“A primeira coisa que constitui o ser atual da alma humana não é senão a idéia de uma coisa singular existente em ato. Tudo o que acontece no objeto da idéia que constitui a alma humana deve ser percebido pela própria alma humana; em outras palavras, a idéia dessa coisa existirá necessariamente na alma. Se o objeto da idéia que constitui a alma humana é um corpo, nada poderá ocorrer com esse corpo que não seja percebido pela alma”, (Baruch Spinoza, Livro II da Ética, P.12).

“Não é à consciência que o sujeito está condenado, mas ao corpo” (Jaques Lacan).

Depois, de que modestamente possamos tentar desvendar e entender pensamentos como estes acima, fica mais claro e lógico, que o corpo físico, é que ocupa um lugar no espaço e é atraído pela força de gravidade, passa a existir. Já o corpo sob o ponto de vista biológico, que apresenta as características gerais dos seres vivos, tanto animais como vegetais, também existe, então o que nos resta? A busca do corpo criativo... O corpo em Artes. Ou seja, a procura de uma melhor reflexão crítica sobre o fazer artístico, problematizando-se sua inscrição na contemporaneidade.

A Arte como um fenômeno social real, com uma cultura verdadeiramente voltada a produção de melhor sentido de vida e na vida dos artistas em todos os aspectos. Construindo assim, não apenas novas teorias e metodologias de pesquisa para a abordagem dos fenômenos artísticos; mas sim, um novo pensamento conceitual que irá fomentar uma materialidade original dos discursos artísticos.

Discutindo à exaustão as dificuldades, buscar-se-á como trabalha-las para uma verdadeira modificação do corpo em artes, com metodologias, visões e produção dramatúrgica, em busca de um território rizomático, melhorando e entendendo-se as nossas próprias micro percepções e também, de um Corpo-Subjétil como conceito gerador de um território corporal poético rizomático.

Um comentário de Maimônides, o médico e filósofo judeu do século XII, poderá nos auxiliar com seus comentários. Ele escreveu:

“Seria errado admitir que a pessoa tivesse estes órgãos em vão. Deus nos livre que Ele tenha criado alguma coisa sem propósito. Porque se uma pessoa tivesse uma boca, um estômago, um fígado e órgãos sexuais, mas não comesse, não bebesse e não procriasse, então teria sido sua existência absolutamente vã”.

“Feito à imagem e semelhança de Deus, o corpo humano é postulado desde o início do texto bíblico como um território do sagrado (Gêneses – 1, 26). Não se trata apenas de um monte de órgãos, vísceras, fluidos e funções. Na língua hebraica todas as partes do corpo humano são hipostasiadas e dotadas de atributos psíquicos e espirituais. Cada parte do corpo humano leva em si mesma uma consciência do verdadeiro Eu e de sua unidade. É a hipostasis grega, a Pessoa, única e irrepetível, ícone divino, criado ao som do Verbo e na ressonância de seu Nome”. (Emmanuel Levinas, 1979): L´hypostase - Le temps et láutre = (A hipótese - O tempo e os outros).

A consciência corporal é hipóstase quando e sempre o existente coloca-se em relação com seu existir. A pergunta que dá título ao texto é, evidentemente, uma provocação e um convite para uma reflexão sobre a existência do corpo da pessoa total, ou “wolpe person” = (existência pessoal), como conceituou Winnicott.

Talvez possamos concordar, desde logo, de que este corpo da pessoa total existe sim, mas, paradoxalmente, também deixa de existir como entidade isolada para fazer parte de uma unidade, uma integração, ou realização, e que em determinadas situações adversas esta trama psicossomática poderá não se constituir e/ou deixar de existir. Surgem, então, diversas questões: vejamos algumas delas.

A pessoa total é uma realização, um “going-on-being” = (indo para a existência), ligada ao desenvolvimento do self, dependente da constituição e do ambiente, e resulta da integração da psique somática. É necessário retomar alguns conceitos que Winnicott (1949), nos oferece no clássico trabalho: A mente e sua relação com a psique-soma.

1. O conceito de psique:

A palavra psique significa a elaboração imaginativa de partes, sentimentos e funções somáticas, isto é, da vivência física... O indivíduo, no entanto, não a sente a psique como estando localizada no cérebro ou em qualquer outro lugar.

2. O conceito de mente:

O esquema corporal, com seus aspectos temporais e espaciais, fornece uma exposição valiosa do diagrama que o indivíduo tem de si mesmo e acredito que dento dele não haja um lugar óbvio para a mente... A mente existe como uma função da psique soma.

 3. Alguns comentários sobre o conceito de psique-soma:

Penso que podemos introduzir o conceito de psique-soma referindo um trecho da autobiografia de Winnicott, que ele intitulou: Not less everyting = (Nunca menos que tudo), a partir de um poema de T. S. Eliot, onde ele descreve imaginativamente sua morte:

“Estive morto. Não era particularmente agradável e me pareceu que levou um bom tempo (porém apenas um momento na eternidade). Chegado o tempo eu sabia tudo sobre um pulmão cheio de água. Meu coração não conseguiu fazer seu trabalho, pois o sangue já não podia circular livremente pelos alvéolos. Havia falta de oxigênio e asfixia. Não havia porque ficar revolvendo a terra, como dizia nosso velho jardineiro. Minha vida foi longa. Vejamos um pouco do que aconteceu quando morri? Meu pedido havia sido ouvido (Meu Deus, faz com que eu viva o momento de minha morte!)”.

Clare Winnicott, sua esposa, a partir deste trecho, comenta que se pode Ter uma idéia da capacidade de Winnicott para compor, brincando com a realidade de dentro e de fora, criando um espaço transicional, de modo a permitir ao indivíduo suportar a realidade da vida, evitando a negação e podendo realizar tão plenamente quanto possível a experiência da vida (o existir e o ser, o verdadeiro self, o gesto espontâneo e a criatividade).

Realizar este viver criativo que pode ser tanto o nascimento de um bebê como a morte que colhe um velho. A integração da psique-soma busca permitir esta experiência do viver criativo aplicado as artes. O conceito de personalização é utilizado por Winnicott para descrever a trama psicossomática, ou seja, “a psique residindo no soma”.

Em um trabalho intitulado: The theory of the parent-infant relationship, (1960) = (A Teoria para melhorar as relações infantis), Winnicott escreve:

“A base para este residir é a vinculação de uma experiência motora, sensorial e funcional, com o novo estado de “ser uma pessoa” para o bebê. Como um desenvolvimento anterior surge o que poderia ser chamado uma membrana limitadora, que, em certo grau (na saúde) pode ser equiparada à superfície da pele e assume uma posição entre o self e o não-self do bebê. Dessa forma o bebê passa a ter” um dentro” e “uma forma” o significado se apega a função de incorporar e de expelir; além do mais, gradualmente se torna significativo postular uma realidade psíquica pessoal, ou interna, para o bebê”.

Madeleine Davis e Davis Walbridge, em seu livro: Boundary and space: the introduction to the work of. D. W. Winnicott (1981) = (Limite e Espaço - Uma introdução ao trabalho de D. W. Winnicott), escrevem que a maioria das pessoas aceita a trama psicossomática sem discussão, mas Winnicott a percebeu como uma realização (being-a-person):

Ela representa um desenvolvimento a partir das etapas iniciais nas quais a psique imatura (embora fundamentada no funcionamento somático) ainda não está intimamente vinculada ao corpo e à vida do corpo”.

 Devemos considerar que mesmo que depois do estabelecimento da trama psicossomática, ou da personalização, pode haver períodos nos quais a psique perde contato com o corpo, e isso pode se prolongar até a fase adulta.

Winnicott em sua obra: The first year of life: modern views on the emotional development, (1958) = (Os cinco anos de vida: Modernas concepções do desenvolvimento emocional), escreve:

“Pode haver fases nas quais não é fácil para o bebê retornar ao corpo, como, por exemplo, ao acordar de um sono profundo. As mães sabem disso e acordam gradualmente o bebê antes de levantá-lo para não causar os berros de terror ou pânico que podem ser motivados por uma mudança de posição do corpo em um momento em que a psique está ausente dele. Clinicamente associada a esta ausência de psique, pode haver palidez, ocasiões em que o bebê está suando e talvez esteja muito frio, e também podem ocorrer vômitos. Nesse momento a mãe pode pensar que seu bebê está morrendo, mas, quando o médico chega, houve um retorno à saúde normal e ele é incapaz de entender porque a mãe ficou assustada”.

A personalização ou a organização da trama psicossomática, não significa apenas que a psique está colocada no corpo ou na cabeça, mas também que à medida que, finalmente, o controle se amplia, o corpo todo se torna residência do self.

Em Primitive emotional development (1945), Winnicott descrevendo a questão referida antes (da localização do self no corpo) nos relata a situação de uma paciente psicótica que descobriu na análise que vivia dentro de sua cabeça a maior parte do tempo, atrás dos olhos. Via através dos olhos como se estivesse vendo através de panelas e não sabendo, portanto, o que faziam seus pés, apresentando como consequência a tendência a cair em buracos e tropeçar nas coisas. Não tinha “olhos nos pés”. Não sentia a própria personalidade como localizada no corpo, que era uma máquina complexa que ela tinha de dirigir com habilidades e cuidados conscientes.

A situação descrita por Winnicott, se pensarmos em termos psicanalíticos e seguindo ao que Freud escreveu em: Neurose e psicose (1912), não nos será, talvez, totalmente estranha:

“Alguém terá sonhado que uma parte de si mesmo sai do corpo, flutua no espaço e é capaz de observar o corpo deitado, inerte. Os mecanismos primitivos do sonho nos fazem experimentar a dissociação psique-soma”.

A consciência para Freud, é a sede de dois processos aparentemente distintos: a consciência da consciência e o controle. Age-se, de certa forma, porque se tem consciência do ato, ou de sua planificação e desdobramentos, e controle sobre a ação. Porém, isso é apenas parte da história, porque certamente há uma variada gama de atos em que a ação se faz sem controle, embora haja consciência do ato (caso da compulsão) e, por outro lado, entre os automatismos não conscientes distinguem-se os hábitos e também, na versão psicanalítica, intenções não expressas ou não expressáveis na consciência.

 

 

Consciência

Controle

Consciência

Consciente

Não Consciência

Automática

Não Consciência

Voluntária

Atos conscientes plenos

SIM

SIM

NÃO

NÃO

Compulsões

NÃO

SIM

xxxxxxxxxxxxxx

xxxxxxxxxxxxxxx

Hábitos, condicionamentos

NÃO (somente se desejar inibir)

NÃO

(somente se desejar monitorar)

SIM

xxxxxxxxxxxxxxx

 

Motivações ocultas

NÃO

NÃO (embora se tenha acesso a um discurso alterado das motivações)

NÃO

SIM (acessáveis pela reconstrução hermenêutica ou pela cadeia implícita das significações)

 

O quadro acima procura mostrar que há situações conscientes plenas em que controle e consciência operam. A situação de compulsão, anomalia se constitui consciência sem controle. Os automatismos, hábitos e condicionamentos são formas passíveis de se tornar conscientes, porém, que podem coordenar atos sem a interferência direta do campo consciente. A quarta divisão diz respeito a uma classe de determinantes comportamentais que são não conscientes na intenção e no controle, embora tenham motivações não conscientes e não sejam simplesmente hábitos ou automatismos. Para completar, têm um análogo cifrado de discurso de justificação consciente, ou seja, uma versão consciente adulterada pelo trabalho da repressão, cuja motivação inconsciente pode vir a ser descortinada através do trabalho hermenêutico da interpretação.

A mente, na acepção do quadro anterior, pode ser entendida como o resultado da composição de quatro mecanismos diversos: a consciência com operação de controle; a consciência com operação “consciente”; o não consciente com operações automatizadas; hábitos e condicionamentos; e o não consciente “voluntário”, com motivações ocultas e interdições de toda e qualquer ordem (este último identificável como o inconsciente da Psicanálise).

Grande parte da celeuma que diz respeito a modelos de mente advém da não compreensão deste aspecto quadrifuncional das operações mentais, que pode ser exemplificado por quatro fenômenos típicos que são: o ato normal, a compulsão, o automatismo e o “significado oculto”. Pode-se perfeitamente creditar ao desenvolvimento de teorias psicológicas e psicopatológicas ao longo do século XX um grande número de equívocos no que tange à compreensão do quadro acima.

De um lado, a tradição de inspiração psicodinamicista (psicanálise como protótipo) procurou reduzir a compulsão a uma forma anômala de processo inconsciente, enquanto que a tradição organicista; psiquiatria biológica da década de 60 para cá, em diminuir a importância da motivação e do significado ocultos na gênese das patologias. A compreensão de que existe uma dinâmica ontogenética contextual encarregada de processar os conteúdos significativos individuais ajudaria a resolver essa aparente contraposição.

Claro que a divisão acima é arbitrária e simplificada, mas de certa forma espelha algo de fundamental que pode conciliar, num primeiro momento, a idéia de que Psicanálise e Psiquiatria são complementares e que cérebro e mente são dois conceitos-chave se desejarmos delinear os limites de uma psicopatologia genuína, quando a intervenção farmacológica é fundamental e quando a intervenção sobre hábitos ou sobre significados reprimidos é preferencial.

Quando agir terapeuticamente sob a forma de drogas e quando agir sob a forma de psicoterapia é uma aparente oposição ainda sem clara delimitação e operacionalização. A revisitação do Projeto, tanto no que elucida acerca dos impasses vividos pela modelagem psicológica posterior, quanto no que tange à sua importância como inspiração para a discussão dos limites de uma psicopatologia científica genuína, é uma tarefa epistemicamente importante.

De maneira simplificada, pode-se dizer que o fenômeno consciente pleno é normal, enquanto que a compulsão é de natureza patológica, merecendo tratamento farmacológico e/ou recondicionamento; o automatismo é normal e o significado oculto é da ordem da patologia dinâmica, que tem sua gênese na história da formação da cadeia associativa peculiar e individual daquele sujeito sistema complexo adaptativo em questão, que merece alguma forma de reconstrução significacional por aprendizado e interpretação. Aqui encontramos a expressão do que chamamos anteriormente de dinâmica ontogenética contextual.

No quadro que apresentamos acima a patologia psiquiátrica que merece intervenção farmacológica é da ordem das coisas que acometem o controle e não acometem a consciência; enquanto que as coisas que acometem a boa relação significacional e que, portanto, merecem intervenções hermenêuticas, são da ordem das coisas que alteram a gênese implícita do significado existente por trás das ações, não sendo traduzido na consciência senão sob a forma de uma versão incompleta ou deturpada; também não é automatismo, hábito, traço, caráter ou outra forma não voluntária e não consciente capaz de melhor explicar o quadro.

A análise que se segue se desenvolve, portanto, ancorada em duas suposições fortes:

  1. Os processos de gênese significacional são implícitos e os de gênese declarativa são explícitos; uma teoria de relação forte cérebro/mente deve aproximar funções cerebrais complexas através de redes de significado, e funções mentais complexas através de cadeias inferências de matiz lógico a dinâmica ontogenética contextual.
  2. A separação entre consciente e não consciente deve obedecer a uma segunda divisão. Na consciência há fenômenos normais ligados à consciência e ao controle. Quando há consciência e não há controle (a crítica sendo considerada ainda uma forma de controle) há patologia de tipo compulsão, corrigível sob a forma de intervenção não semântica (treinamento e condicionamento comportamentais e fármacos). Na não consciência há fenômenos normais que são hábitos e condicionamentos. Os anormais são as manifestações comportamentais ou relacionais desviadas que têm como causa os significados profundos.

 As psiconeuroses descritas por Freud: fobias, histeria, obsessões e paranóia; depuradas das alterações de neurotransmissores que foram posteriormente encontradas em algumas delas, têm sempre, na sua gênese individual, uma alteração semântica na cadeia associativa, provocada pelo caráter auto-organizante do sistema, com a concorrência de afetos intensos de prazer/desprazer que formataram a rede nos seus primórdios. A intervenção sobre eles se faz sob a forma de intervenção semântica, em que a hermenêutica e a perquirição de significados e associações aproximam a dinâmica de um sistema neural complexo, semelhante ao do Projeto e das arquiteturas IAC, às da dinâmica cerebral clássica.

 Em situações extremas, como em alguns adolescentes regressivos e com estados de mente primitivos, a exposição do corpo ao perigo e a morte não significa, necessariamente, a morte “da alma”. O fato de que acidentes e suicídios estão em segundo e terceiro lugar nas causas de morte de adolescentes pode se dever, entre muitos outros fatores a este aspecto.

É importante, agora, estabelecer a articulação entre os conceitos de psicossomática e de psique-soma, termos que, embora estejam dispersos em inúmeros trabalhos de Winnicott, estão mais desenvolvidos em dois textos básicos: The mind and its relation with psique-soma, (1949) = (A mente e assuas relações com a psique somática) e Psycho-somatic illnes in its positive and negative aspects, (1950) = (Os aspectos psicossomáticos positivos e negativos das doenças).

Neste último trabalho Winnicott considera que este estado patológico é uma organização de defesas com determinantes muito poderosas e que por este motivo é muito comum que médicos:

Com boa intenção e boa formação e, inclusive, com equipamentos muito modernos, fracassem em curar seus pacientes psicossomáticos”.

Uma forma médica de reagir a este fracasso é realizar um estudo teórico (não clínico) do assunto. Winnicott, considera que a dissociação é um mecanismo de defesa básico e intenso nestes pacientes e lembra, brincando, que os terapeutas da psicossomática se orgulham de sua capacidade de montar dois cavalos de uma vez, com um pé em cada uma das selas e com as rédeas de ambos em suas mãos. Terminam, entretanto, após algum tempo, sem saber em que estão pisando e com que rédeas estão nas mãos e acabam por cair dos cavalos. Neste mesmo trabalho ele retoma a questão da personalização e enfatiza o elemento positivo da defesa psicossomática (que ele observa também na tendência antissocial).

Em outro momento, Winnicott destaca que:

“A enfermidade psicossomática, da mesma forma que a tendência antissocial, tem seu lado positivo enquanto o paciente está em contato com a possibilidade de uma unidade psicossomática (ou personalização) e de dependência, ainda quando sua condição clínica ilustre ativamente o contrário mediante a cisão, dissociações várias, e através de uma tentativa persistente de dividir e separar a atenção médica, e por meio de um onipotente cuidado de si mesmo”.

Em relação aos trabalhos de psique-soma publicados a partir de 1949, Winnicott comenta que o esquema corporal, com seus aspectos temporal e espacial, fornece uma exposição valiosa do diagrama que o indivíduo tem de si mesmo, mas ele também acredita que no corpo (ou no esquema corporal) não há um lugar próprio para a mente . Para ele a mente não existe como uma entidade, mas sim como uma função do psique-soma:

“Quando o psique-soma atravessa satisfatoriamente os estágios mais antigos do desenvolvimento, a mente não existe como uma entidade no esquema de coisas deste indivíduo, não sendo mais que um caso especial do funcionamento do psique-soma”.

Durante o desenvolvimento normal, ou nos processos patológicos, a mente pode funcionar como uma falsa entidade e com uma falsa localização. Para Winnicott, o uso de palavras como físico e mental nos causa vários problemas, mas não temos uma palavra adequada para nos referirmos às doenças psicossomáticas. Na verdade temos um corpo e não devemos distinguir entre psique e soma, exceto de acordo com a direção em que se está se observando. Para Winnicott a “psique”é, vale retomar, a elaboraçãoimaginativa de partes, sentimentos e funções somáticas.

A mente se constitui, desta forma, uma função do psique-soma. A teoria da mente formulada por Winnicott se baseia no trabalho analítico com pacientes que regridem a um nível extremamente primitivo na transferência.

Winnicott diz ainda, que a saúde leva, nos estágios emocionais iniciais, a uma continuidade de existência, O psique-soma se desenvolve a partir de uma linha de desenvolvimento, contanto que a continuidade de existência não seja perturbada, o que cria a necessidade de um ambiente facilitador (uma mãe suficientemente boa, uma mãe devotada comum). Este meio ambiente facilitador se adapta, tanto quanto possível, às necessidades do psique-soma recém-formado. Assim, de acordo com esta maneira de pensar, no desenvolvimento de todo o indivíduo, a mente tem uma raiz na necessidade que o indivíduo tem, e que se encontra no cerne de seu self, de um ambiente “perfeito”.

Nota: Em uma discussão realizada em 17 de março de 1943 sobre o trabalho de Susan Isaacs: A Natureza e a função da fantasia”,durante as controvérsias na Sociedade Britânica de Psicanálise, Glover faz um comentário que me parece interessante:

(... ) “Penso que boa parte da discussão da relação entre a realidade psíquica e a externa deve estar ligada a algumas dificuldades inerentes ao sistema kleiniano. A afirmação clara de Freud de que os derivados pulsionais são representacionais e afetivos inclui especificamente a percepção de expressões sensoriais (somáticas) de afeto, sejam estas expressões derivadas de afetos primários ou de afetos “reativos” secundários. Como disse antes, o mundo externo, por exemplo, as montanhas do Himalaia, no sentido psíquico, não é algo espacialmente fora da mente. É uma percepção cujos traços mnêmicos se encontram na psique. Mas nem as montanhas do Himalaia, nem a percepção psíquica delas, nem a catexia do sistema de traços mnêmicos do Himalaia constituem uma fantasia”.

(Este comentário está inserido entre uma ampla discussão que antecedeu e sucedeu a intervenção de E. Glover).

Sobre o Autor:

D´Ottaviano, Vinicius Sampaio - mestre em arte/educação pelo instituto de artes da unicamp. pós-graduação em psicologia cognitivo-comportamental pela unianchieta de jundiaí. licenciatura em psicologia das faculdades padre anchieta de jundiaí. bacharel em direito pela faculdade padre anchieta de jundiaí. licenciatura em filosofia pela pucc-campinas e licenciatura em dança pela unicamp-campinas. rua ibsen da costa manso, 470 – jardim chapadão, campinas, são paulo, cep: 13070-104 – telefones: res.(019) 33684916 – cel: (019) 97449686. e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Referências:

BARTHES, ROLAND. A Câmara Clara. Tradução: Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984.

DAVIS, M. & Wallbridge, D. Limite e Espaço. Editora Imago. Rio de Janeiro. 1982.

DELEUZE, GILLES e GUATTARI, FELIX. O que é Filosofia. Tradução: Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. – Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

DERRIDA, JACQUES e BERGSTEIN, LENA. Enlouquecer o Subjéctil.  Tradução: Geraldo Gerson de Souza. São Paulo. Fundação Editora da UNESP. 1998.

FREUD, S. Neurose e Psicose, (1912). Tradução: Os Pensadores. Editora Nova Cultural. Rio de Janeiro. 1985.

LEVINAS, Emmanuel. L´hypostase - Le temps et láutre.  (A  hipótese O Tempo e os outros).  Ed. Louvre – Paris. 1979.

SPINOZA, Baruch. Ética - Livro IITradução: Os Pensadores. Editora Nova Cultural. Rio de Janeiro. 1985.

WINNICOTT, D. W. Explorações Psicanalíticas. Editora Artes Médicas. Porto Alegre. 1989.

________________. O Processo maturacional e o desenvolvimento do  indivíduo. Editora Artes Médicas. Porto Alegre. 1965.

________________. A Natureza Humana. Editora Imago. Rio de Janeiro. 1990.

________________. The privacy of the self. Ed. IUP. New York. 1974.