Resumo: O trabalho apresentado procura compreender a importância e as contribuições da intervenção do psicólogo no rendimento dos atletas de futebol de base, especificamente no estado de Pernambuco. Trata-se de uma pesquisa científica realizada com o psicólogo do Sport Clube do Recife, com base em uma pesquisa exploratória, que tem como finalidade aprofundar o conhecimento sobre o assunto estudado. Por meio desta pesquisa, constatou-se que a intervenção do psicólogo do esporte no futebol de base consiste em preparar o atleta mentalmente para as competições, ajudar na formação cidadã desses atletas e, quando necessário, fazer atendimentos a algumas demandas individuais dos jogadores. Na intervenção o psicólogo não trabalha com uma abordagem específica, pois uma única abordagem limitaria a intervenção. No entanto, a intervenção vai além do contexto esportivo onde o atleta está inserido, auxiliando no desenvolvimento global desse atleta. Portanto, a intervenção de um psicólogo no futebol de base é de fundamental importância, pois o psicólogo quando intervém não trabalha apenas com o objetivo de melhorar o rendimento do atleta dentro de campo, mas também a vida do atleta fora do contexto esportivo. Apesar dessa relevância, as intervenções dos psicólogos esportivos só são recorridas em situações de crises no clube de futebol.

Palavras-chave: Intervenção, Psicologia do Esporte, Futebol de base.

1. Introdução

O objeto de estudo deste trabalho consiste em compreender a intervenção do psicólogo no rendimento dos atletas de futebol de base. O psicólogo pode contribuir para adaptabilidade dos atletas ao ambiente de convívio, na minimização de conflitos, no equilíbrio da ansiedade, estresse, na formação cidadã, entre outras coisas.

Aspectos como classe social, dificuldade de relacionamento em grupo, problemas familiares ou até mesmo distúrbios psicológicos, são características que interferem no rendimento do atleta. Mas que muitas vezes são percebidas e uma cobrança excessiva, por um rendimento mais elevado é feita sem levar em consideração esses aspectos na vida do atleta.

É possível que as pressões de ordem institucional e social produzam problemas de ordem emocional, social e físico nos atletas do futebol de base. Portanto, a presença de um psicólogo torna-se fator de grande relevância, pois o profissional de psicologia tem conhecimentos para mediar os conflitos que podem ajudar na resolução desses problemas.

No final do século XIX foram realizadas pesquisas referentes a questões psicofisiológicas no esporte. Na década de 20 surgiram os primeiros laboratórios de psicologia do esporte, mais especificamente na antiga União Soviética, Estados Unidos, Japão e Alemanha. No ano de 1965 foi fundada a sociedade internacional de psicologia do esporte (ISSP) em Roma.

A psicologia do esporte na América latina teve início na década de 1970; no ano de 1979 foi fundada a sociedade brasileira de psicologia do esporte – SOBRAPE. Em 1986 foi criada a sociedade sul-americana de psicologia do esporte - SOSUPE. O Brasil ocupa uma posição de liderança na América latina, na área de psicologia do esporte, devido ao grande volume de publicações; de congressos e de laboratórios de psicologia do esporte existentes.

O assunto abordado foi escolhido com intuito de mostrar que a psicologia do esporte vem crescendo nos últimos anos e conquistando um espaço cada vez maior nos clubes de futebol. O que fazem estes profissionais do futebol ainda é pouco conhecido.

Receberemos em nosso país, em 2014, a copa do mundo de futebol, onde teremos a oportunidade de pesquisar e analisar a importância e as contribuições da psicologia no futebol de base para uma preparação futura dos atletas.

Esses e outros fatores, como verificar o tipo de abordagem utilizada e suas contribuições, compreender quais os perfis dos atletas, investigar quais influências exercidas no rendimento dos atletas através da intervenção do psicólogo e constatar se ocorre alguma melhora na qualidade de vida dos atletas, mostram a relevância de estudos mais específicos na área. Portanto, constatamos a importância de um profissional capacitado da área de psicologia atuando no esporte.

Aplicou-se como método a pesquisa exploratória, que tem como finalidade aprofundar o conhecimento do pesquisador sobre o assunto estudado. Este instrumento nos possibilitou investigar os objetivos, a prática e os elementos das abordagens utilizadas pelo psicólogo entrevistado. Procuramos nos manter atentos aos novos elementos que surgiram, buscando novas respostas e novas indagações no desenvolvimento do nosso trabalho.

2. Uma Breve História da Psicologia do Esporte

Os filósofos Aristóteles e Platão foram os primeiros especuladores sobre a função motora e de percepção por conceitos de corpo e alma. Assim, foi na Grécia Antiga que iniciaram os estudos sobre Psicologia Esportiva. No início do século XVIII algumas questões relacionadas ao esporte ocuparam os estudos da época, onde foram analisadas principalmente as habilidades motoras, tempo de reação, atenção e sentimentos. Esses estudos afirmaram que seria por meio do esporte que mente, corpo e alma se manifestariam em situações reais, permitindo a capacidade de julgar, reagir, compreender ações corretamente, entre outros, compondo corpo e mentes fortes (FIORESE, 2010).

Os estudos sobre Psicologia do Esporte até os dias atuais tiveram grandes influência de Norman Triplett, investigador da Universidade de Indiana – EUA. Ele examinou a influência do adversário como motivação para um melhor rendimento do atleta.

Os avanços nas pesquisas permitiram que no início do século XX, mesmo a Psicologia não sendo associada como ciência, educadores, atletas e jornalistas publicassem as primeiras discussões sobre a influência do aspecto psicológico no desempenho de atletas no contexto esportivo; sendo o êxito do atleta conferido ao controle emocional sobre o corpo.

Em meados de 1920, Coleman Roberts Griffith (pai da Psicologia Esportiva), em seu laboratório - início histórico onde a Psicologia do Esporte passa a ser pesquisada na prática - salientou a relação entre psicologia e esporte. Ele pesquisou os elementos mais relevantes para o rendimento dos atletas, envolvendo a aprendizagem, habilidades motoras e variáveis da personalidade.

Após vinte e três anos Coleman Griffith foi o primeiro professor a oferecer o curso de Psicologia do Esporte; período em que surgiram os primeiros trabalhos de preparação psicológica com equipes olímpicas na Tchecoslováquia. E entre os anos de 1945 e 1964 surgiram vários laboratórios e professores de Psicologia do Esporte - período em que a aplicação teórica era o Behaviorismo de Watson, bastante divulgado nos EUA.

Com a criação da Sociedade Internacional de Psicologia do Esporte (ISSP) em Roma, estudos específicos no âmbito do desenvolvimento científico foram exibidos nos EUA, em 1965. Logo depois foi criada a Sociedade Norte-Americana para a Psicologia do Esporte e Psicologia da Atividade Física (NASPSPA); essas organizações são as que realizam o Congresso Mundial de Psicologia do Esporte a cada quatro anos.

Mesmo com esse progresso, apenas em 1986 é formada a divisão 47 (Sport and Exercise Psychology) na American Psychological Association (APA), a qual especificou a qualificação indispensável para se tornar um psicólogo esportivo, que foi determinada pela necessidade de especialistas na área clinica e educacional. 

Em 1979 surge no Brasil de forma sistematizada a Psicologia do Esporte. Neste ano foi fundada a Sociedade Brasileira de Psicologia do Esporte, da Atividade Física e da Recreação (SOBRAPE), tendo como seu primeiro presidente o Prof. Dr. Benno Becker Junior. De acordo com algumas literaturas, sobre o tema, o Brasil ocupa uma posição de liderança na América Latina, o que pode ser comprovado com base no grande volume de trabalhos publicados e no número de congressos realizados, bem como na quantidade de laboratórios de Psicologia do Esporte existentes no Brasil.

Em 2006 surge no Brasil, por iniciativa de psicólogos e profissionais de educação física, a Associação Brasileira de Psicologia do Esporte (ABRAPESP), que promove os estudos sobre estas especialidades no país. Por fim, dar-se a perceber que a Psicologia do Esporte e do Exercício é mundialmente reconhecida clinicamente e como disciplina - mesmo com a dificuldade em formar profissionais na área - evidenciando uma perspectiva de crescimento contínuo e promissor.

3. O Que é Psicologia do Esporte

A psicologia do esporte é um termo utilizado para representar os aspectos psicológicos envolvidos na prática esportiva. Consiste no treinamento de habilidades psicológicas como a concentração, motivação e o controle emocional, a partir do psicodiagnóstico, visando o desempenho máximo do atleta e equipe. Além disso, busca auxiliar no desenvolvimento global do ser humano. Esse treinamento ocorre no nível individual e coletivo, cuja meta é a modificação dos processos e estados psíquicos (percepção, atenção, memória, raciocínio, juízo, imaginação, pensamento e motivação), ou seja, as bases psíquicas da regulação do movimento (WEINBERG & GOULD, 2001).

4. Campos de Atuação do Psicólogo do Esporte

A Psicologia do Esporte, como área de produção acadêmica e de atuação profissional, tem ainda um longo caminho a percorrer, se considerarmos o que já foi feito e o muito que ainda temos a construir, dada a amplitude e complexidade do mundo esportivo. Certamente, nessas últimas décadas acumulou-se muita informação sobre indivíduos e grupos que praticam esporte ou atividade física sem que isso implique em conclusões ou respostas irrefutáveis. Sabemos que no âmbito da Psicologia no Brasil essa discussão é ainda mais nova, tanto do ponto de vista do interesse como da produção, o que aumenta a necessidade de ampliarmos a discussão e formarmos pessoas para uma atuação competente, como já temos em outras áreas da Psicologia (RUBIO, 1999).

Lesyk (1998) aponta que em 1983 o Centro Olímpico Americano indicou três possibilidades de atuação para os profissionais da área: o clínico, profissional capacitado para atuar com atletas e/ou equipes esportivas, em clubes ou seleções, cuja preparação específica envolve conhecimentos da área de Psicologia e do Esporte, não bastando apenas a formação em Psicologia ou Educação Física; o pesquisador, cujo objetivo é estudar ou desenvolver um determinado conhecimento na Psicologia do Esporte sem que haja uma intervenção direta sobre o atleta ou equipe esportiva; e o educador que desenvolve a disciplina Psicologia do Esporte na área acadêmica seja na Psicologia, seja na Educação Física. Nos dois últimos casos não se exige formação específica do profissional.

Além da definição da possibilidade de atuação profissional, Singer (1988) aponta para outros desdobramentos no campo de atuação profissional do psicólogo do esporte, fornecendo os seguintes modelos: o especialista em psicodiagnóstico – faz uso de instrumentos para avaliar potencial e deficiências em atletas; o conselheiro – profissional que atua apoiando e intervindo junto a atletas e comissão técnica no sentido de lidar com questões coletivas ou individuais do grupo; o consultor – busca avaliar estratégias e programas estabelecidos, otimizando o rendimento; o cientista – produz e transmite o conhecimento da e para a área; o analista - avalia as condições do treinamento esportivo, fazendo a intermediação entre atletas e comissão técnica; o otimizador – com base numa avaliação do evento esportivo busca organizar programas que aumentem o potencial de desempenho do atleta.

Diante da diversidade de atuações é de se esperar que o profissional que atua em Psicologia do Esporte tenha também uma diversidade de formação. Além do conhecimento específico trazido da Psicologia como o uso de instrumentos de diagnóstico e modelos de intervenção, espera-se e exige-se que o profissional tenha um amplo conhecimento das questões que permeiam o universo do atleta, como noções de anatomia, fisiologia e biomecânica, e outras noções especificas do esporte, como as modalidades esportivas e regras, bem como dinâmica de grupos esportivos.

Esse corpo de conhecimento se faz necessário na medida em que se atua com indivíduos e/ou grupos que têm sua dinâmica limitada pelo contexto vivido, ou seja, os treinamentos, as competições e a interação com um meio restritivo com períodos de isolamento e concentração ou alojamentos conjuntos.

5. Psicologia do Esporte Aplicada ao Futebol

No mundo contemporâneo a instituição futebolística vem se afastando cada vez mais do amadorismo. A crescente profissionalização do futebol cria uma concepção da prática esportiva que admite apenas a vitória como resultado válido e leva o atleta ao máximo do seu limite físico e psicológico. Uma vez inserido nesse ambiente, o atleta vive sob as exigências particulares do seu esporte e tem com ele uma relação trabalhista como em qualquer outra área profissional, ou seja, ele é um funcionário que deve dar resultado. Nesse sentido a psicologia do esporte pode atuar como mediadora do sujeito e sua realidade, compreendendo a obrigatoriedade do alto rendimento, mas reduzindo os níveis de sofrimento do indivíduo.

O ex-tenista e autor Timothy Gallwey (1996), explica muito bem a relação que existe entre mente e corpo enquanto um atleta - seja ele de qualquer modalidade esportiva - está em competição. Ele afirma que cada jogo é formado de duas partes: um jogo exterior e outro interior. O jogo exterior é jogado contra um adversário para superar obstáculos externos e atingir um objetivo igualmente fora de nós. O jogo interior se desenrola na mente do jogador e é jogado contra obstáculos como falta de concentração, nervosismo, ausência de confiança em si mesmo, autocrítica, ou seja, todos os hábitos da mente que inibem a excelência do desempenho.

 Esse jogo que se desenrola na mente do atleta de futebol e quais contribuições o psicólogo pode oferecer para ajudar no rendimento desses atletas e de suas respectivas equipes são os objetivos gerais da Psicologia do Esporte aplicada ao futebol. Por muito tempo não foi atribuída a importância necessária que a parte psicológica tem no rendimento dos atletas de futebol, mas com o avanço da Psicologia e de estudos na área do esporte, esta importância vem sendo notada e o profissional da Psicologia tem possibilidades de intervim com mais eficácia.

Concluímos esta revisão afirmando que atualmente os estudos da Psicologia do Esporte destacam a importância da preparação psicológica dos atletas para a melhoria do rendimento em competições. Com isso, observaram-se semelhanças em atletas no que se diz respeito à motivação, estresse e ansiedade, comprovando mais uma vez a importância de profissionais especializados na área.

6. Conclusão

Desta forma, no estudo a que se refere este artigo, constata-se que a Psicologia do Esporte no Brasil é uma área relativamente nova - em relação às outras áreas já existentes - onde se percebe uma carência de profissionais qualificados para esse campo, o que aumenta a necessidade de ampliar a discussão, possibilitando um número maior de formação de pessoas para uma atuação competente.

Portanto, diante da diversidade de atuações, é preciso que o profissional que atua em Psicologia do Esporte tenha, além do conhecimento específico da Psicologia no que concerne ao uso de instrumentos de diagnóstico e modelos de intervenção, exige-se que o profissional tenha noções de anatomia, fisiologia, biomecânica, entre outros conhecimentos específicos do esporte.

Por conseguinte, diante da leitura teórica feita, salientamos acerca dos campos de atuação, a abordagem utilizada no ensino e na intervenção feita pelo psicólogo em atletas de futebol de base; onde foi confirmada a necessidade de um profissional qualificado. Sendo sua atuação inerente ao treinamento de habilidades psicológicas como a motivação, controle emocional e concentração, a partir do psicodiagnóstico, visando o desempenho máximo do atleta e da equipe dentro e fora das competições buscando a estabilidade emocional e o melhor desempenho esportivo - auxiliando no desenvolvimento global do ser humano.

Com isso, o psicólogo auxilia nas modificações dos processos e estados psíquicos dos atletas. Porém é preciso ressaltar que a presença de um psicólogo não significa êxito esportivo, mas um suporte para o atleta. E no que se refere esta análise teórica, cabe ao psicólogo compreender essa realidade e atuar sobre ela; considerando que para estes atletas, mesmo ainda muito jovens, a busca da realização pessoal/profissional é preponderante, podendo ser uma via de satisfação ou sofrimento para o sujeito. É nesse contexto geral, ultrapassando os limites do campo, que atua o profissional de Psicologia do Esporte.

Portanto, concluímos que a intervenção de um psicólogo no futebol de base é de fundamental importância, pois ele não trabalha apenas com a visão de melhorar o rendimento do atleta dentro de campo, mas também a vida do atleta fora do contexto esportivo. Apesar da relevância, as intervenções dos psicólogos esportivos só são recorridas em situações de crises no clube de futebol. O que também averiguamos nesse estudo é que o trabalho do psicólogo não se dá apenas no momento de crise da equipe, e sim durante todo o processo de treinamento do atleta, antes das competições, durante e depois.

Os dados apresentados não podem ser generalizados para todas as intervenções, porque teve apenas um psicólogo investigado e isso dificulta qualquer tipo de generalização. É preciso uma pesquisa mais ampla para dá conta de todos os profissionais que trabalham com intervenção no futebol de base para se obter respostas mais precisas sobre a intervenção.

Este trabalho visou esclarecer a importância e as contribuições de uma intervenção psicológica em um clube de futebol de base. Mas essa pesquisa abriu margem para novas questões como, por exemplo, quantos clubes de futebol aqui em Pernambuco trabalham com um psicólogo na sua equipe de profissionais; ou quem exerce essa função no time. Acreditamos que essas questões necessitam de uma atenção por parte dos pesquisadores.

Sobre os Autores:

Diego Lima Gomes de Oliveira - Psicólogo pela Faculdade Frassinetti do Recife – FAFIRE.

Maria Cecília da S. Laurentino - Psicóloga pela Faculdade Frassinetti do Recife – FAFIRE.

Vanessa Batista de Melo Cruz - Psicóloga pela Faculdade Frassinetti do Recife – FAFIRE.

Referências:

FIORESE, Lenamar. Psicologia do Esporte: uma Emergente Área da Psicologia. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 15, n. 2, p. 391-399, abr./jun. 2010.

GALLWEY, W. Timothy. O Jogo Interior de Tênis. São Paulo: Texto novo, 1996.

LESIK, J. J. Desenvolvimento da Psicologia do Esporte dentro da sua Prática Clínica. San Francisco: Jossey-Bass, 1998.

REBELO JÚNIOR, Salvador Loureiro. A Vitória para um Campeão: um Estudo sobre as Influências Psicológicas no Esporte. Psicologia Brasil, São Paulo, v.4, n.31, p.40-41, maio 2006.

RUBIO, Kátia. A Psicologia do Esporte: Histórico e Áreas de Atuação e Pesquisa. Psicologia: Ciência e Profissão Brasília, v.19, n.3, p.60-69, 1999.

SINGER, R. N. Psicologia do Esporte. Michigan: Mc Naughton and Gunn, 1988.

WEINBERG, R.S.; GOULD, D. Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício. 2° Ed. Porto Alegre: Artmed. 2001.