Resumo: O presente artigo se propõe a apresentar as influências do Existencialismo na Abordagem Gestáltica, que por consequência, faz parte dos pressupostos filosóficos desta abordagem. No desenvolver deste artigo foram abordados referenciais teóricos em livros, mas passando pelos pensamentos de dois filósofos muito importantes, Kierkegaard e Sartre, que ajudarão a entender e se aprofundar melhor no conteúdo proposto. A partir disto será feita uma relação com uma personagem de um filme que será relacionado com a realidade, para evidenciar na prática como o existencialismo ocorre em nosso cotidiano.

Palavras-Chave: Existencialismo, Abordagem Gestáltica, Filme, Kierkegaard, Sartre.

1. Introdução

Segundo Perls (1965) a Gestalt – Terapia trabalha com a criação interna, conscientização, tempo presente igual e realidade igual. Em contraste com a psicologia profunda nós tentamos apreender o óbvio, a superfície, a situação em que nos encontramos.

O desenvolvimento da Gestalt – Terapia se dá no final dos anos 60 com Fritz Perls. Essa abordagem por muitas vezes já foi confundida com a Psicologia da Gestalt, o que são duas abordagens totalmente diferentes, sendo que Perls empresta algumas teorias para criar sua própria abordagem (GALLO, 2014).

Por toda essa trajetória da criação da Gestalt – Terapia, entende-se que ela é influenciada pelo Humanismo, Existencialismo e a Fenomenologia. Nosso ponto de partida é o Existencialismo, que teve dois pensadores muito marcantes para esse desenvolvimento, são eles: Kierkegaard e Sartre, que irá mostrar o início desse pensamento tão revolucionário e como este se tornou tão importante para nos compreendermos a ser mais “vivos”, nos valorizarmos pelo que somos e não pelo que fazemos. (PERLS, 1997).

2. O Existencialismo de Kierkegaard

Kierkegaard foi o primeiro a se referir ao existencialismo, defendendo o direito do indivíduo e assim ele introduziu o conceito de existência, antecipando o existencialismo contemporâneo da época (ZILLES, 1988).

Kierkegaard talvez seja o pensador de maior destaque da corrente existencialista, por ser o primeiro da referida corrente, como também pela própria perspicácia das análises que faz da situação em que exerceu sobre todos os filósofos existencialistas fenomenológicos contemporâneos (GILES, 1937, p. 5).

De fato, a esse filósofo foi de extrema importância para o existencialismo, pois viveu suas inquietações e angústias de sua época o que fez se dedicar a cada dia naquilo que acreditava, assim como o próprio nome diz, se prioriza a existência humana como principal fator a ser estudado.

O indivíduo é energia viva, ativa, autodeterminada, que surge a partir de situações concretas de opção, situações essas enraizadas nos momentos em que o homem focaliza todas as suas potencialidades numa opção que ressoará por toda sua vida (GILES, 1937, p. 37). Esse ser humano que tem consciência de suas atitudes, que ao ser lançado ao mundo, ele pode mudar quantas vezes quiser, só basta ter responsabilidade de seus atos. Cada um conhece a si mesmo, sabe de suas possibilidades e de suas necessidades, se autoconhecendo a partir de sua própria singularidade é possível que a pessoa possa buscar o sentido de sua vida. Kierkegaard reduz o possível ao aspecto ameaçador e negativo. Vê no possível aquilo que é impossível que se realize.

Kierkegaard dizia que “a subjetividade é a verdade, a subjetividade é a realidade”. Isto significa a necessidade de se tentar compreender o individuo a partir de sua singularidade, de seu manifestar – se subjetivo. Conhecer é, portanto, fazer um apelo à existência, a subjetividade (RIBEIRO, 1985 p. 32 – 33).

3. Existencialismo de Jean – Paul Sartre

Entre os filósofos existencialistas, destaca-se Sartre, em um estágio na Universidade da de Berlin, conheceu os trabalhos de Husserl e ficou muito impressionado. Decidido aplicar o método fenomenológico ao estudo da existência humana, mas sem afastar-se das ideias de Husserl, como fizera Heidegger (GALLO. 2014 p. 75).

Para Gallo (2014) Sartre afirma que somos seres dualistas, que o corpo é um ser-em-si, que se tem uma identidade; e um ser – para – si, ele existe apenas para si, mas que não tem identidade. E tudo isso causa uma angústia, pois ele quer ter identidade e ao mesmo tempo quer só quer existir para si. O mesmo afirma que primeiro somos lançados no mundo, para que depois passamos ser alguma coisa. Nascemos sem essência e sem identidade e as construímos enquanto existimos, ao longo de nossas vidas, é o mundo que nos define para podermos ser alguma coisa.

A condição humana é marcada por três realidades, muito próximas daquelas identificadas por Heidegger: o humano é um ser-no-mundo, um ser-com-os-outros; é um ser-para-a-morte (GALLO, 2014 p. 76).

A pessoa deve construir a sua própria identidade na vida, o que nos define, é por isso que Sartre nos diz que não somos apenas um ser, mas sim um vir-a-ser. O convívio com os outros nos faz receber uma identidade que não é a nossa, e que muitas vezes sem nos darmos conta, nos apropriamos dessa identidade que não nos define, portanto fere a nossa liberdade, nos fazendo sentir limitados, é por isso que Sartre chama isso de má – fé, pois a pessoa engana a si mesma acreditando em tal fato  (GALLO, 2014).

O ser humano está condenado a ser livre, querendo ou não ele sempre estará fazendo escolhas em sua vida, traduzindo em suas atitudes, devemos arcar com as consequências de nossos atos, mesmo assim, essa liberdade gera angústia no ser humano, a de ter que decidir, de ser responsável por ter que escolher e essa escolha sempre será afetado pelo outro. O ser humano sem duvida é um ser livre, dotado de escolhas e responsabilidades (GALLO, 2014).

4. Existencialismo na Gestalt – Terapia

Sendo a Gestalt – terapia um caminho e uma forma de se expressar diante da vida, estudar e confrontar a filosofia existencialista nos permite uma reflexão aprofundada de sua proposta de compreensão do mundo visto por nós do ponto de vista psicológico (RIBEIRO, 1985 p. 32).

O existencialismo, assim como na fenomenologia a Gestalt – terapia vê o homem como existencial tudo o que diz respeito à forma como o homem experimenta sua existência, a assume, a orienta, a dirige. A auto-compreensão para viver, para existir, sem se colocar questões de filosofia teórica, é existencial: é espontânea, vivida, não erudita (refletimos, mas só para agir); a singularidade de cada existência humana, a originalidade irredutível da experiência individual objetiva e subjetiva; a noção de responsabilidade de cada pessoa que participa ativamente da construção de seu projeto existencial e confere um sentido original ao que acontece e ao mundo que a rodeia, criando, inelutavelmente, a cada dia, sua relativa liberdade (GINGER, 1995 p. 36).

A visão existencialista vai além ao considerar a relação profunda existente entre ato humano e intenção, ou seja, todo ato psíquico é intenção e deve ser entendido, compreendido a partir de si próprio. O próprio agir se auto-informa imediatamente. A intencionalidade do ato é a figura – desejo, na qual estão presentes vontade e liberdade (RIBEIRO, 1985 p. 33).

Segundo Perls, 1977 (p.19), na perspectiva da Gestalt-Terapia, o homem sempre está em processo de desenvolvimento, sendo a noção de processo algo que está em permanente movimento, em constante mudança. Trabalha-se para promover o processo de crescimento e desenvolver o potencial humano, a tentativa é de ampliar este potencial, através do processo de integração. Assim, integrando as partes conhecidas e desconhecidas, partes que aceitamos e negamos em nós mesmos, vamos nos tornando aquilo que realmente somos, e, consequentemente, a vida flui de forma mais saudável. “Nós fazemos isso apoiando os interesses, desejos, e necessidades genuínas do indivíduo”.

Para RIBEIRO (1985 p. 42), A Gestalt – terapia se fundamenta numa visão especifica da existência, ela é e faz um apelo constante a liberdade humana, a individualidade, a responsabilidade pessoal e coerente. Ela vai além dos sentimentos de massa, dos valores introjetados e não assumidos. Como o existencialista, também o gestaltista é uma pessoa incomodada e que incomoda, porque ambos vivem e possuem mensagens diretas, desinteressadas, compromissadas.

A Gestalt – Terapia trabalha com algumas técnicas específicas entre elas: o eu e tu, se baseando no existencialismo dialógico, o contato com a pessoa, fazendo - a interagir na psicoterapia com o psicólogo, sendo congruentes e assim se autoconhecendo em cada sessão da psicoterapia (RIBEIRO, 1994).

5. Filme: As Horas – Um Olhar Existencialista

O filme retrata em épocas diferentes três personagens através de um livro, “Mrs. Dalloway”. É um filme no qual as pessoas se reconhecem pelo drama existencial de cada uma das personagens. Uma mulher que gostaria de ser uma personagem de um romance, uma que o escreve (a própria Virgínia Woolf), outra que o vive.

Virginia Woolf é a escritora do livro, que, afastada da vida agitada de Londres por seu marido e a conselho médico, percebe-se cada dia mais infeliz e amargurada. A mesma é retratada na altura em que escreve o livro em questão, no qual seus conflitos internos são repassados para a obra, inclusive o suicídio. As lutas e sofrimentos vivenciados por Virginia são universais. As horas, os momentos, as decisões tomadas. Cada uma das personagens luta para dar sentido às suas existências com o objetivo de ser feliz. Três mulheres presas no tempo e no espaço, nos seus próprios espaços, nas suas vidas. Ao ser levantado o tema da morte, das escolhas, da sexualidade, das decisões, as personagens descobrem que nem sempre a vida é aquela que se espera, nem sempre as horas são diferentes. As horas são as emoções limite que leva as pessoas a fazerem escolhas que modificam suas vidas para sempre.

É essa escolha que nos remete o Existencialismo; as pessoas, de certo modo, tem o costume de se colocarem na posição de vítima, culpando situações ou alguém por seus tormentos, tristezas, infelicidades e decepções, percebe-se este fato na personagem de Virgínia, ela culpa o mundo por sua infelicidade, seus fracassos e se esquecendo de que o que importa é o que ela faz com o que fazem com ela. E assim a única saída da personagem foi o suicídio, não conseguindo, assim, encontrar a sua essência, não conseguiu encontrar o sentido de sua vida afetando todos de seu convívio.

6. Conclusão

No decorrer do trabalho percebeu-se que o pensamento de Kierkegaard e Sartre são essenciais na Gestalt-Terapia, pelo fato de verem o homem como um ser de responsabilidade e liberdade. Investigou-se ainda a sua relação com um filme, na qual nos proporcionou entender como as pessoas não buscam o sentido de sua vida, vivendo assim amarguradas e tristes.

A relevância deste artigo foi de proporcionar uma melhor compreensão do existencialismo a partir de dois filósofos muito importantes, que até hoje esses filósofos nos remetem a compreender de forma mais reflexiva nossa existência, fazendo assim nos identificar com tudo o que foi dito no decorrer deste artigo.

Sobre o Autor:

Jéssica Emilly Rodrigues dos Santos - Graduanda em Psicologia pela Universidade da Amazônia.

Referências:

AS Horas. Direção: Stephen Daldry. Produção: Scott Rubin – Robert Fox.Intérpretes: Nicole Kidman; Julianne Moore; Meryl Streep e outros. Roteiro: David Hare. Estados Unidos: Miramax, 2002. 1 DVD (150 min.), son., color.

Atendimento Gestalt Gloria e Perls Legendado. 1969. (29 min.). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=DRcszf0n6ig.

GALLO, S. Filosofia: experiência do pensamento. São Paulo: Scipione, 2014.

GINGER, S. e GINGER, A. Gestalt – Terapia: uma terapia do contato. São Paulo: Summus, 1995.

PERLS, F. Gestalt – Terapia. São Paulo: Summus, 1997.

PERLS, F. Isto é Gestalt. São Paulo: Summus, 1977.

RIBEIRO, J.P. Gestalt – Terapia: refazendo um caminho. São Paulo: Summus, 1985.

RIBEIRO, J.P. Gestalt – Terapia: O processo grupal. São Paulo: Summus, 1994.

ZILLES, U. Gabriel Marcel e o Existencialismo. Porto Alegre: Acadêmica PUC, 1988.