Resumo: O presente trabalho é resultado de uma revisão bibliográfica sobre a questão da agressividade em crianças de 04 e 05 anos que fazem parte da Educação. O motivo pelo qual se decidiu estudar de forma mais profícua esta temática se dá pela vivência profissional no âmbito da psicologia escolar que permitiu verificar que há muitos profissionais da Educação Infantil que, por variados motivos, se sentem angustiados e impotentes quando necessitam lidar com crianças que apresentam atitudes agressivas no espaço escolar. Assim, por meio desta revisão, buscou-se compreender onde se encontram as raízes da agressividade, bem como até onde se pode afirmar que ela é inerente à formação da personalidade humana. Também para uma melhor compreensão deste fenômeno foi oportuno pesquisar como ocorre o desenvolvimento infantil, à luz da teoria de Jean Piaget, bem estudar sobre o que preconiza a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) para a educação infantil, já que estes conhecimentos são imprescindíveis para uma compreensão global da criança. Por fim, traz-se a empatia por parte do professor como forma de amenizar a agressividade.

Palavras-chave: agressividade, Personalidade em crianças da Educação Infantil, Desenvolvimento infantil.

1. Introdução

O presente trabalho se constitui de uma revisão bibliográfica de uma literatura atual sobre a questão do desenvolvimento da agressividade em crianças que fazem parte educação infantil. Foi pensado a partir da vivência profissional, que acontece no âmbito da Secretaria Municipal de Educação (SEMED) em Manaus, a qual nos possibilita refletir sobre a agressividade desencadeada por crianças que estão matriculadas nesse segmento de ensino, de um modo particular, no primeiro e segundo períodos, obedecendo à faixa etária de 04 e 05 anos. Observa-se nesta prática profissional que as professoras ficam estarrecidas quando se deparam com crianças que não conseguem cumprir regras e quando as mesmas se veem contrariadas, agem de modo agressivo.

A agressividade é um tema bastante recorrente na literatura da psicologia, tendo em vista que faz parte da constituição da personalidade humana. Daí emerge a necessidade de refletir sobre este fenômeno como elemento que favorece a formação de uma personalidade dita normal e em que momento ela pode estar desencadeando atitudes amorais. Assim sendo, é importante para o entendimento da temática que se busque saber como a agressividade é compreendida por teóricos que se têm dedicado a estudá-la, de modo que se possa refletir porque ela se faz tão presente no espaço da escola.

Também à luz dos autores pesquisados, pretende-se despertar nos professores que lidam diariamente com estes alunos uma reflexão sobre atitudes agressivas destes, bem como desenvolver atitudes que possam ajudá-los a compreender como se processa o desenvolvimento infantil e como eles podem cooperar com essas crianças para que aprendam atitudes assertivas de convivência com o outro.

Desse modo, este trabalho está organizado em três capítulos nos quais estão descritas ideias discutidas por diversos autores sobre a questão da agressividade. No primeiro capítulo, será apresentado o conceito de agressividade e o entendimento da mesma como parte inerente ao ser humano; no segundo, dar-se-á destaque a infância como fase de desenvolvimento humano e no terceiro capítulo far-se-á comentários a respeito da educação infantil.

Tem-se como objetivo geral do presente trabalho o estudo da agressividade de crianças de Educação Infantil do primeiro e segundo períodos. Como objetivos específicos, este estudo visa à compreensão do constructo da agressividade nas crianças; à identificação da agressividade, por meio de um estudo bibliográfico, em crianças que cursam o primeiro e segundo períodos de educação infantil e, por fim, à discussão do entendimento dos educadores sobre  a agressividade de crianças.

A metodologia empregada para o alcance dos objetivos mencionados contempla a Pesquisa Bibliográfica. A escolha de tal metodologia  proporciona a possibilidade de vislumbrar o que já foi abordado por outros autores sobre essa temática. Desse modo, a conjunção de tais ideias torna-se material rico para o aprofundamento do estudo sobre a agressividade no que tange à externalização da mesma por crianças de Educação Infantil e pode estar colaborando para que os professores desenvolvam um novo olhar sobre a temática.

2. Fundamentação Teórica

2.1 Conceituando Agressividade

Quando se fala em agressividade esse termo recebe uma conotação negativa por parte de quem o utiliza, ao mesmo tempo em que se compreende que, se existe agressividade é porque algum indivíduo apresenta atitudes agressivas em direção à outra pessoa. Ou seja, para que ocorra uma atitude agressiva sempre haverá seres que se apresentam em situações dicotômicas, isto é, em dois polos opostos: um, sendo o agressor; o outro, o outro agredido.

Caimi e col (2008, p.160) buscam explicar a agressividade a partir de sua etimologia. Segundo estes autores,

A palavra “agressivo” vem do latim gradior, que significa movimento para frente.(...) Essa análise da etimologia nos indica que, quando alguém está no campo da agressividade, está dirigindo-se a alguém, está caminhando em direção a alguma coisa. Há, portanto, um objeto definido e, então, o reconhecimento de uma alteridade.

Dito isto, não raras vezes, tem-se a ideia de que somente alguns seres humanos são agressivos, ou melhor, nascem agressivos, outros não. Pensar deste modo é tornar banal o fenômeno da agressividade e não buscar entender que esse fenômeno é inerente a todo ser humano quando da constituição da sua personalidade.

Assim, conforme Souza e Castro (2008) a agressividade é um fenômeno que se faz presente na constituição psíquica de todo ser humano desde o início do seu desenvolvimento. As ideias discutidas pelas autoras mencionadas buscam sustentação teórica, principalmente na abordagem psicanalítica, já que os estudiosos da psicanálise foram os primeiros a se inquietarem com a questão da agressividade humana. Assim, Ferraril (2006, p.53) postula que os estudos de Freud sobre a agressividade originaram-se da sua prática clínica. De acordo com esta autora,

Rastrear o assunto em sua obra é dispor-se, então, a uma árdua tarefa. Significa deparar-se com a constituição do eu/não eu, prazer/desprazer, amor/ódio, ideal do eu/ eu ideal/, autoerotismo, narcisismo, sadismo, masoquismo e, principalmente, com a tendência restituitória e a pulsão de morte.

Os estudos demonstram que a agressividade é algo inerente ao homem. Partindo dos pressupostos freudianos, a agressividade deriva de instinto. Storr (2012, p. 32), adepto dos preceitos psicanalíticos refere que,

Embora não se tenha ainda uma resposta simples e direta à questão “a agressividade é um instinto?”, o que podemos dizer é que, no homem, bem como em outros animais, há um mecanismo psicológico que, quando estimulado, evoca tantos sentimentos subjetivos de raiva quanto alterações físicas que preparam o corpo para a luta. Esse mecanismo é facilmente desencadeado e- assim como outras reações emotivas- é estereotipado e, nesse sentido, “instintivo”.

Corroborando o pensamento acima, a analista Clara Tompson (apud STORR 2012, p.77) apresenta a proposição de que,

A agressividade não é necessariamente destrutiva, de forma alguma. Ela surge de uma tendência inata de crescer e dominar a vida que parece ser característica de toda matéria viva. Somente quando essa força vital tem seu desenvolvimento obstruído, os ingredientes do medo, raiva e ódio passam a conectar-se com ela.

Outra autora que fala com bastante propriedade sobre o fenômeno da agressividade é Ajuriaguerra. Para ela,

A agressividade pode ser considerada como um estado passageiro ou como parte da evolução individual. Foi a psicanálise que valorizou a importância da agressividade no desenvolvimento, utilizando termos como “pulsão de destruição” e “pulsão de morte”(...) S. Freud descreve as forças pulsionais em oposição- pulsão de autoconservação, de um lado, e pulsão sexual, de outro lado(...). (AJURIAGUERRA S.d, p.409)

Também nos escritos de Souza (apud CAIMI e COL 2008, p.163) encontra-se uma conceituação bastante pertinente sobre agressividade. Diz este autor,

A agressividade inscreve-se dentro do próprio processo de construção da subjetividade, uma vez que seu movimento ajuda a organizar o labirinto identificatório de cada sujeito. Ela deve ser entendida, portanto, dentro de um sistema “dialógico”, amparado amplamente pelo registro só simbólico. Isto significa que a agressividade opera quando há reconhecimento pelo sujeito do objeto a quem ela endereça sua reivindicação agressiva. Um ato agressivo, que pode ter muitas faces e disfarces, seria simultaneamente uma resistência do Eu tentando marcar seus contornos identitários justamente quando o objeto (o Outro) ameça seu lugar, mas também um pedido de reconhecimento e endereçamento de uma mensagem a este outro.

Refletindo sobre tais pontos de vista, pode-se inferir que no desenvolvimento infantil, a agressividade tem um caráter de normatividade, sendo um dos pilares que compreendem este desenvolvimento, mas que ao mesmo tempo é importante que progressivamente, no decorrer do processo maturacional da criança, possam lhe ser apresentadas atitudes que minimizem este fenômeno.

Neste aspecto, Bock (1999), defende a ideia de que, se a agressividade faz parte da constituição do ser humano, é importante que exista um elemento regulador desta agressividade. Para esta autora, este elemento seria a aprendizagem de relações sociais saudáveis que o indivíduo mantém com seus pares, aprendizagem dada por meio da cultura. Nas palavras dela,

A agressividade é constitutiva do ser humano, e ao mesmo tempo, afirma-se a importância da cultura, da vida social, como reguladora dos impulsos destrutivos. Essa função controladora ocorre no processo de socialização, no qual, espera-se que, a partir de vínculos significativos que o indivíduo estabelece com outros, ele passa a internalizar os controles. Então deixa de ser necessário o controle externo, pois os controles já estão dentro do indivíduo. Mas, mesmo assim, em todos os grupos sociais existem mecanismos de controle e/ ou punição dos comportamentos agressivos não valorizados pelo grupo. (BOCK 1999, p.331)

Souza e Castro expõem suas ideias acerca da agressividade à luz de dois expoentes da psicanálise pós-freudiana, quais sejam: Melanie Klein e Winnicott. Elas descrevem que,

O modo e as razões de a agressividade se destacar no funcionamento psíquico-gerando a delinquência e o comportamento antissocial na vida adulta-constituem um processo que se inicia precocemente e está estreitamente ligado ao desenvolvimento infantil. (SOUZA E CASTRO, 2008, p. 838)

Dessas ideias pode-se apreender que, quando um indivíduo apresenta atitudes que são desprovidas de quaisquer valores morais, imprescindíveis para uma convivência salutar com os seus semelhantes, na verdade, tudo é oriundo lá do início do seu desenvolvimento, ou seja, a primeira infância.

Desse modo, as autoras supracitadas enfatizam as ideias de Klein e Winniccot abordando seus dizeres sobre como e porque a agressividade é inerente a todo ser humano e afirmam que,

A criança começa bem cedo a vivenciar os conflitos com suas pulsões destrutivas, já no final do primeiro ano de vida e início do segundo. Trata-se de uma experiência dolorosa, marcada por tensão, angústia, culpa e medo. Quanto menor a capacidade da criança de tolerar esses sentimentos, maior a necessidade de bani-los de seu mundo interno, projetando-os para fora. (SOUZA E CASTRO, 2008, p.838)

Luz (2008, p.114) abordando as ideias de Winnicott sobre agressividade salienta que, para este autor, é necessário considerar pelo menos dois pressupostos sobre a origem da agressividade.

O primeiro diz respeito à sua crença de que os problemas do mundo são resultantes da agressividade reprimida em cada um e não à agressividade do homem em geral.(...) O segundo, apresentado como consequência, defende não a educação de crianças com o objetivo de manejar e controlar a agressividade, mas sim o oferecimento de ambientes emocionais estáveis para o maior número de bebês e crianças, que possam proporcionar, a cada um, conhecer e tolerar como parte de si mesmo o conjunto total de sua agressividade(...).

Corroborando com o que foi postulado acima, Maciel (2008, p.145) afirma que:

A agressividade em Winnicott se constitui, num momento inicial, sem intencionalidade agressiva. Ela faz parte da “expressão primitiva de amor”- “motilidade primitiva”. Só num segundo momento é que podemos falar de uma intencionalidade agressiva quando ela é fruto de frustração. Ou seja, a agressividade/motilidade quando encontra oposição do meio- “algo para empurrar” (...) - volta-se para o bebê, o que contribui para que este saia do seu momento de dependência absoluta e de seus onipotentes objetos subjetivos, para as experiências, potência objetos transicionais, capacidade para a agressão. A agressão é vista, portanto, em seus dois momentos de constituição: fonte de energia de um indivíduo e reação à frustração.

A título de conclusão deste tópico conceitual, considera-se necessário salientar o que Baggio (2011) apresenta como teoria para explicar a origem da agressividade. Segundo esta autora, existem cinco posições teóricas que procuram explicar o fenômeno da agressividade, quais seja: a posição psicanalítica, a posição da etologia, a posição genética, a posição das teorias do drive e a posição da aprendizagem social.

Como no início desta exposição, já foi mencionada a posição psicanalítica, convém que se detenha a conceituação das demais posições. A supracitada autora afirma a posição etológica da agressividade entende este fenômeno como inerente ao indivíduo é motivado por um instinto agressivo de propriedade e que o homem não desenvolveu mecanismos para inibir esta agressividade. A posição genética, por sua vez, esclarece que a origem da agressividade encontra-se em questões hormonais. Já a teoria do drive entende que o indivíduo apresenta atitude agressiva porque são frustrados em suas necessidades. Por fim, a teoria da aprendizagem social, que tem em Bandura seu grande expoente, analisa que causas ambientais são responsáveis pelo desencadeamento de atitudes agressivas. (BAGGIO, 2011).

Em suma, independente de qualquer explicação teórica que se tenha para o fenômeno da agressividade, é importante estudá-la para que se busquem formas mais positivas de convivência humana.

2.2 A Agressividade como Parte Constituinte da Personalidade da Criança

De acordo com Ajuriaguerra (s.d.), “a agressividade pode ser considerada como um estado passageiro ou como parte da evolução individual” (p.409). Esta mesma autora ainda sinaliza que cabe à psicanálise o grande mérito de estabelecer a discussão sobre este tema no que tange ao desenvolvimento do ser humano quando esta inclui em seus conceitos as terminologias “pulsão de agressão”, “pulsão de destruição” e “pulsão de morte” para designar a agressividade.

Corroborando com este postulado, Winnicott considera que a agressividade no início da vida não tem valor de destruição. Ele dá uma importância ímpar ao fator ambiente, descrevendo este como  imprescindível, não somente para que a mesma se manifeste, mas principalmente para que ela seja transformada. (SOUZA E CASTRO, 2008). Nesse aspecto, algo fundamental a se mencionar é a figura materna como elemento essencial para que essa agressividade possa ser transformada. Aliás, quando se usa o termo ambiente na teoria winnicottiana, o mesmo é sinônimo de figura materna, aquela provedora das principais necessidades da criança. Zimerman (2004, p. 348-349) afirma que:

(...) Winnicott concebeu a fundamental importância da presença de uma “mãe suficientemente boa”, do meio ambiente” facilitador, ou complicador”, do desenvolvimento infantil, a noção de espaço e dos fenômenos transacionais; a importância de as crianças brincarem  com outros no sentido de despertarem para a criatividade, o reconhecimento e a socialização(...).

Considerando-se a agressividade como inerente ao ser humano, é fundamental a importância de um ser, que para Winnicott primeiramente é a figura materna, que possa favorecer-lhe situações as quais essa agressividade possa ceder lugar a atitudes socialmente aceitas.

Storr (2012, p. 29) afirma que Melanie Klein deu fundamental importância ao estudo da agressividade, concebendo-a ativa na criança desde o inicio de sua vida. Segundo esse autor:

Na visão de Melanie Klein, há um conflito inato entre amor e ódio em todo bebê, que está presente desde o momento do nascimento, ou pode existir ainda no útero. (...) O ímpeto agressivo é tão violento que a criança experimenta uma intensa ansiedade, tanto em relação à possível destruição das pessoas que cuidam quanto em relação à chance de presenciar sua própria destruição.

Portanto, na visão psicanalítica encontra-se uma argumentação teórica para se considerar a agressividade infantil como um meio de a criança expressar a sua ansiedade. Deste modo, o papel do adulto em relação à criança é de suma importância, pois dependendo de como este compreende e interpreta a agressividade expressa pela criança, ela irá responder de forma positiva ou negativa. Assim, é válido considerar o pensamento de Bender citado por Ajuriaguerra (s.d.) ao constatar que “a criança espera do adulto proteção contra as influências hostis e também que lhe sejam ofertadas amor, alimentação e vestuário” (p.413). Quando, portanto, a criança é privada de afeto, de alimento, de relações de comunicação com outro, enfim quando não tem suas necessidades respondidas de forma assertiva, provavelmente sua conduta se inclinará para a agressividade.

2.3 Características da fase oral secundária

Segundo a teoria psicanalítica, o indivíduo passa por estágios de desenvolvimento dinâmicos que são imprescindíveis para a formação da personalidade. Freud denominou estes estágios como teoria psicossexual da personalidade. Desse modo, Hall e col (2000, p.65) afirmam que

A criança atravessa uma série de estágios dinamicamente diferenciados durante os primeiros cinco anos de vida, depois dos quais a dinâmica fica mais ou menos estabilizada por uns cinco ou seis anos(...) Para Freud, os primeiros anos de vida são decisivos para a formação da personalidade.

Estes estágios que o individuo passa é determinado por uma zona específica do corpo. No que tange ao estágio oral, esta zona é caracterizada pela boca, sendo sua principal fonte de prazer o ato de comer. Entretanto, com o surgimento dos dentes também assumirá a função de morder e mastigar.

Hall e cols (2008, p. 65) postulam que

Comer envolve a estimulação tátil dos lábios e da cavidade oral e do engolir ou, se o alimento é desagradável, do cuspir. Mais tarde, quando surgem os dentes, a boca é usada para morder e mastigar. Esses dois modos de atividade oral, incorporar alimento e morder, são os protótipos de muitos outros traços de caráter que se desenvolvem.

Quando a criança incorpora a segunda função deste estágio, ou seja, o ato de morder e mastigar, ela começa a apresentar uma posição ativa diante do que lhe é apresentado na realidade. Por isso, neste momento diz-se que criança está em um subestágio oral ativo ou agressivo. Biaggio (2011, p. 107) descreve que” Nesta época, que coincide com o início da dentição, morder torna-se a maneira de relacionar-se  com o mundo e representa o início de sentimentos de agressividade, ódio, rivalidade, sadismo.”

Diante do que foi descrito a respeito desta segunda fase ou subestágio oral, constata-se que de acordo com a teoria psicossexual da personalidade, é exatamente neste ponto que se desencadeiam atos agressivos, que neste momento possuem tão somente a função de sobrevivência.

2.4 Diferenças entre agressividade normal e patológica

Antes de propriamente falar-se sobre até onde a agressividade tem um aspecto positivo e em que situações ela pode estar desencadeando nas crianças futuramente atitudes antissociais, pensa-se que seja necessário uma discussão, ainda que bastante sucinta, a respeito do que seja uma personalidade normal e uma personalidade patológica. Para tanto, busca-se em Bergeret (1998) um entendimento sobre esses conceitos. Para esse autor, não se pode ser categórico ao afirmar que esses dois tipos de personalidade se excluem. Pelo contrário, não existe um limite de até onde pode se considerar uma personalidade normal e  essa seja descrita como patológica, tendo em vista que o desencadeamento de um evento ou situação pode proporcionar ao indivíduo, que é dito normal, atitudes consideradas patológicas. A recíproca também é verdadeira, conforme se pode constatar nas palavras de Bergeret (1998, p.25)

(...) Foi amplamente demonstrado, com efeito, pela observação cotidiana, que uma personalidade reputada como “normal” pode, a qualquer momento de sua existência, entrar na patologia mental, inclusive na psicose, e que, inversamente, um doente mental, mesmo psicótico, bem e precocemente tratado, conserva todas as chances de retornar a uma situação de “normalidade”, de forma que atualmente não mais se ousa opor, de maneira demasiado simplista, as pessoas “normais” aos “doentes mentais”, ao se considerar a estrutura profunda.

Partindo dessa compreensão acerca do que seria personalidade normal e patológica, também se pode pensar a respeito da agressividade humana como fenômeno que requer atenção especial, a fim de que não dividamos os seres humanos em agressivos e não agressivos. O melhor seria pensar que, sendo a agressividade inerente a todo ser humano, é importante o desenvolvimento de atitudes positivas que possam ao menos amenizá-la.

Bender citada por Ajuriaguerra (s.d.) enfatiza a importância da  agressividade da criança, pois esta conduta de destruir e construir o objeto paulatinamente, dependendo do que o ambiente lhe favorecer, vai proporcionar-lhe o desenvolvimento de atitudes não mais agressivas, e assim afirma que,

A agressividade seria apenas o resultado de privações ou carências relacionadas com as desarmonias da evolução, que desorganizam ou mecanismos reguladores do que é chamado de “pulsões construtivas”. A agressividade parece (...) como essencialmente reacional a uma carência afetiva. (p.417).

Considerando-se a agressividade como esta carência afetiva, conforme apregoa o autor ora mencionado, faz- se necessário que se busque meios de suprir essa carência, a fim de que no ambiente escolar ou em qualquer outro do qual a criança faça parte ela possa ter condições de desenvolver atitudes favoráveis ao bom desenvolvimento humano.

Corroborando com as ideias expostas acima, Rabelo ( 2007) postula que para que a agressividade não se torne algo extremamente danoso ao individuo, transformando-se deveras em patologia” (...) é necessário que o ser humano se relacione com outros, pois é por meio da socialização que a energia  agressiva é regulada e controlada pelas leis e limites impostos.” (p.10). Todavia, se este processo de socialização for deficiente, sem parâmetros, provavelmente, a agressividade virá à tona em qualquer circunstância, não tendo o sujeito controle sobre ela, e será danosa aos indivíduos. (RABELO, 2007)

3. Conceito de Infância e as Características das Crianças de 4 e 5 Anos

Historicamente o conceito de infância já adquiriu inúmeros significados de acordo com interesses econômicos, políticos e sociais de cada época. Na atualidade, este conceito está atrelado a um aspecto cultural, que tem a escola como seu grande veículo, conforme nos sinalizam Claudia Terrado Nascimento e seus colaboradores no seu artigo Construção Social do Conceito de Infância. Para essas autoras, a institucionalização da escola permitiu que surgisse uma pedagogia voltada para o interesse da infância.

Nos Parâmetros Curriculares para a Educação Infantil (volume 1) encontra-se uma definição bastante pertinente do conceito de infância.

A criança é um sujeito social e histórico que está inserido em uma sociedade na qual partilha de uma determinada cultura. É profundamente marcada pelo meio social em que se desenvolve, mas também contribui com ele (...) a criança, assim, não é uma abstração, mas um ser produtor e um produto da história e da cultura. (p.13)

Fazendo uma reflexão com base no que os Parâmetros estabelecem, observa-se que o desenvolvimento infantil ocorre obedecendo a fatores culturais e sociais do qual a criança faz parte e são estes fatores que vão influenciar diretamente no seu modo de ser e agir na sociedade na qual a mesma está inserida.  

No que tange ao desenvolvimento das crianças de quatro e cinco, público alvo deste estudo, Gesell (1996) apresenta um série de características que são peculiares a estas faixas etárias.

Segundo este autor, as crianças de 04 anos apresenta muito vigor e é positiva. Isso faz que ela não raras vezes tenda a sair dos limites. Seu funcionamento em nível comportamental abarca vários setores de sua vida: motor, de adaptação, de linguagem e sociopessoal.  Há um alargamento nas suas ações motoras, tanto nos seus aspectos físicos como cognitivos. Sua imaginação é fértil. Outro aspecto importante a ser mencionado, é que nesta faixa etária, a criança expressa mais a sua individualidade, é egocêntrica, sendo muitas vezes falante demais, sem querer muito ouvir o outro, não apresentando muito interesse pelos sentimentos dos outros. (GESELL,1996)

Em relação à criança de 05 anos, vê-se que há uma necessidade de maior de segurança e esta se encontra junto aos pais, principalmente na figura da mãe. Esta segurança lhe dá satisfação e faz que ela se sinta confiante e à vontade, assumindo responsabilidades, que ela considera positivas para sua vida. Assim, a vida emocional da criança de cinco anos apresenta certo equilíbrio, não obstante algumas vicissitudes. (IBIDEM)  

3.1 O desenvolvimento intelectual e moral da criança à luz da teoria de Jean Piaget

O teórico Jean Piaget, partindo de sua teoria denominada epigenética buscou compreender como se dá o desenvolvimento das estruturas cognitivas na criança, considerando que estas estão intimamente ligadas ao seu desenvolvimento afetivo e de socialização. Estudou este desenvolvimento a partir de quatro estágios: sensório-motor, pré-operatório, operações concretas e operações formais.

Ajuriaguerra (s.d.) descreve o primeiro estágio como o da inteligência sensório-motora, pois “as sensações, percepções e movimentos próprios da criança  se organizam no que Piaget chama de ‘esquemas de ação’”.(p.24). A Autora ainda acrescenta que,

Durante este período sensório motor, tudo que é sentido e percebido será assimilado à atividade própria da criança. O próprio corpo da criança não está dissociado do mundo exterior e é neste sentido que Piaget

Corroborando com a ideia exposta acima, Biaggio (2011, p. 62) expõe que nesta fase “a criança percebe o ambiente e age sobre ele”.

O segundo estágio de desenvolvimento infantil, de acordo com a teoria piagetiana, designa-se como pré-operatório. Ele é descrito como aquele estagio no qual a criança adquire a capacidade de realizar representações elementares, bem como sua linguagem se torna mais rica, o que permite o desenvolvimento do seu pensamento e de seu comportamento.

O terceiro estágio caracteriza-se pela socialização e objetividade do pensamento da criança. Ela desenvolve a capacidade de autonomia que tem efeito no plano afetivo, cognitivo e moral.

A última etapa de desenvolvimento do ser humano descrita por Piaget é das operações formais. Segundo Ajuriaguerra (s.d) “A característica essencial do pensamento neste nível é a capacidade de se libertar do conteúdo concreto para situar o atual em um conjunto mais vastos de possibilidades”(p.28)

Destes quatro estágios, far-se-á uma breve discussão do pré-operatório, tendo em vista que é neste estágio que se situa a clientela de interesse deste trabalho.

Para Piaget, a aquisição da linguagem seria a mola propulsora para o desenvolvimento da socialização efetiva da inteligência. Todavia, na fase pré-operatória, as crianças ainda apresentam características que impedem de utilizar esta inteligência de modo equilibrado. De acordo com Taille (1992), existem dois fatores que se apresentam como empecilho para a efetivação desta inteligência. Primeiro, a criança pré-operatória não possui uma única referência e, em segundo lugar, ela não desenvolveu ainda a capacidade de conservação daquilo que num primeiro momento elas têm como corretas.

Outro aspecto importante presente na teoria de Jean Piaget diz respeito à formação da moral na criança e como ela está ligada as relações sociais que a mesma estabelece com o outro. Este autor denomina tais relações de “relações interindividuais” e afirma que elas podem ocorrer sob as formas de coação ou cooperação.

Piaget citado por Taille (1992, p.58-59) define estas relações da seguinte forma:

A relação de coação (...) é uma relação assimétrica, na qual um dos pólos impõe ao outro suas formas de pensar, seus critérios, suas verdades. É uma relação onde não existe reciprocidade. As relações de cooperação (...) são simétricas, portanto, regidas pela reciprocidade. São relações constituintes, que pedem, pois, mútuos acordos entre os participantes (...). Somente com a cooperação, o desenvolvimento intelectual e moral pode ocorrer, pois ele exige que os sujeitos se descentrem para poder compreender o ponto de vista alheio.

Apresentados os conceitos acima sobre como se estabelecem as relações sociais na teoria de Jean Piaget, é importante que se faça uma breve reflexão sobre seus postulados a este respeito. Quando estas relações se  fixam somente na coação, estar-se-á colaborando para que se instigue no indivíduo o desejo de dominação e autoritarismo sobre o outro. Isto, sem dúvida, é prejudicial ao desenvolvimento intelectual da criança, que interiorizará como adequado ser superior ao outro. O próprio Piaget já afirmava que um dos males causados pela coação era o desenvolvimento do egocentrismo na criança. Todavia, segundo este autor, no início do seu desenvolvimento moral, toda criança passa pelo processo de coação.

No que tange às relações de cooperação, são exatamente estas que permitem a criança a ter um espírito de solidariedade, desenvolvendo paulatinamente a empatia. Além disso, a cooperação caracteriza-se por apresentar o nível de socialização mais elevado do indivíduo, promovendo o seu desenvolvimento. (TAILLE, 1992).

A mola mestra da cooperação é a reciprocidade. Segundo Taille (1992, p.61),

Na cooperação (...) o critério (...) é o da reciprocidade, o que não significa “fazer igual ao outro”, mas sim, coordenar o ponto de vista próprio com o ponto de vista do outro. O bem, a respeito do qual cada indivíduo chega com uma perspectiva pessoal é redefinido na relação de cooperação pela mútua coordenação das diferentes perspectivas em jogo.

O espírito de cooperação significativo no desenvolvimento moral da criança está entrelaçado ao aspecto da afetividade, visto que ela proporciona ao ser humano de forma livre a vivenciar atitudes altruístas em relação ao seu semelhante. Taille (1992, p.70), analisando as ideias  de Piaget a este respeito postula que

(...) vemos afeto e moral se conjugarem em harmonia: o sujeito autônomo não é um “reprimido”, mas sim um homem livre, pois livremente convencido de que o respeito mútuo é bom e legítimo. Tal liberdade lhe vem de sua Razão, e sua afetividade “adere” espontaneamente a seus ditames.

De tudo que foi exposto acima, é possível inferir que dois elementos são imprescindíveis para o desenvolvimento moral da criança, segundo os estudos e pesquisas realizadas por Jean Piaget. São eles a afetividade e a inteligência. Assim, pensa-se que, não obstante o papel da família no desenvolvimento deste aspecto moral, tendo em vista que é neste ambiente que se constroem as primeiras relações interindividuais postuladas por Piaget, a escola pode estar colaborando de forma assertiva na formação do juízo moral da mesma, já que na sociedade esta Instituição ocupa um papel elementar de formadora de valores morais, tão fundamentais para a convivência em sociedade norteada por valores como respeito, solidariedade, justiça, cooperação.

3.2 A importância da escola para o desenvolvimento global da criança

Dentre os fatores que são imprescindíveis para o desenvolvimento da criança, a educação se configura como um dos mais importantes, já que é por meio do processo educacional que ela desenvolve a capacidade de apreender o mundo a sua volta.

Indubitavelmente à família cabe no primeiro momento a responsabilidade da educação. Entretanto, a sociedade criou a Instituição Escolar como espaço propício para a continuação da mesma, ou seja, os aspectos afetivos, motores e cognitivos têm a contribuição da escola para o seu desenvolvimento.

BOCK (2009, p.267) afirma que,

A escola apresenta-se hoje como uma das mais importantes instituições sociais por fazer, assim, como outras, a mediação entre o indivíduo e a sociedade. Ao transmitir a cultura e, com ela, modelos sociais de comportamento e valores morais, a escola permite que a criança seja humanizada, cultivada e socializada ou, em uma palavra, educada. A criança vai, então, deixando de imitar os comportamentos adultos para, aos poucos, apropriar-se dos modelos e valores transmitidos pela escola, aumentando assim sua autonomia e seu pertencimento ao grupo social.

Em relação à criança, pode-se afirmar que a escola se apresenta como um novo espaço social, no qual ela vai aprender novas formas de adaptação e interação social, conhecendo uma nova realidade, que até então lhe era alheia.

Ajuriaguerra (s.d) afirma que,

Para a criança, entrar na escola, é entrar em um mundo novo, onde ela deverá adquirir um certo número de conhecimentos(progressivamente mais complexos) que lhe serão necessários em dada sociedade, e cujas bases(pelo menos) serão indispensáveis a seu futuro desenvolvimento. É uma novidade, não apenas do ponto de vista psicológico geral (...) como também do ponto de vista afetivo (...) (p.804).

No que concerne à educação infantil, Rocha (1999) apud Ministério da Educação (2006, p. 17), no que se refere aos Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil pontua que

Enquanto a escola tem como sujeito o aluno, e como objeto fundamental o ensino nas diferentes áreas através da aula; a creche e a pré-escola têm como objeto as relações educativas travadas num espaço de convívio coletivo que tem como sujeito a criança de 0 a 6 anos de idade.

Apreende-se das ideias acima que a educação infantil tem uma especificidade quanto ao papel educativo. Para este segmento da educação, o que é fundamental é que a criança possa ter a possibilidade em outro espaço social, que não seja o seu lar, desenvolver em seus aspectos cognitivos, afetivos e motores, mas também possa ser potencializada a manter relações interpessoais de forma construtiva. Olhando por este prisma, ela indubitavelmente é de fundamental importância na vida da criança.

Desse modo, sendo este segmento da educação básica de fundamental importância para a socialização da criança, convém que se mencione a figura do professor da educação infantil como elemento chave para esta socialização se estabeleça. Ribeiro (2008, p.168 ) preconiza que

A figura central na escola para a criança pequena é a professora. Ela está participando dos papeis parentais na medida em que a criança de 2 a 5 ou 7 anos está em franco processo de construção dos relacionamentos pessoais, formação de uma consciência pessoal, enriquecimento cultural, elaborações acerca do próprio corpo e construção do seu futuro.

4. O Que é Educação Infantil

A Educação Infantil pode ser definida como a primeira fase de escolarização formal da criança. Compreende desde o período em que a criança é matriculada na creche até o término do segundo período por volta dos cinco anos de idade.  Fazendo parte da Educação básica, este segmento encontra seu alicerce fundamental na Lei de Diretrizes e Bases da Educação 9394/96 que por sua vez se subsidia na Constituição Federal de 1988, a qual reconheceu como direito da criança pequena o acesso a creches e pré-escolas. Cerisara (2002, p. 328) afirma que “Esta lei colocou a criança no lugar de sujeito de direitos, em vez de tratá-la, como ocorria nas leis anteriores a esta, como objeto de tutela”

Corroborando com a ideia exposta acima, Correa (2003, p. 91) descreve que:

Quanto à questão educacional, o aspecto mais relevante da Constituição Federal de 1988 para a educação infantil está em seu art. 208, inciso IV, ao afirmar que “o dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: (...) atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade.”    

Já as Diretrizes Curriculares para a Educação Infantil preconizam que este segmento de ensino é:

Primeira etapa da Educação Básica oferecida em creches e pré-escolas, as quais se caracterizam como espaços institucionais não domésticos que constituem estabelecimentos educacionais públicos ou privados que educam e cuidam de crianças de 0 a 5 anos de idade no período diurno, em jornada integral ou parcial, regulados e supervisionados por órgão competente do sistema de ensino e submetidos a controle social. (p.12)

Luz (2008) assinala que a educação infantil possui características peculiares se comparada aos outros segmentos da educação formal, tendo em vista que as necessidades das crianças ocorrem em três esferas distintas, a saber: motoras, psíquicas e sociais. Nas palavras da autora:

As crianças (...) de 0 a 5 anos têm necessidades específicas de cuidado e por isso cabe aos responsáveis propiciar situações que lhes auxiliem a  adquirir capacidades motoras( sentar, andar, controlar os esfíncteres) psíquicas( falar, pensar) e sociais(estabelecer relações com os outros-crianças e adultos). (LUZ, 2008, p.120)

O relatório síntese sobre a Pesquisa Nacional Caracterização das práticas educativas com crianças de 0 a 06 anos residentes em área rural (2012, p. 10) apresenta a seguinte definição para a educação infantil:

A educação Infantil, primeira etapa da educação básica, constitui um campo de políticas práticas e de conhecimento em construção, que se consolida no bojo do processo de conquistas democráticas recentes da sociedade brasileira. Legalmente, integra-se ao sistema de ensino desde 1996 e compreende as creches para crianças até 03 anos de idade, e as pré-escolas, para crianças de 04 e 05 anos.

Ainda se encontra no relatório supracitado que a Educação Infantil, nos últimos anos sofreu duas mudanças significativas. A primeira se refere  a idade de término deste segmento de ensino que passou da idade seis para cinco anos, antecipando-se a iniciação do ensino fundamental I. Esta mudança ocorreu em 2006. A segunda mudança, que está embasada na Emenda Constitucional nº 59, de 2009, estabelece que a obrigatoriedade da matrícula/frequência na pré-escola para crianças de 04 e 05 anos.

Assim, a educação formal passa a ser também direito fundamental da criança ainda nos seus primeiros anos de vida, considerando-se que as Instituições Creche e pré-escola possuem uma participação direta no desenvolvimento das crianças em consonância com suas respectivas famílias.

Essa entrada precoce da criança na escola é pertinente no sentido de que pode estar favorecendo uma melhor socialização da mesma com seus pares desde o início do seu desenvolvimento. Entretanto, esta socialização será positiva quando a mesma no ambiente escolar encontrar indivíduos que a auxiliem neste processo. Pensa-se que um dos atores fundamentais a estabelecer esse vínculo seja a figura do professor. Por isso é imprescindível que o profissional que for trabalhar neste segmento da educação tenha uma preparação física e emocional que lhe permitam a lidar com crianças tão pequenas ainda, seres em constituição nos seus aspectos biopsicossociais.

Ribeiro (2008, p.175) preconiza que

Na educação infantil são necessários adultos confiáveis, com os quais a criança possa se identificar-se pelos seus verdadeiros sentimentos e atos e, não pela sua capacidade de falar em educação, inclusive educação sexual. Nas brincadeiras pré-escolares está o mais valioso recurso para as crianças perguntarem e darem respostas, inclusive sobre as questões sexuais: são os pequenos médicos, professores e enfermeiras, pais, mães em diversas situações relacionadas aos processos de identificação. Tais brincadeiras lhes ensinam mais sobre a vida e sobre si mesma do que uma intelectualização sobre a sexualidade.

4.1. O desenvolvimento da empatia como estratégia contra atitudes agressivas.

A partir da compreensão de que a empatia é a capacidade que o indivíduo desenvolve se colocar no lugar do outro a fim de que possa entender a dinâmica do modo de ser e viver deste outro, postula-se que ela pode ser um instrumento necessário na relação professor-aluno para a redução de atitudes agressivas apresentadas por crianças em idade escolar.

Pavarino e col. (2005) postulam que, sendo a empatia uma das subclasses das habilidades sociais, três elementos estão inseridos na sua definição, a saber: o afetivo, o cognitivo e o comportamental. Eles afirmam que ”Sob este enfoque, ela se caracteriza como a capacidade de apreender sentimentos e identificar-se com a perspectiva do outro, manifestando reações que expressam essa compreensão e sentimento” (p.02)

Estes mesmos autores em um artigo intitulado O desenvolvimento da empatia como prevenção da agressividade na infância apresentam algumas contribuições que , segundo eles, podem colaborar para que a criança em idade pré-escolar possa estar desenvolvendo atitudes altruístas. Estas contribuições são:

  • a) disseminar, junto a pais e demais educadores, informações e dados que atestam a importância da empatia no desenvolvimento e ajustamento psicossocial da criança;
  • b) definir uma variedade de comportamentos pró-sociais e empáticos com diferentes graus de complexidade, que deveriam ser objeto de ensino por parte dos educadores, planejar programas de desenvolvimento emocional na escola, desde as primeiras séries;
  •  c) planejar e conduzir programas de treinamento de pais, segundo as necessidades dos mesmos, auxiliando-os a lidar com comportamentos agressivos da criança e a promover habilidades sociais e outros comportamentos empáticos da criança.

Diante dessas observações feitas pelos autores mencionados, salienta-se que na relação professor- aluno é importante que aquele busque meios de entender como está se desenvolvendo a personalidade desta criança, que situações emocionais perpassam a sua existência ainda inicial, e por fim como tem sido expressa a sua afetividade.

Diante disso, Koller apud Krticka (2013,p.07) postula que,

A agressividade não deve ser respondida com agressividade, mas com outro tipo de resposta mais adaptativa, que reflita o entendimento. A empatia e a argumentação lógica são passíveis de ser compreendidas cognitivamente pela criança. É necessário que profissionais estejam cientes desses dados no momento de planificar programas de prevenção e intervenção e, também, sejam tolerantes com essas crianças, considerando características dos contextos nos quais estas de desenvolvem.

A este respeito, é pertinente o que Dolto (1999) afirma sobre o comportamento agressivo da criança. De acordo com esta autora, as atitudes agressivas apresentadas pelas crianças são resultados de um ambiente inóspito no qual ela está inserida e que reflete toda uma dinâmica familiar dos quais seus cuidadores fazem parte.

Nas suas próprias palavras:

Quando vemos uma criança instável e agressiva chegar (...) é preciso ver a mãe, o pai ou a avó, em resumo, a pessoa que cuida dela. As crianças agressivas de modo crônico são filhas de pais inibidos por recalque, o que quer dizer agressividade. Quanto mais inibidos e depressivos são os adultos que cuidam da criança, mais a criança tem de ser agressiva para falar a linguagem daquilo que está recalcado no adulto (...). (DOLTO, 1999, p. 176)

Considerando-se este posicionamento, é possível que a criança que no espaço escolar apresenta agressividade contra seu colega ou então até mesmo contra seu professor ou professora aos poucos vá desenvolvendo atitudes que vão ao encontro daquilo que se espera para a vivência de  valores indispensáveis para a convivência em sociedade de forma harmoniosa.

Neste aspecto, a escola pode dar a sua colaboração, no sentido de que, quando as crianças apresentarem condutas consideradas pelo professor agressivas, este ter a capacidade de fazer uma leitura mais profunda desta agressividade. Segundo Caimi e Col (2008, p.169)

É preciso compreender que, na Educação Infantil, há crianças que estão em pleno processo de constituição do seu eu.(...)Retomando a ideias de que o eu se constitui a partir do outro, a agressividade, sendo dirigida a um objeto pré-determinado, vislumbra a existência  de uma alteridade. Supomos que os professores de Educação Infantil são colocados neste lugar, sendo suportes para que as crianças  direcionem este aspecto de sua psique.

Outro ponto que se considera importante a ser discutido quando se trata da temática da empatia como forma de minimizar condutas agressivas na escola, é que a escola necessita criar estratégias que possam ajudar a manifestação desta agressão ser transformada. Souza e Castro (2008, p.844) assinalam que,

(...) a escola não pode deixar de vivenciar manifestações de comportamento agressivo. Ao oferecer um ambiente relativamente estável, com regras claras, a escola configura um espaço de confiabilidade, constância e segurança, muitas vezes ausente da história de vida de algumas crianças. Assim, elas depositam suas necessidades de atenção, afeto e firmeza nos educadores, esperançosas de contarem parâmetros e limites que, geralmente, não foram estabelecidos pela família.

Em suma, pensa-se que a escola, e de um modo particular a figura da professora, tendo em vista que é ela a protagonista escolar que mais convive com a criança no espaço escolar, possui um grande responsabilidade, mas ao mesmo tempo uma nobre tarefa de ajudar a criança neste seu processo de desenvolvimento a paulatinamente ir internalizando atitudes que lhe permitirão a manter relações interpessoais concernentes a um bom convívio em sociedade. Basta usar da sua empatia, sentimento tão sublime que pode mudar pensamentos e concepções às vezes muito arraigados em nossa sociedade.

5. Considerações Finais

A produção deste texto surgiu da inquietação de verificar na vivência profissional, que ocorre no campo da psicologia escolar, que inúmeros professores sentem enormes dificuldades em lidar com crianças que estão sob a sua competência, quando as mesmas externalizam atitudes agressivas no espaço escolar. Tem-se observado que isso lhes causas deveras angústias, que as têm deixado em atitudes de inércia.

Diante desta constatação, buscou-se por meio de uma pesquisa bibliográfica, se apropriar de alguns conceitos teóricos no que tange à questão da agressividade para uma melhor compreensão deste fenômeno, de modo que na prática profissional se possa estar colaborando com o trabalho do professor, no sentido de proporcionar-lhe um melhor entendimento sobre esta temática, considerando-se que, se o professor apreende que a agressividade é inerente a todo ser humano no início de seu desenvolvimento, ele estará apto a lidar melhor com a agressividade infantil.

Assim, a reflexão inicial deste trabalho que trouxe o olhar de diversos autores sobre a agressividade nos permitiu compreender que se faz necessário num primeiro momento do desenvolvimento este caos de formação de conceitos para que ele no seu processo maturacional possa organizar estes conceitos de modo a lhe trazer um equilíbrio de conduta. Ressaltando um pouco sobre a questão da criança de quatro e cinco anos, público alvo deste estudo, é importante salientar que, antes mesmo de ela estar com sua personalidade formada e suas funções cognitivas equilibradas, ela vai para a escola, ou seja, começa seu processo educativo formal na educação infantil. Então, considera-se normal que ela  leve consigo para esta nova instituição educacional toda a sua dinâmica inicial de vida, seu modo de apreender a realidade, que ainda é o mesmo do seu primeiro ambiente social, qual seja, a escola.

Neste sentido, destaca-se o papel ímpar da professora para buscar compreender esta dinâmica vivencial da criança, que é natural que apresente atitudes egocêntricas, e que quando frustrada em suas necessidades e em seus desejos mais peculiares, desencadeie atitudes agressivas como forma de defesa de suas necessidades. Por isso, acredita-se que ao professor cabe pensar em estratégias que possam imbuí-lo de comportamentos e atitudes assertivas que vão ajudá-lo a saber lidar com crianças que apresentam atitudes agressivas na escola de educação infantil.

A partir desta pesquisa de cunho bibliográfico, encontrou-se como uma estratégia bastante significativa o desenvolvimento da empatia por parte dos professores. Nosso pensamento se coaduna com esta ideia da empatia porque se acredita que ela pode proporcionar ao professor uma reflexão mais profícua sobre o porquê de a criança estar apresentando agressividade, ainda mais quando o professor não raras vezes observa alunos que na mesma faixa etária apresentam comportamentos ditos adequados por ele, ou seja, aquela criança que o professor considera bem comportada. Isto se verifica bastante na vivência profissional.

Também se considera necessário salientar que o professor que trabalha no segmento de educação infantil tem indubitavelmente uma grande responsabilidade, mas também um grande privilégio em poder realizar o seu saber-fazer com uma clientela numa faixa etária tão importante do desenvolvimento que é a infância, condição imprescindível para que o professor possa estar fazendo um autorreflexão sobre a sua prática profissional, e quem, sabe reelaborando conceitos antes tão arraigados no que concerne a crianças que expressam agressividade no âmbito da Instituição Escolar.

Por fim, registra-se que o estudo das produções científicas que subsidiaram a realização deste trabalho foi considerado de suma importância para o alargamento de nosso entendimento da agressividade infantil de crianças que frequentam a pré-escola e de como se pode amenizá-la a ponto de que novas atitudes sejam internalizadas pelas crianças. Sabe-se que muito conhecimento ainda precisa ser produzido sobre esta temática, mas pensa-se que um primeiro passo em direção a este conhecimento já foi dado, sem jamais deixar de considerar que é um passo pequeno, que, todavia sugere que outros estudiosos se sintam estimulados para se aprofundarem no estudo de tal temática. Assim, espera-se que aconteça.

Sobre o Autor:

Maria da Conceição Farias da Silva - Atua como psicóloga no Centro Municipal de Atendimento Sociopsicopedagógico( CEMASP), órgão vinculado à Rede Municipal de Ensino da Cidade de Manaus. Formada pela Universidade Federal do Amazonas.

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