Resumo: O presente trabalho consiste em um ensaio monográfico apresentado como critério avaliativo da atividade interdisciplinar do Curso de Psicologia da Faculdade de Rolim de Moura-FAROL, cujo tema abordado deriva-se dos conceitos presentes na abordagem da Gestalt-Terapia, na qual se estuda a percepção da pessoa em um todo, deixando explícito o conceito de contato frente à relação conjugal. Este é um momento transformador, e sem o contato nada se cria, é através dele que se adquire novas experiências, pois o contato é efeito das interações provindas da relação conjugal ou não, sendo uma maneira de ser e um jeito de se expressar. Desse modo, a forma como as pessoas se encontram e se desencontram, revela a profundidade do engajamento numa relação. Para que ocorra o contato é necessário o encontro de duas ou mais pessoas, e que este momento aconteça naturalmente. O método utilizado na elaboração deste trabalho foi através de pesquisas bibliográficas relacionadas à Gesltalt-Terapia, relacionando-as à importância do contato na relação conjugal, o que leva à conclusão que só haverá harmonia em um relacionamento conjugal se houver contato pleno.

Palavras-chave: Gestalt-Terapia. Contato. Relação Conjugal. Momento Transformador.

Introdução

A Gestalt-Terapia, também conhecida como terapia do contato, tem como finalidade conhecer e trabalhar a consciência da pessoa, e com o todo que essa pessoa traz. O mentor desta abordagem compete a Fritz Perls, este se dedicou a colocar na prática toda a filosofia titulada por Wolfgang Köhler (pai da Gestalt).

Fritz Perls [...] o principal criador e porta-voz da Gestalt-Terapia [...] Foi criticado e até contestado por certos gestaltistas contemporâneos, mas nem por isso [...] ignora [...] sua forte marca pessoal nessa nova abordagem, considerada nos Estados Unidos, [...] um dos primeiros lugares – senão o primeiro – entre os métodos de terapia e de desenvolvimento pessoal (GINGER e GINGER, 1995, p. 61).

Dessa forma, o trabalho proposto tem por objetivo apresentar como ocorre o contato intra e interpessoal, abordando a acuidade do contato na relação conjugal, ou seja, a analogia afetiva entre o homem e a mulher.

Ribeiro (2007a, p. 135) relata que: “Estar em contato é muito mais que estar atento, que estar consciente de si e do outro. Estar em contato é se tornar cúmplice com e da totalidade do outro [...]”.

Encontrar-se é um processo complexo, pois não basta, em alguns casos, a instituição humana para que duas ou mais pessoas se encontrem com implicação positiva, já que cada ser, leva consigo subsídios que seu corpo suporta, além do seu mundo invisível de vivências. Portanto, este encontro se da nos mais diversos níveis e, a cada momento, ocorre diferentemente. Neste encontro ocorrem mudanças, e só acontece por haver troca perceptiva, ou seja, o contato (RIBEIRO, 2007b, p. 107).

Desta maneira, em uma relação entre homem e mulher, o contato é de suma importância para o bom convívio entre ambos, é através dele que o casal se conhecerá de forma verdadeira e profunda.  É pelo contato que ocorrerá transformação entre elas, seus conceitos intelectuais e emocionais se modificarão com o tempo para que ocorra uma boa relação, através da aceitação no modo de agir, de pensar e de sentir do parceiro.

A escolha do tema justifica-se, inicialmente, em esclarecer o termo contato na abordagem gestáltica, pois este é o meio no qual a pessoa tem a percepção de sua existência e das demais no meio geográfico, que é o ambiente onde tudo se encontra como acessível.

A constituição desse trabalho é de grande importância para a equipe que o elaborou, pois conceitua alguns temas da abordagem Gestáltica, como a importância do contato na relação conjugal, de que forma esta se tornou uma terapia de contato e o porquê de estudar a consciência da pessoa, com foco exclusivo no presente.

Neste sentido, tem por acuidade, favorecer o meio social, estimulando a importância de trocar experiências afetivas no âmbito conjugal da relação entre homem e mulher.

Quanto ao ponto de vista científico, no que tange a contribuir para o seu desenvolvimento, este ensaio monográfico corrobora, apresentando as definições dos conceitos gestálticos, a priori o denominado “contato”, dentro das teorias de designados autores defensores dessa abordagem aqui já citada.

A Psicologia da Gestalt

Antes de discorrer sobre o tema, convém conhecer brevemente o conceito da Psicologia da Gestalt e sua história. Ela é considerada uma das tendências teóricas mais coerentes e coesas, pois seus fundadores preocuparam-se em torná-la tanto em uma conjectura consciente quanto em uma metodologia forte, que garanta a sua consistência (SCHULTZ, D. P.; SCHULTZ, E., 2005).

Entre os principais fundadores, se destacam Max Wertheimer, Wolfgang Köhler e Kurt Koffka, baseando nos estudos psicofísicos que relacionaram a forma e sua percepção, construíram a base de uma teoria eminentemente psicológica (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008).

O mentor da Gestalt, Wolfgang Köhler em 1912, assumiu a posição de pai desta abordagem por ter sido o porta-voz do movimento, porém Wertheimer impulsionou a abordagem com o fenômeno Phi, sendo este a ilusão de dois focos de luz fixos, movimentando de um lado a outro. Kurt Lewin contribuiu com os conceitos de Teoria de Campo, o qual explica o comportamento da pessoa com base no seu círculo de influência, e também o Espaço Vital, que são as grandes experiências obtidas e acumuladas pela pessoa. Quanto a Bluma Zeigarnik, esta entrou para a história da Gestalt com o conceito Fenômeno Zeigarnik, se referindo ao recordar, onde a pessoa tende a se lembrar mais facilmente das tarefas incompletas ou não concluídas, do que das já realizadas (SCHULTZ, D. P.; SCHULTZ, E. 2005, p. 319-327).

A palavra Gestalt deriva-se do alemão e significa dar forma, dar uma estrutura significante, porém para alguns escritores esta palavra significa configuração e inteireza. Heidbreder (1933 apud SCHULTZ, D.; SCHULTZ, E., 2005, p. 327), afirma que:

A Psicologia da Gestalt tenta retomar a percepção simples, à experiência imediata [...] e insiste em afirmar que não encontra ali conjuntos de elementos, mas unidades completas; não massas de sensações, mas árvores, nuvens e céu. Essa afirmação convida todos à verificação, simplesmente abrindo os olhos e olhando apenas para o mundo de forma simples e cotidiana.

Portanto a abordagem gestáltica visa a percepção em um todo, e a tentativa de reduzi-la em elementos a destrói. A Gestalt se preocupa e foca na pessoa quanto ao seu presente, que pode em muitas ocasiões, estar vivenciando angústias do passado.

Teoria do Contato

A Gestalt foi por muito tempo, e ainda é considerada a terapia do contato. Atualmente é nomeada como Gestalt-Terapia, a qual teve como catedrático Fritz Perls em 1951, este adaptou os conceitos filosóficos da Gestalt para a prática de maneira simples e clara.  Ribeiro (1985, p.132) assegura que, “[...] a Gestalt-Terapia é uma proposta humanística de ver o homem em toda a sua plenitude, em pleno desenvolvimento de suas potencialidades”.

Dessa forma percebe-se que a Gestalt-Terapia, tem raízes na teoria holística e na fenomenologia. A primeira das teorias defende as mudanças do indivíduo, ou seja, a evolução procedente do contato, pois somente assim a pessoa se mantém viva. Já a fenomenologia, asseverada por Ribeiro (1985), consiste no processo pelo qual a realidade objetiva da pessoa é transposta para a mesma de tal modo que sua compreensão tenha também chegado à sua essência, isto é, faz tomar posse daquilo que de fato, o caracteriza como ser no mundo, um dado absoluto que individualiza e formaliza.

Com relação ao contato, Ribeiro (2007b, p. 11) enfatiza que; “[...] é pelo contato com o outro que me percebo como existente”, isso vem a significar que a terapia do contato está presente nas relações intra e interpessoais dos indivíduos enquanto seres existenciais. Para Ginger, S. e Ginger, A. (1995, p. 17, grifo do autor) acentua que: “[...] a Gestalt, para além de uma simples psicoterapia, apresenta-se como uma verdadeira filosofia existencial, uma arte de viver, uma forma particular de conceber as relações do ser vivo com o mundo”.

Portanto contato é a troca de experiências, de sentimentos e/ou de relação não apenas com o outro, mas consigo mesmo e com o mundo, pois é pelo contato com o outro que me percebo como existente. Ribeiro (1985) relata que a pessoa deve ser vista em seu comportamento e compreendida a partir de sua visão dentro de um determinado campo com o qual ela se encontra relacionando.

Por sua vez, Lopes (1987) descreve que mesmo em um momento inoportuno, ocorre contato, que provem de estímulos presentes. O que confere em modificações advindas do meio externo, que consequentemente altera o ser em seu aspecto biopsicossocioespiritual. Na teoria de Goodmam sobre o contato, este enfatiza quatro fases principais abordadas por Ginger, S. e Ginger, A. (1995, p.130-131) que são:

  • Pré-contato: fase de sensações, durante a qual a percepção ou excitação nascente em meu corpo, geralmente por um estímulo do meio, tornar-se-á a figura que solicita meu interesse.
  • Tomar contato: fase ativa, no decorrer da qual o organismo vai enfrentar o meio. Trata-se aqui, não do contato estabelecido, ou seja, de um estado, mais sim de um processo.
  • Contato final ou contato pleno: é o momento essencial de confluência saudável, de indiferenciação entre o organismo e o meio, entre o eu e o tu, momento de abolição da fronteira, unificação do aqui agora.
  • Pós-contato ou retratação: fase de assimilação, que favorece o crescimento.

Para Jaccard (1990) a fronteira de contato, relacionada ao contato final ou contato pleno, consiste no estudo da maneira como a pessoa funciona em seu meio social, sendo os seus pensamentos, ações e reações, comportamentos e mesmo as emoções. Já para Ginger, S. e Ginger, A. (1995), a fronteira é o ajustamento entre o organismo e o meio, assim a fronteira de contato ou limite, é a adequação da pessoa a uma determinada situação alocada.

Segundo Ribeiro (2007b, p. 13) “[...] todo contato implica uma relação. Primeiro eu existo, depois sinto, penso, faço e falo. Primeiro eu percebo a realidade fora de mim, depois eu percebo que percebi e percebo o que percebi”. Isso vem assegurar que o contato procede a partir da awareness, que é o ato de se ter consciência da própria consciência.

Fazer contato é indagar para onde as coisas correm naturalmente, é se ver projetado no amanhã. O contato só ocorre quando diferenças ocorrem. Ao ter uma percepção do outro já está havendo um contato, pois o outro lhe é referência, existindo no pensamento.

Não se deve esquecer que para a Gestalt só se aprende quando se compartilha experiências, Macedo (2002, não paginado) profere que “o simples fato de dizer não sei, já significa que o mesmo tem a capacidade de se conhecer, e compreendendo suas limitações está trocando informações, que seria contato intrapessoal”. Tal contato refere-se à troca perceptiva de experiências do eu para com o eu.

No entanto para Prette, Z. A. P. e Prette, A. D. (2009), todos utilizam de formas diferenciadas na troca das relações. Dessa forma a relação no cônjuge que tende, a ser uma expectativa de liberdade e transparência, nem sempre é presenciada, pois o casal se prende em fortes tabus, que não os permitem se aproximar um do outro acarretando conflitos, desgastes e infidelidades. Geralmente o vínculo amoroso consiste num desejo de que um seja o cúmplice do outro, onde o marido e a esposa se compreendam e aceite as suas desigualdades (diferenças) tais como são.

Relação Amorosa

Para continuar discorrendo sobre relacionamentos, é essencial a conceituação a respeito do amor, amor em família, na amizade, no trabalho, e amor entre homem e mulher. Porém conceituar o amor é algo complicado, o amor vem sendo estudado e conceituado desde os tempos antigos, através de grandes filósofos da antiguidade. Neste caso é sábio fazer uma restrição e ponderar apenas a respeito do amor romântico e do amor erótico.

Antes de continuar na conceituação no que consiste o amor, é de bom grado que faça uma diferenciação entre amor e paixão.

Erick From (1990 apud CARDELLA, 1994) conceitua o amor não como relação com pessoas específicas, mas como atitude, uma orientação de caráter, que determina a relação do sujeito para com o mundo como um todo e não para com um “objeto” de amor.

Amor e paixão são conceitos que muito se relacionam, pois ambos são formas de amor, porém com características que os diferem. Nisso a paixão é conceituada como amor romântico.

O amor romântico significa estar apaixonado. Segundo Cardella (1994 p. 33), a experiência da paixão é:

[...] um estado de êxtase, porém, em geral acompanhado de uma profunda sensação de solidão e frustração. Essa sensação está relacionada à incapacidade do indivíduo de manter e preservar o êxtase por um longo período e, consequentemente, o relacionamento, que quase sempre se desfaz quando o êxtase termina.

Não resta dúvidas de que o amor romântico envolve-se com sentimentos de atração e profundo êxtase, pois “a paixão e sedução contidas na questão do amor encerram quase sempre elementos de poder, disputa e controle sobre o parceiro. O sentir-se ‘embriagado’ pela paixão diz muito mais da necessidade de fuga das pessoas para a grande infelicidade vivida no dia a dia” (ARAÚJO, 2006, não paginado, grifo do autor).

Cardella (1994, p. 33, grifo do autor) diz que o amor romântico ou “paixão”, pode ser caracterizado como:

Um fenômeno psicológico de curta duração, que envolve crenças, atitudes, ideais e expectativas em relação ao parceiro; frequentemente inclui o mecanismo psicológico denominado projeção, e também o êxtase provocado pelo ser “amado”, considerado o símbolo de perfeição.

Dessa forma a relação a dois tende, a uma idealização de que o parceiro é o melhor namorado, o mais bonito, o mais inteligente ou vice-versa. O qual muitas das vezes sufoca, não permitindo a aproximação um do outro e acarretando conflitos, desgastes e infidelidades.

Com isso Roberto (2008, não paginado) descreve que: “A paixão é um envolvimento excessivo na relação amorosa [...] é basicamente a perda da própria identidade. Ou seja, eu entrego o meu coração totalmente ao outro e perco a minha individualidade”.

Já o amor erótico pode ser confundido por amor romântico ou “paixão”, pois a palavra erótico remete ao sentido de um relacionamento intenso, porém sem tanto compromisso, um relacionamento regado à estímulos orgânicos, um sentimento arrebatador, no entanto este sentimento tende a se diluir com o passar do tempo. 

O amor erótico está intimamente relacionado com a capacidade do indivíduo de transitar livremente entre as polaridades de sua personalidade, de forma a não transformar o parceiro em “objeto” das projeções de anima e animus, mas percebê-lo e amá-lo tal como é. O relacionamento amoroso transcorre harmoniosamente quando os aspectos masculinos do homem “encontram” os femininos da mulher, e vice-versa. Dessa maneira, dois seres “inteiros” relacionam-se com fluidez, e não somente através dos aspectos rígidos de sua personalidade (CARDELLA, 1994, p. 32, grifo do autor).

Desta forma, percebe-se que os conceitos utilizados nos dias atuais parecem estar trocados conforme a teoria, pois o amor erótico, onde deveria estar relacionado ao que se conhece como paixão, isto é, sentimentos intensos, mas de curta duração, está na verdade relacionado aos sentimentos mais duradouros, verdadeiros, de entrega e companheirismo. Neste sentido o amor romântico é caracterizado por sentimentos intensos e de curta duração, já o amor erótico se relaciona aos sentimentos, intensos no começo, porém com diminuição da intensidade com o passar do tempo, sendo um sentimento duradouro, onde um companheiro está sempre disposto a abrir mão de certos direitos para tornar possível a felicidade do outro.

Relação de Amor Entre Homem e Mulher

O matrimonio é entendido de maneira distinta entre os cônjuges, pois a mulher visa o casamento acima de tudo, como expressão máxima de amor e compromisso entre duas pessoas, e só secundariamente, entendido como uma instituição. Quanto ao homem o casamento consiste no puro cumprimento do dever de suprir a casa e de satisfazer a mulher em seu íntimo (GONÇALVES apud VALDA, 2011, não paginado). Para Araújo (2006, não paginado) “o relacionamento puro é um relacionamento centrado no compromisso, na confiança e na intimidade. Implica em desenvolver uma história compartilhada em que cada um deve proporcionar ao outro”.

Dessa forma o casamento não se baseia simplesmente no laço matrimonial de determinado dia escolhido pelos noivos, mas sim em um comprometimento de formar um lar, onde ambos saibam entender e respeitar o espaço um do outro. Com isso o cônjuge deve assegurar uma relação incidida (GONÇALVES apud VALDA, 2011, não paginado). Mas nem sempre o casamento procede dessa forma.

Em uma relação amorosa, tanto o homem quanto a mulher, tendem a buscar uma forma de satisfação, esta busca circunda entre o amor romântico e o amor erótico. Durante esta busca os indivíduos se vêm em conflito com valores patriarcais fortemente introjetados com seus desejos de satisfação. O qual Gary (1998, p. 29, grifo do autor) diz: “[...] por meio da introjeção, material externo é absorvido sem discriminação ou assimilação. Engolir inteiro cria uma personalidade ‘como se’ e rigidez de caráter. Valores e comportamentos introjetados são impostos ao self”.

Constantemente os integrantes de uma relação, por falta de comunicação acabam por ingressar em imensos e insignificantes conflitos no lar, abalando a estrutura do próprio matrimonio.

No momento em que estes indivíduos encontram-se em conflito, ocorrerá insatisfação. Neste caso, por meio da Gestalt-Terapia, o terapeuta estará utilizando experiências que aumentam o senso do “eu”, para assim cristalizar, ou seja, optar por uma posição que lhe favoreça o desempenho, e deste modo desfazer as introjeções que impossibilitará, em satisfazer as suas necessidades sexuais. De acordo com Lima (2009, p. 89) “quando há uma cristalização, a Gestalt-Terapia vai entendê-la como um padrão neurótico do comportamento, padrão este que vai levando ao empobrecimento das experiências do sujeito, a um repertório repetitivo e limitado de comportamentos que não propiciam uma mudança”. Pois, a Gestalt-Terapia estará fazendo com que o indivíduo saiba distinguir a diferenciação entre os valores patriarcais introjetados de suas necessidades sexuais sentidas.

O terapeuta não pode forçar que o cliente perceba algo que ele não está percebendo, porque assim estaria indo além de suas possibilidades, nem deixar de intervir em momentos em que o cliente esteja apto para lidar com a situação, senão não existe mudança (SAMPAIO, 2004, p. 55).

Ao desfazer a introjeção, o gestalt-terapeuta deve objetivar que o indivíduo estabeleça dentro de si um senso de escolhas e estabeleça o poder que tal indivíduo tem, para diferenciar os conteúdos que fazem parte da personalidade e os conteúdos que são introjetados. Assim, o indivíduo é capaz de reagir, de maneira única e satisfatória, a um determinado fenômeno (POLSTER, E.; POLSTER, M., 2001).

Diante desta concepção, pode-se afirmar que uma relação conjugal se trata de um fenômeno. Desta maneira, esta relação é vista pela Gestalt-Terapia como um todo, sendo este um fenômeno integrado e organizado, permitindo que qualquer coisa que ocorra com uma parte destes indivíduos afetará o todo.

A Gestalt-Terapia compreende a totalidade, como uma unidade indivisível, onde não há separação entre as partes que o compõem, mas sim integração, correlação, organização e interdependência. Assim, se algo muda em qualquer uma das suas partes, seja um aspecto emocional, mental, físico ou espiritual, o todo é reorganizado, surge uma nova organização, uma nova gestalt (BRUCZENITSKI, 2011, não paginado).

Com isso, o todo na relação conjugal ou no próprio ser é visto pela Gestalt-Terapia no conceito de figura e fundo, no qual o fundo, representa algo secundário, contínuo do momento, quanto à figura, compreende-se o que está em primeiro plano na observação, é qualquer processo que emerge de um fundo. Em termos de percepção, é aquilo que ocupa o centro da atenção e, em termos de ação, é a principal atividade do organismo (RIBERIO, 1994).

De acordo com Ribeiro (1994, p. 21):

[...] é o mundo interior das pessoas e sua percepção espacial que determinará o que será figura e o que será fundo nesse fenômeno que se apresenta a nossa observação. [...] Também retrata o processo pelo qual entramos em contato com nossas dificuldades, sinalizando o que é emergente e preferencial.

Desta forma figura é tudo aquilo que se destaca na situação, deixando como fundo todo o resto que perdeu o foco naquele momento. Isso não quer dizer que o que está no fundo não possa emergir-se como figura, fazendo com que a figura se torne fundo, ambos trocam de lugar constantemente, o que está como fundo ora é figura ora é fundo, isso vai depender das necessidades e da atenção do indivíduo.

De acordo com Kiyan (2001 apudDantas 2011, p. 45), a “[...] necessidade é a figura que emerge, é o que chama a atenção do indivíduo para uma solução num dado momento. E o fundo é todo o resto do indivíduo que não demonstra necessidade de atenção”.

No entanto, eles possuem necessidades a serem satisfeitas a todo o momento, que podem ser fisiológicas ou psíquicas. Essas necessidades, ao serem identificadas, sofrerão tentativas de satisfação por parte dos indivíduos, em uma busca da autoregulação organísmica, ou seja, aquisição de equilíbrio, fisiológico e psíquico, existente antes desta necessidade.

A relação humana é em diferentes graus: a) organísmica, isto é baseada num reconhecimento acurado e relativamente completo daquilo que é, ou b) “deverísmica”, baseada na imposição arbitrária daquilo que algum controlador acredita que deveria ou não deveria ser. Isto se aplica à regulação intrapsíquica, à regulação das relações interpessoais e à regulação de grupos sociais (GARY, 1998, p. 30, grifo do autor).

Kiyan (2001 apudDantas, 2011 p. 50) “classifica o processo estabelecido na dinâmica figura/fundo, para obter satisfação de necessidades, de ciclo de contato”.  Dantas (2011, p. 50-51) relata que:

[...] resistências impedem o indivíduo de responder as suas necessidades da maneira mais satisfatória para indivíduo de responder as suas necessidades da maneira mais satisfatória para o mesmo, pelo fato de possibilitar o ajustamento criativo do indivíduo diante da satisfação das necessidades de tal indivíduo.

O contato acontece na fronteira entre o indivíduo e o meio, podendo ser interrompido com o surgimento de resistências no ciclo do contato, fazendo com que as necessidades do indivíduo sejam insatisfeitas. Para a insatisfação se tornar satisfação o indivíduo terá que ter awareness, ou seja, ter consciência do que o está impedindo de ter suas necessidades satisfeitas, que o impede a ter consciência de si mesmo e o distancia do meio. Na concepção de Ginger (1995 apud DANTAS, p. 51), “um indivíduo saudável é aquele que se ajusta criativamente para satisfazer suas necessidades”.

Na relação amorosa tanto o homem quanto a mulher, ajustando-se para que possam satisfazer as suas necessidades, emocionais, psicológicas e físicas, inclusive as sexuais, buscando a auto-regulação. Estas necessidades são satisfeitas através do ciclo do contato. Ribeiro (2007a, p. 19, grifo do autor), enfatiza que “[...] cada ciclo, em que uma necessidade é satisfeita, perfaz o contato e o organismo ‘transformado’ pelo contato que se completou se prepara para um novo ciclo”.

O contato físico entre o homem e a mulher é de suma importância na relação amorosa, porém este contato deve ocorrer primeiramente consigo mesmo e depois com o outro, pois somente depois que ele ou ela se conhece por inteiro é que poderá estabelecer contato com outro (RIBEIRO, 2007a).

A importância do contato na relação conjugal se baseia na concepção de que para um relacionamento dê certo, devem existir trocas entre os envolvidos, isto é, ambos devem se doar na relação, ambos devem promover mudanças, tanto em si quanto no outro, desta forma eles se sentirão queridos e valorizados na dinâmica do relacionamento, pois segundo Ribeiro (2007b, p. 25), “o contato expressa a alma dos indivíduos, [...] fazer contato é entrar respeitosamente na intimidade do outro e lá cuidar de suas feridas”.

Este entrar respeitosamente refere-se ao conhecer o outro a partir da interação espontânea e natural, que acarreta em alterações significantes de entender a individualidade ou personalidade do outro.

Ribeiro (2007b, p. 27, grifo do autor) pontua que “‘contato’ é uma palavra mágica, é sinônimo de encontro pleno, de mudança, de vida. É convite ao encontro, ao entregar-se. É um processo cujo sinônimo é cuidado, a alma do contato. Sem ele, o contato, simplesmente, não existe”.

Neste sentido entrar em contato é estar apto a sofrer por mudanças, ultrapassar limites e obter desempenhos construtivos para a potencialidade aflorar e constituir no ser as razões de viver.

No processo de mudança a pessoa tem que sentir, agir e ter consciência da mudança que está acontecendo e de uma forma dinâmica fazer a junção destas funções para, através de uma consciência emocionada, tanto o homem quanto a mulher, produza um bem estar, uma opção real por si mesmo, isto é, ter consciência da escolha que tomaram. Quando a mudança ocorre, ocorre também o contato pleno, pois isto acontece quando estes três momentos, sentir, agir e ter consciência, é vivenciado pela pessoa (RIBEIRO, 2007b).

O Contato contém a ideia de união e separação, de tal modo que, união e separação, são funções de contato. O modo como as pessoas se encontram ou se desencontram, revela a profundidade de seu engajamento numa relação conjugal, pois procede do processo de união e separação que se relacionam (RIBEIRO, 2007b).

Considerações Finais

Podemos ressaltar, primeiramente, a importância da pesquisa realizada durante este semestre. Mais que uma mera leitura, esquadrinhamento e discussão, a atividade nos conscientizou sobre a posição da abordagem gestáltica no que tange a importância do contato na relação conjugal.

O trabalho desenvolvido em grupo nos possibilitou a visar à importância de cada um não apenas no processo de existencialismo do ser, mas também como habilidade no contexto profissional.

O desempenho assumido por nós em buscar referencias para a elaboração deste ensaio monográfico foi muito significante, pois percebemos o quanto o contato é importante consigo mesmo e na relação conjugal. Dessa forma, foi possível aprender qual a importância do “encontrar-se”, da aceitação de si, bem como a importância dos comportamentos e ações do outro.

Retomando o objetivo inicial referente ao cônjuge, não se pode definir simplesmente dentro da literatura uma avaliação dos casais sobre seu matrimonio, já que este é um processo dinâmico e interativo presentes na experiência de sua união, sendo diferente de casal para casal.

Este trabalho é indicado para acadêmicos do curso de psicologia, pois o mesmo menciona alguns conceitos da abordagem gestáltica. É indicado também à casais com dificuldades em sua relação conjugal, pois este ensaio aponta qual a importância do contato para promover mudanças que valorizam este relacionamento. Entretanto percebemos que para que este estudo seja mais completo, necessita-se de mais investimento de tempo e dedicação. Desse modo, este estudo é de grande importância, pois ele demonstra o quanto é necessário ficarmos atentos em relação ao contato, pois este é o conceito chave da Gestalt-Terapia.

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