Falar sobre adoção no Brasil ainda gera polêmica frente a difícil situação do sistema de adoção presente, e ao grande número de crianças rejeitadas por pais que apenas desejam crianças entre 1 e 3 anos, essas são assim, obrigadas a ficar nos abrigos até completar a maioridade e a encarar a vida sozinhos.

[...] podemos definir a adoção como a inserção num ambiente familiar, de forma definitiva e com aquisição de vínculo jurídico próprio da filiação, segundo as normas legais em vigor, de uma criança cujos pais morreram ou são desconhecidos, ou, não sendo esse o caso, não podem ou não querem assumir o desempenho das suas funções parentais, ou são pela autoridade competente, considerados indignos para tal (GRANATO, 2003, apud SILVA, 2009, p. 31).

A adoção pode ser categorizada como adoção comum, adoção clandestina, quando acontece em desacordo com os termos da lei, e adoção tardia, feita com crianças entre 2 e 3 anos em diante.

Naturalmente o processo de adoção de crianças no Brasil passa por etapas que visam medidas de segurança para todas as partes envolvidas, através do Cadastro nacional da justiça (CNJ).

O CNA é uma ferramenta que auxilia os juízes das varas da infância e da juventude na habilitação dos procedimentos de adoção composto de informações sobre crianças e adolescentes aptos a serem adotados e pretendentes habilitados à adoção.

No Brasil quase 80% dos candidatos a pais adotivos só aceitam crianças pequenas, com no máximo três anos de idade.

De acordo com o Conselho Nacional de Justiça, o Cadastro Nacional de Adoção tem 10.518 pais interessados em adotar uma criança no Brasil. O número de crianças registradas aptas à adoção chega a pouco mais de 1,3 mil. Apesar do grande número de pessoas interessadas em adotar uma criança, o cadastro confirma que a adoção tardia ainda é um obstáculo a ser superado. Das crianças registradas, ainda segundo o CNJ, 124 têm de zero a 4 anos, 445 têm de 5 a 10 anos e 884 têm de 11 a 17 anos.

Quanto às preferências, 70% só aceitam crianças brancas. A grande maioria dos que querem adotar é também branca (70%). 80,7% exigem crianças com no máximo três anos; o sistema mostra que apenas 7% das disponíveis para adoção possuem esta idade. Além disso, 86% só aceitam adotar crianças ou adolescentes sozinhos, quando é grande o número dos que possuem irmãos, e separá-los constituiria um novo rompimento, o que deve ser evitado a todo custo.

Pesquisas “apontam para a preferência brasileira pela adoção de recém-nascidos, de mesma cor de pele que a família adotante e, preferencialmente, do sexo feminino, visto que mulheres são representadas como mais dóceis e de fácil adaptação a novos ambientes. Essas pesquisas também revelam o medo da realização de adoções tardias. Medo fundamentado no estigma de que crianças mais velhas trariam consigo maus hábitos, defeitos de caráter adquiridos em suas famílias de origem (por convivência ou por herança biológica) ou ainda adquiridos em abrigos” (COSTA E ROSSETTI-FERREIRA, 2007, P.427).

Ao tomar uma decisão pela adoção tardia a família busca procurar atender não só as suas perspectivas, mas as estimativas da criança adotada, tendo em vista que esta família já possui filho(s) biológico(s), a grande preocupação dos pais é como o filho recepcionará a criança adotada. A adoção tardia requer um trabalho maior com as famílias que possuem filhos biológicos, pois estas tem que procurar orientação para lidar com adaptação da criança em um ambiente que já possui regras e na convivência com filho(s) que o casal  já possua. Ao se tornarem pais de uma criança que já consegue dialogar, possuem hábitos, passaram por outras famílias ou até mesmo tiveram em abrigos, torna-se mais desafiador todo esse processo de relação.

A maternidade e a paternidade nesse caso vem se construindo no cotidiano, ao decorrer a criança conseguirá adaptar-se a vida da família, onde começará a criar laços afetivos e confiança com o(s) irmão(s).

Ainda segundo a pesquisa de Costa e Rosseti-Ferreira (2007), na adoção tardia a tensão é ainda mais complexa porque a criança se posiciona no processo interativo de modo mais ativo que um bebê, aceitando, negando e negociando posições que lhe são atribuídas, somado ao fato de que ela tem uma história pregressa.

Segundo Papalia e Olds (2000), a partir da segunda infância a criança desenvolve forças, habilidades motoras complexas. O comportamento é predominante egocêntrico, mas a compreensão de perspectiva das outras aumenta. A brincadeira a criatividade e imaginação tornam-se mais elaborados. A independência, o autocontrole e o cuidado próprio aumentam. A família ainda é o núcleo da vida, embora outras crianças comecem a se tornar importantes. 

A adaptação da criança, depende da forma como se deu a separação da família biológica, do tempo que passou em abrigos ou em situação de negligência ou de abandono, de ocorrência de outras separações e maus tratos causadores de grandes problemas psicológicos. Com a chegada de uma família adotante tudo muda, ela passará a ser vista como modelo. Para a criança é muito importante, pois a adaptação a uma família pode significar um novo recomeço para um futuro com dignidade. Para os filhos biológicos, a chegada de um irmão ou irmã pode causar grande impacto; os laços afetivos vão sendo formados, as rivalidades surgem só por um tempo até que predomine o afeto entre ambos.

Não é raro o aparecimento de famílias que buscam um psicólogo ou quaisquer outros profissionais da saúde para tratamentos e/ou terapias familiares através de problemas que envolvem a adoção. Esta constante busca deve-se muita vezes à uma decepção do adotantes ao se deparar com conflitos gerados com a criança adotada e uma distinção entre a vida com a criança adotada e a idealização da mesma anteriormente à sua adoção.

Segundo Teixeira Filho (2010), os adotantes chegam aos psicólogos convictos de que o problema das crianças esteja ligado à adoção, ou seja, não foi suficientemente amado pela mãe biológica e que essa falta de ‘amor’ em sua origem biológica estaria “falando mais alto” que a educação que lhe dão.

Em contrapartida a este imaginário popular, estudos científicos mostram uma indiferenciação entre o desenvolvimento de crianças adotadas e de crianças não- adotadas. Segundo Teixeira Filho (2010), estudos nas áreas de interesse psicológico demonstram a impossibilidade de se afirmar a existência de diferenças especificas entre crianças adotadas e não-adotadas, sendo reafirmado entre todos os autores que, é a relação, isto é, o vinculo estabelecido entre os adultos adotantes, a criança e o contexto em que se inserem que determinará a qualidade da relação e sua construção subjetiva.

Diante da nova realidade enfrentada pela criança ao ser recepcionada em seu novo lar, algumas questões podem surgir como resposta ao novo contexto de vivências dela. Ele deverá adaptar-se a sua nova realidade e ao novo convívio. Isso pode acontecer de uma forma fácil , natural e receptiva, mas também pode ser difícil e provocar alguns desajustes comportamentais e relacionais nas crianças envolvidas, já que um novo filho adotado passará a conviver com novos irmãos biológicos.

Os possíveis problemas que poderão surgir são: as brigas entre irmãos, principalmente em detrimento das rixas que poderão ser causadas entre adotados-biológicos, segredos na adoção que gerem problemas psicológicos e relacionais entre pais adotantes e filhos adotados, comportamento desajustado que já estejam desenvolvidos na criança adotada tardiamente, entre outros, já que a criança encontra-se em estado de regressão em seu desenvolvimento.

Os casos de adoção tardia devem ser vistos com muito mais cuidados em relação com os tradicionais, já que a criança que está neste processo já possui consciência de si, e do outro, e já tem a possibilidades de escolhas.Os pretendentes a adoção devem estar conscientes de que a adaptação pode levar um tempo maior, e que a conversa sobre a história de vida desta criança anterior a esta família é de fundamental importância no estabelecimento de vinculo, afetividade e apego criança-pai, tal atitude pode reduzir danos no desenvolvimento, ajudar em mudanças comportamentais e criar intimidade com os pais.

As histórias passadas anteriormente à adoção devem ser pontuadas, analisadas, discutidas e não podem ser apagadas da memória familiar por uma vontade egoísta dos pais adotivos.

Os segredos envolvidos na adoção, as histórias e traumas anteriores reprimidos neste novo nascimento social, e a falta de compreensão dos adotados tardiamente por parte dos pais adotantes podem gerar problemas psicológicos e sociais na criança adotada, podendo atingir assim os filhos biológicos que também fazem parte do novo ciclo da criança antes institucionalizada, daí a grande importância de uma boa recepção da criança tanto por parte dos novos pais, quanto dos novos irmãos.

Sobre o Autor:

Dhiogo Felipe Santos Gomes - Acadêmico de Psicologia da Faculdade Pio Décimo.

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