Resumo: O presente artigo irá explanar os conhecimentos sobre o desenvolvimento histórico da psicologia educacional, bem como a atuação do psicólogo no contexto escolar. O artigo foi baseado na Prática Acompanhada em Observação I, realizada no Centro de Educacional de Novo Horizonte (CENHO) - SC. A metodologia utilizada para a elaboração do artigo foi o levantamento bibliográfico, com ênfase na Psicologia Histórico-Cultural, onde se configura na exposição de determinadas reflexões relativas ao desenvolvimento da Psicologia Educacional, seu surgimento, evolução e desenvolvimento no Brasil. Deste modo, enquanto acadêmicos do Curso de Psicologia da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (UNOCHAPECÓ), buscamos enfatizar os “problemas escolares” em desenvolvimento e aprendizagem e o papel da psicologia da educação, tornando possível conhecer um pouco da história da psicologia no Brasil, as práticas pedagógicas e o campo da educação, considerando enfaticamente os fatores históricos implicados no processo, que não se trata somente de pincelar os fatos, mas de percorrer os passos que a psicologia da educação tem percorrido. Este trabalho possibilitará ao leitor um entendimento sobre a história da educação, bem como, a inserção do psicólogo no contexto escolar. Veremos que as ideias psicológicas penetraram nas concepções e práticas educativas e as demandas no campo de atuação, a qual contribuiu para o desenvolvimento e consolidação como área específica da educação.

Palavras-chave: Psicologia Educacional. Educação. História da Psicologia no Brasil.

1. Introdução

Ao longo do trabalho enfatizaremos a evolução da Psicologia Educacional, tendo como referência o conhecimento de uma área que se propunha a estudar questões relacionadas à educação escolar e a compreensão do homem, em sua dimensão histórica. Além disso, a evolução proporcionou o surgimento do psicólogo escolar com a função de resolver problemas escolares, bem como o objetivo principal do psicólogo escolar que é “ajudar” com vistas a aumentar a qualidade e a eficiência do processo educacional, por meio dos conhecimentos psicológicos.

Baseando-se na Prática Acompanhada em Observação I, realizada na instituição Centro Educacional de Novo Horizonte, no município de Novo Horizonte (SC), e nas teorias de educação da Psicologia Histórico-Cultural, buscou-se desenvolver este artigo com o objetivo de evidenciar teoricamente questões vivenciadas nos estágios de observação em que foram de grande relevância ao processo de educação escolar, considerando com precisão os aspectos históricos na construção do campo da Educação e da Psicologia da Educação no Brasil.

Justifica-se pela importância da ciência psicológica e, acima de tudo, está a par da grande necessidade de elementos concretos. Busca-se um conhecimento comprometido com a transformação da realidade educacional, uma ampliação do olhar sobre o fenômeno psicológico, demandado por categorias, teorias e conceitos que possam a dar conta, bem como a construção de novas práticas para que possam responder aos desafios que atribuem a Educação e a Psicologia.

Será abordado o papel da Psicologia da Educação no Brasil em diferentes épocas, inicialmente explanando com breves comentários a respeito da história da psicologia educacional e da compreensão da dimensão do campo da educação escolar e suas implicações na sociedade, considerando as funções sociais da educação, as relações de poder e de dominação estabelecidas pelas instituições de ensino e os desafios propostos pelas autoras Rosa e Serrão (2000-2005) para a educação. 

Posteriormente, realizar-se-á uma retrospectiva da história da Psicologia no Brasil e seu reconhecimento enquanto ciência e profissão, tornando-se necessário conhecer a área de saber científico e práticas, enfatizando o desenvolvimento das ideias psicológicas que começam a penetrar nas concepções e nas práticas educativas pedagógicas e as contribuições para o desenvolvimento e a consolidação da Psicologia Educacional como área específica de atuação a partir das demandas do campo da educação, principalmente a preocupação com a constituição da personalidade da criança, os problemas de desenvolvimento e aprendizagem e a implantação do ensino das Escolas Normais.

Em seguida, problematizaremos o papel do Psicólogo da Educação como agente de mudanças, expondo as transformações que ocorreram na área da Psicologia Educacional e as discussões entre os profissionais da Psicologia da Educação. Apresentando os processos educativos que implica no pensar da educação, a função do professor e o pensamento educacional crítico, pautando os objetivos do fazer científico da Psicologia Educacional por uma educação mais democrática e efetiva.

Depois, buscamos expor os passos do processo de estágio do componente curricular de Prática Acompanhada em Observação I, do segundo semestre do curso de psicologia da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (UNOCHAPECÓ), descrevendo sucintamente a instituição escolar observada, o Centro Educacional de Novo Horizonte, a forma de funcionamento desta, os estudantes, professores e demais funcionários que fazem parte e, sobretudo, a configuração do nosso olhar psicológico e cartográfico sobre a instituição em sua totalidade.

Por fim, foram expostas as considerações finais do artigo buscando evidenciar questões relativas ao desenvolvimento da área da Psicologia da Educação e os processos educacionais envolvidos, fundamentando-nos em autores e teóricos provenientes em sua maioria da abordagem Histórico-Cultural, de compreensão dos sujeitos como sendo frutos de seu passado historicamente construído e das suas relações sociais, onde os sujeitos se desenvolvem inseridos dentro de seu próprio contexto, com costumes, valores, normas e padrões culturais estabelecidos.

2 .O Papel da Psicologia Educacional em Diferentes Épocas

2.1 Breves comentários em relação à história da Psicologia Educacional e à compreensão da dimensão da Educação e suas implicações

Considerados os limites postos para este artigo, optamos por enfocar aspectos relacionados à “escola” e à “atuação do psicólogo” dentro do campo da educação, sobretudo com base nas escolas, enfatizando elementos históricos abordados por autores e que dão suporte teórico para entendermos com mais profundidade a história da psicologia dentro do campo da educação, relacionando esta às questões e às preocupações tidas em variados momentos da história humana, em suas raízes e após seu surgimento.

A atuação da Psicologia Educacional refere-se ao exercício profissional do psicólogo que atua no campo da educação, seja ela em escolas ou não. Para dar conta de inserir-se no campo da educação, deve apropriar-se de diferentes elaborações teóricas construídas por outras áreas do saber. Para exemplificar, a Pedagogia e a Filosofia, de forma a assumir um compromisso teórico e prático com as questões escolares e constituir-se em seu foco principal de reflexão. Portanto, significa que é do trabalho desenvolvido no interior das escolas onde emergem as questões para as quais se deve buscar os recursos explicativos e metodológicos, que possam estar orientando a ação do psicólogo escolar (MEIRA, 2000).

Conforme os autores Rosa e Serrão (2000-2005), a escola é uma “instituição disciplinar” em crise diante da transformação das “sociedades disciplinares” em “sociedades de controle”, e, apesar de estar em crise, ainda mantém sua função de domesticar mentes e corpos, deste modo, assim de produzir diferenças, distinções e desigualdades, mas para outros autores, a escola se apresenta distanciada do presente e sem “funcionalidade” para o futuro. Outros ainda, dizem que a escola constitui-se num meio relevante no processo de formar pessoas dotadas de autonomia e discernimento crítico.

Segundo a concepção das autoras citadas acima (2000-2005), percebe-se a escola, por um lado, como produtora das relações de poder e dominação, mas por outro, a escola é percebida como instrumento e parte na luta social pela emancipação. Ao que se parece, parte dos professores ou pesquisadores, dentro os quais, apesar de apresentar uma posição crítica, encontra em dificuldades de compreender a escola em sua história. Portanto, a escola, ao mesmo tempo em que reproduz a sociabilidade burguesa, reproduz as contradições desta forma de organização social e que contribui elementos necessários, ainda que não suficientes, à negação e à superação desta mesma sociedade.

Neste sentido, Rosa e Serrão (2000-2005) apontam alguns desafios a serem buscados pela escola e pelos profissionais, tais como: propor objetivos e finalidades para a formação escolar que contribuem para a valorização social da mesma e possibilitem a criação de sentido pelos sujeitos envolvidos na formação, sendo que definam métodos e condições, por meio das quais seja possível concretizar as propostas, para que possibilitem a formação de um sujeito crítico e sensível, entendido como um sujeito que dispõe conhecimentos, valores e instrumentos intelectuais e afetivos necessários à compreensão de sua existência e a crítica social.

De acordo com Durkhein (1893 apud PATTO, 1984), cabe a educação a função de constituir um ser social solidário em cada novo indivíduo, ou seja, é a ação exercida pelas gerações adultas sobre as gerações que ainda não estão preparadas para a vida social. Desta maneira, esse ser não nasce com o indivíduo, é preciso que a educação agregue neste ser. Não se pode, destinar uma criança às profissões somente pela função do seu local de nascimento ou origem social, mas também as aptidões individuais. Portanto, a educação, enquanto instituição socializadora desempenha nas sociedades a homogeneização e a diferenciação de seus integrantes.

Dewey (1959 apud PATTO, 1984) defende que é preciso criar nas escolas uma projeção do tipo de sociedade para obter e atuar de maneira a formar os espíritos em conformidade com o ideal. Refere-se aos conteúdos objetivos da nova educação, que reconheça a significação intelectual e social de uma vocação incluiria em si a instrução sobre os antecedentes históricos das condições sociais para proporcionar compreensão e pôr o trabalhador em contato com os problemas atuais.

Althusser (apud PATTO, 1984) fala que a escola, ao mesmo tempo em que ensina técnicas e conhecimentos, ensina as regras dos bons costumes, ou seja, transmite a ideologia dominante em estado puro. Além, de cumprir o papel de qualificar a mão-de-obra, conforme as necessidades do sistema distribuem os cidadãos pelos vários tipos de atividades produtivas existentes na sociedade, através dos mecanismos. Estes mecanismos reproduzem resultado e que são dissimulados por uma representação ideológica universal da escola como uma instituição neutra, desprovida de ideologia.

2.2 Retrospectiva da História da Psicologia

A Psicologia, como campo de saber científico e de profissão reconhecida, bem como no contexto da educação escolar, surgiu inicialmente no Brasil como uma espécie de profissão “resolvedora de problemas”, visão que ainda perdura em diversos contextos na atualidade. Explanaremos então, o processo de desenvolvimento histórico da inserção da Psicologia no Brasil e a produção de ideias psicológicas, antes e durante o reconhecimento da mesma como ciência e profissão, e como se constituía inicialmente seu caráter de fazer científico.

Para Massimi (1984 apud ANTUNES, 2003), a educação articulada às preocupações psicológicas têm sido: aprendizagem, natureza dos determinantes do desenvolvimento psicológico da criança, influência dos pais sobre o desenvolvimento dos filhos, desenvolvimento sensório-motor, intelectual e emocional, motivação, papel do jogo no desenvolvimento, controle e manipulação do comportamento, utilização de prêmios e castigos como instrumentos de controle do comportamento infantil, processo de formação da personalidade da criança, educação feminina e educação indígena.  

A personalidade da criança, de acordo com Meira e Antunes (2003), era concebida como processo mutável, cabendo a educação “moldá-la”, no sentido de “domar” sua tendência inata, mais tarde denominada interacionista em Psicologia e Desenvolvimento. Massimi (1984 apud ANTUNES, 2003, p. 141), fala que “(...) um aspecto muito importante a ser salientado é o pressuposto ambientalista com relação à personalidade infantil e a confiança absoluta no poder da educação como fator de determinação do comportamento”.

Por sua vez, o castigo poderia afetar o desenvolvimento da personalidade da criança. Havia uma preocupação com o ritmo da aprendizagem. Neste sentido, os autores estavam preocupados com a educação dos meninos “rudes”, isto é, aqueles que poderiam hoje ser considerados como tendo “dificuldades escolares”. Defendiam que essas crianças deveriam ser tratadas com prudência de forma não punitiva, com a finalidade de apurar suas capacidades. Portanto, é de afirmar que a criança e seu processo educativo foram motivo de preocupação no período colonial e rica fonte de ideias psicológicas articuladas à prática educativa (ANTUNES, 2003).

Uma das mais importantes fontes de produção de ideias psicológicas foi com o surgimento do ensino superior instalado no Brasil no século XIX e a psicologia, por sua vez, era definida como ciência do comportamento, com a finalidade de compreendê-lo para modificá-lo, identificar aspectos diferenciais – os mais e os menos dotados, além de avaliar e “medir” comportamentos. As dificuldades de desenvolvimento e de aprendizagem estavam calcadas no próprio sujeito e a personalidade da criança era idealizada (ANTUNES, 2003).

O processo de desenvolvimento histórico da Psicologia, como ciência e profissão, contribuíram significativamente para consolidação da Psicologia da Educação como área de saber e de atuação psicológicos específicos. Isso se deve à produção e à propagação de ideias psicológicas por parte das Escolas Normais, do ensino superior implantado no Brasil e das práticas higienistas provenientes da medicina e da psiquiatria, onde a psicologia torna-se constitutiva do pensamento educacional e da pedagogia (ANTUNES, 2003).

Ainda segundo a autora citada acima (2003), as Escolas Normais começaram a ser instaladas no Brasil, a partir de 1930, sendo a primeira delas em Niterói\RJ. Embora, se preocupassem com a formação de professores, tendo seus cursos durante dois anos e poucas aulas práticas, houve uma preocupação com a metodologia de ensino, com o conhecimento sobre o desenvolvimento da criança, incluindo fatores relacionados à aprendizagem.  ­­

É importante assinalar que a primeira formalização do ensino de Psicologia ocorreu em 1890, com a Reforma Benjamin Constant, quando a disciplina de Filosofia foi substituída por Psicologia e Lógica, o que teria influenciado a disciplina de Pedagogia e Psicologia. Ainda, em Pedagogia, antes de sua conjunção com a Psicologia, encontram-se temas psicológicos, como: educação das diversas faculdades psíquicas humanas, ou seja, a inteligência, as sensações e a vontade, processos envolvidos na aprendizagem e utilização de recompensas e castigos como instrumentos educativos, além do desenvolvimento psicológico (ANTUNES, 2003).

Registra-se ainda que, além de todos os problemas enfrentados no Brasil, a questão educacional começa a ser vista como causa de todos os problemas. Deste modo, exigia ações para poder minimizá-lo ou eliminá-los, dando ênfase ao conhecimento psicológico como instrumento de controle e prevenção. No entanto, já se pode falar em Psicologia, cuja tônica principal incide sobre o processo de seu relacionamento como área específica de saber.  No período de 1890 a 1930, caracteriza-se a conquista de autonomia da Psicologia como área específica de conhecimento em nossa realidade, denominada Psicologia Científica (ANTUNES, 2003).

As Escolas Normais foram base para o ensino de Psicologia, dentre elas destacam-se em São Paulo, Fortaleza, Salvador, Recife e Belo Horizonte, ou seja, o alicerce para a Pedagogia das Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras, nas quais a Psicologia foi introduzida como matéria de ensino superior. Com isso, a Escola Normal de Salvador foi uma instituição relevante para o desenvolvimento da Psicologia Educacional no Brasil, sob a influência de Isaías Alves, foi um dos pioneiros na difusão, aplicação, revisão e adaptação de testes psicológicos (ANTUNES, 2003).

Pode-se dizer que as Escolas Normais foram o grande sustentáculo para o desenvolvimento da Psicologia Educacional no Brasil, tendo suas origens na preocupação educacional e através de lutas pela hegemonia política. Deste modo, de 1930 a 1962, o reconhecimento da Psicologia é considerado como ciência e campo de atuação no Brasil, gerando condições para legalização como profissão e para o estabelecimento de cursos para a formação de profissionais. Por volta de 1931, a Psicologia Educacional foi oferecida pela primeira vez como matéria no Ensino Superior (ANTUNES, 2003).

Como se pode notar, assim como a Psicologia tornou-se constitutiva do pensamento educacional e da prática pedagógica, por sua vez, a base sobre a qual se desenvolveu para obter reconhecimento como profissão específica. Faz-se necessário notar que a maioria dos profissionais que obtiveram registro como psicólogos tinham formação em Pedagogia e atuaram na Educação. Devido a essas conquistas, a partir de 1962 houve o Reconhecimento Legal da Profissão, conforme a lei 4119, de 27 de agosto de 1962 (ANTUNES, 2003).

Para Maluf (1992 apud MEIRA, 2000), a Psicologia Educacional constitui-se, no início do século XX, como uma área de conhecimento que se propunha a estudar questões que interessam à educação escolar. Porém, apenas na década de 1940 tornou-se prática profissional, o que proporcionou o surgimento do psicólogo escolar, e sua função seria a de resolver “problemas escolares”.

Vale lembrar que, as relações entre Psicologia e Educação foram, nesse momento, ao mesmo tempo polêmicas e de ricas possibilidades, pois, de um lado, o reconhecimento psicológico estava incorporado aos diferentes aspectos da Pedagogia e à prática profissional dos educadores, e por outro lado, a atuação específica do psicólogo na escola estava calcada numa perspectiva clínica, ocupando-se do atendimento individual de “crianças com problemas de aprendizagem” fora da sala de aula (ANTUNES, 2003).

Meira (2000, p. 37) diz que, a partir da década de 1980 o processo de atuação e produção de conhecimentos na área tem tido uma série de críticas cada vez mais contundente. Porém, todo esse movimento, gerado pela reflexão sobre a insuficiência das práticas desenvolvidas em nossos meios, bem como os quadros conceituais, tem oferecido subsídios no sentido de desvendar os determinantes sociais e históricos que conformam o encontro entre a Psicologia e a Educação, no sentido de reafirmar uma possibilidade de construção mais apropriada.

  Com isso, as determinações dos problemas escolares eram buscadas em fatores como: desenvolvimento mental, atenção, comprometimentos motores ou emocionais, os quais eram vistos como produto de relações familiares. Essas interpretações encobriram as determinações intra-escolares que estavam nas raízes da maioria dos problemas. Os psicólogos empreenderam as críticas à ação da Psicologia na Educação, sobretudo na Psicologia Escolar, apontando para problemas provenientes dos educadores (ANTUNES, 2003).

Vale considerar também, o fato de a Psicopedagogia e sua clínica ocupar o lugar deixado pela Psicologia Escolar, quando passou a negar a atuação do psicólogo desvinculada das condições intra-escolares, ou seja, passou a criticar a Psicologia Clínica na Escola. Desta maneira, poucas mudanças ocorreram na escola, pois ainda se continua produzindo o “fracasso escolar” e atribuindo-o às crianças com problemas de aprendizagem (ANTUNES, 2003).

2.3 Psicólogo Educacional: Agente de Mudanças

Infelizmente, os problemas citados acima continuaram e continuam sendo objetos de discussão por aqueles que se ocupam da Psicologia na Educação. Críticas e reflexões ajudaram a psicologia educacional a pensar melhor quanto a sua atuação, levando à busca de conhecimentos e de alternativas de intervir no campo da educação. Pode-se afirmar que, o psicólogo educacional tem buscado agir na superação dos problemas e criando possibilidades de construção de uma educação mais democrática e efetiva (ANTUNES, 2003).

Em decorrência disso, segundo essa autora, a questão ética passou a ser central, estabelecendo uma construção e reconstrução de uma Psicologia enraizada e comprometida com sua realidade educacional, havendo uma ampliação do olhar sobre o fenômeno psicológico. Algo que demandou teorias, categorias e conceitos que pudessem dar conta, assim como a construção de novas práticas que fosse possível responder aos desafios que se impõem a Educação e a Psicologia.

Conforme explica Vigotski (2003 apud MARTINS, 2006), a educação remete-nos à dimensão teleológica, exigindo conhecimentos sobre quem é o indivíduo que se educa e a que fins atende a educação. No entanto, Martins (2006, p. 49) fala que a educação tem o “seu objetivo de auxiliar o professor no desempenho de seu trabalho bem como contribuir com a elaboração de uma concepção científica do processo pedagógico”. A educação, segundo esta autora, tratar-se-ia de um processo de preparar o indivíduo para a integração adaptativa, ou seja, primazia do trabalho alienado, através de uma organização política e econômica. Isto é, a educação é uma influência premeditada.

O professor, educador ou profissional pedagógico, segundo Bock, Furtado e Teixeira (1994), possui um papel ativo no desenvolvimento e na aprendizagem do aluno. O papel do professor deve ser capaz de desafiar e provocar estímulos no aluno para que este se sinta cada vez mais hábil na realização das tarefas, muitas das quais ele considerava difíceis, sempre avaliando as crianças e ajudando na solução de seus problemas.

Perguntamo-nos: Quais seriam as outras estratégias consideradas adequadas para com a educação? As possibilidades positivas, segundo Martins (2006), seriam aquelas que indicam a formação dos processos psicológicos, que exigem apropriações de cultura material e intelectual, tendo em vista a superação das formas primitivas de pensamento e o desenvolvimento da consciência. E quando se fala em possibilidades negativas, essa mesma autora cita que, são as que concretizam em modelos que preferem a educação do desenvolvimento humano, e onde o ele humaniza-se no processo histórico cultural.

Entretanto, a psicologia, enquanto ciência humana e social foi uma das áreas do conhecimento mais absorvida pelo ensino superior resultante de uma política educacional, cujos interesses estavam voltados para a habilitação quantitativa de profissionais que pudessem responder a necessidade e conveniência do sistema (YAZLLE, 1997).

É importante notar que na psicologia se tornou lugar comum à afirmação da necessidade de se compreender o homem enquanto um ser histórico e social. Partindo da delimitação das expressões do pensamento educacional crítico, apresentamos alguns elementos fundamentais de uma concepção crítica de educação que possa constituir-se em um fundamento tanto para a proposição de finalidades quanto para a construção de práticas contextualizadas de Psicologia Escolar (MEIRA, 2000).

Diante de muitas possibilidades de análise optamos por quatro elementos que aparecem necessários para um pensamento que se pretende crítico: reflexão dialética, crítica do conhecimento, denúncia da degradação humana e possibilidade de ser um instrumento de transformação social. Consideramos uma reflexão dialética quando busca apreender o movimento e as contradições dos fenômenos, compreendendo-os como fatos sociais concretos, sínteses de múltiplas determinações, ou seja, como realidades históricas que podem ser transformadas pela ação humana (MEIRA, 2000).

Mas, para o segundo elemento constitutivo do pensamento crítico é preciso situar o conhecimento indo até a raiz, o que significa “definir os seus compromissos sociais e históricos, localizar a perspectiva que a construiu, descobrir a maneira de pensar e interpretar a vida social da classe que apresenta esse conhecimento como universal” (MEIRA, 2000, p. 40). Nesse sentido, o desvelamento ideológico da produção científica leva a compreender de que a produção do conhecimento é uma força de ação humana que se integra na prática social global de uma sociedade determinada, que condiciona os seus objetivos na qual se organizam, o que é necessariamente produzido (MEIRA, 2000).

Contudo, ainda segundo a autora, na denúncia a degradação humana se objetiva nos produtos de trabalho e se contrapõe aos homens por serem alienados e convertidos ao capital. Nesse processo, a alienação não é só a natureza do homem, mas o homem de si mesmo e de sua espécie, onde converte a vida como membro em um meio para sua existência individual. E finalmente, o pensamento crítico que trouxe como instrumento no processo de transformação social, através da educação, pois permite apontar as possibilidades de transcendência e desvendar as realidades, por estar atento às potencialidades.

3. Os Passos do Processo

O relato de experiência é fruto de um trabalho de Prática Acompanhada em Observação I, do componente curricular de Psicologia do 2º período, na instituição escolar Centro Educacional de Novo Horizonte (CENHO), do município de Novo Horizonte (SC). Buscamos conhecer o ambiente contextual e voltamos a desenvolver o olhar psicológico, analítico e reflexivo, sobre determinado espaço, bem como a construção do saber psicológico a partir deste. Esta Prática Acompanhada em Observação I foi por nós realizados e, durante as supervisões, compartilhada e dialogada com os demais acadêmicos do curso de psicologia, na Universidade Comunitária da Região de Chapecó (UNOCHAPECÓ), extensão de São Lourenço do Oeste (SC).

A instituição foi fundada em outubro de 1997, e o nome foi escolhido por votação de pais. Inicialmente, teve como sede o Centro Esportivo de Novo Horizonte, e somente em setembro de 2002 foi construído o Centro Educacional de Novo Horizonte (CENHO). Na época havia aproximadamente duzentos e quarenta alunos, e vinte e sete funcionários faziam parte da equipe, entre eles: motoristas, serventes, professores e outros.

Atualmente, a instituição está ligada à Secretaria Municipal da Educação, a qual é coordenada por um secretário geral, um auxiliar administrativo e uma coordenadora, esta responsável pela documentação e pela orientação pedagógica. Localiza-se na Rodovia SC 468/km 13. Lá frequentam, em média, duzentos alunos, advindos da cidade e do interior do município. O Centro Educacional de Novo Horizonte oferece estudo de Ensino Infantil e de Ensino Fundamental, de primeiro ao quinto ano.

No decorrer da Prática, foram observadas cerca de quatro salas de aula da instituição, totalizando quarenta alunos: treze do Ensino Infantil, Pré-II, com idade entre quatro a cinco anos; dez do Ensino Infantil, Pré-II, com idade entre três a quatro anos; dez do Ensino Infantil, Pré-II, com idade entre três e quatro; e dezessete do Ensino Infantil, Pré-II, com idade entre cinco a seis anos. Nesta última sala havia um portador de Deficiência Mental (DM) e um de Síndrome de Down.

  Contanto, estas salas observadas, em sua estrutura física, tinham espaço grande e apropriado, havia diversas exposições de desenhos bem coloridos nas paredes, de variados temas. Também contavam com brinquedos; estojos de lápis coloridos disponíveis para as crianças; espaço de leitura; ar condicionado; nome de cada aluno escrito em sua própria cadeira, para criar o hábito de organização; banheiros feminino e masculino, adaptado ao tamanho e necessidades dos alunos.

Nas práticas de observação tornou-se importante, sobretudo, conhecer e observar o local e, assim, entender como aquela realidade se apresentava. Realizamos continuamente o registro com os detalhes das informações colhidas, as observações e as reflexões surgidas no decorrer da investigação ou no próprio momento observado. Esta ação possibilitou-nos o diálogo com as teorias estudadas no curso de psicologia, aplicadas às circunstâncias contextuais apresentadas e as relações estabelecidas no meio e a obtenção de dados referentes aos diferentes aspectos, principalmente relativos à vida social, o que tornou viável um maior contato com o sujeito e o ambiente social no qual convive.

Para conhecer a instituição escolar e o desenvolver das vivências utilizamos o método de observação participante [01] em psicologia. Durante os diálogos, notamos como este método de observação psicológica é importante e relevante para entender como se dá o processo de desenvolvimento e de aprendizagem das crianças. Observamos, neste sentido, as circunstâncias que envolvem as interações entre os sujeitos, seus comportamentos e como são constituídas, a partir do contexto social, as relações das crianças com outras crianças e professores. Assim, nestas vivências foi possível analisar o quanto é fundamental a atuação do profissional de psicologia no âmbito da educação.

Percebemos o quanto a Psicologia precisa ser e estar inserida nas escolas, pois, às vezes, os professores sozinhos não conseguem dar conta do ensino. Assim sendo, o papel do psicólogo tem como objetivo entender as dificuldades que as crianças encontram no processo de desenvolvimento e de aprendizagem relatados pela escola e pela família. Cada sujeito possui uma construção social, cultural e afetiva que o faz ter pensamentos, atitudes e comportamentos próprios.

4. Considerações Finais

Se observarmos com profundidade a história da psicologia educacional veremos que esta começa a dar a seus primeiros passos atrelado a um pensamento médico e calcado na ciência positivista, onde havia os atendimentos clínicos e individuais e com forte influência da medicina higienista e da psicologia comportamental. Convém ressaltar que foi nestes primeiros passos e por meio dos atendimentos individuais, que a prática da psicologia educacional foi se estabelecendo, principalmente dentro das escolas. A psicologia atualmente têm tornado comum quanto à forma de afirmação da necessidade de compreender o homem enquanto um ser histórico e social.

Como pode-se verificar, a psicologia busca cada vez mais um conhecimento comprometido com a transformação da realidade educacional, uma ampliação do olhar sobre o fenômeno psicológico. Através da observação participante no ambiente observado, Centro Educacional de Novo Horizonte, foi possível analisar e compreender o contexto para entender melhor as condições circunstanciais e como se dava o processo de aprendizagem da criança. A educação deve assumir um papel de preparar os alunos para superarem suas dificuldades escolares.

Nesta perspectiva, a psicologia desenvolve um pensamento crítico a respeito do fazer científico e do exercício profissional do psicólogo no campo da educação. Volta-se para a ética e um comprometimento maior com a realidade educacional, em prol de uma educação de melhor qualidade e na visão de compreensão do sujeito enquanto ser histórico e social, fruto de seu passado construído cultural e historicamente e de sua inserção social.

A educação, então, assume a posição de instruir e preparar as crianças e o papel do psicólogo é de atuar coletivamente, com vistas à superação de “problemas escolares”. Ainda, em muitas situações, os psicólogos são chamados para resolver os problemas de desenvolvimento e de aprendizagem das crianças, e explicar os motivos e causas desta. Pode-se levar em conta a atuação pedagógica dos professores no processo, considerando que estes também são capazes de proporcionar condições adequadas às crianças, estimulando para que estas que se sintam cada vez mais hábeis e ajudando na solução de seus problemas.

   No entanto, embora ainda produza-se “fracasso escolar” dentro do campo da educação, bem como temos observado em nossas Práticas Acompanhadas em Observação I, deve-se lembrar que a Psicologia da Educação tem contribuído altamente para se pensar em uma educação mais democrática e de maior qualidade. Permite que o sujeito possa permanecer mais perto das questões culturais, na construção de novas práticas – considerando enfaticamente sua historicidade – que possibilitem problematizar e trazer respostas aos desafios impostos à educação e à atuação do profissional de psicologia no contexto educacional.

Percebemos o quão foram significativas às transformações em relação ao processo da educação e o desenvolvimento da Psicologia Educacional, a partir de avanços teóricos e práticos relativo à atuação profissional da Psicologia Educacional nas escolas. Com isso, a psicologia não somente deve valorizar as relações sociais e o contexto histórico no qual as dificuldades e desafios se estabelecem, como também e principalmente possibilitar um rompimento dos processos de padronizações sociais, regras e normas intrínsecas, através da desnaturalização da análise institucional, desenvolvendo formas de fazer emergir o novo e a dinamicidade da prática profissional na compreensão da subjetividade humana.

Muito embora, o papel do psicólogo não é tão-somente de entender as dificuldades que as crianças encontram em desenvolvimento e aprendizagem, mas propiciando leques de possibilidades e linhas de fuga do fluxo da padronização para a transformação social dentro de um modelo dinâmico de intervenção. No entanto, para que isso se concretize é necessária a apropriação dos conhecimentos científicos da psicologia e a produção de novos conceitos, saberes e práticas de reflexão, que promovam o pensar do papel da psicologia educacional nas escolas ou em demais instituições do conhecimento.

Sobre os Autores:

Marcia Nicola Franchini - Acadêmica do 10º período do curso de Psicologia da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (UNOCHAPECÓ) – São Lourenço do Oeste (SC).

Marciano Dionei Pontel - Acadêmico do 10º período do curso de Psicologia da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (UNOCHAPECÓ) – São Lourenço do Oeste (SC).

Referências:

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