Resumo: A dependência química, como sabemos, é uma doença que envolve diversos fatores, e pesquisas mostram que o álcool é uma droga potente, que altera a consciência e provoca graves efeitos sobre o bem-estar físico, emocional e social. Com base nesse pressuposto, o presente artigo visa apresentar os resultados do trabalho desenvolvido na Casa de Recuperação Vida Nova sobre o processo de reabilitação psicossocial de dependentes químicos. O método utilizado foi o dedutivo, utilizando as técnicas de observação, entrevistas e questionários aplicados aos internos e coordenadores. De acordo com a pesquisa constatamos que o bem estar do interno é um fator considerado importante para o tratamento. Ele deve estar bem consigo mesmo, pois isso traz de volta a autoconfiança e automaticamente um melhor empenho para sua própria recuperação. Nesse processo percebemos que as famílias exercem grande influência na vida e na recuperação do dependente, e que é fundamental a participação e parceria de uma equipe multiprofissional e do convívio com outros usuários. Concluímos que os internos que possuem auto-estima elevada, força de vontade e fé tem mais chances de recuperação, enquanto que outro fator essencial é o apoio da família, que juntos podem promover o bem estar e também proporcionar um ambiente saudável para sua volta.

Palavras-chave: Dependentes químicos, reabilitação, drogas, família.

1. Introdução

As drogas são definidas como substâncias químicas capazes de modificar a função de organismos vivos, resultando em mudanças fisiológicas ou de comportamento, alterando sua função biológica e possivelmente sua estrutura. O processo de reabilitação envolve determinação, comprometimento e persistência.

Sabemos que a sua dependência é uma doença que envolve diversos fatores, destacando os biopsicossociais. O tratamento realizado a partir de terapias, atividades em grupo, esportes e atividades físicas em geral tem um valor evidente no processo de recuperação.  

O presente artigo mostra a realidade envolvida por trás da dependência, assim como o processo de tratamento e recuperação do dependente químico até o momento de sua reinserção na sociedade.

2. Desenvolvimento

O processo de reabilitação é extremamente sério e deve ser abordado com muita cautela e critério, pois “Não existe ciência sem consciência, e não se pode lutar contra a droga quando se tem uma visão mecanicista do problema e quando a gente não interroga a respeito das motivações dos que se tornam usuários” (OLIEVENSTEIN, 1982, p. 06).

Pesquisas indicam que a grande maioria dos dependentes químicos começa o uso na adolescência, que segundo estudiosos, nesta fase do desenvolvimento, esses adolescentes, em busca de sua identidade, estão mais sujeitos a frustrações e também mais suscetíveis a influências e quando não solucionado nesta fase tende a continuar quando adulto, que usam do vício para suprir necessidades afetivas ou fugir dos problemas e das responsabilidades que esta nova fase apresenta.

O consumo de drogas tende a aumentar cada vez mais para satisfazer as necessidades levando o dependente químico à autodestruição, a destruição da família e de todos que vivem ao seu redor, passando a controlar esse dependente, que deixa de cumprir sua rotina atual e sem condições de manter o vício, começa a praticar furtos dentro e fora da própria casa.

Sendo assim, quando o dependente químico decide procurar por ajuda, chega ao local de reabilitação com seu estado emocional bem debilitado, tendo como características: a irritabilidade, agressividade, mentiras, diminuição dos cuidados básicos até mesmo de higiene, incluindo, perda de valores, depressão, síndrome do pânico, esquizofrenia, entre outras, precisando neste momento de toda atenção e acolhimento.

Um fator de suma importância para o tratamento é em relação ao bem estar do interno, que estando bem consigo mesmo, resgata a autoconfiança e obtém êxito para sua recuperação. A aceitação própria de ajuda provoca desejos de mudança e de libertação, conduzindo- o a deixar o vício.

Segundo Bucher (1998, p. 78), “quando o drogado se decide por procurar uma ajuda terapêutica, pode-se presumir que a sua motivação contenha um desejo de mudança e de libertação das drogas”, pois sabemos que não é um processo fácil, como nos apresentam Papalia, Olds e Feldman (2010, p.397) “alguns jovens têm dificuldade em lidar com tantas mudanças de uma vez e talvez precisem de ajuda para vencer os perigos ao longo do caminho”.

É preciso depositar nele confiança e oferecer uma gama de atividades de modo que ele consiga se "reabilitar", ou seja, melhorar suas capacidades mentais no que se refere à vida, aprendizagem, trabalho, socialização e adaptação de forma mais normalizada possível.

Para a realização dessa pesquisa utilizamos o método dedutivo, que segundo Andrade (2001, p. 131), “a dedução é caminho das consequências, pois uma cadeia de raciocínio em conexão descendente, isto é, do geral para o particular, leva a conclusão”, ou seja, partindo das teorias e leis, chega-se a previsão de acontecimentos particulares.

Os tipos de pesquisa utilizados foram: pesquisa bibliográfica e a pesquisa de campo. Segundo Lakatos e Marconi (1996) “a pesquisa bibliográfica trata-se do levantamento, seleção e documentação de toda bibliografia já publicada sobre o assunto que está sendo pesquisado, em livros, revistas, jornal, boletins, monografias, teses, dissertações, material cartográfico, com o objetivo de colocar o pesquisador em contato direto com todo o material já escrito sobre o mesmo”.

Em relação à pesquisa de campo, Lakatos e Marconi (1996) relatam que "É a pesquisa que observa e coleta os dados diretamente no próprio local do fato em estudo, caracterizando-se pelo contato direto com o mesmo, sem interferência do pesquisador, pois os dados são observados e coletados tal como ocorrem espontaneamente”.

Os resultados nos revelam que o dependente químico procura a clínica movido pelo ideal de mudança, tem seu ingresso de forma voluntária e o tempo estabelecido para a recuperação é de nove meses. De acordo com entrevista realizada com o coordenador da clínica, o índice de evasão é grande e a quantidade de internos que terminam o tratamento chega a apenas 25% do total, um número baixo, porém ainda motivador se comparado a instituições estaduais que somam apenas 1%.

As visitas familiares ocorrem uma vez por mês e são fundamentais para que esses internos consigam atingir seus objetivos. A clínica trabalha apoiada pelo princípio da fé e afirma que o primeiro passo para o sucesso na recuperação é aceitar a palavra de Deus.

Os questionários nos mostram que o Centro de Reabilitação para Dependentes Químicos é extremamente importante para a recuperação desses internos. O relacionamento entre internos e funcionários é baseado na confiança, respeito, amizade e apoio profissional. Durante esse processo de recuperação a falta da família e a falta de liberdade foram citadas como dificuldades de superação, enquanto que a falta de amigos é irrelevante.

De acordo com os internos, o apoio da família, os ensinamentos sobre vida, paz e Deus e o processo terapêutico adequado são itens fundamentais para a recuperação completa, satisfatória e a sua reinserção na sociedade.

3. Conclusão

Ao finalizarmos esta pesquisa concluímos, através dos dados e depoimentos coletados, que o trabalho de reabilitação feito com os dependentes químicos é desempenhado com seriedade e responsabilidade. É relevante destacar a importância da família no processo de recuperação e a grande vontade do interno em ajudar outras pessoas envolvidas. Outro fator de destaque é a presença de ex-usuários nos momentos de estudos e de palestras. Várias questões abordadas para os internos e para o diretor foram coesas e uma delas mostra que há entre eles um tratamento respeitoso. Apesar de todas as dificuldades a instituição busca proporcionar e transformar o espaço em um lugar harmonioso e de paz através de atividades onde possam se sentirem capacitados, importantes e valorizados e com isso resgatarem a auto-estima e autoconfiança que geralmente são abaladas ao ingressarem nesse mundo de ilusão proporcionado pelas drogas. No fundo, tratar o dependente é levá-lo a recomeçar a gostar de si mesmo, é valorizar a vida, pois mudando a si, ao mesmo tempo muda seu posicionamento social, assim como nos mostra Guimarães Rosa: “O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam.”

E para nós alunos, que acreditamos na possível mudança do ser humano, esta pesquisa foi muito gratificante e envolvente, pois pudemos perceber as dificuldades enfrentadas no processo, conhecer as atividades desenvolvidas e assim valorizar a importância e a necessidade desse trabalho profissional para o processo de recuperação e reinserção dessas pessoas na sociedade, além de ampliar nosso saber e conhecimentos sobre este importante tema para a nossa formação e atuação profissional como futuros psicólogos.

Sobre os Autores:

David Lopes França - Aluno do 4º Semestre N do curso de Psicologia da Universidade de Franca-SP.

Maria Luzia de Oliveira Pedroso - Aluna do 4º Semestre N do curso de Psicologia da Universidade de Franca-SP.

Neiliane Cristina de Oliveira Nascimento - Aluna do 4º Semestre N do curso de Psicologia da Universidade de Franca-SP.

Ana Paula Barbosa - Professora Orientadora do Projeto de Pesquisa dos alunos do 4º Semestre N. Docente na Universidade de Franca. Especialista em Didática. Mestre em Educação pela Universidade Federal de São Carlos. Doutora em Serviço Social pela UNESP de Franca-SP.

Referências:

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