Resumo: Este artigo é fruto de uma revisão bibliográfica acerca do apanhado de vida de Sabina Spierlrein, simultaneamente representando o seu percurso inicial e final em sua relação com a psicanálise. O assunto tema explanado foi possível ser articulado através de recortes históricos, pesquisas bibliográficas e do filme "Jornada da Alma’’, com o intuito de primeiramente resgatar fases e desdobramentos de seu histórico de vida, assim como dados relevantes registrados por autores como David Cronenberg, John Kerr, Aldo Carotenuto, entre outros, que correlatam influências e evidências acerca da trajetória existencial de Spielrein, fazendo com que o seu nome seja imortalizado na história psicanalítica. Outro ponto importante, juntamente com a homenagem dedicada a Sabina Nikolajevna Spielrein, é o destaque de como a histeria apresenta-se na atualidade, no século XXI.

Palavras-chave: Trajetória, Sabina Spierlrein, Psicanálise

1. Introdução

Sabina Nikolajevna Spielrein, de origem russa, nascida em Rotov na Russia em 1885 e filha de uma família de comerciantes judeus, passou de paciente a psicanalista. Foi paciente de Carl Jung na clínica Burghölzli, e com ela testou pela primeira vez os métodos de Freud internada no hospital psiquiátrico de Zurique com sintomas histéricos. No filme Jornada da alma (2003) dirigido por Roberto Faenza pode-se extrair uma menina que tornar-se mulher, da qual reorganiza-se por inteiro passando condição de “louca” a uma pessoa humana, de grandeza interior e dedicada a levar até o fim sua colaboração com o bem estar humano. Infelizmente não foi possível ter acesso a tantos detalhes de sua vida, pois ainda há dificuldades de encontrar materiais bibliográficos sobre a autora. Porém, tentamos compartilhar a formulação dessa pesquisa bibliográfica homenageando-a e fazendo associações à psicanálise.

O filme, citado acima, aponta caminhos a serem explorados, sendo um deles, o conhecer de maneira mais aprofundada a história “biográfica” dessa admirável mulher que destrói convenções morais, se impõe perante o poder masculino e patriarcal ensinando grandes lições a seus mestres e tutores. Sabina Spielrein com suas atitudes revelaram destemor, mas também sofrimentos inúmeros e traumas psicológicos presentes desde a sua infância. Foi uma mulher, demasiadamente humana e desafiadora aos valores de sua época.

Sabina Spielrein ficou esquecida por quase sessenta anos com toda sua técnica inovante, que segue de escritora a criadora de conceitos inéditos do campo psicanalítico, produtora das análises da fala esquizofrênica, do conceito de pulsão de morte, da origem da linguagem e formação de símbolos infantil de relevante importância na atualidade. Os trabalhos de Spielrein puderam ser conhecidos através de Aldo Carotenuto, analista junguiano, que em outubro de 1977 publicou em Alemão as suas cartas a Jung e Freud e seus diários compostos de 30 artigos que haviam permanecido em uma caixa desde 1923 nos porões da Biblioteca do Instituto de Psicologia da Universidade de Genebra. As reflexões de Carotenuto resultaram na produção do livro Diário de uma secreta simetria, publicado em 1984, sendo reconhecido como marco inicial das pesquisas sobre Sabina Spielrein, transformando-se assim documentos  pertencentes a uma achado arqueológico.

Seis de seus artigos se destacaram como pioneiros: em 1911, Sobre o conteúdo psicológico de um caso de esquizofrenia, a primeira tese universitária sobre psicanálise e a primeira a usar o termo esquizofrenia em psicanálise. Em 1912, a publicação de A destruição como causa do devir, postulando pela primeira vez o conceito de pulsão de morte, no mesmo ano publica também Contribuições para o conhecimento da psique infantil que foi o segundo artigo sobre a psique infantil, depois da publicação de Freud sobre o pequeno Hans. Em 1920, apresenta um trabalho absolutamente pioneiro, A origem das palavras infantis mamãe e papai

–  sobre  o  problema  da  origem  e  desenvolvimento  da  linguagem.  Continuando  suas importantes reflexões num texto de 1923, Algumas analogias entre o pensamento da criança, o  do  afásico  e  o  pensamento  subconsciente.  Através  de  Sabina  Spielrein,  foi  possível conhecer as origens psicanalíticas do pensamento de Jean Piaget que em 1923, publicou um artigo sobre o tempo, O tempo na vida psíquica subliminar. Este último analisando de Sabina.

O seu pioneirismo em relação à psicanálise russa, se dá sobretudo em relação à psicanálise com crianças. Em relação à formação psicanalítica e sua difusão, teve um papel proeminente seja como docente da universidade de Moscou onde era chefe do Departamento de Pedologia, e fundadora de um primeiro Jardim de Infância psicanalítico. Foi também uma das fundadoras da Sociedade Psicanalítica de Moscou tendo sido uma das primeiras analistas didatas (CROMBERG, 2012).

Os materiais utilizados nesta pesquisa bibliográfica foram: O Filme “Jornada  da Alma” de Roberto Faenza, 2003; Sites que trazem informações sobre o que foi a vida de Sabina Spielrein, já que muito pouco sabe-se sobre ela; Vasta bibliografia que abrange as áreas da histeria que repercute no atual da clinica cotidiana, suas obras, sua condição feminina e seu percurso dentro da psicanálise.

Inicialmente realiza-se a conexão entre Psicanálise e História, uma trajetória expositiva com uma contextualização histórica, seguida de uma contextualização teórica e narrativa do filme, embasando também o percurso da histeria inicial apresentada por Sabina Spielrein e sua continuidade atual da clinica cotidiana moderna. E por último, uma discussão embasada nas modificações da histeria do século XX assim como do seu percurso na Psicanálise. Esta primeira contextualização é apresentada sua história, tendo como palco a Rússia, descrita desde o narcisismo até o governo de Stálin – época na qual a personagem principal, Sabina viveu. A segunda contextualização é teórica e se dará a partir de seu surgimento na psicanálise e da exposição dos pensamentos de Jung e Freud, de sua importância para os estudos e casos histéricos, o que posteriormente potencializa o seu desejo em tornar-se uma médica psiquiatra. Tratada por Carl Jung, foi fortemente influenciada por Freud. Apresenta-se ainda um estudo com a narrativa do filme o qual foi base para destacar a personagem   e   priorizar   suas   relações,   podendo   assim   ser   compreendidos   os   seus desdobramentos, legado e desenvolvimento histórico.

2. Sabina: Um Pouco de Sua História e Trajetória Pessoal

"Eu fui uma vez um ser humano."
28 de agosto de 1913
Sabina Spielrein
Sabina Nicolaievna Spielrein

Sabina Nicolaievna Spielrein, russa, judia, nascida em 1885 na cidade de Rostov, foi a primogênita de abastada família, tendo três irmãos mais novos e também uma irmã, que faleceu de tifo ainda muito jovem (CAROTENUTO, 1984; ORELLANA; RUIZ, 2003).

Manteve uma relação marcante, e conflituosa com seus pais. Nikólai, pai de Sabina era comerciante e possuía uma personalidade agressiva, juntamente com Eva sua mãe a educaram seguindo princípios rigorosos onde ela não tivesse nenhum conhecimento sobre sexualidade, e conhecimentos que envolvessem o ato sexual. Tal rigidez repercutiu em seu âmbito escolar chegando a modificarem o programa teórico da escola onde estudava para que não estudasse a reprodução dos seres humanos na disciplina de biologia. (APPIGNANESI; (FORRESTER, 1992; ORELLANA; RUIZ, 2003).

Segundo Carotenuto (1984), Spielrein começou a apresentar indícios de doenças de ordem psiquiátrica ainda na infância, manifestada através de alucinações, retenção de fezes e intensa masturbação e sentimentos de excitação ao ver as mãos do seu pai. Aos 18 anos, Spielrein repudiava o contato visual com outras pessoas e apresentava crises de choro, risos e gritos. Devido à decorrência destes sintomas, Nikólai e Eva, seus pais, levam-na à Zurique na Suíça para ser internada no hospital Burghölzli. Em Zurique, Sabina realizou o curso de medicina pela universidade local, concomitantemente à sua internação. Skea (2006) afirma que, ao longo dos anos, os diagnósticos para o caso de Spielrein foram os mais diversos: Jung a considerou histérica, Carotenuto, em seus escritos, sugeriu esquizofrenia e Hoffer levantou a hipótese de transtorno de personalidade borderline. Entretanto, Skea (2006) contrapõe que os sintomas de Spielrein foram esbatidos em menos de um ano de internação, enquanto Frau M (paciente de Spielrein com sintomas psicóticos, que fora também internada em Burghölzli) não obteve alta durante todo o tempo em que Spielrein a acompanhou. Este dado, de acordo com Skea (2006), corrobora o entendimento de que diagnósticos severos não podem se aplicar ao caso de Spielrein, devido ao rápido esbatimento  da sintomatologia.

Sabina Spielrein na cidade de Burghozli em agosto de 1904 iniciou seu tratamento como paciente analisada por Jung, recebendo alta em junho de 1905. Após sua alta, começou a trabalhar na mesma instituição que a acolheu em seu adoecimento, sendo supervisionada por Eugen Bleuler e fazendo análise com Jung (SKEA, 2006). De acordo com Carotenuto (1984), Spielrein permaneceu em Zurique até 1911, formando-se na faculdade de medicina e publicando seu primeiro artigo, intitulado “Sobre o conteúdo psicológico de um caso de esquizofrenia” (caso da paciente Frau M, citada anteriormente). Logo depois, publicou “A destruição como causa do devir”, em 1912. Segundo Orellana e Ruiz (2003), é neste último trabalho que são encontradas as primeiras alusões ao termo que, futuramente, veio a ser conhecido como “pulsão de morte”. No dia 14 de junho de 1912, logo após a publicação deste último artigo, Spielrein casou-se com Pavel Scheftel, médico judeu, 21 anos mais velho que ela, com quem teve sua primeira filha, Renata, em 1913.

Carotenuto (1984) descreve a vida de Spielrein como marcada pela constante migração entre países europeus. A psicanalista, que havia permanecido em Viena de 1911 a 1912 para fazer análise com Freud e depois se transferido para a Alemanha, onde conheceu seu marido, voltou para a Suíça, vivendo nesse país até 1923. Cifali (2001) afirma que Spielrein reorganizou na Suíça a Sociedade Psicanalítica de Genebra, onde se tornou figura de destaque e foi analista de diversos importantes nomes da psicologia, como Jean Piaget. Em 1923, Spielrein retornou ao seu país de origem, a Rússia, incorporando-se à Associação Russa de

Psicanálise. Foi neste período que Spielrein envolveu-se com a fundação da clínica psicanalítica para crianças e com a realização de seminários de Psicanálise infantil, cuja técnica opunha-se àquela proposta por Melanie Klein e Hermine Hug-Hellmut, que Spielrein considerava demasiadamente sugestiva (APPIGNANESI; FORRESTER, 1992).

De acordo com Carotenuto (1984), a clínica psicanalítica infantil era conhecida como Casa das Crianças, sendo fundada em 1921. A equipe que trabalhava no local utilizava a teoria e técnica psicanalítica para a educação e acompanhamento das crianças. Talvez por este motivo a Casa das Crianças tenha fechado muito rapidamente após sua abertura, devido a questões burocráticas e problemas com autoridades, que ouviram rumores acerca da “educação sexual dos pequenos internos” (CAROTENUTO, 1984, p. 94).

Apesar do conhecimento destes fatos sobre a vida de Spielrein, a trajetória da mesma torna-se incerta a partir do momento em que ela retorna ao país natal. De acordo com Appignanesi e Forrester (1992), em 1924 a psicanalista deixou Moscou e retornou à sua cidade de origem, Rostov, onde ministrou aulas na universidade local. Em 1936 a Psicanálise foi então banida da Rússia e, ao longo da década de 30, morreram todos os irmãos de Spielrein, assim como seu pai e marido. A última referência ao nome de Spielrein ocorreu em 1937, em uma lista de psicanalistas russos. A data de sua morte não é precisa (alguns autores postulam 1941, outros 1942), mas especula-se que Spielrein e suas filhas tenham sido fuziladas em Rostov diante de uma sinagoga pelos soldados da Wermacht (forças armadas da Alemanha), durante o Terceiro Reich (ORELLANA; RUIZ, 2003).

É importante mencionar que, apesar de casada, Spielrein conviveu poucos anos com o marido. Conforme Cifali (2001), Pavel Scheftel retornou à Rússia em 1915 (três anos após seu casamento) e Spielrein somente em 1923. Neste longo período de afastamento da esposa, Scheftel manteve relacionamento com outra mulher, envolvimento este que culminou no nascimento de uma criança, Nina. Quando da volta de Spielrein para a Rússia, o casal Spielrein-Scheftel ainda gerou outra filha, supostamente nascida em 1926, chamada Eva (ORELLANA; RUIZ, 2003; SANTIAGO-DELAFOSSE; DELAFOSSE, 2002).

Sobre a vida das filhas de Spielrein, Cifali (2001) afirma que a formação profissional de Renata e Eva deu-se na área da música, o que de alguma forma reflete os interesses pessoais da mãe, pois ao longo da biografia de Spielrein aparecem diversas menções ao sonho da   psicanalista   em   se   tornar  artista   musical   (APPIGNANESI;   FORRESTER,   1992; ORELLANA; RUIZ, 2003). Entretanto, apesar da interessante história de vida e da teoria rica e inovadora para a época, Spielrein é principalmente lembrada por um detalhe de sua biografia: sua relação especialmente íntima com Carl Jung e pela triangulação que se estabeleceu com Freud, após o conflito entre Jung e Spielrein tornar-se demasiado espinhoso para ser resolvido a dois (CIFALI, 2001).

Carotenuto (1984) afirma que houve um apaixonamento entre Spielrein e Jung, muito provavelmente permeado por situações eróticas, durante o tratamento da mesma com seu analista e mentor. Appignanesi e Forrester (1992) chegam a mencionar que Jung e Spielrein envolveram- se nesse affair proibido durante anos (depois que Spielrein deixou o hospital, eles teriam continuado a se encontrar, tanto no apartamento dela como no escritório dele). Orellana e Ruiz (2003) complementam a descrição da situação que se estabeleceu entre Spielrein e Jung: Emma, mulher de Carl, provavelmente interveio na cessação deste romance, escrevendo uma carta para os pais de Spielrein com o intuito de interromper a relação entre a moça e Jung. Esta situação levou a um episódio complexo e com diversos pormenores, o que não cabe aqui neste breve apanhado histórico. O que ocorreu então foi que, em meio ao constrangimento que se estabeleceu, envolvendo Spielrein, seus pais, Jung e sua mulher, foi Freud quem atuou como árbitro, alguém capaz de mediar as relações conflituosas entre os envolvidos (APPIGNANESI; FORRESTER, 1992).

De acordo com os mesmos autores, a ocasião da intervenção de Freud na relação entre Jung e Spielrein ocorreu quando Freud e Jung estavam caminhando em direções opostas. Este afastamento entre os dois ficou marcado através de diversas cartas enviadas por Freud a Spielrein. Quando do casamento de Spielrein, Freud escreveu à jovem cumprimentando-a e comentando que o fato era o símbolo de “uma meia cura de seu apego neurótico a Jung” (CAROTENUTO, 1984, p. 69). Este comentário de Freud destoa de suas cartas anteriores à Spielrein, sempre em tom mediador e apaziguador. Em carta posterior, datada de 1913, Freud por fim deixou claro à pupila o que estava subentendido na correspondência anterior: suas relações com Jung estavam definitivamente rompidas, o que punha Spielrein entre ambos. Freud chegou a afirmar, frente à reação sem ódio de Spielrein para com Jung, que a mesma “está ainda apaixonada por Jung, se não consegue enraivecer-se com ele como deveria, se ainda  vê  nele  o  herói  sobre  quem  a  turba  investe”  (CAROTENUTO,  1984,  p.  69). Carotenuto (1984) aponta também a posição mediadora que Spielrein ocupou entre

Jung e Freud neste delicado momento. Segundo Skea (2006), mesmo anos após o rompimento de ambos, Spielrein continuou a corresponder-se com os dois, sendo visível em suas cartas o desejo de que os dois teóricos reatassem. A teorização de Spielrein também mostra a posição que a mesma ocupou entre estes psicanalistas, pois se observa a influência das proposições dos dois teóricos em seus escritos.

3. Relação de Sabina, Jung e Freud e Sua Passagem a Psicanalista

Desde seu surgimento, a Psicanálise foi considerada uma instituição aberta às mulheres, principalmente se em comparação com outras instituições vigentes na época, como universidades ou a própria medicina como um todo (CHODOROW, 1986).

Apesar disto, são poucos os trabalhos que citam mulheres como fundamentais participantes no desenvolvimento inicial da teoria psicanalítica, sendo geralmente mencionadas Hermine Hug-Hellmut, Lou Andréas-Salomé, Melanie Klein, Anna Freud, Mira Ginzburg e Emma Fürst (CIFALI, 2001). Em abril de 1908 surge a primeira participação de mulheres incorporando grupos psicanalíticos no 1° Congresso Internacional de Psicanálise, ocorrido em Salzburgo, tendo Sophie Erismann, esposa de um médico local, Frieda Gross, esposa de Otto Gross, que visitou o evento para acompanhar e cuidar do marido, este último, segundo Appignanesi e Forrester “boêmio, anarquista e libertário sexual” (1992, p. 210). Entretanto, tanto Frieda como Sophie desapareceram do círculo psicanalítico muito rapidamente, não deixando traços de contribuições teóricas significativas (ORELLANA; RUIZ, 2003).

Atualmente, sabe-se que em 1911, Sabina Spielrein era a mais jovem mulher escrevendo e publicando artigos sobre Psicanálise, tendo 26 anos na época (CIFALI, 2001). Tornou-se membro da Associação Psicanalítica de Viena no dia 11 de outubro de 1911 e, apesar da insistência de Isidor Sadger em restringir a participação de mulheres na associação, Spielrein foi aceita com unanimidade (ORELLANA; RUIZ, 2003). Contudo institui-se o paradoxo: Spielrein, pioneira da Psicanálise, foi a primeira analista a formar uma base teórica significativa, publicando artigos relevantes com tão pouca idade (APPIGNANESI; FORRESTER, 1992).

Appignanesi e Forrester (1992) intitula que Spielrein ficou ao lado de Freud no combate institucional estabelecido entre Jung e Freud ocorridos em 1913 e 1914, seguindo suas sugestões ao ter que se deslocar para outros países no objetivo de promover a Psicanálise. O que cabe afirmar é que Spielrein é muito mais reconhecida pelo lugar que ocupou como conciliadora e mediadora entre esses dois brilhantes homens do que por suas contribuições ao desenvolvimento da teoria psicanalítica (CIFALI, 2001). Santiago-Delafosse e Delafosse (2002) sugerem o esquecimento das postulações de Spielrein dá-se principalmente devido à falta de embasamento experimental em suas proposições e teorias, visto que a mesma formulou suas hipóteses calcadas principalmente em sua intuição. Como afirmou Vidal (2001), Spielrein sempre valorizou a capacidade intuitiva na elaboração de seus trabalhos, o que provavelmente lhe concedeu o rótulo de “mística”. Foi na resenha de Paul Federn (apud CAROTENUTO, 1984) ao artigo “A destruição como causa do devir” que apareceu mais claramente esta conexão do trabalho de Spielrein com o místico e cristalizou esta imagem para a psicanalista.

Ainda referente ao esquecimento da teoria de Spielrein, Skea (2006) relembra que no 27° Congresso Internacional de Psicanálise que ocorreu em Viena no ano de 1971, e teve como tema “Agressão e a Teoria de Pulsão de Morte”, não foi mencionado a contribuição de Sabina Spielrein no desenvolvimento deste proposto teórico; sabe-se hoje que tal contribuição aconteceu principalmente nas discussões entre Freud e Spielrein, de 1911 a 1920. Spielrein publicou seu artigo “A destruição como causa do devir” em 1912 e neste, segundo Marthe Robert, “o conceito da pulsão de morte foi antecipado quase palavra por palavra” (CAROTENUTO, 1984, p. 84). Embora o seu não-reconhecimento em círculos psicanalíticos tanto Freud como Jung escreveram notas de rodapé em seus próprios trabalhos, fazendo referência ao artigo em questão escrito pela psicanalista. (SKEA, 2006).

4. A Histeria e Sabina Spielrein

Em geral a histeria sempre existiu e esteve presente desde os primórdios da humanização, surgiu e passou a ser entendida com a  constituição  do  inconsciente.  Em 1895,Freud e Breuer publicaram “Estudos sobre a Histeria”, livro considerado o marco do início formal da psicanálise, mais Freud só adotou a palavra "psicanálise" somente um ano depois  (Rosenzweig,  1992).    Freudem  colaboração  com  Breuer  deu  inicio  a pesquisar os mecanismos psíquicos da histeria sustentando que era causada por lembranças reprimidas e de grande intensidade emocional, nascendo como resposta a esse desafio a psicanalise.

Diante da origem da histeria apresentada, Sabina Spierlrein apresentou-se como percursora da histeria como doença e cura a qual veio deixar fortes legados e importâncias na atualidade. Ao chegar ao hospital em Zurich onde ficará atendida aos cuidados de Carl Jung, Spierlrein apresentava quadros intercalados de gritos, euforia, e paralisia na perna ao ficar ansiosa. Há uma crescente linha de estudos sobre o tema proposto, no entanto, ao se abordar o tema observa-se que tem sido caracterizado por vários autores de maneiras diversas. Freud também se interessou e analisou postulando e dando tese a sua teoria psicanalítica. A histeria se comporta como um distúrbio bastante plástico, na atualidade suas abrangências dão origem ao surgimento de doenças psicossomáticas para designar sofrimentos de ordens psicológicas que repercute tanto no sistema nervoso autônomo e endócrino, que causam diversas disfunções no corpo humano James Lorimer Halliday, 1938.

Alexander (1950), em seu ultimo livro Medicina Psicossomática desenvolve a ideia de que certos tipo de conflitos intrapsíquicos se expressam no sistema autônomo simpático e parassimpático. Embasando a ideia de que a psicossomática seria o representante moderno da histeria e ao mesmo tempo o tumulo da antiga histeria.  De acordo com  KEHL (2008):

"A recusa das histéricas em aceitar a feminilidade como modelo de subjetivação e sexuação deve ter criado uma crise para o próprio Freud, uma vez que – como veremos na leitura de suas cartas à noiva Marta Bernays - também ele compartilhava do 'ideal admirável a que a natureza destinou as mulheres' ” KEHL, (2008, p.183)."

Contudo a maior mudança ocorrida ao que se refere a histeria, e a clinica da histeria moderna foram os aumentos das ambiguidades e incertezas diagnosticadas devido a seu conceito e as novas expressões e reativações de antigas categorias. Pois hoje a Histeria reside misteriosamente em todos os quadros clínicos em que há indefinições. De acordo com o Dicionário de Psicanálise, de Roudinesco e Plon, Histeria é derivada da palavra grega hystera

que significa matriz, útero. Na Antiguidade, com Hipócrates, a histeria era considerada uma doença orgânica, de origem uterina, e, portanto exclusivamente, feminina. Para época da idade média as histéricas já assumiam um papel de destaque na sociedade, eram as bruxas, feiticeiras e loucas, mulheres enigmáticas que com sua forma particular de ser, desafiavam os saberes da época. Havia demônios capazes de entrar no corpo das mulheres e “possuí-las”. Começou então, a caça às bruxas que fez inúmeras vítimas, apesar da opinião médica tentar resistir à concepção demoníaca (Plon; Roudinesco, 1998, p.338).

Para a psicanalise trata-se de uma neurose complexa caracterizada pela instabilidade emocional, sendo que a presença de “traços histéricos” está presente em praticamente todas as personalidades normais ou psicopatológicas (Zimerman, 1999).

5. Suas Contribuições Enquanto Mulher e Psicanalista

Visivelmente Sabina Spielrein trouxe para a Psicanálise um novo olhar. Spielrein não foi apenas um caso, mas uma psicanalista que viveu um grande encontro com a Psicanálise e deixou para essa corrente teórica uma marca verdadeiramente singular. Talvez este longo período de exílio da Psicanálise seja também compreendido pelo que propõe Skea (2006). Segundo o autor, Spielrein foi vítima de figuras parentais narcisistas, herdando e sendo  atraída para ela o mesmo tratamento dos seus pais.  Mesmo entrelaçando todas as dificuldades

possíveis apresenta sua fantástica capacidade de resiliência diante a sua vida. Desde o inicio o drama vivenciado com seus pais por serem figuras severas e ao mesmo tempo super protetoras a levou ao episodio de internação devido a grave crise nervosa, simbolizando para época o adoecimento histérico nas mulheres.

Seguindo os quadros típicos psicopatológicos de quando um jovem demanda desprendimento muito intenso e rápido de rígidas figuras parentais, é comum encontrar situações de violência, drogadição, isolamento, distúrbios alimentares, entre outros. E Spielrein, a frente de sua época e de sua herança para a teoria psicanalítica, ainda foi representante da juventude no início do século XX e de como os jovens manifestavam seu sofrimento e insatisfação.

Apesar destas trágicas vivências, obteve êxito e fez o seu papel na propagação da Psicanálise na Europa ganhando reconhecimento de suas teorias no círculo psicanalítico da época. Seu legado deixado em vários campos do saber está presente na atualidade e em constante contato ligado a ideias de diferentes autores e linhas de pensamento. E apesar de sua teoria não estar sendo estudada e reconhecida atualmente fica-se inúmeros detalhes de sua contribuição.

6. Discussão

A obra de Breuer e Freud, “Estudos sobre histeria” (1895) se tornou alvo de muitas críticas na época, porém não se pode negar sua importância para a discussão. Apesar de Freud ter dedicado grande parte de sua clinica a pacientes mulheres, o mesmo reconhece a dificuldade de se falar desse assunto devido à sua complexidade (Freud, 1931). Como observado no presente trabalho, ainda no que tange a delimitação do tema proposto, e ao próprio conceito de histeria e uma frase inicial discursada por Sabina Spielrein no filme “Jornada da Alma” ao encontro com seu médico Jung onde diz: ‘’Você é sã, eu não, então você não pode me entender’’, dar-se espaço a reflexão de que ha impossibilidade de sua definição. Segundo  Leségue (1873, p. 135-150) dizia no século passado que

“a definição da histeria nunca foi estabelecia e nunca o será... entretanto.., poderíamos tentar complementá-la... por um médico. Significando que utilizações de critérios médicos rígidos não poderá dar conta do problema embaçando a visão e impedindo definições. Pois para que um medico tente definir a histeria, é necessário desprender-se do seu contexto de saber e se distancie buscando formas e ferramentas para abordar aquilo que não se é, ou seja, encarando ser uma doença como qualquer outra.”

Atualmente a medicina ver o problema com atitude de rejeição e como não sendo doentes de verdade, pois não tem nada, ou por se sentirem tão rejeitados quanto seus “doentes” se utilizam de que a histeria de fato é só uma doença como as outras. Tanto para medicina, psiquiatria ou psicologia moderna a histeria apresenta-se anacrônica, como podemos confirmar nos mais recentes manuais classificatórios dos transtornos mentais. É como se a histeria estivesse sempre desafiando o saber estabelecido, se mostrando também camaleônica denunciando a sua plasticidade estrutural. Apresenta-se em quadros de angústia, conversões, depressões, fobias, crises de ansiedade e de relacionamentos interpessoais, transtornos alimentares ou somatomorfos correspondendo a um conjunto de sintomas que age segundo o sintoma predominante. Partindo para o físico mais frequente estão as dores reumáticas, cefaleias ou algias cuja organicidade fica-se difícil contestar. E indo para o âmbito sexual temos, como exemplos, a frigidez na mulher e no homem a ejaculação precoce e impotência como tema da clínica atual.

Assim sendo tais ocorrências nos leva a pensar e indagar: “A histeria é uma doença”? “A histeria é uma estrutura clinica, ou desestruturação”? “Como poderíamos explicá-la”? “A histeria seria ainda um discurso”? “A histeria é um saber que não se sabe”? “A histeria é o real do corpo”? Será que ainda perguntas como essas permanecerão inquestionáveis em pleno século XXI? Cada vez mais fica-se evidente esses questionamentos, e essa análise é merecedora de olhares mais aprofundados e que especifiquem melhores justificativas.

7. Considerações Finais

Último desejo:
Plantar um carvalho e escrever:
"Eu fui uma vez um ser humano, eu era chamada Sabina Spielrein"
(28 de agosto de 1913)
Sabina Spielrein

Esta pesquisa se propôs, como objetivo geral elaborar um conjunto de elementos pertencentes relacionado ao quão difícil foi seu percurso de vida e sua capacidade de resiliência, assim como também psicanalítico, além de informações bibliográficas acerca de possíveis achados de toda a trajetória de uma das primeiras psicanalistas do mundo que foi Sabina Nikolajevna Spielrein, priorizando homenageá-la diante de todo seu desempenho contribuinte para psicanálise. Sabina Spielrein ficou mortificada por muito tempo e o real intuito foi  traze-la a vida, pois encontra-se ainda pouco lembrada, e devido a diversos autores como (CAROTENUTO, 1984) foi também possível mostrar seus trabalhos e teoria desenvolvidas, e que hoje encontra-se atuais e sendo vivenciados em toda a clinica moderna, desde a medicina, psiquiatria a psicologia do século XXI, deixando notório que tal importância faz com que Spielrein tenha destaque e maiores reconhecimentos.

O trabalho apresenta-se diversificado trazendo seu histórico de vida, a origem histérica e o legado inicial da histeria perpassando para as repercussões da atualidade acompanhado a discursão de autores e pensamentos diferentes dos mesmos, sendo feito interlocuções de embasamentos científicos. Portanto Sabina Spielrein trouxe sua condição feminista e humana, e nada melhor do que utilizar as palavras de Adorno (1995 [original de 1996], p. 118):

"Um mundo como o de hoje, no qual a técnica ocupa uma posição-chave, produz pessoas tecnológicas, afinadas com a técnica. Isso tem sua dose de racionalidade: dificilmente se deixam enganar em seu estreito campo, o que pode ter consequências em uma esfera mais ampla, Por outro lado,  na relação atual com a técnica , há algo excessivo, irracional, patogênico. Esse algo esta relacionado com o véu tecnológico. As pessoas tendem a tomar a técnica pela coisa mesma, a considerá-la um fim em si, uma força com vida própria, esquecendo porém, que ela é o prolongamento do braço humano".

Desde de 1977, a biografia da vida de Spielrein ampliam pesquisas e devido a isso encontra-se ainda inacabada, trazendo autores de diversas partes do mundo dedicados a descobrirem suas concepções. Consideramos ainda que o mais importante seja seu ressurgimento e que suas contribuições produzam renovações a partir dos seus feitos, podendo ser compartilhados e implementados dentro das áreas necessárias. Seguindo esse sentindo e os dados expostos, concluímos, por hora, nosso trabalho.

Referências:

ROBERTO FAENZA D.P REINO UNIDO, ITÁLIA. FRANÇA: Jornada da Alma, 2003.

ROUDINESCO, E. Dicionário de Psicanálise. Ed. Rio de Janeiro: Zahar, LTDA, 1998.

RICHEBACHER, S. Sabina Spielrein de Jung a Freud. Rio de Janeiro, 2012. Civilização Brasileira, 1ª Edição.

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CROMBERG, R.   Revista percurso uol. Texto primeiras psicanalistas. Disponível em : http://revistapercurso.uol.com.br/index.php?apg=artigo_view&ida=129&ori=autor&letra=C. Acesso em 19 de abril 2013.

CRAVEIRO. S. Eterna Sefarad. Disponível em : http://zivabdavid.blogspot.com.br/2012/06/sabina-spielrein-1885-1942.html.Acesso em 19 de abril de 2013.

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