Resumo: A Síndrome de Asperger é um transtorno resultante de desordem genética que apresenta semelhanças com o autismo. Acomete em especial crianças do sexo masculino. Seus sinais e sintomas podem aparecer nos primeiros anos de vida da criança. Entre os portadores da síndrome há grande dificuldade de socialização. Nesta perspectiva, este artigo tem como objetivo investigar os recursos terapêuticos utilizados na Abordagem Cognitivo Comportamental para o acompanhamento de crianças portadoras da Síndrome de Asperger. Trata-se de um relato de experiência vivenciado pela acadêmica em Psicologia durante atendimento a uma criança de sete anos de idade portadora da Síndrome de Asperger, realizado na clínica de Serviço de Psicologia da FTC. Utilizou-se como uma das formas de tratamento a Terapia Cognitivo Comportamental, que visa estimular a criança por meio de Treinos, a reconhecer e compartilhar emoções e expressões faciais. Técnicas específicas foram aplicadas no decorrer do atendimento como: baralho das emoções, relaxamento, músicas, desenho livre, argila, família terapêutica da inclusão social. Constatou-se que as técnicas aplicadas foram adequadas, pois proporcionou a criança um maior conhecimento de suas emoções e melhora em sua relação social.

Palavras-chave: Síndrome de Asperger. Terapia Cognitivo Comportamental. Técnicas de Intervenções.

1. Introdução

O presente artigo apresenta um Relato de Experiência, realizado pela mediadora em sua trajetória acadêmica, desenvolvido na Clínica de Serviço de Psicologia, em acompanhamento a uma criança portadora da Síndrome de Asperger.

Serão transmitidas algumas informações sobre a Síndrome de Asperger visto que por várias tenha sido confundida com uma Perturbação Obsessivo Compulsiva, depressão, esquizofrenia, etc. Porém, os portadores dessa Síndrome não apresentam qualquer atraso significativo de desenvolvimento da fala ou cognitivo, podendo até mesmo passar a vida toda sendo apenas consideradas pessoas “estranhas” para os padrões típicos de comportamento.

Embora essas pessoas não tenham um atraso significativo no desenvolvimento cognitivo, é importante que a criança receba educação especializada o mais cedo possível para um maior auxílio no desejo em contornar os problemas de comportamento que apresenta, e também para ajudar a direcionar os campos de interesse e de estudo da criança.

A Síndrome de Asperger (S.A), também conhecida como a Síndrome do Gênio, segundo estudiosos é uma perturbação neurocomportamental de base genética e que apresenta semelhanças em relação ao autismo.

Essa síndrome passou a ser classificada como uma forma de autismo branda, caracterizada por um conjunto de sintomas que causa sofrimento, pois acaba impedindo a interação social.

O que difere o autismo da S.A é que, crianças com Aspeger não apresentam grandes atrasos no desenvolvimento da fala e nem sofre com comprometimento cognitivo grave.

Na infância, essas crianças apresentam déficits no desenvolvimento motor, podem ter dificuldades para escrever, dificuldades em sentir emoções, porém quando estimulados elas acabam se familiarizando e conquistando avanços significativos para a evolução do seu quadro sintomático.

O objetivo geral desse trabalho é de investigar os recursos terapêuticos utilizados na Abordagem Cognitivo Comportamental para o acompanhamento de crianças portadoras da Síndrome de Asperger, identificar as principais necessidades terapêuticas, conhecer os recursos aplicados nessa abordagem para acompanhamento de crianças portadoras dessa síndrome. .

A terapia cognitiva comportamental tem o objetivo de trabalhar as habilidades sociais de formação, para melhor detectar os sinais de dificuldades e lidar com as emoções em torno de um transtorno específico. As técnicas utilizadas no atendimento fazem parte de um conjunto de novos métodos criados por autores da abordagem cognitivo comportamental, com o propósito de trabalhar as habilidades sociais de crianças portadoras da Síndrome de Asperger.

2. A Síndrome de Asperger e a Psicologia: Intervenções Necessárias

2.1 A Síndrome de Asperger: breve contextualização

A Síndrome De Asperger é um transtorno recente, as primeiras descobertas foram feitas pelo psiquiatra e pediatra Hans Asperger austríaco.

No ano de 1994, o transtorno foi reconhecido internacionalmente, devido a sua inclusão no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), no manual de diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, organizado pela Associação Americana de Psiquiatria.

A Síndrome de Asperger (SA) é um Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD), resultante de uma desordem genética, e que apresenta muitas semelhanças com relação ao autismo. Há ainda muitas controvérsias com relação às definições da Síndrome de Asperger e do Autismo. Segundo Klin, (2006, p.19), “o percurso para uma compreensão cada vez maior dos Transtornos Invasivos do Desenvolvimento (TID) e de suas etiologias requer muito empenho por parte dos pesquisadores e estudiosos” isso por causa de muitas dúvidas ainda existentes acerca, principalmente, dos tratamentos mais eficazes, e que tenham resultados positivos aos pacientes diagnosticados com essa síndrome. Existem situações, em que essas pessoas encontram-se sempre isoladas, longe do mundo real, isso em alguns casos específicos a depender do grau de comprometimento.

A Síndrome de Asperger ainda tem sido alvo de grandes investigações por parte de estudiosos e neurocientistas. Os sintomas estão relacionados a dificuldades na interação social, na linguagem, no repertório comportamental e principalmente, nas habilidades sociais. Mercadante (2006) destaca o fato de que tais transtornos parecem estar mais relacionados etiologicamente a fatores genéticos, porém acredita que a família também pode ter influência no grau de vulnerabilidade, na questão social e na rigidez apresentados pelos portadores dessa síndrome.

De acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID 10), uma das características mais marcantes das pessoas diagnosticadas com a S.A. é sua atenção voltada para seres inanimados, como objetos duros, mecânicos e eletrônicos, em detrimento pelo interesse pelas pessoas. Os portadores dessa síndrome não são limitados, eles possuem grandes habilidades intelectuais, são sábios, por isso, a necessidade de serem estimulados em suas áreas de habilidades específicas, dando aos mesmos condições e oportunidades de vivenciar sucessos em suas vidas profissionais.

Quanto ao tratamento do transtorno não há atualmente estudos específicos que indiquem a cura, como também nenhum tratamento particular, porém, o diagnóstico precoce e a intervenção terapêutica adequada pode possibilitar às crianças tornarem-se adultos menos dependentes.

Muitas técnicas têm sido criadas por especialistas na área de psicologia, com o objetivo de aplicá-las no decorrer de tratamentos psicológicos, trazendo um maior desenvolvimento cognitivo, mudanças de comportamentos, uma maior aproximação entre os cuidadores e educadores, participantes ativos no acompanhamento de indivíduos com S.A.

Aludindo Ragone (2009), “o cenário contemporâneo global, pragmático e apressado, favorece a ascensão da Terapia Cognitivo Comportamental”. Pelos motivos mais variados, mas principalmente devido ao simples fato de que funciona como bônus, tem vantagens de ser de curto prazo, ser uma abordagem estruturada, ativa, de prazo limitado. Segundo Caballo (2007) é usada para tratar uma variedade de transtornos psiquiátricos, como por exemplo, a depressão, ansiedade, fobias, queixas somáticas, Autismo, Síndrome de Asperger e tantas outras síndromes.

Desde o começo da década de 60, “A terapia comportamental se converteu em uma alternativa viável para problemas tradicionais da psicoterapia e da psicologia clínica em geral.” (CABALLO, 2011, p.11).

Como a Síndrome de Asperger é considerada um transtorno mais evoluído do que o autismo infantil, algumas técnicas são benéficas para a intervenção, técnicas que podem envolver a família e a escola, pois o profissional de psicologia pode desenvolver nas sessões métodos de fácil compreensão e rotinas diárias no tratamento da criança. Segundo Rangé:

Nem sempre é fácil saber a resposta: no entanto, sem pressa, o terapeuta irá encontrá-la, ele irá olhar para a história de vida do cliente, conhecer sua vida atual e, principalmente, conviver com o cliente na sessão de terapia, em que com seus próprios olhos irá conhecê-lo por observação direta (RANGÉ, 2011, p. 19).

Para um diagnóstico preciso sobre a Síndrome de Asperger, faz-se necessário uma equipe de profissionais específicos de cada área, neuropediatras, psiquiatra infantil, psicólogos, psicopedagogos, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional, pois quanto mais cedo se descobrir a síndrome, mais tempo se tem para intervir e contribuir para uma maior qualidade de vida do paciente e operar nas habilidades sociais.

A intervenção terapêutica é importante pelo fato de provocar mudanças necessárias e benéficas aos pacientes com SA. É essencial que o profissional conheça a história de vida do paciente, pois a síndrome é igual, porém as características dos portadores são diferentes. Por esse motivo as técnicas utilizadas nem sempre funcionarão de igual modo para todos, principalmente com a inclusão social, onde os portadores da SA são matriculados em salas de aula participando ativamente de todas as tarefas propostas, o que faz imergir necessidade de intervenções específicas e práticas, diante das quais os cuidadores se tornarão peças fundamentais no manuseio e continuidade dessas intervenções.

2.2 A Abordagem Cognitivo Comportamental

A Terapia Cognitivo Comportamental foi criado por Aaron T.Beck nos Estados Unidos da América em 1960, a partir de sua percepção de que certas características de humor de seus pacientes deprimidos, lhes chamavam a atenção principalmente pela presença de visões negativas sobre si mesmo e do futuro, com efeito a Terapia Cognitivo Comportamental, foi pensada como uma psicoterapia breve, estruturada, para ser desenvolvida em pacientes com depressão, direcionada para resolver problemas atuais e para modificar os comportamentos e pensamentos disfuncionais Beck (1997).

A partir dessa época Aaron Beck (1994) e outros autores vêm adaptando com êxito essa terapia para trabalhar diversos fatores de desordem psicológica, fazendo assim da TCC uma das abordagens mais utilizadas nos últimos tempos.

Por meio dessa abordagem TCC muitos autores vêm desenvolvendo técnicas para serem utilizadas em atendimentos a pacientes que sofrem de transtornos psicológicos, nas quais as emoções, sentimentos e pensamentos são comprometidos e desencadeiam dificuldades na socialização e convivência diária.

O tratamento na TCC pode ser aplicado em pacientes individuais ou em grupo, com o único objetivo de mudar as crenças disfuncionais que causam o desconforto, pensamentos negativos e crenças do paciente. Dando-lhe condições de assimilar e se perceber como ser pensante e que pode mudar suas crenças a partir do momento que aprende a se conhecer, aprendendo, por exemplo, a identificar as crenças associadas a seus sentimentos angustiantes e formular respostas mais adaptativas aos seus pensamentos.

É uma abordagem que segundo Caballo (2008, p. 93), “requer uma aliança terapêutica transparente e segura, visto que não é tão simples e de imediato que o vínculo entre terapeuta e paciente se forma”, é necessário tempo, empatia, congruência, respeito genuíno e muita competência.

A TCC enfatiza o presente, investigando de forma criteriosa a queixa principal do paciente, sua história de vida. Reportando-me a Caballo, a terapia cognitiva comportamental implica, principalmente, na aplicação dos princípios derivados da investigação na psicologia experimental e social, para o alívio do sofrimento das pessoas e o progresso do funcionamento humano Caballo (2011, p.11).

Segundo Beck, (1997) alguns procedimentos se fazem necessários aos terapeutas da TCC quanto ao atendimento de pacientes, entre os principais se destacam:

- Avaliação do humor do paciente no início da sessão;
- Colaborativamente determinar tarefas em cada sessão;
- Solicitar feedback;
- Conceituar o paciente e suas dificuldades de acordo com o modelo cognitivo, e usar a conceituação para planejar o tratamento ao longo das sessões e durante casa sessão em particular;
- Desenvolvimento e manutenção de uma forte aliança terapêutica;
- Promover a resolução de problemas e o acompanhamento do processo por meio de tarefas de casa estabelecidas colaborativamente;
-Utilizar uma grande variedade de estratégias terapêuticas;
-Trabalhar com a prevenção e recaída.

Essa abordagem tem sido comumente utilizada entre os profissionais da área e tem sido muito aceita pelos pacientes, principalmente por se tratar de uma abordagem com prazo estimado, mais dinâmico, na qual o paciente interage com o terapeuta e tem o conhecimento mais real de seu quadro clínico.

Apesar dos métodos e técnicas específicas da TCC estarem crescendo a cada dia, faz-se necessário que o terapeuta conheça com exatidão as aplicações; pois o objetivo principal é sem dúvida ser um mediador, fazendo com que o paciente consiga dar continuidade às técnicas utilizadas mesmo depois de ter alta, pois pode acontecer recaída e esse será o momento de relevância, ou seja, o paciente ter habilidades de enfrentamento.

2.3 As Técnicas na Abordagem Cognitiva Comportamental e sua Relevância nos atendimentos aos Portadores da Síndrome de Asperger

Na Abordagem Cognitiva Comportamental, o uso das técnicas de intervenções é aplicada de forma estruturada sempre no decorrer dos atendimentos. Friedberg, Robert, Mcclure, (2001, p. 93) afirmam que “a TCC com crianças é diferenciada por uma lógica teórica e não por técnicas”. Isto porque o que determina uma técnica cognitiva é efetivamente o contexto teórico no qual a história do paciente é investigada por meio de intervenções específicas alusivas a queixa principal; na qual a partir da escuta empática, a aliança terapêutica, o conhecimento específico da história de vida do paciente, em se tratando de crianças, todo o seu desenvolvimento desde a gestação até o momento atual, sua vida social, escolar serão minunciosamente avaliados.

Em determinados casos, os pais procuram o profissional e se queixam de uma demanda específica de seus filhos, porém nem sempre essa queixa principal se constitui na veracidade da real situação, pois diversos fatores poderão estar encobertos, e só mediante uma avaliação precisa e um acompanhamento psicológico dar-se-á um diagnóstico correto e ocorrerá uma melhora do paciente.

As técnicas são de real importância, pois por meio de instrumentos lúdicos, principalmente com crianças, as intervenções tendem a fluir e a se desenvolver de forma benéfica; dando uma maior abertura à relação paciente/ terapeuta, e, por meio das aplicações dessas técnicas, existirá uma maior conceituação dos casos, uma maior condição de enfrentamento, pois são trabalhadas emoções que desencadeiam comportamentos automáticos e disfuncionais.

De acordo a Ragone (2009, p. 52), “o processo de estimulação deve ser iniciado ainda na infância e se fundamentam em ações que resultem na autonomia da criança”.

Segundo Friedberg:

Moldar as técnicas a interesses, habilidades e problemas apresentados pelos pacientes é desafiador, manter as intervenções divertidas, incluir o ponto de vista e a linguagem da criança e revisitar frequentemente a conceituação do caso são recomendados (FRIEDBERG, 2011, p. 177).

Têm surgido novas técnicas cada vez mais específicas para aplicar em pacientes com diversos transtornos, com o único objetivo de aliviar comportamentos disfuncionais. O acompanhamento psicológico na TCC tem sido enriquecido com o surgimento de tais técnicas; segundo as quais devem existir um envolvimento e comprometimento dos pais de crianças atendidas por terapeutas, pois os exercícios e aplicações deverão ser acompanhados pelos cuidadores para que os objetivos propostos sejam alcançados. Havendo uma intervenção com resultados positivos ao longo do tratamento até a alta, dando a criança ou ao paciente suporte para conhecer e saber como agir quando houver recaída.

3. Trajetória Metodológica

Para a realização desse trabalho e, consequentemente para a investigação sobre a veracidade das técnicas construídas e publicadas na abordagem cognitivo comportamental e seus benefícios às crianças portadoras da Síndrome de Asperger, foi realizado um estudo com a modalidade de Relato de Experiência, visto que esse tipo de estudo dispõe de uma visão mais abrangente para explorar os conhecimentos desejados, desvendando a maturidade e o desenvolvimento das emoções da criança a partir da aplicação de cada técnica.

Essa análise, conduzindo às descrições sistemáticas, qualitativas ou quantitativas, ajuda a reinterpretar as mensagens e a atingir uma compreensão de seus significados num nível que vai além de uma leitura comum (BARDIN, 1979).

O referido trabalho foi realizado em uma Clínica de Serviço de Psicologia da FTC, que tem o objetivo de atender pacientes da comunidade local, sem fins lucrativos, com o único propósito de contribuir para aliviar sofrimentos causados por demandas psicológicas.

É um serviço de cunho social e de formação profissionalizante em Psicologia, oferecido gratuitamente a crianças, adolescentes e adultos. As relações nesse serviço são estritamente profissionais, relacionados a estagiário-paciente e de aprendizado quando relacionado professor-aluno. Os estagiários são acompanhados por profissionais da área de psicologia, segundo esquemas de encontros semanais nos quais os mesmos são supervisionados pelos professores sempre que acompanham um paciente. São normas da clínica, que todo o paciente que for atendido, deverá assinar um Termo de Compromisso Livre e Esclarecido (TCLE), aceitando as normas de conduta do referido serviço.

Nessa rotina de atividades, uma criança de 07 anos, foi levada pelos pais para ser atendida na clínica, com diagnóstico fechado pela Neuropediatra como sendo portadora da Síndrome de Asperger. Os pais relatavam uma necessidade de acompanhamento psicológico, tendo como principal queixa as dificuldades de socialização da criança em seu convívio na escola e também em seu relacionamento com os pais e amigos.

A criança foi acompanhada no período de quatro meses, sendo realizadas 12 sessões de 50 minutos uma vez na semana. Todo o acompanhamento dessa criança foi realizado em parceria com os pais e a escola, com o objetivo de trabalhar e intervir nos sentimentos e pensamentos disfuncionais que desencadeavam emoções adversas, comportamentos de isolamento, dificuldades no âmbito escolar, e em suas relações familiares.

Com esse propósito, a mediadora utilizou de recursos científicos desenvolvidos por autores como Maiato e Caminha (2011) intitulada Baralho Das Emoções, dos Pensamentos e do Comportamento, outras técnicas também foram aplicadas como: a técnica de manuseio com a argila terapêutica, a técnica de relaxamento, o desenho livre, que expressam emoções vividas, a música, as técnicas de habilidade social, a família terapêutica da inclusão social, a técnica do cadarço de sapato, técnica de relaxamento.

A criança, os pais e a escola foram informados sobre os métodos que seriam utilizados e a necessidade de sua efetiva participação no período em que a criança estaria sendo acompanhada.

4. Resultados e Discussão

A princípio, fez-se necessário realizar junto aos pais, uma anamnese mais detalhada na qual a mediadora utilizou um questionário mais preciso e específico desenvolvido por Caballo (2008, p. 240) adquirindo conhecimentos sobre a criança.

Nesse momento toda a história de vida da criança foi efetivamente levada em consideração. Como se deu o desenvolvimento desde a gestação, a história de vida familiar, como era seu comportamento diante da família, número de irmãos, relação com os pais e cuidadores, seu comportamento escolar, pois a maioria das vezes segundo relato dos pais, a criança passava a maior parte de seu tempo na escola.

Os pais relataram estar vivendo momentos de angústia, pois desde muito cedo seu filho apresentava dificuldades em se relacionar com a família e, consequentemente, esse comportamento se estendia à escola e à comunidade onde vivia.

Para Meredieu (2006, p. 3), “nunca será demais dizer e pensar que o meio em que a criança se desenvolve, é o universo adulto, e esse universo age sobre ela da mesma maneira que todo contexto social, condicionando-a ou alienando-a”.

Segundo os pais, a criança havia sido diagnosticada como portadora da Síndrome de Asperger, medicada com Ritalina por três meses. A Ritalina é usada no tratamento medicamentoso dos casos de transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), narcolepsia e hipersonia idiopática do sistema nervoso central (SNC) . Os pais suspenderam essa medicação por conta própria, temendo que seu filho se tornasse dependente do remédio, porém, ao deixar a medicação, alguns meses depois à criança voltou a apresentar comportamento agressivo sem interesse pela escola, nem pelas atividades do dia a dia, deixando os pais preocupados, pois a criança apresentava isolamento social, sendo essa a queixa principal.

Nos primeiros encontros, a mediadora passou a desenvolver uma relação de aliança junto aos pais e a criança realizando uma psicoeducação que segundo Friedberg e colaboradores (2009, p. 65), “cumpre a função central na terapia cognitiva”, tendo o propósito de dar informações à família a fim de que ela tenha clareza em relação a sintomas e tratamento, facilitando assim o processo de mudança.

Nessa ocasião, os pais foram informados acerca dos métodos utilizados no desenvolvimento da terapia, e acerca de como era desenvolvida a Terapia Cognitivo Comportamental. A mediadora transmitiu aos mesmos que estaria com a criança uma vez na semana realizando as intervenções, porém seria necessário o comprometimento deles no acompanhamento à criança durante sua vivência em casa e na escola.

As sessões aconteceram sempre de forma estruturada, porque fornece orientação, foco e substância à terapia. A estrutura da sessão ajudou a criança e a mediadora a enfatizar os problemas trazidos pela criança e com isso foi possível estabelecer um fluxo organizado de informações.

A estrutura da sessão dá a criança uma sensação de previsibilidade e consequentemente, pode sentir-se mais segura no tratamento. Foi realizada junto à criança uma entrevista, na qual a mediadora procurou promover um ambiente seguro e propício para estabelecer o vínculo.

A criança foi informada pela mediadora sobre todas as informações necessárias sobre a terapia. Informou sobre o sigilo, que tudo que aconteceria ali seria tão somente entre eles, sobre o tempo de cada sessão, o momento estabelecido para as brincadeiras e que a criança deveria trazer um caderno no qual seriam sugeridas tarefas para casa em todas as sessões e que deveria trazê-las na sessão seguinte.

A mediadora ouviu as principais queixas dessa criança, porém como se tratava de uma criança portadora da Síndrome de Asperger, suas emoções normalmente não são evidentes. Eles têm uma grande dificuldade em estabelecer vínculos e só foi possível por conta das técnicas aplicadas, o que veio trazer uma melhor relação terapêutica durante todo o tratamento, no processo a mediadora buscava sempre saber sobre suas dificuldades e o que ele gostaria que sua família fizesse e não fez, ele dizia sempre: “Minha mãe não quer que eu fale”.

Durante o tratamento foi necessário o uso da técnica de registro de humor da criança, pois permite que o mesmo passe a refletir sobre o seu próprio estado de humor e sobre seus comportamentos, fazendo identificar sentimentos e classifica-los em uma escala (p.ex., sentimentos: tristeza, alegria, medo, paz, ansiedade) e criar estratégias de enfrentamento para suas dificuldades.

A mediadora utilizou de um recurso lúdico para explicar a importância do trabalho em equipe utilizando a Seleção Brasileira como instrumento de modelo a ser entendido na técnica. Explicando para a criança e envolvendo a mesma na técnica, na qual a criança seria o Neymar (jogador), Tiago Silva, o capitão, seria a mediadora e a comissão técnica seriam os pais quando necessário os professores, fazendo uma ponte entre a técnica e sua condição atual; com a qual explicaria que a mediadora é aquela pessoa que está focada na solução dos problemas que surgirem. Dando à criança uma condição confortável de sentir-se seguro diante das adversidades, mostrando a criança os atuais problemas que estava enfrentando. A mediadora sempre se utilizou dos problemas apresentados pelos pais.

Foi trabalhado com a criança Técnicas de Relaxamento que segundo Novaes (2011, p. 9) “É uma técnica acessível a todos e auxilia a curar a mente e o corpo.” Para cada tipo de problema ou necessidade que a pessoa tenha. Como a criança às vezes chegava à sessão muito agitado, a mediadora trabalhou e ensinou a ela as formas de relaxar e sentir seu corpo, sinalizar suas emoções.

A criança foi instruída a realizar os exercícios de respiração profunda para ajudar no relaxamento; todos os músculos eram trabalhados, e a mediadora dava exemplo de macarrão cru e macarrão cozido, um robô e um boneco de pano a fim de aumentar a motivação, e a aceitação.

A criança ia se envolvendo nas brincadeiras e aprendendo a relaxar-se. A mediadora trabalhou com a criança sobre a respiração diafragmática, na qual ela enchia a barriga de ar e tirava o ar da barriga nessa técnica, a criança se sentia mais tranquila e se concentrava melhor, o que dava um excelente aproveitamento no alcance dos objetivos propostos nas sessões.

A mediadora aplicou na criança desde o início do tratamento a Técnica com o Baralho das Emoções, que é um instrumento que facilita ao terapeuta acompanhar a criança monitorando suas emoções. Esse baralho segundo Renato e Marina (2011, p.16) pode ser utilizado como um instrumento que promove mudanças clínicas significativas conforme sua aplicação,

No Baralho das Emoções, a mediadora apresenta a criança cartas de baralho com retrato de um menino com várias expressões faciais, que são chamadas de emoções básicas como medo, raiva, tristeza, alegria, amor, nojo ou repugnância, surpresa. Segundo Carvalho (2010, p. 23) “cada emoção tem seu respectivo padrão de manifestação fisiológica e comportamental”.

É mais fácil para as crianças iniciarem a abordagem cognitiva comportamental avaliando suas emoções e as consequências dessas emoções que serão refletidas nos processos cognitivos, comportamentais e fisiológicos. Segundo Marilda e colaboradores “o foco deve guiar as intervenções do terapeuta, orienta-lo quanto aos objetivos a serem perseguidos” (2012 p. 9).

Outra Técnica utilizada pela mediadora foi a técnica de Habilidades Sociais, na qual foram utilizados técnicas visuais, com exercícios que envolvem a criança em diversas situações sociais, possibilitando assim uma melhor interação em grupos, com recursos como a “Família Terapêutica da Inclusão social” para que ela tivesse uma compreensão mais clara, sobre as diferenças entre os seres humanos e a aceitação diante do diferente.

É sempre importante está atento ao nível de desenvolvimento cognitivo da criança no momento da aplicação das técnicas e em todo o processo terapêutico. Durante todo o tempo, a criança teve participação ativa, a mediadora sempre utilizava do feedback para certificar-se de que a criança estava entendendo o que ela estava dizendo.

Durante o processo de atendimento, a mediadora realizou visitas à escola, aplicando também com a professora do aluno, um questionário específico sobre informações pertinentes à criança, a mediadora explicou a escola a importância do reforçamento positivo que deveria transmitir ao aluno, dando uma atenção mais especial e se comprometendo em dar informações sobre possíveis mudanças em seu comportamento.

Todo o processo terapêutico foi realizado em parcerias entre a criança, os pais e a escola, isso deu uma melhor condição ao terapeuta de realizar um acompanhamento mais intenso e efetivo. Os pais eram sempre orientados a participar das atividades e auxiliar seu filho nas tarefas de casa. Houve um comprometimento por parte dos mesmos, pois a criança faltou apenas a uma sessão durante todo o tempo de tratamento. Isso deu condições à mediadora de realizar as tarefas com mais exatidão e o retorno foi positivo, pois a criança apresentava comportamento muito mais aceitável e compreensivo sobre suas dificuldades de socialização. As técnicas aplicadas deram abertura e condições favoráveis ao acompanhamento dessa criança, o retorno da escola foi favorável, os relatos foram apresentados pelos professores nas visitas à escola, dando conta de avanços da criança em seus relacionamentos com os professores e colegas. Os instrumentos utilizados em cada técnica específica proporcionou um direcionamento positivo e eficaz nas sessões.

5. Considerações Finais

Todo o material pesquisado e aplicado durante as sessões de terapia nos deu subsídios para constatar que há uma melhora significativa no quadro sintomático de crianças com Síndrome de Asperger, quando essas são estimuladas.

As Técnicas utilizadas na Abordagem Cognitivo Comportamental são métodos que envolvem a criança em momentos de relevantes conhecimentos, o que provoca mudanças nos vários aspectos de comportamentos.

Durante o processo terapêutico essas técnicas tornaram-se uma ponte, formando vínculos afetivos entre a mediadora, a criança, os pais e a escola, isso se torna importante, porque dá uma resposta positiva ao acompanhamento e possível melhora no quadro sintomático dessa criança.

Muitos estudiosos continuam tentando desvendar alguns sintomas emocionais que segundo alguns autores, trata-se de uma parte do cérebro onde são armazenadas as emoções, porém ainda são causas desconhecidas. Quando há o estímulo, a intervenção mais cedo possível existe grande chance de mudanças na socialização dos portadores, principalmente se tratando de crianças.

A aplicação das técnicas, nos fez atingir os objetivos propostos desse trabalho, que foi de investigar os recursos terapêuticos aplicados na Abordagem Cognitivo Comportamental para o acompanhamento de crianças portadoras da Síndrome de Asperger.

Apesar da necessidade de avanços na compreensão e entendimento desta síndrome, as Técnicas que a literatura nos fornece, são direcionadas e efetivamente trazem mudanças satisfatórias aos portadores, onde as emoções são as mais evidentes.

É salutar falar da importância do profissional de Psicologia nesse contexto de demandas novas que aparecem a cada dia. Entendendo que se faz necessário um maior envolvimento e conhecimento por meio de leituras e estudos constantes sobre o comportamento humano, suas diferenças e subjetividade, tendo uma maior abertura para troca de experiências, e estando atento às expressões e sentimentos manifestados das mais diferentes formas e situações.

Sobre o Autor:

Liége Souza Galdino - Psicóloga Clínica Especialista em Saúde Mental Especialista em Educação Especial e Inclusiva.

Referências:

BECK, Aaron. Terapia Cognitiva da Depressão. Porto Alegre: Artmed 1997.

BEE, Helen; Denise Boyd. A criança em Desenvolvimento. 12º edição Porto Alegre: Artmed, 2011.

CABALLO, Vicente E. Manual para a Avaliação Clínica dos Transtornos Psicológicos. Santos/São Paulo, 2012.

CABALLO, Vicente. Manual de Técnicas de Terapia e Modificação do Comportamento. São Paulo: Editora Santos, 2011.

CAMINHA, Renato Maiato; Marina Gusmão Caminha. Baralho das Emoções: acessando a criança no trabalho clínico. Porto Alegre: Sinopsys, 2011. Ilustrações de Joana Hennemann.

CAMINHA, Renato Maiato; Marina Gusmão Caminha. Efeito Bumerangue. Porto Alegre Sinopsys, 2013.

CAMINHA, Renato Maiato; Marina Gusmão Caminha. Reciclando ideias, promovendo consciência. Porto Alegre: Sinopsys, 2012.

CARVALHO, S.Q. da C. Atratividade Facial e Expressões Emocionais. Dissertação de Mestrado apresentada na Universidade Federal da Paraíba (UFP). João Pessoa/PB.

CID 10 Classificação dos Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10: Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas-Organização Mundial da Saúde. Trad. D. Caetano. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008.

DSM-IV O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM).

FRIEDBERG, Robert D. Técnicas de Terapia Cognitiva para Crianças e adolescentes. Ferramentas para aprimorar a prática. Porto Alegre: Artmed Editora S.A., 2011.

FRIEDBERG, Robert. A Prática de Terapia Cognitiva com crianças e Adolescentes. Porto Alegre: Artmed Editora S.A., 2001.

KLIN, Ami. Autismo e Síndrome de Asperger: uma visão geral. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 28, n. 1, p. 3-11, 2006.

KATZ, Lawrence, Manning Rubin. Mantenha seu Cérebro vivo. Ed. GMT Rio de Janeiro, 2010.

KRISTINE, Barnett. Brilhante: A Inspiradora história de uma mãe e seu filho gênio e autista. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.