Resumo: Este artigo é uma solicitação do curso de psicologia, mais especificamente da disciplina de psicologia escolar/ educacional, como umas das formas de instrumento avaliativo. O tema foi escolhido de forma livre, onde acreditamos que o melhor esclarecimento sobre a prática do psicólogo no âmbito escolar, bem como as relações estabelecidas na instituição se fazem interessante para nosso processo de formação acadêmica. Para tanto buscamos subsídios em diferentes teóricos que abordam o tema, caracterizando esta pesquisa como sendo de cunho bibliográfico. Sabemos sobre a importância de o profissional estar embasado no que se refere às teorias pedagógicas para assim estar atento às relações que se estabelecem. Ainda exercer o papel de mediador destas relações, sendo que, para isto, necessita dispor de diversos instrumentos, entre eles o de ‘escutar’ as falas existentes na escola. Por fim, compreendendo seu real papel na instituição escolar, poderá fazer com que os sujeitos ali inseridos possam fazer uso deste profissional adequadamente.

Palavras-chave: pedagogia, psicologia escolar e educação.

1. Introdução

Este trabalho objetiva estudar o suporte teórico compartilhado entre a psicologia escolar e a pedagogia. O presente estudo fundamenta-se numa pesquisa qualitativa de cunho bibliográfico fundamentada em autores que tratam do assunto, tais como: Ghiraldelli (2001), Galvão (2001), Cambi (1999), entre outros.

Diversos são os teóricos que se dedicaram a estudos na área da pedagogia e da psicologia.

Para Brunner (1994, p. 186) pedagogia “significa o total da prática educativa como também o esclarecimento teórico e a delimitação desta prática”, e psicologia como sendo, “[...] a pesquisa do comportamento e da vivência, isto é, a descrição e a explicação dos fenômenos psíquicos e a aplicação dos resultados na área cultural, social e econômica” (p. 207).

Sabe-se que o objeto de estudo da psicologia da educação é o processo de aprendizagem do ser cognoscente e todo seu universo relacional, ela se estrutura como interdisciplinar, ou seja, o conhecimento do psicólogo escolar em sua complexidade e numa dinâmica em que os aspectos sociais, cognitivos e afetivos se complementam.

Evidentemente que, para que o psicólogo escolar possa interferir neste processo, torna-se necessário o conhecimento das realidades objetivas e subjetivas que habitam o entorno do âmbito escolar.

2. Escola: um breve histórico

Por volta de 1889 – 1930 aconteceu a evolução das idéias pedagógicas na Primeira República, sendo estas representadas por dois movimentos ideológicos desenvolvidos pelos intelectuais das classes dominantes do país. O entusiasmo pela educação e o otimismo pedagógico, sendo que o segundo foi quem mais insistiu na melhoria das condições didáticas e pedagógicas da rede popular. Segundo Ghiraldelli, (2001, p. 15): “[...] muitas vezes atuando em separado e até mesmo contra o entusiasmo, o otimismo caracterizou-se por sua ênfase nos aspectos qualitativos da problemática educacional.”

Acompanhando estas evoluções, surge um movimento educacional denominado Escola Nova. Este deu importância à liberdade da criança, ao respeito dos interesses do educando através de incentivo às práticas manuais nas escolas, valorizou os estudos de psicologia experimental e por fim colocou a criança no centro do processo educacional, já que anteriormente o centro era o professor.

Cambi coloca que,

Embora as “escolas novas” nasçam e se desenvolvam como experimentos isolados, ligados a condições particulares e a personalidades excepcionais de educadores, elas, justamente porque tiveram imediatamente ampla ressonância no mundo educativo, proporcionaram uma série de pesquisas no campo da instrução, destinadas a transformar profundamente a escola, não só no seu aspecto organizativo e institucional, mas também, e talvez sobretudo, no aspecto ligado aos ideais formativos e aos objetivos culturais. (1999, p. 514),

O início do século XX fica marcado por tentativas de estudiosos em fazer com que a profissão de ensinar fosse reconhecida como qualquer outra profissão. Estas tentativas tiveram como resultados diferentes processos que acabaram por trazer grandes contribuições ao campo educacional, sendo algumas delas: o processo de estatização do ensino, que é antes de tudo o processo de substituição de docentes religiosos por um corpo docente laico, onde a escola e a educação passada por ela foram consideradas como elementos essenciais para o desenvolvimento de todo país, dando, portanto maior ênfase nos cursos de formação de professores e também oferecendo escola às camadas populares.

Cabe ressaltar que por mais que a escola tenha deixado de ser do domínio da Igreja, passa a ser de domínio do Estado. Cabendo a escola a necessidade de adequar-se às transformações ocorridas na sociedade e ao docente a percepção que o mesmo processo de transformação precisa ser elaborado em sua carreira profissional, possibilitando um avanço nas reformas educacionais.

Passou-se a perceber entre os intelectuais da educação que para educar não bastava somente o conhecimento dos saberes filosóficos, científicos e religiosos, era necessário ao educador o conhecimento de outros saberes que o auxiliasse na tarefa de transmissão do conhecimento e atuação profissional. As ciências da educação passaram a oferecer tal suporte ao professor, fazendo com que o conhecimento transformasse o professor em um profissional, estabelecendo assim um novo modelo na formação de professores no Brasil.

O processo formativo da profissão docente mostra todas suas implicações ao longo da história da profissão docente pela busca do reconhecimento deste ofício: “este foi um momento de grandes avanços na reflexão e nas tentativas de instituir um novo modelo de formação de professores no Brasil.” (TOMAZETTI 2003, p. 9). Percebe-se que para compreender as reformas educacionais e somente compreendendo-as é que realmente será possível o conhecimento de suas implicações para o processo de formação de professores, faz-se necessário uma reflexão profunda na prática docente. Na medida em que este novo modelo de formação de professores for formando sujeitos críticos de sua própria ação passará a colaborar para que estes construam sua própria identidade como professor. 

No que diz respeito às pesquisas sobre formação de professores no Brasil, torna-se interessante ressaltar a feminização da profissão docente, pois por volta de 1960, o capitalismo urbano passa a se desenvolver fazendo com que a profissão de professor seja mais requisitada, cabendo a mulher esta tarefa, já que a ela cabia os afazeres domésticos, estes podendo ser facilmente conciliado com a tarefa de educar. Por volta da década de 80 discutia-se muito sobre a real especificidade da profissão pedagogo, conhecido como professores, pois suas habilitações cooperavam para tal acontecimento, surgindo assim cursos de especialização na área.

Torna-se evidente que a construção de uma análise crítica de todo processo de formação de professores até o momento trabalhado serve de apoio para se repensar as contribuições das políticas públicas para que a efetivação da educação realmente esteja em fase de transformação e reconstrução. 

Para Souza (2005), não existe um único modelo de formação docente, o que colabora para o surgimento de várias concepções ideológicas adequadas para trabalhar com a diversidade de pessoas, de cultura e também de tarefas exigidas pela educação. O professor deve ter um conhecimento polivalente e um compromisso ético que compreenda diferentes âmbitos, não só de conhecimentos sistematizados, mas também de habilidades, hábitos, atitudes, convicções, valores que o auxiliarão, por meio da educação a tornar as pessoas mais livres, menos dependentes do poder econômico, político e social, com o objetivo único de proporcionar-lhes a emancipação.

Assim, quando se fala da formação de professores, vincula-se à construção de uma autonomia sempre crescente, numa união com as formas através das quais produz/constrói a profissão no processo de profissionalização (Ramalho, 2003).

3. Psicologia Escolar: função mediadora

Considerando que a psicologia escolar busca, além de outras áreas, também nas ciências da educação respostas para os problemas educacionais e as relações ali estabelecidas no âmbito escolar, partindo sempre da realidade do aluno, acaba fazendo com que a escola exerça uma função mediadora entre o aluno e o mundo social, não esquecendo que este (o aluno) é um ser social. Ela visa ao atendimento global e intencionalmente dirigido, dos problemas educativos e, para isso, recorre aos aportes teóricos providos pelas demais ciências da educação.

Torna-se necessário mencionar Piaget, que para muitos teóricos e profissionais da educação trouxe ideias sobre o processo de construção de conhecimento colocando que antes de conhecer, deve-se fazer, trazendo o conhecimento global antes do particular, para que assim aconteça o amadurecimento do indivíduo, inicialmente num plano operacional. Pode-se dizer que estas ideias destacadas por este autor foram de grande valia tanto às práticas pedagógicas quanto as que dizem respeito à psicologia escolar.

Castorina traz a ideia de que:

Em linhas gerais, a teoria piagetiana é apresentada como uma versão do desenvolvimento cognitivo nos termos de um processo de construção de estruturas lógicas, explicada por mecanismos endógenos, e para a qual a intervenção social externa só pode ser ‘facilitadora’ ou ‘obstaculizadora’. (1996, p. 12)

Podemos encontrar também contribuições na teoria educacional de Vygotsky, este evidencia que o sujeito aprende no momento em que há interação entre ele e o social, colocando o sujeito não somente como ser ativo, mas também como interativo.

Para Vygostsky apud Castorina:

Nas condições da prática educativa, indubitavelmente, há uma preexistência de sistemas conceituais, valores e procedimentos socialmente criados, com relação às crianças e também aos docentes. Por essa razão, de uma interação dos alunos com o “saber a ser ensinado” se requer que adquira um caráter orientador com respeito ao conhecimento infantil. Tal saber converte-se em um dos objetos a serem reconstruídos pelos alunos e, por isto, influi sobre a aprendizagem. (1996, p. 24)

Entendemos dessa forma que, ao exercer o papel de psicólogo escolar, este deve estar atendo a sua prática enquanto mediador dessas relações ali estabelecidas.

Outro estudioso que vem a colaborar para esse entendimento, é Wallon, este se dedicou ao longo de sua vida a estudos da psicologia e pedagogia. Segundo este autor, a educação é um fato social. O homem é um ser social, então não podemos estar separando o sujeito do todo que o cerca. Para este estudioso, a educação tem por finalidade o desenvolvimento das potencialidades de cada indivíduo, buscando neles possibilidades de superação, compreensão e equilíbrio funcionais. Para Wallon apud Galvão (2001, p. 113) “A abrangência de seu objeto de estudo sugere que a educação deve ter por meta não somente o desenvolvimento intelectual, mas a pessoa como um todo”. Cabendo aos educadores estar conhecendo a experiência que cada indivíduo traz para que estas sejam aproveitadas no processo de aprendizagem destes.

Para Libâneo (2001), o pensamento de que tal amplitude crescente na prática educativa vem sendo colaborada pela psicologia, já que esta vem a oferecer aos profissionais do âmbito escolar, um apoio que possibilita a análise do processo educacional tanto do ponto de vista do sujeito que aprende como da instituição que tem a intenção de fazer com que este sujeito aprenda.

Dessa forma pensamos que a tarefa de aliar a psicologia à educação deve ser pensado antes de mais nada como sendo uma procura em proporcionar aos sujeitos um aprender melhor e não um saber mais, tornando-os criativos, despertando a curiosidade para que assim possam enfrentar de modo sadio os acontecimentos da vida.

4. Conclusão

Por fim, cabe salientar o quanto se faz importante os profissionais da educação, pedagogos e psicólogos, estarem preocupados em formar sujeitos críticos, não impondo os conhecimentos a eles, mas estarem oferecendo caminhos para que estes possam, com a mediação destes profissionais, estarem construindo seu próprio conhecimento, fazendo assim com que aconteça uma aprendizagem significativa, onde poderão mais facilmente serem conhecedores dos obstáculos que encontrarem na aprendizagem e o prazer que se pode sentir em aprender.

Ao conhecer o processo de construção do conhecimento e ao compreender as dimensões das relações com a escola, certamente os profissionais da escola, juntamente com o psicólogo escolar poderão estar contribuindo para melhor esclarecimento dos processos de aprendizagem, bem como a superação das dificuldades encontradas no rendimento escolar.

Como bem coloca Machado, o papel da psicologia no âmbito escolar vai bem mais além do que apenas ter um espaço (físico), mas sim de se ter um espaço aonde irá ‘escutar’ o que a escola como um todo está querendo lhe dizer.

Isto não implica que cabe ao psicólogo escolar a tarefa de escutar e atender as demandas que aparece, o que acabaria por colocá-lo em um lugar de curador, ao psicólogo escolar cabe a difícil tarefa de se fazer entender como um agente transformador das relações estabelecidas neste contexto a fim de buscar um melhor entendimento do que está sendo vivido ali.

Para que isto se concretize, a instituição deve estar apta a falar e reconhecer a prontidão do psicólogo em escutar e compreender que este não esta ali para classificar os sujeitos envolvidos no processo escolar. 

Sobre os Autores:

Luciana Brum Behr - Psicóloga especialista em psicopedagogia CRP/RS 07/19639 contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Nilta Machado - Psicóloga especialista em Docência Universitária CRP/DF 01/17401. Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

BRUNNER, Reinhard. Dicionário de Psicopedagogia e Psicologia Educacional. Rio de Janeiro: Vozes, 1994.

CAMBI, Franco. História da Pedagogia. São Paulo: UNESP, 1999.

CASTORINA, J.. Piaget e Vygotsky: novas contribuições para o debate. São Paulo: Ática, 1996.

GALVÃO, Isabel. Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. Petrópolis: Vozes, 2001.

GHIRALDELLI, Paulo Jr.. História da educação. São Paulo: Cortez, 2001.

LIBÂNEO, José Carlos. Pedagogia e pedagogos, para quê?. São Paulo: Cortez, 2001.

MACHADO, Adriana. Psicologia escolar: em busca de novos rumos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.

RAMALHO, B. L.; NUÑEZ, I. B. e GAUTHIER, C.. Formar o professor profissionalizar o ensino:perspectivas e desafios. Porto Alegre: Sulina, 2003.

SOUZA, C.. As representações sociais do professor de educação especial. Santa Maria: UFSM, 2005. Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de pós-graduação, Universidade Federal de Santa Maria – RS.

TOMAZETTI, Elisete. Dimensões da profissão docente. Palestra realizada em 06 de agosto de 2003. Universidade Federal de Santa Maria. Centro de Educação, Programa de pós-graduação em Educação.