1. Introdução

O trânsito é um fenômeno complexo e envolto por vários fatores, porém, há pouco tempo vem sendo abordado pelo ponto de vista de um psicólogo de trânsito, o qual se preocupa com a questão de segurança, mobilidade e locomoção de forma segura. De acordo com Cristo (2012), para existir o comportamento adequado no trânsito são necessárias algumas condições básicas como existir estímulos básicos que sejam notados; nosso organismo estar em boas condições para reagir aos estímulos e; ter conhecimento prévio dos sinais e normas de trânsito. Sendo assim, quais são os mais comuns comportamentos de risco no trânsito que causam os acidentes?

A relevância da temática em questão se deve a prevalência de comportamentos de risco no trânsito nos dias atuais, sendo configurada pelo rápido aumento no uso de meios motorizados de transporte em uma circulação em vias que não estavam planejadas para tais mudanças além dos motoristas que precisam de aprimoramento de instrução e educação para os fatores de riscos os quais aumentam a probabilidade de acidentes de trânsito.

É sabido que há vários comportamentos de riscos no trânsito e, o que falta é a conscientização das pessoas para saber que a segurança está em cada um, ou seja, ao manter seu comportamento de maneira adequada, diminuirá os índices de riscos de acidentes no trânsito já que tais comportamentos não dependem de avanços tecnológicos. Outro fator de comportamento de risco é o aumento de circulação de veículos, conforme afirma Vasconcelos (2005, p. 11) “o aumento nos meios motorizados, principalmente automóveis e motocicletas, tem sido promovido intensamente pela maioria dos países em desenvolvimento, de forma irresponsável e socialmente inaceitável”.

Tal investigação oportunizará as pesquisadoras um maior conhecimento teórico-prático sobre delineamento de pesquisa e a temática em questão. No âmbito social a presente pesquisa trará contribuição no que tange a qualidade no comportamento de risco no trânsito, sendo que através desde estudo a sociedade se conscientizará que é necessário diminuir e observar seus comportamentos de risco no trânsito, a fim de transformá-lo, trazendo mais segurança e tranquilidade quanto à mobilidade dos que o utilizam, e assim consequentemente a redução de acidentes.

O estudo trará contribuição à comunidade científica por meio da descrição e análise dessa problemática, proporcionando para que mais investigadores possam ter interesse sobre os comportamentos de risco no trânsito e assim entenderem o quão é essencial policiar a nossa postura de maneira singular no trânsito. Compreendendo que esse é um assunto amplo e complexo, sendo assim, o mesmo servirá para análises comparativas de futuras pesquisas sobre essa temática que venham ser realizadas.

2. Fundamentação Teórica

2.1 O Trânsito

Na definição da legislação vigente, o Código de Trânsito Brasileiro, no seu Artigo 1°, § 1º considera-se trânsito a utilização das vias por pessoas, veículos e animais, isolados ou em grupos, conduzidos ou não, para fins de circulação, parada, estacionamento e operação de carga ou descarga.

Compõe o trânsito todo ser humano em todos os níveis de idade, ou seja, desde bebês empurrados em carrinhos de bebês, crianças andando de bicicletas, jovens e adultos pedestres ou motocicletas e motoristas. Dessa maneira, conforme Rozestraten (1988) e Vasconcelos (1992) o trânsito se dá através de um conjunto de deslocamentos diários de pessoas e veículos feitos nas calçadas e vias públicas da cidade, seja na rua em forma de movimentação de pedestres e veículos, mas, que esteja dentro de um sistema convencional de normas, que tem como objetivo assegurar a integridade de seus participantes.

O trânsito é um sistema que funciona através de normas, portanto, é onde se encontra três principais elementos como o homem, a via e o veículo. O homem se divide entre diversos papéis no trânsito (pedestre, ciclistas, motoristas, etc.) e está sobre efeitos dos fatores internos e externos como a idade, saúde física e mental, a maturidade de discernimento, processamento e análise de informações e tomada de decisões coerentes com as situações vividas no trânsito (ROZESTRATEN, 1988). A via é onde acontece o trânsito, mas é também tudo o que está em volta do veículo e pedestres como placas, semáforos, cruzamentos, etc. O veículo pode ser de várias formas (ônibus, caminhão, moto, táxi, etc.), possuindo dispositivos que forma o campo de informação para o motorista como freio, velocímetro, etc. Dessa forma, o veículo é um corpo que precisa de um condutor (homem), que se desloca no trânsito (via).

Para Rozestraten (1988, p. 4) o tem como finalidade “assegurar a integridade de seus participantes. Cada um deve alcançar sua meta sem sofrer danos”. Embora não seja uma realidade segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS apud CRISTO, 2012) os acidentes de trânsito matam quase 1,2 milhões de pessoas em todo o mundo a cada ano, sendo a segunda principal causa de mortes entre pessoas de cinco a 25 anos.

2.2 Psicologia do Trânsito

A Psicologia do Trânsito surgiu de acordo com Rozestraten (1981) em decorrência de pesquisas em dezenas de institutos, laboratórios e centros de pesquisa nas últimas duas décadas. Este autor relata que se pode definir a psicologia do trânsito como um estudo científico do comportamento dos participantes do trânsito; ressalta também que este o comportamento estudado pelos psicólogos do trânsito, que é aparentemente simples, é na realidade muito complexo, pois envolve vários fatores, tais como: o processo de atenção, de detecção, de diferenciação e de percepção, tomada e processamento de informações entre outros.

De acordo com Cruz; Hoffmann e Alchieri (2003) a psicologia aplicada ao estudo dos transportes terrestres, se deu nos séculos XX, precisamente em 1920; tendo a evolução da psicologia do trânsito no Brasil quatro grandes etapas, sendo a primeira o período das primeiras aplicações de técnicas de exame psicológico até a regulamentação da psicologia como profissão; a segunda corresponde à consolidação da psicologia do trânsito como disciplina; a terceira se distingue com o momento em que foi determinado um evidente desenvolvimento da psicologia do trânsito em vários âmbitos e sua presença marcante no meio interdisciplinar; a quarta etapa é destacada pela aprovação do Código de Trânsito Brasileiro (Lei 9.503, de 23/09/97) e por um período de maior sensibilização da sociedade e dos próprios psicólogos do trânsito na discussão sobre políticas públicas de saúde, educação e segurança pautadas a circulação humana.

Mas de acordo com Silva (2012) o marco legal que constituiu as bases para a futura prática do psicólogo no contexto do trânsito foi o primeiro Código Nacional de Trânsito (Decreto-lei n° 2.994/1941), onde se foi estabelecido os exames para obter a licença de praticagem ou de habilitação para condutor de veículo: fisiológico ou médico e psicológico, neste último, o candidato à carteira de habilitação poderia ser recusado se não apresentasse um perfil psico-fisiológico que era exigido; para contribuir de maneira preventiva, ou seja, dessa forma não se permitiria que pessoas propensas a se envolver em acidentes tivessem acesso ao volante.

Zimmermann (2008) expõem que o trânsito é um sistema que funciona através de normas, composto por três principais elementos: o homem, a via e o veículo; constituindo o homem a peça de maior importância, pois é este o que realiza várias funções no trânsito, como pedestre, ciclista, motociclista, etc., e sendo o componente mais complexo, estando sobre efeitos dos fatores internos e externos, fatores estes que podem modificar seu comportamento; a via é tudo o que está em volta do veículo ou pedestres, é o ambiente onde se ocorre o trânsito; já o veículo pode ser um caminhão, táxi, moto, entre outros, e que através do homem comunica suas intenções (direção).

2.3 Comportamentos de Risco e os Acidentes no Trânsito

Rozestraten (1988) relata que os acidentes no trânsito são 80% devidos a fatores humanos. Dessa maneira, Vasconcellos (2005) relata alguns dos fatores que estão relacionados aos comportamentos de risco que se torna as causas de acidentes no trânsito, tais como: o uso do álcool ou de outras drogas; a velocidade excessiva; o uso do telefone celular, etc. Portanto, o autor relata ainda que esses entre outros fatores favorecem o condutor a exceder-se no trânsito, seja pela falta de conhecimento do impacto da velocidade ou na gravidade dos acidentes.

Dessa maneira, pode-se dizer que um dos comportamentos de riscos no trânsito que mais aproximam as pessoas de colisões fatais são o uso indevido de álcool ou de outras drogas e condução, portanto, conforme descrito no código de trânsito brasileiro Artigo 165°, dirigir sob influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência é infração gravíssima, sendo que ainda nesse artigo, parágrafo único, aplica-se em dobro a multa prevista no caput em caso de reincidência no período de doze meses. Afirma Cristo (2012) que ao ingerir o álcool ou outras drogas o organismo humano provoca algumas alterações como: fisiológicas causando cansaço, sonolência diminuindo a capacidade de reação dos condutores uma vez que dificulta a mensuração da velocidade e distância percebida; psicológica transmitindo ao condutor uma falsa segurança em si mesmo, aumentando o risco, uma vez que tendem a tomar decisões mais perigosas do que a habituais; comportamentais permitindo condutas agressivas e impulsivas contribuindo a negligência de quem a ingere.

Outro comportamento de risco que se tornou vilão em acidentes de trânsito é o uso inadequado de telefones celulares durante a condução do veículo e, como se sabe esse comportamento é considerado infração, pois, entende-se que ao utilizar o telefone celular, o condutor conduzirá o veículo com apenas uma das mãos como diz o Artigo 252°, § Vº que é infração média dirigir com apenas uma das mãos, exceto quando deva fazer sinais regulamentares de braço, mudar a marcha do veículo, ou acionar equipamentos e acessórios do veículo, mas, entende-se ainda que utilizar o celular através de fone de ouvido também é infração, visto que ao utilizar esse equipamento dificultará ao condutor ouvir ruídos do próprio trânsito, conforme vigente do Código de Trânsito Brasileiro, no que diz o Artigo 252°, § VIº que ao utilizar-se de fones nos ouvidos conectados a aparelhagem sonora ou de telefone celular é considerado infração média. Vale lembrar que de acordo com a Associação Brasileira de Educação de Trânsito (ABETRAN apud VEIGA, 2011), foi comprovado que os condutores que utilizam de aparelhos celulares em viva-voz correm o mesmo risco de sofrer acidentes do que aqueles que seguram o celular.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), estatísticas oficiais demonstram que o Brasil corresponde com um grande número de mortes em acidentes de trânsito devido ao comportamento de risco causado pela falta do uso de cinto de segurança. Através disso, pode-se dizer que a falta de utilização do cinto de segurança não é considerado um fator determinante para reduzir acidentes de trânsito, porém, reduz a severidade das lesões ocasionadas nos acidentes assim como a redução de fatalidades no trânsito. Portanto, o não uso do cinto de segurança é considerado infração conforme descrito no Artigo 65° onde diz que é obrigatório o uso do cinto de segurança para condutor e passageiros em todas as vias do território nacional, salvo em situações regulamentadas pelo CONTRAN, ou seja, ao deixar o condutor ou passageiro de usar o cinto de segurança gera infração grave conforme a legislação vigente no Artigo 167°.

Corriqueiramente, o simples fato de desviar a atenção da estrada é outro comportamento de risco que é crescente nos acidentes, mesmo que o desviar da atenção seja por poucos segundos como trocar a música no som do carro, ou olhar o celular para atender uma chamada pode causar acidentes graves. Conforme descrito por Quaresma e Moraes (2006, apud RANNEY et. al., 2000) a distração do motorista pode ser qualquer atividade que tire a atenção do motorista no trânsito, caracterizada por quatro maneiras: distração visual, sendo a distração mais comum dentre os acidentes que é quando o condutor olha algo que não seja a via como uso de equipamentos eletrônicos no veículo; distração auditiva como responder a um chamado do telefone celular; distração biomecânica como discar um número no celular, ajustar o volume ou trocar a música do rádio; e distração cognitiva como após receber uma comunicação no celular ou estar perdido no pensamento.

Sobre os Autores:

Catia Dartibale - Especialista em Psicologia do trânsito. Graduada em Psicologia na Faculdade Rolim de Moura. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Bárbara Estela Negri - Especialista em Psicologia do trânsito. Graduada em Psicologia na Faculdade Rolim de Moura. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

CÓDIGO DO TRÂNSITO BRASILEIRO. § 1º do Artigo 1º. In:______. Capítulo I - Disposições preliminares. Define o trânsito. Disponível em: <http://www.ctbdigital.com.br/index.php>. Acesso em: 22 jun. 2013.

CRISTO, F. Psicologia e trânsito: reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2012.

CRUZ, R. M.; HOFFMANN, M. H.; ALCHIERI, J. C. Síntese histórica da psicologia do trânsito no brasil. In:­­______. Comportamento humano no trânsito / organizadores. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003, p. 17 – 29. Disponível em: http://books.google.com.br/books?hl=pt- BR&lr=lang_pt&id=Mm7KEjD5tFgC&oi= fnd&pg=PA17&dq=quando+come%C3%A7ou+a+psicologia+no+transito&ots=T0EqCSnP0N&sig=21PMIN7K7smE5TG1_JAt_Iv3Oh0&redir_esc=y#v=onepage&q=quando%20come%C3%A7ou%20a%20psicologia%20no%20transito&f=false. Acesso em: 26 jun. 2013.

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA AMPLICADA. Impactos sociais e econômicos dos acidentes de Trânsito nas aglomerações urbanas. IPEA, p. 1-21, maio 2003. Disponível em: < http://www.antp.org.br/_5dotSystem/download/dcmDocument/2013/04/27/2F53A25B-BC5F-4AA3-817E-ACF6E3F7AD0C.pdf>. Acesso em: 25 jun. 2013.

QUARESMA, M.; MORAES, A. A. distração do motorista e o desenvolvimento de equipamentos eletrônicos em veículos. LEUI, v.1, n. 2584, 2006. Disponível em: <http://www.manuelaquaresma.com/artigos/mquaresma_2006_01_2584.pdf>. Acesso em: 26 jun. 2013.

ROZESTRATEN, R. J. A. Psicologia do trânsito: o que é e para que serve. Psicol. cienc. prof., v.1, n.1, p. 141-143, jan. 1981. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1414-98931981000100006&script=sci_arttext>. Acesso em: 26 jun. 2013.   

ROZESTRATEN, J. A. Psicologia do trânsito: conceitos e processos básicos. São Paulo: EPU, 1988.

SILVA, F. H. V. C. A Psicologia do trânsito e os 50 anos de profissão no Brasil.Psicol. cienc. prof., v. 32, n.spe,  p.176-193, 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/ scielo.php?pid=S1414-98932012000500013&script=sci_arttext>. Acesso em: 26 jun. 2013.

VASCONCELOS, E. A. A cidade, o transporte e o trânsito. São Paulo: Prolivros, 2005.

VEIGA, R. M. S. A psicologia do trânsito e o estudo do uso do telefone celular na direção veicular como fator de distração. Araras: UNAR, 2011. Disponível em: <http://www.unar.edu.br/portal/siteunar/images/monografias/psicologiacelular%20.pdf>. Acesso em: 18 jun. 2013.

ZIMMERMANN, C. Psicologia e sequelas invisíveis dos acidentes de trânsito. In:______. O lado oculto dos acidentes de trânsito. Campo Grande: Univ. Católica Dom Bosco, 2008, p. 24-30. Disponível em: <http://newpsi.bvs psi.org.br/tcc/CamilaZimmermann.pdf>. Acesso em: 26 jun. 2013.