Resumo: O presente artigo pretende compreender os aspectos subjetivos que envolvem separação conjugal; busca refletir sobre noções de gênero, assim como a representação social do casamento. Será ainda evidenciado como as ideias junguianas podem proporcionar uma reflexão mais profunda sobre o tema. Partindo da noção de complementaridade entre a consciência e o inconsciente, jung estabelece que o homem tem uma alma feminina – a anima – e a mulher, uma alma masculina – o animus. Uma importante diferenciação deve ser feita, feminino não deve ser confundido com mulher e masculino não é o mesmo que homem. Quando é feita esta distinção feminina e masculina são vistos como princípios e não contaminados por diferenças de gênero, mais sujeitos às influencias culturais. O casamento passou a ter uma grande importância de estabilidade social e psíquica, mas na atualidade as pessoas não estão mais se sentindo tão acolhidas pelo casamento quanto em épocas passadas. O desejo de separação é uma consequência da não realização das projeções depositadas na nossa consciência. A separação conjugal não é um acontecimento raro, vivido por poucos, na maioria é uma das experiências mais dolorosas na vida do ser humano. É necessário ser indivíduo separado, com o ego firme e estruturado na individualidade. O que não irá nos garantir que não passaremos por futuras decepções ou novas separações amorosas sem vivenciar algum sofrimento, uma vez que não há como criar imunidade a dor de uma perda

Palavras chave: Separação, casamento, gênero.

... Até nos tempos mais sombrios temos o direito
De esperar ver alguma luz. É bem possível que essa luz não venha tanto das teorias e dos conceitos,
Como da chama incerta, vacilante e muitas vezes tênue que alguns homens e mulheres conseguem alimentar
Em quase todas as circunstâncias e projetar em todo o tempo em que lhes foi dado viver neste mundo.
Hannah Arendt

Através de estudos e fatos consumados, relatados e presentes na história do nosso país, verificamos que a mulher não tinha direitos, era submissa tanto ao marido quando casada, quanto ao pai que possuía todo o poder da esfera familiar.

As mulheres existentes no passado de nosso país não tinham voz ativa, não podiam trabalhar, nem opinar no casamento, era totalmente anulada, tratadas como alguém sem personalidade, sem sentimentos e sem direitos. Esta relação assimétrica entre homens e mulheres, que marcou nosso processo de colonização, com a afirmação do poder do homem, acrescidos aos aspectos de raça e classe social fará parte da construção social da imagem do homem e da mulher em nossa sociedade, reproduzindo-se nas relações familiares e em várias situações da vida social.

Essa imagem social é internalizada pelo sujeito nos seus variados aspectos. A mulher passa a si compreender dentro desses adjetivos: submissa, dependente, entre outros. Dessa forma, vivenciar uma separação conjugal pode trazer sentimentos de culpa, de rejeição, inutilidade e ainda, medo de discriminação e preconceito.

Deste modo, o presente artigo pretende compreender os aspectos subjetivos que envolvem separação conjugal; para tanto, busca refletir sobre noções de gênero, assim como a representação social do casamento. Será ainda evidenciado como as ideias junguianas podem proporcionar uma reflexão mais profunda sobre o tema. Faz-se necessário, portanto, elaborar reflexões acerca de casamento e separação de dentro de algumas reflexões junguianas.

Contribuições Junguianas

Antes de aprofundar os objetivos deste trabalho faz-se necessário tecer algumas considerações sobre a teoria junguiana, tendo em vista que este é o arcabouço teórico do presente artigo. A abordagem sobre o nascimento da psicologia analítica passa pela historia pessoal do seu criador – Carl Gustav Jung ( 1875-1961). O arranjo familiar e social lhe ofereceu inúmeras vantagens e desvantagens diante da formação de uma personalidade introvertida com a qual Jung se caracteriza. Estudos aprofundados sobre o inconsciente, sobre o comportamento, sobre a antropologia e cultura. Um mundo amplo, vasto e coerente com o seu desejo íntimo de compreender o sujeito e suas inter-relações. Jung chamou de arquétipo a estes traços funcionais do inconsciente coletivo. Os arquétipos não são observáveis em si, só podemos percebê-los através de imagens que ele proporciona. Salienta Jung – “’ Imagens’ expressam não só a forma da atividade a ser exercida, mas também, simultaneamente, a situação típica no qual se desencadeia a atividade. Tais imagens são ‘imagens primordiais’, uma vez que são peculiares à espécie, e se alguma vez foram ‘criadas’, a sua criação coincide no mínimo com o início da espécie. O típico humano do homem é a forma especificamente humana de suas atividades”.

Alguns arquétipos foram amplamente enfatizados por Jung, pois permeiam o desenvolvimento da personalidade e invariavelmente estão bem próximos de nós, no nosso dia-a-dia, e são mobilizados, pela psique, tão logo surja uma situação típica.

Este artigo tem uma visão junguiana dentro da psicologia analítica, onde trago alguns aspectos do arquétipo da Anima/Animus, para entender um pouco a questão de gênero com enfoque na percepção da mulher, o que me leva a colocar o conceito de Anuma/Animus.

As palavras anima e animus tem origem latina, possuindo o significado de alma (anima) e espírito (animus)”. O conceito de anima/animus é uma das pedras de toque da psicologia junguiana, e um de seus aspectos mais conhecidos.

Partindo da noção de complementaridade entre a consciência e o inconsciente, ela estabelece que o homem tem uma alma feminina – a anima – e a mulher, uma alma masculina – o animus. Para Jung, o que caracteriza a feminilidade da anima é o sentimento, enquanto o animus está ligado predominantemente ao pensamento racional, essencialmente masculino. No processo de individuação, integrar a anima para os homens e o animus para as mulheres é uma das etapas fundamentais, vindo logo depois da integração da sombra e imediatamente antes da realização do Si-mesmo.

Estes conceitos da teoria formulada por Jung permitem entender a abordagem das relações entre o feminino e o masculino, não só como relação entre gênero, senão como dimensões inerentes à subjetividade tanto de homens como mulheres

O conceito de projeção é um componente importante nesta formação das representações de gênero. Este conceito, compartilhado tanto por Jung como por Freud, pode entender-se como o processo mediante o qual os conteúdos de nosso próprio inconsciente são rejeitados e percebidos nas outras pessoas.

Um outro conceito também usado neste trabalho, e que complementa a teoria Junguiana é a da individuação, descrito por Jung como o processo de reconhecimento e integração de conflitos internos e de complexos conscientes e inconscientes. É o autêntico desenvolvimento da personalidade que se consegue ao integrar de maneira harmônica todos os componentes contrapostos como o masculino e o feminino.

No senso comum, as diferenças de gênero são interpretadas como se fossem determinadas pelos corpos, o que para ciência são socialmente construídos. O conceito de gênero pode nos ajudar a ter um olhar mais atento a determinados processos dos valores entre o masculino e o feminino, gerando desigualdades. Tudo o que a pessoa aprender sobre o certo e o errado dentro do modelo de educação influenciará na sua formação seja em relação a sexualidade até mesmo na formação de caráter. O que podemos constatar é que a cultura é quem constrói o gênero, simbolizando as atividades como masculina Quando e femininas.

Scoot (1996, p.26). Afirma “... que o gênero é a forma primeira de significar as relações de poder” ele não está falando de ideias, mas a tudo o que diz respeito as relações sociais. Em síntese podemos dizer que o gênero não reflete a realidade biológica primeira, mas constrói o sentido dessa realidade.

Sujeito do seu tempo, imersos em um conjunto especifico de relações sociais historicamente situadas, cada Ser humano tem um grupo originário e estão submetidos às regras de comportamento que se firmam conforme a ética hegemônica. Assim sendo, sob o ponto de vista da  construção de sua classe, raça, religião e a forma de inserção na sociedade. Deste modo, a partir dessas variáveis fundamentais se constroem o   ser mulher e o ser homem” (GUIMARÃES In: CASTILLO-  MAETÍN; OLIVEIRA,2005, p.90).

O que não podemos deixar de colocar é que percebemos o modo de cada cultura construir o gênero, determinado assim um padrão de organização e das práticas sociais; estabelecendo lugares distintos para homens e mulheres. Percebendo hoje o avanço da mulher com a conquista expressiva no espaço do mundo dentro das participações em que outrora eram apenas destinadas aos homens, e uma outra observação que não poderíamos deixar de colocar é, mesmo a mulher abrangendo um espaço externo, no entanto a vida doméstica não tem nenhuma mudança, deixando as mulheres a difícil tarefa de conciliar ambas as dimensões, a vida doméstica e a externa. Ainda procurando desenvolver alguns conceitos a respeito das questões de gênero dentro do meio acadêmico junguiano: o feminino e a mulher.

Uma importante diferenciação deve ser feita, feminino não deve ser confundido com mulher e masculino não é o mesmo que homem. Quando é feita esta distinção feminina e masculina são vistos como princípios e não contaminados por diferenças de gênero, mais sujeitos às influencias culturais. Pois masculino e feminino são potencialidades presentes tanto em homens como em mulheres mesmo que em proporções diferentes, assim pontua WHITMONT (1990).

Jung (1934/1978) denominou anima para o feminino de um homem e animus para o masculino da mulher. São figuras arquetípicas que representam o outro e estranho ao ego. Este conceito pode ser visto como uma grande contribuição de Jung para a compreensão do relacionamento entre homens e mulheres; anima e animus são os parceiros invisíveis presentes nos relacionamentos. O homem projeta sua anima na mulher e a mulher projeta seu animus no homem. Projeções estas inconscientes mas que afetam a percepção que se tem da outra pessoa. Pelo fato de não escolhermos nossas projeções, as quais acontecem de forma autônoma sendo inconscientes, não quer dizer que não somos responsáveis por elas. Neste ponto aparece-nos o papel do ego para a nossa individuação que na teoria de Jung vem a ser – “torna-se um ser único”. As projeções refletem nossos conteúdos psíquicos.Tornando-se visíveis representando uma oportunidade para conhecer-mos nosso interior.

Para Jung (1959/1982, p.13) a relação anima/animus, seja de forma positiva ou negativa, é emocional e coletiva, pois os afetos aproximam a base instintiva e universal da relação. Ele diz: “Todas as vezes que o animus e a anima se encontram, o animus lança mão da espada de seu poder e a anima asperge o veneno de suas ilusões e seduções”.

E o que não mais seriam os empates destes encontros e desencontros se não o que constituem o dia a dia dos nossos relacionamentos. Concordo com o autor  junguiano  VARGAS, (1997), que diz que o relacionamento é um lugar propício a individuação, tal é a oportunidade que nos é oferecida se ousarmos olhar para o que anima/animus espelham para nós através do que foi projetado em nossos parceiros de carne e osso.

A Construção Social do Casamento

Para compreender a experiência psicológica da mulher na separação conjugal é necessário que façamos algumas reflexões sobre o casamento. Pois antes de estar separada a mulher esteve casada; então farei uma apresentação breve da história do casamento.

O que é casamento por um olhar historicamente social? Ao analisarmos o casamento na perspectiva social, vamos encontrar uma história de relação depressão. Quando observamos desde os primórdios percebemos que a mulher não tinha valor como pessoa. Elas deviam sempre estar prontas para cuidar da casa, dos filhos e sempre sujeitos à autoridade do seu marido. Sempre submissa ao poder masculino seja enquanto filha, seja enquanto esposa sempre dependente do homem para realizar sua missão. Essa visão de mulher constitui o mito da esposa ideal, defendido e propagado pelo cristianismo. A mulher que cuida do marido e dos filhos, sempre alegre, que não desperdiça nada e estar sempre pronta para servir o marido quando for solicitada. O casamento passa a ser para esta mulher sinônimo de opressão e desilusão. É proposto, a essa mulher, uma vida em que cabe ao marido tomar as decisões e a ela cabe cuidar para executá-las.

Na idade média, o casamento ocupava uma importância primordial como meio de criação e conservação das estruturas de poder e propriedade. Principalmente nas classes mais elevados, aos jovens e as mulheres não se permitia a escolha de seu marido, esse destino era traçado pelas gerações mais velhas. A vida conjugal desta época era sobretudo um estilo de vida, baseada na necessidade de regulamentação das relações sociais. Ainda na idade média ver-se um novo modelo que se insere até os dias de hoje na relação homem mulher o modelo do amor no casamento. A união do casamento interligado ao sentimento do amor traz o auge de uma visão de casamento mais estáveis e a família se fortaleceu ficando a mulher destinada ao lar e aos cuidados dos filhos e tendo o homem como único provedor. O casamento passou a ter uma grande importância de estabilidade social e psíquica, mas na atualidade as pessoas não estão mais se sentindo tão acolhidas pelo casamento quanto em épocas passadas (OPITZ.1990).

O que vemos hoje são outras formas de parcerias, os relacionamentos são mais abertos, mas não tão duradouros e dentre esses aspectos vemos também mudanças significativas dentro da relação. O homem deixa de ocupar o lugar de provedor único, e a mulher, ao colaborar com o orçamento doméstico, passa a dividir o poder. Com todas essas mudanças será que no íntimo a mulher ainda deseja aquele marido protetor e provedor, da mesma forma que mesmo aliviado com a ajuda no orçamento domestico o homem se sente incomodado por a mulher não mais cuidar dele como antes? A sociedade atual oculta com mais facilidade as separações, os casais de hoje tem menos tolerância para construir o relacionamento. A separação passou a se apresentar como uma saída natural para um relacionamento insatisfatório e desgastado.

 O que explica neste início de século, o surgimento de novas formas de relacionamento homem-mulher, que coloca em ênfase tais concepções ortodoxas desta relação. Sabemos que antes o casamento era visto como indissolúvel, percebe-se a partir da ideia de sacramento do matrimônio ser a base da construção familiar, consequentemente, está ligado a estrutura da sociedade. O casamento neste contexto é visto como a união entre homem e uma mulher, que em amor permanecerá juntos para sempre, com um olhar filosófico, pois bem hoje vemos que a motivação para o casamento pode e é diferente entre os sexos. Enquanto alguns homens procuram uma companheira, para cuidar do lar, ter filhos; tem mulheres que além destes motivos também tem medo da solidão. Ouve épocas onde as juras de amor era a motivação quase exclusiva para nutrir as expectativas de sucesso no casamento, hoje se fala em afinidades de personalidade. É necessário que homem e mulher conscientizem-se que a relação matrimonial é uma relação de construção, pois é convivência, o que implica em uma vida com responsabilidade, respeito, desenvolvimento, realização e valorização do outro. Ser cúmplice é ser parceiro. É ser companheiro, é permitir que o outro cresça, desenvolva, se realize como pessoa, como homem, como mulher, como cidadão. O que se conclui que em uma perspectiva histórico-social, o casamento não cumpriu seu papel de agente libertador, que possibilitaria o homem e a mulher uma relação igualitária e de crescimento mutuo.  

 Atualmente percebe-se que o casamento está com uma grande instabilidade, demonstrada pelo crescente aumento de separação e divorcio segundo dados apontados pelo IBGE. A crise no casamento está ligada a uma série de fatores que se estendem desde os valores fundamentais da sociedade como também a moral e a religião, as novas concepções e mentalidades sobre o casamento e a família buscam atender a novas dinâmicas dos novos tempos; mudanças de comportamento que prezam a felicidade através da liberdade. Essa mudança é marcada pelo declínio do patriarcalismo, que antes impunham a família no papel principal da mulher a estabilidade forçosa e penosa; para o reconhecimento verdadeiro de espaço de afeto e companheirismo vinculado ao movimento feminista, alterando assim fundamentos morais da sociedade com uma nova redivisão do trabalho pelas mulheres

Toda essa mudança foi acrescida pelo desenvolvimento psicanalítico que passa a considerar, na relação conjugal, a subjetividade; o que estrutura realmente o casamento são os laços de afinidade, companheirismo e o desejo, sem os quais não há motivos para viver um casamento fracassado. Diante de todos os contextos apresentados no presente artigo, a mulher enquanto decidida a finalizar o seu relacionamento com a separação, apesar desta vontade ser expressada, a mulher sente-se triste, solitária, desamparada, com raiva, exprimem desejos de vingança, tem uma enorme cessação de vazio. É como se houvesse uma perda de identidade em decorrência da separação, o que explica na visão junguiana a dificuldade maior da mulher para lidar com situações de separação. WHITMONT(1990). A separação considerada perda está associada a conteúdos inconscientes projetados no parceiro e na conjugalidade que ainda não havia sido reintegrado a consciência. Reconhecer a raiva que estava na sombra do relacionamento, reconhecer as projeções depositadas no parceiro e ter que enfrentar a solidão, se revela como oportunidades de diferenciações necessárias ao processo de individualização. Embora saibamos que a separação é vivenciada de formas diferentes, cada elaboração do luto pela perda amorosa deve-se dar de forma em que esse processo não venha a deixar a mulher depressiva.

 Muita das mulheres hoje separadas tem sido agentes das transformações durante décadas anteriores que descobriram inúmeras possibilidades de realização para a mulher e reformularam as relações de gênero, refletidas nas mudanças familiares e amorosas.

Talvez por estas mudanças o número de separações tenha tido um grande aumento, o que não impedem os casais de se unir prometendo ficar juntos até a morte .Após a separação, muitas vezes formam-se novos vínculos afetivos entre ele. Vivemos uma época de transição em que modelos patriarcais estão sendo abandonados, uma vez que já não atendem as necessidades coletivas. É uma época de incertezas e desafios, mas também de novas possibilidades. Na qual a conquista da mulher neste processo de separação busca novas  realizações, por falar no pessoal este artigo se entrelaça com o meu próprio processo pessoal, como diz um tratado citado por Jung ( 1946/1987,p.66).” A arte requer o homem inteiro”.  Este percurso na elaboração deste artigo me leva a ficar de frente com questões teóricas lidas, que me fazem sentir num processo terapêutico a onde a própria terapêutica sou eu.

Quando mencionei o autor WHITMON, (1990) que afirma ser mais difícil para a mulher, dada sua natureza, lidar com problemas nos relacionamentos e com a separação amorosa, vejo nele a possibilidade de entender o meu processo pessoal, sobre a difícil aceitação de vivenciar a dissolução do vínculo amoroso que não diferem de outras mulheres que conversei apesar de não ser uma pesquisa de campo, mesmo assim falei com algumas mulheres que vivem o mesmo processo. E o caminho possível para refletir sobre esta questão é percorrer o desenvolvimento psicológico da mulher em sua especificidade, sem necessariamente ter que desenvolver uma teoria sobre o tema, mas sintetizar algumas ideias que podem contribuir para uma melhor compreensão do desenvolvimento feminino dentro de uma separação, no que diz respeito, a angústia sentida, ao enorme vazio que se sentem, as incertezas do amanhã, questões vivenciadas pela maioria das mulheres que vivem este processo, e que muitas vezes não conseguem atravessar este caminho.

O que tenho notado neste processo de elaboração do meu artigo é uma grande dificuldade de achar bibliografia referente ao tema, um tema atual, que me mostra que mulheres de todas as classes passam por um processo parecido, mulheres financeiramente bem resolvidas, ou não, o sentimento é o mesmo é um luto que embora muitas vezes buscados por nós mesmas mulheres, o nosso inconsciente nos prega uma peça e nos faz desabar, com uma realidade não esperada, um sentimento de vazio, de incertezas de não ter cumprido o papel feminino vendo-o fracassar diante de nós.

 O que tenho lido e me ajudado a formular algumas questões vem da teoria junguiana na psicologia analítica, que traz questões de gênero, a que me detenho a definição para redefinir o feminino e a mulher em relação aos preconceitos e frutos da visão da sua época; por se tratar de um artigo sobre separação conjugal na percepção da mulher, tomei apenas alguns focos sobre o desenvolvimento da mulher. Entre um desses desenvolvimentos a questão dos complexos vividos pela mulher, mas especificamente dentro da relação do casamento. Muitos dos obstáculos encontrados dentro do casamento explicam muitos dos conflitos vividos quando se chega a separação a vias de fato. Os complexos constituem nossas marcas e de certa forma, pode-se dizer, é o que nos torna singulares, com nossas preferências.

Todos nós temos complexos, ou como afirma Jung (1934/2000). “os complexos é que nos tem”. Por isso a pessoa pode perder o controle, se tornar irracional e fazer coisas impensadas. O problema para as mulheres em nossa sociedade é que não se exige o desligamento do complexo paterno, o qual o homem e o masculino são idealizados, o que acarreta uma desvalorização de si mesma como mulher. Se a mulher necessita da admiração dos homens quando vive a perda de uma presença masculina, neste caso a separação, ela perde sua auto-estima, ficando assim dependente da presença masculina para ter a sensação de ser ela mesma. Tendendo muitas vezes a uma reação depressiva com a grande dificuldade da perda, com já citei antes, mesmo sendo a separação de uma iniciativa da própria mulher.

Quero fazer uma observação e falar que com todas estas colocações não quero dizer nem mostrar que o caminho percorrido nesta perda seja mais difícil para a mulher que para o homem. Há sim algumas complicações especifica para a mulher, assim também como há no desenvolvimento masculino, o que não me detem no meu artigo. Apenas tomei como partida a minha própria observação pessoal e a afirmação de alguns autores sobre as dificuldades das mulheres para lidar com a situação da separação conjugal, no caso a vivencia na perda amorosa, sendo talvez possível afirmar que se não houvesse a dissolução da identificação com animus e se não houvesse a reconciliação com o feminino, será ainda mais difícil lidar com a situação da separação. São os casos de mulheres bem sucedidas, que ao enfrentar uma separação, perdem o chão, não tem base própria para se firmar sem o companheiro. O que nos mostra que mesmo com tantas conquistas, transformações sociais e psicológicas; as mulheres de hoje  ainda são tidas como aqueles modelos patriarcais, tendo em vista as outras possibilidade que trazem novas formas de relacionamento afetando e refletindo na relação entre homens e mulheres.

Separação: uma Vivência de Ressignificações

A falência de um casamento não se dá de uma hora pra outra. Trata-se de um longo processo para o qual contribuem os parceiros com suas dificuldades pessoais. A verdadeira causa da culpa, numa abordagem psicológica, é subjetiva e se constrói, quase sempre, com a participação de ambos. Assim seria imprudente responsabilizar a aparente culpa por um comportamento que pode ser reflexo da atitude do outro ou a projeção de um problema do outro.

O desejo de separação é uma consequência da não realização das projeções depositadas na nossa consciência. Aqui falarei das consequências da separação, envolvendo sofrimento e a dor vivenciada no processo da dissolução do casamento.  Existe muita dificuldade em aceitar a separação como algo definitivo para as pessoas envolvidas, tanto os pais quanto para os filhos quando os tem.

Quando há uma quebra nesta relação de amor, por uma das partes, é provocado no outro uma dor que talvez se inscreva entre as mais difíceis de suportar. Entre os sentimentos negativos mais frequentemente encontrados destacamos a: tristeza; isolamento; culpa; ansiedade; depressão; insegurança; medo e solidão. 

O impacto emocional da separação conjugal perturba a estrutura da vida social e emocional das pessoas, o rompimento do casamento costuma produzir perturbações em ambos os sexos, quase que independentemente da qualidade do casamento ou do desejo de dissolução. O período de separação é muito estressante em sua totalidade, porque requer grande quantidade de energia concentrada em um único problema, o que torna os indivíduos mais fracos, vulneráveis e indefesos, tanto no nível psíquico, quanto no físico. O medo, o sentimento de culpa, a raiva e a depressão são assustadores e previsíveis, pelo fato de o divórcio representar a perda de uma das bases da existência das pessoas envolvidas.

A separação conjugal não é um acontecimento raro, vivido por poucos, na maioria é uma das experiências mais dolorosas na vida do ser humano. A separação para quem vivia uma relação de amor, assemelha-se a uma mutilação. Schettini (2000 p.44), conta que a separação “ é como se, perdendo o outro, ter-se-á perdido uma parte de si. Produz-se uma ‘ descompensação’”. O rompimento pode provocar sentimentos de rebeldia ou conformação, vai depender da historia de vida do indivíduo e o seu condicionalmente especifico (ver Caruso, 1988).

Mesmo quando havia sofrimento durante o relacionamento é muito difícil existir uma separação sem dor. Passar por esse momento desapercebido é impossível. Os sentimentos que antes era possível disfarçar, agora parecem ficar mais expostos como nunca. A separação de fato machuca tanto, que na escala das causas de estresse vem imediatamente após a morte de uma pessoa significativa. Tanto isso é verdade que na maioria dos casos, quando esse vínculo é rompido, é necessário um trabalho interior que requer uma enorme quantidade de energia psíquica para recuperar o equilíbrio perdido, tal qual quando perdemos uma pessoa querida pela morte real.

Segundo Caruso (1989), estudar a separação amorosa significa estudar a presença da morte na vida. É a vivencia da morte do outro na consciência de quem sofre, e o que é narcisicamente mais doloroso para quem sofre: a vivência da morte dele na consciência do outro.  

Caridade ( 1997 p.98) diz que há uma sentença de dupla morte com a separação. “O apaixonado sabe que morreu dentro do outro. Tem que aceitar a vivencia dessa morte ao mesmo tempo em que vai lutar desesperadamente para matar o outro que ficou dentro de si”.

O luto pela perda é vivido de maneira penosa e não guarda nenhuma certeza do fim da relação. Um esforço enorme é feito para enfraquecer a força do imaginário que age com bastante intensidade em detalhes que Caridade (1997 p.102) descreve assim: “Cada imagem açoita a memória amorosa, cada lembrança é discurso que reativa dores guardada, desejos imprudentes. A fantasia encarrega-se de magníficar o abandono, como uma foto que se amplia ao tamanho social” .Ela traz ainda que “ é preciso compreender que a solidão é também lugar de conforto, questionamento, do refazer-se, do curar-se de si mesmo e do outro”.

Muitas das pessoas separadas têm necessidades de criar um tipo de ritual, tal como mudar os móveis de lugar, se desfazer de objetos que representem o laço do casamento, tudo é um processo para o início de uma nova vida. Talvez seja esta a perda mais significativa no processo da separação, a perda do “eu”, ou seja, a percepção de transformação na própria identidade, as quais trazem mudanças significativas na noção de quem se é depois da separação, muitas vezes ocorre uma desestruturação em vários níveis que envolvem a personalidade e a auto-imagem da mulher – É como se aos poucos forcemos buscando o resgate de uma outra pessoa, que existia e que agora poderia ser retomada de volta. Agora não há mais um casal, volta-se a ser um só, o nós deixa de existir e de ser uma referencia para a nossa identidade.

Segundo Schettini (2000 p. 33), a separação e a perda se confundem nos seus efeitos:

A perda é um fantasma que aterroriza os Que detêm na sua contemplação.Quantos perdem suas posses e junto Com elas também se perdem!  Simplesmente por deixarem de ganhar. A perda talvez seja a ameaça mais Angustiante enfrentada pelo ser humano.

Segundo Bueno (2000), no minidicionário da língua portuguesa, perda significa ato de perder, desaparecimento, extravio, desgraça, destruição.

Kovács ( 1992, p.150) traz que a perda e sua elaboração são elementos contínuos ao longo do desenvolvimento do ser humano. E dessa forma a perda pode ser chamada de morte “consciente” ou morte vivida. Acompanhamos o pensamento da autora:

A morte nos fala em primeiro lugar de um vinculo que se rompe de forma irreversível, sobretudo quando ocorre perda real e concreta.Nessa representação de morte estão envolvidas Duas pessoas: uma que é “perdida” e a outra que lamenta essa falta, Um pedaço de si que se foi. O outro é uma parte internalizada nas  memórias e nas lembranças, na situação do luto elaborado. A morte como perda evoca sentimentos fortes, pode ser chamado de  ‘morte sentimento’ e é vivida por todos nós.É impossível encontrar um ser humano que Nunca tenha vivido uma perda.Ela é vivenciada Conscientemente. Por isso muitas vezes, mais Temida do que a própria morte. Como esta Ultima não pode ser vivida concretamente, a única morte experenciada é a perda, quer Concreta, quer simbólica.

 As perdas não são apenas perdas: são muitas vezes condições para ganhos, que não seriam perceptíveis sem sua vivência. Isso não se trata de uma atitude de conformismo, mas sim uma constatação prática de quando se é ultrapassado o momento crítico da dor. Há conquistas que nunca ocorrerão se não forem procedidas de perdas.

A perda do ser amado traz vivencias de dor. Não há separação sem dor: “a dor se revela inerente a todo processo de afastamento, por mais necessário que se apresente”. Caridade (1997, p. 100).

O simbolismo da morte está vinculado ao renascimento, há neste processo uma rendição e aceitação do ego à realidade da perda ao mesmo tempo em que se realiza um esforço consciente para sobreviver à dor através das atividades cotidianas que o mundo externo exige. A capacidade de fazer escolhas está associada ao simbolismo da separação, que implica na descriminação e saída do estado de fusão e inconsciência. Assim como em outros eventos traumáticos na vida separação pode ser vivenciada de modo criativo ou paralisante. Desta última forma, os mecanismos inconscientes que podem ter contribuído para a separação correm o risco de se perpetuar, o luto não elaborado pode congelar o desenvolvimento, o abandono permanece como uma sentença condenatória de fracasso e incapacidade, a raiva pode aprisionar a pessoa na posição de vítima injustiçada deixando de haver um crescimento e uma transformação para uma nova vida fora da relação conjugal, muito embora a iniciativa da separação seja exatamente da pessoa que não esteja preparada para viver este luto (perda).

A perda amorosa é dolorosa, entre tantas outras na vida, e que, de um modo ou de outro, é possível sobreviver a todas elas. Através de ajudas terapêuticas, buscando e recuperando a auto-estima, resgatando aspectos importantes da personalidade que foram deixados de lado, recolher as projeções ainda depositadas no parceiro, descobrir novas possibilidades de realização. O terapeuta aceita o cliente como ele é e suas necessidades, mas sem controlar ou manipular, sem seduzi nem deixar-se seduzir, sem incorporar projeções ou buscar de forma onipotente satisfazer o cliente e “salvá-lo” das próprias dificuldades. O terapeuta se oferece como instrumento para que o cliente possa experimentar seguramente o sofrimento auto-imposto, e a partir da constatação profunda de seu modo de existir, possa confrontar-se e compreender-se.

Portanto, a psicoterapia é facilitadora do encontro do cliente consigo mesmo atualizando as suas necessidades em um movimento de crescimento. Apropriando-se de antigas estratégias, apoderando-se delas e desenvolvendo a capacidade de criação de novas, para experimentar as novas relações amorosas.   

É necessário ser indivíduo separado, com o ego firme e estruturado na individualidade. O que não irá nos garantir que não passaremos por futuras decepções ou novas separações amorosas sem vivenciar algum sofrimento, uma vez que não há como criar imunidade a dor de uma perda. O sofrimento é inerente ao envolvimento e ao estar profundamente vinculado a alguém. Áreas de inconsciência sempre existem, os complexos não podem ser completamente eliminados, algumas projeções são inevitáveis e constituem a o ponto central da atração e do amor.    

Considerações Finais

Este trabalho teve por objetivo entender o processo de dissolução do casamento e a busca para reconstruir suas identidades individuais, após a separação conjugal. Analisando algumas diferenças entre gênero.

O anima na visão junguiana nos traz o lado do sentimento masculino, enquanto o animus mostra a racionalidade feminina, o que conclui que homem e mulher na maioria das vezes comportam-se diferentemente e manifestam o processo da separação conjugal de um modo único para cada caso, deixando muitas vezes o seu lado anima/animus mais aflorados nestas situações.

O casamento enquanto constituição histórica passou por diversos modelos e transformações. Hoje percebe-se uma  nova forma de vivenciar o casamento, o qual se caracteriza por a busca de um relacionamento que traga satisfação pessoal o que quando não acontece, este sentimento gratificante, leva tantos casamentos a se dissolverem.

A separação conjugal leva os envolvidos a ressignificar a vida, onde não existe mais o nós, mas sim o eu, o qual se estabelece como um novo indivíduo que tenta se desprender das projeções depositadas no seu amado e que agora a consciência não mais as ver como reais.

Outro ponto importante, foi a compreensão individualizada neste processo de separação muitas vezes doloroso, levando o indivíduo a procura pelo tratamento/processo terapêutico, levando o terapeuta a ter um  papel fundamental no encontro do cliente com o seu eu perdido outrora esquecido.Sem deixar de tentar ou pensar em  novos relacionamentos futuros por um desfeito agora no presente.   

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