A Psicologia na Saúde Preventiva

O senso comum aponta que a saúde pode se resumir a ausência de sintomas de uma doença (ex.: febre, náusea; manchas na pele, etc) e de sinais concretos de que o corpo não está “funcionando” direito (ex.: Pressão alta; taquicardia; falta de ar, etc). Mas, lembrando da definição de saúde preconizada pela OMS, devemos entender o homem de forma holística, sob pena de ignorar toda a vastidão que caracteriza a existência humana.

Doença e bem-estar não são inteiramente conceitos distintos: eles se sobrepõem, com o aumento de graus de bem-estar e da doença variando ao longo de um continuum, com um status neutro na média. Assim, o termo saúde refere-se a uma gama de estados positivos de bem-estar físico, mental e social – não apenas a ausência de lesão ou doença – caracterizada por variações nos sinais saudáveis e estilos de vida. Em estados de doença ou lesão, processos destrutivos produzem sinais característicos, sintomas,ou debilidades (BAUM, SUTTON, JOHNSTON, 2005).

Em seu livro Psicologia da Saúde, Straub (2005, p.23) nos diz:

Podemos concordar que um sujeito saudável esteja livre de doenças, mas é bem provável que ele não esteja desfrutando de uma vida vigorosa e satisfeita. A saúde vai além disso.

Saúde e doença estão sujeitos às influências psicológicas. Nossas emoções, comportamentos e cognições são de uma forma quando estamos saudáveis, mas mudam de maneira significativa quando estamos doentes. Além disso, o ambiente no qual estamos inseridos tem um papel importante. Nossas relações com a família; trabalho; comunidade a qual pertencemos e cultura que criamos dizem muito sobre como compreendemos a vida e como damos sentido à realidade que nos cerca. Elementos como a personalidade têm forte influência na saúde do indivíduo. Pessoas com altos índices de ansiedade, depressão, raiva/hostilidade ou pessimismo generalizado têm maior risco de desenvolver diversas doenças, como úlcera e cardiopatias (BAUM, SUTTON, JOHNSTON, 2005). Qualquer processo psicológico ou intervenção que leve a uma mudança de comportamento que vise o bem estar do indivíduo é de interesse da Psicologia.

Sabe-se que o trabalho do psicólogo clínico esteve atrelado durante décadas ao modelo médico, onde temos alguém “doente” ao qual devemos atendê-lo de forma a proporcionar uma “cura”. Este modelo ainda continua em vigor e, obviamente, tem o seu valor. Afinal de contas, existiram, existem e sempre existirão pessoas em situação que demande a assistência psicológica. Mas é importante ressaltar que este modelo ainda foca a doença, o assistencialismo e o cuidado paliativo. O profissional psicólogo tem um formação muitas vezes (para não dizer totalmente) voltada para o atendimento individual. Mas em saúde coletiva, as práticas preventivas exigem que novas formas de atuação sejam utilizadas; técnicas sejam adaptadas ou desenvolvidas e novos referenciais teóricos sejam consultados.

Uma das grandes ferramentas da psicologia para a área de saúde preventiva é o empowerment - “empoderamento”, numa tradução literal do inglês. Tem como objetivo ensinar os sujeitos à tomar as rédeas de sua própria vida, através da consciência crítica em relação ao binômio saúde-doença. Podemos encontrar fundamento nesta ação na idéia de Promoção da Saúde, definida na Carta de Ottawa como:

(…) processo de capacitar as pessoas para aumentar o controle sobre, e para melhorar sua saúde. Para atingir um estado de completo desenvolvimento físico, mental e bem-estar social, um indivíduo ou grupo deve ser capaz de identificar e realizar aspirações, satisfazer necessidades e mudar ou lidar com o ambiente” (OPAS,1986).

A todo instante passamos por situações estressantes, dilemas, angústias, perdas e danos. O caos faz parte de nossa vida. Se as pessoas não aprendessem, se adaptassem, moldassem ou se deixassem moldar pelo ambiente, talvez a raça humana jamais tivesse evoluído para o seu estado atual. Seguindo essa linha de raciocínio, a psicologia da saúde irá se nortear pelos caminhos que “causam” saúde – fatores salutogênicos – do que pelos fatores que causam a doença – fatores patogênicos (WHO, 2005, p.50).
Mesmo dotado de todo o conhecimento teórico e de técnicas de intervenção, o psicólogo da saúde precisa ainda ter em mente que não atuará só, mas muitas vezes em equipe multidisciplinar, onde discutirá propostas de intervenção junto a médicos, enfermeiros, nutricionistas e demais profissionais da área. Seu público alvo é diversificado: pacientes de hospitais ou clínicas de reabilitação; parentes que atuam como cuidadores de seus entes enfermos; trabalhadores de indústrias e pessoas que não adoeceram, mas estão num contexto de vulnerabilidade.

Indivíduos saudáveis ou em risco podem aprender comportamentos saudáveis preventivos. Freqüentemente as intervenções desse tipo feitas por psicólogos da saúde concentram-se em mitigar o impacto negativo do estresse, promovendo mecanismos de enfrentamento ou um maior uso de redes de apoio social (STRAUB, 2005 p.46).

Trazer informação de qualidade; fornecer orientações que tenham impacto e alto grau de resolutividade na realidade das pessoas são alguns dos muitos desafios do psicólogo que pretende atuar na área de saúde preventiva.

Sobre o Autor:

Fábio Fischer de Andrade é Psicólogo e escreve sobre psicologia em seu blog pessoal:http://fabiopsi.blogspot.com/

Referências:

BAUM, Andrew;  SUTTON, Stephen; JOHNSTON, Mary. (orgs) The Sage Handbook of Health Psychology. 2005. London: Sage Publications. pp. 448.

WEINER, Irving B.Handbook of Psychology: Health Psychology. Vol.9. 2003. New Jersey:John Wiley & Sons. 668p.

WHO. Promoting Mental Health: Concepts, Emerging Evidence, Practice.2005. Disponível em: htt://www.who.int/mental_health/evidence/MH_Promotion_Book.pdf

STRAUB. Richard O. Psicologia da Saúde. 2005. 1a ed. Porto Alegre: Artes Médicas. 676p.

OPAS.Carta de Ottawa. 1986. Disponível em: http://www.opas.org.br/promocao/uploadArq/Ottawa.pdf