Resumo: O presente artigo se propõe a  fazer uma análise do filme “A cor do Paraíso” de Majid Majid, tomando como base pressupostos teóricos da Psicologia do Excepcional referentes à concepção de deficiência, especificamente a visual, dinâmica familiar do portador de necessidades especiais e aspectos relacionados à escolarização e profissionalização.

Palavras-chave: Deficiência visual, Dinâmica familiar, Educação.

1. Introdução

Na civilização ocidental conhecer se faz com o ver, então o ver é condição para conhecer. Souza (1997, p.1)

Partindo dessa afirmativa, é possível ter uma noção do grande valor que se dá à percepção visual de um ser humano, pois é um dos sentidos através do qual estabelecemos contato com a realidade, encontramos orientação espacial, captamos estímulos advindos de objetos em movimento, ao mesmo tempo em que os identificamos e os classificamos por categorias de forma, dimensão, tamanho, extensão e cor, de um modo rápido e abrangente, funcionando como mais uma eficiente ferramenta de apropriação do mundo externo, de si próprio e dos outros a nossa volta.

Então, quando se fala em deficiência, parece que há a tentativa de significar algo ou alguém que não é eficiente para o desempenho de alguma atividade ou para suprir uma dada necessidade. Assim, o referido termo está associado a uma condição de “não ser capaz”, “não ser eficiente”.

Segundo a Organização das Nações Unidas (1975 apud COELHO, 2005), deficiente designa pessoas que clara ou sutilmente mostram-se incapazes prover, total ou parcialmente, o sustento de suas necessidades enquanto um indivíduo social normal, em função de apresentar um comprometimento, congênito ou adquirido, em alguma das habilidades básicas do ser humano, que são locomoção, sensopercepção, cognição e linguagem.

Semelhantemente é esta a ideia que o senso comum tem acerca de pessoas deficientes, já que para tal devem ter algum problema visível no corpo como um membro torto, uma paralisia, amputações e cegueira, por exemplo (COELHO, 2005).

Comenta-se sobre os sinônimos de tal palavra e como eles são transportados de um campo meramente conceitual para um outro que é das relações humanas. Isto porque, literalmente, deficiência quer dizer falta, imperfeição, insuficiência (FERREIRA, 1996).

Encontra-se, portanto, classificadas todas as pessoas com comprometimento funcional de alguma parte do se corpo, como sendo sujeitos falhos, imperfeitos.

Em uma sociedade capitalista em que o consumismo e o trabalho como forma de adquirir poder e dinheiro, privilegia-se o ter em detrimento do ser e pessoas deficientes são consideradas “ineficientes” e, portanto, associadas à categoria de anormalidade (COELHO, 2005).

Fernandes (2005, p.28) diz que

as pessoas que apresentam limitações físicas, sensoriais ou mentais são frequentemente consideradas incapacitadas não devido a uma doença diagnosticada, mas porque não têm acesso à educação, aos mercados de trabalho e serviços públicos.

Outro aspecto a ser considerado diz respeito à atribuição social que é dada pela sociedade às pessoas com deficiência que, segundo Coelho (2005, p.4), é de “mártir resignado, espírito elevado pelo sofrimento, com comportamento moral fora do comum. Vai-se ao outro extremo: seja o papel de malévolo, amargurado, invejoso”.

2. Deficiência Visual

Segundo Gofman (1982 apud COELHO, 2005) há pessoas que, embora convivam com algum “defeito”, conseguem “manipular a informação”, uma vez que a deficiência não se encontra patente, como são os casos de disfluência, daltonismo, hemofilia e Aids. Contudo, a deficiência visual, em muitos casos, especialmente aqueles com alto grau de dificuldade para enxergar, é evidente e há um consenso na literatura científica de que esta se apresenta como um grupo não homogêneo, pois se manifesta de forma diferente dependendo do grau de comprometimento da visão e o momento em que foi diagnosticada a deficiência. Logo, nem todo deficiente visual é totalmente cego e, quanto menor for o saldo visual de uma pessoa, maiores serão as possibilidades de adaptação (HERRERO, 2002).

De acordo com a Secretaria de Educação Especial (1995, p.17) a cegueira representa a “redução da acuidade visual desde cegueira total (nenhuma percepção de luz) até a acuidade visual menor que 20/400p, ou seja, 0,05º em um ou em ambos os olhos, ou a redução do campo visual ao limite de 10º ”. Em termos de valores de medida, a visão subnormal representa a acuidade central maior que 20/400p até 20/70 (0,03º).

Neste mesmo documento oficial há a descrição das diretrizes diagnósticas da cegueira em crianças, as quais são dadas a partir das pesquisas de Winebremer (1952). O autor afirma que é mais fácil identificar uma criança cega do que uma criança de visão subnormal, já que esses casos passam, na maioria das vezes, desapercebidos por pais e professores. Entretanto, alguns os sintomas mais comuns são: irritação crônica nos olhos; hábito de esfregar os olhos, franzir e contrair o rosto ao olhar objetos distantes; náuseas; dupla visão ou névoas durante ou após a leitura; pestanejamento contínuo, sobretudo durante a leitura prolongada; capacidade de leitura por um período relativamente curto; hábito de segurar o livro muito perto, muito distante ou em outra posição incomum; desatenção durante a realização de cópias do quadro negro para o caderno ou mesmo observar e ler mapas; cautela excessiva ao andar, correr raramente e tropeçar sem razão aparente.

As causas podem genéticas como a catarata e o glaucoma congênito, e também adquirida através de acidentes vasculares, meningites e lesões cranianas. Ressalta-se ainda que, embora a criança ou o adulto apresente alguns desses sintomas, é de fundamental importância a realização de um exame oftalmológico para detectar com precisão tal deficiência. Faz-se necessário também, segundo o mesmo autor uma avaliação psicopedagógica, a fim de as possibilidades de ajustamento, tanto da criança aos métodos de ensino-aprendizagem como destes últimos à criança, levando-se em consideração possíveis adaptações.

Entendendo o significado de deficiência e, especificamente, a de natureza visual, é possível identificar prejuízos significativos de uma pessoa cega quanto à apreensão do mundo externo e o estabelecimento de relações com tudo e todos que constituem essa realidade. Mas a plasticidade do organismo humano e, principalmente de seus órgãos perceptivos, evidenciam uma incomparável capacidade de adaptação através de mecanismos compensatórios, como aquele que funciona como substituto. O sistema háptico ou o tato ativo é correspondente direto ao sentido da visão em pessoas cegas, uma vez que as auxilia na percepção de objetos, textura e de quase todos os predicados das coisas pessoas existentes, embora seja mais lento, determina uma percepção de detalhes e exige também uma boa memória, se encontra limitado ao alcance dos braços. A ecolocalização é outro sentido compensatório e que se torna muito mais habilidoso em pessoas cegas, já que através deste é possível captar o eco produzido pelos objetos e pessoas em movimento.

Com relação ao personagem Mohamed, é provável que sua deficiência visual implique em ausência de acuidade visual, seja congênita e de fácil identificação clínica. Ao longo do filme é possível observar fatores potencias de adaptação do garoto a sua realidade imediata, já que sua interação com a natureza, coisas e pessoas era mediada pelos sentidos háptico – quando reconheceu a planta que ele mesmo semeou quando era menor – e ecolocalização – quando percebeu, em função do barulho dos carros, que seu pai estava lhe conduzindo para outro lugar que não era a fazenda onde morava.

3. Dinâmica Familiar

Dentre os estudiosos de grupos humanos é comum a concepção de que estes se apresentam como um fenômeno complexo em função dos múltiplos fatores que motivam o agrupamento de pessoas e, principalmente, pelas relações que são estabelecidas neste campo de convivência. Em se tratando de grupo familiar a problemática é aumentada quando se busca definir o que vem a ser uma família, uma vez que não se encontrará um único conceito. Há autores como Osório (1996) que acredita ser possível apenas descrições dessa forma de vinculação humana, no que se refere às suas estruturas, organização e arranjos, os quais assumem diferentes representações de acordo com a cultura e época vividas por um povo.

Segundo Akerman (1986), a família denota uma noção de organismo, uma vez que, igualmente no ser humano, este grupo também vivencia fases no seu desenvolvimento psico-relacional e mudanças quanto aos papéis desempenhados por seus membros, havendo uma interdependência entre os mesmos.

Este mesmo autor elenca duas funções que são básicas e esperadas no desempenho funcional de uma família que são a garantia da sobrevivência física e material de seus integrantes e a constituição da humanidade essencial do homem. Considera ainda que as relações familiares são como matrizes que farão parte dos valores e princípios fundamentais de uma pessoa, pois será neste ambiente que aprenderá expressar e regular suas emoções, padroniza a forma oportunidades de segurança, prazer e autorealização; irá adquirir senso de responsabilidade, introjetará modelos de sucesso, fracasso e diferença entre a fantasia e a realidade.

Gomes (1987 apud PEDROSO, 1996) acrescenta que a família deverá fomentar a construção de vínculos afetivos, o desenvolvimento da identidade e papéis sexuais, assim como capacitar os indivíduos para a responsabilidade social.

Para Bertallanfy (1940 apud CALIL, 1987) a família é vista como um sistema semi-aberto, pois estabelece uma fronteira – constituída por regras e valores peculiares – que a diferencia de outras famílias e outros grupos sociais – como aqueles formados pela igreja e trabalho, por exemplo – mas que possibilita um contato e troca de informações com o ambiente externo. É também compreendida como um sistema total, no sentido de que os eventos que possam ocorrer com um membro da família ou mesmo ações empreendidas por este indivíduo, exercem influência em todos os outros membros deste grupo, funcionando, em muitos casos, como potencializadores de mudanças neste grupo.

Calil (1987) e Minuchin (1982 apud CERVENY, 1994) analisam as famílias através de seus subsistemas – cônjuges, pais, filho e irmão – e as relações estabelecidas, as quais revelam a natureza de suas fronteiras. Assim, é possível observar uma fronteira difusa, que caracteriza as famílias emaranhadas em que os sujeitos experimentam uma sensação de perda de identidade, há uma renúncia da autonomia, inibindo o amadurecimento psico-emocional. Quando se tem uma fronteira muito rígida, é observado um significativo individualismo por parte de seus membros, pouco apoio mútuo, o que ocorre apenas em situações de estresse máximo.

Segundo esses autores, o que se considera saudável é uma relação de interdependência entre os membros da família, o que revela uma fronteira semipermeável, possibilitando contato e trocas afetivas entre os subsistemas.

De acordo com Akerman (1986) os sentimentos de amor lealdade e cumplicidade são mantidos e cultivados em função das condições favoráveis de convivência. Entretanto, sob condições de tensão e conflito excessivos a organização e funcionamento saudável do grupo familiar pode ser ameaçado através do despertar de divergências, acusações embates de ideias e comportamentos.

Uma condição favorável seria dada pelas expectativas em torno do nascimento dos filhos de um casal, os quais, ainda na sua gestação são alvo de idealizações e projeções que revelam os desejos mais excelentes dos pais. Dentro desse mesmo contexto, o que poderia ser uma condição desfavorável ou de conflito excessivo seria a impossibilidade, parcial ou total, desses pais terem seus sonhos e projetos realizáveis ao descobrir que o filho tão esperado nasceu com uma deficiência. Em situações como essa, a variedade de sentimentos é imensa e, ao mesmo tempo, contraditórios entre si, podendo haver alegria pelo nascimento, mas também uma profunda tristeza, amor e rejeição, culpa e revolta; podem cultivar a fantasia de que existe algo neles mesmos, de ordem biológica, que provocou o “dano” em seu filho (FERNANDES, 2005 e REIS e MARQUES, 2002).

Frente a uma situação psiquicamente ameaçadora como essa, os pais tendem, inicialmente a recusar a condição do filho, ao acreditar que a deficiência é transitória e que a criança irá superar todas as dificuldades, tornando-se um sujeito “normal”. Movidos por esse pensamento, submetem-no a diversos exames médicos a fim de serem consolados com uma informação positiva, no sentido de contradizer o primeiro diagnóstico ou que lhes assegure a cura para a deficiência do filho (REIS e MARQUES, 2002).

Mesmo depois do impacto inicial, os pais encontram outra fonte de frustração que é a desinformação acerca do que se passa com sua criança e como deverão lidar e se relacionar com ela. Isto porque o referencial que se dispunha para cuidar de um recém-nascido é perdido, ou pelo menos toma uma outra direção que não é a esperada ou a mais comum entre as famílias. Mas a aquisição dessas informações oferecem suporte a esses pais e segurança na interação com esse filho e, ao longo do tempo, a dedicação e empenho resultam em muitos frutos, no que se refere ao crescimento pessoal, pois “com os filhos deficientes aprendem o valor da superação em seu sentido mais amplo, superação  de limites físicos e emocionais, valorizando pequenas conquistas” (FERNANDES, 2005).

Diante de situações tão frustrantes e inesperadas, a organização familiar e as funções desempenhadas pelos seus integrantes sofrem modificações, visto que à mãe, quase sempre é delegada a tarefa de cuidar sozinha do filho, enquanto o pai se encarrega de prover o sustento material de todos. Em geral, diminui o contato com aquele filho, como forma de minimizar o próprio sofrimento e, consequentemente, afasta-se do convívio familiar, podendo resultar, não raramente, em divórcio (REIS e MARQUES, 2002).

A pesquisa desses autores revela que os outros membros da família também sofrem com o nascimento de um portador de necessidades especiais, especialmente os irmãos, se os pais, ao dispensarem exclusiva atenção àqueles filho, negligenciam os outros, no que se refere aos cuidados, atenção e carinho.

Outra preocupação nesse contexto de relação familiar diz respeito à integração social e às possibilidades de independência financeira do deficiente. Quanto a isso, o que considera importante é que a família ofereça um ambiente em que a criança possa desenvolver suas potencialidades e aprender a lidar com suas limitações, não adotando uma postura de superproteção, impedindo a construção de sua identidade, autonomia e liberdade de escolha dentro de suas possibilidades, ao mesmo tempo em que incentiva o enfrentamento de dificuldades e frustrações, facilitando assim, a sua maturidade intelectual e emocional. Lembrando que a integração do PNE tem a sua semente primeiramente semeada no seio familiar (REIS e MARQUES, 2002).

Relacionando as estruturas conceituais com o contexto de vida dos personagens principais do filme, podemos considerar a família de Mohamed, quanto ao contato com outros grupos sociais, demonstra uma fronteira semipermeável, uma vez que não perde sua singularidade mesmo em encontros religiosos, por exemplo. No que se refere á composição de seus integrantes, é provável que um novo arranjo tenha surgido a partir da morte da esposa de Hashem, com inclusão da avó paterna na constelação familiar. As fronteiras entre os subsistemas apresentam-se de modo variado, já que o conjugal se desfez, o dos pais em relação aos filhos mostra-se através de uma fronteira rígida, especialmente em relação ao filho deficiente, uma vez que a relação entre Mohamed e seu pai parece fria e distante, em função de que Hashem se dirige ao filho apenas para lhe alertar sobre alguns obstáculos que deveria se desviar e para lhe dar comandos do tipo “sente-se”, “fique quieto”, “vamos”. Pelo que se ouviu do discurso de Hashem, percebe-se que o menino é tratado dessa forma, apesar de demonstrar carinho amor pelo pai, porque era visto como alguém inútil, que estaria em sua dependência até o fim de seus dias, o que atrapalharia suas pretensões de se casar novamente.

Com o restante da família a convivência parece ser mais calorosa e amigável, pois se percebe que Mohamed é amado por sua avó que demonstra interesse por sua vida e em lhe mostrar todo o trabalho realizado na fazenda durante a sua ausência. Semelhantemente, suas irmãs demonstram cuidado e prazer de estar na sua companhia, o que demonstra um ambiente facilitador para o desenvolvimento de suas potencialidade e de habilidades sociais, bem como inteligência emocional.

A noção de família como um sistema total é exemplificada na situação em que a avó de Mohamed sofre muito com sua ausência, forçada pelo seu pai, ao lhe entregar a um carpinteiro, igualmente cego, para ser seu aprendiz. Ao que consta, os papéis são invertidos, já que as netas de uma condição de serem cuidadas passaram a ser cuidadoras da avó, agora doente e prestes a falecer.

Antes do adoecimento da mãe, Hashem revela a ela, de um modo impetuoso e quase agressivo, a sua necessidade de ser cuidado e a sua incapacidade de sustentar e assumir um filho que estaria destinado a depender dele para o resto da vida.

4. Processo Desenvolvimento e Escolarização do Deficiente Visual

A possibilidade de ingressar na escola abre as portas para o deficiente visual quanto à acessibilidade e permissão para ir, vir, possuir e construir sua dignidade. De acordo com Herrero (2000), grande parte das crianças com alguma deficiência visual encontram integradas em escolas comuns, alcançando um nível de desenvolvimento cognitivo equivalente ao de crianças não cegas.

Ochaita e Rosa (1990 apud HERRERO, 2000) afirmam que a percepção de realidade construída pelos cegos é diferente de pessoas que enxergam. Segundo eles, há um atraso de meio ano entre uma criança cega e outra dita normal, quanto ao domínio da coordenação ouvido/mão. Começam a andar por volta do décimo nono mês e, antes disso, não engatinham.

Quanto às habilidades de comunicação verbal não são verificadas diferenças se comparadas a outras crianças. É importante salientar que essas diferenças são anuladas quando chegam à adolescência. Outra dificuldade que se destaca está na habilidade de leitura, que só é possível através do sistema Braile, cujo alfabeto é composto por pontos sobre uma matriz de base 2x3, os quais têm relevo e são lidos com os dedos indicadores de uma das mãos (HERRERO, 2000).

De acordo com a Secretaria de Educação Especial (1995), a matemática representa um outro desafio a ser enfrentado, já que podem encontrar dificuldades em relação à representação abstrata e espacial, a qual é vencida com a utilização de objetos concretos e do clássico Ábaco – instrumento de origem oriental, utilizado para registrar números, facilitando a realização das quatro operações fundamentais com números. A aquisição de conhecimentos gerais dever-se-á realiza através de adaptações feitas nos mapas e globos, tendo esses objetos com relevo, assim como a utilização de miniaturas, maquetes e excursões.

Para Herrero (2000) a educação física tem papel importante na formação do indivíduo com deficiência visual, já que promove o desenvolvimento psicomotor e de orientação espacial, segurança na locomoção em ambientes desconhecidos e noção de corpo, criando um referencial próprio. E, além dos cuidados com o ambiente físico – disposição dos móveis, iluminação –, são necessários outros cuidados como: realizar uma cuidadosa preparação para a integração da criança com deficiência visual, permitindo que explore previamente o espaço onde irá estudar e também entre em contato com os demais alunos por meio de apresentação ou debate sobre deficiência visual.

O professor é uma pessoa que desempenha papel importante no processo de escolarização de crianças cegas, uma vez que sua postura será a de facilitar, não só o aprendizado dos conteúdos acadêmicos, mas também assegurar meios necessários para essa pessoa cresça como um todo, desenvolvendo autonomia, autoconfiança e auto-estima integrando-se à comunidade em que vive. Há que se considerar as já citadas adaptações aos materiais didáticos somadas os possíveis ajustamentos quanto aos métodos de ensino e avaliação desses alunos, pois, em função da levar mais tempo para obter informações através da leitura em Braile – isto comparado à possibilidade de ler através da visão –, deve o professor disponibilizar o tempo necessário para a realização de tarefas e testes (HERRERO, 2000).

Mohamed demonstrava alta habilidade de percepção auditiva e tátil, como é observada nas primeiras cenas do filme em que consegue livrar um filhote de passarinho das garras de um gato. Na escola especial, o menino parecia interagir bem com outras crianças com deficiência visual e foi possível observar que os professores e a equipe de apoio da instituição de ensino, estavam consideravelmente preparados para atender às necessidades educacionais especiais daquelas crianças, uma vez que o processo de ensino-aprendizagem dos conteúdos valorizados pela cultura daquele povo, era realizado através da conversão dos textos do Alcorão, por exemplo, em Braile, além de utilizarem gravações em fita K-7 sobre o mesmo assunto.

O seu desenvolvimento cognitivo, portanto, parecia acompanhar o desempenho apresentado por crianças não cegas, fato que é observado em seu primeiro dia na escola frequentada por suas irmãs, quando leu de modo compreensivo e eficiente a lição do dia, a qual estava registrada em seu caderno em forma de Braile. Nesse mesmo contexto, é possível observar a facilidade com que Mohamed demonstrou ao interagir com outras crianças ditas “normais” e como estas o acolheram e qualificaram a habilidade do novo colega de ler apesar de ser cego, fator que evidencia uma integração social satisfatória.

5. Considerações Finais

Tendo como ponto de referência a literatura pesquisada, compreende-se que a pessoa com alguma deficiência é associada à idéia de anormalidade em função de que as possíveis limitações que apresenta a torna inapta para atender às exigências de uma sociedade consumista e que cultua a beleza física como forma de “passaporte” para os melhores cargos e funções em uma organização, por exemplo. É provável que seja realmente chocante para as pessoas ditas “normais” contemplar a “imperfeição” da humanidade tão patente em um deficiente físico ou mental.

Em relação aos aspectos clínicos da cegueira, é possível considera-la como sendo uma doença com causas e sintomas definidos, podendo-se obter a cura, em alguns casos como a catarata ou mesmo uma satisfatória adaptação à nova condição que é a de deficiente visual.

Quantos à dinâmica familiar, entende-se que as relações estabelecidas entre os pais e destes com os filhos apresenta-se como uma primeira experiência da criança no que se refere a sentir alegria, segurança e satisfação, assim como tristeza, medo ansiedade e frustração. E tudo isso, em certa medida, faz parte do desenvolvimento psico-emocional de um sujeito. Em casos em que a família tem um de seus integrantes portador de alguma necessidade especial, o seu papel e desempenho – no que se refere ao atendimento das necessidades físicas, materiais, afetivas e sociais – tornam-se ainda mais importantes, pois será no ambiente familiar que o deficiente visual desenvolverá seu senso de identidade, terá um ambiente propício ao desenvolvimento e valorização de suas potencialidades e aprenderá, sobretudo, a ser amado e a amar de um modo que vai além dos condicionantes, chegando ao amor pela pessoal, simplesmente. E com suporte afetivo-emocional, o deficiente, de um modo geral, encontra-se instrumentalizado para lidar com os desafios e preconceitos que certamente experienciará ao longo de sua existência.

Vê-se como outro pilar no processo de integração social do deficiente visual a sua participação em uma comunidade escolar como forma de obter conhecimento científico e tornar-se um cidadão consciente de seus direitos e deveres, além de proporcionar-lhe um contato mais direto com outras pessoas com e sem deficiência.

Discute-se ainda o papel do Estado nesse processo de integração social de pessoas com deficiência no sentido de criar políticas públicas que, tanto promovam a capacitação profissional de educadores quanto à adaptação de ambientes físicos, promovendo o livre acesso de indivíduos com necessidades especiais, assim como a assistência médica e psicológica.

Nesse ínterim, o trabalho do psicólogo está em promover a saúde mental do deficiente visual, acolhendo suas possíveis dores e sofrimento, levando-o para o caminho do autoconhecimento e auto-aceitação, para que reconheça suas possibilidades de viver com saúde e na companhia das pessoas ao seu redor. Faz-se igualmente importante o trabalho junto a família e, dependendo contexto, a intervenção se dará no sentido da escuta de possíveis sentimentos de rejeição, medo, culpa e ressentimento que podem estar camuflados por uma postura superprotetora desse filho com deficiência; orientação acerca de aspectos referentes à própria condição do filho, sem esquecer que esses pais precisam estar preparados para atender aos outros filhos do casal que, embora exijam menos cuidados físicos do que aquele que é deficiente, também demandam tempo, carinho e atenção;leva-los ao encontro de suas próprias soluções e ajustes ao novo contexto familiar.

Sobre o Autor:

Sandra Maria Moreira de Menezes - Especialista em Psicologia Clínica pelo Centro de Capacitação em Gestalt-terapia (CCGT-2011), Graduada em Psicologia pela Universidade da Amazônia (UNAMA-2006). Atua como psicoterapeuta em consultório particular desde 2007 e como psicóloga na Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Estado do Pará desde 2008.

Referências:

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AKERMAN, Nathan W. Diagnóstico e tratamento das relações familiares. Porto Alegra: Artes Médicas, 1986.

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CALIL, Vera L. L. Terapia familiar e de Casal: Introdução às abordagens sistêmicas e psicanalítica. São Paulo: Summus, 1987.

CERVENY, Ceneide M. de O. A família como modelo: Desconstruindo a patologia.

COELHO, Antônio Carlos. Considerações sobre a imagem social e auto-imagem das pessoas ditas “deficientes”. Revista Digital de antropologia. Disponível em: <http://www.aguaforte.com/antropologia/deficientes.html> Acesso em: Nov/2005.

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