Resumo: Pode-se dizer que o desenvolvimento dos meios de transporte de determinada sociedade reflete o estágio de desenvolvimento da mesma. Conforme o homem evoluiu, a maneira de se transportar também se transformou. Com o auxílio da ciência, foram construídos meios de transportes mais rápidos, mais seguros e que chegavam cada vez mais longe, a ponto do homem conseguir chegar ao espaço. Com o desenvolvimento do capitalismo e a ocorrência das sucessivas Revoluções Industriais, as grandes cidades no mundo passaram a crescer e a concentrar a maior parte da população mundial. As pessoas, a partir daí, passaram a ter a necessidade de se deslocarem em grandes distâncias. Nesse contexto, o transporte coletivo passou a ter uma grande relevância para a vida em sociedade. Assim, por empregar um significativo contingente de trabalhadores, este estudo consiste em uma pesquisa bibliográfica, sobre as condições de trabalho e a repercussão sobre a saúde física, e mental, do motorista de transporte coletivo intermunicipal. O estudo desta classe de trabalhadores se justifica pela importância social do motorista, no contexto de transporte coletivo, agravado pelas condições, dificuldades e riscos enfrentados, além da grande responsabilidade que este trabalhador detém.

Palavras-chave: Transporte coletivo, Motoristas de ônibus, Psicologia do Trânsito.

1. Introdução

Ferraz e Torres (2004) apontam que no século XVII, para as pessoas se locomoverem elas utilizavam carruagens puxadas por animais, no entanto, isto era privilégio de poucos, dos mais ricos. Surgiram em Londres, em 1600, e em Paris no ano de 1612, as carruagens de aluguel, podendo ser este considerado o primeiro meio de transporte público urbano. Foi somente em 1662 que o matemático francês Blaise Pascal organizou o primeiro serviço regular de transporte público, quando, em Paris, a população estimava cerca de 150 mil habitantes. Este serviço era executado por carruagens com oito lugares, puxados por cavalos. Foi a partir do ano de 1826 que foi criado, na França, uma linha de transporte que ligava a cidade a uma casa de banhos. O veículo era uma carruagem que foi denominada omnibus (“para todos” em latim). Ainda nesta mesma época, foram adotados veículos de transporte tipo o ominibusem algumas cidades como Nova Iorque, Londres, Paris etc.

Na metade do século XIX em Nova Iorque surgiram os primeiros bondes, veículos que se movimentavam sobre trilhos. Neste mesmo século foram feitas tentativas de movimentar o omnibus, foi a partir do ano de 1890 que os primeiros ônibus (nome dado ao omnibus) a gasolina foram utilizados na Alemanha, na França, Nos EUA os ônibus a gasolina começaram a circular em 1905, na cidade de Nova Iorque. Conforme as cidades evoluíam, evoluíam assim os meios de transporte, foi na metade do século XIX o surgimento do trem suburbano e o metrô. Foi também no final do século XIX o surgimento dos carros, muito rudimentares. Até 1920 o transporte público era praticamente a única alternativa de transporte de passageiros nas cidades, assim com o aparecimento dos carros mais evoluídos, o transporte público foi substituído pelo transporte individual (FERRAZ E TORRRES, 2004).

O surgimento dos ônibus no Brasil foi datado em 1837, na cidade do Rio de Janeiro, importado da França e era puxado por burros, foi apenas em 1900, que em São Paulo foram instalados os bondes elétricos. Ao longo dos anos o transporte público começou a entrar em crise, a partir do ano de 1950 a população reivindicavam melhorias no serviço prestado. Sendo assim com o aumento de veículos nas vias, aumentaram também os problemas, os congestionamentos, acidentes, poluição, desumanização etc (FERRAZ E TORRES, 2004).

Hoje, quem usa o transporte coletivo ou quem dirige um carro nas grandes cidades, pode comprovar que o trânsito se torna a cada dia mais difícil, isto se deve ao fato do crescente número de veículos nas vias, favorecido pela facilidade de aquisição de um automóvel. Assim também o comportamento dos motoristas que quando em contato com o ambiente do trânsito potencializa os fatores de estresse associados às questões de ordem pessoal, os quais são geradores de comportamentos inadequados no trânsito. Sousa (2005) afirma que no Brasil, o desenvolvimento urbano, é caracterizado pelo aumento desordenado das cidades, por ocupações irregulares do solo e por precárias regulamentações, que gerou sérias demandas nos transportes. Embora, com o crescente uso de automóveis nas últimas décadas, que aparecem como uma alternativa mais eficaz de transporte para as pessoas que têm melhores condições financeiras, ainda é grande a parcela da população que utiliza o transporte coletivo via ônibus nos centros urbanos brasileiros para o seu deslocamento e para a realização de atividades profissionais e sociais. Ainda Sousa (2005) acrescenta que o trânsito e o transporte coletivo são dever do Estado conforme a Constituição de 1988, bem como normas, onde são regras que devem ser respeitadas e que permitem ajustar determinadas condutas, e a fiscalização do serviço prestado é dever do Poder Público, devem ser realizadas de forma integra e considerando a contribuição da sociedade e também da iniciativa privada.   O Código Brasileiro de Trânsito (2008) define trânsito, como a utilização das vias por pessoas, veículos, e animais, isolados ou em grupos, conduzidos ou não, para fins de circulação, parada, estacionamento e operação de carga ou descarga. Rozestraten (1988) propõe como definição de trânsito sendo o conjunto de deslocamentos de pessoas e de veículos nas vias públicas, dentro de um sistema onde existem normas, que tem por finalidade assegurar a integridade dos seus participantes. O trânsito é vivido pelas pessoas no Brasil como uma apropriação privada de um espaço público. É comum percebermos isso na forma de dirigir das pessoas, as quais agem como se fossem donos das ruas (OLIVEIRA E PINHEIRO, 2007).

Para Ferraz e Torres (2004), o transporte público, denominado também de transporte coletivo ou de massa, é operado por veículos pertencentes a uma empresa que realiza suas atividades com rotas e horários definidos, sendo que o transporte coletivo é dever do Estado. Estes autores apontam ainda vantagens e desvantagens do transporte coletivo urbano. Como vantagens, citam o custo acessível para a população de baixa renda, a democratização da mobilidade, uma alternativa para reduzir os impactos do transporte individual e o fato de proporcionar uma ocupação mais eficiente do solo nas cidades. E citam como desvantagens, horários rígidos, uma falta de flexibilidade em relação ao percurso, e maior tempo de viagem em decorrência de menor velocidade e maior o percurso.

A partir dos autores citados a cima, podemos perceber a grande importância que o transporte coletivo detém para os usuários e principalmente para os trabalhadores, desta forma podemos entender que nenhuma atividade está livre de riscos, porém algumas são mais fáceis de ocorrer por diversas situações que os trabalhadores estão expostos, deste modo, as atividades do transporte coletivo são uma das que mais prejudicam a saúde física e mental de seus colaboradores.

A análise das condições de trabalho dos motoristas de ônibus urbano é tarefa complexa, em decorrência dos diversos aspectos que caracterizam a atividade. Diferente de  outros profissionais, o motorista exerce suas funções ‘extra-muros’ da empresa, o que imprime maior possibilidade de imprevistos e torna ampla a análise deste trabalho. Considerando a adversidade da atividade profissional do motorista e a impossibilidade de compreensão de todos os aspectos de suas condições de trabalho, esta análise irá abordar os temas que surgiram com maior frequência como queixas de desgaste.

Esta pesquisa, de cunho bibliográfico visa levantar as relações destas condições adversas de trabalho e as consequências sobre a saúde, física e mental, dos motoristas de transporte coletivo intermunicipal. Foram utilizados livros, revistas, artigos publicados por meio eletrônico, como PEPSIC, SCIELO, BVS-PSI, e dissertações. O período cronológico do material selecionado compreendeu o intervalo dos anos de 1988 a 2010. A intenção em estudar esta classe de trabalhadores, deve-se ao fato de, utilizar, durante os 5 anos de graduação, o transporte coletivo intermunicipal como meio de transporte. Assim, influenciada pelo próprio curso, foi desenvolvido um olhar mais sensível, sobre o cotidiano deste colaborador (motorista de ônibus), sendo que foram observadas inúmeras situações e condições de trabalho (discussões, cansaço, stress, condições físicas adversas, entre outras) que interferiam sobre a qualidade do serviço prestado e, consequentemente, sobre o estado de saúde, física e mental, destes colaboradores.

Segundo Lakatos e Marconi (2003), a pesquisa bibliográfica é o levantamento de toda a bibliografia já publicada, em forma de livros, revistas, publicações avulsas e imprensa escrita. A sua finalidade é fazer com que o pesquisador entre em contato direto com todo o material escrito sobre um determinado assunto, auxiliando o pesquisador na análise de suas pesquisas ou na manipulação de suas informações. Ela pode ser considerada como o ponto de partida para toda a pesquisa científica.

2. Transporte Coletivo e Condições de Trabalho

Segundo Siqueira, (1996), o ser humano, no decorrer da história, já utilizou diversos meios para se locomover, tanto individual quanto coletivamente. Com o aumento da urbanização, e a intensa densidade demográfica dos centros urbanos, o transporte vem assumindo cada vez maior importância na vida das pessoas com consequências diretas sobre a saúde de seus usuários e trabalhadores. Ainda nas grandes cidades, muitos optam por locomover-se de carro, metrô, ou outro meio de transporte público.

Contudo, no quesito de transporte coletivo municipal e intermunicipal, o ônibus ainda é o transporte coletivo mais popular e utilizado entre as cidades. Ele promove a integração entre as funções e serviços urbanos, aproximando a casa do trabalho, dos contextos urbanos e sociais, do comércio, dos serviços e do lazer. Assim o transporte público urbano então é a peça que movimenta a engrenagem das cidades, possibilitando seu abastecimento, movimentação e desenvolvimento (FERRAZ E TORRES, 2004).

No Brasil, percebe-se que o trabalho dos motoristas profissionais é rotineiro e, infelizmente, apresenta condições de trabalho bastante inadequadas, com jornadas excessivas de trabalho, ocasionando muitas noites mal dormidas e, consequentemente, desencadeando distúrbios do sono. Apresentam também hábitos alimentares inadequados, e toda a tensão decorrente da complexa questão da violência urbana (TAVARES, 2010).

De acordo com a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO- 81), os motoristas têm como atribuições dirigir ônibus de empresas particulares, municipais e intermunicipais. Devem conduzir por meio de itinerários preestabelecidos, seguindo as leis de trânsito, transportando passageiros dentro de uma localidade ou em longa distância. São responsáveis também por realizar vistorias no veículo, combustível, freios, parte elétrica, os horários de circulação, a chave de ignição, entretanto esses profissionais fazem além do que suas atribuições básicas. Segundo Araújo (2006) em prol do cumprimento dos horários, os motoristas deixam de descansar e de realizar suas necessidades fisiológicas, comprometem o bem estar físico e psíquico.

A atividade de dirigir é desgastante, causa fadiga decorrente, principalmente de fatores ambientais do local de trabalho. Assim, as condições de trabalho dos motoristas de transporte coletivo urbano podem ser consideradas fontes dos distúrbios orgânicos ou psíquicos que acometem esses profissionais (BATTISTON, et al, 2006). Com isso, se observa que entre os profissionais que trabalham no trânsito, os motoristas de transporte coletivo são um dos que mais sofrem pressões, afinal trabalham com uma rotina de deslocamento continuo, lidando com diferentes e inúmeros tipos de pessoas e atuam em um amplo ambiente de trabalho que é o trânsito, através de um pequeno local de trabalho que é o ônibus. Passaram recentemente por uma mudança significativa no seu trabalho, quando da dispensa da figura do cobrador, cabendo a eles, agora, além da responsabilidade em dirigir o coletivo, também encarregar-se em fazer a cobrança das passagens e toda a responsabilidade, e risco, em lidar com numerários (ARAÚJO, 2008).

Sousa (2005) afirma que o contexto de trabalho dos motoristas envolve situações críticas, tais como conduzir as pessoas nos seus destinos com total segurança, atender às exigências e pressões de horários e ser depositário das insatisfações e queixas dos usuários do coletivo. Estes profissionais estão sujeitos, em função deste contexto de trabalho, a sofrerem constantemente consequências, que interferem no rendimento de seu trabalho e, principalmente, na sua saúde. Por estas características de campo de trabalho, podemos dizer que os motoristas de ônibus dos grupos de profissionais que mais sofrem pressões do ambiente viário (ULHOA et al, 2010).

A pesquisa feita por Battiston, Morales e Hoffmann (2006) com 21 motoristas de ônibus da cidade de Florianópolis, considera a conservação da pista outro aspecto que pode dificultar a atividade de dirigir e o cumprimento da tarefa. Em geral a conservação das pistas pode ser classificada como razoável, oscilando de pistas bem conservadas a pistas pessimamente conservadas. Foram consideradas “linhas boas” pelos motoristas aquelas em que os passageiros são “mais educados”, e “ruins” aquelas onde os passageiros são “barra pesada” e ainda o medo de que ocorra algum tipo de acidente de trânsito.

Oliveira e Pinheiro (2007) estudando os indicadores relativos a situações potencialmente preocupantes verificaram que dirigir atrasado, preocupações com o sono e problemas familiares foram as situações que mais se destacaram em relação ao envolvimento dos motoristas em acidentes de trânsito. A disposição dos equipamentos para que os motoristas exerçam sua atividade é igual para todos, sendo que o desempenho interno e externo do ônibus é confeccionado pela indústria automobilística. É possível relacionar a manifestação de dores físicas, pelo tamanho da cabine e os acentos sem nenhum conforto (BATTISTON et al, 2006). Este mesmo autor menciona as linhas com maior número de paradas de embarque e desembarque de passageiros são as que mais causam fadiga ao motorista, e ainda mantendo a mesma posição, sentado causando desgastes físicos, sobrecarregando os músculos e tendões (BASTTISTON et al, 2006).

3. A Psicologia no Contexto do Trânsito

A tradição da Psicologia aplicada ao estudo dos transportes terrestres, primeiramente as ferrovias e, posteriormente à circulação sobre rodas, remonta a meados do século XX, mais precisamente a década de 1920 (Hoffmann e Cruz, 2003, p. 17.)

“Tomando como ponto de partida os fatos mais relevantes ocorridos ao longo dessa história, a evolução da Psicologia do Trânsito no Brasil pode ser entendida por quatro grandes etapas: a primeira compreende o período das primeiras aplicações  de técnicas de exames psicológicos, até a regulamentação da profissão; a segunda compreende a consolidação da Psicologia do Trânsito como disciplina científica; a terceira pode ser caracterizada por aquela que foi verificado um notável desenvolvimento da Psicologia do Trânsito em vários âmbitos e a sua presença marcante no meio interdisciplinar; a quarta etapa é marcada pela aprovação do Código de Trânsito Brasileiro (Lei 9.503, de 23/09/07) e por um período maior de sensibilização da sociedade e dos próprios psicólogos do trânsito na discussão sobre políticas públicas de saúde, educação e segurança relacionados á circulação humana (HOFFMANN E CRUZ, 203, p. 17).”

De acordo com Rozestraten (2003), a Psicologia do Trânsito tem por seu objetivo estudar o comportamento de todos que participam do trânsito, sendo que procura entender esse comportamento pela observação e experimentação, do inter-relacionamento com outras ciências que estudam o trânsito e ajudar, por meio de métodos didáticos e científicos, na formação de comportamentos mais seguros e condizentes com o exercício de uma perfeita cidadania. Rozestraten (1988) divide o trânsito em três subsistemas: as vias, os veículos e o homem. A ponto de atribui maior importância ao comportamento humano no trânsito, em detrimento ao estudo das vias e veículos.

Rozestraten (2003), em outro estudo, aponta que o homem é o subsistema mais complexo do trânsito. Discutir as inter-relações entre o ambiente o trânsito e a psicologia significa demonstrar quão abrangentes são os elementos envolvidos na caracterização dos processos do trânsito. Iniciamos com o ambiente, a psicologia ambiental, depois com o que o homem inventou – o trânsito e o ambiente dele, e por fim a psicologia do trânsito, sua interface com a psicologia ambiental e suas tarefas atuais e potenciais (ROZESTRATEN, 2003). O homem é um dos elementos do ambiente, sendo que um pedestre, motociclista, animal ou automóvel também, constitui o ambiente em movimento. São as condições do mesmo que podem facilitar ou dificultar o comportamento de dirigir, pelo grau de conforto, segurança e eficácia (ROZESTRATEN, 2003).

“O condutor com o seu ambiente ambulante, ou rolante, se movimenta num outro ambiente a via; e para seu próprio bem estar, deve obedecer às características da via, seguir as curvas, subir aclives, regular a velocidade do veículo, conforme o estado de conservação da via e do veículo. As diferentes condições da via dimensionar o comportamento de dirigir. Basta imaginar um condutor dirigindo sozinho em uma estrada tranquila ou no meio da via Anhanguera, ou na via Dutra em pleno rush. Evidenciam-se então, de forma instantânea um ambiente social e o ambiente normativo. O condutor deve saber em que pista ficar, deve saber como ultrapassar um carro à sua frente e dar passagem a outros carros, não pode ficar ziguezagueando à vontade ou dirigir a 150 km/h, quando não é possível realizar essa operação (ROZESTRATEN, 2003, p. 37).”

Ainda de acordo com Rozestraten (2003), a via é um ambiente de trânsito que indica ao condutor, o que ele pode e não pode fazer, e o que deve ou não fazer, existe ainda ambientes adversos que pode provocar acidentes, como: luz solar, chuva, neblina, serração, como também condições da via, do veículo.

Outro fator que pode afetar prejudicialmente o desempenho do condutor é a utilização de substâncias psicoativas, visando diminuir o sono ou lidar melhor com as angústias, ansiedades decorrentes do trânsito. No entanto estas melhoras caracterizam-se como paliativos, comprometendo-lhe a capacidade de atenção e concentração, podendo originar situações de acidente que comprometem sua saúde.

Para que o condutor produza um comportamento adequado no trânsito Rozestraten (1988) afirma que são necessárias três condições básicas:

“- a presença de estímulos e de situações que possam ser observadas e percebidas; quanto mais clara e menos ambígua a situação ou o estímulo, melhor poderá ser a adaptação comportamental em relação a ela;”

“- um organismo em condições de perceber e de agir adequadamente aos estímulos percebidos; um organismo sem deficiências sensoriais, mentais ou motoras que prejudicariam sua reação;”

“- uma aprendizagem prévia dos sinais e das normas que devem ser seguidas para que este organismo saiba se comportar adequadamente no sistema complicado do trânsito (ROZESTRATEN, 1988, p.17).”

A interface entre a Psicologia do Trânsito e a Psicologia Ambiental está, exatamente, no próprio ambiente. Sem ambiente não há trânsito. O Trânsito desenrola-se no ambiente do veículo e da via, sendo que ambos influenciam o comportamento do condutor, onde qualquer mudança na via provoca alterações no seu comportamento (ROZESTRAREN, 2003, p. 40).

4. Motorista de Transporte Coletivo: a saúde comprometida

O  interesse em realizar estudos a respeito das condições de trabalho do motorista vem aumentando, devido ao fato de tratar de uma atividade essencial para a população urbana e de imensa responsabilidade. Sobre ele recai a responsabilidade quanto ao deslocamento seguro dos passageiros pela cidade, à segurança do veículo que conduz e, também, quanto ao rendimento da empresa da qual faz parte. Néri et al. (2005), afirmam que a saúde física e mental dos motoristas são reflexos das condições de vida e de trabalho destes indivíduos.

No caso dos motoristas de transporte coletivo, o comportamento destes é de grande relevância por ser uma atividade que supre necessidades sociais e econômicas da população, e por ser instituída de grande responsabilidade, como já mencionada anteriormente. Segundo Basttiston et al (2006), mais um fator que pode ser prejudicial á saúde do motorista são os ruídos e as vibrações, que está disposto durante sua jornada de trabalho, sendo que a localização do motor expõe o motorista a risco de surdez ocupacional.

Oliveira e Pinheiro (2007) também afirmam que o ruído pode ocasionar distúrbios  como irritação e dificuldades de concentração, dores de cabeça, aumento da pressão arterial, problemas digestivos e cardiovasculares, decorrentes do estresse e, até mesmo, a perda auditiva. Outra condição que pode interferir na qualidade de vida do trabalhador são a temperatura e a ventilação internas do ônibus, o motor localizado do lado do motorista faz com que aumenta a temperatura, e a quantidade de passageiros contribui para a elevação da temperatura e a diminuição da ventilação. Além destas variáveis o aumento de veículos que circulam em dias de chuva, diminui a visibilidade e aumenta os riscos de acidentes de trânsito (BATTISTON et al. 2006). Os engarrafamentos e os outros veículos da via foram os aspectos que causaram maior irritação aparente nos motoristas. O tempo perdido nos engarrafamentos era logo compensado com altas velocidades nos trechos em que isso era possível ou no final das linhas (BATTISTON el al, 2006, p. 339).

“O medo é uma característica natural do ser humano para a sua própria proteção e para que  possa adotar estratégias de defesa contra constrangimentos físicos e psicológicos. Negar o medo é tentar esconder por algum motivo ou a causa desse medo ou a sua consequência. Os medos apontados pelos  motoristas  entrevistados podem enunciar uma causa subjacente não só à sua profissão, mas a outras profissões que sofrem as mesmas pressões do mercado de trabalho e das políticas públicas (BATTISTON et al. 2006. p. 340).”

Estes trabalhadores, muitas vezes por medo de perder o emprego, se submetem às regras, normas e pressões sofridas pela tarefa que deve executar. Assim, para lidar e suportar esse contexto perverso de trabalho, muitas vezes lançam mão de alguma estratégia, como por exemplo, a negação.  Batiston et al. (2006) acrescentam que:

“O medo de perder o emprego pode ser um aspecto que faz com que os motoristas neguem o próprio sofrimento. Estar sofrendo pressão constantemente, seja da empresa ou de outras formas de fiscalização, seja dos passageiros ou das intempéries que o trânsito oferece no dia-a-dia de seu trabalho, faz com que essa atividade receba sobrecargas com as quais os motoristas não sabem lidar (BATTISTON et al. 2006, p. 340, grifo do autor).”

Percebemos acima, a partir das colocações dos autores relacionados, que as condições de trabalho, a forma como está organizado, é um aspecto essencial no sofrimento dos motoristas.

De acordo com Dejours (1993), a organização do trabalho que anula os comportamentos livres e criativos, empobrece a atividade mental e expõe o corpo a conversões somáticas e a sofrimento psíquico. Esses decorrem da ausência de proteção do aparelho mental que media as necessidades internas e as exigências do meio.

Dejours (1993) observa que as estratégias coletivas de defesa funcionam inteiramente desvinculadas de qualquer perspectiva libertadora e respondem unicamente à necessidade de suportar a penosidade do trabalho e, acima de tudo, o medo e a ansiedade. Essas estratégias coletivas defensivas estão voltadas para a  negação coletiva dos riscos, favorecendo a continuidade da dominação e a exploração.

As condições de trabalho dos motoristas têm uma grande importância social e política, pois as condições penosas refletirão no tratamento hostil aos passageiros, na direção agressiva e na depreciação do instrumento de trabalho. Estas práticas diminuem a qualidade e aumentam o custo deste serviço (SOUSA, 2005). Ainda para este autor, os agentes estressores do motorista são tanto as condições de trabalho (possibilidades de assaltos, os transtornos causados pelo trânsito, os conflitos em relação aos passageiros e outros aspectos) quanto à organização de trabalho (normas, horários, oportunidade de planejar o trabalho).

O trabalho é ‘penoso’ quando o trabalhador não tem conhecimento, dos instrumentos para controlar os contextos de trabalho que suscitam vivências de desconforto e desprazer, dadas as características e necessidades e limites subjetivos (SATO, 1991, p. 72). Segundo Sato (1991), poucas profissões são reconhecidas como penosas, estando a de motorista de ônibus entre elas. A autora define a penosidade não simplesmente como exigência de esforços que provoquem incômodos e sofrimento, mas quando esses são sentidos como demasiados, não tendo, então, o trabalhador nenhum controle sobre os mesmos.

Ainda de acordo com Neri et al.(2005), afirmam que a saúde física e mental dos motoristas é sem dúvida reflexo das condições de trabalho e de vida desses profissionais. Essas condições geram consequências não somente para os condutores, mas também causam impactos negativos para a empresa e para a sociedade.

Em mais uma pesquisa realizada por Costa et al. (2003), onde foram estudados as condições de saúde dos motoristas da cidade de São Paulo e de Belo Horizonte, constatou que a obesidade e a pré-obesidade, medidas pelo Índice de Massa Corporal, constituem um grave problema de saúde dos motoristas, tanto em Belo Horizonte como em São Paulo. Esse problema foi examinado em função da idade, extensão da jornada, existência e duração das pausas de descanso, número de pausas de descanso, existência ou não de pausa para refeição, prática de esporte e hipertensão arterial. Tendo maior pré-disposição quando aumenta a jornada de trabalho sendo que em São Paulo, a chance de motoristas que trabalham 8:40 horas ou mais serem obesos ou pré-obesos é 31,5% maior do que a de motoristas com jornadas menos extensas. O praticar ou não alguma atividade física não mostrou significância estatística, em Belo Horizonte, se tem outro dado de que  a  ausência  de  esportes  aumenta  em  27,6%  esse  risco  para  todos  os  motoristas, independentemente da jornada (COSTA, et al. 2003). Outro fator que é relevante na pesquisa foi as dores denominadas osteomusculares.

“As variáveis dores nos ombros, braços, pernas e problemas de coluna, e também varizes, foram pesquisadas conjuntamente, num único sintoma denominado dores osteomusculares. Buscou-se verificar a associação desse sintoma com certas condições dos ônibus (apoio para as costas, banco com ajuste vertical, direção ajustável, trepidação, muito ruído), da organização do trabalho (extensão da jornada, presença ou não de pausas de descanso, número dessas pausas) ou de hábitos pessoais do motorista (prática de esporte). Essas dores constituem o maior problema de saúde dos motoristas, depois da obesidade (COSTA, et al. 2003, p. 11).

Nesta pesquisa o que chamou mais atenção foi em relação a um fato ainda não mencionado, a irritação da visão decorrente do odor de gases tóxicos dentro do ônibus, na inexistência ou não de ventilação adequada e o hábito de fumar. Em São Paulo, as condições de trabalho mais importantes para explicar o comportamento da chance de visão irritada, depois de certa idade, são o odor de gases tóxicos, que dobra essa chance, e a ventilação inadequada, que a aumenta em 67%. Em Belo Horizonte, mostraram-se importantes a ventilação inadequada e o odor de gases tóxicos, que incrementam, respectivamente, em 87% e 69% a chance do aparecimento desse problema. A idade, variável de controle, também tem um papel a desempenhar nas duas regiões. Em São Paulo, a chance desse problema aumenta a uma razão geométrica de 1,02 a cada ano adicional de idade, o que resulta em um aumento de 47% aos 40 anos de idade. Em Belo Horizonte, a taxa de aumento é 1,03% ao ano, de tal maneira que, aos 40 anos, essa chance assume um valor 84% vezes maior (COSTA, et al. 2003).

Neri et al. (2005) aponta um outro fato que prejudica a saúde do trabalhador sendo o crescimento da frota de veículos, não acompanhado pelo aumento do sistema viário e pelo planejamento urbano, tem sido responsável pelo aumento do percurso, e, devido a isso, pela crescente agressividade dos motoristas provocada por distúrbios emocionais. Desta classe de trabalhadores Macedo e Batistella (2007) apontam que é exigida maior participação da demanda mental, aumento dos movimentos repetitivos, manutenção de posturas estáticas, altos índices de concentração e tensões psicofísicas.

As características psicológicas, fisiológicas e antropométricas do ser humano, como a personalidade, o envelhecimento, as capacidades motoras e a estrutura corporal, são influenciadas e até modificadas pelo estilo de vida e pelas características da profissão desenvolvida. (MACEDO E BATISTELLA, 2007, p. 1). Motoristas com lombalgia ou outras doenças relacionadas com o trabalho reflete na sua qualidade de vida para realizar atividades profissionais ou pessoais, sendo que apresentam sempre estar cansados, e desmotivados (MACEDO E BATISTELLA, 2007).

Já em relação à saúde mental, Macedo e Batistella (2007) citam que os motoristas com lombalgia relatam que se sentem nervosos, deprimidos, desanimados e abatidos. Quase nunca se sentem calmos, tranquilos ou se caracterizam como pessoas felizes. Macedo e Battistella (2007) afirmam que as dores na coluna vertebral e nos membros superiores são referidas por motoristas, principalmente os que dirigem por tempo prolongado. Esta queixa de dor pode estar associada à permanência na posição sentada, às constantes inclinações, rotações do tronco, vibrações, bem como à contração permanente de determinados grupos musculares.

Tavares (2010) aponta que os distúrbios músculo-esqueléticos são a principal queixa de problemas de saúde relacionados ao trabalho dos motoristas de ônibus.

Muitos estudiosos assim como o de Costa et al. (2003) indicam fortes sentimentos de fadiga, tensão e sobrecarga mental entre os motoristas de ônibus. Outras doenças comuns entre os motoristas de ônibus são os problemas estomacais e intestinais e os distúrbios de sono. Dejours (1991) cita que basta diminuir a pressão feita pela organização para que desapareça toda a manifestação de sofrimento.

Sousa (2005) aponta que é de suma importância que tenha intervenções cuidadosas não só no sentido da preservação do direito social ao acesso a um transporte de boa qualidade e, mais barato, mas também no sentido da preservação do direito dos trabalhadores à sua saúde. Estas duas questões devem ser compatibilizadas e não antagonizadas. Tendo um trabalho de prevenção haverá mais qualidade de vida para o trabalhador assim como para os usuários e diminuirá os afastamentos dos trabalhadores por questões de saúde.

5. Conclusão

Este artigo buscou, a partir de um estudo bibliográfico, compreender as condições de trabalho e a repercussão sobre a saúde mental dos motoristas de transporte coletivo. Ficou evidente que são inúmeros os aspectos negativos, presentes nas condições de trabalho dos motoristas de ônibus. Podemos relacionar os assentos inadequados, o calor e ruídos excessivos no interior dos veículos, as péssimas condições de manutenção dos mesmos, além do excessivo número de usuários para os poucos veículos disponíveis.

Soma-se a isso, os problemas decorrentes das péssimas condições das vias públicas, como má sinalização, condições climáticas adversas, excesso de veículos e os congestionamentos constantes. Não podemos deixar de citar, como problema que potencializa o sofrimento dos motoristas de ônibus, o relacionamento, muitas vezes conflituoso, com os usuários do transporte público e o seu costumeiro stress.

Este trabalho também propiciou reflexões, e indicações, da necessidade, por parte do poder público, de iniciativas de melhoria do transporte. A realização de trabalhos multiprofissionais, com engenheiros de trânsito, arquitetos, administradores, sociólogos, traria, sem dúvida, resultados positivos a este problema complexo, e as consequências sobre os seres humanos que ele determina. Melhorias nas vias e nos próprios veículos, campanhas públicas de conscientização da responsabilidade de cada um, na melhoria de todo esse contexto de transporte urbano, traria benefícios a todos, trabalhadores e usuários, que poderiam usufruir do direito social a um transporte de maior qualidade e segurança. Não devemos esquecer que o transporte coletivo contribui para a diminuição da emissão de poluentes, com um menor número de veículos em circulação, a diminuição dos engarrafamentos, o que propiciaria melhores condições de locomoção e otimização do uso e administração do tempo.

Ainda, fisioterapeutas, psicólogos, educadores físicos, médicos e outros profissionais das áreas da saúde, seriam importantes aliados na prevenção e diminuição das doenças físicas e psicológicas decorrentes do trabalho constante, repetitivo e monótono, com excessiva carga de trabalho, dos motoristas de transporte coletivo, e de psicólogos para auxiliar na saúde mental destes trabalhadores.

Conforme Ulhoa et al. (2010), por realizarem estudos com os motoristas de caminhão e ter algumas características semelhantes, podemos dizer que os motoristas de ônibus também são profissionais que sofrem pressões do ambiente viário, bem como, sentem - se nervosos, deprimidos, desanimados e abatidos. No entanto, este mal estar dos motoristas, tem uma repercussão muito grande em todo o contexto de vida e trabalho nos centros urbanos, afetando, indiscriminadamente, a qualidade de vida de todos.

Finalizando, pela complexidade e amplitude do tema pesquisado, saúde física e mental dos trabalhadores, motoristas, do transporte público, e considerando que este contexto laboral se modifica constantemente, agravando suas consequências sobre toda a população, cabe destacar que o presente trabalho não tem a pretensão de ser conclusivo, e sim instigar outras inquietações para que novos estudos se realizem.

Sobre os Autores:

Aline Cristina Garcia – Aluna do Curso de Graduação em Psicologia da Faculdade Ingá. Astorga – PR.

Jorge Manoel Mendes Cardoso - Docente do Curso de Psicologia da Faculdade Ingá. Mestre em Psicologia Social, pela UNESP- Assis/SP. Maringá – PR.

Referências:

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