Resumo: A visão sobre a infância tem passado por diversas transformações ao longo da história, de "pecadora ou anjo" a "esperança da sociedade". E embora a experiência analítica com crianças não seja um campo a parte do referencial teórico da psicanálise, possui algumas especificidades. Tais particularidades variam de acordo com cada criança e devem estar em conformidade com o momento estrutural no qual esta se encontra. O objetivo final deste artigo é que os leitores tenham uma primeira aproximação com as teorizações referentes à clínica psicanalítica com crianças.

Palavras-chave: Psicanálise com crianças, Clínica psicanalítica, Infância.

1. Introdução

No decorrer dos séculos, o conceito de criança tem sido visto de diversas maneiras. Nota-se que o significante “educação” trouxe consigo a concepção de criança – tal como concebemos atualmente – além de contribuir para a constituição da ordem familiar contemporânea. Foi à psicanálise que subverteu o mito da infância ingênua e bondosa apontando para o fato de que a criança - como os adultos - sentia excitações sexuais (ÁRIES, citado por Rosa, 2009).

Sigmund Freud (1909, citado por Rosa, 2009)  foi o responsável por sinalizar que a clínica psicanalítica com crianças era possível. Segundo o autor, é porque tem suas produções inconscientes que a psicanálise com crianças é possível. E, embora não tenha aprofundado essa discussão, tê-la iniciado propiciou debates dos mais diversos entre os psicanalistas (Freud, citado por Petri, 2008).  Nomes como Anna Freud, Melanie Klein, Françoise Dolto, Maud Mannoni e Rosine e Robert Lefort são referência a todos que desejam se aprofundar nessa temática.  As formulações teóricas realizadas por esses psicanalistas serão, brevemente, apresentados a seguir.

Não é possível falar de clínica com crianças sem contextualizar a importância e o lugar do lúdico no tratamento. O brincar é inevitável para a criança, uma vez que corresponde ao próprio movimento de sua estruturação psíquica: quando uma criança não brinca é sinal que existe algum impedimento em seu processo de subjetivação (PETRI, 2008).

A procura por atendimento clínico de crianças e adolescentes costuma partir da família. Nas entrevistas, ao relatarem a história da criança, frequentemente, nota-se que os pais têm algo a dizer que a criança não pode ouvir, e mesmo longe dela, alteram ou omitem fatos ou partes de eventos ocorridos com a criança ou familiares – sobre os quais, segundo eles, o filho supostamente não sabe. As vivências na clínica demonstram as sequelas do que deveria ter sido falado e não foi. Comprova-se como a decisão de deixar a criança na ignorância tem um preço, pois, sem a verbalização, as chances de elaborar diminuem ou faltam por completo; então, é bem provável que o que não foi falado retorne, gerando inibições, sintomas ou angústia à criança (ROSA, 2009). Vale lembrar: as histórias que não são contadas, as palavras censuradas, as verdades caladas, estas e outras espécies de não-dito acarretam consequências, nunca saudáveis e quase sempre patológicas a criança (ROSA, 2009).

Cabe perguntarmo-nos, o que será que há na criança (de) tão insuportável? Visto que muitos analistas recusam-se a trabalhar com crianças, pois, tomam tempo, exigem cuidados exclusivos e podem vir a causar incômodos dos mais diversos (PETRI, 2008). Como por exemplo, em relação à conduta: escondem-se atrás das cadeiras ou põem a cadeira na frente da porta quando não querem sair, fogem da sala dizendo ‘Você não me pega!’, dão pontapés, cospem, atiram objetos, levam comida, entre outros. Relatado ou expresso, o comportamento é uma questão a ser enfrentada pelo analista (ROSA, 2009).

Nota-se que os pais têm um papel fundamental no tratamento, pois, o discurso da criança é atravessado pelo discurso de seus pais. Um dos objetivos da análise seria, então, o de permitir a criança separar-se do sintoma familiar(VORCARO, 1999). Cabe alertar que, embora a participação dos pais seja essencial ao tratamento, o tratamento é da criança e é com ela que, fundamentalmente, o analista deve trabalhar.  Ao incluí-los na sessão, pensa-se em produzir um efeito analítico que permita a continuação da análise da criança (ROSENBERG, citado por Rosa, 2009).

2. A Clínica Psicanalítica com Crianças

Recorreu-se, inicialmente, a um apanhado histórico a fim de ilustrar as primeiras abordagens da psicanálise neste contexto.  Posteriormente, pretende-se desenvolver as ultimas argumentações teóricas sobre a temática proposta.  

As argumentações de Freud (1909, citado por Rosa, 2009) a respeito da psicanálise no contexto infantil se deram em seu texto Análise de uma fobia em um menino de cinco anos – ‘O Pequeno Hans’.  Caso clínico construído em grande parte por intermédio do pai do paciente, o que sinalizou a importância do discurso dos pais na análise com crianças. Fica a questão, que perdurará até os dias atuais, da criança poder ser Sujeito do próprio discurso. Ou seja, é porque a criança tem suas produções inconscientes que a psicanálise com crianças é possível.

Na Conferência 34, das Novas conferências introdutórias em psicanálise (1932), o mesmo autor traz considerações sobre as condições para o exercício da psicanálise com crianças. Averiguou-se que a criança é muito propícia para o tratamento analítico; os resultados são seguros e duradouros  (Freud, citado por Petri, 2008). Recorrendo às palavras do próprio Freud (citado por Petri, 2008, p. 20):

Uma criança é um sujeito psicologicamente diferente do adulto. De vez que não possui superego (...). As resistências internas contra as quais lutamos, no caso dos adultos, são na sua maior parte substituídas, nas crianças, pelas dificuldades externas. Se os pais são aqueles que propriamente se constituem em veículo de resistência, o objetivo da análise – e a análise como tal – muitas vezes corre perigo. Aí se deduz que muitas vezes é necessária determinada dose de influência analítica junto aos pais.

Freud (citado por Petri, 2008) mostrou a possibilidade de realização da psicanálise com crianças, e embora não tenha aprofundado essa discussão, tê-la iniciado propiciou debates dos mais diversos entre os psicanalistas. Vejamos alguns destes.

Duas percussoras foram Anna Freud – filha de Freud – e Melanie Klein ambas trazendo olhares e teorizações bem diferentes do texto Freudiano.

Anna Freud (citado por Petri, 2008), em O tratamento psicanalítico de crianças, não acreditava ser possível – nem desejável – o estabelecimento de uma relação puramente analítica com uma criança. Utilizando de um viés pedagógico-educativo fez um esforço para conduzir a criança ao aprendizado da importância e dos fundamentos da análise a ser empreendida, a fim de driblar as dificuldades iniciais no estabelecimento das condições para a análise, como por exemplo, a não adesão ao tratamento. Coerentemente, deu importância central à colaboração dos pais na análise, responsabilizando-os muitas vezes pelo andamento ou impedimento do tratamento.

Anna Freud (1926, citado por Petri, 2008) argumenta que o analista deveria assumir uma “ação dirigida” – justificada por sua idéia de que a associação livre da criança seria bastante limitada – e combinar em sua própria pessoa duas funções difíceis e absolutamente opostas: analisar e educar. A conseqüência básica dessa posição do analista seria fazer com que a busca do final do tratamento coincidisse com a procura de uma identificação da criança com o ideal de eu – isto é, com quem a criança deseja parecer, ou, que ‘modelo’ deseja seguir – lugar esse ocupado pelo analista.

As formulações teórico-clínicas de Anna Freud representam uma das primeiras tentativas de se pensar à psicanálise com crianças, requerendo do analista um posicionamento diferente do ocupado em relação ao adulto, especialmente no que se refere às condições necessárias para o tratamento. É provável que o maior equívoco de Anna Freud tenha sido legar ao analista, a posição de ideal de eu, forjando a noção de uma “identificação saudável” que acaba por impor à criança ideais alheiros, contradizendo, enfim, os próprios fundamentos da psicanálise, no que concerne sua ética (PETRI, 2008).

Melanie Klein vai desenvolver um novo método de Psicanálise infantil através do jogo, do brinquedo, do desenho e do recorte. Afirmando que a análise através do brincar leva os mesmos resultados que a técnica de adultos, com uma única diferença, a saber, que o procedimento técnico é adaptado à mente da criança (KLEIN, 1997). Opondo-se radicalmente as argumentações de Anna Freud, no livro, A psicanálise de Crianças, Klein (1997), faz um resumo do que chamou de os fundamentos psicológicos da análise de crianças:

A natureza mais primitiva da mente da criança torna necessário encontrar uma técnica analítica especialmente adaptada a ela, e isso nós encontramos na análise através do brincar. Por meio da análise do brincar, ganhamos acesso às fixações e experiências mais profundamente reprimidas da criança e tornamo-nos assim capazes de exercer uma influência radical sobre o seu desenvolvimento (p.35).

Surge neste cenário, Françoise Dolto, dedicando-se à elaboração teórica de sua prática clínica a partir do referencial lacaniano, estabelecendo noções próprias sobre a psicanálise com crianças (PETRI, 2008). O trabalho de Dolto – diferente de Anna Freud e Melanie Klein – buscou identificar na estrutura qual seria a situação problemática (ROSA, 2009).

Dolto (citado por Rosa, 2009) em Seminário de psicanálise de crianças, adverte que, como os pais da realidade praticam uma relação de objeto falseada pela repetição de seu passado sobre o filho, é necessário que o psicanalista escute  – a história de cada um dos pais, assim como a do casal – para saber a que projeções a criança deverá fazer face no dia-a-dia em sua educação. Dolto também permitia que qualquer um que tivesse algo a dizer sobre a criança e sua sintomática entrasse na sessão. E adverte: a situação da chegada da criança em análise auxilia a perceber a questão. Dolto (1985, p.32, citado por Rosa, 2009) conclui:

Quando se trata verdadeiramente de uma criança-sintoma esse fato se esclarecerá por si só. Ou a criança não se interessará por estas entrevistas e sairá da sala, permitindo que seus pais tomem consciência de suas próprias dificuldades, ou expulsará os pais e estes, confusos, precisarão ser ajudados para suportarem esse desmame súbito e a independência manifestada pelo filho diante deles.

Nota-se assim que, as intervenções feitas por Dolto iam em direção aos pais e a criança. Forma de trabalho continuada por Maud Mannoni, que foi outra figura importante no cenário da psicanálise com criança com referencial lacaniano (ROSA, 2009).

Mannoni (1971) deve sua formação como psicanalista de crianças a Dolto e a elaboração teórica de sua experiência, ao ensino de Lacan. Para ela, o campo em que o analista opera é o da linguagem  – mesmo se a criança ainda não fala. O discurso que se processa engloba os pais, a criança, o analista: é um discurso coletivo que se constitui em torno do sintoma apresentado pela criança (MANNONI, citado por PRISZKULNIK, 1995).

Utilizando das palavras da própria autora: “O sintoma da criança vem cobrir no discurso familiar, o vazio criado por uma verdade que não é dita” (MANNONI, citado por Rosa, 2009, p.102).  Isto é, o que faz mal a uma criança não é a situação real que ela vivencia, mas o que nesta situação não foi verbalizado (ROSA, 2009).  

Nesse contexto, o sintoma teria valor de comunicação. Considera, então, imprescindível escutar os pais na medida em que eles estão implicados nos sintomas do filho, o que não significa fazer o tratamento psicanalítico deles, mas ajudá-los a se situarem em relação à sua própria história (ROSA, 2009).

Com relação à prática clínica propriamente dita, a autora ressalta que “as reações dos pais são parte integrante do sintoma da criança e da direção do tratamento” (MANNONI, citado por PETRI, 2008, p.31). E, ainda, afirma que “não se pode tratar de uma criança sem tocar em problemas fundamentais dos pais, como suas posições em relação à morte e ao sexo – por exemplo, já que estão profundamente implicados no sintoma do filho” (MANNONI, citado por Petri, 2008, p.31). Em linhas gerais, o importante não é quem tratar – já que as intervenções vão em direção da criança e também dos pais, mas como está estruturado o discurso familiar (ROSA, 2006).

Ressalta-se nesse cenário o trabalho de Rosine e Robert Lefort. Os autores defendem em, A criança do discurso analítico, a unidade da psicanálise, não havendo, uma especificidade na psicanálise com crianças.  Em sua concepção “a estrutura, o significante e a relação com o Outro não concernem de maneira diferente à criança e ao adulto” (LEFORT,  citado por PETRI, 2008, p.31). Sendo, o analista o encarregado a criar condições para a criança encontrar seu próprio discurso na análise (LEFORT, citado por PETRI, 2008).

Portanto, podemos considerar que a psicanálise com crianças não é nem uma especialidade, o que demandaria do analista uma formação técnica determinada, tampouco uma clínica equivalente à realizada com adultos, sem qualquer atenção às singularidades da infância (PETRI, 2008). 

A criança é um analisante de pleno direito, e justamente por isso, impõe certas especificidades à clínica que, norteada pelos mesmos eixos teóricos, difere apenas quanto às condições para sua realização (PETRI, 2008). Algumas especificidades, por exemplo, são relacionadas à conduta da criança: trás brinquedos, comida, pessoas à sessão, fecha a porta da sala com o analista para fora, quer pegar um objeto na sala ao lado, pede para levar objetos para casa, cria inúmeras situações, enfim; para as quais o analista precisa inventar uma resposta e/ou construir uma intervenção [01] (PETRI, 2008).

3. A Criança Como Analisante

No decorrer dos séculos, a criança tem sido vista ora como pecadora, ora como boa, sem sexo, anjo e até como vítima da sociedade (ROSA, 2009). Ariès (citado por Rosa, 2009), demonstra em seu livro História Social da Criança e da Família, que o aumento da burguesia dos séculos XVI e XVII acarretaram a preocupação educativa, ideal da nova classe social. Nota-se que o significante “educação” trouxe consigo a concepção de criança, tal como concebemos atualmente, além de contribuir para a constituição da ordem familiar contemporânea (ÁRIES, citado por Rosa, 2009).

Esse novo lugar possibilitou que a criança pudesse ser pensada como objeto de conhecimento e práticas específicas. É no século XX, afirma Volnovich (citado por Rosa, 2009), que a criança torna-se objeto da pediatria. Aqui,  a criança passa a ter corpo, mas não discurso, é dita como boa, mas sem razão ou sentidos próprios. Foi à psicanálise do início do século que subverteu o mito da infância ingênua e bondosa retornando à imagem de criança perversa polimorfa. Em outras palavras: os estudos psicanalíticos iniciados por Sigmund Freud apontaram para o fato de que a criança – como os adultos – sentia excitações sexuais. Chegando a manifestar pulsões agressivas e hostis ao longo de sua constituição (Rosa, 2009). Entretanto, este retorno se deu com algumas diferenças, uma vez que se trata de uma criança que constrói um saber sobre o real e que tem a possibilidade de formular teorias sobre suas relações com os outros e o mundo. Essas teorias – as teorias sexuais infantis –  demarcam toda a experiência do indivíduo, inclusive quando adulto (ROSA, 2009).

Há dois aspectos a serem considerados quanto à criança contemporânea. De um lado, ela adquire no imaginário social o status de esperança da humanidade, refletindo a autoestima e as frustrações do adulto. De outro lado, não tem valor social produtivo, tomando o lugar de objeto de gozo e fascínio do adulto. Examinando melhor: à criança é dado o lugar de tentar preencher as necessidades dos adultos (ROSA, 2009).

4. A Atividade Lúdica na Psicanálise

Freud (citado por Castro, 2010) faz referência pela primeira vez ao ludismo em seu artigo, Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade, acerca da hipótese da origem da satisfação sexual na ação motora, seja de forma passiva – agitação ritmada do corpo, o que explicaria a insistência infantil na repetição de atividades, como balançar, ser jogada para cima, etc. Ou ainda, no exercício muscular ativo – lutas físicas, rodopios, brincadeiras que envolvem movimento em geral. Fazem-se necessárias algumas considerações importantes sobre o brincar na concepção freudiana. De acordo com Castro (2010), o argumento de Freud “se fundamenta no depoimento de pessoas que relataram a percepção dos primeiros sinais de excitação sexual quando, na infância, brincavam de maneira ruidosa com seus pares” (p.71). Nota-se, que neste trabalho de Freud, a compreensão do lúdico está sustentada na motivação pulsional.

Em Escritores criativos e devaneios, Freud (citado por Castro, 2010) faz a comparação do fantasiar, indispensável à criação literária e artística em geral, ao brincar e ao jogar, característicos da vida infantil. Afirmando ainda que, o oposto da brincadeira é a realidade. Freud compreende a atividade lúdica como ficção; deste modo, a atividade lúdica seria ‘transitiva’ à realidade: a criança pega elementos da realidade, utiliza-os na brincadeira transformando-os, sem ignorar que aquela transformação é ‘um faz de conta’ temporário. Sendo assim, a ficção não perde a realidade como referência, pelo contrário, nela se inspira para transformá-la (CASTRO, 2010). O brincar da criança é determinado por desejos: de fato, por um único desejo – que auxilia o seu desenvolvimento, o desejo de ser grande e adulto. A criança está sempre brincando ‘de adulto’, imitando em seus jogos aquilo que conhece da vida dos mais velhos (FREUD, citado por CASTRO, 2010).

A partir do exposto cabe perguntarmo-nos: Porque haveria a criança de ‘simular’ situações de adulto nas brincadeiras? Pelo fato de que a criança busca poder exercer a liberdade atribuída ao adulto, atuar sem as imposições e limitações que a educação dos adultos lhe inculca, executar aquilo que lhe é refreado e da maneira que mais lhe agrada (CASTRO, 2010). Nessa concepção, o brincar então funcionaria como mediador entre o desejo do sujeito e uma realidade que restringe sua realização, mas o aceita sob o apoio do lúdico ou de expressões fantasiosas (CASTRO, 2010).

Em complemento ao enunciado acima, faz-se necessário recorrer às palavras de Melo e Silva (2012) como suporte para destacar o brincar na concepção psicanalítica:

É característica do comportamento infantil, o brincar, por isso a psicanálise tem a proposta de deixar a criança livre para se expressar da maneira que lhe convém, e provavelmente a criança irá brincar. Mesmo que o consultório não tenha brinquedos, ela faz de tudo um brinquedo. Dessa forma, começa a se expressar brincando. Através do brincar a criança irá expressar suas fantasias reprimidas, seu inconsciente. Quando o brincar se dá de forma bizarra ou ele não aparece é sinal de que pode haver alguma psicopatologia grave (s/p).

Como foi mencionado a alguns parágrafos atrás, Melanie Klein desenvolveu um novo método de Psicanálise infantil por meio do jogo, do brinquedo, do desenho e do recorte. Afirmando que a análise por meio do brincar leva os mesmos resultados que a técnica de adultos, com uma única diferença, a saber, que o procedimento técnico é adaptado à mente da criança (KLEIN, citado por ROSA, 2006).

E foi, juntamente com Winnicott (s/d) que Klein (1997) propôs a troca da associação livre pelo brincar, que constitui – segundo eles – uma linguagem pré-verbal. Sendo assim, o jogo por si só fala e não necessário falar sobre o jogo, que tem sentido próprio. Essa postura tem como alicerce a ideia de que quando a criança brinca, a elaboração acontece por si mesma, sem a interferência do adulto. O problemático, que exige interpretação, seria a inibição do brincar, pois, indicaria por si mesma, sinal de patologia (ROSA, 2006).

Cabe ressaltar que, por meio da brincadeira, “a criança põe em jogo suas próprias interpretações, buscando dar um sentido diante da angústia” (PETRI, 2008, p.123). E,  embora faça a diferença entre brincadeira e realidade, a criança ‘brinca a sério’, seu trabalho é o brincar, atividade que consome seu tempo, demandando investimento psíquico (PETRI, 2008). Vale dizer que  – quando brinca em análise – a criança põe em jogo, os significantes que a marcaram, porém, agora, em uma nova combinatória, inédita, criada exclusivamente por ela, de sua própria autoria (CORIAT, citado por PETRI 2008).

Conclui-se que, o brincar é inevitável para a criança, uma vez que corresponde ao próprio movimento de sua estruturação psíquica: quando uma criança não brinca é sinal que existe algum impedimento em seu processo de subjetivação (PETRI, 2008).

5. O Não-Dito na Psicanálise com Crianças

Em geral, a procura por atendimento clínico de crianças e adolescentes costuma partir da família. Nas entrevistas, os responsáveis pela criança apresentam suas preocupações e queixas, a história da criança, os dados de seu desenvolvimento, os fatos – considerados por eles – mais marcantes da vida da criança, e possíveis sinais anteriores da problemática corrente. Frequentemente, nota-se que os pais não conseguem falar da criança em sua presença. Tem algo a dizer que a criança não pode ouvir, e mesmo longe dela, muitas vezes os pais alteram ou omitem fatos ou partes de eventos ocorridos com a criança ou familiares – sobre os quais, segundo eles, o filho supostamente não sabe (ROSA, 2009).

Há pais que afirmam que “as crianças não sabem, ou que algo não as preocupa, quando elas não falam no assunto” (ROSA, 2009, p.86). Estes a imaginam como ingênua e livre de inibições ou preocupações, vivendo um mundo de brincadeiras, indiferentes ao mundo que as cerca. Não é raro os pais ‘pintarem o mundo de cor-de-rosa’ e o apresentá-lo à criança. Por acreditarem que a criança só sabe aquilo que lhes é dito por eles. E, pelo bem da criança, a realidade – às vezes algo que a criança vivenciou – é adulterada ou omitida (ROSA, 2009).

Em cada caso, a criança sofre e, em razão de tais mordaças, produz sintomas. As vivências na clínica demonstram as sequelas do que deveria ter sido falado e não foi menos por que seria impossível de verbalizar, e mais por haver uma proibição de enunciá-lo em voz alta. Comprova-se como a decisão de deixar a criança na ignorância tem um preço, pois, a falta de significantes costuma induzir todo tipo de sentidos alienados.  Sem a verbalização, as chances de elaborar diminuem ou faltam por completo; então, é bem provável que o não simbolizado retorne, gerando inibições, sintomas ou angústia à criança (ROSA, 2009).

6. A Criança como Analisante e o ‘Lugar’ dos Pais no Tratamento

A análise com crianças exige um analista de "pleno' direito, mas que tem que se regrar pela especificidade das particularidades do encontro com a criança (PETRI, 2008). Como já foi dito anteriormente no subtema ‘A clínica psicanalítica com crianças’ deste trabalho.

Petri (2008) aponta que “é crucial que o analista não responda à demanda, para que a frustração prevaleça, sobre a gratificação, garantindo que o desejo permaneça na relação transferencial, iluminando assim a direção do tratamento” (p.35).

Enquanto os adultos chegam à análise trazendo suas angústias, questionamentos, relacionamentos mal sucedidos, pensamentos e dúvidas obsessivas, fobias, as crianças são trazidas por seus comportamentos, tanto pelo que fazem, como pelo que deixam de fazer. As queixas são de desobediência, agressividade, hiperatividade, birras... Ou, de distração, não fazer lição, falta de interesse na escola, falta de iniciativa, produção pobre (ROSA, 2009).

Mais do que nas queixas, a questão aparece nos atendimentos. Sem dúvida, as crianças falam. Falam, o mesmo que os pais, em um discurso copiado até nas vírgulas, externo a elas, e falam de suas ideias e opiniões. Contudo, o seu discurso, enfático, muitas vezes aparece na ação. Atiram coisas; escondem-se atrás das cadeiras ou põem a cadeira na frente da porta quando não querem sair; fogem da sala dizendo ‘Você não me pega!’; tiram a roupa; urinam; dão pontapés, cospem, atiram objetos; dormem. Relatado ou expresso, o comportamento é uma questão a ser enfrentada pelo analista (ROSA, 2009).

A condição da análise é que o analista saiba em que lugar a criança o coloca; a dificuldade é que ele aí está remetido à posição estrutural da infância, em que a criança é objeto que divide o Outro, em que sua posição é a da disposição perversa polimorfa. Assim, um dos possíveis objetivos da análise é o de permitir a criança separar-se do sintoma familiar (VORCARO, 1999). Este sintoma, segundo Rosa (2009), pode ser entendido como “uma palavra que não pode ser dita, alguma coisa que não consegue atingir o seu pleno sentido na linguagem e que se manifesta como mensagem. Em síntese, a criança e o adolescente são porta-vozes de seus pais” (p.67).

Retomando o que já foi dito a algumas páginas acima, é fundamental ao analista identificar qual o lugar que a criança ocupa no desejo dos pais; nas palavras de Rosa (2009), “a criança se estrutura em função do desejo dos pais e, por isso, é necessário determinar qual é o seu lugar neste desejo”(p. 67).

Temos conhecimento que o nascimento de uma criança jamais corresponde exatamente ao que os pais esperam dela. Visto que, a criança compartilha da imagem criada pelos pais, como os convencendo da sua consistência. Sendo assim, a criança identifica-se com o personagem criado, tomando-o para si, internalizando-o. E, consequentemente, agindo em função dele. Cabe, ainda, ao analista tentar captar no discurso dos pais, em que momento essa criança foi gerada e a que lugar, exigências e projeções veio atender (ROSA, 2009).

Assim, quando estamos diante de pais que solicitam ajuda para o filho, estamos também diante da problemática própria de cada um deles.  Pais e filho, “constroem” uma história cujo enredo os enreda inevitavelmente (PRISZKULNIK, 1995). Podemos, então, dizer que na análise infantil, quando buscamos o sentido do sintoma, acabamos nos defrontando com:

... À maneira pela qual uma criança é marcada, não somente pela maneira como é esperada antes do seu nascimento, como também pelo que vai ela em seguida representar para um e outro dos pais em função da história de cada um. Sua existência real vai chocar-se, assim, com as projeções paternas inconsistentes donde vêm os equívocos. Se a criança tem a impressão de que todo acesso a uma palavra verdadeira lhe é vedado, pode em certos casos procurar na doença uma possibilidade de expressão (MANNONI, citado por PRISZKULNIK, 1995).

É precisamente a constatação dos liames e dos pactos estabelecidos entre os pais e o filho que impõem a questão de escutar os pais em entrevistas durante a análise da criança. Se os pais estão implicados no sintoma do filho precisamos, também, ajudá-los a começar certo questionamento de suas dificuldades. As entrevistas com os pais podem ser esporádicas e o objetivo delas não é, em hipótese nenhuma, de orientá-los ou fazer sua psicoterapia (PRISZKULNIK, 1995).

Nos casos em que a mãe ou o pai procuram insistentemente o psicanalista com o pretexto de falar do filho, não devemos esquecer que esta insistência pode ser indício de que existe algum problema pessoal “mascarado” pelas dificuldades da criança. Numa situação destas podemos atender ao pedido, pois, com a “escuta” psicanalítica, permitiremos que a pergunta colocada por meio do filho, seja formulada através da angústia que surge quando o “disfarce” se desfaz (PRISZKULNIK , 1995). Um simples exemplo pode esclarecer esse ponto: muitos pais começam queixando-se do filho e pedindo “dicas” de como agir com ele. Se esta demanda não recebe resposta e se os pais começam a falar da vida deles, aos poucos surge a “outra” dificuldade, uma dificuldade deles em relação à própria vida; isso é possível graças  a “escuta” psicanalítica permitindo re-situar a “dificuldade” que começa como sendo com o filho e termina sendo com a própria vida deles (PRISZKULNIK,1995).

Todavia, se a procura dos pais continua a serem feitas com insistência e frequência maiores, cria-se uma situação que precisa ser conduzida com muito cuidado, pois, talvez, a indicação de uma análise torne-se  necessária; porém, esta indicação não deve ser feita tendo como causa as  dificuldades do filho do casal (PRISZKULNIK, 1995).

Vimos que muitos psicanalistas de crianças não concordam em receber os pais, nem mesmo esporadicamente, preferindo encaminhá-los a outro analista. Esta posição, entretanto, pode agora ser questionada na medida em que muitos pais têm a necessidade de falar com o analista do filho e não com um outro qualquer, ou seja, devemos lembrar que os pais estão implicados no sintoma do filho e é esta implicação que os  “conduz” a querer falar com o analista da criança. O encaminhamento para outro “lugar” pode resolver um problema do analista, mas pode trazer problemas para o tratamento do cliente, isto é, os pais podem  interrompê-lo ou “sabotá-lo” de diversas maneiras. Nos casos mais graves, tanto o pai quanto a mãe, podem simplesmente surgir, impetuosamente, na frente do analista e, algumas vezes, no horário reservado ao filho (PRISZKULNIK, 1995). Assim:

...dependendo da angústia que a análise da criança desperta nos pais, negar a possibilidade de recebê-los em nome, muitas vezes, de  uma “pureza” técnica, tanto pode criar obstáculos sérios ao ritmo  do tratamento da criança, se ela entrar num estado de insegurança  em face de continuação do mesmo, como pode até interrompê-lo,  mesmo que a criança expresse sua vontade em prosseguir (PRISZKULNIK  citado por PRISZKULNIK  1995).

Ao receber os pais para uma entrevista, devemos ouvir o que eles têm a dizer, tentando também relacionar com o tratamento do filho. Quanto mais pais e filhos estão implicados entre si, tanto mais perceberemos que um pode estar falando no “lugar” do outro como se não fossem “donos das próprias palavras” apesar de falarem, às vezes, até demais. Deste modo, tanto os pais podem fazer a criança “falar por eles”, como a criança pode fazer a mãe ou o pai “falar por ela”. Esta forma direta de receber a mensagem dos pais facilita colocar as palavras nos seus devidos “lugares”, ou seja, ajudar tanto a criança, como os pais a conseguirem falar em nome próprio (PRISZKULNIK, 1995).

Rosenberg (1994) no texto, O lugar dos pais na psicanálise de crianças, faz algumas considerações importantes. Segundo a autora, embora a participação dos pais seja essencial ao tratamento, o tratamento é da criança e é com ela que, fundamentalmente, o analista deve trabalhar.  No entanto, os pais  - ou um deles - entram no exato momento em que, devido ao peso que o intersubjetivo tem na formação do sintoma ou na estruturação das neuroses, faz-se necessário que algo também se modifique no inconsciente de um ou de ambos os progenitores, ou algo de sua relação (PRISZKULNIK, citado por Rosa, 2009).

 Ao incluí-los na sessão, pensa-se em produzir um efeito analítico que permita a continuação da análise da criança. E prossegue, segundo Rosa (2009), dizendo que, se percebermos que em algum momento não é possível promover novas associações, não há sentido em insistir com a interpretação da criança. Devemos indagar quem esta falando e onde se origina esse discurso que não pode ser processado - pronunciado - com a criança (ROSENBERG, citado por ROSA, 2009).

Quanto ao tipo de intervenção com os pais, Rosemberg (citado por Rosa, 2009) posiciona-se:

Faremos, portanto, intervenções que permitam aos pais confrontarem-se com seus desejos e recalques. Às vezes juntos, às vezes separados, com a criança ou sem ela. Não temos regras, pois, cada caso é um caso. Tampouco sabemos, por antecipação,       quando devemos incluir outro discurso no espaço de cura de uma criança, isto irá surgindo como conseqüência da escuta analítica. Deste modo, a conversa com os pais, no caso a caso, pode colaborar no trabalho com a criança e, muitas vezes, é o que dá condições de se chegar ao término da análise da criança.

7. Considerações Finais

O tratamento psicanalítico com crianças  não é um campo a parte do referencial teórico psicanalítico – embora possua suas especificidades. Tais especificidades variam de acordo com cada sujeito e devem estar em conformidade com o momento estrutural no qual a criança se encontra.

Independentemente de quem parta a demanda, a partir das formulações teóricas aqui apresentadas, observou-se ser possível a análise com crianças. Visto que ela pode demandar, a seu modo, a partir das características de seu discurso – discurso atravessado pelo discurso dos pais – e é justamente devido a esse atravessamento que os pais devem fazer parte do tratamento.

No entanto, é importante reconhecer que se o discurso dos pais funciona como uma matriz simbólica de partida, fundamental para a constituição psíquica da criança, o inconsciente infantil não é um simples reflexo do inconsciente parental. Desta maneira, entendemos que a criança deve ser ouvida como sujeito de seu próprio discurso, em que sua construção sintomática traz a marca da função simbólica dos pais, sem, no entanto, ser redutível a ela. Isto significa reconhecer a ligação fundamental entre a criança e seus cuidadores fundamentais, procurando delimitar um espaço no qual os pais e a criança possam diferenciar suas questões, imprimindo um cunho singular e único às suas narrativas.

O tratamento de crianças parece requerer uma delicadeza especial, devendo o analista atentar-se para uma estrutura não totalmente efetuada, um sujeito ainda em constituição. Com efeito, cabe ao analista a tarefa de ler a realidade psíquica da criança localizando as marcas que balizam sua constituição, para reconhecer as senhas que poderão operar sua leitura.

Sobre o Autor:

André Bassete do Nascimento - Graduado em Psicologia pela Universidade de Vila Velha (UVV), Vila Velha, Espírito Santo (ES),  2014/1. Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

MELANIE, K. (1997). A psicanálise de crianças. Vol. 2. Rio de Janeiro: Imago.

MELO, P. O. C. e Silva, A. M. C. (2012). A Psicanálise de Crianças: o Brincar como Recurso Terapêutico. [internet]. Disponível em <https://psicologado.com/abordagens/psicanalise/a-psicanalise-de-criancas-o-brincar-como-recurso-terapeutico>.

NASIO, J. D. (1999). Como trabalha um psicanalista? Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

PETRI, R. (2008). Psicanálise e Infância: clínica com crianças. Rio de Janeiro. Cia. de Freud. São Paulo: FAPESP.

PRISZKULNIK, L. (1995). A criança e a psicanálise: o “lugar” dos pais no atendimento infantil. Psicologia USP, São Paulo, v. 6, n. 2, pp. 95-102.

ROSA, M. D. (2009). Historias que não se contam: o não-dito na psicanálise com crianças e adolescentes. 2 ed. São Paulo: Casa do Psicólogo.

VORCARO, A. (1999). Crianças na psicanálise: clínica, instituição, laço social. Rio de Janeiro: Cia. de Freud.

VORCARO, A. (1997). A criança na clínica psicanalítica. Rio de Janeiro.