Resumo: O presente trabalho pretende fazer uma comparação entre a teleologia filosófica de Raimundo de Farias Brito e a psicanálise de Sigmund Freud acerca da insatisfação do homem na civilização, apesar de todos os avanços em ciência, tecnologia e conhecimento que esta proporcionou à humanidade. Ambos nasceram em mundos bem distintos, em países e até mesmo continentes com realidades sociais bem diferentes. Enquanto Freud nasceu em uma família e sociedade que propiciou sua independência de pensamento e ateísmo, Farias Brito nasceu em uma família com apreço muito grande pela religião. Tanto o ateísmo como a espiritualidade estará presente nos pensamentos de Freud e Farias Brito, respectivamente. Através deste trabalho, busca- se um melhor conhecimento de reflexões distintas, de dois pensadores contemporâneos, de realidades sociais igualmente distintas, acerca de um determinado tema.

Palavras-chave: Civilização, cultura,  Freud,  Farias Brito, psicanálise, filosofia

Abstract: This paper aims to make a comparison between philosophical teleology of Raimundo de Farias Brito and Sigmund Freud's psychoanalysis about the dissatisfaction of man in civilization, despite all the advances in science, technology and knowledge that provides humanity. Both were born in very different worlds in different continents with very different social realities. While Freud was born in a family and society that led to independence of thought and atheism, Farias Brito was born in a family with very great appreciation for religion. Both atheism and spirituality will be present in the thoughts of Freud and Farias Brito, respectively. Through this work, we seek a better understanding of different reflections, two contemporary thinkers, also of different social realities, about a particular topic.

Keywords: Civilization, culture, Freud, Farias Brito, psychoanalysis, Philosophy

1. Introdução

O presente trabalho pretende fazer uma comparação entre a teleologia filosófica de Raimundo de Farias Brito e a psicanálise de Sigmund Freud acerca da insatisfação do homem na civilização, apesar de todos os avanços em ciência, tecnologia e conhecimento que esta civilização proporcionou à humanidade. Trata-se de uma análise comparativa, bastante sucinta, da obra ‘O mal- estar na civilização’ de Sigmund Freud, escrita entre 1929 e 1930 com o segundo volume da obra ‘Finalidade do mundo’ de Farias Brito, de 1899. Apesar da diferença de aproximadamente trinta anos entre uma obra e outra, os autores foram contemporâneos.

Ambos nasceram em mundos bem distintos, em continentes distintos com realidades sociais bem diferentes. Enquanto Freud nasceu em uma família e sociedade que propiciou sua independência de pensamento e ateísmo, Farias Brito nasceu em uma família com apreço muito grande pela religião. Tanto o ateísmo como a espiritualidade estará presente nos pensamentos de Freud e Farias Brito, respectivamente. Bem como as diferenças socioeconômicas também são abordadas.

O objetivo desta comparação é enriquecer os conhecimentos acerca das obras de pensadores diferentes diante de um mesmo tema, levanto em consideração, também, os contextos sociais e ambientais em que se desenvolveram tais pensamentos. Além de levar ao meio acadêmico e científico das ciências humanas um maior conhecimento da obra filosófica pouco conhecida do brasileiro Farias Brito e do trabalho sociológico de Sigmund Freud.

Conclui-se que para ambos autores é necessário uma mudança fundamental na forma como  o homem vê a si próprio e o mundo ao seu redor.

2. Desenvolvimento

2.1 Freud

Sigmund Freud nasceu em 6 de maio de 1856 em Freiberg, na Áustria e faleceu em Londres em 1939, acometido por um câncer. De família judia, filho de um comerciante em seu segundo casamento, o jovem Freud seguiu com a família e se estabeleceu em Viena ainda criança, onde se sobressaíra por sua inteligência acima da média. Já adolescente manteve sua dedicação aos estudos. Herdando da mãe o sentimentalismo e a tendência ao livre pensar do pai. Freud nunca fora influenciado à religiosidade, ao contrário de sua inclinação pelos estudos e a leitura, que sempre  fora estimulada. Além disso, era autodidata e chegou a aprender diversos idiomas estudando sozinho. No começo da vida adulta, em um ambiente livre, optou pela carreira científica, apesar de sua notória atração pela filosofia. Em 1873 Freud ingressou na Universidade de Viena no curso de medicina e inicialmente seus estudos ficaram voltados a uma série de interesses, que ia desde mineralogia até ao darwinismo. Após formar-se, Freud dedicou-se à medicina clínica em um hospital geral em Viena, algo que nunca o agradou plenamente, ao menos nos momentos iniciais de sua carreira. Porém, nesta época é que seu interesse pela psicopatologia e, conseqüentemente, pela neurologia, começaram a aflorar. E em 1885, teve seu primeiro contato com o neurologista francês Charcot, famoso e renomado pelos estudos sobre a histeria no Hospital Salpêtrière, onde Freud permaneceu como residente até o ano seguinte. (JONES, 1939).

Na Europa, nas primeiras décadas do século XX herdaram do século IXX o anti-semitismo. Havia no imaginário popular a idéia de que os judeus eram avarentos, exploradores e acumuladores de dinheiro, visto que muitos se sobressaiam nas atividades artísticas e econômicas. O preconceito contra os judeus estava presente e foi habilmente direcionado pelos nazistas alemães já nos de 1920, que relacionou o judaísmo com a pobreza dos não-judeus. E a propaganda nazista na Alemanha fez com que este anti-semitismo não se limitasse às suas fronteiras, mas sim se espalhasse pela Europa. (CÁCERES, 1994).

Freud, como judeu, mesmo não sendo ortodoxo, cresceu em um ambiente social onde ele e os seus não eram bem quistos por uma parte da população. Porém, com determinação, Freud superou os obstáculos e a exclusão que sofria através do estudo, do conhecimento e que também lhe proporcionou uma independência nos pensamentos, como ele mesmo coloca. (FREUD,  1924[1925])

Após passar pela hipnose e formular uma teoria da sexualidade humana, Freud dá início aos seus trabalhos sociológicos e em Totem e Tabu (1913). Lemos (2006), decorre sobre a curiosidade de Freud se voltar para o campo social:

Uma possível conjectura decorrente dessa situação seria a escolha de Freud se ater à organização social do homem como forma de entender o funcionamento psíquico do indivíduo, invertendo seu olhar: de centrado no indivíduo para voltado para o sócius. Um dos derivativos da organização social do homem seria pensar no psiquismo coletivo, e a publicação dos textos sociais de Freud poderia representar que ele, percebendo a referida mudança de paradigma, começasse a introduzir gradativamente a questão da organização social do homem no discurso psicanalítico, como forma de entender os desígnios da humanidade.  (LEMOS, 2006. p. 77)

E em o “O mal-estar na civilização” (1929 [1930]), em especial, Freud trata especificamente sobre o desalento da atual civilização, mesmo com todos os avanços científicos e tecnológicos, como o próprio título deixa intuir. E termina questionando até quando a civilização irá conseguir manter-se utilizando os meios que criou para conter a destrutividade humana.

2.2 Farias Brito

Raimundo de Farias Brito nasceu em 24 de julho de 1862, na cidade de São Benedito, na Serra de Ibiapaba, no estado do Ceará, nordeste brasileiro. Faleceu em 26 de janeiro de 1917 na cidade do Rio de Janeiro. Filho de Marcolino José de Brito e Eugênia Alves de Farias, fez seus primeiros estudos na cidade de Sobral, Ceará. Todavia, devido à seca que assolava a região, teve de mudar-se com a família para Fortaleza, onde completou o curso secundário no Liceu do Ceará. Formou-se em direito na Faculdade de Direito do Recife obtendo o título de Bacharel em 1884. Atuou como promotor e, por duas vezes, como secretário no governo do estado do Ceará. Mais  tarde transferiu-se para o estado do Pará, onde lecionou na Faculdade de Direito de Belém do Pará (1902-1909) e trabalhou como advogado e promotor. Considerado um autor de prestígio, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1909 e venceu o concurso para a cátedra de lógica do Colégio Pedro II. Mas, à época, a lei previa que o Presidente da República escolheria o catedrático entre os dois primeiros classificados no concurso. Graças à intercessão de amigos, o segundo colocado, Euclides da Cunha, foi nomeado. Posteriormente, com a morte de Euclides da Cunha, Farias Brito acabaria ocupando o cargo em questão, exercendo-o pelo resto da vida. É patrono da cadeira número 31 (trinta e um) da Academia Cearense de Letras. Era também maçom e muito religioso e em suas primeiras obras criticou a filosofia da época, a seu ver dissolvente, propondo-se a combater o materialismo, a teoria da evolução e o relativismo, pregando um Deus como um princípio que explica a natureza e serve de base ao mecanismo da ordem moral na sociedade. Nas obras seguintes evoluiu para um espiritualismo mais pronunciado, abandonando o naturalismo inicial. (SERRANO, 1939)

Farias Brito viveu em uma época conturbada da história do Brasil, além da seca e da  extrema pobreza onde nasceu no sertão cearense. Passou pela abolição da escravatura, a queda do

Império, a deposição do Imperador, o frenesi republicano e sua consolidação no começo do século XX até chegar na Primeira Grande Guerra, na qual falecera antes do seu desfecho no ano seguinte. (SILVA, 1992)

De acordo com Serrano (1939), após uma breve passagem como poeta, Farias Brito ingressou na Filosofia, sempre ressaltando a verdade como preceito absoluto em todas as ações humanas, além de colocar Deus como uma figura central e norteadora da filosofia, que deveria ser uma atividade permanente do homem, no sentido de encontrar e consolidar a harmonia e a fraternidade entre si e, conseqüentemente em toda civilização.

3. O ‘Mal Estar’ na Civilização [01]

Enquanto Farias Brito terminava o segundo volume de sua obra ‘Finalidade do Mundo’ em 1899, Freud se empenhava em seus estudos sobre a interpretação dos sonhos, o qual iria lançar em forma de livro no ano seguinte. Nesta obra, Farias Brito inicia tratando sobre a ‘crise moderna’, onde discorre sobre a insatisfação que a humanidade sente diante de tudo que construíra. Trinta  anos depois, da mesma forma que Farias Brito, Freud trata do mesmo tema em sua obra ‘O mal- estar na civilização’.

Farias Brito parte do pressuposto que Deus é o princípio de toda existência e deve servir como centro de toda inspiração humana. Ao mesmo tempo em que coloca as ‘criações’ humanas apenas como “combinações artificiais a que são submetidas forças já existentes”, fazendo um contrapondo da criação universal que seria uma obra de Deus, “uma nova e inigualável criação”. Sendo o universo uma obra de Deus, incluindo a existência humana, o sentido da criação divina foge do conhecimento humano e este passa a não mais reconhecer Deus na natureza:

...o homem começando por transportar Deus para fora do mundo, terminou por negá-lo. E em época alguma, cumpre notar, chegou esta negação a adquirir tão vasto domínio, como na época presente, em que não falta quem procure blasonar de ciência, fazendo ostentação de impiedade. (BRITO, R. F., 1899 apud GALEFFI, G. M, 1979, versão digital)

Farias Brito coloca que o ateísmo moderno que se abateu nos povos, apesar da aparente cultura e conhecimento, trouxe apenas a injustiça e confusão entre os homens. Com a queda da autoridade papal com a Reforma, vieram as monarquias absolutas e depois a democracia que trouxe o lema ‘liberdade – igualdade – fraternidade’, que se mostrou insuficiente para manter os povos organizados. Sendo Deus a ‘razão’ do homem, ao retirar Deus da vida cotidiana dos povos, incluindo aí a política, passa a reinar a confusão, a desordem e a anarquia. Já para Freud, a   religião e a figura de Deus, para ser mais específico, é comparável a de um pai extremamente engrandecido, que compreende todas as aflições humanas e o dogma, - como o da intocabilidade do sagrado nome de Deus, - acaba sendo a forma mais usual de proteger este Deus dos questionamentos que possam advir quanto à religião. A religião é a única forma de pensamento que responde sobre o sentido da vida, pois este é desconhecido pelas demais construções intelectuais e filosóficas humanas. E não saber o sentido da vida pode gerar desprazer. Além do sentimento religioso em si, Freud cita as elucubrações de um amigo que lhe fala sobre um sentimento “oceânico”, que seria a verdadeira fonte da religiosidade. Este sentimento - uma sensação, na verdade, - traria uma aura de eternidade, de amplitude, mas que não estaria ligada a nenhum objeto de fé. Isto muito se assemelha à proposta de Farias Brito de filosofar sobre a finalidade do mundo, tendo como pressuposto a própria existência, a natureza e todo o universo, num movimento com o objetivo de atingir uma espiritualidade capaz de elevar o espírito a causas mais condizentes com nobreza do existir. A diferença contextual é que ao contrário de Farias Brito, Freud afirma nunca ter tido tal sensação. Portanto, ao contrário de Farias Brito, Freud vê a religião como uma fonte de ilusão e não de razão.

Uma outra constatação que Farias Brito faz acerca da sociedade moderna é a substituição do que ele chama de ‘mundo moral’ pelo materialismo e pela ciência, fazendo com que o mercantilismo passe a ditar as regras das relações humanas, inclusive da religião, que também se deixara induzir pelo materialismo em que caíra a civilização. Reinando esta confusão e os questionamentos humanos referentes à finalidade das coisas não sendo respondidos, a insatisfação  se torna ainda mais eminente e a ciência passa a tomar um lugar que não lhe é próprio, permeando o pensamento humano. Sendo estes questionamentos somente respondidos pela religião, tendo a filosofia o ‘papel’ de formular tais questionamentos, a civilização caminha num sentido inverso.

Enquanto isso, Freud não vê resposta alguma que seja plausível sobre o sentido da vida, e que nem mesmo a religião pode manter uma resposta deste tipo, apesar de seus esforços para tal. Porém, apesar de não saber qual seria o sentido da vida, o homem pretende apenas dois objetivos, que seria a ausência de desprazeres e a presença de sensações constantes de prazer. O homem busca a felicidade.

Como vemos, o que decide o propósito da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer. Esse princípio domina o funcionamento do aparelho psíquico desde o início. Não pode haver dúvida sobre sua eficácia, ainda que o seu programa se encontre em desacordo com o mundo inteiro, tanto com o macrocosmo quanto com o microcosmo. Não há possibilidade alguma de ele ser executado; todas as normas do universo são-lhe contrárias. Ficamos inclinados a dizer que a intenção de que o homem seja ‘feliz’ não se acha incluída no plano da ‘Criação’. (FREUD, 1929 [1930])

E Freud vai além ao afirmar que apesar da busca pela felicidade, o homem quando experimenta uma sensação constante de prazer, esta lhe satisfaz cada vez menos com o passar do tempo, o que torna a possibilidade da felicidade algo praticamente impossível pela própria constituição humana. Pois o Ego se satisfaz de forma mais intensa com sensações episódicas de prazer. O sofrimento humano é proveniente de três fontes: a superioridade da natureza, a fragilidade do corpo e a dificuldade em lidar com os relacionamentos com outros seres humanos. Os dois primeiros caem no campo da finitude e da inevitabilidade, mas não impedem que o homem continue a viver a desenvolver a civilização. Já a terceira fonte de sofrimento não é admitida e sempre o homem se rebela contra as regras estabelecidas que norteiam os relacionamentos sociais, pois são nesses relacionamentos que estão as maiores fontes de prazer e desprazer do homem. E, ao tentar evitar o desprazer, o homem se esquece de experimentar o prazer. A satisfação buscada pelo princípio de prazer é impedida pela própria constituição da civilização e do sujeito, fazendo com o que desprazer seja mais presente. Desta forma, chega-se a conclusão que as leis que os seres humanos criaram para a manutenção da sua civilização, podem ser fonte de sofrimento e impedimento para a busca da felicidade e que tudo o que a civilização procura se proteger faz parte desta mesma civilização.

O conhecimento, além de aquisições da civilização como conforto e proteção, é outra fonte de atenção e, assim, pode-se concluir, de forma geral, que a força motivadora do ser humano se dá em uma confluência entre utilidade e prazer. Um exemplo desta confluência está nos os regulamentos que delimitam os relacionamentos sociais, que foram desenvolvidos para evitar que a força bruta prevalecesse, surgindo daí a lei e a justiça, onde a vida em comunidade passa a ser permeada por limitações das liberdades individuais – incluindo ai os impulsos – enfatizando o poder da maioria sobre os indivíduos isolados.

E sobre a estrutura psíquica humana, Freud coloca que o Ego de um recém-nascido não nasce com a clareza plena de que existe um mundo externo, sendo isto internalizado e delimitado com as constantes estimulações a que fica sujeito. O seio da mãe é o primeiro objeto que é reconhecido como algo externo, pelo simples fato da satisfação da alimentação não surgir com a simples vontade. Surge aí a ideia de ‘objeto’. As sensações de desprazer e sofrimento a que são sujeitos os recém-nascidos também vão criando no Ego uma tendência a isolar o que é desagradável, - regido pelo princípio de prazer – criando, também, uma noção do que pertence ao ego e o que pertence ao mundo externo, introduzindo ai o princípio de realidade. Esta diferenciação entre mundo externo e mundo psíquico possibilita ao Ego criar mecanismos para defender-se de estimulações desagradáveis, tanto as internas como as externas, de forma distinta.

A persistência do Ego em manter esta mistura entre mundo externo e mundo interno, - ou resquício desta característica, - possibilitaria o sentimento de ilimitabilidade e profundidade do pensamento religioso, por exemplo, que é comparado como ‘oceânico’ por um amigo de Freud o qual ele cita em sua obra. Este pensamento ‘oceânico’ da religiosidade é proveniente de uma característica primitiva do Ego, onde a amplitude entre o externo e o interno dominava a vida mental.

Freud, como se pôde observar, por sua própria formação médica e sua curiosidade científica sobre o comportamento humano, se aprofundou mais nesta área em relação a Farias Brito, que era um pensador, um filósofo. Tal curiosidade o fez criar o conjunto de teorias e técnicas que chamou de Psicanálise. Freud, inclusive, começa seu ensaio sobre o mal-estar na civilização discorrendo sobre a peculiaridade de cada ser humano, o que se torna uma tarefa complicada a de uniformizar o conhecimento sobre o comportamento humano. Assim, todo o mundo externo é interpretado de forma única por cada ser humano que tenha contato com este.

Por sua vez, Farias Brito não faz uma análise do psiquismo humano nesta obra [02], mas deixa claro que um processo de transformação da civilização é possível através de um processo racional, no qual o homem deixaria seus interesses materiais e egoístas de lado e assumiria uma postura elevada e nobre diante do universo, da própria existência e, com isso, da própria civilização.

Por isto, ao lado do interesse como princípio, logo se coloca a força como instrumento: e da combinação destes dois elementos como forças motoras da sociedade, o resultado não podia deixar de ser isto mesmo que, ao presente, por toda a parte se vê: a sociedade transformada em jogo perpétuo de explorações desumanas, cada um esforçando-se por enganar a todos os outros, e todos sentindo-se mal, profundamente mal na coletividade: a virtude rebaixada à condição de simples convencionalismo tradicional, a compaixão eliminada, a caridade suprimida, a sinceridade tida na conta de teimosia banal ou carrancismo atávico: a honestidade considerada como efeito de timidez ou inépcia: a astúcia, a velhacaria, a deslealdade, apontadas como prova de habilidade ou sabedoria. (BRITO, R. F., 1899 apud GALEFFI, G. M, 1979, versão digital)

Em sua análise da ‘crise moderna’, a crítica de Farias Brito ao sistema econômico capitalista também é clara, afirmando que este serve apenas para que uns acumule riquezas desnecessárias que nunca poderá gastar em toda sua vida, enquanto que outros morrem de fome sem ter acesso ao alimento básico para a sobrevivência, o que acaba levando o homem a perder a sensibilidade às artes e sua inspiração para o desenvolvimento científico. Também critica o socialismo pelo fato deste sistema basear-se na luta, na disputa e na ausência de um elemento reconstrutor. Alega que o homem não pode lutar por comida, - pois isto os igualaria aos demais animais, - mais sim lutar por idéias quando necessário. Por outro lado, Freud não vê uma solução adequada diante da desigualdade  entre os homens,  pois afirma  que as características  pessoais, por serem    diferentes, também criam todo tipo de desigualdade e injustiça entre os homens, impreterivelmente. E mesmo se o homem abandonasse a sua posse sobre os bens materiais, incluindo ai as propriedades territoriais, - como propõe os socialistas, - bastaria a agressividade intrínseca do homem para gerar todo tipo de injustiça, desigualdade e crueldade entre os seres humanos.

Assim, Farias Brito afirma que o número de descontentes aumenta a cada dia, trazendo consigo a apatia, a anarquia e a revolução. O individualismo acaba sendo único meio para se conseguir alguma vantagem numa civilização onde reina o interesse e então os meios acabam justificando a finalidade, fazendo com que o homem justifique qualquer ato que possa efetuar em prol do seu bem estar. E o seu bem estar nem sempre está em acordo com o bem estar da coletividade, visto que os demais também estão lutando por seus interesses. “Todas as lutas, todas as divisões, todas as misérias da vida resultam de interesses”. E somente uma grande idéia moral é que pode transformar a humanidade e unir os homens. Freud, semelhantemente a Farias Brito, coloca que os grandes conflitos da humanidade se dão por uma luta por acomodação conveniente entre os interesses individuais e da sociedade, mesmo que esta luta não resulte em um fim favorável à nenhum dos lados. Sustenta que a insatisfação da civilização foi algo construído com o passar do tempo, com o homem experimentando insatisfações diante do que havia construído, tendo alguns acontecimentos específicos colaborado para esta percepção. Entre eles está a substituição das religiões pagãs pelo cristianismo, com todo seu desprezo pela vida terrena; o contato dos europeus com aborígenes e a ilusão de que estes tinham uma vida simples e feliz e, por último, a descoberta dos mecanismos das neuroses que ameaça solapar o que o homem conseguir conquistar em felicidade. Lembrando que, para Freud, a felicidade é um conceito meramente individual e subjetivo, sendo experimento diferentemente em cada pessoa. A concepção que Freud tem da civilização derruba de uma vez a ideia de que esta significa algum tipo de aperfeiçoamento. Freud resume que o mal-estar na civilização está pautado na repressão dos instintos através da regulação dos relacionamentos humanos, na qual o homem é privado de uma boa parcela de satisfação, tendo em troca os “benefícios” de uma vida civilizada. Porém, mesmo estando presente esta  compensação, - e nem sempre ela pode estar presente, - o homem desenvolve uma hostilidade para com a civilização, diante das limitações que esta depende para se firmar como tal.

Para iniciar a transformação da sociedade, Farias Brito propõe uma solução dentro  da própria civilização, ao contrário de Freud que afirma que a única forma do homem encontrar a felicidade seria abandonando a civilização. Um grande ideal que possa unir a humanidade é o “ponto de partida” que Farias Brito propõe para que os homens comecem a repensar sua forma de viver em sociedade. E este ideal só seria encontrado através da filosofia. Esta filosofia teria como ponto principal à própria existência, a natureza, e a partir da observação da natureza é que o homem teria consciência da magnitude da existência e consequentemente seus questionamentos acerca da existência e da finalidade da existência elevaria os espíritos a patamares mais elevados, deixando de lado as mesquinharias do interesse material. Farias Brito deixa bem claro que não existe uma solução mágica e pronta para a transformação da sociedade, mas sim uma proposta de questionamento, através da filosofia, de como a sociedade pode encontrar a paz e a fraternidade e viver com intuitos elevados e dignos. Ele também não aponta qual seria este ideal que a filosofia  iria formular, - e nem é este seu interesse, - mas afirma que somente em torno de um ideal filosófico é que a humanidade pode encontrar uma unidade, um objetivo comum, e construir uma civilização onde a satisfação esteja presente.

De acordo com Freud, as limitações que a civilização coloca em relação ao amor genital têm a função de manter a família unida evitando sua dispersão em busca de outros parceiros sexuais, trazendo segurança aos homens. Porém, esta renúncia acarreta a inibição da sexualidade natural e faz com que choques aconteçam entre a civilização e as pulsões sexuais do homem. Entre estes choques, pode-se citar o dispêndio de libido utilizada pelo homem em suas tarefas, as relegando da vida sexual. Sendo a frustração decorrente do abandono da satisfação sexual um impedimento para a felicidade e necessária para a manutenção da civilização, o homem civilizado acaba entrando em choque contra esta civilização e ao mesmo tempo contra seus próprios instintos sexuais, criando a neurose. Isto demonstra que a manutenção da civilização exige mais que o abandono da satisfação sexual, pois os vínculos sexuais não podem ser privilegiados aos vínculos da comunidade. Por isto os vínculos sexuais - de forma livre - são desestimulados e o vínculo comunitário estimulado.

A agressividade, - conclui Freud, - presente em todos os seres humanos, se exercida livremente, impossibilita a existência da civilização e de seus benefícios, interferindo também em seus relacionamentos, pois reconhecemos no outro a mesma agressividade que há em nós e que poderia, em determinadas circunstâncias, recair sobre nós. Por isso a civilização utiliza muita energia para refrear a agressividade humana e por este motivo o ‘amor inibido’ é tão importante, pois estabelece laços entre pessoas sem vínculos sanguíneos e sexuais. Apesar do mal estar na civilização, esta ‘luta’ se mantém firme as custas da felicidade, pois o homem sabe que pode exterminar uns aos outros facilmente, o que gera inquietação e ansiedade em muitos. Mas  a pergunta que fica é até quando este modelo de civilização será eficiente em refrear a agressividade humana e evitar sua extinção?

4. Considerações Finais

Nascidos em países e realidades sociais bem diferentes, Freud e Farias Brito possuem obras bastante distintas referente à insatisfação na sociedade, que Freud classifica como um ‘mal-estar’ e Farias Brito como uma ‘crise moderna’.

Um dos pontos em comum é o apontamento da religião como um fator de importância entre os seres humanos e sua civilização. Enquanto Farias Brito cita o ateísmo e a substituição dos valores divinos pelos valores materiais como uma das causas da crise moderna, Freud vê a religião apenas como uma instituição que mantém seus seguidores em uma ilusão contínua, com o intuito de manter as bases da civilização em funcionamento. Entre estas bases estão o controle da agressividade intrínseca do homem e a delimitação das regras comportamentais, sobretudo referente aos relacionamentos sociais.

Freud viveu em um país onde a religião trouxe severos danos à vida de muitas pessoas através da discriminação de minorias pela maioria dominante. Ele, judeu, cresceu num ambiente um tanto hostil no qual somente com mais esforço que a maioria conseguiria atingir seus intentos. Portanto, é compreensível que Freud não visse com bons olhos o apego religioso, pois sabia que  este poderia ser um entrave para a justiça e a igualdade entre as pessoas que conviviam no mesmo lugar e que seguissem credos distintos.

Já Farias Brito cresceu em um ambiente onde a religião que professava era predominante em todo país e possivelmente encontrava conforto e acolhimento entre os seus, não sofrendo o que Freud sofrera. Mas as dificuldades sócio-ambientais que vivera, como a seca e a pobreza extrema, foram fatores que possivelmente o influenciaram bastante. Tanto que em sua obra, Farias Brito dá uma grande ênfase às diferenças sócio-econômicas, resultantes da ganância e da mesquinharia, como um dos fatores preponderantes da crise moderna. E esta ganância é justamente, no seu entender, a ausência da moral divina na vida das pessoas.

Farias Brito acredita que as questões humanas podem ser resolvidas dentro da civilização, através de um processo racional na qual o ser humano atingiria um nível elevado da razão, a ponto de promover a paz e fraternidade entre todos. Já Freud considera que enquanto o homem viver com os preceitos da civilização e não voltar as condições primitivas, o homem não atingirá de forma plena o que considera ser a felicidade. Mas Freud não sistematiza como seria este retorno ao primitivismo, pois, possivelmente, sabe que isto seria extremamente custoso.

O homem, de fato, seria mais feliz se vivesse fora da civilização, como propõe Freud? Pois se o homem liberasse vazão aos seus instintos, outros iriam sofrer diante das manifestações instituais dos outros e os mais fortes iriam prevalecer. E é justamente contra isso é que se ergueu a civilização.

O que ambos autores deixam claro, dentro da visão que cada um tem do mundo, é que a atual civilização precisa ser conduzida de uma outra forma para que a humanidade não caia na desgraça e sofra, em escala monumental, as consequências de seu egoísmo. E, tanto Farias Brito como Freud, também, não dão nenhuma ‘receita’ pronta para a solução desta questão, mas propõe que a visão que o homem tem de si e do mundo ao seu redor, precisam ser repensadas.

Sobre o Autor:

Edison Evaristo Vieira Junior - Psicólogo pela Universidade Guarulhos – Guarulhos – SP, Psicanalista pelo Núcleo Brasileiro de Pesquisas Psicanalíticas – São Paulo – SP e pós-graduado em Psicanálise pela Faculdade Einstein.

Referências:

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GALEFFI, G. M. (Org.). Finalidade do mundo. vol. 2. São Paulo: GRD-INL/MEC, 1979. JONES, E., A vida e a obra de Sigmund Freud. vol. 1. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1989.

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