatizações às quais o adulto está “configurado”.

Sendo assim, a palavra brincar nos remete não apenas ao ato de ocorrer espontaneamente momentos de descontração através de situações inusitadas, mas ao fato de que possa haver um chamamento ao paciente em estar ali participando de forma ativa daquele processo, ouvindo e cantando. Acompanhar a chegada e permanência daqueles “profissionais” de saúde que se apresentam com algumas caracterizações incomuns e identificar-se com eles, deixar-se “seduzir” por todo contexto ao qual denomina-se lúdico, faz com que o paciente já esteja envolvido na brincadeira.

Considerando que estaremos levando ao espaço hospitalar a arte, não no sentido de produção de materiais específicos para análise, como pinturas, artes plásticas ou outros tipos de arte “palpáveis”, mas no sentido de que a música e o lúdico podem ser considerados recursos artísticos que, em consonância, poderão promover momentos para expressão de sentimentos e sentidos, trazemos a este tópico a seguinte questão: por quê utilizarmos a arte?

Para Marian Liebmann (2000), a arte pode se apresentar como outra forma de expressão, um veículo que gera sentidos e que facilita a comunicação, especialmente quando as palavras não são suficientes, sendo útil no trabalho com conteúdos que nem sempre estão acessíveis ao consciente e que pode ser, inclusive, prazerosa. Além de não apresentar objetivos que visem produtividade, isentando assim o paciente da sensação de estar sendo cobrado por algum “resultado”, pensarmos no lúdico enquanto brincadeira nos remete ao fato de ocorrer de forma espontânea, buscando um envolvimento de quem brinca de maneira ativa.

Faz-se necessário compreender este brincar como importante, pois pode estar relacionado ao que não é brincadeira e está fora de ser unicamente daquele contexto do brincar.

Essa forma de se pensar o lúdico traz à tona uma reflexão associada ao ato de brincar vivenciado pelo adulto, e não apenas pelas crianças, pois cada um possui dentro de si um “ser criança” para além das normatizações sociais impostas pela cultura. Nesse sentido, Liebmann nos traz que

Os adultos também precisam desenvolver ou redescobrir a capacidade de brincar, que pode proporcionar a eles o necessário “distanciamento” das pressões do dia-a-dia, auxiliando-os a renovar sua capacidade de lidar com problemas e oportunidades da vida. (LIEBMANN, 2000, p.32)

Pensamos então em alguma forma de aproximarmo-nos desse brincar e do contexto lúdico que pudesse estar facilmente concatenado a utilização da música no espaço hospitalar. Dessa maneira, nos identificamos com as práticas convidativas, expressivas e claro, lúdicas, dos grupos de “doutores palhaços” espalhados por todo o mundo, tendo como um dos maiores referenciais o grupo brasileiro Doutores da Alegria, fundado em 1991 por Wellington Nogueira e definindo-se

[...] como uma ‘organização dedicada a levar alegria a crianças hospitalizadas, seus pais e profissionais de saúde, através da arte do palhaço, nutrindo esta forma de expressão como meio de enriquecimento da experiência humana’ (DOUTORES DA ALEGRIA, 2003 apud ARAÚJO; GUIMARÃES, 2009. Grifo do autor).

O enriquecer desta experiência pelos “palhaços-doutores” ocorre de maneira bastante preparada, com artistas que o fazem pelo prazer da experiência, agregado ao profissionalismo necessário para o “fazer-se sério” diante daquele contexto. Esta seriedade pode ser identificada na leitura de Araújo e Guimarães, quando pontuam que

O termo ‘palhaço-doutor’ identifica o trabalho terapêutico realizado por performáticos profissionais, que recebem treinamento em habilidades interpessoais e de comunicação, juntamente com técnicas de improviso, para a promoção de bem-estar físico e mental, qualidade de vida, diminuição de ansiedade e estresse entre pacientes, familiares e membros da equipe de saúde (WARREN; CHODZINSKI, 2005 apud ARAÚJO; GUIMARÃES, 2009. Grifo do autor).

Segundo Spitzer (2002), parafraseado por Araújo e Guimarães (2009), desde a época de Hipócrates os palhaços estão inseridos em trabalhos no contexto hospitalar. Destacamos aí a importância que era dada ao personagem do palhaço como forma de levar a ludicidade para aquele espaço no intuito de provocar reflexões e amenizar o sofrimento de quem estava hospitalizado a partir do estímulo à sensação de bem-estar.

Tal personagem, não escolhido por acaso, tem um quê de “chamamento à atenção” de quem o observa, além de proporcionar maior segurança a quem o representa, pelo fato de estar “protegido” por traz daquela caracterização.

No livro “A arte de Ator”, Luís Otávio Burnier, referenciando as ideias de Grotowski a partir de Richards, fala que o personagem serve também como proteção para o ator, ou seja, como escudo para sua intimidade e segurança, sem deixar, no entanto, de provocar e fazer refletir o expectador a partir daquilo que o próprio ator traz enquanto personagem. (Richards, 1993 apud Burnier, 2009).

Dessa forma, a caracterização do Clown (palhaço) se apresenta como  recurso lúdico adequado por ser caricatura expositora do ridículo e das fraquezas de cada um. Para Burnier (2009), o palhaço tem ainda o papel de igualar as pessoas, independente de sua posição social ou hierárquica, sem atuar no sentido de “faz-de-conta”, mas sim de trazer à tona a realidade. Além do mais, em se tratando das diversas situações em que os encontros nos leitos poderão estar sujeitos ao contato com adversidades, estados de saúde debilitantes, amputações e outras limitações físicas, buscamos entender a partir de Burnier (2009) que o clown também possui deformações físicas, ainda que sutis, como o nariz vermelho e desproporcional, a maquiagem e o figurino fora de contexto. As suas reações afetivas, as emoções e sentimentos são corporificadas em algumas partes precisas do seu corpo, transbordam pelo corpo de forma localizada, ou seja, deixando claro que as emoções que se presentificam serão expressas de forma bastante “corporificadas”.

Esta forma de relacionar-se com o paciente, levando em conta o contexto do hospital que está inserido, mas aproximando-se do seu “jeito de ser”, envolvido por toda sua história de vida, relacionamentos afetivos, sua maneira de lidar com as diversas situações e também com aquela que está vivenciando, ou seja, considerar “[...] a existência do ser humano de uma maneira completa: não apenas sua doença, sua mente, ou seu discurso” (RODRIGUES, E., 2011, p. 48), enxergando-o de forma holística, remete-nos ao trabalho de humanização daquele espaço, a possibilidade torná-lo mais “humano” e relacional. Dessa maneira, Araújo e Guimarães nos pontuam que:

Em um estudo sobre a percepção da equipe médica e de acompanhantes a respeito do ‘palhaço-doutor’, Carvalho e Rodrigues (2007) reuniram relatos [...] favoráveis, inclusive com o reconhecimento por parte dos profissionais de saúde de que o trabalho desenvolvido pelo movimento é um exemplo de humanização na saúde. (CARVALHO; RODRIGUES, 2007 apud ARAÚJO; GUIMARÃES, 2009. Grifo do autor).

Vemos diante do exposto que os trabalhos realizados por “palhaços doutores”, com todo o contexto lúdico que abarca e visualizando o paciente e a equipe de igual para igual, considerando as relações interpessoais como importantes para o processo terapêutico, são considerados exemplos na área da saúde da humanização que o Ministério da Saúde preconiza na Política Nacional de Atenção Hospitalar (PNAH) com o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH).

Com os avanços tecnológicos, as especializações médicas e cada vez mais a inserção de máquinas para facilitação do diagnóstico, houve mudanças na relação médico/paciente, e a anamnese foi sendo cada vez menos utilizada, fazendo com que o vínculo estabelecido pela relação entre ambos fosse desaparecendo. Carlos Rodrigues pontua que, segundo Brasil, a humanização seria

‘um conjunto de ações integradas que visam mudar substancialmente o padrão de assistência aos usuários nos hospitais públicos melhorando a qualidade e a eficiência dos serviços prestados’(BRASIL, 2001, apud RODRIGUES, C., 2013. Grifo do autor).

Ainda se tratando sobre os trabalhos humanizados presentes na assistência à saúde, Inaiá Monteiro Mello, referenciando o Ministério da Saúde, pontua que:

A humanização da assistência é entendida pelo MS como ‘o aumento do grau de co-responsabilidade na produção de saúde e de sujeitos’ e ‘mudança na cultura da atenção dos usuários e da gestão dos processos de trabalho’(MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2003 apud MELLO, 2008, p.39. Grifo do autor)        

Entendemos, pois, que levar a ludicidade ao espaço do hospital pode remeter a inúmeras possibilidades de reflexão, auxiliar na relação empática, ajudar no acolhimento do paciente, promover sensações de bem-estar, além de contribuir com mais uma possibilidade de humanização do atendimento. Levamos, pois, uma proposta que não seguiu à risca os projetos dos “palhaços doutores” tradicionais, mas buscou uma aproximação da utilização de seus recursos para viabilizar momentos em que a expressão de sentimentos e sentidos pudesse ser provocada, instigada, acolhida e (re)significada.

Com esse olhar para o ser humano, o ser de cada um, tentamos trazer no próximo capítulo o que é a fenomenologia, desde a sua concepção até a ontologização do olhar para o ser das coisas e de cada um, com intuito de expormos um pouco do modo como consideramos a relação com o outro e com as nossas possibilidades diante da existência, sob a perspectiva fenomenológico-existencial.

5. Como Assim Fenomenologia? sobre “Entender” Husserl e Escolher Heidegger

O percurso que foi trilhado durante a graduação nos conduziu para uma formação de base teórica importante, onde as áreas de atuação e as maneiras de se fazer uma práxis em psicologia puderam ser expostas de forma sucinta e ao mesmo tempo norteadora.

Desde o início da graduação nos deparamos com disciplinas como “Psicologia, uma ética”, onde iniciamos discursões acerca do que seria ética, entendendo-a como morada no sujeito e relação imprescindível que a psicologia deveria estabelecer com esta forma de se apresentar ao mundo.

Vimos também “Bases filosóficas”, onde pudemos estudar um pouco acerca das contribuições da filosofia ocidental para a humanidade, entendendo, inclusive, um pouco já sobre o que seria o existencialismo, por exemplo, que é uma das bases filosóficas a qual nos debruçaremos adiante.

Estudar Antropologia, Epistemologia, Bases Biológicas e Processos Psicológicos Básicos também foi de importante base teórica para as discussões que chegariam mais a frente, quando tivemos contato com disciplinas como Teorias da subjetividade I e II, que nos falavam sobre a história da psicologia e sobre as correntes que se desenvolveram, tornando mais clara a divisão entre as três grandes forças: Psicanálise, Behaviorismo e Humanismo, e Genealogia I, II, III e IV, pontuando alguns autores como Freud, Françoise Dolto, D. Winnicot e outros, que discutiam acerca das fases da vida, dividindo-as em Criança, Adolescente, Adulto e Idoso, seguindo também um viés pela psicologia do desenvolvimento.

Ficou claro que, enquanto embasamento teórico, tivemos direcionamento maior para a corrente psicanalítica, encontrando em quase todas as disciplinas temas a partir do olhar de autores desta corrente. Discursões acerca da Saúde Mental também foram construídas, além de uma base inicial em psicologia social e nas metodologias de pesquisa, havendo maior aprofundamento em períodos um pouco mais avançados.

Pudemos ter o privilégio de estudar, também, Psicologia Organizacional e Escolar, até que, ao chegarmos no quinto período, procurando ainda entender os processos da Psicossomática e os movimentos grupais, além da possibilidade inicial de “pôr em prática” a psicologia através da Extensão Universitária, nos deparamos pela primeira vez com uma disciplina que sacudiu o modo que vínhamos construindo a forma de perceber o homem: “A Fenomenologia”. Esta foi, sem dúvida, uma disciplina que pareceu inicialmente bastante inquietante, pois trazia de uma maneira ainda não vista por nós anteriormente uma relativa desconstrução de uma série de conceitos apresentados pela psicanálise acerca da constituição subjetiva dos sujeitos.

A proposta de pensar nas pessoas sem qualificá-las, enquadrá-las ou analisá-las foi, claramente, um grande diferencial, além da possibilidade de encarar a prática clínica sem apegar-se tanto às técnicas, ou seja, encontrar o cliente de pessoa para pessoa, sem lançar mão de analisá-lo. Daí em diante, juntamente com a importância do estudo sobre Psicopatologia e Psicodiagnóstico, a fenomenologia se fez mais presente no olhar que construíamos sobre a prática.

A chegada dos estágios básicos (bastante esperados, vale salientar), nos mostrou áreas distintas e que, ao conhecê-las, a escolha pela práxis tornou-se um pouco mais clara, especialmente na escolha pela área que cada um iria aprofundar-se, chegando logo após com o estágio específico. As áreas de psicologia escolar, social, organizacional e clínica nos trouxeram peculiaridades que, por fim, culminariam na escolha pela qual direcionaria a nossa prática de estágio no último ano da graduação. Com cada colega escolhendo suas devidas áreas, optamos, pois, pela área de Psicologia Clínica, na perspectiva Fenomenológico-existencial, culminando assim também com a escolha da “abordagem” que direcionou esta pesquisa de conclusão de curso.

A escolha se deu por encontrarmos na Fenomenologia existencial uma forma de ver o homem mais condizente com a nossa e, sendo assim, assumirmos também a postura fenomenológica na nossa existência no mundo. Para facilitar a compreensão, trazemos adiante um pouco sobre a teoria e sobre os filósofos Edmund Husserl e Martin Heidegger, encontrando neste último uma filosofia que, pela visão que propõe de homem e de mundo, se faz presente hoje de forma bastante influente enquanto inspiração para a atuação em psicologia, e é para este viés que direcionamos o nosso olhar.

5.1 A Filosofia Eidética de Edmund Husserl

Considerado o criador do método fenomenológico, inspirado pelo seu antigo professor Franz Brentano (1830 – 1917) a partir das distinções sobre o que eram os fenômenos físicos e os psíquicos, Husserl nasceu em Proznitz (Tchecoslováquia), em 8 de abril de 1859. Ele era matemático e passou a interessar-se por filosofia ao acompanhar algumas aulas de Brentano, chegando a concluir que a filosofia

[...] poderia ser um campo fecundo de estudos. Bastava apenas que ela fosse tornada uma ciência plenamente rigorosa, o que, achava ele, não tinha ocorrido até então. [...] nada ficaria fora de seu campo de investigação. [...] tornar-se-ia uma espécie de ciência das ciências. (PENHA, 2001, p. 21).

Este filósofo inicia o desenvolvimento de suas ideias no momento em que as ciências positivistas estavam em crise e traz a fenomenologia enquanto método rigoroso de investigação quando as verdades ditas inabaláveis passam a ser pensadas e investigadas, assumindo um significado humano através da consciência e sua intencionalidade. “Kierkegaard e Nietzsche forneceram ao movimento fenomenológico-existencial a temática. Husserl, porém, lhe proporcionou o instrumento metodológico de formulação”. (GILES, 1989, p. 55).

A palavra que Husserl utilizou para denominar a sua filosofia, ou seja, a Fenomenologia, não foi criada por ele. Segundo a autora Danuta Pokladek, essa palavra foi utilizada desde muito antes de Husserl por vários pensadores, “[...] entre os quais Lambert, Kant, Hegel, Brentano, Dilthey, entre outros. [...] É Hegel, filósofo alemão, quem utiliza e torna mais conhecida essa palavra, fenomenologia.” (POKLADEK, 2004, p. 39).

Sendo inspirada nos filósofos gregos, a palavra fenomenologia se refere a tudo aquilo que se mostra, que aparece, baseada na palavra phaenomenon, onde pela aparição do fenômeno temos consciência da sua existência.

Nesse sentido, este pensador introduz a noção de intencionalidade, que seria a base da fenomenologia, designando que tudo o que apreendemos como fazendo parte do mundo e o significado que é dado aquilo por nós mesmos tem influência da nossa própria consciência, ou seja, a intencionalidade refere que a consciência é sempre consciência de algo, pois não há como haver consciência do vazio. Logo, pensando na relação entre as ideias e as coisas, Husserl encontra neste entrelace o entendimento de que só há compreensão se for compreensão sobre algo, e só existem as coisas se estiverem presentes nas nossas ideias, ou seja, na nossa consciência. Essa inter-relação se constitui enquanto um fenômeno, ocorrendo de maneira interdependente. Dessa forma, a fenomenologia

[...] busca captar a essência mesma das coisas, descrevendo a experiência tal como ela se processa, de modo que se atinja a realidade exatamente como ela é. Para que se chegue a isso, Husserl propõe que o indivíduo suspenda todo o juízo sobre os objetos que o cercam. Mais precisamente: Nada afirme nem negue sobre as coisas [...] (PENHA, 2001, p. 23).

Essa meditação e abandono do mundo, ou seja, daquilo que já imaginamos conhecer e saber seu significado e seus porquês, para pensar a partir do que se percebe no momento, é chamada por ele de “redução”, ou epoché, termo que advêm da filosofia medieval. É chegada então a conclusão de que a consciência não pode existir separada do fenômeno, e vice versa. Assim,

[...] Husserl Celebrizou: toda consciência é consciência de alguma coisa. Quer isso dizer que todos os atos psíquicos, tudo o que se passa em nossa mente, visa a um objeto, logo, não ocorre no vazio. (PENHA, 2001, p. 22-23).

Levando em consideração tal pensamento, este filósofo nomeia os dois lados do que denomina como fenômeno, objetivando ainda mais um rigor na sua filosofia fenomenológica. A consciência se daria, portanto, pela relação entre o polo Eu da consciência intencional, ou seja, o pensamento, utilizando a expressão noese para especificar este pensamento, e o polo aquilo, nomeado de noema, sendo este outro o objeto desta consciência, ou seja, se temos consciência e é sempre consciência de algo, este algo é chamado noema.

A noese seria, então, a nossa consciência, o pensamento e, como referido anteriormente, não ocorre no vazio. Logo, a palavra noema designa aquilo que se tem consciência. Para exemplificar o que foi dito anteriormente, imaginemo-nos na nossa “sala de jantar” (em aspas, pois, pelo exemplo, este é o nome pelo qual chamam este espaço), sentados em algo que, montado para possibilitar um acomodamento mais confortável, é cheio de amarras de pedaços de algum material que, engrenados, formam o que chamam de “cadeira”. Olhando para frente, vemos uma grande coisa em um formato que dizem “quadrado” e, acima dele está algo de menor tamanho em um formato que dizem “circular” e, não sabendo para quê serve ou ao menos o que é e, no intuito de descobrir, o pegamos e colocamos na nossa boca, com fins de comê-lo.

Bom, este não é, definitivamente, o melhor dos exemplos para retratar o que seria uma redução fenomenológica e encontrando, inclusive, dificuldade em reduzir fenomenologicamente os objetos que conhecemos como cadeira, mesa e prato para explicá-los, trazemos aqui apenas a ideia do que poderia ser a epoché de Husserl.

Tentando nos desvencilhar dos significados dados previamente a elas e tudo o que imaginamos ser, dedicamo-nos apenas a uma atitude descritiva do encontro, com intuito de ver e apreender algum significado pelo que se apresentou naquele momento. Tendo esta relação com essas coisas nos levado à consciência de algo que se apresentou de forma pura naquele dado encontro, essa consciência denomina-se noese, ao passo que o algo ao qual tivemos consciência (cadeira, mesa, prato) denomina-se noema. Por isso é que Husserl nos diz que a consciência é sempre consciência de algo que, reduzido (colocado entre aspas), chega a sua essência pura, ou seja, à eidos.

Em busca de uma Filosofia rigorosa que assumiria um verdadeiro direcionamento científico, Husserl começa por direcionar os pensamentos do método fenomenológico, estando este em constante aperfeiçoamento e construção:

[...] não encontramos em Husserl o sistema acabado, fechado, pois a fenomenologia pretende ser, por essência, a Filosofia fundamentada no dinamismo intencional de uma consciência sempre aberta. Portanto, para a fenomenologia, todos os conceitos, todos os termos devem permanecer de uma certa maneira em devir [...]. (GILES, 1989, p. 56).

Assim sendo, entendemos que essa forma de se pensar nas coisas não admite nenhuma definição engessada, a não ser que esta se valha da possibilidade de ser generalizada para todas as consciências e em qualquer época. Apresentando seu pensamento acerca da fenomenologia, o autor Thomas Giles pontua:

[...] não posso admitir como válido nenhum juízo, se não for fundamentado na evidência, ou seja, nas experiências, em que as próprias coisas e os estados das coisas se me apresentam por si próprios. (GILES, 1989, p. 59).

Compreendendo a fenomenologia como um método que procura não explicar as coisas por uma relação de causa e efeito, mas sim pelo que se apresentam à consciência, entendemos que seus meios se valem muito mais da compreensão das coisas que da explicação delas por razões naturais, exatas, mecânicas, etc. Então, o rigor metodológico proposto por Husserl é diferente do rigor da exatidão, é um rigor pela percepção daquilo que se apresenta verdadeiramente e como compreendemos pela consciência aquilo, numa constante relação entre consciência e objeto e ocorre a partir da realidade humana que, segundo Pokladek (2004), é produtora de significados. Para esta autora, essa é uma das chaves do método fenomenológico, a realidade humana é produtora de significados e os produzem no encontro com o objeto.

Mas, retomando mais enfaticamente as ideias de Husserl, Giles (1989) nos diz ainda que este pensador criticou de forma detalhada o naturalismo, o psicologismo e a filosofia da Weltanschauung, sendo estes os três grandes movimentos presentes no palco filosófico ao final do século XIX.

O primeiro grande movimento, o naturalismo, segundo o autor, encara a realidade sempre tentando naturalizá-la, ou seja, fixá-la e engessá-la, inclusive chegando a pretensão de naturalizar as ideias e a própria consciência, sendo esta a maior falha deste movimento. O psicologismo, segundo grande movimento filosófico da época, foi colocado em questão com a pergunta “[...] será a objetividade da matemática, da ciência em geral e, portanto, também da Filosofia, compatível com uma fundamentação da lógica na psicologia?” (GILES, 1989, p. 61). Para o autor, era evidenciado de forma especial o surto extraordinário das ciências empíricas na psicologia experimental, porém, o erro apontado por Husserl era que os psicologistas encaravam a lógica apenas como se fosse uma técnica. Mesmo assim, o próprio saber dito científico seria relativo à realidade e organização psíquica de quem investiga e, portanto, “[...] não existe nenhuma lei absolutamente verdadeira, mas apenas hipóteses em vias de verificação sem-fim.” (GILES, 1989, p. 62).

A crítica a psicologia experimental que visava explicar os processos psicológicos era fundada na mesma lógica que constituía a crítica às outras ciências, qual seja, a de que a psicologia não explicava as coisas pelas coisas mesmas, mas explicava as coisas por outras. Um exemplo disso é o fato de que se fosse perguntado à um psicologista o que era enxergar, ele relataria todo o processo fisiológico e cognitivo, sem no entanto dizer realmente o que seria enxergar.

O terceiro movimento criticado por Husserl seria o da filosofia da Weltanschauung. Para ele, ela seria baseada basicamente em senso comum ou, mais precisamente, seria praticamente sinônimo de cultura e, portanto, totalmente ilegítima diante das exigências de uma filosofia rigorosa e eidética. Porém, pontua ainda que qualquer alienação e fanatismo à uma forma de pensar cientificista deveria ser igualmente evitado e, levando em consideração que a filosofia da Weltanschauung valoriza os valores pessoais e culturais, deveria, apenas na medida em que salva esses valores, ter a sua contribuição e importância para a humanidade.

A busca pela essência levou Husserl a pensar na eidética como uma aplicação da fenomenologia. Ela, a fenomenologia, por estar em constante vislumbre das coisas em sua dação originária pela epoché (redução), buscaria nessa relação a essência daquilo que chega à consciência, que é a coisa em si, distante de qualquer atribuição de significado dado anteriormente. Porém, por mais entrelaçados que estejam esses pensamentos,

[...] redução fenomenológica não é a mesma coisa que redução eidética, pois reduzir ao fenômeno não é necessariamente reduzir à essência, visto que enquanto a essência prescinde apenas do fato singular, tem ainda um caráter existencial e, portanto, embora indique o conteúdo do ato da consciência, não deixa de ser ainda considerada em íntima conexão com esse ato existencial que a suporta. [...] Em última análise, Husserl considerá-la-á como conteúdo da consciência na sua pureza absoluta e, portanto, sem qualquer caráter psicológico. (GILES, 1989, p. 63).

Essa redução eidética deve ser pensada para além da redução fenomenológica, pois a essência seria aquilo que a própria coisa se apresenta originariamente, enquanto no fenômeno inferimos significado à coisa no encontro, ou seja, tomar consciência é atribuir o significado daquilo que se apresentou para nós (fenômeno). Dessa forma, conhecer as essências não significa que chegou-se ao final do conhecimento, mas sim apenas à uma introdução ao conhecimento das coisas e, por isto a fenomenologia, “[...] no sentido husserliano, será o estudo desses fenômenos puros ou absolutos, isto é, uma fenomenologia pura.” (GILES, 1989, p. 67).

O objetivo primeiro de Husserl não é o de duvidar da existência do mundo, mas, ao contrário, é o de encará-lo apenas enquanto apresentado à consciência, ou seja, aquela inter-relação que citamos anteriormente em que só existe consciência se for consciência de algo, e só existem as coisas se tivermos consciência delas. É claro que o fato de pensarmos as coisas ou não faz com que existam no mundo, independentemente da nossa consciência, porém só existem para nós humanos quando temos consciência delas.

Não há como se chegar à essência das coisas por uma explicação ou um método racional que a valide. Segundo Giles (1989), a única maneira que Husserl aceita para se alcançar as essências é através da intuição. A redução deve se aplicar até a consciência para que se tente, intuitivamente, alcançar as essências. A evidência apodítica das coisas, ou seja, aquilo que se apresenta na realidade e não se pode contestar, deve ser submetida necessariamente à redução para chegar à eidos, pois, “[...] por mais perfeita que seja a percepção, a crença da percepção significa sempre mais do que aquilo que realmente é visto, e a coisa vista permanece um misto de visto e de não visto.” (GILES, 1989, p. 73).

Assim sendo, o que é apreendido na consciência recebe inferências pessoais de quem viu o fenômeno e, portanto, acaba sendo mais do que aquilo que realmente se apresentou a consciência.

Abandonar a atitude naturalista e assumir radicalmente a atitude transcendental é uma característica de bastante destaque na Filosofia husserliana. Essa atitude transcendental seria então a redução daquilo que apreendemos na consciência e, nesse sentido, se sobrepõe para além do que foi puramente visto, ou seja, o objeto não está fora da consciência, mas ao mesmo tempo é ainda mais do que apenas aquilo. Transcendentalmente, a fenomenologia pensaria na consciência como estando sempre em constituição. Esse pensamento transcendental é um dos últimos caminhos que a Fenomenologia husserliana se direcionou.

Husserl faleceu em Freiburg, na Alemanha, em 26 de abril de 1938 e influenciou bastante o pensamento filosófico da época, inclusive o do seu aluno Martin Heidegger, tal qual sua história e teoria discorreremos a seguir.

5.2 Heidegger e a Fenomenologia Existencial

Antes de darmos início ao pensamento deste filósofo, gostaríamos de introduzir aqui algum entendimento sobre o que seria o existencialismo, já que Heidegger no decorrer da elaboração do seu pensamento baseou-se na fenomenologia e foi considerado, ainda, existencialista e, de toda forma, já fizemos algumas inferências sobre a fenomenologia.

O escritor João da Penha (2001) nos diz que o movimento existencialista surge na Europa logo após o término da Segunda Guerra mundial, onde se encontrava um continente abalado, sequelado e em uma crise geral, ou seja, social, econômica, política, moral, financeira, etc. Os sentimentos que atingiram a população e, em especial a juventude, eram de desânimo e desespero. Segundo o autor, essa juventude era incrédula dos valores burgueses tradicionais e descrente da capacidade de o homem solucionar os problemas e contradições da sociedade de forma racional.

Nesse sentido, em meio a essa crise, o movimento se espalhou rapidamente, não apenas enquanto doutrina filosófica, mas também como estilo de vida. Porém, os meios de comunicação e a sociedade tradicional europeia divulgavam de forma escandalosa e inautêntica murmúrios sobre esse movimento, que foi bastante criticado inclusive por filósofos da época.

Como o que girava em torno do imaginário era que a figura do existencialista caracterizava-se por descuido da aparência, cabelos grandes e assanhados, que eram amorais e uma série de outras características, as críticas tornaram-se frequentes, alguns filósofos as direcionavam à Jean Paul Sartre e, inclusive, o papa Pio XII também criticou o movimento. O autor relata ainda que na década de cinquenta as marchinhas de carnaval no Brasil satirizavam acontecimentos atuais e uma delas fez muito sucesso, pois

[...] exaltava a figura de uma mulher que só aceitava cobrir-se com uma casca de banana nanica, pois tratava-se de uma ‘existencialista, com toda razão/só faz o que manda/o seu coração’. (PENHA, 2001, p. 8).

O termo existencialismo ou filosofia da existência é, para o autor, em sua origem “[...] sinônimo de mostrar-se, exibir-se, movimento para fora. Daí, denominar-se existencialista toda filosofia que trata diretamente da existência humana”. (PENHA, 2001, p.11). O existencialismo moderno, que surgiu na França na segunda metade do século XX, parece proceder diretamente da meditação religiosa do pensador Sören A. Kierkegaard, que era bastante fervoroso à religião luterana, chegando inclusive a ser pastor após a morte do seu pai. Este filósofo criticava piamente a filosofia Hegeliana, dizendo que “O erro de Hegel [...] foi ter ignorado a existência concreta do indivíduo”. (PENHA, 2001, p. 16).

Trazendo isto, quis dizer que a realidade não poderia ser estruturada em um sistema, pois o sistema é racional e a realidade não, a existência nunca poderia se assemelhar a um sistema, ela seria tudo, menos um sistema. Kierkegaard criticava todo e qualquer sistema e defendia que a existência era peculiar a cada um e era pra ser vivida, pois não adiantaria nada tentar enquadrá-la em um sistema no intuito de encontrar alguma resposta da sua existência concreta e, até aqueles que defendem e propagam alguma forma sistema, fogem dele quando há uma questão peculiar que deve ser resolvida a seu modo subjetivo de ser.

Tendo em vista a influência deste pensador, os ditos existencialistas puderam extrair alguns temas básicos para suas reflexões. Apontado como existencialista, o filósofo Martin Heidegger repudiava o termo existencialismo, defendendo que a sua proposta, na verdade, seria a de elaborar uma analítica existencial, e não uma doutrina existencialista.

Tentando estabelecer diferenças entre o existencialismo e a analítica existencial, Penha (2001) aponta que, como dito anteriormente, o primeiro estaria preocupado em filosofar diretamente acerca da existência humana, “[...] centrada na análise do homem particular, individual, concreto” (p. 25), ao passo que a segunda não manifesta interesse por essa existência individual. O autor aponta, ainda, que o objetivo primordial de Heidegger na obra Ser e Tempo seria discutir exatamente o que seria o Ser, visando uma ontologia geral, seguindo inclusive as recomendações do seu antigo professor Husserl, e não uma reflexão específica do ser do homem, que foi, porém, incluída nas discussões do Ser em geral.

A obra Ser e Tempo foi iniciada em 1923 e publicada em 1927, dedicada  “[...] a seu mestre Edmund Husserl, ‘com amizade e veneração’” (NUNES, 2010, p.7, grifo do autor). A obra foi interrompida em 1926, ficando dessa forma incompleta até o final da vida de Heidegger que, segundo Nunes (2010) estava planejada para conter duas partes, mas foi escrita apenas a primeira. Esta, por sua vez, iria conter três seções e, porém, a terceira também não ficou completa, apresentando um título inverso, no caso, Tempo e ser.

O pensamento de Heidegger pode ser considerado hoje, para este autor, como dividido em três fases: A primeira vai até o ano de 1946, onde se irradiou e difundiu a obra Ser e tempo; a segunda foi iniciada em 1930, com a produção de muitos escritos e o desenrolar da questão do Ser em geral. Nunes (2010) alerta que não se pode pensar em Heidegger como distinto em cada uma das fases, como quiseram pensar, mas sim enquanto pensamento único, entrosado em ambas as fases. Não é “[...] Heidegger I e Heidegger II [...].” (p. 9), pois os pensamentos de cada fase se esclarecem mutuamente. A terceira fase poderia ser considerada como sendo as reflexões interpretativas das duas fases anteriores, pois os escritos atuais as entrosam e redimensionam o pensamento heideggeriano.

Mas, retomando quanto à ontologia geral, indo além, Heidegger discorda da ontologia clássica e tradicional, que apontava o Ser como algo indiscutível, pois para esta doutrina não havia formas de responder tal questão inquietante. Para ele, isso seria um esquecimento do Ser, e lembra que na Grécia antiga essa era uma preocupação básica e primordial, digna de discussões. Definir o que seria o Ser, porém, estaria caminhando para transformá-lo em ente, que seria algo mais compreensível, definido, concreto e determinado. A questão é que Heidegger correlaciona um ao outro, entendendo que não há como falar do Ser sem relacionar o ente, conseguindo apenas estabelecer que a diferença entre ambos está na “[...] compreensão ontológica e a compreensão ôntica do Ser”. (PENHA, 2001, p. 28).

A questão do Ser seria, então, a mais instigante para a Filosofia e por ela considerada como indefinível. Heidegger, porém, para explicar tal questionamento, nos diz que quem faz essa pergunta, a pergunta do que seria o Ser, somos nós mesmos enquanto Dasein. Dessa forma, “[...] o sentido do conceito de ser se identifica sempre com a noção de presença [...]. Num sentido exato, é aquilo que <<subsiste>>, aquilo que pode encontrar-se, aquilo que <<se dá>>, que está presente [...]” (VATTIMO,1989, p. 22-23). Assim, o caminho que Heidegger trilhava compunha o perfil de uma ontologia fundamental – termo usado, segundo Inwood (2002, p. 132) para “[...] superar a ontologia tradicional [...]”, criticada por poder causar uma confusão de termos com uma disciplina preocupada exclusivamente com os entes - estudando o ser humano, o homem, do ponto de vista do seu ser, ou seja, como Dasein, para buscar a compreensão do que seria o Ser.

A busca por um caminho que levasse da fenomenologia para uma ontologia fundamental, desvencilhando-se assim da ideia de consciência e intencionalidade trazidas por Husserl, faz com que Heidegger discorde dos ideais do seu antigo mestre, passando a considerar que a realidade das coisas se encontra na existência, e que o objeto primordial da consciência não é a intencionalidade, mas que ela seria apenas o direcionamento para o ser compreendido e, nesse caso, a consciência seria apenas um ponto de abertura para tal compreensão. Nesse ponto, “[...] Heidegger não adotará a fenomenologia como movimento, como Filosofia existente, real e, sim, como possibilidade metodológica” (GILES, 1989, p. 91).

A busca pelo real significado do que seria o Ser exige da fenomenologia uma teoria geral que o considere e o explique, ou seja, a própria ontologia que, por sua vez, é também uma hermenêutica, pois possui caráter interpretativo, alcançado pela descritividade que compõe o método fenomenológico. Nesse sentido, a hermenêutica, que é a atitude interpretativa, associa-se à ontologia para buscar alcançar uma teoria geral sobre o Ser. A fenomenologia, orientada pela ontologia, passa a buscar uma compreensão do mundo, e não uma explicação “[...] no sentido de reduzi-lo a outra coisa a ponto de ele desaparecer como mundo natural [...]” (GILES, 1989, p. 94).

Nessa busca, Heidegger relaciona o sentido do Ser a partir do sentido que introduz ao que seria Dasein. O Dasein, como dito anteriormente, seria o ser do homem, o ser no mundo, lançado na existência. Dessa maneira

Heidegger usa a palavra existência para designar o caráter único do ser humano de ser uma abertura para o mundo e que só se expressa como existência a partir dessa abertura. A existência não é uma coisa. A existência não ocupa espaço. Ela espacializa, mas não ocupa espaço; ela temporaliza, mas não se objetiva no tempo. Como diz Heidegger, a existência não é, de forma alguma e, em nenhuma circunstância, algo possível de objetivação. (POKLADEK, 2004, p. 32).

Esse termo que diz desse Ser lançado na existência, qual seja Dasein, segundo Penha (2011), já foi utilizado por Hegel para designar um determinado ser existente no tempo e no espaço. Este Ser, para Heidegger, seria um ser que existe e se constitui nessa existência, e estaria lançado no mundo se relacionando com outros Dasein. O ser-no-mundo e o ser-com são expressões que tratam respectivamente dessas experiências. Então, o Dasein “[...] é nossa existência cotidiana, é o indivíduo, é o homem”. (PENHA, 2001, p. 30).

Na busca por explicitar um pouco mais, Penha (2001) ainda referencia que “[...] o ser que existe é o homem, escreve Heidegger. Só o homem existe. As pedras são, mas não existem. Os anjos são, mas não existem. Deus é, mas não existe. Só para o homem tem sentido algo como existir”. (p. 31). Por existir é que o homem pode escolher o que quer ser nessa existência, diferentemente dos entes que apenas são.

Levando em consideração esses termos, entendemos então que: “Existência, Dasein, ser-no-mundo, são pois sinônimos. Os três conceitos indicam o fato de o homem estar <<situado>> de maneira dinâmica, isto é, no modo de poder ser [...]” (VATTIMO, 1989, p. 27, grifo do autor).

Nesse modo de poder ser, em sua existência, o Dasein convivendo com outros Dasein deve procurar uma forma de ser autêntico. Autenticidade é um dos termos utilizados por Heidegger e diz respeito ao homem viver a partir do que concebe como sendo parte de si, do seu modo de ser e pensar, fugindo assim da inautenticidade, que é quando o Dasein existe levando em consideração o que dizem, o que pensam e o que fazem. A existência inautêntica levaria o Dasein a decadência, como nos refere Penha (2011), alienando-se de si mesmo, sendo assim nomeado de das man, termo utilizado para falar do Dasein inautêntico.

O homem, segundo Pokladek (2004), nega o fato de a sua existência ser fluida, frágil, e não aceita as incertezas, vivendo sempre em busca de respostas, planejando o futuro, buscando controlar sua vida e sua existência e busca, ainda, livrar-se da possibilidade de lidar com a finitude.

Para se chegar a autenticidade, Heidegger nos fala que devemos encontrarmo-nos com a angústia. A angústia leva-nos a refletir sobre o que somos verdadeiramente, e tal angústia apresenta-nos quando nos deparamos com o nada, com essa possibilidade de finitude. O ser-para-a-morte seria a única limitação da existência do Dasein, onde não haveria mais possibilidades de existência, e esse vazio, o nada, nos leva à angústia, que concomitantemente direciona a existência para a busca do ser si mesmo com os outros, do ser autêntico. Dessa maneira, o homem

[...] adverte Heidegger, só atinge a plenitude de seu ser na angústia. É através dela que o Dasein transcende os momentos particulares de sua existência, apreendendo-a em seu conjunto, na totalidade de suas manifestações, experimentando antecipadamente a morte e o nada. Apenas o homem se angustia, pois unicamente ele vive a cada instante sua vida inteira, e, nesse ato, reflete sobre a totalidade de seu ser. Através da angústia o homem penetra no mais íntimo de sua existência. A angústia ante o nada conduz o homem à existência autêntica, faz com que o Dasein atinja sua Existenz. (PENHA, 2001, p. 34).

Essa Existenz seria a existência pura do Dasein, autêntica e apontada por Heidegger como sendo o estágio superior à sua existência cotidiana, sendo a realidade mais íntima dele. Essa existência autêntica nos é, na prática, uma inspiração, visto que chegar a esse estágio é, sem dúvida, algo de difícil alcance. Nessa constante busca pela autenticidade, pelo modo de ser si mesmo, pelo questionar-se o ser de si mesmo é que se dá a analítica existencial proposta por Heidegger, onde, pela hermenêutica e pela atitude descritiva, a interpretação aplicada ao Dasein aconteça de dentro para fora e não de fora para dentro, pois “[...] parte do Dasein e é pelo Dasein mesmo conduzida” (NUNES, 2010, p.12).

Por este caminho, chegamos à compreensão do que Heidegger sugere quando não considera mais a questão da consciência, e, em lugar de dizer consciência, dizer-se apenas Dasein, englobando todo o sentido do ser do homem no mundo e, inclusive, quando da compreensão das coisas. Retomando assim a questão antes proposta sobre Ser e sobre ente, Nunes (2010) nos diz que “[...] o Dasein é o ente que compreende o ser, o que significa compreendê-lo em sua existência e entender a existência como possibilidade sua, de ser ou de não ser si mesmo [...]” (p.12). É, portanto, nesse jogo de perguntas sobre o ser do ente que Heidegger procura explicar a questão do Ser, diferenciando-o do que seria ente, através da relação com os conceitos de ôntico e ontológico. Assim, pois,

Ôntica é toda a consideração, teórica ou prática, do ente que se atém aos caracteres do ente como tal, sem pôr em causa o seu ser; ontológica é, pelo contrário, a consideração do ente que aponta para o ser do ente (VATTIMO, 1987, p. 18-19).

O ente então seria, para Giles (1989), parafraseando Heidegger, tudo

[...] aquilo de que falamos, aquilo que significamos, aquilo relativo ao qual nos comportamos de tal ou tal maneira; o ente é também aquilo que somos nós mesmos e a maneira de sê-lo. O Ser está implícito no que é e no como é, na realidade, no ser-subsistente, na consciência, no valor, no Ser-aí, e no “há”.(p. 97, grifo do autor)

Ou seja, os entes são os objetos, as pessoas, as coisas das quais podemos ver, dar sentido, é algo mais definido e está relacionado ao ôntico. O Ser, por sua vez, é algo implícito ao ente, aquilo que ele realmente é, onde o ente é pura e simplesmente a manifestação desse ser. Assim, o Dasein, o ser-aí é “[...] manifestamente um ente” (GILES, 1989, p. 99). O ente enquanto aparente possui um ser que lhe é fundamentalmente si mesmo e, dessa forma, a ontologia se ocupa em investigar o ser do ente, enquanto as ciências ônticas investigam o próprio ente que é também, em sua totalidade, parte do ser, a sua manifestação. A ontologia é, pois, a “[...] ‘ciência do ser do ente’ [...]” (DARTIGUES, 2005, p. 112. Grifo do autor).

O olhar ontológico voltado ao Dasein nos faz compreendê-lo como um ser em uma totalidade, e não apenas na existência concreta a qual entramos em contato um dado momento. Sendo ele sempre um poder - ser, nunca o encontraríamos como um todo e, mesmo que sua existência mediana (cotidianidade) comporte todas as suas possibilidades de ser, trazer esse olhar implica, segundo Vattimo (1987), em concebê-lo como simples presença.

A existência e as possibilidades, porém, não são infinitas, pois há de chegar o momento em que a morte as limitará, sendo ela mesma considerada a última possibilidade do Dasein, ou seja, seria a morte “[...] a possibilidade da impossibilidade de qualquer outra possibilidade [...]” (ibid, p. 50). Assim, o Dasein ao pensar na sua finitude, ao antecipar a morte, encontra caminhos para chegar a autenticidade, posto que damo-nos conta de que nenhuma possibilidade existencial que acreditamos ser concreta é definitiva, pois tudo se esvai com a morte e, portanto, as possibilidades não ficam petrificadas no tempo, também se esvaem.

Mas, como então o ser – aí, que vive na maior parte das vezes (termo utilizado por Heidegger) de forma inautêntica, cotidiana, poder-se-á passar a existir autenticamente? O próprio caminhar para o nada, para a morte, leva o Dasein à angústia e esta, por sua vez, permite “[...] uma espécie de redução fenomenológica existencial: o que é reduzido, mas entre parêntesis, são as significações banais e utilitárias do mundo” (DARTIGUES, 2005, p. 117).

Para este autor, o que ocorre com tal angústia posta ao homem é que esta o tirará da sua “casa”, ou seja, daquilo que já era concebido como caminho único ou único meio de lidar com as situações cotidianas, onde o Dasein estava à vontade e foi “arrancado” pela angústia. Ela, então, oportuniza ao Dasein descobrir-se enquanto cuidado e que é de si mesmo que parte a questão do ser. O homem, nesse sentido, angustia-se na sua existência temporal, mas não pode ser considerado como “estando no tempo”, pois ele mesmo constitui esse tempo, o homem é, si mesmo, o tempo.

De maneira inautêntica, o Dasein acaba por reduzir o tempo apenas ao presente, ao acessível naquele momento, de forma que possa manter o controle e as significações das coisas e do mundo e, assim, a metafísica tomou como parâmetro de tempo para o ser do ente o presente. A existência banal e cotidiana do homem no presente é preenchida pela preocupação, que é, de toda forma, o modo de ser cotidiano do Dasein. A preocupação é designada, segundo Giles (1989), para referir-se ao cuidado com “[...] entes não humanos [...]”, e a solicitude quando se refere à outros Dasein, outros “[...] entes humanos [...]” (p. 100).

As coisas são denominadas por utensílios, que estariam a serviço do homem ou, na verdade, os homens as dariam um sentido de utilidade. Dessa maneira, o Dasein “[...] é constituído tanto pelas preocupações que condicionam o uso que faz dos objetos como utensílios, como pela solicitude que sente pelas pessoas que compartilham a existência com ele” (Ibid., p.101). Daí a aplicação do termo que se refere ao Dasein como sendo um ser-com: ser-com as coisas, ser-com as pessoas. Encontramos, portanto, terminologias como Ser-aí, Ser-no-mundo e Ser-com para designar o Dasein.

Seriam, pois, a preocupação e a solicitude modos de cuidado do Dasein, cuidado este que faz parte da sua existência, bem exposta pela fábula nº 220 de Higino, citada por Heidegger na sua obra Ser e Tempo e que expomos abaixo:

Cuidado, ao atravessar um rio, viu uma massa de argila, e, mergulhado em seus pensamentos, apanhou-a e começou a modelar uma figura. Enquanto deliberava sobre o que fizera, Júpiter apareceu. Cuidado pediu que ele desse uma alma à figura que modelara e facilmente conseguiu. Como Cuidado quis dar o seu próprio nome à figura que modelara, Júpiter o proibiu e ordenou que lhe fosse dado o seu. Enquanto Cuidado e Júpiter discutiam, apareceu Terra, a qual igualmente quis que o seu nome fosse dado, a quem ela dera o corpo.

Escolheram Saturno como juiz e este equitativamente assim julgou a questão: “Tu, Júpiter, porque lhe deste a alma, Tu a receberás depois de sua morte. Tu,Terra, porque lhe deste o corpo, Tu o receberás quando ela morrer. Todavia, porque foi Cuidado quem primeiramente a modelou, que ele a conserve enquanto ela viver. E, agora, uma vez que, entre vós, existe uma controvérsia sobre o seu nome, que ela se chame Homem, porque foi feita do humus [da terra]. (ROCHA, 2010, p. 7)

Compreendemos com esta linda, lúdica e simples fábula sobre o cuidado (ou cura, trazido por Heidegger com o termo sorge) que o cuidado está sempre acompanhando o Dasein na sua existência, devendo este receber a devida atenção diante das vivências, evitando distanciar-se – obviamente - do cuidado prático em prol da resolução de problemas (como os de saúde, por exemplo), mas assumindo também o cuidado enquanto existencial da cura, enquanto vivência e cuidado com o outro, pois o cuidado é inerente ao homem.

Seguindo esse pensamento é que Pokladek (2004) vem trazer que atualmente o cuidado

deixou de ser uma categoria essencialmente existencial para ser transposta como uma categoria de preocupações em torno de problemas que devem ser solucionados com alguma estratégia ou com algum recurso tecnológico. Esqueceu-se a dimensão do cuidado como a existência voltada para a existência. O cuidado tornou-se algo objetivável em toda a sua extensão de tal modo que a subjetividade é assim apenas um acidente (p. 35. Grifo do autor).

Portanto, o cuidado deve ser existencialmente vivenciado, tendo em vista que quando se objetiva, quando se põe no plano ôntico apenas, mas não se encontra ontologicamente algum sentido verdadeiro sobre o cuidado, esse modo de existência também acaba gerando um decaimento no existir do Dasein, “inautentificando” o seu modo de ser no mundo e tornando-o impessoal.

Assim como o cuidado, a linguagem é também inerente ao homem, ou, como disse Heidegger em Uma Carta Sobre o Humanismo, a linguagem é “[...] a Casa do Ser” (GILES, 1989, p. 131). Assim, a linguagem é o indicativo do Ser, aponta a presença do ser que está presente, é a unificadora do ser e do ente, ou seja, une em si aquilo que é com aquilo que se apresenta, com a presença. Portanto, a linguagem

[...] não é um simples meio de expressão que se pode pôr de lado e trocar como um disfarce, sem que com isso seja afetado aquilo que se expressou. Pois na linguagem aparece e nela se manifesta em sua essência aquilo que nós somos (ibid. p.132).

Porém, a linguagem não pode cair em um falatório, em um “palavrório”, como nos trouxe Heidegger, onde o que é dito e expresso segue apenas uma lógica, algo mais relacionado à cotidianidade, ou seja, não há apropriação do que foi dito, apenas associa-se às palavras um significado já trazido pela cotidianidade. É, portanto, necessário que haja meditação sobre a linguagem, sobre o sentido do que está sendo dito, sem recair na naturalidade a que estamos sujeitos, pois este pensar (explicativo) que é comum a todos não aprofunda verdadeiramente no sentido do que se expressa. Com isso, compreendemos que a linguagem traz a dimensão essencial do homem, e para que essa essência seja alcançada precisamos, segundo Giles (1989) despir a presença a que ela se refere, colocar “[...] a nu aquela presença que fala nela” (p.133).

A palavra é então entendida como verdadeira quando nos leva à morar na essência do que se expressa, revelando o que estava escondido, trazendo à luz poeticamente (no sentido de revelar, criar) a verdade. Ou seja, a linguagem é poesia quando não decai no sentido de ser apenas um mero instrumento de comunicação, mas de trazer um sentido novo, real, criativo ao que é dito. Assim, Vattimo (1987) nos diz que a abertura do mundo “[...] se dá, antes de mais e fundamentalmente, na linguagem, é na linguagem que se verifica toda a verdadeira inovação ontológica, toda a mudança do ser: <<a própria linguagem é poesia em sentido essencial>>” (p.120. Grifo do autor).

O Dasein então é autêntico quando se expressa poeticamente, quando traz o seu verdadeiro sentido com aquilo que expressa na linguagem, abandonando assim a impessoalidade do discurso metafísico que engessa os sentidos das palavras, associando inautenticamente o que se deseja expressar à apenas um palavrório. Assim, a poesia “[...] se coloca fora do habitual, do quotidiano, ao abrigo dos golpes deste” (GILES, 1989, p. 134). O homem quando fala se revela na própria presença o que verdadeiramente é e ele mesmo só é porque se mostra.

Caminhando nesse sentido, portanto, a partir do olhar sobre o ser-aí, sobre o homem (termo evitado por Heidegger para não cair em uma banalização, para não dar, segundo Giles [1989, p. 100] uma “[...] conotação tradicional ao problema ontológico [...]”), tal como nos debruçamos e construímos durante esse trabalho baseando-se no pensamento heideggeriano, pudemos entender que as pessoas são sempre uma abertura a possibilidades, a uma existência que oportuniza escolhas que levem a um modo de ser mais autêntico, podendo ser si mesmo com os outros. Assim, as limitações as quais estão sujeitos os pacientes em diálise (definidos como sendo o grupo de pessoas escolhidas por nós para a realização desta pesquisa) provocaram-nos a buscar neste espaço um ambiente onde pudéssemos levar música, ludicidade, arte, expressividade, humanidade (no sentido mais redundante possível) e, em consequência disto, estarmos abertos a descobrir nos dizeres poéticos (no sentido trazido por Heidegger) quais os sentimentos despertados naquela vivência e os sentidos dados por cada um.

Deste modo, discorreremos adiante sobre os encontros, abarcando o que despertou tanto neles quanto em nós, não só enquanto pesquisadores, mas também como pessoas que foram em busca de momentos que proporcionaram reflexões e sentimentos diante do estar-com.

6. Toc! Toc! Podemos Entrar?

A chegada do momento de pesquisa veio permeada de sentimento e sentidos para nós, visto que por todo o percurso trilhado no curso e a elaboração dos capítulos anteriores nos direcionariam para estar em busca deste momento com pessoas que, assim como nós, compartilham do amor pela música e a ela reservam um espaço em cada fase da vida.

Para colocar “nos trilhos” o modo como iríamos nos debruçar sobre a pesquisa, sem substituir, obviamente, a nossa relação natural com os nossos colaboradores, optamos pela utilização dos métodos descritivo e exploratório, além de compreendermos que esse trabalho possui um viés qualitativo, pelo modo como consideramos as vivências, as informações e as pessoas que se dispuseram a estar conosco neste momento tão importante.

Mas por que utilizarmos esse modo de pesquisar a realidade? Por realizarmos uma pesquisa de campo, concebida por Gil (2009) como sendo o encontro direto do pesquisador com o fenômeno e nos dando a possibilidade de sair do viés unicamente teórico, a pesquisa qualitativa nos proporcionou nesse contexto um olhar que nos colocasse mais próximos daquilo que estávamos almejando encontrar, próximos no sentido de estarmos disponíveis e atentos aos detalhes com maior sensibilidade, sem procurar apenas dados para uma mera quantificação. Assim, estivemos mais dispostos não a levantar a maior quantidade de dados, experiências, vivências, etc., para “provar” algo como real e existente, mas sim de encontrarmo-nos com sentimentos, com verdades pessoais, com os sentidos daquilo que foi dito, expresso.

Utilizamos a pesquisa descritiva como método pelo fato de encontramos nela a possibilidade de descrever os fenômenos que foram revelados, tendo em vista que as pesquisas descritivas “[...] têm como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno [...]” (GIL, 2009, p. 42). Já na pesquisa exploratória pudemos perceber a condição de estarmos mais familiarizados com aquilo que pretendíamos pesquisar, levando em consideração também que esta abarca levantamento bibliográfico e entrevistas com “[...] pessoas que tiveram experiências práticas com o problema pesquisado [...]” (Ibid. p. 41).

Também lançamos mão de pesquisa bibliográfica, uma vez que se fez necessária para nos dar maior conhecimento teórico a respeito do que procuramos compreender. Para Manzo (1971), citado por Marconi e Lakatos (2006), este tipo de pesquisa pode oferecer não só uma resolução de problemas que já existem. Tem como objetivo um reforço teórico para a análise da pesquisa e ao atrelamento aos resultados que se pretende obter. Portanto, nos embasamos em teóricos que trazem conteúdos acerca da psicologia hospitalar, musicoterapia, lúdico e outras áreas correspondentes ao nosso tema.

Procuramos no momento da pesquisa, e procuraremos também adiante, nos embebecer pelo olhar Fenomenológico-existencial, pois este nos colocou diante do encontro não só (e também) como investigadores, pois não quisemos estar ali de maneira calculada, mas também não procuramos inferir interpretações imaginadas do que foi dito, quisemos apenas ouvir a intimidade de cada sentimento que surgiu no encontro, e fomos também envolvidos pela “energia”, participando ativamente do movimento fenomênico, e não apenas com uma escuta passiva, fria.

A palavra investigadores foi utilizada por estarmos no intuito de entender, querer saber alguma coisa, conhecer e perguntar por aquilo mesmo que se apresentou, pois entendemos investigar como sendo “[...] colocar em andamento uma interrogação”. (CRITELLI, 2007, p. 27). Assim, a perspectiva fenomenológica existencial, buscando tornar clara e trazer à luz do conhecimento e da consciência a essência daquilo que emergiu, considera o conhecimento a partir do significado que damos ao mesmo. Nesse sentido, Forghieri (2004) nos diz que

“[...] o objetivo inicial de chegar a essência do próprio conhecimento passa a ser o de procurar captar o sentido ou o significado da vivência para a pessoa em determinadas situações, por ela experienciadas em seu existir cotidiano.” (FORGHIERI, 2004, p. 59)

Dessa maneira, caminhando pelas estradas onde o olhar fenomenológico nos acompanha, seguimos a nossa pesquisa utilizando-se também do pensamento investigador e analítico de Dulce Mára Critelli e, por assim ser, pensamos na utilização de um instrumento de pesquisa de modo que ficássemos independentes deste, ou seja, quando colocamos a questão “Como foi pra você viver a experiência da música e do lúdico nesse momento?” não quer dizer que estivemos ali apenas para ler esta pergunta e esperar que as coisas caminhassem por si só até o esgotamento, mas que participamos do momento com outros questionamentos e expressando também alguns sentimentos nossos que porventura surgiram ali. Por isso, Critelli (2007) nos diz que

O investigar que se proponha interrogar as ações humanas deve, por princípio, ser mais abrangente que os instrumentos que selecionar; deve poder empreender-se na independência deles, e orientado pelo homem mesmo em seu estar-sendo-no-mundo. (p.28)

O método fenomenológico de investigação busca seguir pela interrogação do que se quer saber, e não simplesmente seguir o instrumental que se escolheu para tal fim. Assim sendo, a realidade a qual nos inserimos e vivenciamos cada momento junto com os colaboradores necessitou de um modo de conduzir a sua análise, e encontramos na autora supracitada condições para uma analítica dos sentidos expressos, compreendendo a realidade das coisas, isto é, a sua existência plena a partir do movimento de realização do real.

Para isso, Critelli (2007) sugere que, para percebermos algo como sendo real e existente, é preciso considerar cinco etapas que constituem esse movimento de realização: a primeira seria o DESVELAMENTO de algo, ou seja, aquilo que parece ainda não existir permanece oculto até que alguém possa “colocar os holofotes”, ou seja, trazer à luz, iluminar e fazer sair do “reino do nada” (Ibid., p.76); na segunda etapa, quando da retirada da escuridão, a “coisa” que aparece é sujeita a sua REVELAÇÃO, ou seja, conservada pela fala, pois “para o homem, aquilo de que não se fala simplesmente não existe” (Ibid., p.81); a terceira etapa permeia a ideia de TESTEMUNHO e, portanto, daquilo que se falou pode-se compreender um outro que escutou, onde o desvelamento e a revelação seriam vistas, ouvidas, testemunhadas por outras pessoas, de forma que haja “uma espécie de consolidação” (Ibid., p.85); na quarta etapa haveria a VERACIZAÇÃO, onde as três etapas anteriores (nomeadas pela autora em seu conjunto por advento) devem ser tidas como verdade e, para isto, deve-se observar a “relevância pública” (Ibid., p.94), através da coexistência, daquilo que adveio ao mundo; por fim, para a realização plena de todas as etapas anteriores, a AUTENTICAÇÃO vem trazer o sentido pessoal do sujeito, ao contrário das etapas de testemunho e veracização, que contemplam participação de outrem. 

Assim, a experiência singular e afetiva de cada um é que faz com que aquilo que se apresentou se torne real e verdadeiro. Vale ressaltar que essas etapas não seguem necessariamente esta ordem e, na verdade, se entrecruzam e ocorrem simultaneamente durante a dação do fenômeno, ou seja, no encontro.

Nos propomos a entrevistar pessoas que realizavam, no momento da pesquisa, o tratamento dialítico, estando estas nas máquinas dialisadoras. Segundo a Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN [04]), esta especialidade é dedicada ao diagnóstico e tratamento clínico de doenças do sistema urinário, especialmente do rim. Estima-se que em 2013, cerca de 100 mil e 397 pessoas estiveram em tratamento dialítico no Brasil [05]. No tratamento de hemodiálise o sangue é filtrado em um catalizador com auxílio de uma máquina para retirar do organismo o excesso de água e substâncias prejudiciais à saúde e em seguida é devolvido ao paciente. As entrevistas foram realizadas na clínica nefrológica de Caruaru SOSrim, que atende hoje cerca de 415 pacientes, com frequência de acordo com as necessidades, girando em torno de três sessões semanais para cada e com duração média de quatro horas por sessão.

No momento em que nos apresentamos para tal pesquisa, também nos dispomos a estar voluntariamente junto à equipe de psicologia até o final do semestre, para que pudéssemos, além de realizar os plantões psicológicos e as demais atividades com esta equipe, irmos apropriando-nos daquele espaço, da realidade ali expressa, procurando entender um pouco mais sobre como se dá o tratamento e sobre as reações pessoais de quem necessita estar ali, para que a aproximação no momento das entrevistas ocorresse de maneira mais inteira.

Após o consentimento do Comitê de Ética, definimos dia e horário para estarmos na clínica e, após alguns encontros, demos início ao trabalho levando para este espaço personagens que denominamos como Dr. Mosquito e Dr. Palito, onde caracterizamo-nos como palhaços e carregamos instrumentos como violões, ganzás e alguns brinquedos que emitissem sons, dando ao momento essa característica diferente do comum, permeados por canções e ludicidade.

A cada momento, levando músicas que foram definidas a partir de um levantamento prévio e “sem nenhuma intenção” (perguntávamos dias antes a algumas pessoas quais eram suas preferências musicais), identificamos em cada sala que entramos o desejo que algumas pessoas tinham de expressar como foi aquele momento para elas e explicamos sobre a pesquisa, lendo o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (apêndice A) e informando sobre o cuidado que teríamos com a preservação do anonimato, caso desejassem participar.

Deixamos claro, também, que faríamos uso de gravador de áudio para que pudéssemos registrar a entrevista e retornar posteriormente com a mesma transcrita para a realização da sua autenticação pelo próprio entrevistado colaborador, seguindo assim a compreensão da quinta etapa do movimento de realização de Critelli.

Gostaríamos de destacar aqui que no Termo de Consentimento delimitamos idade até 50 anos e que os entrevistados fossem alfabetizados. Porém, devido às circunstâncias e à disponibilidade, necessitamos entrevistar pessoas que excederam essas exigências, além de registrarmos uma entrevista a mais do que pretendíamos no projeto inicial, totalizando sete entrevistados, e não seis.

Sem mais delongas, logo adiante discorreremos sobre cada entrevista, sobre os sentimentos expressos e os sentidos dados por cada participante e por nós mesmos enquanto co-participantes, traduzindo e narrando cada momento da maneira como os percebemos, assim como nos aponta Walter Benjamin (1985) ao referir-se à narrativa, ao modo como cada um de nós narramos nossas experiências pessoais e da importância de compreender que a narrativa

[...] não está interessada em transmitir o ‘puro em-si’ da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso.  (p. 205, Grifo do autor).

Expressando por esta narrativa o modo como se deu cada uma das entrevistas, colocamos as falas dos colaboradores dentro de caixas de texto para assim destacá-las, definimos, para cada, um codinome relativo ao nome de uma canção ou personagem dela, que representasse pelo nosso modo de enxergar algo em comum com o entrevistado e trazemos o nosso olhar a respeito da vivência poética, inusitada, lúdica e emocionante que nos envolveu e nos chamou a estar verdadeiramente ali, vivenciando tudo com amor, prazer e sensibilidade, em uma relação que não se configurou apenas para dar conta da finalidade do nosso trabalho, mas que se estendeu à um modo de estar-com denominado por Martin Buber (1979) como relação “eu/tu”.

6.1 Primeiro ato

Ao chegarmos no local onde realizamos a entrevista, estávamos munidos de dois violões e de bolsas com os materiais lúdicos. Estávamos um pouco apreensivos por ser a nossa primeira entrevista, todavia, este não seria o único fator, além disso era a primeira vez que estaríamos naquele local levando a música, vestidos de palhaços, ou como dizem os doutores da alegria, de “besteirologistas” (DOUTORES, 2006, 17m12s).

Nos encaminhamos para a sala de psicologia para que pudéssemos organizar as coisas. Na sala se encontravam a psicóloga do local e duas colegas de estágio, nesse momento estávamos tentando descontrair os nervos que estavam a flor da pele, pois nossos corpos estavam presentes mas as nossas mentes estavam carregadas de um turbilhão de pensamentos que geraram uma certa tensão. Afinamos os instrumentos, passamos o som e nos caracterizamos com alguns materiais como jalecos, narizes de palhaço, matraca, pandeiro, buzina, gravatas e um par de óculos gigantes.

[IMAGEM]

Por fim, fizemos uma previa seleção de qual sala iriamos, optando pela que consideramos mais viável ao momento que nos encontrávamos devido ao menor número de pacientes e ao repertorio que trouxemos, para que pudéssemos dar conta das eventuais demandas que surgiriam nesse primeiro encontro.

E assim fomos, cantando pelos corredores e cumprimentando as pessoas que encontrávamos. Devido ao nosso estado eufórico emocional nos direcionamos imediatamente para a sala escolhida. O nosso sentimento? Acreditamos que seria insegurança, medo. Assim como o medo trazido por Lenine na canção intitulada Miedo:

Medo de olhar no fundo
Medo de dobrar a esquina
Medo de ficar no escuro
De passar em branco, de cruzar a linha
Medo de se achar sozinho
De perder a rédea, a pose e o prumo
Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo
Medo estampado na cara ou escondido no porão
O medo circulando nas veias
Ou em rota de colisão
O medo é do Deus ou do demo
É ordem ou é confusão
O medo é medonho, o medo domina
O medo é a medida da indecisão.
(Miedo, Lenine e Julieta Venegas, 2006, faixa 10).

Apesar do “medo de cruzar a linha” entre corredor e a sala, batemos na porta e, autorizados, adentramos e nos deparamos com olhares atentos e feições de surpresa, curiosidade e a sutileza dos sorrisos que expressavam. Cumprimentamos um por um nos apresentando com os nossos codinomes e fizemos brincadeiras breves com uma das colegas que nos acompanhava. Nesse meio tempo percebemos que a porta da sala estava amontoada de profissionais da clínica que, assim como os pacientes, transpareciam curiosidade em saber o que é que se passava ali. Conforme ao que nos dispomos, começamos a cantar o repertorio que definimos para aquele dia. Por se tratar de um acolhimento inicial, a música “Faz Um Milagre Em Mim” de Regis Danese foi escolhida para ser a primeira pelo fato de se apresentar enquanto possibilidade reflexiva da aproximação espiritual com o Divino, representando força, fé e motivação para vida. A segunda música, “Gostoso Demais” de Dominguinhos, está diretamente relacionada ao contexto sociocultural da região (o forró), e foi escolhida para além dessa representação, tendo em vista a melodia serena e a sensibilidade que transparece. Assim, cantando e deixando-se envolver pela energia harmoniosa que o espaço nos proporcionou, pudemos ver as reações de cada um e ao concluirmos, revelamos e explicamos sobre o nosso trabalho, convidando os presentes a colaborar conosco relatando quais foram os sentimentos mobilizados naquele encontro. Diante disto traremos a baixo o relato da participação do seresteiro.

6.1.1 O Seresteiro

Desde que entramos e começamos a cantar, percebemos que o seresteiro participava sorridente daquele momento, olhando atentamente tudo o que acontecia e cantando alguns trechos das músicas. Logo, a sua disponibilidade em contribuir conosco foi imediata.

Entrevistadores: Diante desse espaço, desse local que nós estamos, queríamos saber do senhor o que veio na sua cabeça, o que sentiu, quais são os seus sentimentos nesse momento e o que a nossa presença implicou nesse espaço?

Seresteiro: a gente vê um momento de descontração. Porque apesar de estarmos aqui em um local meio trancado, tem a televisão não é? Então quando chega um negócio diferente feito uma música que, é como diz, alegra o coração, então, quer dizer, muda até o clima não é? a gente se sente até animado. Eu mesmo da minha parte fiquei muito contente com essa atitude de vocês, que vocês trouxeram, foi, bem animador mesmo pra mim.

Entrevistadores: E quando a gente entrou ali por aquela porta de palhaço o senhor sentiu o que na hora?

Seresteiro: Aí a gente sente aquele impacto, e um impacto positivo né? isso é bom.

Observamos que, diante do que foi exposto pelo colaborador, pode-se sobressaltar o fato de ter associado a nossa presença inicialmente ao sentimento de descontração, tendo em vista as características peculiares daquele espaço no qual estávamos inseridos.

Quando pensamos na divisão da palavra descontração, encontramos nesta a representação de algo que estava contraído, semelhante ao movimento de um musculo contraído por algo que o tenciona, como uma situação que exija essa tensão, tal qual trabalho, estresse, frio e outras, e a partir de um dado movimento fenomênico este algo se des-contrai de uma maneira que se des-tenciona.

Fazendo esta analogia lembramos que, no momento em que ocorria o nosso encontro e a entrevista, a sala apresentava uma temperatura razoavelmente fria, devido a contensão da proliferação bacteriana. Além do clima relativo a temperatura, havia o “clima” naquele ambiente no que se refere as representações dali para cada um.

Assim, ao adentrarmos com esse movimento que foge a dinâmica do dia a dia do tratamento da hemodiálise, pudemos desvelar outras representações que desconstruíram o “engessamento” das anteriores, descontraindo o ambiente.

Nesta outra possibilidade de dinâmica a partir da música, a experiência do canto, segundo Sá (2007) citado por Arndt e Volpi (2012), dão possibilidades de viver intensamente aquele momento, dando condições do ser resgatar a sua história no passado e poder também ressignificar o futuro. Portanto, percebemos mais à frente da entrevista, que nesse encontro de resgatar a história, o seresteiro identificou-se não só com a música mas também reviveu a sua realidade de ser um instrumentista, rebuscando a sua história de um tocador de serestas.

Mais adiante, ao referir-se no seu discurso ao local como sendo um espaço onde se percebe “meio trancado”, compreendemos o estar trancado como um impedimento ao cotidiano anterior a condição de adoecimento, ou seja, quando havia a possibilidade de não depender de estar ali para estar bem. Dessa forma, meio trancado significa que as portas estão abertas, porém, a condição de viver depende do tratamento.

Estar impedido no seu cotidiano por conta da enfermidade para a daseinsanalyse, de acordo com Barreto; Morato; Caldas (2013), sabendo da condição que o ser é lançado no mundo e está aberto as possibilidades, quando se encontra do-ente limita-se apenas a sua condição ôntica, sente-se limitado ou restrito a liberdade. Contudo, estar restrito a tal liberdade não quer dizer estar restrito a existência, mas sim, estar aberto a uma nova possibilidade de ser.

Entrevistadores: E nesse momento se perguntarmos ao senhor, o que o senhor está sentindo agora, depois desse movimento todo?

Seresteiro: Ótimo! [...] depois da música né? A música é universal. E a música alegra demais. Eu particularmente gosto de músicas de serestas, essas músicas que não tem segundo sentido, essas coisas que alegram o coração, que tem letras, é bom demais. Afinal de contas eu também toco né? [...] vivia de música...

Entrevistadores: Então, quer dizer que o senhor também se encontrou na música não é?

Seresteiro: Também, é bom demais. Ai a gente fica...(Risos) é como se diz: a pessoa toca, outras vem tocando, aí a gente diz: Eita! Estou dentro do grupo.

 

Encontramos nesse ponto da entrevista a característica universal que a música apresenta, podendo ser compreendida como linguagem, como modo de expressão dos sentimentos através dos sons e entendida quanto ao que foi expresso em qualquer parte do mundo, independente da língua falada. Portanto, quando fala que a música é universal, o seresteiro nos revela que o que se expressa nela é compreensível em suas nuances em qualquer lugar.

Em seguida nos traz o seu sentimento de bem estar e destaca que possui afinidade musical com a seresta, que “alegra o coração” com o conteúdo que expressa em suas letras. Assim, revela-nos o seu envolvimento profissional com a música que em outrora foi mais presente e, ao ser questionado sobre “encontrar-se” na música, exprime a sensação de estar acolhido ao dizer “Eita! Estou dentro do grupo”.

Por encontrar-se na música, nas serestas e, atualmente, na limitação de não poder conduzir a sua caminhada noturna com essa velha companheira, trouxemos abaixo um trecho da música “Seresteiro das Noites”, com o intuito de explicitar o sentido de tê-lo nomeado “Seresteiro”.

Meus cabelos estão grisalhos
Do sereno das madrugadas
Meu violão velho num canto
Já não faço mais serenatas
Abraço o calor do sol
Choro quando vejo a lua
Parceira das canções lindas
Que cantei na sua rua

Fui seresteiro das noites
Cantei vendo o alvorecer
Molhado com os pingos da chuva
Com flores pra lhe oferecer
(Seresteiro das Noites, Amado Batista, 1985, Faixa1).

As canções... são conversas com o passado ecoando no presente, velhas companheiras da memória que caminham ao seu lado, ainda o tocam quando são tocadas e mutuamente tornam-se um, quando desse encontro nem o tempo é contra, apesar de agora sentir que já não são os mesmos.

6.2 Segundo ato...

Depois de vivenciarmos a experiência da entrevista anterior, nos preparamos um pouco mais, criamos algumas situações lúdicas no intuito de estabelecermos uma relação um pouco mais segura e, na verdade, poder termos algo em que “agarrar” para amenizar algumas inseguranças que tivemos anteriormente.

Ao chegarmos na sala de psicologia nossa preceptora sugeriu que iniciássemos o encontro já desde a recepção, tendo em vista a necessidade dos pacientes participarem e serem acolhidos coletivamente desde a chegada. Assim, após organizarmos o figurino, realizarmos um breve aquecimento e definirmos para qual sala iriamos, nos lançamos cautelosamente e, agora, com mais disponibilidade afetiva.

Na recepção se encontrava uma grande parte dos pacientes e seus acompanhantes que chegavam para o 3º turno. Embalados pela melodia cantarolada de tico-tico no fubá, procuramos nos misturar aos que ali estavam e, mais inusitadamente ainda, os pacientes começaram a brincar, dançar e alguns até interagiram diretamente conosco. Daí em diante, ao passo que os alto-falantes e a equipe anunciavam as salas que já estavam prontas para recebê-los e íamos sendo tomados pelo sentimento de impulsividade, improvisamos trens a partir de filas e, cantando e dançando, desembarcamos os “passageiros” nas suas devidas salas. Apesar daquele momento ter sido encarado com tanta leveza, nos víamos às vezes encurralados pelas situações inesperadas: alguém que passasse entre a gente, as piadas bem humoradas e de duplo sentido que também surgiram e outras coisas. Assim, por mais que estivéssemos “protegidos” pelas personagens que representávamos, o ser palhaço é, acima de tudo, o ser si mesmo.

O palhaço é uma exacerbação de você mesmo. [...] não deixa de ser suas características. [...] O palhaço [...] traz o interno e bota isso pra fora. Então as pessoas podem pensar: ‘Pô, ser palhaço então é muito fácil, porque basta você ser’. Mas ser palhaço é dificílimo (DOUTORES, 2006, 40m57s).

Dessa maneira, quando todos já estavam acolhidos e nos percebemos disponíveis, seguimos para a sala e do vitrô da porta olhávamos para dentro, percebendo o movimento de cada um e sendo também percebidos, pois não esperavam que estaríamos ali. Abrindo-a, fizemos a seguinte sequência:

Em uníssono - Dr. Mosquito (Carlos): Boa tarde!

  Dr. Palito (Laécio): Boa noite!

Nos entreolhamos...

   Dr. Mosquito: Bom dia!

   Dr. Palito: Boa tarde!

Novamente nos entreolhamos...

   Dr. Mosquito: Boa noite!

   Dr. Palito: Bom dia! Mas, pera aí, que horas são hein gente?

   Membro da equipe: Meia noite! (sorrindo)

   Dr. Mosquito e Dr. Palito: Aaaaaaahhh... boa noite!

Juntos...   Dr. Mosquito: Podemos entrar?

   Dr. Palito: Podemos sair?

E assim demos continuidade a esta breve “apresentação”, esbarrando um no outro na entrada, pois levamos em consideração que a porta “[...] é uma moldura, e ela tem uma dramaticidade incrível [...]. Então, a porta não pode ser relegada” (DOUTORES, 2006, 16m40s). Dentro da sala, começamos a tocar. Além das músicas levadas na entrevista anterior, acrescentamos a música “É Preciso Saber Viver” de Roberto e Erasmo Carlos, tendo em vista que algumas pessoas sinalizaram anteriormente o gosto por este tipo de música, inclusive uma das duas entrevistadas desta sala. Iremos agora trazer o nosso olhar sobre as entrevistas realizadas com a Navegante e a Velha.

6.2.1 A Navegante

Retomando aquele momento em que trazíamos os pacientes nos “trenzinhos”, em um deles estivemos cantando e dançando com a Navegante e seu esposo e percebemos nela bastante entusiasmo, pois participou ativamente e com muita espontaneidade nessa ocasião. Quando estávamos tocando e cantando, na sala pudemos observar ainda que ela estava muito emotiva, pois a cada música que esteve cantando conosco os seus olhos frequentemente transbordavam de emoção. Deste modo, quando informamos sobre a pesquisa e perguntamos quem poderia participar, a Navegante logo se dispôs a contribuir.

Entrevistadores: Nós queríamos saber da senhora o que é que despertou, o que foi que a senhora sentiu? Quando nós estávamos aqui, vimos que a senhora se emocionou bastante, não foi?

Navegante: Sim, porque nós estamos nesse tratamento, é uma coisa... Eu acho muito delicada. A gente precisa realmente de assistência, de pessoas que possam vir ver a gente, conversar, trazer palestra como vocês se apresentaram, traz um pouco de alegria pra gente, porque [...] nós somos oito ou nove, é como uma família isso aqui.

[...] Acredito que já fazem uns oito, nove meses que eu estou aqui. Coloquei esse cateter. O médico já fez uma cirurgia aqui (aponta pra o braço, fazendo referência a fistula), não deu certo. Foi fazer uma segunda cirurgia pra colocar uma prótese, também não deu certo. Olhe, sofrimento pra gente [...] Aí, não é dolorido? É, mas todo dia eu digo que estou entregue nas mãos de Deus e é feita a vontade dele, e que (chorosa) eu não ando triste em casa. Em casa eu procuro me comunicar bem com os meus familiares, e procuro viver o dia de hoje, que o dia de amanhã só pertence mesmo a Deus, não é isso?

[...] Isso aconteceu comigo quando eu me operei da tireoide. Ela já tinha prejudicado meus rins, então minha médica que [...] cuidou de mim durante 7 anos [...] me pegou de surpresa. [...] Disse: “a senhora a partir de hoje tem que fazer hemodiálise”, ai eu: “Está certo doutora!”. Vamos lutar pela vida enquanto nós estamos aqui não é?

[...] Antes disso eu tive um problema muito sério, chamado herpes. [...] Pensavam até que eu ia falecer, de tão debilitada que eu fiquei. Eu dizia a meu Deus e a Nossa Senhora, minha mãe Maria Santíssima, dizia: “minha mãe, se a senhora achar que eu devo partir, que chegou a minha vez, esteja em suas mãos, mas eu ainda queria ficar um pouco, porque eu quero ver minha neta, que eu crio, formada, casada, fazer a vidinha dela antes de ir embora.”

No relato pudemos observar que a entrevistada trouxe inicialmente a questão do emocionar-se diretamente ligada à delicadeza que credita ao tratamento, enfocando na necessidade de uma assistência que possa dar um suporte para além do trivial, no sentido de poder estar ali envolvido em um diálogo, ou seja, alguém que não esteja ali apenas para exercer um cuidado que se demonstre na prática como sendo especificamente mera obrigatoriedade da ordem do ôntico.

Nesse sentido, acreditamos que o cuidado aí demandado está associado ao modo de cuidado pre-ocupado, que remete à condição existencial de ser-com, que se disponibiliza verdadeiramente a estar com o outro na experiência das relações Eu-tu, “[...] através das quais nos realizamos como seres humanos” (RAMON, 2010, p.) Assim como foi posto por Heidegger, o cuidado existencial do qual falamos é experienciado pela solicitude, onde “[...] a reflexão cai sobre o modo como eu me coloco diante do cliente [...]” (BARRETO; MORATO; CALDAS, 2013, p. 96).

Percebendo certa abertura no envolvimento diante do que vinha expressando, a Navegante falou sobre o período de internação e as dificuldades enfrentadas no processo de adaptação fisiológica ao tratamento onde, após alguns procedimentos cirúrgicos sem sucesso, a dor (afetiva) das limitações tornaram-se mais intensas, percebida quando traz na sua fala a condição de sofrimento.

Diante do enfrentamento à condição do adoecer, exprime constantemente a presença da Fé como uma segurança de que qualquer coisa que possa acontecer estará sobre os cuidados de Deus: “[...] mas todo dia eu digo que estou entregue nas mãos de Deus e é feita a vontade dele”.

Nesse contexto, compreendemos que a fé é uma possibilidade de encontrar momentos que tragam segurança e força, pois

[...] é um fenômeno pessoal e exclusivo do sujeito que crê, vinda de áreas profundas de seu inconsciente, e é impulsionada pelo numinoso, independentemente da vontade. Logo, ela não é senão um fenômeno psicológico, embora seja transcendente e tenha sua origem primordial no divino (PEREIRA, 2003 apud PEREIRA 2008, p. 8-9).

O momento que se desvelava propiciou a Navegante entrar em contato com a lembrança do dia em que recebeu o diagnóstico e que precisaria iniciar imediatamente o tratamento dialítico. Com muita emoção, expôs o ocorrido e a necessidade que sentiu de enfrentar aquelas circunstâncias, retratando que anteriormente havia lutado com outra condição de adoecimento que quase a levou a óbito e que o desejo de acompanhar seus familiares e, em especial, a sua neta deu forças para seguir em frente.

Percebendo as dificuldades encontradas nessa relação entre o sujeito e o adoecimento, acreditamos assim como Filgueiras, Rodrigues e Benfica (2011) que

[...] passar pela Nefrologia implica conhecer a vivência destes pacientes em seu estágio mais avançado da doença: a entrada em diálise, o contato diário com a cronicidade da doença, a difícil relação destes pacientes com a máquina de diálise, as marcas no corpo decorrentes do tratamento e o sofrimento psíquico acarretado pelas mesmas e o confronto com a possibilidade de morte a todo tempo (p.110).

Estar, pois, nesse local nos fez refletir sobre a vida, sobre a condição de fragilidade e finitude. Assim, diante do contexto da possibilidade de encontrar-se diante da sua finitude, a nossa entrevistada relembra algumas situações da sua vida que implicam perdas, dentre elas a perda de familiares, autonomia e vaidade, como veremos no trecho que se segue.

Navegante: Dentro de um ano perdi dois irmãos, entrei em depressão. Pense que coisa horrível a pessoa sofrer de depressão, eu nunca pensei. Fui lá pra o fundo do poço. [...] Sei que foi um golpe muito duro a gente perder as pessoas que a gente ama, ama. E assim morreu um num ano, no outro ano no mesmo mês a outra pessoa. [...] tudo era só a gente.

(Olhando atentamente para os bolsos do nosso jaleco, se deu conta da referência a psicologia, e disse): 

Navegante: E hoje mesmo, estava dizendo a minha menina, eu preciso fazer um tratamento com uma psicóloga, psicólogo, sei lá! Porque por nada eu me emociono e boto pra chorar.

Entrevistadores: Por nada?

Navegante: [...] qualquer coisa que eu sinta, uma saudade, eu vejo outra pessoa sofrendo, vejo uma pessoa chorando, eu também choro.

Entrevistadores: A senhora se coloca muito no lugar...

Navegante: Da pessoa, da situação. [...] Eu fico sentindo [...] eu já sofri tanto na minha vida essas coisas, perdas e tudo, que a gente fica emocionalmente arrasado.

Entrevistadores: Parece que a senhora é muito sensível

Navegante: Demais!

Entrevistadores: Muito bom ouvir isso da senhora, nos sentimos bem recebidos. A senhora com esse olhar acolhedor sabe? Que a gente se sente confortável, parece um abraço quando a gente olha o rosto da senhora [...]

Navegante: Eu era muito vaidosa, pintava muito o meu cabelo, ai depois que eu botei esse cateter, eu não pintei mais o cabelo. Só fui tirando os que tinha, já estou com o meu cabelo natural. Não vou mais pintar não. Não vou tirar, vou assumir a minha idade. Agora, eu fiquei triste porque eu vendia Natura há vinte e dois anos. Depois que eu adoeci, tive que mudar de bairro, ai deixei de trabalhar [...], porque como é que eu ia conseguir atender meus clientes que eu tinha, ajudar em casa e tudo. Isso também foi ruim pra mim, entendeu? Financeiramente...

Entrevistadores: Só financeiramente?

Navegante: E psicologicamente também, por que a gente conhece tanta gente boa nesse trabalho que eu fazia não é? [...] Era tanta diversidade de pessoas. Tratavam bem a gente, eu tratava muito bem também meus clientes. Ficou faltando isso também na minha vida (chorando).

Entrevistadores: Muitas faltas, não é?

Navegante: Oxe, e então! Vinte e dois anos é muito tempo não é? [...] Eu tive uma vida, minha vida não era ruim, [...] tem uns espinhos, mas também tem muitas coisas boas na caminhada. Eu deixei de vender meus produtos, mas graças a Deus nunca me faltou o pão de cada dia não, e Deus não vai deixar faltar nunca.

Nesse ponto da entrevista, percebemos a quantidade de faltas que emergiram ligadas as mortes dos seus irmãos e ao trabalho, que teve também como consequência o seu afastamento por conta do adoecimento e das cirurgias para o tratamento renal.

Revisitando Carlos Rodrigues ([2013]) e Terezinha Campos (1995) e fazendo uma ligação à história da Navegante, compreendemos que anteriormente ao período de hospitalização ela percebia-se como um ser autônomo, ser produtivo responsável por suas decisões, sem depender de outras pessoas para realizar as suas atividades de vendedora. Contudo, após o seu adoecimento e as cirurgias as suas possibilidades foram se tornando limitadas.

O adoecer para Boss (1981), citado por Cerbone (2013), relaciona-se a condição de estar mais próximo da morte, provocando um sentido de angústia a partir da tomada de consciência da finitude do corpo e mente, ou de ser-para-morte, que

[...] traz a morte mais para perto, não ao apressar meu firmamento, nem ao excitar um desejo por isso ou qualquer coisa assim, mas ao imprimir em nós nossa condição de sempre sermos mortais. (p. 97. Grifo do autor).

Após trazer toda a experiência de adoecimento, a morte, como vimos, está próxima a essa condição e diante da sua percepção de estar diante de sua finitude, lembrou-se das pessoas que já se foram, os seus irmãos.

Sensibilizada por tantas condições em que encontrou-se com dores e perdas, percebemos que situações envolvendo o comprometimento da saúde de outrem fazem com que a Navegante se emocione. Compreendemos, nesses momentos, que a sua relação com o emocionar-se ocorre pelo fato de ter experienciado várias complicações na sua saúde, relembrando sua história e identificando-se com o outro onde a dor estiver presente. 

Em seu olhar, nos atentamos ao seu acolher e colhemos dele as expressões a cada minuto. Assim, nos implicamos de uma forma: [...] Que o teu afeto me afetou é fato [...] (TEATRO MAGICO, 2003, faixa 17), nos afetou, nos incomodou e ao mesmo tempo, nos aproximou. A entrevista, então, prosseguiu...

Navegante: [...] todo dia os meus filhos estão todos ao meu redor. Nunca me abandonaram, nunca. E eu agradeço muito a Deus por isso.[...] Mas no final das contas, na nossa velhice é que a gente vê o que é uma família. Nem tudo está perdido.

Entrevistadores: Quer dizer então que essa emoção da senhora a fez refletir sobre tudo isso, sobre família, sobre sua história com os seus irmãos não é? Sobre o momento atual de estar fazendo esse acompanhamento, na luta pela vida, não foi isso mesmo?

Navegante: Foi. A gente sempre refletindo das coisas boas. A gente não se deve pensar: “Ah porque eu já passei por isso”. Não, vamos pensar no melhor, vamos pensar no dia de hoje. Amanhã é um outro dia. A gente tem que ver o hoje, o momento, isso é todos nós. Viver hoje, amanhã só pertence a Deus. E o que passou, passou! Não volta mais.

Entrevistadores: E a senhora aí emocionada, recordando da sua história.  O que faz, e o que não faz. E o seu companheiro, seu marido, parece que ele é muito próximo da senhora. Nós vimos que ele veio lhe acompanhando.

Navegante: É! “Velhinho” também já fez umas bobagens, mas a gente nunca se separou. Quarenta e seis anos de casado já, mas, você sabe que não tem homem cem por cento. Olhe, quem botar isso na cabeça está rasgando a boca.[...] Ele já namorou, mas a gente que quer viver, que casou pra viver com a sua família em sua vida. Imagine-se pensando: “Não, namora rapaz, volta pra casa.” É assim. Pronto ele já namorou, namorou ai. [...] Passou muitos anos, depois ele deixou, e pronto! E a gente vive em casa e hoje, me dá a maior assistência. Me traz pra aqui e vem me buscar, e é assim! [...] Mas está bom, minha vida... não é? Posso fazer nada!

Entrevistadores: Acima de tudo a senhora está vivendo né?

Navegante: Não é?! Estou lutando viu?!  E quando o doutor disser assim: “vai fazer a cirurgia na perna, tem que fazer”. Ora, se eu tenho que fazer, então eu vou enfrentar, não é? Entregar na mão de Deus, Nossa Senhora que é minha mãe, que é mãe de todos nós... Nossa Senhora. E Deus também está do nosso lado, nos protegendo, nos guiando. E, vamos tocar o barco!

Nesse último trecho da entrevista podemos perceber a importância que a família tem para a nossa entrevistada e, na verdade, nos falou em outro momento que sempre esteve muito próximo de sua família desde que morava com seus pais e irmãos na simplicidade de outrora. Assim, o fato de não poder ter tido filhos fez com que a mesma adotasse duas meninas e um menino, que hoje estão sempre próximos e que dão assistência constante, destacando a importância de tê-los por perto, especialmente na velhice, pois, para ela, “[...] na [...] velhice é que a gente vê o que é uma família”.   

Com as emoções despertadas no encontro a entrevistada pôde refletir sobre as situações que fazem parte da sua vida, mas expressou um maior desejo em refletir sobre as coisas boas e importar-se com o presente, com o que vive no dia-a-dia, tendo em vista que de nada adiantaria pensar em como seria o amanhã e, muito menos, pensar no que já aconteceu, pois não há mais o que alterar. Esse modo de pensar sobre a vida nos remete ao modo de pensar da Gestalt que, atrelada à fenomenologia, considera que

[...] todo o passado e todo o futuro se redundam a um e somente um momento: o presente. Não temos como agir no passado – mas somente nos ressentir ou vangloriar no presente. Não temos como agir no futuro – mas somente esperar ou nos prepararmos no presente. Assim, embora tanto o passado como o futuro tenham uma importância relevante, não podemos nos dispersar neles. Não vivemos no passado e não vivemos no futuro. Por isso, a importância de permanecermos onde e quando efetivamente estamos: no aqui e agora [...] (RODRIGUES, E., 2011, p. 58-59).  

Ela ainda falou sobre algumas situações que passou com o marido e que envolviam traições, mas que o fato de ter feito a escolha de tê-lo ao lado fez com que mantivesse o relacionamento, encontrando nele hoje um apoio para o enfrentamento dos impedimentos que agora está submetida. A vontade de vencer e a força é presente nas suas afirmações e mostra-se disposta a enfrentar o que for preciso para isto. Assim, a Navegante segue tocando o barco da vida...

Quem bater primeiro a dobra do mar
Dá de lá bandeira qualquer, aponta pra fé
E rema

É, pode ser que a maré não vire
Pode ser do vento vir contra o cais
E se já não sinto teus sinais
Pode ser da vida acostumar

(Dois Barcos, Los Hermanos, 2005, faixa 1)

E assim, esse encontro nos trouxe reflexões sobre lidar com as adversidades da vida, buscando encontrar portos seguros onde possamos ancorar e recompor-se para posteriormente içar as velas e continuar navegando, pois “a vida vem em ondas como o mar, num indo e vindo infinito”. Portanto, lançados no mar da vida demos continuidade despedindo-nos da Navegante e indo ao encontro da próxima entrevistada.

6.2.2 A Velha

No desvelar dos sentimentos despertados naquela sala, seguimos para dar continuidade ao trabalho com outra pessoa que havia se disponibilizado a colaborar conosco. Gostaríamos de ressaltar que o codinome        “A Velha” diz respeito ao momento em que ela se encontra apercebida do avanço da idade e que este modo de denominá-la indica a consciência que temos da maneira madura que enfrenta as situações da sua vida pela experiência, e não por a considerarmos “ultrapassada” ou inutilizada, como o sentido comum considera tal termo. Ela estava em uma máquina ao lado da que fizemos a entrevista anterior e acompanhou silenciosamente todas aquelas revelações. Chegado a sua vez, iniciamos com a pergunta disparadora...

Entrevistadores: Nós queríamos saber da senhora, o que é que a senhora achou desse movimento todo?

A velha: Eu achei tão bonito, tão alegre (sorriu)... É, porque sempre é difícil a gente chegar em um canto desse e ficar... alegre, não é? [...] se a gente for ficar toda vez (pausou e fez uma expressão de tristeza) triste... aí a gente... mais triste fica. E quando chega uma coisa que alegra a pessoa, a gente fica alegre! [...] a gente faz parte daquilo ali... não é?

Eu não gosto de guardar tristeza, meu neto diz assim [...] quando me vê, [...] sentada assim (expressão de tristeza novamente e continuação do diálogo): “mãe?”; oi meu filho?; “o que é que tu tem mãe?”; eu digo: Nada não meu filho, mãe só tá aqui sentada. “Então tire essa mão da cabeça, porque quem bota a mão na cabeça fica pensando”. Ele diz que não é pra botar a mão na cabeça assim não, que eu fico pensando.

Entrevistadores: E a senhora quando tá com a mão na cabeça tá pensando?

A velha: Às vezes eu penso assim... que eu... não tenho mais meu pai, não tenho mais minha mãe. [...] às vezes eu chego daqui em casa, eu digo: eu vou me deitar que eu estou... eu estou meio cansada. Aí... VT diz assim: “ô mãe, a senhora coloca minha janta primeiro?”. Pronto! Aquilo ali pra mim... passou... aquela... coisa que eu estava com vontade de me deitar. [...] eu vou empurrando, seja lá como for, e vou botar a comida dele. [...] tem o meu menino também, que ele mora longe[...] todo dia ele telefona, duas, três vezes: “mainha, se a senhora precisar a senhora ligue”. Aí o neto diz assim: “Mas pai pequeno, mãe mente pra a gente, ela diz que tá boa quando tá doente”. (sorriu)[...] Porque ele diz que eu guardo, eu escondo... quando estou doente eu escondo dele.

Entrevistadores: E a senhora esconde?

A velha: Às vezes! (sorriu). Porque ele mora tão longe... ele é assim, se o telefone tocar e não for eu... ele já tá aperreado: “Aconteceu alguma coisa com mainha VT, eu vou embora agora”. [...] Ele viaja a noite todinha...: Mas meu filho!?; “Ah mainha, a senhora não falou comigo, não me explicou tudo direitinho heim? Eu vim embora”. Mas meu filho você tem seu emprego! “E eu tenho contas a ver com emprego mainha? Emprego eu arrumo qualquer hora, e a senhora eu só tenho uma...”. Aí eu digo: é. Às vezes eu escondo mesmo, aí VT reclama.

Entrevistadores: a senhora faz diálise há quanto tempo?

A velha: Vai fazer um ano meu filho...

Entrevistadores: A senhora pensou em alguma coisa, lembrou de alguma coisa quando estava aí cantando?

A velha: Me lembrei! De quando eu era mocinha nova, quando ouvia aquelas poesia... [...] lembra muita coisa, a gente lembra de quando é novo, a gente lembra de pai, a gente lembra de mãe. Lembra muita coisa do mundo da gente, foi-se...

E tem que cantar... o povo diz que quem canta seus males espanta...

Entrevistadores: [...] o que é que a senhora acha da importância de fazer esse tipo de trabalho aqui, em um ambiente como esse, trazer a música, o palhaço, como é?

A velha: Eu acho muito bom... é pra a gente se divertir. [...] É uma diversão.

[...] Alegria... tanto pra nós que já somos de idade, como pros jovens também é bom... [...] a minha vizinha lá mesmo diz: “eu só queria que, quando um dia, quando eu ficasse doente, fosse como a Velha”. Eu digo: ô minha filha, eu não vou... me acabar não, eu fico... a gente sofre, tá certo, mas... tem que sofrer com a cabeça erguida. Se a gente abaixar não serve de nada... [...] Eu vou me reclamar? “ah não, porque... eu vivo numa maca, não sei o quê, eu vou morrer...” eu vou, que eu não nasci pra semente! [...] Um dia eu vou... agora, só que a gente nem sabe como, nem quando...e nem a hora, que Deus não disse pra ninguém, [...] A gente tem que... que ir até o dia que ele quiser. [...]enquanto eu tiver... perna, braço, eu vou andando, eu vou lutando, até...

Quando perguntamos sobre o “movimento”, o encontro, a Velha reflete sobre o ambiente no qual se encontra, tendo em vista as características mesmo que aquele espaço apresenta: “Eu achei tão bonito, tão alegre. [...] porque sempre é difícil a gente chegar em um canto... desse, e ficar... alegre não é?”.  A dificuldade de encontrar momentos de alegria dentro dali ficou bastante clara, não apenas para esta entrevistada em específico, mas para todos que pudemos encontrar e ouvir, devido à fragilidade que se encontram com as limitações impostas pela própria condição do adoecimento. Em seguida, dá ênfase a importância de sentir-se bem naquele lugar, dizendo que não é de guardar tristeza e que até seu neto, quando a vê com a mão na cabeça sentada e com o olhar vago (assim como ela representou expressando corporalmente para a gente), chama a sua atenção.

Diante do que foi exposto, compreendemos que as implicações do adoecimento podem causar comprometimento emocional no quadro clínico de quem é submetido à algum tratamento de saúde. Nesse sentido, Filgueiras, Rodrigues e Benfica (2011) nos dizem que a presença “[...] de alguns transtornos, como a depressão e a ansiedade, comuns em pacientes renais crônicos, aponta para a necessidade da intervenção psicológica junto destes pacientes” (p. 114). Mesmo tendo a compreensão de que o quadro emocional da Velha não apresenta ainda características de transtornos, podemos identificar que algumas condições a deixam “pensativa”, ou seja, trazem algum sofrimento psíquico, como o próprio adoecimento e, bastante influente ainda, a perca dos pais.

Para superar essa condição, a nossa colaboradora relata que o fato de o seu neto sempre contar com ela e incluí-la na sua vida faz com que possa ir “[...] empurrando, seja lá como for [...]”. Além disso, os cuidados que o seu filho demonstra parece servir de estímulo para este enfrentamento pois, quando trouxe no seu relato a mobilização e atenção que o filho tem para com ela, percebemos uma feição de orgulho e muito afeto, inclusive quando relata que, quando de alguma forma o filho sente necessidade de saber como ela está, em especial por saber que esconde os seus mal estares, tenta impedi-lo de faltar o seu emprego e se deslocar de onde mora até aqui, obtendo como resposta a frase  “E eu tenho contas a ver com emprego mainha? Emprego eu arrumo qualquer hora, e a senhora eu só tenho uma...”.

Quando questionamos sobre o que havia pensando no momento em que cantávamos, a Velha revelou que as músicas fizeram-na relembrar de momentos da sua juventude, da sua mocidade e da presença dos seus pais, retomando a falta que sente deles e das coisas que faziam parte do seu mundo cotidiano e que se foram.

O bem estar que sentiu diante daquele encontro era expresso constantemente por ela, inclusive quando nos trouxe o dito popular “quem canta seus males espanta!”. Isso nos faz refletir mais uma vez que, por mais presente e real que a situação seja, os “males”, o modo como enxergamos aquilo acaba sendo ressignificado, afastando o pesar que acompanha constantemente determinadas condições do nosso ser e estar no mundo consigo e com os outros.

Ao se referir sobre o nosso trabalho, a presença da música e também do lúdico enquanto expresso pela figura do palhaço, a entrevistada expressou tamanha felicidade, pois aquele momento pareceu divertido como aconteceu, ali, diante da disponibilidade, olho no olho e possibilitando um encontro entre humanos, satisfatório e único. Parafraseando Spinoza, a psicóloga Morgana Masetti nos diz no filme Doutores da Alegria que

[...] tudo o que existe são encontros e a capacidade de você afetar e ser afetado por esses encontros. Se esses encontros aumentam a minha potência de ação eu experimento a alegria. [...] A alegria [...] seria esse trabalho em cima da potência de ação (DOUTORES, 2006, 45m37s).

Essa potência de ação refere-se as condições que cada um tem de agir diante das adversidades, a forma de lidar com maior autonomia e no seu tempo, respeitando a auto-regulação organísmica e proporcionando, assim, bem estar.

Por fim, trazendo para o seu discurso a questão da morte, a Velha expressa uma certa clareza quanto a fragilidade da vida e a possibilidade de sua finitude, pois não nasceu “pra semente”, ou seja, para ficar para sempre e perpetuar-se infinitamente. Para Boss (1981) a morte “[...] é a possibilidade de não mais poder estar aqui, sendo que ao homem pertence, com o seu vir à vida, também a possibilidade do morrer” (BOSS, 1981 apud CAMPOS, 1995, p. 43). Dessa maneira, a Velha mostrou-se disponível a vida, pois, apesar de saber que um dia se vai, ainda não sabe quando ou como e, portanto, viverá um dia de cada vez enquanto tiver forças para lutar.

Pode falar, não me importa
O que tenho de torta
Eu tenho de feliz,
Eu vou cambaleando
De perna bamba e solta.

Nem vem tirar
Meu riso frouxo com algum conselho
Que hoje eu passei batom vermelho,
Eu tenho tido a alegria como dom
Em cada canto eu vejo o lado bom.

(Velha e louca. Mallu Magalhães, Sony Music Pitanga, 2011, faixa 1)

6.3 Terceiro ato...

No terceiro e último dia de pesquisa chegamos na clínica nefrológica um pouco mais tarde do que de costume e fomos nos organizar na “sala dos estagiários”, tendo em vista o fato de a psicóloga não encontrar-se em serviço naquele dia. Nossos ânimos estavam mistos e, apesar de estarmos dispersos e inclusive um pouco indispostos, caracterizamo-nos sem demora e mais uma vez escolhemos a sala que realizaríamos as entrevistas.

Em seguida, começamos a “aquecer” o repertório com intuito de não apenas exercitar o que pretendíamos levar para a sala, mas também para que pudéssemos entrar no “clima”. Assim, reestabelecidos e acordados pelos “acordes”, compassamos metricamente o nosso caminhar para que seguíssemos de forma harmoniosa em direção ao encontro daqueles que já estavam cuidando de si nas máquinas dialisadoras.

No caminho procuramos nos dirigir com objetividade até a sala que definimos e, ao chegar, observamos como estava a dinâmica da sala e percebemos que pela posição que a entrada ficava em relação às máquinas, a “esquete” utilizada na pesquisa anterior não teria o mesmo efeito para a entrada. Todavia, fizemos um breve trecho da mesma e logo adentramos. Cumprimentando os presentes e ouvindo desde a entrada as brincadeiras de alguns pacientes (entes ali passivos ao cuidado) dirigidas aos nossos personagens, começamos a interagir e a cantar o repertório que, além de repetir as três músicas anteriores, foi composto por mais três: “Tempos Modernos” de Lulu Santos e “Tocando em frente” de Almir Sater e Renato Teixeira haviam sido sugeridas anteriormente por pacientes desta sala. A música “Rindo à toa” do grupo Falamansa, porém, foi utilizada apenas com intuito de complementar o repertorio, pela sua popularidade e ritmo de característica regional.

Enquanto cantávamos, atentamos ao fato de que havia uma certa movimenta-ação empática e participativa que incluía tanto os paciente quanto os membros da equipe. Deste modo

Na medida, em particular, que a vivencia eminentemente compreensiva de possibilidade, e do seu desdobramento, na ação fenomenológico existencial, dialógica, hermenêutica e experimental, é, própria e especificamente, intrinsecamente, movente – moção, co-moção, emoção. Empática. Empatética, pathética [...] a vivência páthica se constitui e se configura como sentido (FONSECA, [20--?]).

Portanto, de alguma maneira a nossa provoca-ação era presente nos seus movimentos e uma atualiza-ação de novas possibilidades fenomênicas era visível. O desdobramento desta ação experimental tornou a vivência movente, comovente e emocionada, onde nossas figuras patéticas possibilitaram uma empatia indescritível, mas que naquele momento fez algum sentido para cada um e para nós.

Imaginando o desvelar de alguns sentimentos ainda não revelados, explicitamos sobre o nosso trabalho colocando-nos a disposição para ouvir e acolher os que pudessem se expressar ante aquele encontro. Para a nossa surpresa, quatro pessoas manifestaram a intenção de colaborar com a nossa pesquisa e sobre suas entrevistas, portanto, discorreremos a seguir.

6.3.1 Limitada

Limitada foi a primeira pessoa a se disponibilizar para contribuição com a pesquisa neste dia e percebemos que no início ela estava um pouco preocupada com o que iria responder, deixando-a, provavelmente, um pouco tensa na entrevista. Porém, conversamos para que ficasse tranquila e explicamos alguns pontos lendo o TCLE. Assim, demos inicio a sua entrevista:

Entrevistadores: Como foi esse momento, assim, desde que a gente chegou, que a gente entrou e foi começar a tocar, sei que a sala é grande, é bem movimentada não é? Mas, como é que foi pra você?

Limitada: Eu gostei, porque as músicas, querendo ou não, traz coisas do passado da gente não é? E a gente vai lembrando. Como do meu [...], quando, assim, eu tinha saúde [...]. E agora vem principalmente vocês que vem animar a gente. É muito bom né? A gente se sente bem. Eu me sinto bem.

Entrevistadores: [...] Despertou alguma coisa do teu passado... Não é isso?

Limitada: Isso. Assim da infância, juventude não é? muitas coisas assim que já passou.

Entrevistadores: O que foi que tu se lembrou nesse momento?

Limitada: Namorado, família mesmo, casa, trabalho também, época de trabalho. Essas coisas. Festa... tudo isso. [...] Que tem coisa assim que eu não consigo participar hoje em dia. Que querendo ou não a gente fica preso não é? Assim, não é que a gente fica preso. É que pra mim, [...] pra[...] ir pra uma festa, pra eu ser limitada [...], eu prefiro ficar em casa. Eu não sinto vontade de ir, entendesse? Depois que eu entrei na dialise...

Entrevistadores: Faz quanto tempo que você está em diálise?

Limitada: 2 anos e 7 meses. [...] Ai eu penso assim, [...] Festa, essas coisas não é mais daquele jeito. Não tem mais aquela vontade. Não é mais aquela animação.

Entrevistadores: Como é isso pra tu?

Limitada: Eu sei que não é normal. Nem assim porque, a gente não deve se prender a isso, a esse tratamento, essas coisas mas, eu acho normal.

Entrevistadores: Mas, tu sente o que? É você mesma se limitar né?

Limitada: Ah, eu fico triste não é. [...] Porque você está num canto com os seus amigos, o ruim, você não pode beber aquilo que você quer, você não pode comer aquilo que os outros estão comendo. Entendeu? Ai eu prefiro ficar no meu canto.

Entrevistadores: Que mais que você lembrou, que sentiu quando tu trouxe namorado, trouxe família ai também.

Limitada: Foi! Porque, a minha família graças a Deus até hoje a gente é junto. Mas é música né? coisas que a gente lembra. Que passou a gente tudo junto. Essas coisas assim.

Entrevistadores: tu lembra de alguma situação entre vocês?

Limitada: Lembro! Final de semana na fazenda do meu irmão. Lembrei mesmo. Na hora dessa música. E aquela [...] Como Zaqueu, também eu gosto muito porque antes de adoecer, frequentava a igreja evangélica. [...] Ai essas músicas assim, me tocam muito. Música gospel [...] eu gosto de tudo que vocês cantaram. Só que a gospel e essas assim, são as que eu escuto mais [...].

Entrevistadores: E ficou passando o que pela tua cabeça quando nós estávamos cantando essas músicas?

Limitada: [...] Que, hoje a gente continua do mesmo jeito só que não é! Pra mim não é da mesma forma que era. Mudou porque muda, querendo ou não muda. [...] Eu tenho uma vida normal, só que, muitas coisas eu evito até pra eu não me prejudicar.

Entrevistadores: queríamos saber de você, quando você soube desse momento que estava acontecendo aqui, qual foi o teu sentimento?

Limitada: Assim, eu gostei muito porque, não é todo mundo que faz isso, porque muita gente tem até receio de ficar assim com a gente, de conversar, entendeu? De falar. Muita gente tem. E vocês não. [...] 2 anos e 7 meses, é a primeira vez que eu vejo uma pessoa animando aqui a clínica, que eu vi [...].

Entrevistadores: E qual a importância desse trabalho que você acha em um ambiente como esse?

Limitada: Eu acho lindo né? [...] Não tem nem palavras pra dizer uma coisa dessa. Vocês chegaram [...] pra ver a felicidade da gente né?

Entrevistadores: Diga um sentimento que você definiria esse momento

Limitada: Amor [...] eu acho que é um sentimento de amor não é? Ao próximo [...] Porque se vocês não gostassem vocês iriam fazer? Tanto faz se a gente está alegre, está cantando ou não. Outra pessoa, entendeu?

Entrevistadores: Você queria dizer mais alguma coisa sobre tudo, o momento, o que despertou, e sobre o pensamento de agora no momento?

Limitada: Que eu estou feliz. Porque, eu ia relembrar isso hoje se vocês não estivessem vindo cantando? Eu não ia nem pensar. E vocês chegaram, ai veio o pensamento. Tanta coisa que às vezes a gente nem procura lembrar.

Feita a pergunta disparadora, a Limitada nos conta que gostou do momento, sentiu-se bem. Fez uma referência na qual a música traz lembranças da sua vida, evocando o seu passado, quando “tinha saúde”, da sua infância, adolescência, do namorado, casa, trabalho, festa. Ligou essas memorias as coisas que não poderia mais realizar por conta da limitação da doença.

O ser, lançado nas possibilidades da sua existência, traz consigo toda uma carga de experiências das relações de ser-com nas quais participou ativa e passivamente. A música e o cantar, são como fenômenos que ativam no aqui agora o ato de recordar-ações de situações vividas no passado, possibilitando um resgate que por vezes vem a ser re-significado ou apenas re-vivenciado no presente. (MILLECCO, MILLECCO e BRANDÃO, 2011 apud ARNDT e VOLPI, 2012).

Além de recordar-ações, a narrativa cantada, declamada ou apenas instrumental

[...] pode facilitar a produção de sentido; a expressão narrativa pode minorar o sofrimento tanto físico quanto psíquico; a narrativa através da música pode ajudar o paciente a atenuar a realidade; e, por fim, a interação musical entre terapeuta e paciente pode levar este último à compreensão de aspectos necessários para minorar seus sofrimentos, sejam da ordem que forem. Assim, poder-se-ia concluir que a narrativa musical pode facilitar a expressão de conteúdos e sentimentos de um paciente, produzindo significados, levando-o ao alívio de tensões provocadas pelos mais diferentes tipos de sofrimentos. (BARCELLOS, 2009, apud ARNDT E VOLPI, 2012. p.32).

Sendo assim, é notória a relação da facilitação da produção de sentido que a música poderá trazer, além de poder ser utilizada como uma possibilidade na terapia para a amenização de seus sofrimentos e facilitar a expressão do paciente na relação do paciente/terapeuta.

Através da música, a entrevistada recordando-se do seu passado, trouxe para o seu presente as novas configurações. Revelou seu sentimento de tristeza perante as limitações da enfermidade, e as mudanças que ocorreram. Lembrou-se também de momentos nos quais sentiu-se feliz, como: na fazenda do seu irmão por conta da música “Gostoso Demais” de Dominguinhos, e da igreja por conta da canção “Como Zaqueu” de Regis Danese.

Por fim, quando fora perguntada sobre o seu sentimento naquele momento, revela que gostou bastante e o definiu como amor, pois nós nos disponibilizamos a estar lá por amor ao próximo. Para ela, o sentimento é de que não estávamos ali apenas para cantar, mas sim para acolher a sua experiência pessoal, diferenciando-nos de algumas pessoas que parecem ter receio de se aproximar e se disponibilizar à um diálogo, pois para eles “[...] tanto faz se a gente está alegre, está cantando ou não.” Portanto, por nos disponibilizarmos afetivamente a estar naquele encontro, trazemos um olhar preenchido por sentimentos, e não um olhar vazio, pois compreendemos que “[...] qualquer pessoa numa situação de paciente quer ver um olhar vivo. Pode ser triste, mas tem que ser vivo (DOUTORES, 2006, 76m58s).

Estarmos ali nos fez pertencermos àquele encontro, buscando no olhar da Limitada a essência daquilo que ela gostaria de trazer naquele momento e nos fez sentirmos leves e dispostos a continuar as entrevistas naquela tarde. Por este trilhar da caminhada na entrevista, identificamos no trecho da música a seguir uma possível expressão da condição de limitação que se encontra a nossa entrevistada:

Limitado
Hoje eu acordei com a estranha sensação de estar castrado
Limitado, limitado, limitado
E a impressão de que algo nisso tudo
Tá errado

(Limitado. Tianastacia, 2001, faixa 3).

6.3.2 Sertanejo

Desde a nossa entrada na sala até o momento em que cantávamos cada música, circulando por todos os lados e tentando encontrar cada um que estava ali a partir do olhar, percebemos a afetação do Sertanejo, cantando trechos de algumas músicas e nos cumprimentando com um “joinha” a cada vez que passamos por perto da máquina em que estava realizando o tratamento. A sala era grande e haviam pacientes em todas as máquinas, alguns mais recatados e outros mais claramente envolvidos com o que acontecia ali. Desse modo, o nosso entrevistado quando se disponibilizou a contribuir com o trabalho, antes mesmo do término da leitura do Termo de Consentimento, já foi nos dizendo:

Sertanejo: Amigo, esse trabalho de vocês tá muito importante, certo? Porque, tem trazido muita alegria pra nós. A gente vive hospitalizado, mesmo que saiamos daqui a gente volta, retorna. [...] Faz um ano, já completou um ano que eu venho fazendo esse trabalho de saúde aqui. Se vocês me perguntassem se teria alguma coisa pra falar do tratamento dentro dessa casa de saúde aqui, eu respondo que não.

Entrevistadores: [...] o que foi que o senhor sentiu ou pensou, se lembrou de alguma coisa quando a gente estava ali, tocando?

Sertanejo: Eu me lembrei muito rápido [...]. Quando eu estava com a minha saúde plena, eu era feliz e não sabia. E hoje eu sou feliz, porque de vez em quando aparece gente aqui na nossa frente como vocês [...]. Então não pense que é coisa corriqueira de se exibir diante dos pacientes não, é muito importante, é muito bom.

Que pena que a gente não pode ter essas coisas todos os dias de tratamento que a gente está aqui, num é fácil, vocês têm a ocupação de vocês, mas [...] quantas vezes vocês puderem vir, aí é que eu vou gostar mais ainda, porque preenche o nosso vazio, num é? Tá aqui, conversa com um, com o outro, mas não é como a gente tem aquela hora que a agente tem de coração, sentir, quando esta diante de uma apresentação dessa assim de vocês. Ela é diferente. Ela é muito boa. Ela preenche demais o nosso vazio. Entendeu? [...]  a poucos dias, vocês entraram tocando violão lá na recepção. Foi muito importante pra nós, eu mesmo subi aqui de alma lavada já, foi muito bom. [...] Espero que vocês retornem mais vezes fazendo esse trabalho porque vale a pena, não só pra vocês quanto pra nós pacientes.

[...]quando a gente tem saúde e qualquer coisa a gente faz, fica alegre de ter alegria de todas as maneiras, mas quando a gente está nessa situação de tratamento serio e longo, que é como vocês sabem quando vai terminar, só Deus! Quer dizer, que se aparece uma atração dessa como vocês dois, diante da gente, a gente tem que mais é ficar feliz, entendeu? Esquece problema de saúde.

Quando vocês saem daqui a gente já fica um pouco amargo, pelo gosto da gente, era pra ficar tocando a tarde inteira mas num pode, e a gente tem que entender também.

Entrevistadores: [...] nós vimos que o senhor, quando a gente estava cantando, que a gente cantou Dominguinhos... [...] Cantou uma música de Regis Danese, cantou algumas músicas né? Aquela de Almir Sater... [...] Tocando em frente [...] Mas ai nós vimos que o senhor cantava uns trechinhos, outros. Mas na música de Roberto Carlos, é preciso saber viver, nós vimos que o senhor cantou todas as vezes o refrão....

Sertanejo: É porque é o seguinte, veja bem, eu sou uma pessoa que já to com 55 anos de idade, certo? Então eu vim da roça, como menino de roça. Naquelas épocas na década de 70 era as músicas que nós mais ouvia. Era esse tipo de cantor, Roberto Carlos... Ah meu Deus! Moleque com 10, 12 anos, 13, 15 anos. [...] essas outras músicas que vocês toca, mais recente, são muito boas também, mas não é como aquelas das minhas origens. Vocês estão entendendo? [...] Agora, quando toca Roberto Carlos, vem logo na minha cabeça o passado que eu vivi né? Naquela época, daquela... Luiz Gonzaga, Dominguinhos. Um certo tempo que eu já era garoto, entendia já. [...] Quem não gosta de música, pelo amor de Deus, bom sujeito não é!

[...]Passei uma tarde bem tranquila, com a presença de vocês foi muito boa, tão boa, tão boa que vai embora, até agora, já vai ser cinco horas e a gente nem percebeu... Pra você ver como é importante, é muito importante! Vá em frente, num deixe a gente isolado aqui não, de vez em quando dê uma passadinha aqui como vocês fazem. Eu sei que vocês estão passando por seus estudos mas, roube um tempinho com esses violões e venham aqui.

Logo no início, o Sertanejo trouxe o fato de a nossa presença o deixar feliz, pois aquele trabalho ali realizado trazia uma felicidade para aqueles que estavam em diálise, tendo em vista que o tratamento é contínuo e, portanto, as idas e vindas eram constantes. Desse modo, mesmo trazendo que o acompanhamento profissional que recebia na clínica era bom e não poderia pensar em algo para reclamar, expressou que era muito importante o que vínhamos fazendo, pois estávamos “[...] demonstrando uma coisa muito interessante no ser humano [...]” e continua: “[...] a gente precisa de pessoas assim como vocês” sic. Dentro desse contexto, entendemos que o fato de dizer que precisava de pessoas como a gente não intencionou nos colocar em uma posição privilegiada, mas sim na condição de igualdade, de equiparação enquanto seres que dividimos o mesmo mundo e compartilhamos experiências individuais e, naquele contexto, também juntos.

Assumir essa postura solícita e de atitude fenomenológico existencial também nos fez refletir sobre a condição de estar ali, sobre pensar se consideraríamos aqueles momentos apenas enquanto pesquisa para um trabalho de conclusão de curso, ou se vivenciaríamos com atenção e liberdade de sermos o que nós realmente somos, olhando nos olhos sem receio de nos encher de emoção quando aquilo nos coubesse.

As músicas o fizeram lembrar-se de quando tinha saúde plena, pois era “[...] feliz e não sabia”. Assim como postulado pela daseinsanalyse, o adoecer é a limitação que o sujeito encontra diante da realização das suas possibilidades, é a “[...] restrição de possibilidades de ser, no sentido de restringir a liberdade com que alguém corresponde aos apelos do mundo na sua facticidade” (BARRETO; MORATO; CALDAS, 2013, p. 102).

Diante deste olhar, compreendemos que o Sertanejo encontra-se hoje limitado diante das possibilidades que, antes, lhe eram acessíveis, mas descobre nas pessoas que trazem consigo o desejo de se dispor ao outro condições para sentir-se alegre. Assim, a alegria 

[...] é como um rio: corre incessantemente. Parece ser esta a mensagem que o palhaço procura nos transmitir. Deveríamos participar do fluxo e movimentos contínuos, não parar para refletir, comparar, analisar, dominar, mas continuar a fluir sempre e sempre com a música (Miller, 1997 apud MASETTI, 2003, p. 37).

Deixamo-nos, pois, fluir e no diálogo que se seguiu, o nosso entrevistado falou que a nossa presença de alguma forma preenchia o vazio, e a este vazio nós atribuímos um certo significado, nosso, que podemos definir como um vazio das relações, das experiências com os outros que compartilham da mesma dor e com os profissionais que o acompanha, ou seja, experimentar o preenchimento do vazio pela própria condição do sentir-se com. A “alma lavada”, como referido por ele, foi de certo alcançada pela presença da música e do lúdico que propiciaram reflexões para além da condição de estar ali e ter que se ater somente às patologias orgânicas e lutar pela vida em um espaço que parece remeter constantemente à proximidade com a morte.

Dessa maneira, o ambiente que traz características clínicas e hospitalares é encarado como sendo

[...] um local que extrai das pessoas muita energia de difícil reposição. Assim, sobra pouco espaço para investir nas relações humanas [...]. No olhar do artista, ao contrário, o hospital possibilita aprofundar-se nas relações e vivê-las intensamente [...] (MASETTI, 2003, p. 63).

Assim, o nosso encontro possibilitou também reflexões sobre o enfrentamento do adoecer como sendo uma condição a ser observada e sentida, apropriando sentimentos de quem adoece sobre a doença e o modo como irá enxergar as limitações impostas pela fragilidade física e, inclusive, emocional. O momento em que está sendo submetido a um tratamento sério e longo, como referido pelo Sertanejo, difere do período em que com saúde parecia mais fácil ser alegre. Porém, o nosso objetivo ali não era o de varrer para debaixo do tapete a condição do adoecimento, mas sim afirmar que temos ciência do que está acontecendo e que há condições de despertar reflexões sobre aquele estado restritivo a partir do despertar de sentimentos gerados pelo encontro.

Dentro desse modo de compreender o olhar do outro sobre o seu adoecer e a característica lúdica que escolhemos e acolhemos para possibilitar tais reflexões, entendemos que lançar mão da expressividade artística, diante desse contexto, “Não se trata de negar a doença, ou o palhaço servir como um anestésico. É como se o palhaço dissesse: ‘eu percebo e reconheço o que você está vivendo. Vamos um passo além?’” (DOUTORES, 2006, 62m17s).

No momento em que retornamos para a realização da autenticação, percebemos ainda mais emoção do que na entrevista propriamente dita e, ao sentir-nos mobilizados também por aquela emoção que nos envolvia, relatamos para ele que percebíamos o quanto estava implicado quando ouvia determinados trechos da sua entrevista. Nos contou, assim, que estava percebendo a dimensão do que havia dito, o quanto aquilo o tocava e que, apesar de ser um homem “duro e forte” quando se trata de expressar o que sente, não conseguia conter as lágrimas. Trazendo no olhar e na face uma imensa alegria, disse que nunca se imaginou dando uma entrevista dessas, falando com tanta franqueza e do fundo do coração tudo o que queria dizer.

Ao final da entrevista o Sertanejo nos fala sobre ter passado uma tarde legal conosco, onde até o tempo estava passando tão rapidamente que ele nem sentiu. Assim também foi o nosso sentimento diante desse encontro, onde o relato claro e objetivo desse colaborador e, inclusive, o momento que realizamos a autenticação foram recheados de emoções e sentimentos desvelados e revelados, que possibilitaram em nós a sensação de felicidade, realização e acolhimento, mesmo diante de um contexto em que o silêncio às vezes pareça ser mais bem vindo.

Deste modo, contextualizando as suas lembranças diante do tempo em que vivia na roça, trazemos então a canção que inspirou-nos a nomeá-lo Sertanejo:

Nunca vi ninguém
Viver tão feliz
Como eu no sertão

Perto de uma mata
E de um ribeirão
Deus e eu no sertão
Casa simplesinha
Rede pra dormir
De noite um show no céu
Deito pra assistir

(Deus e eu no sertão. Victor e Léo. Faixa 11)

Diante da despedida, convidou-nos a estar junto dele e dos companheiros de sala sempre que pudéssemos, pois, mesmo entendendo nossos horários preenchidos por obrigações, nos faz o seguinte apelo: “[...] num deixe a gente isolado aqui não, de vez em quando dê uma passadinha aqui como vocês fazem. [...] roube um tempinho com esses violões e venham aqui”. Com esse convite, saímos fortalecidos daquele encontro, cheios de sentimentos e “coisas” que palavras não conseguem expressar.

6.3.3 O Caipira... Guerreiro Menino

Assim como as entrevistas anteriores deste dia, o nosso encontro com O Caipira se deu nesta grande sala, com muitas pessoas que cantaram e nos acolheram. Porém, o Caipira nos chamou bastante a atenção, pois desde o momento em que entramos ele foi o primeiro a interagir conosco dizendo descontraidamente a frase “Quem é o cantor? É tiririca!”. E assim, com o seu jeito brincalhão e descontraído, voz alta e marcante, fazia com que durante o encontro outras pessoas rissem, cantassem e participassem ainda mais. A escolha pelo codinome “Caipira: Guerreiro menino” poderá ser entendida a partir do discorrer do nosso diálogo, longo e emocionadamente marcante.

Entrevistadores: [...] A gente queria saber do senhor [...] o que é que veio na sua cabeça, o que é que o senhor pensou e o que é que o senhor sentiu, na verdade, quando a gente [...] chegou e começou a cantar?

O Caipira: Foi uma alegria pra a gente né? Isso é uma emoção muito grande que já traz... o “caba” já tá meio sofrido, e vê que chega um pra ajudar já é outra alegria maior não é?

Entrevistadores: E aí [...] a gente viu que o senhor cantou algumas músicas. O senhor é brincalhão também, brincou um bocado.

O Caipira: Ah eu gosto! Eu gostava... gostava não, eu gosto de... festa de gado, essas coisas, eu vivo disso aí. [...] quando eu entrei aqui fiquei meio triste, mas depois saí olhando... num só tem eu! Tem gente mais velho do que eu, caba novo, aí saí olhando, prestando atenção.

Entrevistadores: Faz quanto tempo que o senhor está em diálise?

O Caipira: Tá com uns três meses [...] Nunca pensei de cair numa coisa dessa. Eu pensava de morrer com um coice de burro na testa, ou uma furada de boi, uma queda de um animal, mas... é assim mesmo não é? [...] Minha luta sempre continua. E estou aqui até quando Deus quiser...

Entrevistadores: Teve alguma [...] música quando a gente cantou que... mexeu com o senhor, que fez o senhor lembrar de alguma coisa?

O Caipira: Essa mesmo de... que pega o ritmo de Luiz Gonzaga[...]

Entrevistadores: Tô com saudade de tú... (cantando)

O Caipira: De ti meu dese... eu gosto muito dela [...] dancei muito forró com ela. Aí, [...] o camarada vê também... só num é com o caba não é? Mas se fosse também... fosse um caba só, um negócio isolado assim, a tendência era o caba se acabar. E quando eu entrei aqui mesmo eu estava muito triste, eu não vivia mais não, [...] olhei pra um canto, olhei pra outro assim, eu digo: aqui é a morte! Aqui é um matador que nem um carro de boi.

Entrevistadores: [...] qual a importância que o senhor acha desse trabalho? Aqui, num local como esse a gente trazer uma música, trazer um pouco do brincar do palhaço?

O Caipira: Olhe, eu acho que isso é uma ajuda muito grande homem. [...] a pessoa fica alegre e o tempo se passa ligeiro. [...] Quando é de manhãzinha, quatro horas da manhã, eu me levantava três horas, quatro horas da manhã... [...] Tirava o leite... ainda hoje eu queria... me levanto cedo (chorando e cortando a fala)... (silêncio). Mas é assim mesmo. (silêncio e choro). Ainda hoje, quatro horas da manhã eu me levanto... não é que nem era... [...] Não é que nem era mais né? Aí eu só sinto isso, a vontade só de trabalhar, só...

Entrevistadores: O senhor sente saudade de alguma coisa?

O Caipira: [...] Sinto da minha... da minha... minha trabalhada... pra não depender de ninguém sabe? ... sinto! ...

Entrevistadores: Mas o senhor encontrou outro meio pra trabalhar... a festa...

O Caipira: Não é a mesma coisa ainda sabe?[...] Eu já tô pagando os outros por fora, e tudo isso eu fazia... Laçava, botava no caminhão, botava alguns vaqueiros... mas (chorando)... [...] As coisas são difíceis... [...] Ainda bem que eu ando, corro ainda... mas, se fosse pra tá em cima de uma cama... era melhor morrer (cortando a fala). Se pendurar num pau, morrer... pro caba num tá vendo as coisas e num poder fazer. O que eu acho ruim só é isso mesmo. Outras coisas não, outras coisas o caba vai passando, vai... o caba ver o que é o caba na mão dos outros, sem poder fazer nada... o que eu acho ruim só é isso... Essas coisas dá pra ir, tô vendo que dá pra ir levando até... quando Deus num tirar não é? Depois que tirar, acabou-se! O caba luta, luta, mas... já estava com um bocado de coisas, aí veio e apareceu isso... depois que eu comecei a ter as minhas coisas, trabalhando, trabalhando, aconteceu isso. E pra arrumar as coisas que eu arrumei num é muito fácil não. Depois de... saúde num tem mais né?[...] Eu perdi esse dedo agora a pouco, aí fica ruim tirar leite. Isso aqui foi uma cabeçada de um boi (mostrando o dedo com a ponta amputada). Levei um coice, quebrei duas costelas também, aí juntou tudo né? Tudo esse ano... [...] Nunca precisei de nada disso né, mas agora avisaram: num pode mais fazer isso, num pode fazer aquilo... aí eu vou maneirando não é? Mas antigamente eu fazia tudo, duas horas, três horas da manhã eu estava no mato lá, tirando capim, cortando “paima”... aí... de uns três meses pra cá eu diminuí e acabou-se tudo. Três meses que eu estou aqui... passei uns dois doente, de hospital pra hospital... e... acabou! Acabou o... o movimento pra mim acabou.

Entrevistadores: O senhor acha mesmo que acabou?

O Caipira: Desse ponto de vista... só Jesus viu? Peço a Jesus todo dia e... vou rebolando.

(Nesse momento chegou um copo de café e dois pães para o lanche, que estava sendo distribuído pra todos).

[...] ainda bem que eu como, brinco, brinco a vontade, vou pras feiras de gado logo na terça, quatro horas da manhã eu vou... [...] os amigos gostam de mim, eu não peço nada e eles me dão dinheiro [...] eu não quero receber, mas eles botam no meu bolso [...] num cheguei a pedir a ninguém não que eu tenho, graças a Deus. Tem de quê viver, trabalhei e agora tenho do que viver... pouco tempo mas tenho. Mas se eu passasse pra pedir ao povo aí, nas feiras de gado, em todo canto, todo mundo me dava, porque eu era montador de burro... montei muito... (choro). [...] ver um caba montar num burro assim... (choro) ... o caba se lembra... das coisas boas o caba... querer fazer e num poder fica ruim. [...] o que a pessoa gosta mesmo de fazer... mandar um caba ir fazer e num souber fazer aquilo ali... é mesmo que matar o caba... mesma coisa... num quer comparar um profissional com um caba que num sabe... tem a boa vontade de ajudar mas num faz... o caba vê, sabe fazer, faça! E num faz... Feito um veterinário [...] ... Fazer cesário, faço cesario em vaca... parto de vaca já fiz muito... cesário... abrir o bucho da vaca assim... tirar o bezerro vivo, salvar a vaca e o bezerro... e o camarada ver... ver uma coisa dessa e num poder fazer. [...] aquilo ali é mesmo... que colocar uma corda no pescoço e morrer enforcado, a mesma coisa. [...] Quem gosta de viver vagabundando, tanto faz cortar uma perna, cortar o pescoço, pra ele é uma coisa só... agora pra o caba que gosta de... de cumprir o dever é duro, é duro! [...] Eu num já me acabei porque, com muita fé em Jesus, minha esposa me ajuda muito... mas e... se fosse abandonado assim eu já tinha morrido a tempo.

A simplicidade e a clareza com que se expressou foi o que mais nos marcou em seu discurso. O Caipira emitia uma verdade poética, carregada de sentido que antes estava oculto e fora revelado. Pompéia(2010), buscando aproximar a linguagem da poiesis à verdade, une o sentido da palavra grega aletheia que é “[...] formada por um prefixo de negação (a) e por um radical (lethe), que significa esquecimento. Aletheia pode ser o ‘não esquecido’.” (p.160). Ele ainda vai mais além, aproxima a palavra Aletheia a poiesis discorrendo que aquilo que não se esquece remete ao que ainda pode ser recordado, e nessa recordação o sentido poderá ser reencontrado.

Retomando a entre-vista, quando fora perguntado o que surgiu, o que sentiu com a nossa presença, com o nosso cantar, revelou-se alegre pois diante da sua situação diz que está “sofrido” e quando vem alguém pra ajudar é “outra alegria”.

Cantando junto conosco, mostrou-se brincalhão e por vezes dizia: “bota essa viola velha pra chorar!”. Esse seu jeito parece ter total relação com a sua participação nas festas de gado, porém o tratamento pelo qual está submetido costuma deixa-lo triste. Relata, entretanto, que a “estadia” naquele lugar o fez refletir e analisar a situação, observando as pessoas mais velhas e mais novas ao seu redor na sala de diálise, concluindo assim que não estava sozinho. Diz que não imaginava que um dia isso fosse acontecer, e que esperava na verdade morrer de “[...] um coice de burro na testa, ou uma furada de boi”.

Desde o momento que chegamos algumas pessoas narraram a entrada e estadia do Caipira durante os três meses de tratamento. Nessas narrativas, a que me implicou mais - Laécio Campos - foi a de um paciente que também fora entrevistado, trazendo que a dor desse homem, na sua chegada, era lançada pra fora com um aboio, quando este cobria o rosto e, do outro lado da sala, aboiava suas dores. Essa situação me lembrou um fato que ocorreu com o cantor Luiz Gonzaga, que é melhor relatada através da narrativa, em uma entrevista, da profissional que o atendeu:

A enfermeira, que passou muito tempo cuidando do Rei do Baião nos últimos momentos de vida dele, se lembra emocionada do momento mais marcante do ‘Seu Luiz’, como é chamado por ela. ‘Seu Luiz estava muito agitado. Já estava muito tempo preso no hospital. Ele que era um homem livre. Então, eu perguntei a ele. Seu Luiz, o que o senhor precisa para ficar calmo? Ele prontamente respondeu: cantar’, relembra Maria do Socorro.

Depois de perguntar aos outros pacientes - se teria algum problema o Rei do Baião fazer a coisa que mais lhe dava prazer no mundo - a enfermeira disse: ‘Seu Luiz, o senhor pode cantar’. ‘Ele soltou um aboio. Foi a coisa mais linda do mundo. Um som forte, como ele era, mas triste’, conta bastante emocionada. Após o aboio, Maria do Socorro lembra que ele disse: ‘Vocês não me levem a mal. Sinto muitas dores e gosto de aboiar quando deveria gemer’. [06]

Nesse sentido, a profundidade com que foi relatada essa situação marcou-nos pela beleza e sensibilidade que o Caipira, assim como Luiz Gonzaga, encontrou para expressar dentro da sua realidade aquilo que já não mais cabia no peito.

Quando perguntamos se alguma música que trouxemos mexeu com ele e da importância de um momento como o que fizemos, acrescenta que já dançou muito forró com a música de Dominguinhos, mas preferiu continuar falando sobre o seu sentimento de estar ali, equiparando aquele lugar à morte, ou “[...] como um matador, que nem carro de boi.” Mais a frente conta emocionado sobre as suas manhãs de luta em que tirava o leite da vaca, e a falta que o trabalho está fazendo, ficando clara a ênfase que deu no tom de sua voz e finalizando que trabalhava além de tudo pra não depender de ninguém.

Após um comentário nosso de se referir que não estava tudo perdido, pois ele ainda poderia organizar a festa, diz que não é a mesma coisa de antes. Relatou isso muito emocionado e, colocando o chapéu no rosto no momento em que as lágrimas surgiam, disse que hoje paga pra que alguém faça o que ele costumava fazer. Levando em consideração a situação em que se encontra, nos traz que ainda tem condições de mobilidade intactas que o permite perceber-se com certa independência e que, se de algum modo acabasse dependendo de alguém para cuidar de si preferiria entregar-se à morte.

Relembra dos momentos difíceis que vem passando ultimamente, quando amputou o dedo por conta de uma cabeçada de boi e quebrou duas costelas com um coice. Se encontra agora impedido, ligando isso tudo ao fim de suas possibilidades.

Agarrado na fé, vai se segurando e diz que ainda sai de casa para encontrar-se com os amigos na feira de gado, pois sempre que precisa eles o ajudam e dão apoio. Por ser montador de burro “brabo”, sentia-se forte e fala que se emociona e relembra de si quando vê alguém montado. Faz, ainda, referência as vidas que já salvou nos partos das vacas, mas que como hoje tem que pagar pra alguém fazer, se sente incomodado por não ser do modo como ele fazia e que aquilo é o mesmo que morrer, enforcar-se, e só não o fez, não se acabou por conta da sua esposa que o apoia bastante.

A relação com o desejo de sua finitude por não estar mais trabalhando nos remete a Pompéia (2010) quando diz que a morte de um desejo ou sonho é a forma mais drástica da perda de um sentido de vida. O caipira em seu discurso quando se vê impossibilitado refere-se a morte como a única alternativa, no entanto, esta condição de morrer está atrelada ao sentido de sua vida resumir-se ao seu trabalho que o faz ser um homem digno.

No ponto em que nos referimos as festas de gado que ele promovia, intencionávamos levá-lo à uma reflexão para que ele pudesse compreender que apesar de encontrar-se limitado, ainda existem outras possibilidades de sentido e que a sua existência não para por ai. A ambiguidade entre o desejo de vida e morte nos fez lembrar um trecho da música de Raul Seixas, uma vez que percebida a finitude, talvez seja esta “o segredo desta vida”.

Vem mas demore a chegar
Eu te detesto e amo
Morte, morte, morte que talvez
Seja o segredo desta vida

(Canto para minha morte. Raul Seixas, 1976, faixa 1)

Diante dessas dores, damos continuidade ao seu relato, onde aprofunda as questões da sua autonomia e do quanto vem entristecido por já não poder fazer aquilo que tanto ama.

O Caipira: [...] hoje estou com quarenta e três anos, mas... nunca fui dependente de ninguém. Comecei a trabalhar com cinco anos... antes de cinco anos eu comecei a trabalhar mais meu pai... fazia o carvão na época... [...] O homem que trabalha num tem mais, e o que tem se acaba assim (chorando) ... o que tem se torna doente assim! (chorou novamente). É isso! [...] montar eu num posso, eu montei num carro (de boi) esse domingo. Quando foi segunda feira eu num pude nem andar... uma dor no espinhaço, as pernas doendo... num pude nem andar, num pude... acostumado a montar em burro brabo e ele saltar uma hora comigo: Pãim! Pãim! Pãim! E num ter nada... isso aí se dói no peito... é pro camarada... pensar e ter muita fé em Deus pra poder... vencer a batalha. Num pensar em Jesus primeiramente, o camarada faz besteira. [...] O fôlego, a fala, o andar, tudo pertence a ele... e o camarada tem de prestar atenção que, nós estamos aqui numa passageira, uma... é uma passagem mas é uma passagem difícil... e aí continua, devagarzinho pra nós irmos... vencendo com Deus e Nossa Senhora Aparecida... tem de não faltar coragem pra a gente fazer as coisas. [...] Agradeça a Deus quando deitar-se, e agradeça a Jesus quando se levantar. E se tem pai e tem mãe de... (cortou a fala com o choro)... Eu tenho uma menininha com 4 anos... e tenho um rapaz com vinte... num me ajuda em nada (com um tom estridente)... Eu só estou vivo em minha vida... quando minha filha me dá a bênção (choro)... eu fico mais feliz ainda... e um filho que eu tenho num me dá a benção... aí é que me dói mais ainda.

Meu pai é falecido... minha mãe é falecida... eu... sinto falta, muito, da palavra de meu pai e de minha mãe... O caba só quer saber uma mãe e um pai quanto vale é quando você perde ela. Quando você perde ela você vê uma palavra de conforto e uma palavra de uma mãe... que nem vocês estão aqui agora... é uma palavra de conforto... pra quem... pra quem sabe, pra quem agradece. [...] uma palavra de conforto ninguém sabe o quanto vale... não tem dinheiro no mundo que pague.

(Nesse momento chega uma pessoa da equipe e, tocando no Caipira diz...)

Equipe: coma seu... o senhor tá quente! Coma se não vai ficar, o café frio e o pão...

O Caipira: Nada não o... a palavra... tá melhor do que o café!

Saudoso e cheio de orgulho da sua história, o Caipira relata que trabalha desde os cinco anos de idade e que aprendeu com isso a conquistar sua autonomia, para não precisar depender de ninguém. Tentando manter a firmeza na fala, começa a dizer que hoje em dia não tem mais homens como antes, homens trabalhadores, e os que restam (falando de si) se acabam assim, doentes e impedidos de tocar a vida em frente com maior independência. Dito isto, começou a chorar silenciosamente, cobrindo o rosto com um pano e pudemos perceber a expressão de dor que se imprimia em seu rosto. A cada momento que se emocionava, acabávamos nos emocionando juntos, pois percebíamos a profundidade com que trazia a dor das perdas e das limitações que agora o acompanhavam.

Eu – Carlos – muitas vezes me peguei com os olhos banhados em lágrimas e me arrepiando quando ouvia aqueles soluços tão tristes que me apertavam o peito e mobilizava em mim uma vontade quase incontrolável de tentar consolá-lo de algum modo, mas não haviam caminhos para isto naquele momento.

Lembrando-nos posteriormente sobre a entrevista, sobre a postura guerreira do Caipira e a importância que dava ao trabalho, à autonomia e a honra de ser comprometido, com-prometido, ou seja, sentindo-se na obrigação de cumprir com o que havia prometido com alguém, consigo, palavra que trouxe por muitas vezes no nosso encontro, e também da falta que sentia da “palavra de conforto” dos pais, do “colo” da mãe, nós nos percebemos cantando a seguinte canção:

Um homem também chora menina morena
Também deseja colo, palavras amenas
Precisa de carinho, precisa de ternura
Precisa de um abraço da própria candura

Guerreiros são pessoas tão fortes, tão frágeis
Guerreiros são meninos no fundo do peito
Precisam de um descanso, precisam de um remanso
Precisam de um sono que os torne perfeitos
É triste ver meu homem Guerreiro Menino
Com a barra do seu tempo por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra, eu vejo que ele sangra
A dor que tem no peito, pois ama e ama

Um homem se humilha, se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida e vida é trabalho
E sem o seu trabalho um homem não tem honra
E sem a sua honra se morre, se mata
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz...

(Um homem também chora – Guerreiro Menino. Gonzaguinha, 1983, faixa 5).

O final desta canção, que retrata a castração dos sonhos, estes que representam a sua vida e, esta, é concebida como o trabalho, ou seja, a vida como sendo o trabalho que dignifica e honra o homem, coloca em questão mais uma vez a condição de vida e morte, do desejo de estar vivo e até a possibilidade do não desejo mais da vida do outro. Apesar de não trazer no seu relato algo referente a outrem, o Caipira se debruçou bastante diante desse contexto do morrer, como uma linha tênue entre o momento que se encontra de conformar-se ou não com suas atuais limitações.

Para manter-se firme, coloca diante de si o divino, a força de Deus e de Nossa Senhora Aparecida para guiar o seu caminho, como se neles encontrasse as palavras de conforto que lhe faltam dos seus pais. Além disso, trouxe a alegria que sente quando sua filha respeitosamente lhe pede a bênção e o grande pesar que sente quando o seu filho não o faz.

Diante do exposto, novamente – Carlos – me impliquei a refletir sobre as questões do divino que, apesar de estar no momento atual um pouco mais distante da religiosidade, mas não da fé, o relato do Caipira trazendo Nossa Senhora Aparecida me mobilizou lembranças da relação que sempre tive com a sua representação desde a infância, tendo em vista o fato de ter nascido no dia 12 de outubro e este ser o dia que representa a homenagem a esta padroeira do nosso país, dia das crianças, o dia que me faz entrar novamente em contato com a criança interior que sempre tive, com o meu lado brincalhão, palhaço e puro.

Assim, quando traz no seu relato a presença de N. Sra. Aparecida na condição de guia, fizemos logo uma associação da sua condição de homem simples, “do mato”, pensante sobre a vida montado em seu gado, burro ou cavalo à música Romaria.

É de sonho e de pó
o Destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos sobre o meu cavalo
É de laço e de nó
De gibeira o jiló
Dessa vida, comprida, a sol.

Sou caipira pira pora Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida. 2x
Me disseram porém
que eu viesse aqui
pra pedir de romaria e prece paz dos desaventos
como eu não sei rezar
só queria mostrar
meu olhar, meu olhar, meu olhar.

(Romaria. Renato Teixeira. In: Elis, 1977, faixa 6)

A última linha do trecho que inserimos desta música fala sobre o olhar. Gostaríamos de ressaltar aqui a tamanha tristeza que o Caipira expressava por estar quase cego, pois, pela condição de adoecimento, a vista hoje turva ainda tenta distinguir alguns vultos e percebemos diante disto o seu olhar, sensível, triste e marcante, um olhar profundamente expressivo.

Próximos ao final do nosso encontro, o nosso entrevistado destacou a falta dos pais e da palavra de conforto deles, palavra esta que acolhe e que dá forças para seguir em frente, e se referiu à nossa presença ali como uma palavra de conforto tal como a de seus pais, transparecendo muita gratidão: “uma palavra de conforto ninguém sabe o quanto vale... não tem dinheiro no mundo que pague” sic. Assim como ele, também expressamos o quanto foi gratificante estar ali, poder ouvi-lo, tocar e sermos tocados pela sua sensibilidade e sinceridade, coisas que, realmente, não há dinheiro nenhum no mundo que possa pagar, ou apagar da nossa memória. 

E assim, diante do tempo que vínhamos dialogando e que haviam lhe trazido o lanche da tarde, uma pessoa da equipe se aproximou para lembrá-lo que a comida iria esfriar e ao tocar nele percebeu que estava com o corpo um pouco quente, suado e com a pressão alterada. Nesse instante, nos revelou que estava assim porque ficou emocionado e, sem titubear, foi logo dizendo: “Nada não o... a palavra... tá melhor do que o café!”. Com essa expressão, compreendemos que o revelar de algo que não vinha sendo dito fez com que o Caipira se sentisse bem, pois o silêncio que vinha permeando o seu dia-a-dia foi quebrado nesse diálogo, não o silêncio de conversas cotidianas e diárias, mas sim o silêncio diante daquele adoecimento, tendo em vista que “A fala é a ruptura de um determinado silêncio” (AMATUZZI, 2010, p.22).

[...] antes de existir a voz existia o silêncio
O silêncio
foi a primeira coisa que existiu
O silêncio que ninguém ouviu
astro pelo céu em movimento
e o som do gelo derretendo.

Vamos ouvir esse silêncio meu amor
amplificado no amplificador
no estetoscópio do doutor
do lado esquerdo do peito esse tambor.

(O silêncio. Arnaldo Antunes, 1997, faixa 1).

Ao finalizarmos o diálogo e entregarmos a sua via do Termo de Consentimento, o Caipira falou com humildade: “Isso aí eu vou guardar feito um troféu em casa!”. Com essas frases tão autênticas e gratificantes de ouvir guardadas na memória, seguimos para a nossa última entrevista, mas diante do Caipira valeu a experiência, valeu o encontro e como ele mesmo disse, “valeu o boi”!

6.3.4 Anacrônico

Após a entrevista do Caipira, nos dirigimos para Anacrônico que estava na máquina ao lado. Ele nos revelou que já fez o tratamento quando era mais novo, mas conseguiu a doação de um rim compatível que foi do seu irmão. Quase vinte anos após o transplante, descobre juntamente com a equipe que o rim doado tem um tempo de vida útil e, portanto, encontrou-se com a necessidade de retomar o tratamento. Hoje, submetendo-se a diálise por mais de onze anos, traz no seu discurso a esperança de que um dia será novamente “agraciado” com outro rim.

Entrevistadores: Nós queríamos saber do senhor como foi esse momento de trazermos a música e o palhaço, a brincadeira, pra cá?

Anacrônico – Eu acho bom demais. [...], porque, é como eu estava dizendo, [...] isso é um momento que a gente se desliga. Quando vocês começam a cantar, começam a brincar a gente se desliga... Sai dessa realidade que é, a realidade da gente já é muito dura, já é muito sofrida, sabe? Aí vocês vêm com essa brincadeira, com música, é um momento de descontração, uma coisa diferente, [...] E só traz alegria pra gente.

Entrevistadores: Qual foi o sentimento do senhor quando nos viu...

Anacrônico – De alegria, de coisa boa. [...]porque assim, depois que você entra aqui, [...] em um tratamento desse, é como se você fosse um pouco esquecido, sabe? Você fica assim, como se tivesse em segundo plano. E quando vocês começam a fazer esse tipo de trabalho, é uma atenção que vocês tão dando a gente, [...] é como se vocês massageassem a gente, abraçasse. [...]E através dessas coisas, desses trabalhos é que você vê. Tem ele falando aí - (referindo-se ao Caipira)- e desde o começo, que faz pouco tempo que ele tá aqui, mas [...] ele ficava ali, do lado de lá. Aí no começo ele cobria a cabeça e começava aboiando. Aí você sente uma coisa dessa, um homem desse, que viveu, como ele disse, desde cinco anos de idade no mundo, trabalhando e se ver preso numa cadeira, lutando pela vida aqui dentro, rapaz, não é mole não! É difícil, é difícil, a realidade pra ele, tá entendendo? É muito pior do que pra mim. Eu não quero ser melhor do que ele, mas a forma como ele já fez, é muito, pra ele é muito mais doído. Foi pra mim!

Entrevistadores: Como é pro senhor?

Anacrônico – Eu que tenho, olhe! [...]trabalhava viajando, como vendedor. [...], vendendo farinha de trigo para as padarias, viajava a semana inteira. [...] quando descobri esse problema, que precisou vir pra cá, como se diz, pra enfrentar a máquina, aí foi como se o mundo desabasse. Porque é assim, eu luto com essa doença desde os meus dezoito anos, que eu fui diagnosticado com Glomerulonefrite crônica, o filtro do rim (explicando), a bactéria foi, se alojou lá no filtro e ele com o tempo ele foi parando, perdendo a função, e nessa época, [...], eu fiz um transplante, recebi o rim de um irmão meu. Passaram-se dezoito anos. Durante esse período eu formei família, eu trabalhei, como eu estava dizendo, eu trabalhei com vendas, eu casei, eu tive dois filhos sabe? Tenho um menino de quinze, tenho uma menina de onze. Nesse período que eu estava transplantado foi bom, mas aí quando o médico, [...] chegou pra mim e disse: “olhe, você tá perdendo um rim.” Virgem Maria, é mesmo que cavar o chão e me jogar lá dentro. “Não, de jeito nenhum, isso daí o senhor tá errado” (se referindo ao médico). Fui pra Recife[...]. [...] lá foi que, eu digo: eu vou procurar um médico lá. Chegou lá, que ele repetiu os exames ele confirmou o que o Doutor tinha dito aqui. Aí eu digo: “Agora danou-se.” Aí voltei pra cá arrasado. Eu não sei se vocês chegaram a ver esses cateter que bota no pescoço. [...] Eu conversei com o Doutor eu pedi a ele, [...] vamos fazer um negócio, não quero aquele cateter no meu pescoço de jeito nenhum, que eu tinha um verdadeiro pavor aquilo ali. [...] ele fez a fístula, eu passei três meses exercitando, quando começou já começou aqui no braço. Antes ainda passei um período, tentei conciliar o tratamento com o trabalho. [...] conversei com o dono da empresa, aí eu digo: Olhe, eu vou fazer terça, quinta e sábado. Aí eu vou pro terceiro turno, porque aí dá tempo eu sair de manhã de casa, fazer a praça, quando for três horas, quatro horas eu vinha pra cá. No começo ainda deu, sabe? Mas aí tem dia que a gente sai daqui acabado. Aí não deu pra conciliar. [...] a empresa me aposentou. [...] Aí com o passar do tempo, como eu estou dizendo a você, onze anos, pra completar, com quatro anos que eu estava aqui, a minha mulher foi e se envolveu com outro camarada lá, aí a gente se divorciou, entendeu? Vai juntando tudo assim sabe? Vai virando uma bola de neve. E você, é como eu lhe disse, ou você tem uma cabeça boa, ou você se apega com Deus mesmo, ou então a coisa desanda.  [...] a importância que eu vejo, o trabalho de vocês é justamente isso, se vocês for parar pra escutar cada um aqui, tem uma história sofrida, de teste mesmo, como se diz, de ter uma realidade e de repente se ver cortado, não ter condição mais de tá naquela realidade.

[...]eu me acho que, por conta de ter feito o transplante e ter passado ainda dezoito anos e tanto lutando fora, eu ainda sou agraciado, eu sou. Hoje em dia na família não tem mais doador, não tem mais como fazer, aí tem que esperar de cadáver. [...] são onze anos que eu tô lá cadastrado[...].

[...] Bom de mais, [...], a iniciativa de vocês, eu só ligo [...] esse trabalho que vocês fazem aquele, aquele trabalho que o pessoal faz no hospital do câncer...

Entrevistadores: É o doutores da alegria? É esse...

Anacrônico – Os doutores da alegria!

Entrevistadores: Nós nos baseamos neles [...] Não é o mesmo trabalho, mas a gente se inspira...

Anacrônico – aquilo ali é que é, que aquele pessoal trabalha com pessoal que é de câncer né? Doente de câncer, às vezes eu vejo o pessoal reclamando e tudo, mas a, eu digo a você, ainda tem coisa pior do que isso aqui. Aqui a gente ainda consegue, como se diz, dependendo da forma como você vai levando, dá pra você esticar..., agora e o câncer, quem tem problema de câncer? Vai pro médico e o médico diz: “Não, aqui não tem jeito não.” Como... como eu tive a minha mãe, diagnosticada desse jeito[...]. [...] aqui você ainda brinca, [...], você tem uma perspectiva de uma melhora, que é a história do transplante. Não é uma cura definitiva não, mas você tem uma perspectiva de uma sobrevida muito melhor. Você se ver livre desse compromisso de quatro horas, três vezes por semana já é uma coisa boa... [...], tendo oportunidade de fazer o que vocês fazem, de trazer uma música, de trazer uma brincadeira, [...] alivia... esse peso que a gente traz pra cá.

Entrevistadores – É um peso que, de certa forma o senhor falou com uma leveza, é como se ao mesmo tempo que fosse pesado pro senhor, como o senhor já trouxe, mas o senhor traz com outro olhar sobre isso, não é?

Anacrônico – É! Porque [...], tem um ditado que diz assim: “É vivendo e aprendendo”. [...] Quando eu adoeci minha menina tinha um ano (emocionado). Quando eu vim pra cá, pra fazer esse negócio... aí, a minha maior preocupação, o que é que eu vou fazer agora? [silêncio] Ela com um ano, o outro com cinco... aí: meu Deus do céu, o que é que eu vou fazer com essas criaturas? [...], querendo ou não, você é responsável pelo que você faz, no mundo...[...], já vai fazer cinco anos que eu estou divorciado, e todos dois moram comigo. [...] aí quando eles foram pra lá agora é a razão, o motivo, pra mim ter essa... essa, como você falou, essa leveza, esse discernimento da coisa, são eles dois, somente! Somente... eles dois, eu tenho certeza que se não fosse eles eu já tinha... já tinha desistido. Já mesmo! Mas aí eu olho pra eles, eu busco um... busco força neles, porque é assim, eu quero passar cem anos aqui, pra ver eles crescerem, ver eles terem a vida deles, entendeu? E não chegar de uma hora pra outra e... falhar, e faltar, não!

Quando iniciamos e perguntamos sobre como foi aquela vivência pra ele, anacrônico, revela a importância de desligar-se da sua realidade por começar a cantar, e traz que a sua realidade diante daquele espaço é sofrida. Diz sentir-se esquecido, e com a nossa presença e a nossa disponibilidade percebe-se acolhido, abraçado. Ressalta a importância do nosso trabalho e relembra do trabalho dos Doutores da Alegria, contando que ouviu falar deles no hospital do câncer. Se tratando de câncer, equipara condições de um paciente em dialise e o outro em quimioterapia, concluindo que o tratamento desta última possui implicações mais delicadas devido à experiência que passou com sua mãe.

No momento de autenticação da sua entrevista, ao lermos o ponto que relata sentir-se só, explicou que o sentir-se só era diante do afastamento das pessoas que faziam parte da sua vida, os seu antigos amigos. Antes, conta, que para todos os lugares que o chamavam ele ia, seja pra viajar, ir na casa de algum deles. Após o adoecimento percebeu a separação, o afastamento e não recebe mais nenhum convite para sair. Para Camon (2009) esse afastamento ocorre pelo fato de que por vezes essas pessoas se afastam por medo de um possível “contagio” ou por medo de entrarem em contato com a própria finitude, de certo ignorando ou não refletindo a sua condição de ser-para-morte. Portanto, ao sentir-se só o sujeito/paciente necessitaria de maior apoio, que o possa dar equilíbrio e força para continuar.

Sentado ao lado do Caipira, Anacrônico nos revelou que durante a entrevista que realizávamos com o colega estava sendo mobilizado por sentimentos que surgiam diante da apercepção das diferenças de suas realidades, pois o Caipira aparentava ser um homem forte e que trazia na sua história uma grande caminhada de trabalho pesado na roça. Falou sobre um momento que presenciou, nos primeiros dias quando o Caipira chegou, que marcou sua memória e o tocou profundamente. Viu o seu colega sentado do outro lado da sala com o rosto coberto por um pano e externalizando a sua dor através da arte, do acalanto, do aboio.

Ao questionarmos sobre o que aquele adoecimento representava para ele, Anacrônico relembrou que quando precisou vir “enfrentar a máquina” foi como se o seu mundo desabasse, pois estava em um momento da vida que usufruía de saúde para viajar bastante a trabalho. Lembrou que antes, quando jovem, já havia sido submetido a tratamento renal, mas que teve a oportunidade de receber a doação do seu irmão, que o possibilitou de trabalhar, casar e formar a sua família.

Dezoito anos depois do transplante descobre novamente que está diante de uma situação já conhecida, mas ha muito esquecida no tempo. O seu sentimento diante da notícia foi de negação e algo que remetia a morte, que deu ênfase nos explicando com a frase: “[...] é mesmo que cavar o chão e me jogar lá dentro.” Tentou conciliar o trabalho com o tratamento por algum tempo, mas, apesar de todo o esforço, os dias que se seguiram foram cansativos e, por fim, a empresa o aposentou.

Como se não bastasse, completos quatro anos do tratamento descobre que a sua esposa estava envolvida com outra pessoa e, com isso, ocorreu a separação. Para ele aquilo foi um conjunto de situações que tornaram-se um “bola de neve”, nos falando isto com um tom de pesar inquestionável. O “corte” na realidade, a fragilidade na sua saúde, a perca de emprego, a separação, os amigos que tinha e hoje não mais os vê. Assim, disse que nessas circunstâncias tem que se apegar a Deus para não se abalar, mas que a escuta que dispomos faz com que considere o nosso trabalho relevante.

Em se tratando das expectativas diante do seu futuro, Anacrônico fala que ainda há a possibilidade de sair do tratamento através do transplante, assim como ocorreu anteriormente, mas que, enquanto paciente, aquele encontro conosco ajudava a “aliviar o peso” de estar com o compromisso constante com a máquina.

Questionamos, pois, sobre trazer esse peso em seu discurso com certa leveza, e nos explicou emocionado que logo que adoeceu pensou nos filhos e em como seria dali pra frente, mas que com o caminhar do tempo e posteriormente o divórcio, sentiu-os mais próximos, inclusive sendo escolhido por eles para a guarda constante naquele contexto de separação. Assim, seus filhos representam a leveza com a qual conduz a sua vida, a leveza em busca de acompanhá-los até a vida adulta e deixá-los encaminhados para a vida.

Diante dos acontecimentos de perdas em sua vida, da ressignificação e queda de alguns valores, da mudança de hábitos e o encontro com outras pessoas, outros rostos e vozes, encontramos no título da música Anacrônico o codinome para representar, de algum modo, este nosso entrevistado e sua história:

É claro que somos as mesmas pessoas
Mas pare e perceba como o seu dia-a-dia mudou
Mudaram os horários, hábitos, lugares
Inclusive as pessoas ao redor

São outros rostos, outras vozes
Interagindo e modificando você
E aí surgem novos valores,
Vindos de outras vontades,

Alguns caindo por terra,
Pra outros poderem crescer
Caem 1, 2, 3, caem 4,
A terra girando não se pode parar

(Anacrônico, Pitty, 2005, faixa 2)

É claro que somos as mesmas pessoas - o Anacrônico, pai, trabalhador, esposo - mas somos seres lançados na existência, e isso remete a infinitas possibilidades que incluem a mudança de hábito na rotina de trabalho, de vida, assim como as experiências únicas de ser, semelhante ao exemplo de Heráclito [07] sobre quando alguém entra na água de um rio.

Ele pôde cair uma vez (saúde), duas (trabalho), três (casamento), quatro (os amigos), mas a terra gira, as estações mudam, os hábitos mudam e inclusive as relações de ser-com. Aquilo que passou sempre “[...] deixa sua presença no presente” (RODRIGUES E. 2011. p. 43) e, uma vez constitutivo do nosso ser, influi diretamente no modo como se dão as nossas relações no aqui e agora.

Revivendo e reelaborando esse passado no presente, os sentidos tomam outra configuração e, junto desta, advém novos valores que chegam, caem por terra, germinam outros significados e frutificam (Os filhos) outros sentidos para seguir compondo uma nova caminhada, agora em direção à uma nova colheita: a colheita da vida que é impreterivelmente regada de amor e imprevisibilidade.

Assim encerramos os nossos encontros, marcados por cada um e cada uma que esteve presente na nossa colheita e que permanecerão registrados nesse trabalho e nas nossas vidas. Mas como saímos dali e como ficamos diante de tudo o que produzimos e vivemos até aqui?

7. E Aí, no que Foi que Deu? Tecendo Considerações Emocionadas

A experiência de podermos realizar esse trabalho nos permitiu reflexões sobre a vida, sobre o modo com o qual muitas vezes lidamos com as diversas possibilidades que nos são apresentadas, sobre nosso modo de ser-com os outros e sobre a necessidade de, independente dos recursos, meios e estratégias, estarmos solícitos diante das relações interpessoais.

Nesse trabalho fizemos uso de recursos mediadores da condição de ser si mesmo com os outros através da música e do lúdico, e percebemos que esta condição foi no mínimo gratificante e marcante, pois encontramos pessoas que se dispuseram a nos encher de sentimentos e sentidos, assim como nos relataram dos seus.  Desse modo, entramos em contato com as suas realidades pessoais, envolvidas pela condição de adoecimento e limitação de algumas possibilidades antes experienciáveis e hoje “castradas” no seu cotidiano, mas realidades que ainda encontram na fé e na esperança uma água cristalina e pura para banhar-se e beber quando houver sede.

Com o Seresteiro encontramos as lembranças das noitadas, tocando por entre os lugares que frequentava e nos misturamos diante do amor à arte da música, ouvida, tocada e sentida. A Navegante nos fez passear pelas suas experiências de vida, perdas e dores que ainda marcam a sua história, mas que há de se encontrar na família um porto seguro para onde possa tocar o barco da vida e, deste modo, tocou-nos também profundamente com o seu olhar sereno e acolhedor, como “um abraço”. A partilha do modo como enxerga a vida e como compreende a sua condição de finitude fez com que enxergássemos na Velha uma grande maturidade que também nos fez pensar sobre a nossa condição de ser-para-a-morte, mas que só o tempo e Deus se encarregam de mostrar-nos quando e como a morte chegará, cabendo a nós vivermos um dia de cada vez.

Em diálogo com o seu adoecer, a Limitada encontrou no isolamento um modo de distanciar-se do sofrimento, e nos fez perceber as diferentes maneiras com que cada um se relaciona com as suas experiências de vida, cabendo ao outro apenas buscar compreender e respeitar. No Sertanejo encontramos um homem que lembra com carinho da sua infância na roça, e que traz em seu discurso o quanto era feliz e não sabia, mas percebe que os encontros verdadeiros com o outro preenchem o vazio que se instala no seu dia a dia e, assim, damo-nos conta de que a vivência entre Eu e Tu é combustível para a vida.

Movido de emoções, o com-partilhar das dores do Caipira mobilizou em nós uma inundação de sentimentos que esborraram do peito para os olhos lacrimejados, pois a intensidade e verdade com que expressava seus lutos nos puseram a refletir sobre a importância da pró-cura pelo cuidado, por cuidar de si e do outro “como se não houvesse amanhã”. Enfim, a nós foi dada também a possibilidade de compreender com o Anacrônico que, mesmo ainda sendo os mesmos, alguns dos nossos valores precisam cair por terra para que se frutifiquem outros, atualizando os modos de trilharmos o nosso caminho.

Uma coisa é imaginarmos, quando estamos tocando, o que pode estar se passando na cabeça de cada um, ou o que estão sentindo. Outra é poder ouvir cada palavra de afeto que também nos afetam, que imprimem em si emoções e nos fazem emocionar juntos. Assim, “a lembrança desses momentos é que vai tornar aquela relação imortal” [08], pois, uma vez que nos lançamos a plantar sementes de amor, colhemos experiências que, agora, fazem parte da nossa memória, permitindo-nos misturar os frutos desta colheita em um só balaio: o balaio da vida.

Levamos, assim, alguns questionamentos adiante, que ficaram dessa experiência e que poderão inspirar maiores reflexões acerca dessa temática: há na psicologia a abertura à condições que possibilitem a expressão de sentimentos por vias das artes? De que modo profissionais, alunos e academia poderiam conceber caminhos que fossem para além da cientificidade, dispondo de maior solicitude diante do outro? Seria possível a utilização de meios artísticos não só como modos de se fazer uma práxis em psicologia, mas que contribuíssem com as pesquisas e produções acadêmicas e científicas, de modo que venham incrementar as teorias do saber psicológico? Que com esses e outros questionamentos sigamos cada vez mais, todos, em frente...

“As melhores coisas da vida não se podem ver nem tocar...
elas devem ser sentidas com o coração”.
Charles Chaplin

Sobres os Autores:

José Carlos da Silva Lopes Filho - Bacharel em Psicologia e pós-graduando em Metodologia para o Ensino Superior e EAD

Laécio Campos dos Santos - Bacharel em Psicologia e pós-graduando em psicopedagogia.

Referências:

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