Resumo: Este artigo traz uma reflexão sobre o sentido do corpo, dando um enfoque sobre o espaço e tempo em que se realizam as ações, ou seja, a corporeidade. A valorização do corpo na busca contra as imperfeições vem ganhando espaço a cada década aumentando assim o avanço da indústria estética. E hoje o culto ao corpo traz grandes transtornos para famílias, através das doenças da pós-modernidade, transformando o homem/sujeito em homem/objeto. A fenomenologia propõe o retorno à consciência do ser humano para uma interpretação do mundo possibilitando libertação do determinismo da estética corporal.

Palavras-Chaves: corporeidade, estética, existência, fenomenologia

É com o corpo que apreendo as coisas ao meu redor de acordo com as situações que eu vivencio. Minha presença no mundo é portanto, uma presença corporal (PONTY, 1994, p. 159-160).

Quando faço sinal para um amigo se aproximar, minha intenção não é um pensamento que eu preparava em mim mesmo, e não percebo o sinal em meu corpo. Faço sinal através do mundo, faço sinal ali onde se encontra meu amigo,a distância que me separa dele, seu consentimento ou sua recusa se lêem imediatamente em meu gesto. Não há uma percepção seguida de um movimento, a percepção, e o movimento formam um sistema que se modifica como um todo.

Portanto, a motricidade é que me permite lançar-me ao mundo e captar o seu sentido. Ela engloba tanto a significação intelectual (simbólica) como a significação motora, de modo que não há separação entre o dado sensível e o entendimento na apreensão que eu tenho do mundo.

O modo como meu corpo se encontra no mundo é expresso como esquema corporal. Essa presença corporal define o lugar de onde vivenciamos o mundo, ou seja, é a zona da corporeidade. É habitando o espaço e o tempo que minhas ações adquirem um sentido que é atribuído pela corporiedade. Pois não é a noção cartesiana de corpo, (corpo-máquina) mas um corpo vivo, corpo próprio, como afirma (MOREIRA, 1997).

A modernidade vem sendo marcada pela valorização extrema do corpo, transformado em uma prótese da existência numa tentativa de se eliminar as imperfeições. São corpos muitas vezes aprisionados pelas ideologias dominantes que passam a ser tratado como um mero rascunho (GOMES, 2010).

O culto ao corpo não é algo tão atual assim. Na antiguidade, - por volta de 2.500 anos A.C. - os gregos acreditavam que o corpo era tão importante quanto a intelectualidade e a ambos era almejado a busca da perfeição. Na Idade Média o culto ao corpo passou a ficar em segundo plano isso devido as crenças religiosas presentes na época que levava a sociedade a tratar o corpo de forma discreta.

Mas somente a partir do século XVIII com a Revolução Industrial o corpo ganhou nova conotação. Sua valorização passou a ser destacada entre os burgueses da época numa relação de corpo saudável e disciplinado utilizado como signos de distinção do proletariado já que com longas jornadas de trabalho e baixos salários impedia a dedicação exclusiva ao corpo. Com o advento do capitalismo, passa a ser valorizado aquele cujo corpo era perfeito, pois assim a produção é maior e consequentemente maior o lucro (FIRACE, 2010).

A indústria da estética tem se aproveitado deste discurso na modernidade presente impondo modelos de beleza, por exemplo, na indústria da moda, fixando padrões globais. São vários os artifícios utilizados como: as cirurgias plásticas, o uso de cosméticos, a frequência nas academias, o uso de anabolizantes. Estes mercados  têm movimentado milhões não só em nosso país. Isso pode ser visto em um exemplo simples. Coletti (2010,p. 12) citando o jornal Folha de São Paulo do dia 28/01/2008 publicou a seguinte nota:

Angela Bismarchi, 36, se submeterá à sua 42ª cirurgia plástica, aproximando-se do recorde mundial, atestado pelo “Guinness Book”, de 47 operações da norte-americana Cindy Jackson, de acordo com a AP. A modelo carioca colocará fios de nylon sob as pálpebras para ficar com uma aparência oriental. A intenção é homenagear o centenário da imigração japonesa, tema do enredo da escola de samba Porto da Pedra.

Percebemos na citação acima a banalização do uso de cirurgias em função da satisfação das exigências do mundo estético. A necessidade de mudar está intimamente ligada ao psiquismo do ser humano, de como ele se percebe no mundo. Uma vez que vivemos em uma sociedade que prega que as soluções devem ser imediatas, as cirurgias estéticas encontram um campo favorável. 

O corpo parece ser visto como um objeto destituído de qualquer outra significação que não seja o de oferecer o impacto visual necessário ao show.
Uma peça ajustável às novas expectativas sociais. Por isso deve ser manipulado, modificado e reconstruído, mesmo que seja apenas para um evento temporário e efêmero (SANTOS, 2010, pg.12)

Outeiral (2003) abre a questão, já referida por muitos autores, da estética do corpo na cultura contemporânea, particularmente no tocante aos jovens. Arrisca a dizer que os transtornos alimentares (anorexia nervosa, obesidade e bulimia) poderão fazer parte de doenças pós-modernas, ao referir-se ao pânico e a fobia social. Na sociedade contemporânea  a estética pós-moderna do corpo, profundamente narcísica, cria um sujeito onde a redução da subjetividade e a ênfase na materialidade transforma o homem/sujeito em homem/objeto. Não havia visto, na clínica, tantos destes transtornos de alimentação com na ultima década. Jaques  Lacan, referido por alguns como um psicanalista da pós-modernidade, no seu seminário XVII, trata deste homem, na verdade como um objeto sintoma, quase um gadget ( objeto tecnológico da ciência contemporânea), através do  seu conceito de letosas (neologismo criado  por ele a partir dos termos gregos “alétheia” e “ousia”, para referir-se, numa simplificação  que ele faz aos “seres-objetos da tecnologia”).  Considerando que entre algumas das características da pós-modernidade encontramos a des-subjetivação e a des-historização sendo a primeira  a destituição da própria subjetividade do ser humano, e a des-historização  relacionada a negação da história do ser humano, portanto as relações entre as pessoas também poderão ter características descartáveis; caricatamente, o sujeito será tomado como um gadget descartável. Isto é, um consumo breve. Com isso, chegamos ao não reconhecimento do outro como sujeito externo, já que cada indivíduo está preso a sua própria imagem.

A pós-modernidade valoriza a aparência, a superfície e a fragmentação. O número de cirurgias plásticas e os transtornos de alimentação nos leva a pensar como a cultura  pós-moderna, narcisista, incide sobre os corpos humanos.

Doenças como anorexia, vigorexia sendo esta caracterizada pela prática exagerada de exercícios físicos, o exagero a qualquer preço inclusive sem levar em conta a própria saúde é preocupante, nos faz pensar que desta forma nossos corpos não são nossos: eles são marcados pela ideologia do mercado consumista, colaborando para a transformação do indivíduo em objeto.

Enquanto na modernidade a metafísica perde a sua força e surge uma compreensão de que somos diferentes, a lógica do capitalismo parece querer fazer uma verdadeira queda de braço mostrando que todos devemos ser e pensar de forma universal.

Veiga-Neto (2002, p.37 apud SILVA, 2008, p.83) mostra que a ciência quer eliminar a polissemia extirpando o ser humano, estilhaçando a sua visão de mundo: “[...] o que teríamos então a fazer seria [...] diminuir-lhe a polissemia, fixar-lhe o(s) sentido (s) – e, de preferência, um só sentido...A grande tarefa seria extirpar a polissemia. Em outras palavras: dar-lhe uma definição definitivamente definitiva....”

Mas será que é possível a anulação da polissemia já que o homem constrói suas próprias representações do mundo? Lima (1999, p.36) cita Kant ao afirmar que tudo o que o sujeito é, tudo o que o constitui e tudo o que ele faz depende do próprio sujeito, desta forma o autor mostra que houve mudanças radicais na atitude metafísica colocando o homem como um ser que possui experiências próprias, subjetividade absoluta, dando a noção de autonomia do sujeito justificando uma das concepções mais fortes da modernidade.

Esse chamado  à responsabilidade é próprio do  existencialismo, que considera que o homem se constrói nas relações, dando sentido para as coisas,  onde cada ser é único, mestre dos seus atos e do seu destino.

Tomemos então, como base dessa nova leitura, a Fenomenologia. Primeiramente, devemos entender que ela vai na contramão da ciência tradicional ao pensar o mundo a partir da reflexão sobre a existência real e mostrar que o homem não possui uma essência abstrata e determinada a priori(QUADROS, 2010). Galeffi (2000) diz que a tarefa da Fenomenologia Transcendental é a de elucidar e rastrear gradualmente todos os possíveis dados da consciência e possíveis modificações de comportamentos.  Esta ciência da essência do conhecimento propõe o “retorno à consciência” que significa investigar “o modo como os objetos aparecem na nossa percepção, compreensão e entendimento” (p.27).

Ela, portanto, concebe a capacidade de criticidade da consciência uma construção da inteligência humana. Este sentido dado as coisas se dá na linguagem, que é coletivo sendo desta forma dado a transformação social. A percepção que eu tenho do mundo é que eu me percebo como corpo, a partir dessa perspectiva podemos tentar compreender o fenômeno da valorização extrema do corpo imposta pelo meio social que vivemos a valorização estética é um exemplo pois o indivíduo tem uma percepção do mundo.

Tomemos por exemplo a necessidade de ser aceito pelo meio social que o sujeito está inserido, ao se deparar com a ditadura do corpo perfeito construída pela mídia, ou melhor, pelo sistema que este está inserido, percebe-se que o seu corpo não é tão perfeito quanto “deveria” se sujeitando assim aos exageros da estética para que assim seja dado o sentido. Nietzsche dizia que é impossível viver no ideal. O idealista tenta mudar o mundo através de idéias pré-concebidas (MOSÉ, 2009). Para Galeffi (2000, p.35)

Somente o ser humano pode dicidir de que forma pretende estar-no-mundo, sobretudo quando aprender a se dar conta de que ele está aberto no mundo, e de que o “mundo” são todas as possibilidades. E é diante delas que os seres humanos são ou deixam de ser, se tornam e se transformam, exercem seus sonhos e desejos, vivem ou desistem de viver, se fazem dignos ou simplesmente rastejam como animais invertebrados
[...].
Entretanto a decisão por uma dignidade de ser é coisa que só se pode decidir diante da liberdade do ser. E o ser parece não tolerar a insensatez e a indignidade, a bestificação e a fragmentação alienante.

Resta a cada um decidir se queremos ou não superar o ser do parecer, de sairmos do lugar de identificação do corpo perfeito para de uma identidade criada por nós mesmos e fazermos uso da liberdade com responsabilidade.

Na célebre frase do filósofo francês Jean-Paul Sartre: "A existência precede e governa a essência" podemos ver que - o homem existe - sem que sua existência seja pré-definida, ou seja, somos capazes de construir nosso próprio caminho.

Chauí (2000) afirma que precisamos adotar uma postura de atitude filosófica sobre a vida, ou seja, indagar o que são as crenças e os sentimentos que alimentam, silenciosamente, nossa existência. Duas características são pontuadas em relação à atitude filosófica:

  1. Negativa: um dizer não ao senso comum, aos pré-conceitos, aos pré-juízos, aos fatos e às ideias da experiência cotidiana, ao que “todo mundo diz e pensa “ ao estabelecido.
  2. Positiva: interrogação sobre o que são as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos.

Assim como Husserl desesperadamente buscava a “certeza certa”, o fundamento sólido de uma clarificante crítica da razão que é capaz de liberar o fluxo do próprio retorno à consciência (GALEFFI, 2000), assim nós devemos buscar a libertação do determinismo da estética corporal.

Um objeto, uma sensação, uma recordação, enfim tudo deve ser experienciado tal como é para o expectador e não como o mundo impõe.

A fenomenologia nos conduz a uma interpretação do mundo através da consciência do sujeito, como um princípio norteador para que o sujeito veja as coisas em si mesmo e não o que é dito sobre elas.

Referências:

ANDRIOLI, L. A. Corpo e a mulher na história da filosofia: uma leitura a partir de Merleau-Ponty centrada na atual discussão sobre a corporeidade. Em: http://br.monografias.com/trabalhos915/corpo-mulher-filosofia/corpo-mulher-filosofia.shtm / Acesso em 07/09/2010.

CHAUÍ, M. S (2000). Convite à Filosofia. São Paulo: Ática.

COLLETI, J. A (2010). Narciso vai ao shopping, a educação, o culto ao corpo e a sociedade e consumo. Piracicaba. Em: http://www.unimep.br/phpg/bibdig/pdfs/2006/TXORPARJRGQO.pdf/ Acesso em:  07/09/2010. Descartes apud Vergez de Husimau, 1988; p.151. 

FIRACE, Renata. A sociedade do culto ao corpo perfeito. Em: http://www.metodista.br/cidadania/numero-59/a-sociedade-do-culto-ao-corpo-perfeito/ . Acesso em : 13/09/2010.

GALEFFI, D. A (2000). O que é isto – a fenomenologia de Husserl – Revista Ideação. Feira de Santana- BA.

GOMES, Romeu. Adeus ao corpo: Antropologia e Sociedade. Instituto Fernandes Figueira/Fiocruz Em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_pdf&pid=S1413-81232004000100024&lng=en&nrm=iso&tlng=pt , acesso em 02/10/2010).

MOREIRA, Ana Regina de Lima. Algumas considerações sobre a consciência na perspectiva fenomenológica de Merleau-Ponty. Estudos em Psicologia, 2(2), p. 399-405. 1997.
OUTEIRAL, J. Adolescência, Modernidade e Pós-Modernidade. In: Adolescer- Estudo revisado.Ed. Revinter, 2003.

SILVA, Rafael Bianchi. Autonomia e Formação Humana: Trajetos Educativos. Londrina: Universidade Estadual de Londrina, 2008.