Resumo: O psicodrama é uma técnica psicoterápica desenvolvida pelo psiquiatra romeno Jacob Levy Moreno com a finalidade de propiciar uma ação dramática no indivíduo. Acredita-se que é através da dramatização que o indivíduo entrará em contato consigo mesmo, com suas estruturas e inter-relações. Desse modo, o presente artigo objetivou esclarecer a origem do psicodrama, bem como entender o percurso do autor no método psicoterapêutico e identificar algumas técnicas e recursos psicodramáticos nesse trabalho. Assim, entende-se que é um processo que pode auxiliar no resgate às diversas possibilidades de criatividade e ação no sujeito.

Palavras-chave: Psicodrama, Jacob Levy Moreno, Ação dramática

1. Considerações Iniciais

A palavra drama designa-se “ação” no grego. Portanto, entende-se por psicodrama como um método de trabalho que se propõe em investigar os fenômenos psicológicos através da ação, isto é, um modelo terapêutico que explora a representação dramática, que possibilita o livre desempenho de papeis e seus vínculos, trabalhando para ampliá-los.

O Psicodrama pode ser definido como uma ciência que busca a verdade por meio de métodos dramáticos e usa a ação como uma forma de investigar a alma humana (MORENO, 1999). O método foi criado por Jacob Levy Moreno (1889-1974) um psiquiatra romeno que viveu na Áustria e nos Estados Unidos. Assim, essa forma de trabalho surge no teatro de improviso. No ano de 1925 o psiquiatra fundou o Teatro da espontaneidade, no qual, convidava, ousadamente as pessoas para exporem sua história de forma espontânea.

A principal característica do método é a dramatização. Durante a sessão, esse processo pode ser feito de modo grupal ou individual; o coordenador convida o sujeito a protagonizar uma situação conflituosa e realiza intervenções específicas a fim de aprofundar as relações e vínculos no aqui e agora.

Assim, o psicodrama se constitui uma prática eficaz no tratamento de diversas situações psicológicas, propiciando saúde, mudanças de atitude, transformamações, percepção de fenômenos, e desenvolvimento de papeis. Sendo assim, profissionais da área clínica tem se dedicado em estudar e desenvolver o método como conhecimento teórico e prático no manejo do sofrimento humano.

2. A Origem do Psicodrama

O origem do psicodrama se deve a Jacob Levy Moreno (1889-1974) que foi um psiquiatra romeno, de origem judaica, que estudou Medicina em Viena entre os anos de 1909 a 1917, ano em que completara 28 anos.

Sua paixão pelo teatro vem da infância. Conta-se que gostava de reunir amigos para representar. A adolescência em Viena foi uma fase mais mística de sua vida. Segundo seu biógrafo René F. Marineau, Moreno começou a reunir um grupo de amigos e discípulos à sua volta em 1908. Juntos criaram a religião centrada em criatividade, encontros e anonimato. Ajudavam pobres e refugiados, deixavam crescer a barba e dedicavam um bocado de tempo a discutir questões teológicas e filosóficas (MARINEAU, 1992, p. 41).

Em 1922, Moreno alugou um teatro, propriedade do pai de uma famosa atriz na época, a que dá o nome de Teatro de Espontaneidade. Todas as noites ali se reuniam atores de projeção para representar dramas do cotidiano com intensa participação do público. É quando Moreno começa a desenvolver sua proposta de psicodrama, sociodrama e axiodrama. Ele propõe uma inversão de papéis entre os atores e o público, no qual o público passa a representar seus dramas cotidianos no espaço cênico. Esse espaço é composto pelo palco, o protagonista ou cliente, um diretor ou terapeuta, egos auxiliares e o público ou platéia. Através do uso de técnicas como a inversão de papéis, o duplo, o espelho, a concretização da imagem de um sentimento, uma emoção, da interpolação de resistência, entre outras, as pessoas desenvolvem uma nova percepção sobre si mesmas, sobre os outros e sobre o ambiente, permitindo o surgimento do novo, da eventualidade, da resposta nova, uma nova linguagem resignificada. Portanto, o espaço cênico é multidimensional, vivencial pois inclui o verbal, o corporal, gestual, a cultura, o jogo, a imaginação, presentificados no momento, ou seja no aqui e agora (MESQUITA, 2000).

Com base nesses dados, Moreno refletiu que há uma relevância e uma intencionalidade na cena, ou seja, possibilitar a criatividade através de uma contextualização com o problema, a partir de uma ação dramática que envolve o olhar do outro, e o olhar sobre si mesmo.

3. Jacob Levy Moreno

Em 1889 nascia Jacob Levy Moreno, na cidade de Bucareste, na Romênia. Era de origem judaica (sefaradim). Sua família veio da península ibérica e radicou-se na Romênia na época da Inquisição.

 Intitulando-se ao longo dos anos, filósofo, médico e psiquiatra, criador do psicodrama e pioneiro no estudo sobre psicoterapia de grupo. Interessou-se pelo Teatro onde, segundo ele, "existiam possibilidades ilimitadas para a investigação da espontaneidade no plano experimental".

No ano de 1921 criou o Teatro da Espontaneidade, que tinha a ideia de criar uma apresentação espontânea sem decorar falas. Depois de anos trabalhando no hospital, usando o teatro espontaneidade , criou o "Teatro Terapêutico", que depois se torno o "Psicodrama Terapêutico".

Em 1931 introduziu o termo Psicoterapia de Grupo e este ficou sendo considerado o ano verdadeiro do início da Psicoterapia de Grupo científica, embora as fundamentações e experiências tenham iniciado em Viena.

Moreno morreu em Beacon, em 1974, aos 85 anos de idade e pediu que em sua sepultura fossem gravadas as seguintes palavras: "Aqui jaz aquele que abriu as portas da Psiquiatria à alegria".

4. Técnicas e Recursos Psicodramáticos

De acordo com Moreno (2003, p. 47), “o psicodrama procura, com a colaboração do paciente, transferir a mente “para fora” do indivíduo e objetivá-la dentro de um universo tangível e controlável”. O autor esclarece que é um método de diagnóstico, bem como de tratamento. Uma de suas características é incluir a representação de papéis, que pode ser aplicada a qualquer tipo de problema, pessoal ou de grupo, crianças ou adultos.

Assim, a capaz de Moreno, entende que o homem é um ser social e precisa pertencer a um grupo para atender suas necessidades básicas, precisa do outro para nascer, ou seja, necessita de uma ajuda externa para se adaptar ao seu novo mundo. Portanto, a utilização de técnicas psicodramáticas, estimulam a criatividade e o desempenho de papeis na sociedade.

Assim, o conceito de papel é extensivo a todas as dimensões da vida. É empregado para abordar a situação do nascimento, perpassando toda a existência no que se refere à experiência individual e também à participação do indivíduo na sociedade. A teoria dos papéis situa-se no conjunto da teoria moreniana, que sempre se refere ao homem em situação, imerso no social, buscando transformá-lo através da ação (SANTOS, 2008).

Nesse sentido, a teoria psicodramática encontra-se pautada em três pilares básicos, situados como técnicas e recursos terapêuticos: teoria de papéis, teoria da espontaneidade/criatividade e matriz de identidade.

A matriz de identidade é, para seu criador, a placenta social do indivíduo, o lócus onde a criança se insere, proporcionando-lhe segurança, orientação e guiando-a rumo ao desenvolvimento de uma autonomia.

Segundo Moreno (2003), a espontaneidade e a criatividade são recursos inatos, fundamentais para o desenvolvimento saudável do homem. O autor explica que a espontaneidade habilita o indivíduo a superar situações como se carregasse o organismo, estimulando e excitando seus órgãos para modificar suas estruturas, a fim de que possam enfrentar suas novas responsabilidades.

Conforme Naffah Neto (1997), a espontaneidade engendra o indivíduo e a situação como dois pólos de uma mesma unidade: como esforço de auto-superação em função do confronto com a situação presente, ela é, ao mesmo tempo, ação que se lança na própria situação para transformá-la tornando-se então espontaneidade – criativa.

Os vários papéis que os indivíduos podem desempenhar não existem isolados uns dos outros, apresentam semelhanças em suas estruturas e tendem a se aglutinar, formando um conglomerado ou cachos de papéis, os quais mantêm uma relação funcional entre si. Assim, se um papel de autoridade como a relação professor-aluno adquire uma maior dose de espontaneidade, outros papéis do mesmo cacho como patrão-empregado, pai-filho, podem receber uma transferência de espontaneidade e também se transformarem (GONÇALVEZ, WOLFF E ALMEIDA, 1988)

Desse modo, todos os papéis se caracterizam como complementares. Os indivíduos agem a partir de uma série de papéis adquiridos em sua cultura e que o ajudam a desempenhar seu próprio papel. Seu modo de ser e sua identidade decorrem dos papéis que complementa ao longo de sua vivência e de suas experiências, com respostas obtidas na interação social, por papéis que complementam os seus.

A transformação vai ocorrer pela mobilização dos afetos, onde pode colocar para fora suas angústias e exteriorizar suas experiências intrínsecas, pois quando o indivíduo dramatiza uma situação vivida anteriormente, muitas experiências vem à tona, propiciando ao paciente a adequada avaliação da realidade interna e externa.

5. Considerações Finais

Portanto, o psicodrama surge como uma ideia inovadora no âmbito da psicologia, a fim de promover um inter-locução entre a ciência psicológica e o teatro. A partir da dramatização o indivíduo pode expressar livremente seus medos, inquietações, angústias a fim de dar ênfase no conflito e libertar a sua possibilidade criatividade e espontânea para direcionar um novo olhar sobre si mesmo. Desse modo, esse princípio teórico e prático tem ganhado visibilidade e respaldo para atuar com diversos fenômenos psicológicos, bem como para dar suporte ao sujeito que sofre.

Sobre o Autore:

Alex Barbosa Sobreira de Miranda - Graduado em Psicologia. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual do Piauí (UESPI). Teresina, PI, Brasil

Referências:

GONÇALVEZ, C. S.; WOLFF, J. R.; ALMEIDA, W. C. de. Lições de Psicodrama: introdução ao pensamento de J. L. Moreno. 2. ed. São Paulo: Agora, 1988.

MARINEAU, R.F. (1992). Jacob Levy Moreno 1889-1974 - Pai do Psicodrama, da Sociometria e da Psicoterapia de Grupo. São Paulo: Ágora.  

MESQUITA, A. M. O. O psicodrama e as abordagens alternativas ao empirismo lógico como metodologia científica.Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 20, n. 2, June  2000 .   Available from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932000000200006&lng=en&nrm=iso.

MORENO, J.L. Psicoterapia de Grupo e Psicodrama. São Paulo: Mestre Jou, 1999.

MORENO, J. L. Psicodrama. São Paulo: Cultrix, 2003.

NAFFAH NETO, A. Psicodrama: Descolonizando o Imaginário. São Paulo: Plexus, 1997.