Resumo: O trabalho apresentado procura compreender a importância, contribuições e posicionamento da Técnica Cognitiva Comportamental (TCC) frente às demandas das múltiplas dificuldades encontradas na terapia com a pessoa idosa, mais especificamente as possibilidades de atuação do profissional de psicologia nesse contexto, e como a família se coloca diante dessa perspectiva. Pois, através de algumas pesquisas referentes ao trabalho psicológico na sociedade, foi possível observar como ainda é insuficiente o trabalho oferecido a essa demanda.  Progressivamente, observou-se que estudos psicológicos mais precisos e eficazes sobre a realidade social dos idosos são escassos, principalmente no que concerne ao trabalho psicológico na perspectiva cognitiva comportamental (TCC). Neste contexto, foi possível observar que embora o envelhecimento seja um processo natural, há pouco planejamento para o pós-aposentadoria. E, apesar ser esta fase da vida marcada por mudanças entre elas à alteração na estrutura familiar e o desligamento das relações de trabalho, pouco se estuda sobre o fenômeno (psicológico). Sendo essa um tempo de dúvidas em relação ao aproveitamento das experiências de uma vida ativa, sobre o que fazer neste período após longos anos de afazeres e ocupações, surge o interesse pela temática.

Palavras-chave: Intervenção, Terapia Cognitivo Comportamental, Idoso.

1. Introdução

Atualmente o processo de envelhecimento da população é um fato mundialmente reconhecido. Nesse contexto, a expansão da população idosa está ganhando destaque na mídia. Porém, é preciso estabelecer parâmetros para identificarmos que, mediante dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), pode-se considerar idoso todo indivíduo com idade igual ou superior a 60 anos.

E como podemos observar nos dados do IBGE a população idosa vem crescendo gradativamente ao longo dos anos:

O crescimento da população de idosos, em números absolutos e relativos, é um fenômeno mundial e está ocorrendo a um nível sem precedentes. Em 1950, eram cerca de 204 milhões de idosos no mundo e, já em 1998, quase cinco décadas depois, este contingente alcançava 579 milhões de pessoas, um crescimento de quase 8 milhões de pessoas idosas por ano. As projeções indicam que, em 2050, a população idosa será de 1900 milhões de pessoas, montante equivalente à população infantil de 0 a 14 anos de idade (IBGE, 2000).

Preocupações com o envelhecimento estão sempre presentes em nosso meio. Em uma perspectiva factual, os ricos e doenças, sejam físicas ou mentais, aumentam; a beleza da juventude se esmorece, significando um enorme prejuízo para muitos. Com isso, as atividades normais do dia a dia podem ficar debilitadas, comprometendo, também, a relação com o outro; e assim os problemas aumentam a cada situação. Nesse sentido, qual a importância do trabalho clínico voltado para o idoso?

Durante o envelhecimento alguns processos fisiológicos, emocionais e sociais, acontecem e merecem atenção e consideração. Por isso é muito importante compreender as necessidades específicas dessa faixa etária e buscar maneiras de supri-las, tendo sempre em vista a contribuição da psicologia. Para tanto, pensar nessa fase da vida como sendo ainda produtiva e possível de ser bem vivida deveria ser questão de saúde pública. Porém, enquanto essa demanda ainda não passa a ser uma questão real, visando um bem-estar físico, social e psicológico, algumas medidas podem ser tomadas. Entre elas encontra-se a psicoterapia, seja ela individual ou em grupo.

Assim, entre as abordagens psicológicas, a TCC (Terapia Cognitivo Comportamental) é bastante eficiente para essa fase da vida, por, entre outros fatores, ter como característica ser diretiva, pois tem o problema atual como foco do processo; estruturada, por se tratar de um processo sequencial e previamente estabelecido; e educativa, permitindo ser possível ao paciente aprender sobre o processo e participar do mesmo ativamente (BECK, 1997).

Além desses fatores, a TCC – Terapia Cognitiva Comportamental utiliza-se também de técnicas e treinos, como por exemplo, o de habilidades sociais, por vezes muito interessante para uma melhor interação do idoso nos mais diferentes contextos cotidianos. Assim, o processo terapêutico também auxilia a pessoa idosa a entender melhor sobre sua condição de saúde, o uso de medicamentos e tratamentos médicos, que por vezes esteja se submetendo, além também de ajudá-lo a entrar em contato com questões emocionais e psíquicas, possibilitando assim uma diminuição dos sofrimentos causados por problemas como depressão e ansiedade, por exemplo, comuns nessa faixa etária.

Mediante ao que foi exposto, torna-se evidente a necessidade de um conhecimento mais aprofundado do profissional de psicologia acerca da realidade da pessoa idosa. Assim, os psicólogos devem trabalhar suas atitudes e crenças sobre o envelhecimento e sobre indivíduos idosos à luz dos avanços científicos da Psicologia, tanto quanto buscar conhecimentos sobre as teorias sociais, biológicas, cognitivas dos processos de envelhecimento. No campo clínico, é necessário que os psicólogos estejam familiarizados com o conhecimento corrente sobre as mudanças cognitivas, os problemas e vida diária dos idosos, as características peculiares das psicopatologias e metodologias de avaliação válidas e confiáveis para serem utilizadas com essa população (NERI, 2004).

Esta revisão de aspectos do envelhecimento a serem conhecidos revela o quanto os campos de aplicação da Psicologia se beneficiam da interlocução entre a teoria e a prática. Em especial, a Psicologia Clínica – particularmente a TCC, como vimos anteriormente - está entre os campos que têm fornecido evidências positivas dessa interlocução propiciando auxílio ao trabalho de diversos profissionais que lidam com o envelhecimento (NERI, 2004).

2. Metodologia Utilizada na Pesquisa Teórica e Prática

Foram utilizadas referencias bibliográficas para a elaboração da pesquisa teórica –  proposta metodológica para a elaboração da síntese crítica acerca da temática escolhida na 1ª unidade. Posteriormente, com o pedido de declaração formal constando meus dados como aluna da FAFIRE - declarando o objetivo de entrevistar o profissional de psicologia atuante da instituição visitada (Abrigo Cristo Redentor) - foi possível realizar um levantamento de dados, elaborado através de entrevista semi-estruturada, com o auxilio de um gravador de áudio,  a fim de conhecer a prática do profissional de psicologia frente as demandas do envelhecimento/idoso que necessitam de suas contribuições para atravessar os conflitos existentes nessa faixa etária, assim como as dificuldades enfrentadas pelo psicólogo.

3. Breve Apresentação da Instituição Pesquisada

A instituição Abrigo Cristo Redentor localiza-se na Avenida Governador Agamenon Magalhães, na cidade de Jaboatão dos Guararapes, bairro de Cavaleiro - Pernambuco. Uma entidade filantrópica que abriga idosos carentes de ambos os sexos. Tendo como missão abrigar, proteger e proporcionar assistência a idosos de ambos os sexos, visando uma melhoria constante na qualidade de vida, com dignidade e o conforto necessário, mantendo e resgatando sua cidadania; e como visão ser reconhecido como referência e principal centro de dignificação do idoso carente, auto-sustentável e cumpridor das exigências pertinentes as suas atividades.

4. Principais Dados Obtidos

4.1. Atuação do profissional de psicologia:

O psicólogo entrevistado, atuante na instituição “Abrigo Cisto Redentor”, realiza um trabalho que vai desde o processo de triagem, até a clínica propriamente dita. Neste primeiro processo, é realizado nas segundas feiras um processo de triagem, onde o mesmo juntamente com uma assistente social e um fisioterapeuta elaboram um levantamento de dados verificando as causas dos internamentos, as queixas apresentadas, entre outros fatores.

Diariamente o profissional de psicologia visita os dois pavilhões, com 65 idosos em média, verificando as queixas levantadas tanto de forma espontânea – abordando o psicólogo –, como as de forma direta – abordadas pelo psicólogo. Dessa forma, verificando as demandas que necessitam de maior atenção, o profissional de psicologia faz atendimento clínico tanto no local onde o idoso se encontra (pavilhão), como na clínica (própria da instituição).

Assim como realiza atividades de monitoramento aos idosos novatos, estabelecido em um período de 90 dias, onde caso não haja boa adaptação o mesmo é encaminhado para outro abrigo – essa atividade de monitoramento é feita em conjunto com todos os profissionais de saúde da instituição, porém, o documento de “não adaptação” – que delimita/determina a saída do idoso – é elaborado pelo psicólogo. 

Por questões da demanda existente (questões sobre o envelhecimento). O profissional de psicologia da instituição trabalha, em processo terapêutico, com os conteúdos latentes a respeito da finitude, ou seja, trás uma proposta de trabalho que reflete nas questões da morte, o desapego as coisas materiais, para que não haja nenhum tipo de transtorno, preparando o idoso exatamente para essa “passagem”, “pois o grande problema da terceira idade é a morte”, diz.

Para além das demandas dos idosos, o profissional de psicologia da instituição também trabalha as questões das famílias dos usuários, por exemplo, em forma de palestras trazendo – como proposta da TCC – a psicoeducação, orientando familiares e pacientes sobre as questões da faixa etária, onde os mesmos possam identificar e entender as limitações – que mudam tanto o humor como o comportamento do paciente. Assim como também realiza um trabalho com estudantes de psicologia, supervisionando estagiários, possibilitando ao aluno o entendimento prático sobre o contexto. 

4.2. Principais dificuldades e desafios nesta prática

O profissional de psicologia da instituição Abrigo Cristo Redentor teve sua formação profissional na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), diz exercer a profissão “por amor” – mediante essa fala compreende-se que o mesmo não se satisfaz com o retorno financeiro, mas sim com o serviço prestado.

Acrescenta que o reconhecimento social de sua função estende-se para além da instituição, ou seja, o reconhecimento dos familiares e das instituições de ensino que sempre o indicam para estudantes que almejam trabalhar com questões sobre o envelhecimento. 

Acredita que o suporte teórico da Teoria Cognitiva Comportamental (TCC) sustenta a demanda trabalhada pelo mesmo, afirmando que a TCC abrange as questões pertinentes a qual o mesmo acredita ser a mais eficaz no trabalho psicoterápico dos conteúdos levantados no âmbito de sua área de atuação.

Em suma, o psicólogo da instituição diz ter encontrado algumas dificuldades financeiras e de reconhecimento social no início de seu trabalho, mas ao longo de seu trabalho essas questões foram supridas. Porém, o mesmo levanta algumas dificuldades referentes ao procedimento psicológico com os idosos devido a pouca escolaridade, que leva a uma cognição baixa, assim como o declínio físico, emocional e cognitivo, que dificultam o entendimento de novas orientações.

4.3 Comunicação com Outras Instituições.

A instituição Abrigo Cristo Redentor comunica-se com a ampla rede hospitalar do estado, UPAS, assim como fazem solicitação ao SAMU – em situações que a ambulância própria da instituição está comprometida com outra atividade, como também recebe a colaboração de várias empresas patrocinadoras.

5. Considerações Finais

Acredita-se que esse espaço seja de inteira relevância para comentar brevemente sobre tudo que aos meus conhecimentos foram acrescentados acerca do compromisso social da psicologia. Dessa forma, volto às questões trazidas no texto de Ana Bock (A Psicologia a caminho do novo século: identidade profissional e compromisso social), “Quem de fato eu quero ser? Que vínculo quero ter com a sociedade que abriga e receberá o meu trabalho?” Essas são questões levantadas no texto na forma de primeira pessoa do plural, mas ao colocá-las em primeira pessoa do singular é possível sentir o peso que elas têm. Pois, independente da abordagem temos um compromisso social com a psicologia, ou seja, o compromisso que tenho com a sociedade; entender a situação no contexto coletivo e não apenas individual do sujeito.

Dessa forma, é primordial enxergarmos a realidade da existência do ser, que se constitui não apenas no individual, no subjetivo, mas sim em um mundo completo, social e cultural. Assim, compreendendo o contexto de vida do sujeito em sua comunidade, dando margem para que o mesmo amplie seus conhecimentos sobre sua existência e assim ser capaz de transformar, atuar e modificar sua realidade. E aqui se encontra o nosso verdadeiro compromisso social: uma intervenção crítica e transformadora de nossas condições de vida.

Sobre o Autor:

Vanessa Batista de Melo Cruz  - Psicóloga pela Faculdade Frassinetti do Recife - FAFIRE; Pós-graduanda em Neuropsicologia pela Faculdade Pernambucana de Saúde – FPS.

Referências:

BECK, Judith S. Terapia cognitiva teoria e prática. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Perfil dos Idosos  Responsáveis pelos domicílios no Brasil. 2000. In. Estudos e pesquisas. Informação demográfica e socioeconômica n.º 9, Rio de Janeiro, 2002. p. 247.

NERI, Mariana L. Velhice bem-sucedida: aspectos afetivos e cognitivos. Psico – USF. vol.9, n.1. 2004. p.109-110.