RESUMO

Esse artigo procura transpor a fundamentação teórica da fenomenologia para o contexto do profundo encontro Eu-Tu, ou seja, do amor, embasado nos conceitos dos filósofos que servem como fundamentação teórica para a fenomenologia e também pelos psicólogos que tem essa abordagem como sua visão de homem, tentando, assim, buscar uma aproximação do conceito real do mesmo.

INTRODUÇÃO

A fenomenologia é uma postura ou atitude que reformula o entendimento a respeito das coisas mais básicas, tais como, compreensão do homem e do mundo, abrangendo a totalidade de ambos e da inter-relação entre eles. Entretanto, o entendimento fenomenológico do mundo mostra-se de maneira mais complexa, já que a visão vigente deste se restringe a uma única forma, o modo metafísico - fundamentado pela cientificidade do pensamento – o qual pressupõe uma verdade estável e absoluta.

Vê-se, porém, que essa cientificidade também atrapalha na conceituação do amor, visto que o mesmo é integrante da inter-relação homem-mundo e, por muitas vezes, considerado insignificante na formulação de estudos. A partir dessa constatação as referidas alunas se viram impulsionadas a buscar a inserção do amor e sua real significância no contexto fenomenológico, dentro das limitações possíveis.

1. O que é Fenomenologia?

A fenomenologia nasce a partir das análises de Brentano sobre a intencionalidade da consciência humana, tratando de descrever, compreender e interpretar os fenômenos que se apresentam à percepção. Para Brentano a consciência é intencional, isto é, ao invés de dirigir-se para si mesma, tende sempre para alguma coisa. Assim sendo, a consciência não é uma substância, mas uma atividade constituída por algo (percepção, imaginação, especulação, volição, paixão, etc.), com os quais visa algo.

A fenomenologia procura abordar o fenômeno, aquilo que se manifesta por si mesmo, de modo que não o parcializa ou o explica a partir de conceitos prévios, de crenças ou de afirmações sobre o mesmo, enfim, de um referencial teórico. Entretanto, ela tem intenção de abordá-lo diretamente, interrogando-o, tentando descrevê-lo e procurando captar sua essência.

Uma psicologia que adote a atitude fenomenológica para suas investigações, passará ter uma definição mais abrangente que deverá ser “o estudo das relações do homem com/ou no mundo.” Por esta razão, não se restringindo somente ao estudo de comportamentos observáveis e controláveis, poderá examinar as experiências vividas e as significações atribuídas pelo experenciador.

Para tudo isso, faz-se necessário um método próprio que focalize a experiência vivida e sua significação. Esse método, denominado método fenomenológico se define como uma “volta às coisas mesmas”, isto é, aos fenômenos, aquilo que aparece à consciência, que se dá como objeto intencional, não só o “agora”, mas a inter-relação de pessoa, objeto, experiência, passado, presente ou futuro.

A fim de que a investigação se ocupe apenas das operações realizadas pela consciência, é necessário que se faça uma redução fenomenológica ou Epoché – colocar “entre parênteses” a atitude natural, suspendendo todo e qualquer juízo sobre o mundo natural, ou seja, retirar o que se vê no outro que não é necessariamente do outro. Ressaltando que não se pode separar o sujeito que questiona e aquele que é questionado; sujeito e objeto constituem uma mesma relação dialética, sendo a mesma, um diálogo entre o Eu e o Tu.

O Eu-Tu é o instante no qual o indivíduo está mais próximo dos sentimentos do outro, fazendo deste o momento onde um Eu se mostra para seu Tu, só podendo ocorrer diante de uma atitude fenomenológica (Epoché ou redução fenomenológica), de autenticidade, isto é, ser o que realmente se é, deixando fluir as potencialidades do outro através de um processo onde esse Eu se coloca no lugar desse Tu, num contínuo devir. Diferentemente, o Eu-Isso é uma relação unidirecional onde não existe uma atitude dialética.

2. Amor

De acordo com a visão psicanalítica freudiana, o amor surge das pulsões sexuais, ou seja, é conseqüência do fato de uma pessoa ser responsável pela satisfação sexual do seu parceiro, uma transferência do amor edipiano, no qual a menina tem como primeiro objeto de amor o pai e o menino, a mãe.

Para Melanie Klein e demais discípulos de Freud, o amor faz parte da teoria das relações objetais, diferindo pela não utilização do Complexo de Édipo para explicar a transferência de afeição ao pai do sexo oposto, mas sempre pela mãe. Assim, o amor adulto baseia-se no amor materno com probabilidade antagônica de ser imitativo ou oposto.

Conforme Skinner e o behaviorismo, o amor é construído pelo reforçamento que nem sempre é contínuo, podendo elucidar-se de forma intermitente. Sendo a relação, um impulso primário, inato, associado com a necessidade biológica e diretamente envolvido com a sobrevivência do organismo.

3. A Teoria Fenomenológica aplicada ao Amor

Baseado nos conceitos acima citados, como se daria a aplicação da visão fenomenológica sobre o amor?

O amor é uma arte que necessita ser desenvolvida com acurácia, exigindo condições de conhecimento acerca do seu significado real, mesmo que esse conhecimento esteja camuflado pelos intempestivos arroubos da paixão.

A vivência do amor é constituída por uma inter-relação Eu-Tu, na qual se busca a autenticidade e a compreensão do ser amado. A partir de então, o encontro amoroso passa a ser mais que um mero acaso e, a fenomenologia, uma ferramenta esclarecedora do tão inquietante papel do amor na vida humana.

Segundo a visão fenomenológica, a intenção da consciência é primordial para a percepção dos fenômenos; há necessidade de se despir da ignorância que o primeiro julgamento provoca e tentar conhecer o que se passa dentro e fora do sujeito questionado. O encontro de amor pressupõe justamente essa lógica, à medida que o tu-amado recebe o apelo do eu-que-ama e se desvincula das atribuições atrativas do outro, torna-se um ser-junto em essência. Não se observa, pois, facticidade nessa relação, mas sim uma subjetividade advinda do apelo amoroso que torna a existência do ser amado mais profunda.

Todavia, a exposição dessa subjetividade pode causar desconforto ao indivíduo, já que se espera a comunicação do que é sentido por ele, e essa expressão é muitas vezes tida como “difícil”, talvez pelo uso inadequado de vocábulos que indicam apenas uma insípida sentimentalidade e deturpam o sentimento.

Ao se fazer um elo entre a fenomenologia e o amor é inevitável argumentar que a busca pela significação da essência da inter-relação eu-que-ama e tu-amado, encontra-se fundamentada pela liberdade e criatividade do indivíduo. O apelo amoroso ao ente amado não significa que o que ama queira obrigar, dominar ou possuir o outro. O amor deseja a liberdade desse tu-amado, levando-o a sua própria liberdade de escolha de caminhos, tornando-o, este outro, responsável por sua própria atitude.

O testemunho mais eloqüente da criatividade do sujeito, enquanto amante, é a consciência de não estar mais “sozinho”, porque além de ajudar na formação do outro, o amor cria um “nós”, um “juntos”, diferente do que se experimenta com qualquer “nós” vivido em todos os outros tipos de encontros e capacitando o eu-que-ama a superar o isolamento das demais pessoas, mantendo ao mesmo tempo a integridade individual.

“O amor é a resposta para uma questão inevitável – o problema da existência humana”. ³ __________________________ 3 Friedman e Schustack,2004

CONCLUSÕES FINAIS:

Não se pode falar da inter-relação homem-mundo na fenomenologia, sem se opor a exacerbação do individualismo, característica contrária manifestada através do amor. Assim, o amor seria uma relação de reciprocidade, liberdade e responsabilidade na apresentação total da pessoa diante da outra.

Assim sendo, o encontro Eu-Tu passa a ser uma experiência luminosa que é o amor, necessitando de reciprocidade, presença, imediatez e responsabilidade tentando fazer com que esse eu-que-ama apresente qualidades como autenticidade (deixando o tu-amado ser realmente o que é); percepção global do outro (numa tentativa de conhecimento íntimo) e a não-imposição (deixando o outro ser livre e responsável pelas suas escolhas e atitudes).

Sobre os Autores

¹ Este artigo foi realizado para a conclusão da disciplina Bases Humanísticas ministrada pelo professor e psicólogo Edson Taumaturgo

² Larissa Milhomem de Sousa, Rose Danielle de C. Batista - Alunas do IV período do curso de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí - UESPI, núcleo Faculdade de Ciências Médicas – FACIME.

³ Edson Rodrigues Taumaturgo - Professor-orientador formado em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará- UFC

Referências

FRANÇA, C. Psicologia Fenomenológica: uma das maneiras de se fazer. Campinas: Editora da Unicamp, 1989.

FRIEDMAN, Howard S. Teorias da personalidade: da teoria clássica à pesquisa moderna. 2ª edição. São Paulo: Editora Prentice Hall, 2004.

HOLANDA, Adriano Furtado. Diálogo e Psicoterapia. Editora Lemos

SANTOS, Antônio Ricardo. Metodologia científica: a construção do conhecimento. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.

SHULTZ & SHULTZ, Duane P., Sydney H. História da psicologia moderna. 16ª edição. São Paulo: Cultrix, 2002.

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