Resumo: Este artigo aborda alguns dos principais aspectos da concepção winnicottiana sobre a agressividade e a destrutividade humana, à luz da teoria do amadurecimento. Salientando ser esse um dos temas em que melhor se pode constatar a mudança paradigmática operada por Winnicott com relação à psicanálise tradicional, Também examina a posição do autor segundo a qual, em vez de manifestação de forças intrapsíquicas ou de afetos, a agressividade e destrutividade humanas estão intrinsecamente relacionadas à questão da constituição do sentido da realidade externa. Atendo-se, sobretudo aos estágios iniciais, em que se mostram as raízes da agressividade. O estudo explicita a natureza múltipla do fenômeno segundo a sua raiz no processo de amadurecimento, descrevendo o caráter das manifestações agressivas no estágio de dependência absoluta do bebê em relação à mãe e nos estágios em que a dependência se torna relativa.

Palavras-chave: Agressividade, Destrutividade, Realidade, Amadurecimento.

Neste artigo apresento um dos conceitos fundamentais na obra do psicanalista Winnicott, tendo como principal foco de discussão algumas vicissitudes do processo de construção da realidade no desenvolvimento infantil. Originando-se do conceito de uso do objeto. O entendimento da agressividade, segundo o psicanalista, isto num sentido diverso do compreendido até então da psicanálise tradicional, como sendo uma simples reação à frustração imposta pelo contato com o meio externo. Examinando alguns dos elementos conceituais que Winnicott oferece para a compreensão dos vários fenômenos de agressividade é importante destacar aspectos da originalidade da sua concepção, restringindo, basicamente, aos estágios iniciais, em que se mostram as raízes da agressividade.

Ao longo da obra, e já no seu primeiro artigo sobre o tema, "A agressão e suas raízes", escrito em 1939, à concepção de Winnicott diverge das teorias freudiana e kleiniana. Com relação a Freud, o ponto de discordância central reside no fato de este localizar as raízes da agressividade na reação às inevitáveis frustrações, no contato com o princípio de realidade.

Contudo, para Winnicott, a agressividade, que é relativa à frustração, pressupõe um alto grau de amadurecimento, impossível de ser concebido nos momentos iniciais:

Que a frustração provoque raiva durante tais fases, é óbvio; mas, na nossa teoria dos estágios iniciais, precisamos estar preparados para encontrar a agressão que precede a integração do eu, integração esta que tornará possível, num estágio posterior, a raiva pela frustração instintual e que faz com que a experiência erótica seja uma experiência. (1955c, p. 371)

Winnicott dedicou muito de seu esforço teórico para a elucidação da agressividade e destrutividade inerentes à natureza humana. A questão atravessa toda a sua obra e consiste em um dos melhores exemplos de mudança paradigmática com relação à psicanálise tradicional.

Para o psicanalista inglês em suas analises dá muita ênfase ao ambiente, já o filósofo Heidegger, analisou que para “o ser que nunca se manifesta diretamente, imediatamente, em si mesmo, mas sempre como o ser deste ou daquele ente”.

 Em suas conceituações evidencia que “nós antes de sermos pulsões, somos tensões”. Enquanto Heidegger discursa que a “existência é a partir da ocupação das coisas”.  Em outra contraposição do “ser”, Winnicott “fala do ser a partir do uso do objeto” e Heidegger fala “ser é aparecer”.

A concepção de Winnicott diverge das teorias freudiana e kleiniana. Com relação a Freud, o ponto de discordância central reside no fato de este localizar as raízes da agressividade na reação às inevitáveis frustrações, no contato com o princípio de realidade.       

A relação com a teoria kleiniana, os motivos são bem conhecidos: nela, a agressividade humana, que se expressa como inveja, ódio ou sadismo, é sempre uma manifestação da pulsão de morte, ou pulsão destrutiva, e esta é um elemento constitucional do indivíduo, variando de intensidade. Para Winnicott, a agressividade que alguns bebês manifestam, desde o início, nunca é uma questão exclusiva da emergência de instintos agressivos primitivos. Com relação a ambas: as duas teorias deixam de considerar a importância do ambiente nos estágios iniciais, ou seja, a dependência do bebê e o fato de que este reage ao tipo de cuidados que recebe.

O humano é um considerado como ser portador tanto de sentimentos bons como ruins e o reconhecimento da agressividade como uma tendência humana, torna importante compreender como essa tendência surge e seu modo de funcionamento no processo de desenvolvimento da criança. Winnicott defende a ideia de que mesmos os bebês experienciam os sentimentos de ódio e amor e desde o princípio de suas vidas devem encontrar formas de lidar com esses sentimentos.

Identificar o surgimento da agressividade durante o exercício da alimentação possibilitando uma primeira conciliação entre a capacidade de destruição e a capacidade de proteção daquilo que ama. Sendo assim a agressividade se manifesta durante a alimentação e se recolhe quando o bebê sente-se saciado. É importante reconhecer que desde essas primeiras experiências a criança luta para exercer um “controle” sobre seu próprio comportamento, procurando tanto sua satisfação pessoal quanto evitar a destruição da fonte de sua saciação.

A tendência utilizada para dramatizar a realidade interior através da capacidade destrutiva, pode também servir como fonte para a realização de atividades concretas. Entretanto para que isso aconteça à criança primeiramente coloca em prova o ambiente em que vive, ou seja, procura garantir que esse ambiente possa suportar sua capacidade de destruição, e, se sente segurança, consegue então converter seus impulsos agressivos em atividades simbólicas e criativas, como o brincar e o trabalho.

A compreensão e identificação da agressividade com as atividades motoras de exploração do mundo já evidenciam a importância desse comportamento na construção da identidade e por consequência no reconhecimento da alteridade. Ao agir de modo agressivo simplesmente para explorar um objeto, a criança começa um processo de diferenciação entre ela e o mundo exterior. Com o início da capacidade simbólica a criança pode prescindir da realização concreta da destruição e sentir aliviada com suas fantasias destrutivas, conseguindo através dos sonhos e das brincadeiras dar vazão a sua agressividade.

Winnicott adverte que o funcionamento psíquico pode ser afetado quando a pessoa não consegue assumir a responsabilidade pelos seus impulsos agressivos. Conforme sua posição, quando alguém acumula forças que possibilitam a tolerância a sua destrutividade essas são objetivadas na reparação. Entretanto, se ocorre, por algum motivo, o bloqueio da reparação, a pessoa torna-se parcialmente incapaz de assumir a responsabilidade por seus impulsos destrutivos, o que clinicamente, configura a depressão, ou então, busca externamente um responsável por sua destrutividade, através do mecanismo de projeção. Para Winnicott uma pessoa será tanto mais saudável quanto menos utilizar esse mecanismo, ou seja, quanto mais se reconhecer de forma integrada, assumindo a responsabilidade por seus impulsos agressivos.

Conclusão

Com essas reflexões de Winnicott sobre a agressividade, vale salientar a importância que nos leva a instigar a questões de vários conceitos relativos à criança, à infância e à educação. Olhar para a expressão da agressividade como um comportamento saudável tem várias implicações práticas na educação das crianças, colocando como exigências posturas que não podem ser descritas objetivamente. Entretanto, podemos nos debruçar sobre os aspectos da dimensão relacional entre as crianças e seus cuidadores para buscar compreender como estes últimos podem ajudá-las a se desenvolver de modo saudável.

Sobre o Autor:

Maria da Resurreição das Chagas Ribeiro - Doutoranda e Mestranda em Ciência da Educação – Universidade Americana, Mestranda em Psicanálise em Educação e Saúde – FUNESO/UNIDERC, Especialista em Literatura Brasileira e em Literatura Brasileira à Comparada, Graduada em Licenciatura Plena Português/Inglês, Funcionária Pública da CBTU – Cia Bras. de Trens Urbanos/STU/REC – METROREC, Membro da União Brasileira dos Escritores - Pernambuco

Referências:

Winnicott, D. W. 1953c [1951]: "Objetos transicionais e fenômenos transicionais", in Winnicott 1971a.

______1964d: "Raízes da agressão", in Winnicott 1984a.

______1958j: "O primeiro ano de vida", in Winnicott 1965a.

______1958b [1950]: "Agressão e sua relação com o desenvolvimento emocional" in Winnicott 1958a.